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Dicas das tias feministas - Quando devo fazer sexo?

por Mazu



Quando se é menina e se faz sexo, existe o risco de ser julgada como galinha, piranha e outros adjetivos do tipo. Quando você não faz, você corre o risco de ser chamada de mal-comida, forever alone, e assim vai.

Por sua vez quando você é menino e você não faz sexo, você pode ser julgado como forever alone, viadinho, gay (como se os companheiros gays não fizessem sexo, vai vendo...) e assim vai. Quando você faz e não conta para ninguém, tem o mesmo efeito.


Tendo em vista esse dilema, titias, hoje, vão dizer quando se deve e como se deve fazer sexo. (ui, essas titias são tão sabidas!)

Quando se deve fazer sexo? Quando você quiser.

Você deve fazer por pressão do namorado? Não.

Você deve fazer por pressão dos amigos? Não.


Você deve fazer por medo de perder o namorado, emprego ou qualquer coisa? Não.

Mais uma vez, quando fazer? Quando quiser.

Quando não se deve fazer? Quando você não quiser.

Você deve deixar de fazer por medo de ser chamada de nomes ou "pegar fama"? Não.

Você deve deixar de fazer porque sua opção sexual não é "padrão"? Não.

Você deve deixar de fazer por pressão religiosa, familiar ou social? Não.


Quando deixar de fazer? Quando não quiser.

E como fazer? Com respeito, com segurança (vistam a toquinha) e com consentimento.

E lembre-se, se alguém fizer chantagem ou forçar de qualquer maneira uma relação sexual com você ou com alguém que você conheça, é crime. 190!

Então é isso, amiguinhos, até a próxima!


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Dicas das tias feministas


por Mazu
Sim, porque só as mães diriam isso. Aff.
Faz algum tempo já que venho notando que o slutshaming é uma prática corriqueira entre adolescentes. Não só entre os adolescentes, é verdade, mas nas redes sociais em especial, a prática entre os adolescentes me assusta e preocupa bastante. Posso ser boba, mas eu sempre esperei mais das novas gerações. Estou pensando que a gente devia criar uma página no FB e um twitter chamado “Dicas das titias feministas” que nem tem as Dicas do He-man, só que feminista coisa que o He-man não é, enfim, a gente pode ir amadurecendo a ideia.
Não aparece o rosto da She-ra porque ela cochilou
e ia ficar chato

A gente poderia começar tratando do que aconteceu com a Kristen Stewart e a Karina Veiga, já que esses dois casos deixaram a prática do slutshaming bem evidente entre jovens.

Para quem mora em Marte e não sabe do que estou falando, a atriz norte-americana da saga Crepúsculo, Kristen Stewart, traiu seu namorado (Robert Pattinson) e foi crucificada loucamente na mídia e redes sociais. Como se isso fosse problema de mais alguém além de eles dois. No final, os dois continuam juntos e, pelos rumores, terão um bebê. Um final nada parecido e absolutamente horroroso teve a história da estudante brasileira, Karina Veiga, que dizem que traiu o namorado porque ninguém sabe mesmo (no caso da Stewart rolou uma fotos e tals), mas o que a gente sabe mesmo é que o namorado divulgou fotos e vídeos íntimos do casal, usando a conta dela do Facebook. Ah, a vingança! ¬¬
Nem coloque nada intímo na internet,
vc ganhou chifres e não imunidade penal

Muita coisa me assustou nessas duas histórias, mas o que me deixou com dor de cabeça foi a quantidade de jovens mulheres que começaram a atacar as duas meninas por meio das internets (no caso da Stewart rolou até camiseta e tals). Isso me preocupa porque se a gente não for por nós mesmas, quem vai ser? Os caras é que não. Ok, existe homem feminista, mas não é como se eles dessem em árvores, especialmente porque, no caso deles, o processo de empatia deve ser mais complicado. Agora, com as meninas, era para ser mais natural, eu imagino. Aí eu leio plaquinhas sobre piriguetes e outros rótulos no Facebook e fico achando que, pelo jeito, estou imaginando errado.

Alguma companheira poderia dizer que era mais importante falar do comportamento machista do namorado envolvido na história da Karina Veiga, por exemplo, do que das meninas machistas, já que as meninas são mais vítimas de uma educação machista do que outra coisa. É fato, e a gente já tratou disso aqui e aqui. É lógico que eu não quero crucificar as meninas que têm comportamentos machistas, mas acho que o movimento tem que pensar em formas de abordar e tratar disso, porque é um grande problema.

Qué isso, cara? Mulher não é comida!
No caso do machismo do namorado traído, sinceramente, me dá uma preguiça depressiva comentar sobre o tipo de ser humano que ele é. Para começar quem sou eu, o que eu sei, não é mesmo? A única coisa que sei sobre ele é essa atitude gigantescamente escrota. Com base nisso unicamente, o que dá pra dizer é que ele é um gigantesco imbecil, mas, vai saber se ele já não salvou uns filhotinhos de gato de algum incêndio e tals. O que para mim não significaria nada, mas para algumas meninas adolescentes parece que significa muito. O que me leva ao centro dessa discussão, que são os príncipes encantados contemporâneos.

Porque a questão está justamente nesses mitos imbecilississimos que derivam da literatura romântica e do mito do par perfeito. Só para constar, o romantismo não é, em si, um problema. Ia ser hipócrita da minha parte criticar o romantismo. O problema é quando a gente passa a justificar determinados atos de violência, como é o slutshaming, usando o amor e o romantismo.

Pelo menos é isso que eu percebo nas adolescentes que realizam a inquisição das piriguetes. O que se fala, por exemplo, da Kristen: como ela foi trair o cara que é o Edward, um vampiro vegetariano e tudo mais. Como ela pode fazer isso? No caso da Veiga, então, pô coitado do namorado, estava com o coração partido, logo, tudo bem, porque no amor e na guerra vale tudo. Ruim é quem parte os corações por aí. Como ela não quis ser a princesinha de um cara só. Como?

