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Por que gostamos tanto de ver lésbicas no cinema?



por Larissa

Flores Raras, de Bruno Barreto, estreou nesta sexta-feira, 16, em 150 cinemas do Brasil. O filme, exibido anteriormente na abertura do festival de Gramado, ficou em 1º lugar de público no festival de cinema de São Francisco e em 2º lugar em Berlim. Não é à toa que a obra era ansiosamente aguardada pelas lésbicas do país.


Trata-se da história de amor, entre duas mulheres notáveis: Lota de Macedo Soares, a idealizadora e responsável pela construção do Aterro do Flamengo; e Elisabeth Bishop, renomada poetisa estadunidense, ganhadora, dentre outros, do Prêmio Pulitzer de 1956, com a obra Norte e Sul, escrita no período em que estava no Brasil.

Veja o trailer do filme: 


Antes da divulgação do trailer, havia receios a respeito da representação das personagens que iríamos encontrar. Não é raro, no cinema, que figuras célebres reconhecidamente homossexuais tenham essa parte de sua identidade disfarçada, ou apresentada apenas como um mero detalhe, como se viver a homossexualidade abertamente em uma cultura heteronormativa fosse algo banal na vida das pessoas. Os exemplos são muitos, não cabe aqui uma lista.

Em Flores raras, as cenas são claras. As duas se amam, se beijam, trocam carícias ternas e picantes. É mesmo possível reconhecer uma representação de afetividade convincente entre duas lésbicas. Glória Pires encena uma Lota decidida e autoritária, poço de segurança que se desfaz. Em uma certa crítica do filme, a atriz foi acusada, por essa atuação corajosa, de fazer uma caricatura forçada de masculinidade. Não há artificialidade nisso, não é uma caricatura. Nem todas as mulheres (ainda bem) seguem os padrões rígidos de feminilidade impostos pela cultura sexista heteronormativa. Isso não é caricatural, é a diversidade das formas de se ser pessoa humana.

Apesar de Bruno Barreto negar que o filme seja sobre homossexualidade, mas sim sobre perdas, o tema está lá com a própria vivência homossexual dessas mulheres históricas. É louvável que haja esse e outros temas. Já Glória Pires, em entrevista no festival de Gramado, comenta a importância da questão no filme em nosso momento político de avanços e reações apavoradas dos grupos conservadores em relação aos direitos homossexuais. Vale lembrar que o projeto do filme, iniciado há 17 anos com a compra dos direitos autorais do livro por Lucy Barreto, lidou com dificuldades em conseguir patrocínio pelo receio que muitas instituições têm de vincular suas marcas à homossexualidade.

E voltamos à pergunta título: Por que gostamos de ver lésbicas no cinema?
Gostamos de ver lésbicas no cinema, na televisão, nos livros porque gostamos de nos sentir representadas. Gostamos de reconhecer nossos conflitos, alegrias, anseios. As histórias contadas são formas de representação da realidade. Elas podem confirmar nossas crenças, reforçar ou questionar padrões, trazer reflexões sob outras perspectivas. O fato de só haver representações de amor heterossexuais acessíveis ao público em geral e principalmente aos adolescentes é uma violência através do silenciamento. 

Lembro que na minha adolescência não vi NADA que contemplasse outras formas de amor. As “lésbicas” que vi na televisão foram em produções pornográficas feitas para homens heterossexuais. Não é de se surpreender que esse tipo de material fosse mais acessível - depois da meia-noite na TV a cabo - que uma representação de afetividade autêntica entre duas mulheres. Ou seja, tudo bem que existissem lésbicas, mas para satisfação de desejos masculinos. Mas enfim, isso era final da década de 90. As coisas vão mudando, ainda que gays e lésbicas apareçam apenas de vez em quando, ainda como algo excepcional no grande circuito das narrativas cinematográficas ou literárias. Essa excepcionalidade não garante a quebra dos padrões, mas essa ínfima existência é um respiro em meio ao mar de produções que confirmam estereótipos heterossexuais de como ser mulher e de como ser homem.  O sucesso de Flores raras é sinal de novos tempos.

Veja:

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Guest Post: Sobre o Estatuto do Nascituro


A Maria C., querida leitora e colaboradora aqui do blog, enviou este Guest Post, que não poderia chegar em tempo mais propício, já que ontem, 5 de junho de 2013, o Estatura do Nascituro foi aprovado pela Comissão de Finanças. Maria é advogada e nos traz uma visão técnica sobre o assunto. Leitura fundamental.

Eu realmente amo crianças, e é recíproco: levo muito jeito com elas. Não tenho filhos, nunca estive grávida, mas desejo jamais passar pela experiência de um aborto. Contudo, creio que minhas crenças e opiniões pessoais são irrelevantes para retirar esta opção de toda e qualquer mulher deste país que decida fazê-lo. A pretensão de submetê-la à criminalidade e à clandestinidade é a suprema demonstração de arrogância, de desprezo pelx outrx, sua vida e suas dores, a repugnância total do complexo humano, do humano material – em contraposição ao formal.

Porque a maioria da população deste país, inclusive muitos dos que lerão este post, tacharão de criminosas as mulheres que por razões tão suas realizam um aborto? Podemos nós apontar nossos dedos e dizer que sim, que o que elas tinham em SEU corpo era mesmo um bebê quando a ciência (a autoridade competente, o CFM) diz que se trata de um feto ainda sem capacidade de sentidos até determinado período? As bruxas estão novamente nas fogueiras.


O Estatuto do Nascituro pretende legitimar a mais violenta caça às bruxas, alterar Códigos com sangue de vítimas (femininas, apenas), a pretexto da defesa do direito à vida em potencial – o nascituro, o feto mesmo, que é diferente de uma criança. Não me batam, isso é dito em julgamentos – feto e nascituro ainda não é criança. 

Sua redação primorosa (!) alterará sensivelmente o regramento do nascituro. Atualmente o ser humano adquire personalidade jurídica, que é a capacidade de ser sujeito de direitos e deveres no nascimento com vida.

Contudo, o nascituro tem a salvo diversos direitos, pontuados nos locais adequados no próprio Código Civil (art. 2º) e em leis específicas. Cito a título de exemplo os clássicos alimentos gravídicos, medidas cautelares em expectativa de direitos sucessórios, etc.

Segundo o Projeto de Lei 478/97, art. 3º, o nascituro terá uma penca de expectativas de direitos, em que se prevê especificamente expectativa de todos os direitos à personalidade (?!) e diversos subjetivos (?!) fundamentais e correspondentes deveres dos genitores, sociedade e Estado. Se há expectativa é porque o direito não se incorporou ao patrimônio jurídico, sequer é futuro, é eventual e incerto.

Agora a pior parte, a relação destas impropriedades técnicas com a barbárie a se instaurar: a “coisificação” das mulheres, transformando-as em objeto que serve apenas a um meio, a utilidade de portar o nascituro, e não um ser completo, com um fim em si mesmo.

