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por Mazu
Já falamos aqui no Blog em várias ocasiões sobre a violência contra a mulher e até sobre a violência da mulher contra o homem. Na maioria das vezes, falamos da violência física porque ela chama mais a atenção, é mais evidente pelas marcas que produz e, consequentemente, mais evidente nas estatísticas.
O enredo principal de "The Crossing", o episódio em questão, gira em torno de uma mulher que um dia disse "ops" para um técnico de informática que prestava serviço para sua empresa, e ele, então, com base nisso, passou a persegui-la e criou uma relação fantasiosa entre eles. Esse caso daria um debate bem interessante que vou deixar para a próxima, já que gostaria mesmo de comentar o enredo secundário, que trata de uma mulher que atirou no marido enquanto ele dormia.
Essa senhora nunca tinha sofrido nenhuma espécie de violência física, mas seus advogados estavam alegando "síndrome da mulher agredida" (tradução super literal, não sei se temos alguma coisa parecida no Brasil). Quando os agentes vão entrevistar os dois filhos do casal, eles dizem que o pai, na verdade, era super paciente com a mãe, que era uma péssima dona de casa e burra. Os agentes visitam a casa da família que era muito limpa e tinha um esquema de organização quase milimétrico. E quando vão entrevistar a mulher, ela diz que não, que o marido nunca a agredira nem quando ela merecia e que, era, pelo contrário, muito paciente tendo em vista que ela era péssima em tudo. Disse também que não participava da vida escolar dos filhos porque já os constrangia bastante dentro do lar e não queria fazer isso também fora de casa. Ou seja, o marido criou para ela (e para os filhos) uma imagem de incompetente, incapaz e não-merecedora. E isso justificou anos de maus tratos (psicológicos) da família, enquanto ela era basicamente uma empregada doméstica na casa.
por Mazu
Já falamos aqui no Blog em várias ocasiões sobre a violência contra a mulher e até sobre a violência da mulher contra o homem. Na maioria das vezes, falamos da violência física porque ela chama mais a atenção, é mais evidente pelas marcas que produz e, consequentemente, mais evidente nas estatísticas.
A violência psicológica foi abordada de maneira geral porque quando falamos de diversos preconceitos e padrões acabamos tocando na questão. Se existe um padrão preconceituoso do que é mulher boa e certa e do que as que não o são merecem por não serem, isso é também violência psicológica.
O que aconteceu foi que, ontem, assisti um episódio de uma série policial que gosto muito chamada Criminal Minds, que tratou da violência doméstica psicológica.
O que aconteceu foi que, ontem, assisti um episódio de uma série policial que gosto muito chamada Criminal Minds, que tratou da violência doméstica psicológica.
O enredo principal de "The Crossing", o episódio em questão, gira em torno de uma mulher que um dia disse "ops" para um técnico de informática que prestava serviço para sua empresa, e ele, então, com base nisso, passou a persegui-la e criou uma relação fantasiosa entre eles. Esse caso daria um debate bem interessante que vou deixar para a próxima, já que gostaria mesmo de comentar o enredo secundário, que trata de uma mulher que atirou no marido enquanto ele dormia.
Essa senhora nunca tinha sofrido nenhuma espécie de violência física, mas seus advogados estavam alegando "síndrome da mulher agredida" (tradução super literal, não sei se temos alguma coisa parecida no Brasil). Quando os agentes vão entrevistar os dois filhos do casal, eles dizem que o pai, na verdade, era super paciente com a mãe, que era uma péssima dona de casa e burra. Os agentes visitam a casa da família que era muito limpa e tinha um esquema de organização quase milimétrico. E quando vão entrevistar a mulher, ela diz que não, que o marido nunca a agredira nem quando ela merecia e que, era, pelo contrário, muito paciente tendo em vista que ela era péssima em tudo. Disse também que não participava da vida escolar dos filhos porque já os constrangia bastante dentro do lar e não queria fazer isso também fora de casa. Ou seja, o marido criou para ela (e para os filhos) uma imagem de incompetente, incapaz e não-merecedora. E isso justificou anos de maus tratos (psicológicos) da família, enquanto ela era basicamente uma empregada doméstica na casa.
Na hora, lembrei-me de diversas pessoas que conheci ao longo da vida, inclusive de mim mesma. Tive, durante a faculdade, por quase dois anos um namorado muito ciumento cuja tática era me fazer sentir burra e, às vezes, feia. Nunca chegou a nenhum extremo porque me livrei disso, graças a mim. Lembrei também de uma prima, uma amiga e do caso Yoki, que já comentei aqui. Mais uma vez, não quero dizer que devemos matar nem usar de violência, insisto nisso porque quando fui tratar do caso da Elise andaram dizendo por aí que eu estava defendo o ato dela, e eu não estava. Nem estou agora defendendo o ato da mulher fictícia que assassinou o marido no seriado. As Subvertidas são contra toda forma de violência. Estou só dizendo que a violência psicológica é uma das principais formas de dominação, se paramos para pensar. Já dissemos aqui, existe um imaginário idiota na nossa sociedade de que diz que tudo de ruim que acontece com uma mulher acontece por culpa dela. Esse imaginário besta junto com imposição psicológica e falsa de que não somos boas o suficiente ou não somos boas como são os homens em determinadas coisas é o que forma o aparelho da opressão feminina.
Lembra que a Tággidi escreveu sobre motivos para não casar? Então, essa crença do "amarre um homem se for capaz e, se não for, morra sozinha" é uma das maneiras de diminuir a gente. E mais, essa opressão psicológica "de ser menos" acaba por fortalecer outros imaginários patriarcais da nossa sociedade, tipo o de que precisamos de um homem para sermos inteiras, completas. O tipo de coisa que irrita muito. E as companheiras lésbicas? E se uma mulher simplesmente não quiser casar ou qualquer coisa do tipo? Porque, na real, relacionamento não completa, nem conserta ninguém.
E aí, enquanto esse aparelho da opressão funciona na nossa sociedade, algumas mulheres toleram violência, toleram o fato de trabalhar muito mais, como acabou de descrever a Bárbara, a gente vai ficando tolerante porque é incutida em nós a idéia de que temos que ser tolerantes, porque somos menos. Perigoso, não é mesmo? E já deu né? Passou da hora de romper com isso, nós não somos menos. Nunca fomos. Ser solteira não é defeito, muito menos ser independente. E se uma mulher tem um homem em sua vida, isso pode ser bom ou ruim, mas ela é o que é, com ou sem ele.
Hoje, estou de aniversário, 31, vai vendo. Minha irmã me ligou e eu estava me queixando de estar envelhecendo ao que ela respondeu: pelo menos você já casou. Fiquei tão chateada, de todas as coisas que já fiz nessa vida, em 31 anos, (não vou mentir: queria ter feito mais), mas, ainda assim, ela se lembrou só do meu casamento como um grande feito que deveria me acalmar diante do fato de passar dos trinta. Sei que ela não fez por mal, afinal, somos criadas assim. Escutamos nas novelas, filmes, em todos os lugares que casamento e filhos deveriam ser nossos grandes objetivos de vida. E é por isso que movimento feminista precisa crescer, ainda mais, para ocupar, ainda mais, esses espaços e quebrar esses padrões.
Enfim, todos os episódios de Criminal Minds começam e terminam com uma citação, vou copiá-los e terminar com a citação final do episódio que comentei:
Hoje, estou de aniversário, 31, vai vendo. Minha irmã me ligou e eu estava me queixando de estar envelhecendo ao que ela respondeu: pelo menos você já casou. Fiquei tão chateada, de todas as coisas que já fiz nessa vida, em 31 anos, (não vou mentir: queria ter feito mais), mas, ainda assim, ela se lembrou só do meu casamento como um grande feito que deveria me acalmar diante do fato de passar dos trinta. Sei que ela não fez por mal, afinal, somos criadas assim. Escutamos nas novelas, filmes, em todos os lugares que casamento e filhos deveriam ser nossos grandes objetivos de vida. E é por isso que movimento feminista precisa crescer, ainda mais, para ocupar, ainda mais, esses espaços e quebrar esses padrões.
