Mostrando postagens com marcador Mazu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mazu. Mostrar todas as postagens
0
Hoje o blog comemora um ano de existência. E estamos muito felizes. São mais de 200 textos, mais de 500 comentários e 96.000 visitas! Tentando com a nossa proposta de pluralidade, publicamos textos, de sete colaboradoras fixas, 11 relatos enviados para o Sexismo de Cada Dia e nove Guest Posts. Este espaço é uma (pequena) plataforma, mas que nós podemos atestar pessoalmente ser muito significativa.
Questões de gênero são geralmente explosivas porque mexem com ansiedades relacionadas a normas sociais e inevitavelmente vêm atreladas à questão da sexualidade. O blog promove um fórum para podermos nos expressar livremente e desenvolver um argumento completo, que pode então ser lido e discutido. E é particularmente eficaz para contrabalancear páginas e blogs misóginos, ainda que muitos deles tenham milhares de seguidores.
Fora o desejo de transformar a sociedade hodierna, esse dado também evidencia a necessidade da existência deste espaço e dos espaços das nossas colegas feministas. Se a reação de disposição contrária à ação que clama liberdade e igualdade a todas as mulheres é tão intensa e, nos parece tantas vezes, desproporcional, então só podemos concluir que sob a superfície do humor e do afeto brasileiros esconde-se, ao lado do racismo e da homofobia, e de um sem número de preconceitos, também a misoginia, também a discriminação de gênero. Expor essa ferida é sem dúvida a melhor forma de sarar.
Precisamos de mais textos, mais relatos, 'causos', anedotas, reflexões. Enviem suas contribuições - de qualquer tamanho, linguagem, assinados ou anônimos.
Acima de tudo, muito, muito obrigada por tudo! Por nos acompanharem, por deixarem comentários, por todo o carinho!
E não se esquecem de nos seguir no Facebook e no Twitter!
por todas nós
Hoje o blog comemora um ano de existência. E estamos muito felizes. São mais de 200 textos, mais de 500 comentários e 96.000 visitas! Tentando com a nossa proposta de pluralidade, publicamos textos, de sete colaboradoras fixas, 11 relatos enviados para o Sexismo de Cada Dia e nove Guest Posts. Este espaço é uma (pequena) plataforma, mas que nós podemos atestar pessoalmente ser muito significativa.
Questões de gênero são geralmente explosivas porque mexem com ansiedades relacionadas a normas sociais e inevitavelmente vêm atreladas à questão da sexualidade. O blog promove um fórum para podermos nos expressar livremente e desenvolver um argumento completo, que pode então ser lido e discutido. E é particularmente eficaz para contrabalancear páginas e blogs misóginos, ainda que muitos deles tenham milhares de seguidores.
Fora o desejo de transformar a sociedade hodierna, esse dado também evidencia a necessidade da existência deste espaço e dos espaços das nossas colegas feministas. Se a reação de disposição contrária à ação que clama liberdade e igualdade a todas as mulheres é tão intensa e, nos parece tantas vezes, desproporcional, então só podemos concluir que sob a superfície do humor e do afeto brasileiros esconde-se, ao lado do racismo e da homofobia, e de um sem número de preconceitos, também a misoginia, também a discriminação de gênero. Expor essa ferida é sem dúvida a melhor forma de sarar.
Precisamos de mais textos, mais relatos, 'causos', anedotas, reflexões. Enviem suas contribuições - de qualquer tamanho, linguagem, assinados ou anônimos.
Acima de tudo, muito, muito obrigada por tudo! Por nos acompanharem, por deixarem comentários, por todo o carinho!
E não se esquecem de nos seguir no Facebook e no Twitter!
3
por Mazu
Primeiramente, aos seguidores, minha sinceras desculpas pelo sumiço bem no meio da nossa novela feminista. Teve gripe, intoxicação alimentar, visita dos pais, foi uma loucura. Prometo que não sumo mais assim, no meio de uma história.
Então, vamos lá, de volta com Virginia Woolf. A primeira parte do conto Uma Sociedade pode ser lida aqui.
E a segunda parte abaixo, clique em Mais informações para que o texto todo seja mostrado:
No meio de um relato que me interessava e me prendia mais que qualquer coisa que já tinha ouvido antes, ela deu o resmungo mais esquisito, meio choroso
"Castidade! Castidade! Aonde foi parar minha castidade!" ela lamentou. "Ai, ajuda! O vidro de perfume!"
