pra onde dirigir a vista,
a voltam para os céus
com a esperança infinita
de encontrar o que seu irmão
neste mundo lhe tira.
pombinha!
que coisas têm a vida,
ai zambita!*
Porque os pobres não têm
pra onde dirigir a voz,
a voltam para os céus
buscando uma confissão
já que seu irmão não escuta
a voz de seu coração.
Porque os pobres não têm
neste mundo esperanças,
se amparam na outra vida
como a uma justa balança,
por isso as procissões,
as velas, os louvores.
De tempos imemoriais
que se inventou o inferno
para assustar aos pobres
com seus castigos eternos,
e o pobre, que é inocente,
com sua inocência crendo.
O céu tem as rendas,
a terra e o capital,
e os soldados do Papa
lhes enche bem o embornal,
e ao que trabalha lhe metem
a glória como um cabresto.
Para seguir a mentira,
o chama seu confessor,
lhe diz que deus não quer
nenhuma revolução,
nem papéis nem sindicatos,
que ofendem seu coração.
* zamba: é uma dança cantada popular do noroeste da Argentinae que se espalhou por outras partes da América Latina.
Entrevista com Violeta Parra
Documentário sobre Violeta Parra (em espanhol)
(Seleção e tradução de Jeff Vasques)
Viajo entre túneis de sono
como un cão vadio à procura
do dono.
Viajo em barcos fastasma
onde o tempo retrocede em busca
da alma.
Viajo consultando arquivos
e a memória ilumina rostos
redivivos.
Viajo procurando portos
e me encontro no país
dos mortos.
CELA – 6
A hora dos
capuzes negros
é a hora mais negra
dos prisioneiros.
Descer às cegas
pelas cascatas
apalpando paredes
adivinhando fissuras
Pisando superfícies
escorregadias
de sangue
e urina.
Às cegas.
CELA - 23
Eis que me retornam
vestes, sapatos,
óculos, relógios.
Bolsa povoada
de lenços, moedas,
inúteis estojos.
Despojada até aos ossos
não sei o que fazer
de meus despojos.
CONTA CORRENTE
Para Wanda Maria
CRÉDITO DÉBITO
O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco
Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:
além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina
além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.
além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.
SALDO
só o domado viver.
Mais nada.
LEGADO
Para Laury Maciel
Recuso-me a herança
deste poço vazio
deste lodo legado
em negligências.
Engulo a seco e calo.
Aposto em cada poema
— único engenho
ainda não vencido.
Proponho rubros jogos
olhos atentos
para o imaginário.
Ases de puro ouro
— naipes que guardo
para meu incêndio.
(texto e seleção por Jeff Vasques)
A MULHER (A VIDA SE ESVAI, COMPANHEIRA)
(León Chávez Teixeiro, interpretada por Amparo Ochoa)
Abriu os olhos,
pôs um vestido,
e foi devagar pra cozinha.
Estava escuro e sem fazer ruído,
acendeu a estufa e a rotina.
Sentiu o silêncio como um aperto,
tudo começava no café da manhã.
Dobrou a coluna,
soltou um suspiro,
sentiu ridícula a esperança;
ao mais pequeno se lhe ardeu a pança,
rompeu o silêncio,
soltou um choro.
Serviu o esposo,
vestiu os meninos,
trocou as fraldas,
serviu os pães.
Levou seus filhos pra escola;
pensou no cardápio do dia.
Mediu o dinheiro,
comprou verduras.
Contou as cinzas de sua economia.
Esperou na fila por suas tortillas,
carregou Francisco,
olhou a rua.
Por toda parte havia mulheres,
todas compravam e se moviam;
seguiam ilhadas com seus deveres,
lhe recordavam todas à formigas.
Sentiu de repente que eram amigas,
sentiu que todas eram amigas.
Voltou a sua casa, casa alugada,
viu mais amigas desde a entrada.
Deu a Francisco o que brincar,
varreu o chão,
arrumou as camas.
Se viu no espelho,
olhando o branco dos cabelos,
juntou as coisas
pra cozinhar;
cortou as batatas,
as pôs no fogo
e na manteiga as fez chiar.
Agora o cru se transformava,
estava pronto para se almoçar.
A casa inteira com outro aspecto,
de novo ajeitada pra se usar.
Pôs a mesa,
serviu as crianças,
trocous as fraldas,
cortou os pães,
limpou de novo mesa e cozinha,
deu a Mercedes o remédio;
pediu seu turno nos tanques da lavanderia:
bateu vestidos e calças,
olhou ao sol a roupa estendida,
como se ontem já não o fizera.
A mesma esfregação todos os dias,
caminhando de novo o mesmo trecho,
sentiu a vida como prisão,
lhe escapava tudo que havia feito.
Se ia a vida, se ia pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.
Trocou palavras com suas vizinhas;
houve sorrisos em formação.
Toda a raça em seu beco,
se arrumando enquanto andavam.
Sempre mulheres, cumprindo oficios
que se entretecem sem ter fim.
Serem costureiras, serem cozinheiras,
camareiras e passadeiras;
serem enfermeiras e lavadeiras,
também garçonetes e educadoras.
Muito diligentes faxineiras,
às famílias deixam prontas,
rumo à escola ou para o trabalho
para que possam checar as listas.
Se dava conta de suas vontades
e do cinema sabia nada.