O que me perturba muito é que algumas pessoas expressam esse tipo de opinião descrita acima e ninguém estranha, nenhum alerta de insanidade toca. Você lê um comentário com um conteúdo desse tipo e vai dormir à noite de boa, sério? Então, por amor, vale humilhar, vale bater, vale matar?! Alerta vermelho cereja intenso, gente! Grave isso, muito grave.

Vish...
Não sei por qual motivo, razão ou circunstância determinados mitos (tipo que por amor se mata ou se morre) seguem sendo propagados. Junto com uma educação sexista de que a gente ainda não conseguiu se livrar, isso cria um grande problema, a propagação de uma sociedade sexista e machista. Porque o que eu percebo, entre algumas meninas mais novas, é que elas genuinamente acreditam que se elas forem princesas, encontrarão seus príncipes. E o pior, serão felizes para sempre. Aí toda e qualquer pessoa que fuja disso, que se comporte de outra forma, alguém que ameace esse imaginário de qualquer maneira é uma pessoa má, uma vadia, uma piranha e tals. É, no feminino mesmo, porque os meninos quando não são príncipes estão sendo homens e, então, tudo bem. #NOT

Dicas das tias feministas
Então, titia Mazu vai estrear As dicas das tias feministas e contar um segredinho: esses mitos românticos de pureza e delicadeza das princesas só existem para deixar as mulheres obedientes. Assim como a educação diferenciada que se dá aos meninos e meninas. Tudo isso tem como objetivo a nossa submissão. Não a nossa felicidade.

Um relacionamento para ser feliz e durar não depende do que é considerado um bom comportamento. Um relacionamento não pode depender de um elemento seu apenas, já que os relacionamentos têm pelo menos dois ou mais indivíduos. O relacionamento para ser bom e dar certo não vai prender ninguém a nenhuma espécie de estereótipo. Vai se basear em respeito pelas pessoas, não em respeito pelo orgulho masculino, por exemplo.

O ponto é se alguém quiser esperar pelo seu príncipe ou princesa encantada, beleza. Quem quiser outra coisa, beleza. Só não pode usar determinadas expectativas ou frustrações decorrentes para fazer bullying em quem pensa ou se comporta de outra forma. Sacou?

Então, é isso minha gente, até a próxima.

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Dois ou três exemplos de equidade e o direito dos homens

 
por Mazu


Este fim de semana, conversei com uns amigos e percebi que tem gente que está sob a impressão muito nítida de que o feminismo trabalha única e exclusivamente pelo direito das mulheres. Levando em conta os papos e as impressões, eu pensei que seria interessante, se trouxéssemos alguns exemplos de como reivindicações de equidade entre gêneros produzem benefícios para todos, atualmente e historicamente. A gente fala toda hora, mas não custa repetir: a grande bandeira do feminismo é a  equidade, o que significa que lutamos pelos direitos de todo mundo de ser tratado igual quando for igual e diferente quando for diferente. O que acontece é que as mulheres ainda representam uma minoria política e social, e isso fica um pouco mais evidente na luta. Mas, na verdade, a equidade é equidade para homens e mulheres.


Em agosto deste ano, a Previdência Social do Rio Grande do Sul concedeu, depois de recurso pela via administrativa, o salário maternidade para um homem em uma união homoafetiva. Depois disso, em setembro, um homem que perdeu a mulher durante o parto obteve o mesmo benefício, dessa vez em recurso judicial. Seria melhor que a lei fosse mais abrangente e não dissesse que o benefício é devido “para a empregada segurada” e sim “para o empregado ou empregada segurada”, mas as decisões do juiz e da previdência social de RS são válidas, históricas e muito significativas. Quem sabe não se inicia um debate que culmine na alteração da letra da lei? Ia ser uma grande vitória. E de qualquer forma, enquanto o dia de alterar a lei não chega, acho que devemos ver as decisões jurisprudenciais como vitórias também.

Alguém poderia argumentar que salário-maternidade e licença-maternidade são, de fato, direitos da criança, não da mãe. Fato, é por isso que não se pode "vender" dias de licença-maternidade como é possível fazer com as férias porque o direito não é exclusivamente da trabalhadora. Mas, vale à pena citar, tendo em vista que esses pais conseguiram o direito de ficar com seus filhos de maneira justa e sem sacrificar seus direitos ou situações laborais.

Campanha pela extensão da licença-paternidade que, hoje,
são de mísero cinco dias
O segundo exemplo é mais histórico e bem interessante. Acho que todos já ouvimos falar da pensão por morte. Quando alguém que é segurado da previdência social morre, seus dependentes têm direito à pensão por morte. O que quase ninguém ouviu falar é que, antigamente, os maridos só recebiam a pensão por morte das esposas seguradas se fossem totalmente ou parcialmente inválidos ou incapacitados para o trabalho. Né? Por que onde já se viu, marmanjo precisar de ajuda para se manter? Foi somente com a lei número 8212 de 1991, sob a égide da nova Constituição Federal de 1988 que tem como um dos seus princípios a equidade, que isso mudou. Imagina se isso ainda valesse hoje, em que aproximadamente 10,8 milhões das unidades familiares no Brasil são mantidas e sustentadas por mulheres? Se a companheira morresse, o companheiro perderia grande parte ou toda a renda da família (supondo que seja um dos 10,8 milhões de casos citados acima), sem nenhuma espécie de compensação ou auxílio.