Enfim, todos os episódios de Criminal Minds começam e terminam com uma citação, vou copiá-los e terminar com a citação final do episódio que comentei:
(Uma mulher não deve depender da proteção de um homem, mas deve ser ensinada a defender a si mesma)
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Números:
por Mazu
Sinceramente, considero a desinformação e a ignorância duas das piores pragas da humanidade. Então, resolvi fazer um post informativo sobre alguns conceitos:
Dicionário Houaiss:
Feminismo
1 doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade
2 Derivação: por metonímia.
movimento que milita neste sentido
3 Derivação: por extensão de sentido.
teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos
4 Derivação: por metonímia.
atividade organizada em favor dos direitos e interesses das mulheres
Nazismo
1 doutrina e partido do movimento nacional-socialista alemão fundado e liderado por Adolph Hitler (1889-1945); hitlerismo, nacional-socialismo
Números:
Líderes mulheres no nazismo: 0
Número de mortos pelo nazismo: ainda não se sabe ao certo, mas a estimativa está por volta dos 9 milhões.
Número de mortos pelo feminismo: 0
Características:
Papel das mulheres para os nazistas: gerar filhos arianos saudáveis
Papel das mulheres para os feministas: basicamente, o que elas quiserem
Personagem do Nazismo: Hitler
Personagem do Feminismo: como é uma luta coletiva nunca conseguiremos citar um nome só. O feminismo tem personagens e milhares.
Relações históricas possíveis entre o feminismo e o nazismo:
As discussões internéticas cansam a gente a vida inteira porque muitos desses conceitos são idiotamente usados.
Quero dizer que, basicamente, chamar de nazista quem discorda de você é tipo xingar a mãe, sabe? Ir embora com a bola porque está perdendo, é, no mínimo, besta e superficial.
Não defendemos uma supremacia do feminino sobre o masculino, a gente quer isonomia e respeito, o que a gente obviamente não tem. Vide todo este blog e tudo o mais no mundo. Isso não tem nada que ver com nazismo. Agora, se me permitem o adendo, o nazismo foi um movimento machista. Claro que nem todo machista é nazista, mas todo nazista é machista, perceba.
O ponto todo deste post é que Feminazi não é um termo possível e nem engraçado, é um termo que deixa absolutamente claro como algumas pessoas devem voltar para a escola. Simples assim. Homenagem a tais pessoas, vinda diretamente de seu ídolo:
11 de setembro de 2012
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Mazu
2
Montserrat Moreno em seu livro Como se aprende a ser menina? explica que os homens escreveram a história e de alguma forma excluíram ou minimizaram a participação das mulheres em eventos históricos. A isso soma-se a forma como somos educadas: aprendemos a ocupar o lugar de coadjuvante, desde pequenas.
Não vou nem entrar no mérito do tipo de revolução que foi aquela, uma revolução burguesa e tals. Mas por que a participação feminina deve ser lembrada ou festejada? É ponto pacífico que as mulheres lutaram na revolução, contudo, depois, algumas não foram consideradas nem ex-combatentes, nem nada. Tudo bem, algumas constam como heroínas e combatentes em alguns documentos históricos, mas alguém lembra de uma jacobina ou girondina importante? Algum lugar político de proeminência foi dado a alguma dessas mães? A matéria não apontou nenhum desses fatores. Ficou só no "olha só do que a gente também participou".
por Mazu
Li esses dias uma matéria absurdamente curta, rasa e superficial sobre a participação das mulheres na Revolução Francesa. A matéria de uma página estava na Edição de 18 anos da revista Persona Mulher. Pessoalmente, tenho uma porção de problemas com a revista, mas a matéria me lembrou de umas questões bem importantes.
Li esses dias uma matéria absurdamente curta, rasa e superficial sobre a participação das mulheres na Revolução Francesa. A matéria de uma página estava na Edição de 18 anos da revista Persona Mulher. Pessoalmente, tenho uma porção de problemas com a revista, mas a matéria me lembrou de umas questões bem importantes.
Primeiramente, a autora conta como, na verdade, as mulheres ("mães com os filhos famintos") foram realmente quem impulsionaram a Revolução Francesa. Aliás, a revista toda segue muito essa linha de mostrar como, no fundo, no fundo, as mulheres estão por trás de tudo que acontece no mundo. Esse "por trás" me irrita muito, em primeiro lugar, porque já temos consciência, hoje, de que as mulheres participaram muito mais da vida política e social do que conta a história. Em segundo lugar porque devíamos estar à frente ou ao lado, pelo menos, e não por trás de nenhum acontecimento ou personagem histórica.
Mas, aparentemente, lendo livros de história e olhando para a constituição das instituições políticas, de esquerda, direita ou centro, a impressão é que as mulheres são sempre coadjuvantes ou vices, quando sequer figuram em algum acontecimento. A pergunta é: por que a história menciona pouco ou quase nada as mulheres? E quando menciona, por que é sempre a esposa, a amante, a filha de alguém?
Montserrat Moreno em seu livro Como se aprende a ser menina? explica que os homens escreveram a história e de alguma forma excluíram ou minimizaram a participação das mulheres em eventos históricos. A isso soma-se a forma como somos educadas: aprendemos a ocupar o lugar de coadjuvante, desde pequenas.
A impressão que tive da Persona Mulher é que a publicação festeja esse lugar de coadjuvante há dezoito anos. A matéria sobre a Revolução Francesa, por exemplo, aponta que estivemos ali e fizemos isso, mas esquece de mencionar o que as mulheres conseguiram com esse levante. Aonde chegaram?
Não vou nem entrar no mérito do tipo de revolução que foi aquela, uma revolução burguesa e tals. Mas por que a participação feminina deve ser lembrada ou festejada? É ponto pacífico que as mulheres lutaram na revolução, contudo, depois, algumas não foram consideradas nem ex-combatentes, nem nada. Tudo bem, algumas constam como heroínas e combatentes em alguns documentos históricos, mas alguém lembra de uma jacobina ou girondina importante? Algum lugar político de proeminência foi dado a alguma dessas mães? A matéria não apontou nenhum desses fatores. Ficou só no "olha só do que a gente também participou".
Obviamente, as mulheres fazem/fizeram grande diferença (e o trabalho pesado também) nas mudanças históricas e na participação social desde sempre. A grande questão para o movimento feminista contemporâneo é menos afirmar e festejar a participação feminina, e mais o resultado dessa participação. Se as mulheres eram boas o suficiente para subir no cavalo e destronar um rei, elas deviam ser boas o suficiente para o resto, fazer parte do governo que se formava em seguida.
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| Atrás do burguês sempre há uma grande mulher, atrás do revolucionário não há ninguém porque sua companheira segue ao lado e nunca atrás |
A gente esteve na história sempre, o tempo todo, ao lado e à frente e não por trás de nada, não. Penso que o momento chegou de cobrar esse nosso lugar ao lado e à frente. Comprovar historicamente a nossa capacidade e participação é mega importante, lógico que é, mas vira um elefante branco se não usarmos para ocupar espaços que nos permitam escrever e conduzir a história.
3
por Mazu
Mas, no caso da piada do trombadinha é um pouco mais grave. Acho que demonstra certo conformismo - aquilo do que se ri, uma criança assaltando alguém, assim como a mulher que apanha, ou os políticos corruptos, é parte da nossa vida. E, aparentemente, a gente está de boa com isso. A gente faz piada e ri para não chorar, sei lá.
Acho que causaria desconforto né? Eu espero. Mas e se fosse na terceira pessoa, imagina uns dos Rafas Bestas da vida dizendo:
por Mazu
Eu pessoalmente não gosto de stand-up, com preconceito ou sem, com pimenta ou com sal, não gosto. É pessoal. Contudo, divido minha vida com alguém que gosta e acabei assistindo um desses shows na TV. A gente já falou muito de humor aqui mesmo assim, fiquei pensando numa outra coisa. O que significa transformar coisa grave que acontece no cotidiano em piada? Tipo política, problema social, discriminação e preconceito, como isso tudo vira piada?
No caso em especial, o humorista encenava um trombadinha assaltando em inglês no Rio, isso porque as Olimpíadas estão chegando e todo mundo lá está aprendendo pelo menos um pouquinho do idioma para receber os turistas. Ele dizia como uma voz que imitava a de uma criança: gimme your wallet, you lose, playboy. E a platéia morria de rir.