Não tinha nada na sala além de um vidro de mostarda, que eu estava prestes a dar para ela quando ela recuperou a compostura.
"Você devia ter pensado nisso há três meses atrás" disse severamente.
"Verdade," ela respondeu. "Mas ficar pensando nisso agora não vai fazer bem nenhum. Falando nisso, que infelicidade minha mãe ter me colocado o nome de Castalia."
"Ah, Castalia, sua mãe", comecei a dizer quando ela pegou o pote de mostarda.
"Não, não, não", ela disse, balançando a cabeça. "Se você fosse casta teria gritado ao me ver em vez de ter corrido até mim e me abraçado. Não, Cassandra. Nenhuma de nós é casta". Assim, continuamos conversando.
Enquanto isso, a sala foi enchendo, já que era o dia marcado para discutir o resultado das nossas observações. Pareceu-me que todo mundo se sentiu como eu me senti a respeito da Castalia. Beijaram-na e disseram como estavam felizes de vê-la novamente. Finalmente, quando estavam todas confortáveis, Jane levantou-se e disse que era hora de começar. Ela começou dizendo que já estávamos fazendo perguntas por mais de cinco anos e que, apesar disso, seríamos obrigadas a considerar os resultados inconclusos. Nesse momento, Castalia me cutucou e disse que não estava muito certa disso. Então, ela se levantou e interrompeu Jane, que estava no meio da frase, dizendo:
"Antes de você dizer mais alguma coisa, gostaria de saber se devo ficar no recinto". Então adicionou, "já que, devo confessar, sou uma mulher impura".
Todo mundo olhou para ela com espanto.
"Você está grávida?" perguntou Jane.
Ela assentiu com a cabeça.
Foi extraordinário perceber as diferentes expressões em seus rostos. Um zunido tomou conta da sala, do qual pude distinguir as palavras "impura", "Bebê", "Castalia" e outras coisas do tipo. Jane, que estava particularmente movida, perguntou:
"Ela deve ir? Ela é impura?"
Foi um rugido tão grande que deve ter sido possível escutar lá de fora. "Não! Não! Não! Deixem-na ficar! Impura? Bobagem!" Ainda assim, percebi que algumas das novinhas, as de dezenove ou vinte anos, mantiveram-se caladas como se oprimidas pela timidez.Então, nós a rodeamos e começamos a fazer perguntas e, por fim, uma das novinhas, que se mantinha no fundo, aproximou-se e disse a Castalia: "O que vem a ser castidade, então? Quero dizer, é bom, ruim ou simplesmente não significa nada? Ela respondeu tão baixo que não pude ouvir o que disse.
Alguém disse: "fiquei chocada por uns dez minutos".
"Na minha opinião", disse Poll, que estava ficando rabugenta de tanto ler na Biblioteca de Londres, "castidade não é nada mais que ignorância, o mais vergonhoso estado de espírito. Devíamos admitir apenas as não-castas na nossa sociedade. Eu voto que Castalia seja nossa Presidenta". Isso foi debatido violentamente.
"É injusto rotular mulheres pela castidade, seja pela presença ou ausência dela", disse Poll. "Algumas de nós não tivemos oportunidade. Além do mais, não acho que a própria Cassy vá dizer que fez o que fez por puro amor ao conhecimento".
"Ele tem vinte e um e é lindo de morrer", disse Cassy, com um gesto encantador.
"Eu voto", afirmou Helen, "que ninguém tenha permissão de falar em castidade ou falta de castidade, a não ser as que estiverem apaixonadas".
"Ora bolas", disse Judith, que esteve pesquisando assuntos científicos, "Não estou apaixonada e não vejo a hora de explicar minhas medidas para dispensar prostitutas e fertilizar virgens por lei do Parlamento".
Continuou falando de uma invenção sua que deveria ser construída nas estações de trem e em outros lugares públicos, invenção essa que, por uma pequena taxa, protegeria a saúde da nação, acomodaria seus filhos e aliviaria suas filhas. Pelo jeito, ela tinha inventado um método de preservar, em tubos lacrados, os germes dos Lordes Chanceleres do futuro ou, nas palavras dela, "poetas, pintores ou músicos", ela continuou, "supondo, obviamente, que tais espécies não estejam extintas e que as mulheres ainda se interessem em ter filhos".
"Mas é claro que queremos ter filhos!" disse Castalia toda impaciente.Jane bateu na mesa. "Esse é justamente o ponto que viemos discutir", disse. "Faz cinco anos que estamos tentando definir se continuamos ou não com a raça humana. A Castalia antecipou a nossa decisão. Fica para o restante de nós nos decidirmos".