O art. 13 do Estatuto prevê que o nascituro concebido em ato de violência sexual não sofrerá qualquer restrição a direitos, inclusive à vida. Observa-se que na seção “Dos crimes” não está mais reproduzida a norma do Código Penal (art. 128) que previa a exceção (não-crime ao aborto) em caso de estupro, à gestante ou ao médico que praticou o aborto.

Não se anula apenas a liberdade sexual da mulher – uma garantia fundamental – pois legalmente o Código Penal em 1940 estava se lixando para isso. Extirpa-se sua dignidade enquanto pessoa humana.

O Código Penal visava resguardar a saúde mental, psíquica e até física da mulher vítima de estupro resultante em gravidez, e ainda seu direito “à honra” [de não carregar e criar o fruto de uma concepção criminosa]; o que modernamente é a concretização do direito fundamental objetivo à saúde, à privacidade, à liberdade (ou seja, as normas), decorrentes de sua condição de pessoa humana digna.

Portanto, a opção de aborto em caso de estupro tem raiz na dignidade humana feminina, traduzido no reconhecimento de não ser subjugada a tal ponto de gerar e criar o fruto de uma violência. Ao retirar-se tal possibilidade, retira-se a dignidade da vítima, sem opção. Sua dignidade é trocada por um suposto auxílio financeiro. Ocorre que este não é um crime patrimonial, mas contra o corpo feminino, contra a liberdade sexual (olha ela aí) e contra a dignidade feminina: as coisas não se resolvem com um salário mínimo.

Todos estes direitos fundamentais femininos, se esvaem ante uma única expectativa de direito (que pode ou não acontecer), a expectativa de direito à vida do nascituro concebido no ato criminoso.

Ocorre que o direito à vida não é absoluto, nenhum direito fundamental é. Devem ser ponderados em seus limites e sopesados. E é evidente que há uma desproporção: a retirada de tantos direitos fundamentais já consagrados, já incorporados por mais de seis décadas à dignidade humana feminina [à saúde física, mental e psíquica feminina, à liberdade sexual e reprodutiva] em detrimento de uma perspectiva do direito à vida em expectativa, concebido de ato criminoso – não exercido em liberdade sexual, reprodutiva, digna, etc., é negar a condição de ser humano digno à mulher; é relegá-la a uma espécie política inferior na ordem dos cidadãos. Retomando-se, ela se torna um meio, e não um fim em si mesma.

Alguém está sentindo uma desproporção na proteção entre um e outro? Grita a total ausência de proteção dos direitos fundamentais da mulher, que já falei. Acontece que não bastasse o fato de que não há direito absoluto (nem a vida), existe uma coisa chamada proibição de proteção deficiente; quer dizer que existe uma certa flexibilidade na proteção de direitos fundamentais, dependendo do momento histórico a lei pode prever um limite maior ou menor porque outro precisa elastecer seu limite, mas extingui-lo totalmente da forma como o Estatuto, jamais!

Não fosse isso, há uma antinomia jurídica. O Estatuto cria o bolsa-estupro, trata o estuprador como “genitor”, a mesma denominação atribuída à mãe. O que isso quer dizer? O estupro é um crime mais leve e menos aterrorizante apenas porque pode resultar num embrião? Os fatos que descrevem os crimes devem ser claros, objetivos, direitos quanto às situações que os configuram. Não pode existir uma lei posterior que coloque em dúvida o “quão criminoso configura um fato que define um crime”. 

Da redação do PL, o estuprador se transmuda em genitor, será o provedor da criança e seu orgulhoso pai. Do campo do Direito Penal passa-se diretamente ao Direito de Família, e sem nenhum pudor – e com todo Poder – condena-se a vítima à eterna ligação ao estuprador, numa relação legalmente familiar. Filme de terror.

Há ainda uma incrível inovação, o art. 23 do Estatuto, que prevê o aborto culposo (involuntário). Parem as máquinas. Isso é muito sério. Negligência, imprudência e imperícia, são as situações em que um crime é culposo. Não sou penalista (mesmo), mas é quando você não quis fazer, mas fez assim, sabendo, sem querer. Significa que se você estava grávida e não sabia, e fez algo que por negligência causou o aborto, pode ter uma ficha criminal. Ou se você queria muito ter um filho, engravidou, mas foi descuidada um dia, pode responder por aborto. Ótimo, né?


Outra muito boa do Estatuto, com base neste mesmo art. 23 é que, se você estiver grávida, e concomitantemente com alguma doença, e deliberadamente fizer algum tratamento para se salvar, mas que puder trazer riscos para a saúde do feto, responderá uma ação penal certamente! Coisa de cidadãos livres e dignos, com direito à saúde! Acho mais fácil prepararem câmaras de gás, porque haja lenha pra tanta mulher.

O que me choca é o impacto desproporcional deste 'Projétil' de Lei, tão escancarado! Alguém visualizou um grupo, ou segmento de pessoas que serão desigualmente atingidas, ainda que “não intencionalmente” de outras? Vou ajudar: há possibilidade de algum homem ser criminalizado pela lei? Apenas as mulheres são atingidas, em qualquer e toda situação, sem exceção. Todas as mulheres em idade fértil são criminosas em potencial. Sintam o perigo. Até você, virgem, não saia de casa... ou saia? Não sei, ninguém sabe onde pode morar um agressor, e tristemente falo sério!

O Estatuto não foi deliberado na data prevista (em 08/05/13) pela Comissão de Finanças e Tributação em razão do encerramento dos trabalhos (questão de ordem), segundo o site da Câmara. Significa que será reinserido em pauta (não consta no site), sua tramitação é Ordinária, portanto há Projetos de Tramitação Especial e Urgente nesta Legislatura, que lhe precederão. Na última Legislatura a CFT entendeu que se faz necessária readequação orçamentária para aprovação. Se houver readequação e aprovado pela CFT segue para CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), a Comissão que analisa a constitucionalidade do Estatuto. Se esta Comissão entender pela constitucionalidade do Estatuto temo por nossas vidas, honestamente.



Referências:
BRASIL, STF. ADPF n. 54. Pleno. Rel. Min. Marco Aurélio. Pleno. J. em 12.04.2012.
DIMOULIS, Dimitri. MARTINS, Leonardo. Teoria geral dos direitos fundamentais. 3ª Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011.
SARMENTO, Daniel. Livres e iguais. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006.
SARLET, Ingo Wolfgang. Et. al. Curso de Direito Constitucional. 2ª Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013.
SARLET, Ingo Wolfang. Constituição e proporcionalidade: o direito penal e os direitos fundamentais entre a proibição de excesso e de insuficiência. Revista da Ajuris. Ano XXXII, n. 98. Jun/2005.

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Guest Post: A Outra

Enviado por Maria C.