O riso pode ser uma espécie de catarse, segundo alguns especialistas, alguma coisa incomoda e aí alguém fala e demonstra que sente também e o riso vem, meio que de alívio, tipo no caso da pergunta da Tia feita pela adolescente no Programa Livre. E aí, você pode usar a piada para dizer o que você sente e expressar realmente sua visão sobre alguém, tipo na parte em que o mentiroso diz o que ele acha realmente do seu chefe.
Mas, no caso da piada do trombadinha é um pouco mais grave. Acho que demonstra certo conformismo - aquilo do que se ri, uma criança assaltando alguém, assim como a mulher que apanha, ou os políticos corruptos, é parte da nossa vida. E, aparentemente, a gente está de boa com isso. A gente faz piada e ri para não chorar, sei lá.
Aí, eu tive uma ideia meio Loyola Brandão de criar uma stand-up ao contrário, imagina só uma mulher espancada fazendo piada sobre a vida, ou uma criança agredida e abandonada ou um paciente terminal de câncer:
Oi, sou fulana. Uma coisa que vocês devem saber a meu respeito é que eu apanho todo dia do meu marido. O pior dia é segunda, agora eu gosto mesmo é de quarta, porque é dia de futebol e ele se esquece de mim.
Acho que causaria desconforto né? Eu espero. Mas e se fosse na terceira pessoa, imagina uns dos Rafas Bestas da vida dizendo:
Mulher de malandro gosta mesmo é de quarta-feira, que quarta tem futebol e aí ela não apanha.
Acho que é isso a chave para o riso, não é com você, não é de verdade, aí pode rir. Mas olha, se para haver riso precisa haver identificação (por isso que dominar outro idioma não significa entender piadas de outras culturas), se a gente ri, a gente se identifica.
Eu já fui assaltada por uma criança no Braz em São Paulo, foi uma das coisas mais tristes que me aconteceu. Já me passaram a mão no metrô, que também foi uma das piores coisas que me aconteceu. Eu queria mesmo que falar isso sério não causasse desconforto e sim debate, ação e mudança! E que falar disso brincando não fosse essa catarse besta, fosse só o que é mesmo, piada ruim, sem graça.
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| Ele é um comediante brilhante no quesito não fazer rir |
27 de agosto de 2012
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humor,
liberdade de expressão,
Mazu,
preconceito
1

Lênin, em 1901, escreveu uma coisa muito legal sobre ideologia e espontaneidade. Ele disse que tudo que não servia a ideologia socialista, servia à ideologia burguesa e que esperar um despertar espontâneo do proletariado era problemático porque isso significava permitir a subordinação, a escravização dos operários pela burguesia. Dando um passo bem largo na analogia, a gente pode aplicar isso para o machismo e toda forma de opressão. Na nossa sociedade não fazer nada, não dizer nada sobre o machismo é trabalhar em favor dele. Uma mulher oprimida, ou qualquer oprimid@, tem uma dificuldade bem maior e óbvia de se colocar, se defender. A gente também não pode contar que os opressores tenham crises súbitas de consciência.
por Mazu

Com esse negócio de agressor ter de pagar benefício previdenciário da mulher agredida, o que foi - além de super legal - uma iniciativa conjunto do Ministério da Previdência e da Secretaria de Políticas para Mulheres, a Sra. Maria da Penha esteve muito por aqui (na Esplanada) esses dias. E nesse agito todo eu fiquei sabendo muita coisa sobre ela que eu não sabia, vou dividir com vocês, um pouco da história dela que está na Wikipédia, por sinal:
Maria da Penha Maia Fernandes (Fortaleza, Ceará, 1945) é uma biofarmacêutica brasileira que lutou para que seu agressor viesse a ser condenado. Com 67 anos e três filhas, hoje ela é líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres, vítima emblemática da violência doméstica.Em 7 de agosto de 2006, foi sancionada pelo presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva a Lei Maria da Penha, na qual há aumento no rigor das punições às agressões contra a mulher, quando ocorridas no ambiente doméstico ou familiar.Em 1983, seu marido, o professor colombiano Marco Antonio Heredia Viveros, tentou matá-la duas vezes. Na primeira vez atirou simulando um assalto, e na segunda tentou eletrocutá-la. Por conta das agressões sofridas, Penha ficou paraplégica. Nove anos depois, seu agressor foi condenado a oito anos de prisão. Por meio de recursos jurídicos, ficou preso por dois anos. Solto em 2002, hoje está livre.O episódio chegou à Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e foi considerado, pela primeira vez na história, um crime de violência doméstica. Hoje, Penha é coordenadora de estudos da Associação de Estudos, Pesquisas e Publicações da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência (APAVV), no Ceará. Ela esteve presente à cerimônia da sanção da lei brasileira que leva seu nome, junto aos demais ministros e representantes do movimento feminista.A nova lei reconhece a gravidade dos casos de violência doméstica e retira dos juizados especiais criminais (que julgam crimes de menor potencial ofensivo) a competência para julgá-los. Em artigo publicado em 2003, a advogada Carmem Campos apontava os vários déficits desta prática jurídica, que, na maioria dos casos, gerava arquivamento massivo dos processos, insatisfação das vítimas e banalização da violência doméstica.
![]() |
| Cartilha explica os direitos previdenciários das mulheres vítimas de violência |
É uma história phoda né? Eu realmente não consigo usar outro termo. Na semana passada, em que a lei Maria da Penha fez seis anos, muito eventos aconteceram, muitos números foram publicados. Um desses eventos foi o lançamento da Cartilha do INSS sobre a violência doméstica e seu impacto no sistema previdenciário. Durante a solenidade do lançamento, um grupo de teatro formado por policiais civis aqui do DF apresentaram uma peça sobre violência doméstica “Bye bye Baby e outras mulheres”, dirigida por Lívia Fernandez, que retrata a história da relação conflituosa do casal Baby e Arlindo. Ela tenta manter o casamento mesmo sofrendo ameaças e ofensas do marido (Roberto Homem). As colegas que foram ao evento e assistiram à peça disseram que a angústia no rosto da Maria da Penha durante a apresentação era visível. Não é para menos.
Uma das coisas mais notáveis na peça, contudo, é o final: depois de encenar as agressões sofridas por uma mulher, a peça termina de um jeito muito peculiar. Os atores interrompem a peça e chamam alguém da platéia para fazer o papel da agredida e dar um final para a história.
Por que isso é tão digno de nota? Perceba, um dos grandes problemas na aplicação da lei (o que gerou até uma modificação nos requisitos de queixa e denúncia recentemente) é o fato de as mulheres desistirem de prosseguir com a queixa. É super fácil dizer o que é o certo e o que deve ser feito quando não é com você. Mas, o que você faria, até onde iria nossa coragem se o problema fosse real, acontecesse conosco. Dizer que denunciaria, que bateria de volta, que terminaria o relacionamento, todo mundo diz, dizer é super fácil.
Tenho uma colega de trabalho, com a mesma idade que eu, 30, mesma formação, mesmo estilo, tatuada, contemporânea, leitora de livros legais, "ouvidora" de música massa. Essa colega teve uns problemas no relacionamento e resolveu pedir um tempo pro cara. Acordou com o então marido com uma faca na garganta dela, no meio da madrugada. Essa moça quase que não denuncia, mas denunciou. Dia desses me contou que de cansaço, desânimo, tristeza desistiu da queixa e manteve só as medidas protetivas.
Depois dessa história e tantas outras que a gente ouve, eu fiz as contas, muitas mulheres são e foram agredidas, mas a gente tem poucas Marias da Penha por aí.
O quanto de coragem ela precisou e de onde a coragem veio para ela? Queria prestar essa homenagem porque essa coragem da Maria Penha mudou tanta coisa para as mulheres agredidas no Brasil e acho que posso dizer que teve repercussão internacional.
Por outro lado, quando a coragem falta, o quanto nossos direitos ficam estagnados e são esquecidos.
Lênin, em 1901, escreveu uma coisa muito legal sobre ideologia e espontaneidade. Ele disse que tudo que não servia a ideologia socialista, servia à ideologia burguesa e que esperar um despertar espontâneo do proletariado era problemático porque isso significava permitir a subordinação, a escravização dos operários pela burguesia. Dando um passo bem largo na analogia, a gente pode aplicar isso para o machismo e toda forma de opressão. Na nossa sociedade não fazer nada, não dizer nada sobre o machismo é trabalhar em favor dele. Uma mulher oprimida, ou qualquer oprimid@, tem uma dificuldade bem maior e óbvia de se colocar, se defender. A gente também não pode contar que os opressores tenham crises súbitas de consciência.