Para eles a vida sempre séria
se afogando na miséria.
Se vai a vida, se esvai pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.
Foi direto para seu ninho,
sempre pensando passou a roupa.
O que era rasgado deixou cerzido,
tinha um momento para descansar.
Abriu a porta e entrou o marido
também moído de trabalhar.
Pôs a mesa,
serviu a sopa,
para queixar-se não abriu a boca.
Riram juntos e papearam.
Falaram dos filhos e de dinheiro,
das vizinhas, de alguma dor,
dos caminhões e do patrão.
Lavou a louça,
tirou o lixo,
dormiu os meninos,
trocou as fraldas.
Como ar que entra pela fresta,
os dois brincaram com sua ternura.
E então deu a volta na fechadura;
dormiram cedo todos seus males.
Se vai a vida, se esvai pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.
Se vai, se esvai, companheira,
como o sebo, no tanque, pelo ralo.
(Tradução de Jeff Vasques)
PARA UM MELHOR AMOR
(Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)
“O sexo é uma categoria política”
Kate Millet
Ninguém discute que o sexo
é uma categoria no universo dos casais:
daí sua ternura e suas ramas selvagens.
Ninguém discute que o sexo
é uma categoria familiar:
daí os filhos,
as noites em comum
e os dias divididos
(ele, buscando o pão nas ruas,
nas oficinas e nas fábricas;
ela, na retaguarda dos ofícios domésticos,
na estratégia e tática da cozinha
que permitam sobreviver à batalha comum
talvez até o fim do mês.)
Ninguém discute que o sexo
é uma categoria econômica:
basta mencionar a prostituição,
as modas,
as seções das revistas que são para ela
ou são para ele.
Onde começa a confusão
é quando uma mulher diz
que o sexo é uma categoria política.
Porque quando uma mulher diz
que o sexo é uma categoria política
pode começar a deixar de ser mulher em si
para converter-se em mulher para si,
constituir a mulher em mulher
a partir de sua humanidade
e não de seu sexo,
saber que o desodorante mágico com sabor de limão
e o sabão que acaricia voluptuosamente sua pele
são fabricados pela mesma empresa que fabrica o napalm
saber que os labores próprios do lar
são os labores próprios da classe social a que pertence esse lar,
que a diferença de sexos
brilha muito melhor na profunda noite amorosa
quando se conhece todos esses segredos
que nos manteriam mascarados e alheios.
Roque Dalton foi um guerrilheiro el salvadorenho, considerado hoje o poeta maior de seu país e um dos maiores e mais inovadores poetas da américa. Foi assassinado por "companheiros" de sua própria organização de luta, pois seu jeito brincalhão, questionador das ortodoxias e fora dos padões os levaram a acreditar que Dalton era um agente da CIA infiltrado. Kate Millet (EUA, 1934), citada na epígrafe do poema, é uma escritora feminista estadunidense. Sua tese de doutorado, defendida na Universidade de Columbia, é seu livro mais famoso, intitulado Política Sexual. Publicado em 1970, discorre sobre a política patriarcal de controle da sexualidade feminina nos séculos XIX e XX, analisando literatura, pintura e políticas públicas relacionadas ao controle populacional e à definição do papel da mulher nesse período. Publicou diversos outros livros, mas que não foram traduzidos para o português. Você pode baixar o livro "Política Sexual" de Kate Millet clicando aqui
por Jeff Vasques
SEXTA-FEIRA À NOITE
(Marina Colasanti, Brasil, 1937)
Sexta-feira à noite os homens
acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas a vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso para coçar o saco.
Sexta-feira à noite os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro encaram "seu destino"
e sonham com o "príncipe encantado".
Abaixo, um pouco do que Colasanti pensa sobre o movimento feminista hoje:
![]() |
| Lucien Freud, Portrait on a White Cover, 2002-3 |
ECONOMIA DOMÉSTICA
(Rosário Castellanos, México, 1926-1974)
Aqui está a regra de ouro, o segredo da ordem:
ter um lugar para cada coisa
e ter
cada coisa em seu lugar. Assim arrumei minha casa.
Impecável prateleira a dos livros:
um compartimento para as novelas,
outro para o ensaio
e a poesia em tudo mais.
Se abres um armário sentes a alfazema
e não confundirás as toalhas de linho
com as que se usam cotidianamente.
E há também a louça de grande ocasião
e a outra que se usa, se quebra, se repõe
e nunca está completa.
A roupa em sua gaveta correspondente.
E os móveis guardando as distâncias
e a composição que os faz harmoniosos.
Naturalmente que a superfície
(do que seja) está polida e limpa.
E é também natural
que o pó não se esconda nos cantos.
Mas há algumas coisas
que provisoriamente coloquei aqui e ali
ou que deixei no lugar dos utensílios.
Algumas coisas. Por exemplo, um pranto
que não se chorou nunca;
uma nostalgia de que me distraí,
uma dor, uma dor da qual se apagou o nome,
um juramento não cumprido, uma ânsia.
Que se desvaneceu como o perfume
de um frasco mal fechado
e retalhos do tempo perdido em qualquer parte.
Isto me inquieta. Sempre digo: amanhã…
e logo esqueço. E mostro às visitas,
orgulhosa, uma sala na qual resplandesce
a regra de ouro que me deu minha mãe.
![]() |
| Edward Hopper, Morning Sun, 1952 |