Imagine a seguinte situação hipotética:

“Um senhor abastado, lá com seus 60 anos de idade, possui uma linda família. Uma esposa devotada, com quem vive há cerca de 40 anos. Três filhos, todos adultos e devidamente casados. Sua prole lhe proporcionou carinhosos netos de variadas idades.

Em sua cidade, o senhor é muito respeitado. Além de proprietário de vários negócios, é influente na política local. Como era de se esperar, o senhor e sua família são muito conhecidos.

Contudo, há mais um aspecto de conhecimento público local acerca do senhor: sua amante. Mesmo casado, o senhor sempre foi um namorador. Conheceu sua amante quando ela ainda tinha 17 anos, e então iniciaram um relacionamento, que se arrasta por quase 20 anos.

Nesse meio tempo, a amante tornou-se uma espécie de co-esposa do senhor. Toda sua família conhece o caso, sabem de sua amante, onde ela trabalha – em um dos negócios do senhor – diga-se, não lhe gostam, mas a toleram, por amor ao senhor.

A esposa e o senhor convivem apenas nos finais de semana – por conta do trabalho é o que se diz. A amante, por sua vez, é a esposa durante a semana, vive com o senhor durante este período, pernoita em sua casa, fazem refeições juntos, vão ao supermercado, cuidam dos cachorros, estas coisas de casal; e cede passagem para a esposa nos finais de semana, feriados e festas de família, num acordo não dito.

O senhor realiza viagens, jantares e comparece a eventos, ora com uma, ora com outra. As apresenta a todos pelo nome. Ambas o apresentam aos outros como seu marido. Fim da história.”

A coincidência com a realidade é bem provável, convenhamos. Não vou acusar os homens da unilateralidade da vida dupla, mas na busca de um exemplo corriqueiro, a situação é mais comum. Além disso, não vim aqui falar de sonhos, literatura, nem de amor, mas de realidade.

Há um assunto que toca aos direitos de uma legião de pessoas marginalizadas socialmente, mas em especial as mulheres, os quais precisam ser discutidos. Falamos destes espectros, que por vezes se tornam vultos aos nossos pés, sempre escuros. Sim, são elas, as amantes, também conhecidas como concubinas, destruidoras de lares ou mais carinhosamente como putas e oportunistas.

Há poucos anos os Tribunais locais vêm entendendo que as concubinas, em situações parecidas como as descritas na historinha têm direito à partilha de bens. Isto desde que comprovem que contribuíram para a formação do patrimônio destes bens. É uma situação muito complexa, que exige longa prova e, especialmente exige que a relação tenha sido duradoura, de companheirismo – como se casados fossem, como se formassem uma unidade familiar – e que a amante, assim como a esposa, tenha contribuído para a formação do patrimônio.[1]

Há muita hipocrisia nestes entendimentos, ainda. Muitos direitos são extirpados tendo em vista a manutenção da família patriarcal, da família legítima, da família que não pode ser vulnerada por relações paralelas, como se a concubina fosse uma terrorista que atentou sozinha contra esta família, sem a presença deliberada de alguém – o cônjuge – cuja participação é imprescindível.

Todo o mimimi tem se instaurado por que o Superior Tribunal de Justiça negou seguimento a um Recurso Especial interposto de uma decisão do Tribunal Regional da 4ª Região. Esta decisão, pela primeira vez, entendeu que houve concomitância de uniões estáveis, entre um homem e duas mulheres, e que em razão destas duas uniões estáveis – cada uma em sua casa, numa situação parecida com a descrita acima, com o dado de que se trata de união estável e não casamento – a pensão por morte devida à companheira devida ser repartida entre as duas mulheres, beneficiando ambos os núcleos familiares.

Não se pode esquecer de que não estou a tratar de relações eventuais, de casos fortuitos, de escapadas. Estas situações não são tuteladas juridicamente, nem serão, porque não geram efeitos jurídicos fora da órbita do relacionamento entre os cônjuges (o divórcio).

Está em discussão situações em que pessoas devotam grande parte de suas vidas a outra e, em especial, com o consentimento de muitos. Aí sim, efeitos são gerados e materializados no tempo, indiscutivelmente. E se qualquer destas pessoas vêm às portas do Judiciário, o que fazer, virar as costas, simplesmente? Parece injusto.

Não sejamos hipócritas. Ninguém quer instituir a bigamia, e juridicamente, a monogamia é princípio informativo da união entre as pessoas.

Por outro lado, também não vivemos na década de 1950, onde não havia divórcio. Atualmente, uma pessoa pode se casar e se divorciar no dia seguinte, inclusive o divórcio pode ser feito em cartório extrajudicial, moleza né?

Por este motivo, não se tolera mais tamanha hipocrisia. A reação dos Tribunais é um sinal disto. É o que é, o que todo mundo vê, viu, sabe. Fi-lo porque qui-lo.

Portanto, repito, não sejamos hipócritas. Apenas porque eu não quero uma fulana no meu relacionamento, vamos ignorar a existência desta situação eternamente e virar as costas para seus efeitos, já materializados no tempo? Não, minha gente. Ação e reação.

Persistir na culpabilização e na negação dos fatos não protege a família, conforme o discurso basilar da negação dos direitos destas pessoas. Que homem esconde a existência de uma mulher com quem vive cotidianamente e divide sua vida, de sua esposa oficial ou seus filhos por décadas? Nem o Batman. Como negar os efeitos desta relação paralela neste primeiro núcleo familiar? E neste segundo?

Nada mais justo do que buscar uma adequada tutela de direitos. Não podemos nos esquecer de que se alguém agiu contra seu relacionamento ou sua família foi primordialmente o cônjuge.

Há necessidade, portanto, de distribuição da responsabilidade dos efeitos deste ato, postumamente a seu término, pois a responsabilização exclusiva do elemento externo – a concubina – é irreal e hipócrita.

É preciso questionar, que sanções sofre este cônjuge, patrimonialmente – e é este o ambiente que interessa, pois estamos na esfera cível – embora tenha vivido 20, 30 ou 40 anos com esta pessoa, como se casado fosse, concomitante e paralelamente? Nenhuma. Temos então um padrão que premia o cônjuge que agiu ilicitamente, o coloca acima da lei sob o pretexto de proteger a família, e desta forma reforça a distinção de gênero nestas situações: tolera-se a infidelidade masculina, já que é praticamente inexistente tais questionamentos quanto ao gênero feminino nos Tribunais; de modo que a figura feminina persiste como a grande culpada de todos os males, uma vez que suporta sozinha os ônus do que foi vivido a dois. O problema é que o paradigma não protege a família, mas apenas um único personagem: o patrimônio do cônjuge, de modo hipócrita e cruel.

Problemas não são solucionados amplamente, e abrimos brechas para tratar pessoas que vivem em situações similares de formas distintas, o que é odioso.