E é por essas e por outras que a coragem das mulheres que reagem e reagiram deve ser celebrada e servir de exemplo.
Então é isso, companheirada, coragem! Quando a gente fica quieta ou finge que não vê a gente perde muito no regresso, no esquecimento, nesse machismo contemporâneo maquiado que se alimenta do nosso silêncio.
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por Mazu
A conversa com ela me fez botar reparo em duas coisas: como eu nunca tinha notado que taxista era uma profissão masculina (!!!) e como a gente (mulheres) é contra a gente mesmo.
por Mazu
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| Aline Moraes fez uma taxista na novela O Astro |
A gente já mencionou aqui de diversas formas que as coisas na sociedade se repetem meio que mecanicamente, a gente faz algo porque alguém fazia antes e assim velhos preconceitos e discriminações se apresentam em comportamentos e fenômenos que nos parecem "normais" porque, afinal de contas, não os conhecemos ou vimos de outro jeito.
Estou eu chegando à minha cidade natal para uma visita familiar e decido, no aeroporto, pegar um táxi. E olha só. A taxista era mulher! Nunca em todos esses anos nesta indústria vital, isso tinha acontecido antes.
Aproveitei o momento e manifestei meu espanto ao que ela respondeu de forma muito simpática: sério? Em Araçatuba, somos oito mulheres taxistas.
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| Elaine Cristina, em 2007, em um teste com cinco homens tirou a maior nota. |
Não sei bem dizer se isso é bom ou ruim porque não faço ideia de quantos taxistas existem em Araçatuba, mas deve ser pouco, de qualquer forma, me fez pensar.
Contei para ela sobre nosso blog (espero que ela nos encontre e leia o texto sobre ela) e fui despejando alguns números e perguntas para ela. Primeiramente, ela ficou bem espantada com alguns números, depois, me contou que teve dois incidentes de preconceito por ser mulher que foram claros e explícitos em oito anos. (Isso eu acho que deve ser pouco). Num dos causos que ele me contou, depois de o cara descer do táxi porque “onde já se viu uma mulher dirigir táxi quando deveria estar em casa, cuidando do lar”, ela me disse: sei lá, o cara deve ser árabe, né? Falei para ela que, infelizmente, não era "privilégio" árabe o tal comportamento.
Conversa vem e vai, ela me disse que na verdade tinha desistido da carreira de policial por conta do marido e que, agora, o relacionamento acabou e ela ficou sem a carreira que tanto queria (para ser policial militar existe um limite de 30 anos no ato da inscrição para o concurso, e ela tem mais). Aparentemente, o ex-marido achava um grande problema sua mulher ser policial e ela levou de boa e desistiu. De toda forma, disse que não se sentia magoada nem por isso, nem pelos clientes que manifestaram o machismo, ela mesma não gostava de mulher em determinadas profissões e me confessou que nunca tinha ido a uma ginecologista do sexo feminino. Mas que achava lindo de ver as caminhoneiras. Eu ri, o papo estava bom, mas chegamos à casa dos meus pais e tive que descer.
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| Eleusa, com 1, 50 e 50 Kg, dirige a maior carreta do mercado. |
A conversa com ela me fez botar reparo em duas coisas: como eu nunca tinha notado que taxista era uma profissão masculina (!!!) e como a gente (mulheres) é contra a gente mesmo.
Isso de ser contra a gente mesmo vai desde concordar com o parceiro ou progenitor sobre a profissão, passa pelo achar normal que tal profissão seja masculina e vai até não confiar em nós mesmas em determinadas profissões.
Sério, meninas, se nós não somos por nós, quem vai ser?
Sério, meninas, se nós não somos por nós, quem vai ser?
6 de agosto de 2012
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machismo,
Mazu,
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preconceito
3
A violência e o machismo estão em todo lugar, quando você encontra nunca mais para de ver e se você parou de ver, sério, óculos ou exame profundo de consciência para você. Quando a gente distrai um pouco, está lá dizendo pro marido que é só uma menininha ou que fulana na novela é uma tremenda vadia. O machismo está no ar, triste, mas está, a gente tem que tossir e mostrar e não inalar nunca mais. ;)
Um exercício super legal, só que não, é prestar atenção nos comentários feitos nas notícias do yahoo e no blog da Lola. Aviso: parem antes de começar a pensar em suicídio. Depois disso, dá para ver que não é exagero pegar pesado com o machismo, porque quem é machista pega pesado demais, há tempo demais.
Já que disse que somos insistentes e que o machismo está em todo lugar, só para ilustrar e ser repetitiva e insistente, vou deixar os números, links e figuras abaixo:
Números tirados do Mapa da Violência, Anexo violência contra a mulher, sobre os números de atendimentos no SUS de incidentes de violência contra a mulher:
Notícia sobre a nomeação de uma mulher para a presidência da Comissão Sul-Africana.
Atentem para o seguinte comentário:
Link para as fotos da manifestação do Femem.
Leiam três comentários, no máximo, mais que isso risco de depressão profunda. ;)
por Mazu
O blog tenta derrubar o estereótipo de loucas varridas que as feministas têm, e a concepção errônea de que machismo e feminismo são coisas exclusivas de homens e mulheres, respectivamente.
Eu, por exemplo, super clamo para quem quiser ouvir que sou feminista e tals, só que, no dia a dia, a gente escorrega né? Vai vendo. Eu tive duas conversas bem engraçadas com meu marido esses dias, a primeira, sei lá bem por que eu disse que era feminista, e ele: sério? mas, você é tão legal. Só para constar ele estava me zoando. A segunda, eu: leva o lixo para fora, está pesado, eu sou só uma menininha. Ele: você percebe a hipocrisia na sua fala, né? E eu, claramente.
Contei essas anedotinhas da vida pessoal só para ilustrar como essas coisas percorrem a vida da gente no cotidiano. A afirmação de princípios dá um puta trabalho e você tem que respirar isso né? Por isso a gente tem fama de chata, porque se você procurar esse ou aquele preconceito, você acha em todo lugar a todo o momento e fica lá falando, mencionando, apontando e chateando quem está em volta. Uai. Não é todo mundo toda hora que está a fim. Antes que minhas amigas de luta tenham um derrame e me expulsem do blog: a gente tem que fazer isso mesmo. E chatear mesmo e falar para quem não quer ouvir. Olha só, falar sobre isso com quem é simpatizante do assunto é sussa, não muda nada. A gente precisa convencer quem acha que isso é loucura, só assim para conseguir alguma mudança. Acho que a gente é menos chata e mais insistente, na verdade.
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| "Cure uma feminista: transforme uma militante peluda, vegetariana e protestante em uma garota real." |
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| Eu apoiaria o feminismo, se vocês não fossem tão irritantes. |
Eu, por exemplo, super clamo para quem quiser ouvir que sou feminista e tals, só que, no dia a dia, a gente escorrega né? Vai vendo. Eu tive duas conversas bem engraçadas com meu marido esses dias, a primeira, sei lá bem por que eu disse que era feminista, e ele: sério? mas, você é tão legal. Só para constar ele estava me zoando. A segunda, eu: leva o lixo para fora, está pesado, eu sou só uma menininha. Ele: você percebe a hipocrisia na sua fala, né? E eu, claramente.
Contei essas anedotinhas da vida pessoal só para ilustrar como essas coisas percorrem a vida da gente no cotidiano. A afirmação de princípios dá um puta trabalho e você tem que respirar isso né? Por isso a gente tem fama de chata, porque se você procurar esse ou aquele preconceito, você acha em todo lugar a todo o momento e fica lá falando, mencionando, apontando e chateando quem está em volta. Uai. Não é todo mundo toda hora que está a fim. Antes que minhas amigas de luta tenham um derrame e me expulsem do blog: a gente tem que fazer isso mesmo. E chatear mesmo e falar para quem não quer ouvir. Olha só, falar sobre isso com quem é simpatizante do assunto é sussa, não muda nada. A gente precisa convencer quem acha que isso é loucura, só assim para conseguir alguma mudança. Acho que a gente é menos chata e mais insistente, na verdade.