Eu leio sobre essas coisas e fico realmente feliz. Podem ser sinais pequenos, mas são sinais verdadeiros de mudança, de que nossa luta compensa. A gente escuta muita barbaridade e ofensa todo dia, como se fôssemos loucas e desvairadas numa sociedade "livre" (my ass) de preconceito e discriminação. Então, acho que devemos celebrar algumas pequenas vitórias. Inclusive de/para/com os homens que nos são caros e importantes! ;)

Equidade (Dicionário Houaiss)
1    apreciação, julgamento justo
1.1    respeito à igualdade de direito de cada um, que independe da lei positiva, mas de um sentimento do que se considera justo, tendo em vista as causas e as intenções
2    virtude de quem ou do que (atitude, comportamento, fato etc.) manifesta senso de justiça, imparcialidade, respeito à igualdade de direitos
Exs.: a e. de um juiz
 a e. de um julgamento
3    correção, lisura na maneira de proceder, julgar, opinar etc.; retidão, equanimidade, igualdade, imparcialidade 

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Outubro Rosa, porque algumas lutas são de todos nós


por Mazu



O Outubro Rosa poderia ser azul, verde ou lilás, mas quando se trata de prevenir e tratar de um assunto tão importante, acho que podemos deixar determinadas coisas de lado, só por um momento. Existem vários mitos que explicam a atribuição arbitrária de cores para masculino e o feminino. E, em algum momento de nossas vidas já escutamos várias histórias sobre como a cor lilás foi atribuída ao movimento feminista (cor do tecido de operárias assassinadas, junção entre o vermelho e o azul, etc). Contudo, entretanto, todavia, discutir as cores e o reflexo delas na sociedade e movimentos sociais não é bem a intenção deste post. Apesar de isso dar pano para manga e ser muito interessante, gostaria mesmo de aproveitar o Outubro Rosa e falar sobre a importância da prevenção do câncer de mama e alguns tabus que, infelizmente, ainda existem.

Assisti a uma pequena notícia de outubro do ano passado sobre o câncer de mama, machismo e tabu. Apesar de pequeno o vídeo incita muita reflexão. Acontece que para algumas mulheres, tocar-se, despir-se e ser tocada ainda são coisas culturalmente difíceis de lidar. E quebrar esse tabu pode ser super importante se isso ajudar a detectar qualquer problema e salvar vidas. 
Tocar-se e conhecer-se

Como disse, o vídeo é uma notícia bem rápida sobre mulheres das comunidades rurais mexicanas, apontando que, ano passado, ainda existiam mulheres que não faziam o exame porque os maridos temiam que suas mulheres fossem vistas ou tocadas pelos médicos. Isso parece distante da nossa realidade, mas deve ser muito mais real do que imaginamos. Especialmente, no Brasil, em que determinadas coisas insistem em ficar mascaradas.

Um argumento bom para começar é que os seios são nossos. Ponto, parágrafo, próxima linha. Não importa se uma mulher é casada com um homem, outra mulher ou se é religiosa ou não, ou se está aqui ou na China. Quando se trata da prevenção de uma doença como câncer é muito importante ter a noção, o senso, o sentimento de indivíduo. Isso porque se eu ficar doente, ainda que as pessoas que me amam e se preocupam comigo sofram, ninguém vai ficar doente comigo, certo? Ninguém vai dividir esse fardo específico comigo. Nem o marido, nem o pai, nem os amigos. Eles podem ficar tristes, mas, eventualmente, quem vai passar por tudo (e é muita coisa) sou eu.

Congresso Nacional Rosa pelo Outubro Rosa
Não quero dizer aqui que as pessoas têm que ter uma atitude egoísta com relação ao câncer. Na verdade, quanto mais solidariedade melhor. O que deve ficar claro é que meu corpo é meu, e o seu, é seu. Esse sentimento de autorrespeito e autoconhecimento pode evitar várias coisas e está relacionado com abandonar aquele mito da mulher patrimônio de que já falei aqui. Prevenir-se contra o câncer de mama é um dos vários motivos pelos quais as mulheres devem se entender como donas dos seus próprios corpos.

Todo mundo sempre conhece uma história, uma anedota sobre essa posse/ciúme do corpo alheio, sempre conhecemos alguém cujo companheiro não gosta que a esposa amamente em público ou corte o cabelo, ou altere sua aparência física de alguma forma. É importante perceber o seguinte: agradar ou ser mais paciente com essa ou aquela "besteirinha" da(o) parceira(o) não é um problema. O problema é o excesso, quando isso pode custar a dignidade ou a saúde de alguém. E também quando todas as tentativas de agradar ou compreender são unilaterais, ou seja, só partem de uma das pessoas no relacionamento.

Em 2004, uma trabalhadora metalúrgica do ABC paulista levou um beliscão no seio do seu superior direto, no chão de fábrica, em horário de expediente e, o mais importante, sem o consentimento dela. Na época, eu trabalhava com vários sindicalistas na CUT, e estávamos todos prontos para ajudá-la com os vários processos que isso acarretaria. Nunca conseguimos. A trabalhadora não seguiu adiante com as denúncias porque seu namorado ficou muito incomodado de ser publicamente visto como corno, já que outro homem havia apalpado SUA mulher. E aí está um exemplo claro de excesso. Deixar de exercer um direito ou deixar de cuidar da saúde por outra pessoa não compensa. Ninguém que ama e se importa de fato, exigiria esse tipo de sacrifício.

Catedral iluminada de rosa em Brasília
Não é que a gente não precisa da ajuda ou cooperação dos companheiros e companheiras, insisto, quanto mais solidariedade, melhor. O envolvimento de todos no combate e prevenção pode salvar vidas. As iniciativas como o Outubro Rosa são essenciais, e todos e todas devemos participar. É importante encorajar as mulheres das nossas vidas a se prevenir e se cuidar. Como mulheres, devemos procurar médicos que nos façam sentir confortáveis e devemos nos sentir confortáveis conosco mesmas para fazer e pedir aos médicos exames de todo o tipo. Lembrando que todo câncer quando detectado em estágios iniciais tem grandes chances de cura. Nenhum argumento deve valer mais que esse.