É esta a realidade que pode vir a mudar, sim, a da concubina, da amante, que viveu durante décadas com um homem casado, como sua verdadeira companheira, com a conivência e o conhecimento de todos, muitas vezes com a geração de filhos, e que por fim, teve rejeitados todos direitos. Portanto o alvoroço. A perspectiva é boa, porque apenas virá a reconhecer direitos a quem os viveu. Só, nem mais nem menos.


[1] Conforme se verifica da decisão do TJRS, um Tribunal de vanguarda, e ainda assim cauteloso na questão: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE UNIÃO ESTÁVEL CUMULADA COM PARTILHA DE BENS. PRELIMINAR DE CERCEAMENTO DE DEFESA AFASTADA. UNIÃO ESTÁVEL PARALELA AO CASAMENTO. SENTENÇA MANTIDA. PRECEDENTES DO STJ. [...] 2. MÉRITO. Houve relacionamento duplo pelo varão, que, enquanto entretinha a união com a autora, preservava íntegro, no plano jurídico e fático, seu matrimônio. Tratou-se, pois, de uma relação adulterina típica, que se amolda ao conceito de concubinato (art. 1.727 do CCB), e não de união estável. Nosso ordenamento jurídico, no âmbito do direito de família, é calcado no princípio da monogamia. Tanto é assim que, um segundo casamento, contraído por quem já seja casado será inquestionavelmente nulo e, se não são admitidos como válidos dois casamentos simultâneos, não parece coerente admitir-se como apto a constituir uma entidade familiar produtora de todos os efeitos jurídicos uma união de fato (união estável) simultânea ao casamento – sob pena de se atribuir mais direitos a essa união de fato do que ao próprio casamento, pois um segundo casamento não produziria efeitos, enquanto aquela relação fática, sim.  Ademais, há regra proibitiva expressa em nosso ordenamento jurídico, qual seja o § 1º do art. 1.723 do CCB, ao dispor que “a união estável não se constituirá se ocorrerem os impedimentos do art. 1.521”, somente excepcionando essa circunstância diante da comprovada separação de fato do casal matrimonial, o que não se verifica no caso em exame. Admitir-se como união estável uma relação adulterina significa afronta direta à norma, cuja não aplicação somente se justificaria sob o argumento de sua inconstitucionalidade. E, se esgrimida tal tese, indispensável seria suscitar incidente de inconstitucionalidade, perante o Órgão Especial deste Tribunal, diante da cláusula constitucional da reserva de plenário.  Jurisprudência consolidada no STJ e no STF.  (TJRS. 8ª Câmara Cível. Apelação cível n. 70052292943. Relator. Desembargador. Alzir Felippe Schmitz. Julgado em 07.02.2013.

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Guest Post: “Cá com meus botões, continuo a pensar que homossexualismo não existe”

por Thais Torres


Para o bem e para o mal, Caio Fernando Abreu está na moda. Há várias páginas no Facebook com frases que supostamente seriam do autor, bem como teses acadêmicas sobre sua obra, além de alguns filmes e peças de teatro baseados em seus textos. Trata-se de um autor emblemático para a Literatura brasileira contemporânea e não deixa de ser interessante essa atenção especial que vem sendo dada a ele. No entanto, com o modismo vem a incompreensão. Acho que poucos autores são tão mal interpretados quanto Caio Fernando Abreu. Os motivos são vários, mas um me incomoda em particular: saber que, para grande parte das pessoas que leem sua obra – e as que afirmam ler, sem ter efetivamente lido – o gaúcho é uma espécie de mártir daquilo que, para muitos, é conhecido como “Literatura gay”.

Aparentemente, o tema sobre o qual escrevo não é tão pertinente neste blog. Mas, não tenho dúvida que as autoras e os leitores são contra a ideia de “Literatura feminina” ou “Literatura para mulheres”. Como assim? Que espécie de gueto é esse? Quais são os estereótipos que essas denominações mobilizam? Vale lembrar outro modismo do momento: por que as mulheres que querem ler livros eróticos não se interessariam pelo maravilhoso A história de O ou mesmo pela polêmica obra de Hilda Hilst e prefeririam o sofrível Cinquenta tons de cinza? Basta ler as primeiras obras para entender o perigo do poder subversivo do erotismo. Aí fica fácil entender o que se cala com essa febre do momento.

Mas voltemos à “Literatura gay”. Sem dúvida alguma, lutar pelos direitos dos gays é uma questão de extrema importância no país que não deve se orgulhar de ser o campeão mundial de assassinatos homofóbicos, concentrando 44% do total de execuções de todo mundo. A importância desta luta é indiscutível. A grande questão é se reduzir a obra de um dos mais importantes autores da literatura contemporânea a um rótulo pré-determinado ajuda nesta luta. Não há dúvidas que a verdadeira literatura pode ser lida e escrita por qualquer um, de qualquer idade, orientação sexual, gênero ou time de futebol preferido. Acho que esse é o caso do Caio F. Sua obra transcende muito as amarras pretensamente libertadoras que são colocadas quando alguém determina que determinado livro é feito para gays ou por um gay. Basta ler com atenção Morangos mofados e (o meu preferido) Os dragões não conhecem o paraíso para concordar comigo.


O curioso é que o próprio autor rechaçava a possibilidade de ser uma espécie de defensor dos gays. Em carta ao escritor João Silvério Trevisan, escrita em 18 de outubro de 1983, Caio F. avalia “Pela noite”, conto de sua autoria que frequentemente é lido como um exemplar desta “literatura gay”:

É talvez um pouco impiedoso demais com o gueto gay, não sei se “impiedoso demais”, não sei se o gueto merece compreensão. Eu detesto.

Mais adiante ele comenta que foi convidado a participar de um evento intitulado “Os homoeróticos: os gays e as lésbicas na sociedade brasileira”. Conta ao amigo que não vai comparecer naquilo que chama de “coisa” e complementa: “Cá com meus botões, continuo a pensar que homossexualismo não existe”. Em diversos momentos, Caio Fernando Abreu defende essa ideia. Para ele, o conceito de homossexualismo não apenas estigmatiza determinados sujeitos, como também oculta a noção de uma sexualidade universal, que particularmente lhe interessava:

O homossexualismo está sendo mais aceito, ou mais entendido, mas só de certa forma. Porque continua sendo um estigma, uma mancha. Antes a pessoa ser homossexual era lama. Aí a coisa passou a ser discutida, relatórios daqui e dali e de repente parece que virou moda. Mas profundamente a questão não foi resolvida. Nunca me liguei a movimentos de liberação gay porque acho que não existe homossexualismo, existe sexualismo. As pessoas são sexuadas ou assexuadas. Tem gente que é assexuada e não gosta de trepar. Mas se você é sexuado, trepa com homem, trepa com mulher, transa com pessoas, mas quando põe o rótulo homossexual ou bissexual, você reforça preconceitos. [meu grifo]

Uma última citação: em “Terça-feira gorda”, o autor descreve com uma beleza ímpar o desejo homoerótico: “Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também”. E aqui eu, que por acaso sou heterossexual, reforço minha admiração por um grande escritor, que por acaso era homossexual. Não poderia ser simples assim?