Então, em sequência, nossas mensageiras se levantaram e apresentaram seus relatos. As maravilhas da civilização excediam muito nossas expectativas, e, conforme descobríamos que os homens voavam, falavam uns com outros atravessando distâncias, penetravam os mistérios de um átomo e abraçavam o universo em suas especulações, um murmúrio de admiração nos escapava dos lábios.
"Estamos orgulhosas", dissemos, "que nossas mães tenham sacrificado suas juventudes por uma causa assim!" Castalia, quem estava ouvindo atentamente, parecia mais orgulhosa que o resto de nós. Então, Jane nos lembrou que tínhamos ainda muito que aprender, e Castalia pediu que fizéssemos rápido. Continuamos analisando uma vastidão de dados estatísticos. Descobrimos que a Inglaterra tinha uma população de muitos milhões e que alguma percentagem desse número passava fome constantemente e estava na prisão; que o tamanho médio da família de um trabalhador é tal e que um número muito grande de mulheres morria de moléstias causadas pelo parto. Foram lidos relatórios de visitas a fábricas, oficinas, favelas e estaleiros. Foram dadas descrições da Bolsa de Valores, de uma grande casa de negócios da cidade e de uma repartição do governo. As colônias britânicas foram, então, discutidas, e alguns relatos nos foram dados sobre a Índia, a África e a Irlanda.Estava sentada ao lado de Castalia e percebi sua inquietude. "Não devíamos nos precipitar com conclusão nenhuma agora", ela disse. "Aparentemente, a civilização é bem mais complexa do que imaginávamos, não seria melhor nos limitarmos à nossa questão original? Concordamos que o objetivo da vida era produzir boas pessoas e bons livros. Até agora, só falamos de aviões, fábricas e dinheiro. Vamos falar sobre os homens mesmo e sua arte, já que esse é o centro da questão".
Assim, as que foram jantar fora se apresentaram com grandes folhas de papel contendo as respostas para várias questões. Tais questões foram estruturadas depois de muita consideração. Um homem bom, conforme concordamos, deve, a qualquer custo, ser honesto, apaixonado e espiritual. Mas a única forma de descobrir se um homem possuía ou não essas características era fazendo perguntas, geralmente, começando de uma distância remota do centro da questão. Kensington é um lugar bom para se viver? Onde seu filho está sendo educado, e sua filha? Agora, diga-me, quanto você paga pelos seus cigarros? Falando nisso, Sir Joseph é um barão ou apenas um cavalheiro? Normalmente, descobríamos mais coisas com perguntas triviais desse tipo do que com aquelas mais diretas. "Aceitei meu título de nobreza", afirmou Lord Bunkum, "porque minha esposa assim desejava". Não consigo nem lembrar quantos títulos mais foram aceitos pelo mesmo motivo. "Trabalhando quinze das 24 horas como eu trabalho", começavam dizendo dez mil trabalhadores. "Não, não, claro que você não lê, nem escreve. Mas por que você trabalha tanto?" "Minha prezada senhora, com uma família que cresce" "Mas por que sua família cresce?" Também era culpa das esposas ou talvez do Império Britânico.Ainda mais significativas que as respostas eram as recusas em responder. Muito poucos respondiam a todas as questões sobre moralidade e religião e, se respondiam, não era de maneira séria. As perguntas sobre o valor do dinheiro e poder eram quase invariavelmente evitadas ou ofereciam grandes riscos a quem perguntava. "Tenho certeza", disse Jill, "que se o Sr. Harley Botinhas Apertadas não tivesse fatiando o carneiro, no momento em que perguntei sobre o sistema capitalista, ele teria cortado minha garganta. A única razão de escaparmos com nossas vidas depois de tanta perguntação é que os homens são ao mesmo tempo famintos e cavalheiros. Eles nos desprezam demais para levar em conta o que dizemos".
"Claro que nos desprezam", disse Eleonor. "Enquanto vocês constatavam isso, eu fazia perguntas entre os artistas. Então, nenhuma mulher nunca foi artista, certo, Poll?” "Jane-Austen-Charlotte-Brontë-George-Eliot," gritou Poll, como um homem gritando rosquinhas em uma rua do bairro. "Maldita seja!" alguém desabafou. "Que chatice ela é!"
"Desde Sappho, nunca houve nenhuma mulher de qualidade", começou Eleanor, citando uma publicação semanal.