PS.: Antes que alguém venha como alguma piadinha sobre o câncer de próstata, vou me adiantar. As subvertidas apoiariam, com certeza, qualquer iniciativa que buscasse quebrar tabus para salvar vidas. Afinal, esse é um dos preceitos do movimento feminista, queremos homens e mulheres vivendo felizes e saudáveis!

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Vencemos o quê, cara pálida?

por Mazu


Como é que é??

Este post vai ter um tom de desabafo, mas espero que a companheirada me perdoe. Estou aqui lembrando de quando a Bárbara teve uma semana super legal, só que não. Esse foi o meu final de semana massa, só que ao contrário. Fui chamada de feminista exagerada, extremista e acusada de ser incapaz de escutar a opinião alheia. Vai vendo. Justo eu que, na real, sempre me achei uma feminista de moderada a leve. Isso porque eu não entro em todas as discussões e dou até um sorriso amarelo quando meu chefe faz suas observações sexistas. Não me julguem, preciso pagar as contas.

Sei que tem uma das blogueiras famosas que se autodenomina “feminista cansada”, não sei bem se ela está cansada pelos mesmos motivos que eu, mas, cara, como cansa.

E sabe por que cansa tanto? Porque a gente se pega tendo a mesma discussão várias vezes, de diversas formas, com várias pessoas e, às vezes, com as mesmas. Esse feriado que passou, tive que repetir umas cinco vezes que feminismo não é o contrário de machismo, que a culpa da tripla jornada de trabalho não é das sufragistas (sim, eu escutei essa barbaridade de uma mulher jovem e bem resolvida), que a Carminha (a da novela) não merecia apanhar e que se a gente andasse de burca, o índice de violência contra a mulher não diminuiria nem no Distrito Federal e nem na China. Eu estaria feliz se tivesse mudado alguma coisa em alguém, mas parece que só fiquei mesmo com a fama de feminista chata e nada razoável.

De qualquer forma, serviu para refletir sobre algumas coisas. E uma matéria de revista me ajudou muito nisso. A Época de outubro de 2012 traz a seguinte matéria de capa: “A Mulher venceu a guerra dos sexos: elas estudam mais, são mais valorizadas no trabalho e já nem querem saber de namorar para não atrapalhar a carreira. Os homens que se cuidem...”.  Parece exagero, mas aí mora a origem de todo o mal: andam vendendo um imaginário de que a mulher já alcançou o máximo que poderia alcançar na nossa sociedade e que os homens estão ameaçados. Meu Deus, que bobagem!

Essa sensação de que já estamos com todos os direitos conquistados faz o feminismo parecer obsoleto e ridículo. E isso é um tiro no pé de todo mundo, inclusive dos homens. Já dissemos milhares de vezes no blog, a independência das meninas é a independência dos meninos. Ninguém precisa proteger ou sustentar uma mulher, hoje em dia, e isso tira peso de responsabilidade dos dois lados.

Sobre a tripla jornada de trabalho, a gente não trabalha mais porque a gente quer. Esta é a ideologia mais reacionária do planeta: a de que as minorias fazem ou deixam de fazer as coisas porque querem, já que hoje somos todos iguais. (Ai, faça-me o favor, vamos estudar história, né?) O que aconteceu é que as mulheres ganharam espaço no mercado de trabalho, mas ainda convivemos com a ideologia patriarcal de que a casa e os filhos são mais nossos que dos caras. O que não tem nada, absolutamente nada, a ver com as sufragistas. (Pelamor!) Tem a ver com a ideologia dominante do patriarcado. E se essa ideologia ainda exerce pressão sobre nós, mulheres, deixa eu te contar, moça, o feminismo ainda tem muito motivo para existir.

Um dos objetivos do blog é mostrar que as feministas não são loucas raivosas, e estou, hoje, tendo dificuldade com isso, já que estou cansada (como acabei de explicar) e com raiva, e a matéria da Época só não está pior porque acabou em cinco páginas.

A matéria começa falando de uma novela dos anos 1980 que está sendo readaptada. Indiferente, não foi boa antes, não vai ser boa agora. O ponto mais ou menos válido do início da matéria é que como alguma coisa mudou na sociedade em 20 anos, a readaptação meio que reflete isso. Por exemplo, uma das personagens era uma mulher mais livre sexualmente e, nos anos 1980, sua liberdade sexual foi censurada, hoje em dia, ela se sente mais enturmada socialmente. Uau.

A partir daí, a matéria começa a descrever como ocupamos o mercado de trabalho, como somos protegidas por algumas leis e como somos maioria nas Universidades. E segue dessa forma, duas páginas e meio de alegria, mostrando todas as nossas conquistas que, durante o texto, foram chamadas de “cataclismos sociais”, juro, na página 72:

“O mais provável que é que estejamos olhando para mudanças permanentes, como as provocadas por cataclismos sociais como o voto feminino ou a Segunda Guerra Mundial, que exigiu a presença feminina nas fábricas.”
Excelente escolha lexical da jornalista!

Depois de toda essa alegria, alguma coisa aconteceu com quem estava escrevendo a matéria, eu penso que um troço chamado “pesquisa” tenha acontecido com ela, e ela começou a apresentar os dados de que já falamos no blog algumas vezes. Ocupamos o mercado de trabalho, mas ainda ganhamos menos, somos menos promovidas, vivemos mais estressadas porque existe a pressão de ser bem sucedida no trabalho, mas existe a pressão de ser mãe e esposa para ser feliz. No cenário político, a participação ainda é pequena e tals. A matéria diz até uma coisa que gostei muito de ler sobre o fato de estarmos sobrecarregadas com essas pressões todas: “ou as empresas se adaptam ou as mulheres terão de rever seu papel em um dos dois lugares” (casa ou escritório). Ainda que isso possa soar como outra forma de pressão do tipo "pense bem no que você quer ser", é libertador, de certa forma, pensar que não precisamos ser tudo. Ainda que ser uma boa profissional e uma boa mãe de família seja comum, hoje em dia, é massacrante. E a gente tem direito de escolher, ou uma coisa ou outra.