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Thais Torres é graduada em Letras pela Unicamp e mestre em literatura brasileira pela USP. Atualmente, é professora de redação e doutoranda na USP. Apesar de ter ouvido de um professor de uma universidade federal que ela “não conseguiria entender Caio Fernando Abreu porque era mulher”, insiste em estudar o erotismo nos contos do autor. É apaixonada pelos amigos, pela arte, pelo talento das pessoas e por discussões divertidas e inteligentes. E por uma cerveja, para dar liga nisso tudo.

Envie você também o seu Guest Post para subvertemos@gmail.com.


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Guest Post: Gloria Anzaldúa e o feminismo atravessado por classe e etnia


Um prazer enorme ter aqui o primeiro Guest Post do blog, com uma participação mais que especial: Thaís Bueno, especialista e tradutora desta fascinante pensadora que é Gloria Anzaldúa.

“Quando ouvi pela primeira vez duas mulheres, uma porto-riquenha e outra cubana, dizendo “nosotras”, fiquei chocada. As chicanas usam “nosotros” para se referir tanto a homens quanto a mulheres. O plural masculino roubou nosso ser feminino. A linguagem é um discurso masculino.”[1]

Pensar o feminismo, não como um bloco único e homogêneo, mas como uma prática subversiva de desconstrução de diversos sistemas de opressão (entre eles os relacionados a classe social e etnia), que têm sido construídos política e ideologicamente há séculos - essa é a principal ideia que me vem à cabeça quando penso em Gloria Anzaldúa e quando me questiono sobre o que aprendi com minha pesquisa sobre essa autora.

Quando se trata da fronteira entre México e Estados Unidos, as imagens mais recorrentes geralmente incluem grupos mexicanos, cucarachaswetbacks, desesperados, arriscando-se de forma irracional para conseguirem viver de forma ilegal na “terra das oportunidades”: a América (aliás, esse é um termo que me incomoda, afinal, não somos todos americanos?).

A fronteira política: à esquerda, San Diego (EUA);
à direita, Tijuana (México)
O que pouco se sabe, mesmo nos EUA, é que boa parte da população latina do país é constituída por cidadãos norte-americanos, cujos antepassados moram ali há mais de um século (o Tratado de Guadalupe-Hidalgo anexou aos EUA todo o norte do México e transformou milhares de mexicanos em cidadãos norte-americanos do dia para a noite). Com isso, cresceu, nessa região próxima à fronteira, uma cultura riquíssima e fascinante, híbrida e mestiça – uma cultura chicana. As chicanas, portanto, são cidadãs estadunidenses que carregam o estigma de serem multiculturais, porque têm ascendência latino-americana, porque falam duas ou mais línguas, porque seus corpos têm traços indígenas, porque são social e politicamente exploradas. São habitantes de um não-lugar: a fronteira.

“The US-Mexican border es una herida abierta where the Third World grates against the first and bleeds.”[2]

Lendo o texto de Anzaldúa, percebemos que o feminismo, ou a prática feminista, não vem sozinhos, como um pacote fechado que se “compra”, apesar do que muitas pessoas pensam. Hoje, padrões estereotipados do que seja o feminismo (e de como seria uma feminista) reproduzem, com a 'ajuda' da mídia, a ideia de que, para ser feminista, você precisa necessariamente rasgar sutiãs e declarar ódio aos homens. Minha sugestão: leia Borderlands/La Frontera – The New Mestiza (disponível na íntegra para download aqui).

Ao ler Borderlands..., você percebe, logo pelo título, qual era a proposta de Anzaldúa: mostrar, de forma escancarada, que toda divisa, toda fronteira, todo limite, todo corte é também uma abertura, uma fenda para novos espaços, novas discussões e articulações. Assim, a barra entre “Borderlands” e “La Frontera” que lemos no título do livro não é uma marca de divisão e isolamento, que produz dicotomia e oposição, mas um movimento sinuoso de articulação e problematização, que produz um discurso híbrido, ou alien, como ela própria escreveu.

“...não é suficiente se posicionar na margem oposta do rio, gritando questionamentos, desafiando convenções patriarcais, brancas. Um ponto de vista contrário nos prende em um duelo entre opressor e oprimido; fechados/as em um combate mortal, como polícia e bandido, ambos são reduzidos a um denominador comum de violência.

[O contraposicionamento] não é um meio de vida. A uma determinada altura, no nosso caminho rumo a uma nova consciência, teremos que deixar a margem oposta, com o corte entre os dois combatentes mortais cicatrizado de alguma forma, a fim de que estejamos nas duas margens ao mesmo tempo e, ao mesmo tempo, enxergar tudo com olhos de serpente e de águia.”

E é exatamente essa a proposta que você encontrará em todo o livro, marcada na própria materialidade do texto: em Borderlands..., para apresentar seu feminismo chicano e propor a figura na new mestiza, Anzaldúa recorre a diversos gêneros textuais (testemunho, narrativas populares, ditos, texto histórico, diário, poesia) e idiomas (inglês, espanhol e nahuatl – língua indígena falada no império asteca, na era pré-colombiana). Tudo costurado em um constante movimento de code-switching (alternância de idiomas em uma mesma frase – o que nunca foi novidade para qualquer falante que viva em região de fronteira).

“El anglo com cara de inocente nos arrancó la lengua. Línguas selvagens não podem ser domadas. Elas apenas podem ser arrancadas.”

A chicana que Anzaldúa nos mostra é, portanto, uma mulher que sofre por ser a minoria em diversos sistemas de opressão. Se o homem chicano sofre em termos de etnia e classe, a mulher encontra-se em uma situação ainda pior: ela é minoria em termos de etnia, classe, gênero e, em muitos casos sexualidade. E é nessa intersecção de discursos minoritários que Anzaldúa, ela própria chicana, mulher e lésbica, faz sua crítica não só à cultura branca anglo-saxã, imperialista e exploradora, mas à cultura mexicana de seus descendentes, conservadora, patriarcal e religiosa.

Só em Ciudad Juarez (México), 1.100 mulheres já foram
dadas como desaparecidas desde 1993
“Como mestiza, eu não tenho país, minha terra natal me despejou; no entanto, todos os países são meus porque eu sou a irmã ou a amante em potencial de todas as mulheres. (Como uma lésbica não tenho raça, meu próprio povo me rejeita; mas sou de todas as raças porque a queer em mim existe em todas as raças.) Sou sem cultura porque, como uma feminista, desafio as crenças culturais/religiosas coletivas de origem masculina dos indo-hispânicos e anglos; entretanto, tenho cultura porque estou participando da criação de uma outra cultura, uma nova história para explicar o mundo e a nossa participação nele, um novo sistema de valores com imagens e símbolos que nos conectam um/a ao/à outro/a e ao planeta. Soy un amasamiento, sou um ato de juntar e unir que não apenas produz uma criatura tanto da luz como da escuridão, mas também uma criatura que questiona as definições de luz e de escuro e dá-lhes novos significados.” 