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A violência e o machismo estão em todo lugar, quando você encontra nunca mais para de ver e se você parou de ver, sério, óculos ou exame profundo de consciência para você. Quando a gente distrai um pouco, está lá dizendo pro marido que é só uma menininha ou que fulana na novela é uma tremenda vadia. O machismo está no ar, triste, mas está, a gente tem que tossir e mostrar e não inalar nunca mais. ;)
Um exercício super legal, só que não, é prestar atenção nos comentários feitos nas notícias do yahoo e no blog da Lola. Aviso: parem antes de começar a pensar em suicídio. Depois disso, dá para ver que não é exagero pegar pesado com o machismo, porque quem é machista pega pesado demais, há tempo demais.
Já que disse que somos insistentes e que o machismo está em todo lugar, só para ilustrar e ser repetitiva e insistente, vou deixar os números, links e figuras abaixo:
Números tirados do Mapa da Violência, Anexo violência contra a mulher, sobre os números de atendimentos no SUS de incidentes de violência contra a mulher:
- relação com o agressor: até os 14 anos os pais são os principais responsáveis, dos 20 até o 59 preponderam os parceiros e, a partir dos 60 anos, os filhos;
- 56% dos casos envolvem o uso de força corporal ou espancamento;
- 68,8% dos casos ocorrem dentro da casa da vítima
- 42,5% dos casos, o agressor é o parceiro ou ex-parceiro, na faixa etária de 20 a 49 anos, essa porcentagem sobe para 65%
Notícia sobre a nomeação de uma mulher para a presidência da Comissão Sul-Africana.
Atentem para o seguinte comentário:
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| "Mas vamos ver se por ser mulher ela corresponde as espectativa (sic)" |
Leiam três comentários, no máximo, mais que isso risco de depressão profunda. ;)
30 de julho de 2012
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por Mazu
Esse tweet, genial, diga-se de passagem, me fez pensar o que diabos é a honestidade feminina afinal de contas? Legalmente falando, foi só em 2005 que o texto do código penal substitui “mulher honesta” por “mulher” para descrever o crime de estupro, foi nesse ano também que adultério deixou de ser crime, porque até então vinha sendo usado como defesa para homens que assassinavam suas parceiras infiéis.
por Mazu
CPI no Brasil sempre foi uma coisa mais cômica e triste do que deveria ser. Mês passado, escutei no rádio alguns trechos das discussões entre os senadores e os ouvi chamando uns aos outros de tchutchuca e tigrão. Sério, posso dar o contexto que quiser para isso, nenhum fica bom.
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| Carlos Cachoeira, contraventor |
Sob meu ponto de vista, a gente se distrai com tudo por aqui quando devia prestar atenção em aspectos políticos da situação do nosso país. Acho que só lembramos que a CPI investigava o senador Demóstenes quando ele foi efetivamente cassado. A CPI chamada de CPI do Cachoeira era, na verdade, sobre o Demóstenes Torres. O "contraventor" (eu adoro quando a mídia usa essa expressão), Carlos Cachoeira, é civil, e o procedimento investigatório de civil é inquérito policial, CPI é só para os caras do congresso.
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| Denise Leitão e Senador Ciro Nogueira |
Dentre as distrações do processo investigatório, que foram muitas por sinal, temos a história da advogada e assessora de senador, Denise Leitão. Aparentemente, ela distrai todo mundo, eu, você e a mídia, porque ela é muito bonita e faz sexo. Enfim. Aparentemente, ela está sendo demitida do cargo por isso também. Não conheço a moça, mas levanta mão aí quem acha isso, assim, injusto. A história é que um ex-namorado da assessora, a qual vinha fazendo sucesso pela aparência física, resolveu soltar um vídeo íntimo dela na internet. Fatos relevantes: ela não estava nas dependências do órgão que trabalha, ela não estava com um de seus superiores ou subalternos e ela não estava em horário de serviço. E vai perder o emprego porque o senador para o qual trabalha está constrangido com o comportamento dela e não quer ficar dando explicações sobre isso o resto do mandato. Puxa vida, que dó dele, né. Bom, chamei atenção para onde ela estava e com quem (no vídeo) porque essas seriam razões, do ponto de vista jurídico, para demissão de servidor de órgão público, a primeira delas descrita como "conduta escandalosa na repartição" no estatuto do servidor público, lei 8112. Mas como disse, não foi o caso. Ela não descumpriu norma, nem desobedeceu lei alguma.
Esse tweet, genial, diga-se de passagem, me fez pensar o que diabos é a honestidade feminina afinal de contas? Legalmente falando, foi só em 2005 que o texto do código penal substitui “mulher honesta” por “mulher” para descrever o crime de estupro, foi nesse ano também que adultério deixou de ser crime, porque até então vinha sendo usado como defesa para homens que assassinavam suas parceiras infiéis.
O tweet faz uma relação bem bacana entre o ato (sexo consensual com um homem adulto) de Denise Leitão e o ato de Jaqueline Roriz, filmada recebendo dinheiro de caixa 2 para campanha. A Roriz foi absolvida pelos seus colegas deputados, agora, será que se depois de receber o dinheiro ela fizesse sexo com alguém no mesmo vídeo, de maneira não relacionada com sua profissão, ela seria absolvida também? Será que se tivéssemos notícia de sua vida sexual de alguma forma, e essa vida fosse diferente do “padrão”, ela seria sequer eleita?
Tenho uma amiga muito bonita que depois de uns 15 anos trabalhando em um órgão foi promovida para uma função de chefia. A rádio corredor diz que ela transou com alguém por isso. Eu sei que não foi assim, e ela sabe, ela não liga para o que dizem, mas eu sim. Fico brava, compro briga, enfim. Isso por que, no ambiente de trabalho, mulher sofre para afirmar a própria competência e quando é bonita, parece que é pior. Aparentemente, beleza e liberdade sexual não podem coexistir com competência. A gente tem sempre um estereótipo para derrubar nesse domínio implícito do masculino. Já disse, não conheço a Denise, mas, estou com a impressão de que ela está passando por algo parecido, em um grau super aumentado.
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| Agente Tapajós, investigador da operação Monte Carlo, morto em Brasília, semana passada. |
O Código Penal e Civil brasileiros mudaram, mas alguns estigmas permanecem. A nossa honestidade e competência continuam, de uma forma esquisita e triste, sendo definidas pelo tanto de parceiros e sexo que uma mulher tem durante a vida, pela forma que se veste e se comporta.
Bom, eu tenho a resposta para as mulheres: roube se quiser, mas não faça sexo. Para homens, é mais fácil, foram eles que escreveram as leis.
23 de julho de 2012
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22
por Mazu


por Mazu
Nesses seis anos de Lei Maria da Penha, existiram alguns casos em que a lei foi aplicada para resguardar a segurança de homens. Houve sobre isso debates e comentários mil, na mesma época, inclusive, em que se estava tentando estabelecer a constitucionalidade da lei, já que ela diferencia homens e mulheres, o que estava sendo interpretado por alguns como inconstitucional. Bom, direito é uma disciplina que me encanta muito, mas não sou especialista, logo não vou me meter a dar uma opinião. Eu trouxe esse assunto antigo à tona para falar um pouco da violência doméstica contra os homens. Acho que a primeira vez que lei foi aplicada para proteger um homem foi em 2008 em Cuiabá, salvo engano.
O caso foi o seguinte: um homem conseguiu a aplicação da lei para se defender de sua mulher que o estava agredindo: bateu nele, quebrou seu carro e tals. Não tenho detalhes do caso, na verdade, ninguém pode ter. Ele fez a denúncia e pela característica repetitiva das agressões pediu as medidas protetivas. Existe muita especialista que não curte esse negócio da lei se aplicar aos homens, mas me pareceu que o juiz foi super lúcido. Ele apontou que foi bem melhor que ele tomasse essa atitude do que tivesse buscado vingança pessoal e cometido alguma violência contra a mulher. Disse também que o número de casos de violência contra o homem é bem menor (o que também é mostrado pelo mapa da violência), mas que os homens não denunciam por vergonha e preferem tomar as próprias atitudes ou ficar quietos. Ou seja, os homens quando são agredidos, ou agridem de volta ou se calam.