Aviso para a Época: esta propagando foi retirada pelo Conar por ser machista e racista,
não é um sinal de vitória para mulher nenhuma.
De repente, a matéria ficou legal apontando como no Brasil, as mulheres ainda são mais apegadas a tradição patriarcal. Aqui, ter marido e filhos é prova de sucesso para mulher. É fato. E é inesquecível quando a seguinte situação acontece com você. Você estuda e se vira e tem suas coisas e escuta: você é casada? Tem filhos? Responde que não e percebe aquele olhar de desprezo na sua direção. Quem nunca?
Grifei Teló e Du Loren,
na lista de "sinais" de vitórias

Bom, a matéria estava indo super bem falando que, hoje, a mudança depende menos das leis e mais de comportamentos que precisam ser alterados, até o último parágrafo em que trouxe uma frase do Silvio de Abreu (Who?): “a mulheres já garantiram o espaço e estão por cima. O homem é que passou a reivindicar o seu lugar.” Meu Deus. Não. Como a matéria trouxe tantas pesquisas e pesquisadoras legais e opta por terminar com essa frase de um sujeito que não tem tradição nenhuma na pesquisa sobre gênero? Só porque ele escreveu uma novela chamada “Guerra dos sexos”?

Tanto esforço e tempo que a gente passa dizendo que “você não está sendo oprimido quando uma minoria exige direitos que você sempre teve”. Tanto tempo mostrando números absurdos de violência e para quê? Para uma grande revista de grande circulação vir com essa conversa de que já ganhamos, está tudo dominado, os homens que se cuidem? Sério como assim alguém acha que “Ai se eu te pego” do Michel Teló e a propaganda racista e preconceituosa da Du Loren são sinais de que já alcançamos nosso lugar ao sol? Como não ficar brava, como ser razoável? Alguém me ajude com isso.

Que canseira e que desânimo. Para começar, não existe guerra dos sexos ou, pelo menos, não deveria existir, já que ter direitos iguais é legal para todo mundo porque ninguém tem mais responsabilidade do que ninguém. Em segundo lugar, esse tipo de matéria e de ideias que ela propaga só serve para deixar os homens na defensiva, e isso não ajuda o movimento. Aliás, não ajuda ninguém.



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Algumas diferenças sutis, outras nem tanto


por Mazu

Este final de semana, li alguns textos da TPM Edição de aniversário de setembro de 2012. Cara, foi uma leitura muito prazerosa e interessante. E foi inesperado também  porque eu nunca curti o slogan "Trip para mulheres" deles, mas enfim. A entrevista com a psicanalista Regina Navarro Lins sobre sexualidade, exclusividade e traição está muito legal, assim como a matéria que me fez comprar a revista "Sim, mulher adora sexo (fica com isso)".

Essa matéria trouxe vários depoimentos de mulheres diferentes (empresária, cineasta, blogueira e atriz) sobre o que é gostar de sexo para elas (quantidade, variedade, qualidade), e suas histórias dentro dessa vivência com a própria sexualidade. Os depoimentos estão bem interessantes e, dentre eles, está o da autora do Cem Homens, sobre a origem do seu blog: o plano era ir para cama com cem caras até o fim de um determinado ano e relatar no site. Não preciso dizer que ela recebeu reações super negativas, inclusive de amigos. Não preciso dizer também que se ela fosse homem, seria diferente.

A matéria mostra ainda como, apesar do que chamaram de liberação sexual feminina (eu tenho lá minhas dúvidas), o fato de a mulher gostar de sexo ainda é uma coisa super tabu. Sim, a gente bem sabe. De qualquer forma, uma generalização é evidente e comum para todas as mulheres que assumem publicamente gostar de sexo, o tal do slut-shaming. Ou seja, todas são taxadas de piranhas, biscates, piriguetes ou qualquer que seja o termo mais usado do momento.

Kristen, maior vítima de slut-shaming da atualidade
Aí, com meus botões, fiquei pensando que isso tem várias desdobramentos, inclusive os que justificam que algumas mulheres evitem de assumir do que gostam ou não. Esses desdobramentos tem sua origem em preconceitos e estereótipos estabelecidos pela sociedade machista e patriarcal: tem a mulher para casar, a mulher diferente dessa que serve para alugar, a mulher diferente de outra maneira que se rouba e violenta em guerras e ocasiões parecidas, e assim vai. Acho que posso generalizar dizendo que se trata do mito da mulher patrimônio (do homem, claro).

Para se livrar desse estigma e ter uma vida sexual digna, a gente precisa se desfazer desses preconceitos que pairam sobre o gostar de sexo. Isso porque, nesse tipo de sociedade que vê a mulher como alguma espécie de patrimônio, a única mulher (dos tipos de mulheres possíveis) capaz de gostar de sexo é a que não presta. Por mais grosseiro e medieval que isso pareça, essa mentalidade ainda está presente, não está escancarada e super visível, mas, meu Deus, como é presente.

É preciso ficar claro que gostar de sexo não significa não ter padrões ou vontade própria. Quero dizer, uma pessoa que gosta de sexo não necessariamente vai fazer sexo a todo o momento com qualquer outra pessoa. É aquela velha história, por exemplo, uma menina ou um cara que transou com várias amigas ou amigos meus não é obrigad@ a ficar comigo porque já pegou todo mundo da minha turma. Todo mundo tem poder de escolha e deve ter a vontade respeitada. Uai.

