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É a questão do ovo e da galinha, realmente. No entanto, vindo de uma base acadêmica dos estudos culturais, defendo que a arte representa sim a vida. Mas é a vida que imita a arte. Tenho forte convicção de que é a mídia (e nesta incluo tudo, música, literatura, artes plásticas, imprensa, publicidade, etc.) que dissemina discursos e, sendo assim, estereótipos e preconceitos também. Para nós dos estudos culturais, a representação de classe social, etnia, gênero e sexualidade na indústria cultural é fundamental para o entendimento de qualquer sociedade, pois parte-se do princípio de que nós, seres humanos, somos esponjas e absorvemos todo o tempo aquilo que vemos, escutamos e aprendemos em nossa volta.
O depoimento de Newsom é a base para o enredo do documentário. Ela, que já foi atriz e hoje é diretora de cinema, conta sobre seus conflitos, dificuldades e desafios como mulher, principalmente sobre a pressão de ser constantemente julgada por sua beleza e não pelo seu intelecto. Eu, particularmente, achei esta base um tanto dramática. Embora entenda a problemática da aparência física, achei a fala dela muito emocional; um discurso com questões verdadeiras e comum a muitas mulheres, porém um tanto vitimizado.
Não conheço nenhum documentário que discuta isso na mídia brasileira. Seria um prato cheio, olhar de perto como as novelas representam gênero e sexualidade, por exemplo. As novelas, banalizadas por muitos, são uma das maiores fontes de cultura popular no Brasil. Muita gente diz que não vê, que acha uma bobagem, mas todo mundo conhece a história, os personagens, as intrigas. E as mulheres geralmente representam os mesmos papeis: são ou vilãs ou mocinhas; na maior parte das vezes são lindas e gostosas (padrão nacional) e fazem de tudo para ficar com o príncipe encantado. Quando bem-sucedidas, são geralmente de mau caráter ou então Virgens Marias.
por Júlia Neves
Andando por um mercado de rua aqui em Berlim, me deparei com uma roupinha de bebê que dizia "got my looks from my mom and the brain from my dad" (tenho o físico da minha mãe e o cérebro do meu pai). Na hora, já reclamei com um amigo que me acompanhava no passeio: "é sempre assim, a beleza é feminina, a inteligência, masculina. Depois não sabem de onde vem estes preconceitos grotescos. É a vida imitando a arte". Ao escutar isso, meu amigo ficou aguçado e quase instantaneamente disse: "Que isso! É a arte que imita a vida!"
Andando por um mercado de rua aqui em Berlim, me deparei com uma roupinha de bebê que dizia "got my looks from my mom and the brain from my dad" (tenho o físico da minha mãe e o cérebro do meu pai). Na hora, já reclamei com um amigo que me acompanhava no passeio: "é sempre assim, a beleza é feminina, a inteligência, masculina. Depois não sabem de onde vem estes preconceitos grotescos. É a vida imitando a arte". Ao escutar isso, meu amigo ficou aguçado e quase instantaneamente disse: "Que isso! É a arte que imita a vida!"
É a questão do ovo e da galinha, realmente. No entanto, vindo de uma base acadêmica dos estudos culturais, defendo que a arte representa sim a vida. Mas é a vida que imita a arte. Tenho forte convicção de que é a mídia (e nesta incluo tudo, música, literatura, artes plásticas, imprensa, publicidade, etc.) que dissemina discursos e, sendo assim, estereótipos e preconceitos também. Para nós dos estudos culturais, a representação de classe social, etnia, gênero e sexualidade na indústria cultural é fundamental para o entendimento de qualquer sociedade, pois parte-se do princípio de que nós, seres humanos, somos esponjas e absorvemos todo o tempo aquilo que vemos, escutamos e aprendemos em nossa volta.
O problema é quando se cria um produto cultural de acordo com a repetição de estereótipos e preconceitos de todos os tipos, enfatizando um discurso já estabelecido e deixando pouco espaço para novas representações culturais. O documentário da diretora Jennifer Siebel Newsom, Miss Representation (com legendas em português), critica exatamente este modelo de representação de mulheres e meninas na mídia norte-americana. Em seu filme, Newsom questiona a excessiva objetificação e sexualização de mulheres na televisão, em filmes, na imprensa e em propagandas com depoimentos de mulheres importantes para a política e cultura americanas, como a ex-secretária de Estado Condoleezza Rice, a atriz Geena Davis e a comediante Margaret Cho.
O depoimento de Newsom é a base para o enredo do documentário. Ela, que já foi atriz e hoje é diretora de cinema, conta sobre seus conflitos, dificuldades e desafios como mulher, principalmente sobre a pressão de ser constantemente julgada por sua beleza e não pelo seu intelecto. Eu, particularmente, achei esta base um tanto dramática. Embora entenda a problemática da aparência física, achei a fala dela muito emocional; um discurso com questões verdadeiras e comum a muitas mulheres, porém um tanto vitimizado.