A fronteira se estende de uma costa a outra no continente americano, chegando até o mar:
"The sea cannot be fenced / El mar does not stop at borders", escreveu Anzaldúa

Resumindo, o belo trabalho de Anzaldúa é justamente desconstruir dualidades como homem x mulher e machismo x feminismo, mostrando que qualquer desses pares são compostos de identidades complexas, mestiças, heterogêneas. A velha e tradicional receita de identidade (uma nacionalidade + uma religião + um gênero + uma cultura) já não é mais um modelo, e suas fendas e falhas ficam evidentes no processo interminável de constituição das identidades da mulher chicana. A consciência declaradamente subalterna e nomádica dessa new mestiza permite que ela seja, ao mesmo tempo, uma e várias (tanto em termos de gênero quanto de sexualidade) e que ela vá além das dualidades tradicionais para subverter patriarcalismo, exploração sexual, linguística, religiosa, política e econômica. E, nesses interstícios de todas essas categorias de identidade, ela encontra seu espaço, seu tempo e sua casa. Habitando a ferida aberta na fronteira, ela abre espaços para novas possibilidades e transpõe os limites de tudo o que, na história tradicional escrita pelos homens, se acredita ser uno, completo e natural.


This is her home
                                                                      this thin edge of
                                                                             barbwire.[3]


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[1] Todos os trechos em itálico foram retirados de ANZALDÚA, GLORIA. Borderlands/La Frontera – The New Mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.

[2] “A fronteira entre os Estados Unidos e o México é uma ferida aberta, na qual o terceiro mundo entra em atrito com o primeiro e sangra.”

[3] “Esta é a casa dela / esta sutil borda / de arame farpado.”

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Thaís Bueno é graduada em Letras e mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, cursa o doutorado, também em Linguística Aplicada, pesquisando as relações entre tradução e a obra da feminista chicana Gloria Anzaldúa e traduzindo o livro mais conhecido da autora: Borderlands/La Frontera - The New Mestiza. Mãe, feminista e latino-americana apaixonada. Trabalha como tradutora, revisora e escrevinhadora na Escrevedoria

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Guest Post: Sobre a beleza


por Júlia Neves

Toni Morrison
Publicado em 1970, O Olho Mais Azul (The Bluest Eye, em inglês) foi o primeiro romance da escritora norte-americana Toni Morrison, que foi condecorada com o Prêmio Nobel de Literatura em 1993 pelo seu conjunto de obras. O livro é uma obra-prima por sua linguagem vívida e fragmentada que reflete arduamente a questão de beleza racial. Neste romance, Morrison entrelaça as relações de gênero, raça e classe social, discutindo, principalmente, como os olhares de uma sociedade têm o poder de transformar um sujeito em mero abjeto, excluído e rejeitado pelo âmbito social. 

Esta é a história de Pecola Breedlove, uma menina cuja infância é marcada por pobreza, rejeição, violência e abandono e que acredita que, se tivesse os olhos azuis, sua vida seria digna de aceitação, respeito e carinho. É o padrão de beleza do branco, louro e dos olhos azuis que determina a ideia de que ser negro é ser feio; e ser feio é estabelecer dentro de si mesmo o ódio por não poder atender ao padrão e, portanto, acreditar que este é o motivo para a exclusão: Pecola passava “longas horas olhando para o espelho, tentando descobrir o segredo da feiúra, a feiúra que fizera dela ignorada e desprezada na escola”. A pobreza de sua família é comum a várias outras, mas a feiúra deles era única. Pecola, sua mãe e seu irmão “vestiam a feiúra [...] embora esta não pertencesse a eles mesmos”.

Morrison critica este padrão de beleza que diminui, limita e marginaliza os outros a fim de se estabelecer como imagem desejada. A única forma de beleza possível é a branca e ela está onipresente: “adultos, meninas mais velhas, lojas, revistas, jornais, propagandas – o mundo inteiro concordava que uma boneca de olhos azuis, cabelos amarelos e pele rosada era o que qualquer menina-criança apreciava”, comenta a narradora de quase todo o enredo Claudia MacTeer, amiga mais nova de Pecola. Ela é quem dá voz ao sofrimento de Pecola e também é a única que questiona a predominância da beleza branca. Ao ganhar uma boneca loura-dos-olhos-azuis, Claudia afirma que “aqueles olhos imbecis, a cara de panqueca e aquele cabelo de bicho de goiaba deixavam-na fisicamente revoltada e secretamente com medo”. 

Cuidado: o reflexo deste espelho pode ser distorcido por ideais de beleza socialmente construídos
Ao contrário de Claudia, a mãe de Pecola, a Sra. Breedlove, é fascinada pelo padrão branco de beleza. Ela passa várias tardes no cinema, onde escapa de sua realidade dentro de casa com o marido violento e seus dois filhos e aprende que é impossível “olhar para um rosto e não associá-lo a alguma categoria de beleza absoluta [a qual] ela absorvera totalmente das telas prateadas”. Suas referências de beleza são as atrizes hollywoodianas, as quais ela tenta imitar. Sua predileção por esta beleza – e ao mesmo tempo o ódio por sua própria feiúra – reflete a maneira como a Sra. Breedlove trata os seus próprios filhos, com displicência e abandono. 

Ela trabalha como doméstica na casa de uma família branca de classe média, onde ganhara um novo apelido, Polly. Aqui, ela cuida da filha do casal, loura-pele-rosada-dos-olhos-azuis, e toma conta de todos os afazeres da casa. Um dia, Pecola aparece de surpresa no trabalho da mãe e, sem querer, derruba uma torta de amora que a mãe acabara de fazer. A Sra. Breedlove vê que sua filha está queimada nas pernas, mas mesmo assim bate em Pecola e grita: “Sua besta louca... meu chão, que bagunça... olha pra você... que trabalho... vá embora” para, logo depois, abraçar a menina dos cabelos dourados, limpar o seu vestido respingado com geleia e consolá-la carinhosamente. Às ordens de sua mãe, a quem ela se refere como Sra. Breedlove, Pecola pega a sacola de roupas lavadas e vai embora apressadamente acompanhada de Claudia e de outra colega.    

No prólogo, Morrison relata que a história da menina que queria ter os olhos azuis, de fato, acontecera quando ela era ainda criança. Uma colega de escola havia dito isso, e ela que, além de não conseguir imaginar sua amiguinha com olhos azuis, não conseguia entender os olhos azuis como uma única forma de beleza, mas sim de opressão, pois eram estes olhares que condenavam a beleza negra dela e de sua amiga. O desejo pelos olhos azuis, Morrison argumenta, denota uma forma de auto-depreciação racial que, muitas vezes, tende a reproduzir a forma de humilhação a qual o indivíduo foi submetido durante a vida. 