Chega de slut-shaming,
chega de culpar a vítima pelo estupro
Parece uma afirmação boba e meio óbvia, mas as pessoas (incluo os meninos nessa também porque rola com eles, e muito) que admitem seu apreço por variedade são mais suscetíveis à violência, inclusive a psicológica. Imagine alguém dizendo a um menino: 'não vai pegar não sei quem, por quê? Virou gay?' e para uma menina: 'ficou com todo mundo e não vai ficar comigo?' Claro que os meninos, ainda que colocados em situações desconfortáveis, são vistos como heróis quando admitem gostar de sexo com várias garotas (porque se for com garotos, o papo já é outro). As meninas quando assumem esse comportamento, perdem simbolicamente o respeito, o valor nessa nossa sociedade de mascus. Ainda que os resultados do slut-shaming sejam diferentes para homens e mulheres, todas as ocorrências são formas de violentar as pessoas, de certa forma.

Essa suscetibilidade a algum tipo de violência justifica que algumas mulheres não assumam ou se proíbam de curtir o sexo. Isso é super complicado porque faz com muita gente viva culpada ou infeliz.

Na verdade, sexo é muito pessoal e individual, por mais maluco que possa parecer. As pessoas que gostam pouco ou nada não são loucas, nem mal-amadas, nem necessariamente traumatizadas. As que gostam muito não são necessariamente viciadas em sexo. As que são viciadas não são necessariamente pessoas ruins. As que gostam com vários parceiros ou parceiras não merecem desrespeito. Assim como as que curtem um parceiro só não são ultrapassadas, nem românticas, bobas ou idealistas. Não rola julgar, é mega pessoal. Como eu vou saber o que é o comportamento admissível para a outra pessoa quando se trata de algo tão pessoal? Como uma única medida, um único peso de estigma social poderia dar conta da infinidade de tipos de pessoas que existe e cada comportamento sexual respectivo e relacionado? 

Como cada um tem um comportamento sexual seu, o ideal é se encontrar e se respeitar e buscar parcerias na mesma sintonia. Do contrário, muita gente se machuca de tudo quanto é jeito. Alguém consegue pensar em coisa pior do que fazer sexo, fazer sexo assim ou assado, ou ainda, não fazer simplesmente para agradar outra pessoa?

Voltando a matéria da TPM, acho que o ponto (muito válido) da matéria é que existem mulheres que gostam de sexo e tudo bem. O mundo não vai acabar, o chão não vai se abrir, nem nada. É uma iniciativa bacana de divulgação porque nós, entre nós meninas, sabemos disso há muito tempo, mas isso ainda assusta alguns caras. Já vi caras considerados inteligentes e revolucionários se assustarem quando uma menina demonstra um comportamento sexual mais livre ou mais parecido com o deles.

Durante a faculdade fiz dois grandes amigos e, em um determinado dia, estávamos os três trocando histórias enquanto a gente lanchava na cozinha da nossa antiga república. Eles falaram sobre algumas aventuras, e eu também. Só que ninguém esperava, né? Afinal, sou uma menina. Depois de me ouvir, um deles olhou para mim muito assustado e disse: olha só, você é pior que eu. E eu respondi: pior não, sou igual. E ele fez uma cara de quem sentiu uma ficha bem grande cair, e a gente riu.


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Gu Kailai e o pecado original tudo de novo...



por Mazu


Nada mais parecido com um machista
de direita que um machista de esquerda
Este post não tem intenção nenhuma de defender ou atacar  determinados regimes políticos, nem responder ou solucionar qualquer crise. Faço somente uma observação, baseada em notícias de jornal, sobre a situação do Partido Comunista Chinês (PCCh) e a crise do atual regime na China. O objetivo maior deste texto é comentar o relatório do partido sobre a expulsão de Bo Xilai, um dos grandes quadros do partido. O mencionado relatório afirma que a culpa das atitudes corruptas de Xilai são, na verdade, da mulher dele, Gu Kailai.

Um pouquinho de contexto e cautela nunca fizeram mal a ninguém

Vou resumir a história que o Ocidente tem contado sobre a crise política chinesa, e eu sei o quanto isso é problemático. O negócio é que, aparentemente, depois que tudo estourou, a censura internética na China foi de "mencione a 'revolução cultural' e seu site/perfil será tirado do ar" para "mencione 'política' e receba uma visita da polícia na sua casa". Exageros à parte, tenho tentado falar com amigo que estuda lá para saber como ele está sentido a tal crise e ainda não consegui, quando rolar, publico nos comentários.

Em julho de 2010, Bo Xilai foi um dos protagonistas de uma mega-operação contra a corrupção na China que culminou, entre outras coisas, na execução de um ex-comandante da Polícia, Wen Qiang, acusado de aceitar suborno e proteger mafiosos. Segundo a Folha, alguns analistas consideraram isso um "esforço ensaiado" para crescer no cenário político, especialmente porque, na época, Bo Xilai ocupava um ministério não relacionado diretamente com o combate à corrupção.

A história de Bo Xilai no partido comunista é notória, ele já era uma liderança do partido na juventude. Teria passado cinco anos preso por pertencer a uma família de intelectuais, durante a Revolução Cultural. Filho de Bo Ybo, líder do PCCh e camarada de Mao Tsé-Tung, as ações de Xilai no partido sempre demonstraram o quanto ele defendia a volta do maoísmo, por isso foi apelidado de "vermelho".

Em março deste ano, Wang Lijun, ex-chefe de polícia de Bo Xilai, então prefeito de Chongqing, uma metrópole chinesa de 31 milhões de habitantes aproximadamente, foi destituído do cargo por corrupção. Ele teria procurado asilo político na Embaixada dos EUA, ocasião em que teria delatado "aos inimigos do regime" o envolvimento de Bo Xilai e sua esposa, Gu Kailai, em vários esquemas de corrupção e no assassinato do empresário expatriado britânico, Neil Heywood.

Família Bo
Então, em agosto deste ano, Gu confessou ter envenenado o empresário porque ele teria ameaçado o filho dela, Bo Guagua. Depois da confissão, Gu foi condenada à pena de morte suspensa (que é uma prisão perpétua desde que mantido o bom comportamento). O ex-chefe de polícia, considerado um traidor pelos membros do PCCh, teve pena de 15 anos apenas por ter se entregado às autoridades.