Mesmo assim, recomendo o documentário pelas entrevistas e pela discussão da representação midiática de mulheres que é sempre extremamente sexualizada e focada na aparência: as mulheres devem ser bonitas para que os homens possam admirá-las. Mas quando uma mulher mostra intelecto, ela é ridicularizada e alvo de piadas, é a escrota do pedaço. É o que acontece com a Hilary Clinton, com a própria Condoleezza Rice e, no Brasil, com a presidenta Dilma Rousseff. Quantas vezes não ouvi piadas que ridicularizam a presidenta por ela ser mulher: "é mal comida", "sapata", "divorciada" e por aí vai. Ou então que ela não manda, é a secretária do ex-presidente Lula; assim como Hilary Clinton só entrou na política por conta de seu marido:
O documentário de Newsom critica este tipo de misrepresentation (má representação) que circula de diversos modos na indústria cultural, em qualquer lugar do mundo, seja nos Estados Unidos, na Alemanha ou no Brasil. Na mídia, encontramos predominantemente imagens de mulheres sensuais, frágeis, em busca de um marido/provedor e, quando elas são intelectuais ou poderosas, geralmente esta imagem é passada de forma negativa. Por conta disso, há uma falta enorme de imagens de liderança feminina na mídia, já que esta posição acaba sendo ridicularizada, como mostra a foto acima.
Em alguns de seus posts aqui no Subvertidas, a Roberta comentou sobre os comentários infelizes de celebridades brasileiras relacionados ao estupro e ao abuso de mulheres. Por mais que várias pessoas acreditem que o humor politicamente incorreto é inofensivo, estas representações preconceituosas de mulheres, negros, homossexuais e pobres consolidam-se e, pior ainda, tornam-se naturalizadas no nosso dia-a-dia, reforçando mesmo os piores estereótipos.
Não conheço nenhum documentário que discuta isso na mídia brasileira. Seria um prato cheio, olhar de perto como as novelas representam gênero e sexualidade, por exemplo. As novelas, banalizadas por muitos, são uma das maiores fontes de cultura popular no Brasil. Muita gente diz que não vê, que acha uma bobagem, mas todo mundo conhece a história, os personagens, as intrigas. E as mulheres geralmente representam os mesmos papeis: são ou vilãs ou mocinhas; na maior parte das vezes são lindas e gostosas (padrão nacional) e fazem de tudo para ficar com o príncipe encantado. Quando bem-sucedidas, são geralmente de mau caráter ou então Virgens Marias.
O meio termo é raridade, pois não há espaço para mulheres que não se encaixam nesses padrões e, muito menos, para a representação de outros modelos de feminilidade que não estejam limitados a tais categorias. Esses discursos proliferam-se com tanta naturalidade que nós mesmos reproduzimos vários dos comportamentos representados na telinha. E é aí que passamos a achar normal uma roupa de bebê atribuir beleza à mãe e a inteligência ao pai.
22 de maio de 2012
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cinema,
feminilidade,
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5
O projeto tem como principal objetivo discutir sexualidade fora das normas culturais conservadoras, desvencilhando-se de preconceitos comuns que persistem na maioria das abordagens sobre o assunto, como a vergonha e o moralismo. O primeiro episódio, por exemplo, apresenta depoimentos de artistas, pesquisadores e ativistas sobre o que eles entendem como sexo, mostrando que sexo se manifesta de diversas formas na sociedade: entre héteros, gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros; na masturbação, na política, na religião e por aí vai.
Não vou nem entrar no mérito daquele famoso clichê: homens que transam com muitas mulheres são garanhões, mulheres que transam com muitos homens são vagabundas. Mas a questão da homossexualidade, por exemplo. O olhar sobre o homossexual como um doente, anormal e sexualmente pervertido é um preconceito consolidado no século XIX por sexólogos e psiquiatras que tentavam desvendar e explicar o que era o homossexual.
por Júlia Neves
Sexo é certamente uma das palavras mais temidas e constrangedoras da sociedade moderna. Embora seja natural, ainda que todo mundo faça, todo mundo pense, todo mundo precise, falar de sexo continua a ser um dos maiores tabus para a maior parte das pessoas. No nosso mundinho, sexo bom (e moralmente correto) é aquele contido na caixinha da tríade casamento-reprodução-heterossexual. É pensando na limitação e opressão desta norma que ativistas políticos de São Francisco, Berlim, Barcelona e São Paulo criaram o projeto [SSEX BBOX] sexuality out of the box (sexualidade fora da caixinha), uma série de documentários na internet sobre diversas formas de sexualidade, da perspectiva de diferentes lugares do mundo.