"Agora sabemos bem que Sappho era, de certa forma, uma invenção libidinosa do Professor Hobkin", interrompeu Ruth.
"De qualquer forma, não existe razão para supor que alguma mulher algum dia tenha sido ou seja capaz de escrever", continuou Eleonor. "E mesmo assim, sempre que estou entre os autores, eles não param de falar sobre seus livros. Magistral! Eu digo ou algo do tipo: é como o próprio Shakespeare! (já que a gente precisa dizer alguma coisa) e garanto a vocês que eles acreditam em mim".
"Isso não prova nada", disse Jane. "Todos eles fazem isso". E suspirou: "simplesmente não nos ajuda muito. Talvez seja o caso de examinar a literatura moderna. Liz, é sua vez".
Elizabeth se levantou e disse que, para dar conta de sua pesquisa, ela teve de se vestir como um homem e se fazer passar por um crítico. "Li novos livros de maneira bem constante nos últimos cinco anos", disse. "Sr. Well é o escritor vivo mais popular, então, vem o Sr. Arnold Bennett, em seguida, Sr. Compton Mackenzie; Sr. McKenna e Sr. Walpole pode ser considerados como se estivessem no mesmo patamar". Então, ela se sentou.
"Mas você não nos disse nada!" nos queixamos. "Ou você está querendo dizer que esses senhores superaram imensamente Jane-Eliot, e a ficção inglesa está -- onde estão essas críticas escritas por você?”“Ah, sim, 'guardadinha com eles'. Guardadas, bem guardadas", disse ela, alternado de maneira inquieta a posição dos pés. "E tenho certeza que eles dão bem mais do que recebem".
Todas nós tínhamos certeza disso. "Mas", seguimos pressionando, "eles escrevem livros bons?"
"Livros bons?" disse ela olhando para o teto. "Vocês devem ter em mente", ela disse, falando com extrema rapidez, "que a ficção é o espelho da vida. E não se pode negar que a educação tem a maior importância e que seria extremamente irritante, se uma pessoa estivesse sozinha em Brighton, tarde da noite, sem saber qual a melhor pensão para se hospedar, e vamos supor que fosse um domingo chuvoso, não seria agradável ir ao cinema?"
"Mas o que isso tem a ver?" perguntamos.
"Nada, nada, nada, tanto faz", respondeu.
"Então, fale-nos a verdade", nós ordenamos.
"A verdade? Mas a verdade não é maravilhosa", ela confessou, "o Sr. Chitter vem escrevendo um artigo semanal, nos últimos treze anos, sobre amor ou torrada com manteiga e mandou todos os filhos para Eton".
"A verdade!" exigimos.
"Ah, a verdade", ela resmungou, "a verdade não tem nada que ver com literatura", sentou-se e recusou-se a dizer outra palavra sequer.
Tudo ficou super solto, sem conclusão.
"Senhoras, devemos tentar somar os resultados", Jane começou a dizer, quando um burburinho, que já tinha sido notado pela janela há algum tempo, apagou a voz dela.
"Guerra! Guerra! Guerra! Declaração de guerra!" - homens estavam gritando pelas ruas.
Olhamos umas para as outras horrorizadas.
"Que guerra?" gritamos. "Que guerra?"Lembramos, muito tarde, que não nos ocorreu mandar ninguém para a Câmara dos Comuns. Simplesmente, esquecemos. Olhamos para Poll, que tinha lido prateleiras de livros de história da Biblioteca de Londres e pedimos que nos explicasse. "Por que os homens vão para guerra?", perguntamos.
"Algumas vezes, por uma razão; outras vezes, por outras", disse calmamente. "Em 1760, por exemplo,"... Os gritos que vinham de fora abafaram sua voz. "Novamente, em 1797. Em 1840, foram os austríacos, em 18661-1870, foram os franco-prussianos, em 1990, por sua vez".
"Mas já estamos em 1914!" nós a interrompemos.
"Ah, agora, eu não sei porque estão indo à guerra", admitiu.
* * * * *
29 de abril de 2013
Categorias
feminismo,
literatura,
Mazu
4
por Mazu
![]() |
| Quem tem medo da Virginia Woolf? |
Um dos objetivos do blog é compartilhar, debater e popularizar a literatura feminista. Como o cotidiano machista nosso nesse mundão véio sem porteira vive nos dando outros assuntos e motivos para blogar, a gente acaba falando menos nisso do que era nossa intenção de fato. A Thaís e a Thaís trouxeram alguns textos para gente, mas era bom fazer crescer e aumentar o assunto por aqui.