E isso me lembrou uma amiga, assistente social em Campinas-SP, que me contou de um caso de um homem que tomava inúmeras surras da mulher e não fazia nada, quando minha amiga falou com ele, ele disse que morria de vergonha de fazer qualquer coisa porque onde já se viu apanhar de mulher? Lembrei também um episódio de Law and Order - Special Victims Unit (Episódio 10, temporada 3, "Ridicule") em que a vítima de estupro era um homem, e as estupradoras, três mulheres. Na série, o cara tenta denunciar e ninguém, além da nossa querida Detetive Benson, leva o cara a sério.
É fato que quando existe violência sexual contra mulheres ou homens, o agressor costuma ser do sexo masculino. Agora, se levarmos em conta que no Brasil, só com uma lei de 2009, que o homem passou a ser considerado também vítima de estupro, se houvesse ou existisse um caso como o do seriado, será que o cara denunciaria? E se denunciasse, será que alguém escutaria?
É possível o homem ser vítima e a mulher agressora. Os meninos não assumem isso ou qualquer outra vulnerabilidade porque simplesmente não foram criados e educados para isso. Aliás, na maioria, foram educados para morrer de vergonha dessas coisas, fingirem que elas não existem. E isso é raiz de várias coisas né? E não é bom para os caras não. Não mesmo. Nem para a gente também.

Eu sei e todo mundo sabe que a violência doméstica tem como vítima preferida a mulher, os números são incrivelmente maiores. Eu só queria mesmo tentar mostrar como uma sociedade machista pode ser hostil por inúmeros motivos aos homens também. Pensa só, um homem agredido pela parceira fica quieto por vergonha, uma mulher agredida pelo parceiro fica quieta por medo. Meu, não seria, sei lá, mágico viver em um mundo em que o machismo não existisse de ninguém para ninguém? E que violência e/ou tolerância à violência não fossem justificadas por bobagem nenhuma?
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por Mazu

por Mazu
Um dos objetivos do nosso blog é divulgar um pouco da teoria feminista, buscando desmistificar a fama de loucas queimadoras de sutiã e destruidora de lares que cerca ainda os militantes do movimento feminista.

Hoje vou falar um pouco do trabalho de mestrado de uma companheira do Coletivo Feminista da Unicamp, a Maira Abreu. Estivemos juntas no início da formação do coletivo e dividimos vários momentos e debates acalorados e produtivos. A dissertação de mestrado da Maira fala sobre o feminismo dentro da militância de esquerda e é muito interessante.
Para começar ela traz algumas definições básicas do que é feminismo (eu gosto sempre de lembrar que feminismo não é o oposto de machismo) e um pouco da história do movimento no mundo e depois começa a tratar do Brasil e do papel das mulheres durante a militância na época da ditadura.
Conversando com a Maira lá por 2004, ela na iniciação científica ainda, ela me contou da dificuldade que tinha de afirmar que existia machismo dentro dos movimentos de esquerda. Era como se os revolucionários fossem sagrados e perfeitos, e toda vez que ela tentava mostrar isso entrava em conflito com alguém. Enfim, fico feliz que ela tenha conseguido. E mais, concordo com ela, machismo não é necessariamente "privilégio" dos movimentos de direita ou mais tradicionais da sociedade. Convivi com militantes a vida toda e existe muito machismo dentro da militância de esquerda, pode ser velado, pode ser disfarçado (como é um pouco toda discriminação e preconceito na sociedade atual), mas existe sim. Está lá.
A dissertação da Maira, por sua vez, está aqui. Boa leitura e bora debater sobre isso. ;)
A dissertação da Maira, por sua vez, está aqui. Boa leitura e bora debater sobre isso. ;)
9 de julho de 2012
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Por Mazu
Por Mazu
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| "A história de Elize Matsunaga, assassina confessa, que esquartejou o marido milionário enquanto a filha dormia" |
Queria começar dizendo que sou contra violência, toda ela, queria que não existisse. Sinto mesmo que por mais escrota que uma pessoa seja, ela não merece ser esquartejada. Sinto isso daqui do meu computador, no ar condicionado, sem ninguém me ameaçando ou ameaçando alguém que amo. Se estivesse em outra situação, sinceramente não sei. Dito isto, gostaria de tecer um ou dois comentários a respeito da matéria da revista Veja sobre o caso de Elize Matsunaga.
A capa me chateou bastante por ser super sexista e sensacionalista, por sua vez, a matéria dentro da revista estava menos preconceituosa e tendenciosa do que o esperado pela capa, ainda assim, foi bem mais curta do que eu esperava. O fato é que essa edição vendeu horrores, e a gente bem sabe que a capa teve parte no milagre. Acho que quando digo sensacionalista, meu ponto está bem claro pela escolha dos termos, pela formulação do título e subtítulo. E sexista pela “mulher fatal", penso que podemos convir que o termo denota e conota preconceito, usado para o "bem" ou para o "mal". Na maioria das vezes, a mulher fatal é a vilã (porque a mocinha tem que ser a virgem). E o grande problema é que este caso não é tão preto no branco assim, existem milhares de tons de cinza. Não estou defendendo ou dizendo que a Elize é uma heroína, acho só que qualquer definição absoluta e maniqueísta dela deixaria a desejar. E que o rótulo de vilã lhe foi dado sem maiores considerações porque ela é mulher e porque já foi garota de programa.
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| História de Elize foi comparada a Uma linda mulher pela Veja |
Para tentar construir meu argumento, vou comparar a Elize com o goleiro Bruno do Flamengo que também virou capa de revista. Não vou compará-los como pessoas ou pelos crimes porque não os conheço nem sou jurista, vou compará-los por suas respectivas exposições na mídia.
Pelo que se diz, o Bruno alimentou seus cães com a mãe do seu filho recém nascido. Foi capa de revista, mas estava de roupa, sem nenhuma nomenclatura estereotípica ou condenatória e duvido que tenha vendido tanto ou tanto pelo mesmo motivo. Novamente, aviso aos navegantes, não aprovo nada disso, não acho ninguém que cito no meu texto um grande exemplo de vida ou de ser humano. Mas, gostaria mesmo de entender por que o fato de ser mãe e a crueldade da Elize pesam tanto mais. O Bruno é pai, não é? Ele premeditou o crime, ela não.
São dois pesos e duas medidas. O fato de Elize e Bruno serem pais pesa mais para Elize porque ela é mulher e na nossa cultura, ser mãe implica mais responsabilidade do que ser pai. O fato de ser uma ex-garota de programa pesa mais para Elize do que o fato do marido dela comprar mulheres por aí como se elas fossem coisas. Aliás, ele comprava mulheres por aí “enquanto a filha dormia”, o que parece ser um fato muito importante para a Veja: fazer as coisas enquanto os filhos dormem. O que será que o Bruno fazia enquanto seus filhos dormiam? Bruno e o executivo da Yoki eram pais também, mas Elize é mãe, consequentemente, seus crimes são piores porque existe um imaginário, uma imposição social inculcada nas mulheres e nos homens de que as mulheres têm que ser mais delicadas, amáveis, santas, têm que perdoar, têm que amar seus filhos e companheiros acima de tudo e todas as coisas. A gente já falou disso aqui de várias formas, mas o assunto nunca se esgota porque o padrão só faz se repetir.
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| "goleiro", "ídolo" |
Em cima de tudo, como cereja do bolo, ainda tem a questão legal. Elize não recebeu relaxamento de prisão, nesta última semana, pelo alarde midiático do seu caso e, vou chutar, pelo poder da família da vítima. Para quem estiver escandalizado: o relaxamento de prisão, no Brasil, nesses casos, é mega comum, considera-se que o réu primário em tais e tais circunstâncias não representa perigo para a sociedade. O interessante de tudo é que o Bruno, goleiro, teve relaxamento de prisão concedido. Inclusive, o Flamengo disse que seu lugar está garantido no time quando ele quiser. Contem para mim qual vai ser o lugar da Elize no mundo se um dia ela sair da prisão? Dado Dolabela virou a mão na cara de três mulheres e ainda é galã de novela, eu queria ver quando uma mulher que apresenta comportamento parecido é mocinha e onde. Lembrando que o artigo 5º da Constituição em seu inciso I, diz: homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição. - é, então, acho que não!