Na sexta-feira, 28/9/12, Bo Xilai foi expulso do Partido Comunista Chinês por acobertar o assassinato do empresário britânico, aceitar suborno, enquanto Ministro do Comércio, e manter relações sexuais impróprias com várias mulheres. Com sua expulsão do partido, ele perde sua imunidade e será entregue à justiça comum.

Ontem, começou a rolar umas notícias, aquelas com fontes internas e misteriosas, enfim. E essas fontes secretas - dentro do Partido Comunista chinês - afirmaram que o relatório interno do partido sobre a  expulsão de Bo Xilai colocava toda a culpa em Gu Kailai. Ela e sua ambição desmedida por dinheiro e poder teriam sido o motivo da derrocada de Xilai. Segundo as tais fontes misteriosas, ela também teria obrigado Xilai a promover Lijun dentro da polícia. 

Olha só, o cara aceitou propinas, subornos e fez tudo o que fez por pressão da mulher. Alguém aí, levanta a mão se já escutou alguma coisa parecida na história da humanidade antes!

Jackie Kennedy da China

Gu Kailai
Gu é quase sempre descrita como brilhante e ambiciosa. Formou-se em direito em uma importante universidade chinesa, ainda jovem criou sua própria firma e teve algumas grandes vitórias no direito corporativo que chamaram a atenção. Publicou um livro com um nome do tipo "Como ganhar ações contra empresas norte-americanas".

Depois de conhecer e se casar com Xilai, ela fechou sua firma. Muitos dizem em um momento de ápice e muito entusiasmo profissional. A explicação seria o cargo público do marido, ela teria fechado a firma para evitar conflitos de interesse e acusações de favorecimento. Ficava lendo em casa, era o que diziam.

A história do assassinato de Heywood por Gu é muito mal contada. Quer dizer, é contada de diversas formas diferentes, na verdade. Para começar, ninguém desconfiou de assassinato até Lijun abrir a boca. É, pois é.

Bo filho e Bo pai
Enfim, li a Folha, The Guardian, Times e blogueiros independentes e todos têm uma versão diferente. Ela, Gu Kailai, afirmou, durante seu julgamento, que o empresário teria ameaçado seu filho e, consequentemente, em um surto psicótico, ela o envenenou. Contudo, existem várias teorias: alguns dizem que o garoto de 24 anos é um playboy festeiro em Harvard (teria entrado lá com ajuda de Heywood, inclusive). E nessas aventuras da vida universitária teria ouvido de Heywood "me dê 13 milhões ou eu vou te destruir". Outros dizem que Gu e Heywood eram amantes. Quase todos falam de um conflito de interesse econômico entre Gu e Heywood, ninguém específica bem a natureza do negócio, contudo.

Por sua vez, Bo Guagua, o filho, fez um testemunho morno no caso da mãe e uma defesa pública veemente, em diversos meios, de seu pai. Vai vendo. Para mamãe "os fatos falarão por si mesmos", para papai: "o pai que eu conheço é reto em suas crenças e devoto às obrigações".

Complexo de Eva

Jian Quing, companheira de Mao
Como eu disse no começo, não temos a menor condição de entender muito bem os fatos do que os especialistas estão chamando de "maior crise política na China depois de 1989". Sinto, contudo, que o complexo de Eva e do pecado original se repete. A gente pode lembrar, por exemplo, que a esposa de Mao Tsé-Tung foi condenada pelos excessos da revolução. Então, Mao = herói, esposa = condenada. Perceba.

Em outro lugar, em outro momento, Bill Clinton mentiu em juízo e todo mundo acha que o problema da vida dele foi transar com a estagiária. Estagiária, por sinal, que andava desempregada até esses tempos, quando decidiu voltar a falar de um assunto que não a abandona e vai ganhar aí uma boladinha. Bill, não, lavou ficou novo, e sua carreira como consultor sempre foi e continua muito bem, obrigada. Na real, dá para fazer uma lista bem extensa de todas as vezes que uma mulher foi a justificativa ou explicação de um erro de uma grande personagem histórica masculina. Mas quem tem todo esse tempo?

Eu insisto, não dá para dizermos que tipo de pessoas são Gu Kailai e Bo Xilai. Aparentemente, são criminosas e corruptas. Mas tudo é sempre tão obscuro quando se fala em um sistema político tão fechado.

Crucificar Gu, unicamente, poderia ser um jeito de minimizar a culpa e salvaguardar a imagem de um dos mais proeminentes membros do Partido Comunista que, até a erupção dos escândalos, estava cotado para integrar o Conselho Central do partido. Alguns diriam que Bo Xilai chegaria a presidente. 

Culpar a ambição e o consumismo feminino da esposa também poderia ser um jeito de não falar da crise interna do PCCh que, mesmo com todo secretismo do partido, vem vindo cada vez mais à tona. Alguns colunistas dizem que o PCCh tem várias facções e que as brigas internas andam implodindo o partido. Existem inúmeros defensores de Xilai, maoístas ferrenhos, dizendo que tudo é um grande esquema para manter Xilai e o maoísmo fora do poder. Um monte de gente vem falando em outra revolução cultural, o que economicamente seria uma tragédia (inclusive para o Brasil, vide  BRICS e tudo mais). 

E esse é justamente o problema: são muitos fatores de ordem política e social para serem escondidos e explicados tão somente pela suposta ambição de Gu Kailai.

Cara, não é possível que este argumento cole. Será? Será que vai ter gente achando mesmo que todos os subornos, todos os crimes e, consequentemente, os problemas do sistema político que tais crimes apontam, se devem ao fato da Gu Kailai gostar de dinheiro? Cara, na boa, espero que não.

É engraçado que, quando um político vai bem e faz coisas legais, ninguém dá os créditos para a sua companheira. Agora quando os caras erram, uh, tem sempre uma mulher para mal encaminhá-los. Ah, tá, claro. Pobrezinhos.