Com isso em vista, vou apresentar um trecho de um dos textos mais amados da Virginia Woolf, Uma Sociedade, traduzido por mim, de maneira livre, leve e rápida (aceito sugestões) para evitarmos quaisquer problemas com direitos dos sujeitos por aí. Um trecho agora, outro logo mais porque talvez eu não possa publicar a tradução do texto todo e, talvez, eu obedeça #NOT.
O texto é uma delícia e tendo em vista a semana que tivemos (violência sexual no horário nobre da TV, nada de novo, não), merecemos alguma delícia nessa vida. Um grupo de mulheres se reúne para tentar avaliar, agora que sabem ler, o mundo liderado e civilizado pelos homens. Humor sutil e feminista, finalmente! Vou fazer como novela e parar no clímax, mas semana que vem eu volto.
continua...
Uma Sociedade
FOI ASSIM que tudo aconteceu. Um belo dia, seis ou sete de nós estávamos sentadas depois do chá. Algumas olhavam para o outro lado da rua para a janela de uma loja de roupas, em que a luz ainda brilhava fortemente sobre plumas vermelhas e sapatos dourados. Outras estavam muito ocupadas, só que não, na construção de pequenas torres de açúcar sobre a borda da bandeja de chá. Depois de um tempo, pelo menos é o que me lembro, reunimo-nos ao redor do fogo e, como de costume, começamos a louvar os homens, quão fortes, quão nobres, quão brilhantes, quão corajosos, quão belos eles eram, e como invejávamos aquelas que, por bem ou por mal, conseguiram se prender a um deles para a vida toda. Quando Poll, que não tinha dito nada, explodiu em lágrimas. Preciso pontuar que Poll sempre foi esquisita. Para começar, seu pai era um homem estranho. Ele deixou uma fortuna em seu testamento, mas com a condição de que ela lesse todos os livros na Biblioteca de Londres. Nós a confortamos da melhor forma possível, mas sabíamos em nossos corações o quão isso era inútil. Ainda que gostássemos dela, ela não era nenhuma miss, deixava os cadarços desamarrados e devia estar pensando, enquanto elogiávamos os homens, que nenhum nunca iria se casar com ela. Finalmente, ela parou de chorar. Demoramos a entender o que ela disse. Por mais estranho que fosse, fazia sentido. Ela nos disse que, como já sabíamos, ela passava a maior parte do tempo na biblioteca de Londres, lendo. Ela disse que começou com literatura inglesa no último andar e o plano era ir em ordem e firmemente até Atualidades no térreo. E, agora, na metade no caminho ou, pelo menos, em um quarto do caminho, uma coisa terrível aconteceu. Ela não conseguia mais ler. Os livros não eram o que nós pensávamos. "Livros", resmungou ela, levantando-se e falando com uma desolação de uma intensidade que nunca esquecerei, "são, na maioria, indescritivelmente ruins!"
Obviamente começamos argumentar com Shakespeare, Milton e Shelley.
Ao que ela respondeu "Ah, sim". "Vocês aprenderam bem, eu percebo. Mas vocês não são membros da Biblioteca de Londres." Nesse momento, os soluços a interromperam de novo. Por fim, recuperando-se um pouco, ela abriu um dos livros em sua pilha de livros que sempre carregava consigo. O livro chamava-se "De uma janela" ou "Em um jardim" ou alguma coisa do tipo e foi escrito por um homem chamado Benton ou Henson ou alguma coisa parecida. Ela leu as primeiras páginas. Ouvimos em silêncio. "Mas isso não é um livro", alguém disse. Então, ele escolheu outro. Dessa vez, uma história, mas não me lembro do nome do autor. Nossa trepidação aumentava conforme ela lia. Nenhuma palavra ali parecia verdadeira, e o estilo em que estava escrito era execrável. "Poesia! Poesia!" pedimos impacientemente. "Leia poesia para nós!" Não posso descrever a desolação que nos assolou quando ela abriu um pequeno volume e declamou a tolice verborrágica e sentimental que o livro continha.
"Deve ter sido escrito por uma mulher," uma de nós argumentou. Mas não. Ela nos disse que foi escrito por um jovem, um dos mais famosos poetas atuais. Imagine só o choque dessa descoberta. Ainda que tenhamos pedido e implorado para que ela não lesse mais, ela persistiu e leu alguns trechos da Biografia dos Chanceleres (Lives of the Lord Chancellors). Quando ela terminou, Jane, a mais velha e sábia de nós, levantou-se e disse que não estava convencida.