Meu ponto é: uma ex-prostituta que mata um executivo milionário vira capa de revista, recebe prontamente o rótulo de assassina, destruidora de lares. Agora, duvido que um executivo que mata prostitutas seja pelo menos indiciado. Não é que eu duvide diretamente da competência dos órgãos responsáveis, duvido de tudo mesmo. Duvido que mulheres em determinada situação façam a queixa, duvido que, depois disso, se assim fizerem, que alguém as ouça ou acredite nelas, depois disso, duvido que se faça alguma coisa, e em cima de tudo isso, duvido que a mídia se importe. Duvido! Aliás, parece que existe um serial killer de prostitutas solto em São Paulo, você já ouviu falar? Pois é.
E outra coisa, no mundo que a gente vive, por que homem fatal é um termo que não existe, por quê? Redundância? Sério mesmo, com a quantidade de mulheres assassinadas por seus companheiros no Brasil, com requintes de crueldade também, na frente dos filhos também. Não vira capa de revista, e sabe por quê? Porque nós somos mulheres, somos descendentes de Eva, todos os pecados são nossa culpa! - ou é pelo menos nisso que a sociedade patriarcal vem nos fazendo acreditar. Já cansei de ver gente chamando a vítima do Bruno, mãe do filho dele, de interesseira, piriguete, Maria chuteira e tal. Mas e aí? Tudo bem dar de comer aos cachorros então? Se um homem mata por ciúme/dinheiro/traição a culpa é da mulher; se a mulher mata por ciúme/dinheiro/traição a culpa é da mulher também. Sim, nasça com dois cromossomos X e ganhe a culpa do mundo de brinde! Sério, que poha é essa? Em pleno século XXI? Não me desce, não entendo nem aguento.
E isso me pega tanto justamente porque os números são absurdos assim e desiguais assim.
A cada cinco minutos, uma mulher é agredida no Brasil. - leiam isso e me digam se não dava uma puta capa de revista. Essa informação e outras mais estão no mapa da violência no Brasil, em seu caderno complementar sobre homicídio de mulheres. O documento conclui que os altos níveis de feminicídio são decorrentes de níveis altos de tolerância da violência contra as mulheres, aponta ainda que, embora existam leis, as políticas de aplicação não são tão efetivas.
Talvez seja o momento de fazermos uma relação entre a tolerância da violência contra mulher e a culpabilização da mulher nos casos em que ela é vítima. Se tudo que a acontece a mim, mulher, acontece porque eu deixo ou permito fica absurdamente difícil evitar, punir, contar ou prever.
No caso da Elize, gostaria de ver a separação das coisas e das culpas. Ela era agredida pelo marido, ela foi traída pelo marido - essas atitudes foram dele, não dela. Agora, ela assassinou o marido, esta atitude é dela e de mais ninguém. Não importa o tipo de pessoa que a mãe do filho Bruno tenha sido, ele a matou/mandou matar - esta atitude é dele e somente dele. A respectiva culpa para o respectivo agente.
Gostaria mesmo de viver um dia em uma sociedade em que meus erros não fossem mais errados e meus acertos não fossem menos certos só porque eu sou mulher.
2 de julho de 2012
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por Mazu
Faz um tempinho que não apareço por aqui, então, vou fazer uma postagem dupla. Primeiro quero falar do vídeo da Montserrat Moreno que estou devendo há semanas. Aqui está, senhoras e senhores, com legendas, nada profissionais e sofridas porque espanhol europeu, naquela rapidez, difícil:
Educar com igualdade para aprender a amar sem violência.
Lembrem-se de selecionar o idioma da legenda para que elas apareçam.
Tem algumas coisas que queria comentar sobre o vídeo, já falamos muito aqui dos padrões que são seguidos na educação e que colaboram para a disseminação de alguns preconceitos, comportamento e discriminações. Depois de assistir ao vídeo, vocês vão entender que todos eles vieram da bunda dos cavalos da Grécia antiga. É pois é. De qualquer forma, ela destaca a importância de continuarmos a buscar nosso espaço no mundo acadêmico e seguirmos defendendo o que já conquistamos.
Agora, gostaria mesmo de chamar atenção para o final do vídeo sobre os mitos do amor romântico. O vídeo faz a gente pensar em todo mundaréu de bobagens que a gente ACHA que tem que aguentar por amor. Por exemplo, existem mulheres que suportam/suportaram violência e outras coisas por amor. Vai vendo.
Já disse aqui antes que minha mãe foi feminista, posso dizer seguramente que ela deixou de ser por amor. Olha que bosta. Então, depois de Montserrat Absoluta Moreno ter matado o cupido, vou deixar alguns conselhos pós-semana dos namorados:
Amor pra ser massa, tem que fazer bem. Ninguém deve suportar nada que lhe violente de forma alguma por amor, amor não é isso não. Isso é opressão, a gente já viu aqui que a opressão se veste de um monte de coisas. No caso das mulheres, se veste de humor, se veste de amor, instinto maternal e assim vai. Não é que as pessoas não devam se apaixonar ou ser mães e pais ou se casar. Não é isso. É que fica parecendo, a nossa sociedade faz parecer, que ser esposa, namorada, mãe deve ser a prioridade da mulher. Pode ser, se você quiser. Se não, beleza.
E toda vez que lhe for oferecido ou cobrado amor eterno e incondicional pergunte o porquê. Não entregue sua vida e sua existência a ninguém, nem por amor. Todo relacionamento prevê uma ou mais pessoas, ninguém deve fazer todo o trabalho. A gente sempre tem o direito de falar sim e sempre tem o direito de falar não. As pessoas fazem falta, mas seguimos sendo inteiras sem elas. Eu diria que ficamos mais inteiras sem algumas pessoas.
Eu queria muito que minha mãe ouvisse isso um dia ou que minha colega de trabalho que me contou hoje que desistiu de denunciar o ex-marido ouvisse isso. E eu quero, um dia, ensinar isso pros meus filhos. Queria mesmo que a gente abandonasse essa medida. Esse padrão.
E já que estamos falando de amor...
por Mazu
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| A gente consegue. |
Educar com igualdade para aprender a amar sem violência.
Lembrem-se de selecionar o idioma da legenda para que elas apareçam.
Tem algumas coisas que queria comentar sobre o vídeo, já falamos muito aqui dos padrões que são seguidos na educação e que colaboram para a disseminação de alguns preconceitos, comportamento e discriminações. Depois de assistir ao vídeo, vocês vão entender que todos eles vieram da bunda dos cavalos da Grécia antiga. É pois é. De qualquer forma, ela destaca a importância de continuarmos a buscar nosso espaço no mundo acadêmico e seguirmos defendendo o que já conquistamos.
Agora, gostaria mesmo de chamar atenção para o final do vídeo sobre os mitos do amor romântico. O vídeo faz a gente pensar em todo mundaréu de bobagens que a gente ACHA que tem que aguentar por amor. Por exemplo, existem mulheres que suportam/suportaram violência e outras coisas por amor. Vai vendo.
Já disse aqui antes que minha mãe foi feminista, posso dizer seguramente que ela deixou de ser por amor. Olha que bosta. Então, depois de Montserrat Absoluta Moreno ter matado o cupido, vou deixar alguns conselhos pós-semana dos namorados:Amor pra ser massa, tem que fazer bem. Ninguém deve suportar nada que lhe violente de forma alguma por amor, amor não é isso não. Isso é opressão, a gente já viu aqui que a opressão se veste de um monte de coisas. No caso das mulheres, se veste de humor, se veste de amor, instinto maternal e assim vai. Não é que as pessoas não devam se apaixonar ou ser mães e pais ou se casar. Não é isso. É que fica parecendo, a nossa sociedade faz parecer, que ser esposa, namorada, mãe deve ser a prioridade da mulher. Pode ser, se você quiser. Se não, beleza.
E toda vez que lhe for oferecido ou cobrado amor eterno e incondicional pergunte o porquê. Não entregue sua vida e sua existência a ninguém, nem por amor. Todo relacionamento prevê uma ou mais pessoas, ninguém deve fazer todo o trabalho. A gente sempre tem o direito de falar sim e sempre tem o direito de falar não. As pessoas fazem falta, mas seguimos sendo inteiras sem elas. Eu diria que ficamos mais inteiras sem algumas pessoas.