Bora abandonar isso, né?A gente atrai gente parecida com a gente, oras. Nunca vi urubu voando com beija-flor. 

No nosso ordenamento jurídico respondem pelo crime o mandante e o executor, a não ser que haja coação. E se o Xilai foi coagido pela mulher por tantos anos e tantos feitos corruptos, ia ser legal ele provar e explicar bem explicadinho, porque a carta da "esposa interesseira" não vai dar conta de explicar toda a sua fortuna, nem a boa vida do filhão. 

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A luta das meninas e as meninas da luta



por Mazu

Eu me apaixonei por Kung Fu e Sanshou durante meu namoro com meu companheiro, ele praticava e gostava muito e, um dia, me levou para conhecer. O Kung Fu é uma arte milenar e linda, requer muito mais concentração e inteligência do que as pessoas julgam. O nível de autoconhecimento e autocontrole dos praticantes sérios é visível e admirável.

Apesar de toda a admiração, não tive nem tempo, nem oportunidade ainda de praticar o Kung Fu (em especial o Choy lay fut, o estilo que tive contato, é bom dizer porque são muitos estilos). Mas conhecer o Sanshou, o boxe chinês que compartilha alguns dos fundamentos, me fez muito bem. Em tudo, desde entender e concatenar mais os movimentos físicos, ganhar mais coordenação e mais cárdio até perceber que eu vivia guardando muita raiva no coração. E, de verdade, é do coração que vem a força.

Nessa onda de praticar, eu comecei a assistir lutas e acompanhar os treinos, me interessar mesmo. Ultimamente, o maridão anda treinando com uma equipe de MMA aqui de Brasília, e eu acabei indo assistir ao Shooto Brasil 34, e convivendo mesmo com a galera fã e praticante do Mixed Martial Arts, que como o nome diz, é uma mistura de várias modalidades de artes marciais, as mais "pedidas" são o Muay Thai, o jiu-jítsu e o Wrestling, mas não para por aí não.

Feliz em demonstrar o que
"bater como uma menina" significa


Bom, aí, neste convívio, comecei a notar algumas coisas. Primeiro, refiri-me ao julgamento das pessoas ali em cima porque existe muito mau julgamento e pré-julgamento no mundo, e com as artes marciais não seria diferente. Existem vários preconceitos relacionados a esse tipo de esporte, e eles não dizem respeito apenas às mulheres praticantes de artes marciais.

Na verdade, o julgamento das pessoas com relação às artes marciais é super preconceituoso também com relação aos homens, existe um estereótipo, na maioria das vezes, falso, do marombado burro e violento que é mais ligado aos meninos do jiu-jítsu e Muai Thay, mas acaba não deixando ninguém de fora. Agora, quando você acompanha os praticantes sérios do esporte, você percebe que as coisas são bem diferentes, eu, pessoalmente, acabei por conhecer muita gente legal e sábia. É, pois é, pois é, pois é.

Mas este blog é feminista e a minha elegia acaba aqui. E eu começo a pancadaria perguntando: se a imagem é ruim para os caras, imagina para as meninas? 

Cris uma vez colocou para dormir um jornalista
que disse que mulheres são mais fracas que homens
Acho que vale ressaltar que características que são consideradas masculinas, tipo força, porte físico, habilidade para luta, são consideradas masculinas por imposição social. A gente falou disso em outras ocasiões aqui no blog. Logo, as meninas mais fortes e mais centradas não são necessariamente lésbicas. Vale dizer também que, por sua vez, nem todas as lésbicas possuem essas que são consideradas as características masculinas. Força física, a falta ou excesso, a percentagem de musculatura de um corpo nada tem a ver com sexualidade e, de acordo com pesquisas recentes, nem com sexo. Eu me sinto boba afirmando o óbvio, mas a gente ouve cada comentário quando as meninas estão lutando, que olha...


Gina Carano e as marcas da guerra

É verdade, as meninas têm ocupado seu espaço nas artes marciais (vide as medalhistas olímpicas) e, durante o pouco tempo que pratiquei, nunca senti nenhuma diferenciação ou discriminação na academia que frequentei. Agora, o MMA insiste em manter as mulheres nuas segurando placas nos seus eventos, e não consigo entender o porquê. Que sentido faz um evento ter mais garotas de biquíni do que lutadoras, se estamos falando de um evento de luta e não de um desfile de roupas de banho?

Mischa Tate, beleza padrão de ring girl,
mas prefere descer a porrada
Assistir ao Shooto Brasil 34 me deixou louca da vida. Uma luta, dentre as onze do evento, foi feminina e, na minha opinião, a mais legal. No resto do evento, meninas com bundas gigantescas de fora mostravam em que round a luta estava porque né? Contar até três é phoda. A gente precisava mesmo de ajuda. E se eu começar a falar dos eventos do UFC, não vai ter espaço né? Porque lá, mulher lutadora nem existir, existe. Existem as belas esposas, as belas ring-girls e uma juíza, porque os juízes são escolhidos e designados pela Associação Atlética Norte Americana e não pelos grandes empresários do evento. Não vou mentir, assisto, mas ô evento machista do baralho.
Participação femina no Shooto 34: 1 lutadora...


...três ring-girls
Vasculhando as internets por aí, encontrei este documentário rapidíssimo sobre Meninas do MMA, vale pelo depoimento da atleta, falando sobre ser mãe, mulher e lutadora, sobre o que é patrocínio para ela. É divertidíssimo também o depoimento da dançarina que dizia que não conseguia "nem olhar" para a luta de tão violento que era. É engraçado, o que 'violento' significa para cada um. Durante o Shooto, eu não pisquei na luta da Claudinha Gadelha (foto acima), que foi tão daora! Em compensação, cada vez que passava uma daquelas meninas de bunda de fora e subiam os comentários do público, eu tinha vontade de não ver e nem ouvir e, talvez, morrer ou matar alguém.