Ela perguntou: "Por que, se os homens escrevem esse tipo de asneira, teriam nossas mães perdido suas juventudes trazendo-os ao mundo?"
Estávamos todas em silêncio e, no silêncio, podíamos ouvir a coitada da Poll soluçando "Por que, por que meu pai me ensinou a ler?"
Clorinda foi a primeira a tomar as rédeas. "É tudo nossa culpa", ela disse. "Todas sabemos ler. Mas nenhuma de nós, a não ser Poll, deu-se o trabalho. De minha parte, dei como certo de que a função de uma mulher era passar a juventude tendo filhos. Venerava minha mãe por ter tido dez, mais ainda minha avó por ter tido quinze. Confesso que minha vontade era ter vinte. Nós, em todos esses séculos, supomos que os homens fossem igualmente engenhosos e que seu trabalho fosse de igual mérito. Enquanto dávamos a luz a crianças, eles, supúnhamos, davam a luz a livros e obras de arte. Nós populamos o mundo. Eles o civilizaram. Mas, agora, que podemos ler o que nos impede de avaliar o resultado? Antes de trazermos outra criança ao mundo devemos jurar que procuraremos saber como o mundo está."
Então, transformamo-nos em uma sociedade de fazer perguntas. Uma de nós visitaria os homens da guerra; outra se esconderia num escritório de um acadêmico; outra iria às reuniões de negócios; enquanto todas leríamos livros, apreciaríamos as pinturas, iríamos aos concertos, manteríamos os olhos abertos na rua e faríamos perguntas sem parar. Éramos muito jovens. É possível perceber nossa simplicidade pelo fato de que antes de terminarmos a noite, concordamos que os objetivos da vida eram produzir boas pessoas e bons livros. Nossas perguntas buscavam descobrir o quanto desses objetivos foi atingido pelos homens. Juramos solenemente que não engravidaríamos de um bebê sequer até que estivéssemos satisfeitas.
Assim, partimos, algumas para o Museu Britânico; outras para o Navio Real; algumas para Oxford; outras para Cambridge; visitamos a Academia Real e o Tate; ouvimos música moderna em concertos, fomos às cortes de justiça e assistimos a novas peças. Ninguém jantava fora sem perguntar ao acompanhante determinadas perguntas e anotar cuidadosamente as respostas. De tempos em tempos, nos reuníamos e comparávamos nossas observações. Ah, aquelas adoráveis reuniões! Nunca ri tanto na vida como na ocasião em que Rose leu suas nota sobre "Honra" e descreveu como se fantasiou de príncipe etíope e foi a bordo de um dos navios de sua Majestade. Descobrindo a farsa, o capitão foi visitá-la (agora, disfarçada de um cavalheiro do povo) e exigiu que a honra fosse satisfeita. "Mas, como?" ela perguntou. "Como?" ele berrou. "Com a chibata!" Vendo que ele estava fora de si de raiva e esperando que aquele fosse seu fim, ela se curvou e recebeu, para sua surpresa, seis chibatadas leves nas partes traseiras. "A honra da marinha britânica foi vingada!" ele gritou. Ao se levantar, ela percebeu que ele tinha o rosto pingando suor e segurava sua mão direita trêmula, "Alto lá!" ela exclamou, criando uma postura e imitando a ferocidade da expressão dele, "minha honra ainda deve ser satisfeita!" "Falou como um cavalheiro!" ele respondeu e ficou pensativo. "Se seis chibatadas foram o suficientes para vingar a honra da marinha real", ponderou ele, "quantas seriam necessárias para um cavalheiro do povo?" Ele disse que apresentaria o caso aos companheiros de tripulação. Ela disse com arrogância que não poderia esperar. Ele elogiou a sensibilidade dela. "Deixa-me ver", disse ele de repente, "seu pai tinha uma carruagem?" Não, ela respondeu. "Ele andava a cavalo?" "Tínhamos um burro", recordou, "ele movia o moinho". Com isso, o rosto dele se iluminou. "O nome da minha mãe", ela acrescentou. "Em nome de Deus, homem, não mencione o nome da sua mãe!" ele riu alto, tremendo como uma vara verde, mas completamente vermelho de constrangimento, e levou pelo menos dez minutos para que ela conseguisse fazer com que ele continuasse. Finalmente, ele resolveu que se ela desse quatro golpes e meio de chibata no seu lombinho, região indicada por ele, (meio, conforme ele explicou, em reconhecimento ao fato de que o tio da avó dela ter sido morto em Trafalgar*), ele acreditava que a honra dela ficaria nova em folha. E isso foi feito. Então, foram para um restaurante, beberam duas garrafas de vinho, pelas quais ele insistiu em pagar, e se despediram com votos de amizade eterna.