A violência, a linguagem e o sofrimento da narrativa de Morrison são como um veneno. Não se trata da vitimização da jovem protagonista por ser negra, mulher e pobre, mas da própria dificuldade de ela se entender como indivíduo por estar sempre em conflito com os preconceitos sociais e violência impostos a ela. Como leitor, não sentimos pena de Pecola e de sua família, mas sentimos um áspero mal-estar por fazermos parte de uma sociedade tão racista e opressora; nos sentimos quase que impotentes perante a ela, mas, acima de tudo, sentimos o próprio horror de ser conivente com ela. 

Em seu livro, Morrison foca na pior consequência da repressão e do preconceito: a aceitação de que a rejeição e a exclusão são legítimas. Ainda que haja muitos que a confrontem e a superem, há muitos outros que “desmoronam anonimamente em silêncio, sem voz para expressar ou afirmar a sua própria resistência”. É este colapso do sujeito dentro do coletivo que interessa à Morrison. Dentro da impossibilidade de afirmar-se e entender-se como indivíduo, Pecola Breedlove padece e, aos poucos, entrega-se completamente a sua redução ao nada, um mero abjeto da sociedade: sem voz, força ou poder de resistência. 

* Neste post, utilizo o termo raça porque me refiro a padrões de beleza relacionados a características físicas de um indivíduo, no caso, dos negros.
** Todas as citações foram traduzidas por mim em referência à edição de The Bluest Eye (1999), da editora Vintage. 

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Guest Post: Quem tem medo de Judith Butler?


por Júlia Neves

Ela é um dos maiores nomes na área de Estudos Culturais por suas reflexões sobre gênero, sexualidade e feminismo. Atualmente, ela tem trabalhado com as questões de imigração, identidade cultural, guerras, política e judaísmo. Mas neste (longo) post, falarei sumariamente de seu trabalho com gênero e sexualidade. Será difícil – para não dizer impossível – escrever sobre ela e explicar um pouco sobre sua obra sem ser superficial. Quando o assunto é Judith Butler, precisa-se de concentração e também de paciência, pois a argumentação é densa, as discussões são intensas e as perguntas, infinitas.

Judith Butler: "Gênero, você está 'fazendo'"
Doutora em filosofia pela Universidade de Yale, em Connecticut (EUA), Butler publicou o seu primeiro livro, intitulado Gender Trouble (traduzido como "Problemas de Gênero" no Brasil) em 1990. O livro foi um marco para a teoria feminista e, segundo vários pesquisadores, deslanchou a teoria queer dentro do meio acadêmico. Desde então, esta é uma das obras mais citadas na área de Estudos de Gênero por defender que gênero é uma categoria socialmente construída. Ou seja, o que nós entendemos do que é “ser mulher” e “ser homem” depende veementemente do nosso meio cultural.

Primeiramente, vale relembrar aqui a diferença entre sexo e gênero. O primeiro é estritamente relacionado à constituição anatômica de uma pessoa, basicamente o pênis ou/e a vagina. Já o segundo é o termo usado para falar de uma identidade de gênero que tem um caráter social e de formação do indivíduo, que seriam, predominantemente, chamados de homens e mulheres. Quando uma pessoa possui um sexo que corresponde ao seu gênero, ela é considerada cisgênero e isso é supostamente o “normal”. Mas como sabemos, muitas vezes isso não acontece. Por exemplo, uma pessoa pode nascer com uma vagina, mas sentir-se como um homem e ter uma identidade de gênero masculina, vestindo-se e comportando-se como homem.

É exatamente esta uma das maiores questões do trabalho da Butler. Ela aponta que, na nossa sociedade, este sistema binário de gêneros não comporta a diversidade que realmente existe, pois ele só oferece a possibilidade de ser homem OU mulher. Além disso, este modelo dominante mantém somente a heterossexualidade como forma de sexualidade e não comporta outras formas de desejos sexuais: nós só podemos ser homens OU mulheres e isso implica que, se formos um homem só podemos desejar sexualmente a uma mulher; e, como mulher, só podemos desejar sexualmente a um homem. Em outras palavras, não há espaço para entender homossexuais e transgêneros (indivíduos que não são cisgêneros) como indivíduos normais, mas apenas como pessoas que vivem de forma contrária às normas dominantes de gênero e heterossexualidade.

Brian Teena: o menino que nasceu menina e foi
brutalmente assassinado. Sua história fora contada no
filme "Meninos Não Choram" (1999), com Hilary Swank
A partir deste argumento, Butler defende que, para podermos estabelecer-nos como indivíduos dentro de uma sociedade, fazemos o possível para atender a essas normas e somos, até certo ponto, condicionados a repetir e imitar os modelos de masculinidade e de feminilidade a nossa volta. É aqui que entra a sua famosa teoria de performatividade de gênero. Para a Butler, nós constituímos a nossa identidade de gênero através do nosso meio cultural. Sendo assim, uma pessoa torna-se homem ou mulher a partir da repetição e reiteração de gestos, linguagem, discursos, atitudes e comportamentos que ela vê e incorpora a sua volta.

É bom ressaltar que esta repetição não é consciente, nós mesmos não temos controle sobre isso. No entanto, Butler acredita que todos nós somos capazes de reflexão e, portanto, também podemos subverter essas normas, a partir do momento de que nós mesmos, na esfera individual, passamos a agir e a nos comportarmos contra elas. Assim que mais pessoas aderem a novas formas de comportamento, elas podem criar uma aliança entre si, conexões que fortaleçam novas maneiras de pensar e que virem modelos com os quais outros possam se identificar.

"Gênero é o efeito de reiteração de atos"
Vou dar um exemplo prático. A Marcha das Vadias e as Paradas Gays no Brasil têm sido movimentos fortes na representação política de mulheres e da comunidade LGBT, pois elas têm ganhado cada vez mais público e atenção da mídia. Porém, somente a realização destas passeatas não é suficiente: as pessoas têm de começar a mudar os seus comportamentos no dia-a-dia. Não adianta ir para a Marcha das Vadias uma vez por ano e, na vida prática, uma mulher chamar a outra que está ao seu lado de vagabunda porque ela está usando um decote e uma saia curta; ou tirar sarro da prostituta que está trabalhando na rua. Assim como não adianta participar da parada gay e não querer que homossexuais mostrem afeto em público; ou então, debochar do travesti que está sentado ao seu lado no ônibus.

Esta é uma grande questão para a Butler: que indivíduos comecem a mudar e a subverter atitudes conservadoras e dominantes para que novos modelos de comportamento possam se estabelecer e também tornarem-se referência de identificação. Dentro deste pensamento, ela ressalta que o perigo da criação de novos modelos ou categorias de identidade é exatamente o da exclusão. Para evitar isso, ela escreve na introdução do seu quarto livro, o Undoing Gender (em português, seria “Desfazendo Gênero”), que não devemos aceitar categorias e modelos de gênero e de sexualidade sem críticas, pois é só através do pensamento crítico que podemos “abrir a possibilidade de novos modos de viver; em outras palavras [não devemos] celebrar as diferenças como meras diferenças, mas buscar sempre estabelecer condições mais inclusivas para abrigar e manter vidas que resistem a modelos de assimilação”. 