Eu queria muito que minha mãe ouvisse isso um dia ou que minha colega de trabalho que me contou hoje que desistiu de denunciar o ex-marido ouvisse isso. E eu quero, um dia, ensinar isso pros meus filhos. Queria mesmo que a gente abandonasse essa medida. Esse padrão.
E já que estamos falando de amor...
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| Eu quero te dar meu coração, vc quer? - Não obrigada. |
27 de junho de 2012
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por Mazu
Na boa, gente, namore ou não, dê muito, pouco ou não dê, não deixe que ninguém te julgue por isso, respeito é bom, todo mundo gosta e é lei na República Federativa desse nosso Brazilzão, que tem uma mulé como chefe de Estado, diga-se de passagem. Transcrevi um texto massa da Tiburi aqui para a gente, fica minha homenagem às namoradas e não namoradas:
por Mazu
12/06/2012
Véi, na boa. Odeio dia dos namorados. Antes que alguém me julgue pela falta ou presença de sexo e amor na minha vida, já adianto: considero-me uma pessoa amada pelos amigos, maridão, irmãos e tals. Então o fato de eu odiar o dia dos namorados não tem a ver com meus relacionamentos. Não gosto por vários motivos: para começar, existe uma pressão para não ser sozinho que eu não entendo (aprecio solidão e acho necessária até quando se está em um relacionamento); para terminar, a pressão é bem maior para as mulheres (só pra variar). Além disso, tem a questão comercial, odeio que o capitalismo consumista me diga que eu tenho dia certo para trepar, que bosta!
Esta fatídica terça-feira dos namorados, li de tudo por aí sobre isso. No Twitter, uma amiga querida disse que é melhor ser solteira do que ser como as namoradas chifrudas. Um colega disse que ia ter uma porção de mulher pensando "me coma, por favor, me coma". Enfim, tuítes machistas aqui e acolá e a gente bem sabe.
No mundo de hoje que sei lá por que as pessoas temem a solidão, parece que as mulheres são as que mais temem, ainda. Eu sei, eu sei, isso é tão século XIX que dá tristeza. Fora que se a gente for levar em conta os padrões da sociedade patriarcal, ser sozinha é uma puta bom negócio, casar para quê? Para ser a empregada doméstica de alguém? Casar, nessa sociedade, é um bom negócio para o homem que vai ter alguém para cuidar dele, já que ninguém o ensina a se cuidar sozinho (nas questões domésticas). Obviamente, estou me referindo a casais heterossexuais, deve rolar mais paridade nos casais homossexuais (eu imagino). Dessa diferença de funções no matrimônio, a gente volta para aquela questão de como são educados os meninos e as meninas. De qualquer maneira, ainda que tenhamos nos afastado um pouco disso hoje, a sociedade ainda vende relacionamento, casamento como um fim, um objetivo de vida, faz o mesmo com a maternidade também. Sem querer ofender, nem casamento, nem relacionamento, nem maternidade significam felicidade ou satisfação de maneira direta, como fins em si mesmos. E isso é bem pior quando se é mulher, porque, aparentemente, a responsabilidade é bem mais nossa. Enfim, nenhuma mulher é menos mulher ou vale mais ou menos porque não namora ou porque namora demais, porque é mãe ou porque não quer ser. Eu fico achando que isso está ficando claro, aí chegam essas malditas datas comemorativas e mostram que estamos na idade média ainda.
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| Não, obrigada. |
A autoenunciação do desejo das mulheres e a desconstrução do mito da maternidade
(Publicada na coluna da Marcia Tiburi na Revista Cult)
A maternidade é um mito que necessita de urgente desmontagem crítica. Eis a tarefa que a filosofia feminista deve colocar para si mesma hoje em contextos culturais que não promovem a liberdade de escolha das mulheres, pela qual, a propósito, apenas elas podem lutar.Em tais contextos administrados pela ideologia masculinista, mulheres que abortam ou afirmam não querer ter filhos são vistas como anormais. Do mesmo modo, mães que não ajam segundo certo padrão de maternidade em que a dedicação total à criança é a lei, seja por cansaço ou falta de afinidade com o mundo dos cuidados, são vistas facilmente como perturbadas.Pelo simples fato de desejarem carreira, diversão ou uma simples vida mais livre, muitas mulheres se sentem culpadas, ou desistem de um projeto profissional ou pessoal. Praticam a maternidade como a condenação heteroimposta.Certo é que colocar pessoas em um mundo como o nosso não é uma tarefa para quem não esteja muito bem preparado, mas raramente se pergunta a uma mulher se ela está, pois que não se espera dela que não esteja. Há um dever imposto às mulheres, mas ele é mascarado pelo argumento do “desejo que toda mulher tem de ser mãe”. O termo “mulher” acaba por designar o ser do qual se pressupõe um desejo que será sempre o de ser mãe. O dever reza que seja hábil para a maternidade pelo simples fato de poder parir fisicamente crianças.Na cultura masculinista, “mulher” não é um conceito, mas uma ideia formada de preconceitos. Isso quer dizer que se pressupõe um saber sobre o desejo (o que sente, pensa e quer) o ser heterodeterminado “mulher” antes que ele mesmo se pronuncie sobre algo como “seu próprio desejo”. Nesse sentido, a pergunta “o que quer uma mulher?” não ajuda a sair do mistificatório circuito masculinista que, ao tornar misterioso o desejo feminino, faz parecer que exista um desejo universal da “mulher” (ela mesma um universal), e não desejos individuais e singulares de cada pessoa humana.No processo de mistificação, o sistema masculinista usa um padrão discursivo sempre fundado na ultrapassada ideia de natureza que aos poucos se torna clichê cansativo. Contra a pré-suposta “natureza da mulher” ou a suposta maior proximidade da “mulher” com a “natureza” coloca-se o homem como um ser de cultura e de racionalidade. A mulher fica com a “sensibilidade”, o instinto, a irracionalidade etc.Não quero ser mãeUma mulher enunciar “não quero ser mãe” soa como algo absurdo à moralidade patriarcal desde que a maternidade é vista como função natural, não determinada culturalmente. Segundo o preconceito da “natureza”, uma mulher deve querer ter filhos e não deve pensar nem dizer que não quer. Por trás dessa ideia, vai o subtexto: “mulher” não deve ter opinião, muito menos desconstruir opiniões vigentes. Pois uma mulher que fale negando a natureza, sobretudo da sacrossanta “maternidade”, nega duplamente o estigma dado pelo masculinismo: além de expressar-se, o faz dizendo que não quer ser mãe quando se esperaria dela o contrário, que não se expressasse e se tornasse mãe.A simples negação na segunda potência põe o discurso masculinista em xeque. A frase tem o poder de negar a marcação como mãe (lembremos que a mulher é sempre marcada: como bela, boa, gostosa; ou feia, frígida, mal-amada etc.) por meio da qual uma mulher se tornou escrava da cultura da qual ela não pode participar senão na condição que esta mesma cultura a prioridetermina para ela, manipulando sua consciência, seu corpo, sua ação.Só que o masculinismo é uma retórica prepotente que manipula agilmente suas armas: a “mulher” que se pronuncie contra ele (e basta pronunciar-se) será marcada com heterodeterminações desabonatórias. A “mãe desnaturada” é como o escravo que ousa desobedecer ao patrão e não é interpretado senão como um fujão mal-agradecido.A maternidade como imposição cultural é uma manipulação dos corpos femininos e, como tal, não é ética. É isso que está em jogo quando mulheres são tratadas como “meios” do projeto de vida de outros e não como um fim em si. Somente o autoenunciado do desejo feminino é capaz de libertar as mulheres. Ele é o ato feminista por excelência, a ação discursiva e performativa que faz do feminismo uma ética em que está em jogo a soberania do desejo feminino.A soberania que apavora os moralistas quando se fala em aborto é a mesma que enerva o cafetão. A mãe desnaturada é o nome que o moralismo encontra para sustentar autoritariamente a suposta verdade sobre o desejo das mulheres. Na contramão, a pergunta “o que quer o homem com o desejo das mulheres?” talvez nos ajude a entender melhor os subterrâneos de nossa cultura.
26 de junho de 2012
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maternidade,
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