Sexo é certamente uma das palavras mais temidas e constrangedoras da sociedade moderna. Embora seja natural, ainda que todo mundo faça, todo mundo pense, todo mundo precise, falar de sexo continua a ser um dos maiores tabus para a maior parte das pessoas. No nosso mundinho, sexo bom (e moralmente correto) é aquele contido na caixinha da tríade casamento-reprodução-heterossexual. É pensando na limitação e opressão desta norma que ativistas políticos de São Francisco, Berlim, Barcelona e São Paulo criaram o projeto [SSEX BBOX] sexuality out of the box (sexualidade fora da caixinha), uma série de documentários na internet sobre diversas formas de sexualidade, da perspectiva de diferentes lugares do mundo.
O projeto tem como principal objetivo discutir sexualidade fora das normas culturais conservadoras, desvencilhando-se de preconceitos comuns que persistem na maioria das abordagens sobre o assunto, como a vergonha e o moralismo. O primeiro episódio, por exemplo, apresenta depoimentos de artistas, pesquisadores e ativistas sobre o que eles entendem como sexo, mostrando que sexo se manifesta de diversas formas na sociedade: entre héteros, gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros; na masturbação, na política, na religião e por aí vai.
O meu preferido até agora é o segundo episódio, que discute sexualidade na infância. Um dos pontos mais enfatizados pelos entrevistados é exatamente a ilusão de que crianças estão alheias ao sexo porque são inocentes. A opinião dos especialistas é unânime: melhor ensinar uma criança que é normal sentir desejo sexual do que ensiná-las a ter vergonha. Em vez de ensiná-las que masturbação é pecado, faz mais sentido explicar que faz parte do conhecimento do corpo.
Outras questões abordadas pelos mini-documentários são as relações entre política, religião e sexualidade, mostrando como todos nós somos culturalmente moldados pelos discursos que legitimam sexo somente para a reprodução e após o casamento, é claro. Obviamente temos mais opções e liberdades que outras gerações, mas a questão de sexualidade ainda é tabu em diversos aspectos, pois os discursos que prevaleciam no século XIX, já dizia Foucault, ainda pairam o nosso dia-a-dia.
Não vou nem entrar no mérito daquele famoso clichê: homens que transam com muitas mulheres são garanhões, mulheres que transam com muitos homens são vagabundas. Mas a questão da homossexualidade, por exemplo. O olhar sobre o homossexual como um doente, anormal e sexualmente pervertido é um preconceito consolidado no século XIX por sexólogos e psiquiatras que tentavam desvendar e explicar o que era o homossexual.
Por mais absurdo que isso nos pareça nos dias de hoje, esta forma de ver a homossexualidade – como uma aberração – tornou-se tão naturalizada que é frequentemente reproduzida através de comentários que, teoricamente, seriam pró-homossexualidade. Quem nunca escutou a frase: “Não tenho nada contra gays, mas que não se beijem na minha frente”? Este é um comentário homofóbico sim, pois o motivo de estas pessoas não quererem ver homossexuais se beijando é o preconceito de que a homossexualidade é anormal e, de certa forma, errada.
O [SSEX BBOX] é um projeto extremamente politizado que busca, de fato, quebrar preconceitos e tabus que circulam entre nós. Os documentários mostram que é possível viabilizar diferentes formas de pensar a sexualidade através da educação sexual, ressaltando que há inúmeras maneiras de entender, expressar, praticar e desejar sexo. Os depoimentos dos vídeos são inteligentes, acessíveis e levantam debates importantes sobre o assunto. Até agora, a equipe já produziu quatro episódios, que podem ser encontrados no vimeo, e produzirão mais dez entre janeiro e novembro de 2012. O quinto estreia dia 4 de junho em São Francisco. Esperemos ansiosamente.
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Júlia Neves nasceu em Brasília e, desde 2008, vive na Alemanha. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, atualmente é doutoranda em Literatura e Cultura Inglesas na Humboldt-Universität zu Berlin. Desde o mestrado, também cursado em Berlim, ela se dedica a pesquisas sobre representações de homossexualidade e de Londres nas obras dos escritores britânicos Sarah Waters e Alan Hollinghurst. Suas principais áreas de interesse são literatura, línguas, séries de televisão, cinema, teorias pós-colonial, queer, de gênero e feminista.
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Júlia Neves nasceu em Brasília e, desde 2008, vive na Alemanha. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, atualmente é doutoranda em Literatura e Cultura Inglesas na Humboldt-Universität zu Berlin. Desde o mestrado, também cursado em Berlim, ela se dedica a pesquisas sobre representações de homossexualidade e de Londres nas obras dos escritores britânicos Sarah Waters e Alan Hollinghurst. Suas principais áreas de interesse são literatura, línguas, séries de televisão, cinema, teorias pós-colonial, queer, de gênero e feminista.
16 de maio de 2012
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ativismo político,
cinema,
Guest Post,
homossexualidade,
sexo,
sexualidade