Depois disso, a Fanny nos contou sobre sua visita às cortes de justiça. Em sua primeira visita, ela chegou à conclusão de que os juízes eram feitos de madeira ou eram personificados por grandes animais que se assemelhavam aos homens e que teriam sido treinados para mover com extrema formalidade, sussurrar e consentir com a cabeça. Para testar sua teoria, ela soltou um punhado de varejeiras em um momento crítico de um julgamento, mas não conseguiu determinar se as criaturas deram algum sinal de humanidade porque as moscas zunindo a induziram a um sono tão pesado que ela só acordou a tempo de ver os prisioneiros sendo levados às celas. Contudo, pela descrição trazida por ela, decidimos que era injusto supor que os juízes fossem homens.
Helen foi à Academia Real, mas, quando pedimos que ela relatasse as peças, ela começou a recitar o que lia em um pequeno livro azul: "Oh! pelo toque de uma mão envernizada e o som de voz parada. A casa é o caçador, a casa da colina. Ele balançou as rédeas de seus quadris. O amor é doce, o amor é breve. Primavera, a bela primavera, é a rainha adorável do ano. Oh! estar na Inglaterra agora que abril chegou. Homens devem trabalhar e mulheres devem reclamar. O caminho do trabalho é o caminho para a glória". Não podíamos mais ouvir aquela baboseira.
"Não queremos mais poesia!" protestamos.
"Filhas da Inglaterra!" ela começou, mas nós a fizemos sentar e jogamos um copo de água nela enquanto o fazíamos.
"Graças a Deus!" ela disse, sacudindo-se como um cão. "Agora vou rolar no tapete para ver se consigo tirar o que resta da Union Jack** de mim. Quem sabe." Então, ela começou a rolar energicamente. Ao levantar-se começou a nos explicar como eram as pinturas modernas, quando foi interrompida por Castalia.
“Qual é o tamanho médio de uma pintura?” ela perguntou. "Pouco mais de meio metro talvez", ela disse. Castalia fez anotações enquanto Helen falava e, quando ela terminou, e tentávamos não olhar uma nos olhos das outras, Castalia levantou e disse "Conforme combinamos, passei a semana passada em Oxbridge, disfarçada de faxineira. Assim, tive acesso às salas de vários professores e vou passar a vocês alguma ideia do que percebi", ela confessou, "Não sei como. É tão estranho. Esses professores", ela continuou, “vivem em grandes casas construídas ao redor de gramados, isolados em um tipo de célula. Ainda assim, eles têm toda conveniência e conforto. A única coisa a fazer é pressionar um botão ou acender uma pequena lâmpada. Seus documentos são lindamente organizados. Livros em abundância. Não há crianças ou animais, a não ser alguns gatos de rua e um galo velho”. "Lembram-me", ela confessou, "uma tia minha que vivia em Dulwich e tinha cactos. Você chegava na estufa depois de passar por uma grande sala de estar, e lá estavam, em tubos aquecedores, eram dúzias delas, plantinhas feias, esquálidas, eriçadas, cada uma em um vazo diferente. Uma vez a cada cem anos, a aloe dá flores, dizia minha tia. Ela nunca viveu para ver." Nesse ponto, pedimos que ela voltasse ao assunto. "Bem", ela retomou, "quando o professor Hobkin saiu, examinei o trabalho de sua vida, uma edição de Sappho. Trata-se de um livro de aparência estranha, 15 ou 16 centímetros de espessura, não é todo da Sappho. Ah, não. Trata-se, em sua maior parte, de uma defesa da castidade de Sappho, o que foi negado por um senhor alemão, e posso garantir como a paixão com que esses dois cavalheiros discutiram, o conhecimento que esbanjaram, a ingenuidade com que disputaram o uso de algum instrumento - que, para mim, tinha a importância de um grampo de cabelo - me assombrou, especialmente, quando a porta abriu e o Professor Hobkin apareceu em pessoa. Um senhor muito agradável e brando, mas como poderia saber qualquer coisa sobre castidade?" Nós a entendemos mal.