* O livro Undoing Gender ainda não foi traduzido para o português.
** Para quem está interessado/a em ler Judith Butler, sugiro que comecem com este artigo (em inglês), que foi publicado em 1988, e foi o primeiro dela sobre a sua teoria de performatividade. Aqui, ela remete a diversos argumentos ligados ao teatro e à performance. 
*** O meu post é um mero e superficial resumo da teoria de performatividade da Butler. 

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Guest Post: Uma educação sem gênero?

por Júlia Neves

Uma de nossas leitoras postou uma matéria interessante na nossa página do Facebook sobre um assunto que já estava na minha lista de assuntos para o Subvertidas. Trata-se de uma pré-escola sueca, a Egalia, que tem tentado eliminar a distinção dos gêneros masculino e feminino ao evitar que as crianças utilizem os pronomes "ele" e "ela", por exemplo. 

A pré-escola Egalia, na Suécia, onde meninos e meninas usam as mesmas cores para designar igualdade de gênero
A metodologia desta escola, ao meu ver, é um tanto extremista. O principal problema é tentar ensinar às crianças de que "somos todos iguais". Não, não somos. Somos diferentes. Existem sim diferenças entre mulheres e homens. Uma delas é exatamente o mito disseminado ao longo da história de que mulheres são inferiores aos homens. Seria realmente o ideal, ensinar às crianças que há igualdade entre os gêneros. Mas não há, pois as mulheres, junto com todas as minorias, foram excluídas historica, politica e socialmente de diversas formas. 

Acho que o mais importante dentro de uma educação que tem como objetivo uma igualdade de direitos entre gêneros é ressaltar que não devemos ficar presos a papeis sociais que já foram rigidamente estabelecidos. Atividades que misturam brincadeiras supostamente de meninos e de meninas, por exemplo, já incentivam o aprendizado de que não há funções estritamente masculinas ou femininas.

Boneca também é coisa de menino
Li um artigo de duas pesquisadoras (Isabel de Oliveira e Silva e Iza Rodrigues da Luz) sobre a diferenciação de gênero na pré-escola. Neste trabalho, elas analisam mais especificamente a educação de meninos dentro de pré-escolas em Belo Horizonte. Um dos pontos abordados pelas autoras é exatamente esta separação de tarefas destinadas a meninas e meninos desde o início da educação escolar. 

Elas entrevistaram professoras sobre as brincadeiras realizadas dentro de sala de aula e perguntam se elas tentam incentivar atividades que quebrem com estereótipos de papeis femininos e masculinos: as educadoras dizem tentar mudar estes papeis, mas confessam que têm dificuldades em criar novas culturas de gênero.  Sendo assim, estimulam as meninas a cozinharem para os meninos e estes a olharem as meninas na cozinha. 

O que é mesmo que as meninas não conseguem fazer?
Outro aspecto importante do artigo de Silva e da Luz é também a falta de cuidado com meninos na pré-escola. Parte-se do pressuposto de que garotos conseguem cuidar de si desde cedo e, portanto, professoras tendem a dar menos atenção a eles em forma de carinho, afeto e proteção, por exemplo. As pesquisadoras associam este comportamento na educação dos meninos ao próprio modelo que as professoras têm do que é "ser homem" e "ser mulher" e acabam perpetuando o que já está consolidado.

Não concordo com uma metodologia tão extremista como a da escola sueca, pois acredito que haja um choque de realidades entre a inexistência de gênero dentro da escola e a diferença entre gêneros fora dela. No entanto, acho que deve haver maior atenção dos cursos de pedagogia e das próprias educadoras (e, claro, educadores) na abordagem de atividades dentro de sala que quebrem o papel de princesa para as meninas e de herois para os meninos.  

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Guest Post: Feminismo não é coisa de mulher

por Nanni Rios

Eu sou feminista, mas não espalha. Me dedico a combater preconceitos e todo tipo de discriminação, que, em geral, têm origem justamente nos rótulos que insistem em colar na nossa testa, como se fosse necessário nos classificar para, então, guardar-nos em caixas, gavetas ou armários devidamente identificados.

Tudo isso pra dizer que eu e meus ideiais não cabemos numa gaveta, numa caixa ou muito menos num armário e que para dar às mulheres o valor que elas têm, não é preciso amaldiçoar os homens. Feminismo radical dói tanto quando machismo enraizado. E antes que me atirem pedras, explico: de nada adianta cultivar a ideia de que homens são inimigos, pois isso é a raiz do mal, puro sexismo. Generalizar e etiquetar os homens só pelo que eles têm de diferente é fazer o mesmo que eles fizeram com as mulheres de forma tão nociva ao longo da história. Destruir o que é diferente para mostrar força é a maior prova de fragilidade. 

Precisamos trazer os homens para o nosso lado, pois enquanto a luta pela igualdade de gênero for uma bandeira só das mulheres, a mudança será lenta. Não sei citar estatísticas e talvez eu esteja chovendo no molhado ao bradar aqui algo que vocês estão fartas de saber, mas o meu termômetro, além do que observo no dia-a-dia, é a Marcha das Vadias que rolou neste domingo, 27, aqui em Porto Alegre, onde moro. Fui para o Parque da Redenção enrolada na bandeira do arco-íris e de câmera fotográfica em punho e não apenas acompanhei a marcha e seus hinos, como circulei bastante em busca de boas fotos e, assim, constatei o baixíssimo quórum masculino. Pelo jeito, quem se importa com a nossa liberdade ainda somos nós mesmas. 

Vadias em marcha! (foto: Nanni Rios)

Fiquei me perguntando: onde estão os companheiros daquelas mulheres e por que eles não estavam lá com elas? Ou, no caso das mulheres que não têm companheiro, onde estão os pais, os tios, os primos, os amigos, os professores, os chefes e os colegas de trabalho?

Se por um lado, fico triste com a constatação, por outro compartilho com vocês os registros do exíguo, porém atuante público masculino que passou pela Marcha das Vadias neste domingo. Com um pouco de otimismo, olho pra estas fotos e penso que os nossos homens já não são mais os mesmos e que basta um empurrãozinho na consciência para tirá-los da inércia do machismo enraizado e mostrar que eles são peça fundamental nesta mudança social. Homens feministas por um mundo mais justo e igualitário, que tal?


"Ser feminista não me faz menos homem" na Marcha das Vadias de Porto Alegre (foto: Nanni Rios)

"Sendo puta, sendo santa, só como se ELA quiser" (foto: Nanni Rios)

"Se eu posso, elas também podem" (foto: Nanni Rios)

Por que para um homem parecer uma mulher é degradante?" (foto: Nanni Rios)