"Não, não", ela argumentou, "ele tem honra na alma, tenho certeza. Não que ele não se pareça com o capitão descrito pela Rose, de forma alguma. Eu pensava nos cactos da minha tia. Como eles saberiam qualquer coisa sobre castidade?"
Novamente, dissemos a ela para parar com as viagens mentais, afinal, os professores de Oxbridge ajudavam a produzir boas pessoas e bons livros? Os objetivos da vida.
"É isso!" ela exclamou. "Nunca pensei em perguntar. Nunca me ocorreu que eles pudessem produzir coisa alguma."
"Acho que você fez alguma coisa errada", disse Sue. "Talvez o tal Professor Hobkin fosse um ginecologista. Um acadêmico transborda humor e criatividade, com algum alcoolismo, mas e daí? São companhias deleitáveis, generosas, sutis, inovadoras, obviamente. Já que passam a maior parte de sua vida com os melhores seres humanos que já existiram".
"Hum", ponderou Castalia. "Talvez eu deva voltar e tentar novamente".
"Estive em Oxbridge", ela me disse.Uns três meses depois disso, aconteceu de eu estar sentada sozinha quando Castalia chegou. Não sei bem o que no jeito dela que me comovia, mas não pude me conter e, enquanto atravessávamos a sala, dei um abraço nela. Ela não estava apenas linda, mas parecia felicíssima. "Como você está alegre!" Exclamei, enquanto ela se sentava.
"Fazendo perguntas?"
"Respondendo perguntas", retrucou.
"Você não quebrou nossa promessa?" Perguntei ansiosamente porque notei alguma coisa nela.
"Ah, a promessa", disse ela casualmente. "Vou ter um bebê, se é disso que está falando. Você não pode imaginar", disse de repente, "o quão excitante, lindo e satisfatório"
O quê?" perguntei.
"Responder perguntas", ela disse com alguma confusão. Foi aí que me contou a história toda.
continua...
** Union Jack
12 de abril de 2013
Categorias
feminismo,
humor,
literatura,
Mazu
4
Hoje, vamos falar de humor e estereótipos. Ah os estereótipos.... Sim, lá vem outro post mal-humorento contra o humor e a liberdade de expressão. ¬¬
A Roberta adora falar de humor e manda muitíssimo bem quando faz, dá uma olhada aqui, aqui e aqui. Dá para selecionar o marcador humor e ver os vários posts sobre isso no blog também.
Vou tratar especificamente do vídeo Mulheres do Porta dos Fundos. Na boa, eu vi dois vídeos deles antes disso e gostei muito (Spoleto e Deus). Mas esse, especificamente, se baseia num estereótipo que me incomoda muito. Vejamos:
Por quê, meu Deus, as titias feministas vamos implicar com esse vídeo engraçadinho (só que não) desse grupo humorístico tão querido da galera (que, segundo comentário forte nas interwebs, pertence ao rei dos coxinhas, Luciano Huck)?
Porque reforça um estereótipo.
Parece pouco para tanta implicância, não é mesmo? Mas não é. Vai vendo. O estereótipo de que as mulheres falam demais e reclamam demais é perigoso, sim, porque valida o velho "mulher boa é mulher calada". Além de dar aval para que não sejamos ouvidas. Por que escutar uma denúncia de assédio moral ou violência psicológica (que é mais difícil de detectar) quando o "natural" da mulher é reclamar? Para que agir com respeito e ser um bom companheiro se "haja o que hajar" a mulher vai reclamar?
O grande problema dos estereótipos é este: legitimar o comportamento de uma sociedade opressora. Dizer que mulher só reclama é um jeito de nos calar. E, caso você não tenha lido o post anônimo anterior ao meu, leia e veja como isso é um problema.
![]() |
| Por quê? a gente fica mais linda caladinha? |
Vou retomar um trecho de um post da Rô, que pode ser lido na íntegra aqui, para formular um argumento sobre a falação das mulheres. Este trecho trata de um tipo específico de piada machista:
1) Piadas que afirmam o comportamento "natural" das mulheres
Que as mulheres gastam o dinheiro dos maridos, falam demais, são vaidosas, superficiais e fúteis, etc.Quem divulga estas piadas não são só homens, é claro. Como diria uma colega, você sabe que está numa luta difícil quando metade do seu time está contra você. Mulheres muitas vezes promovem esse tipo de humor sem muita reflexão. A piada ao lado, por exemplo, foi compartilhada por uma mulher que sei que sustenta a casa, inclusive o marido, há décadas. Qual a graça em se autodenegrir, sendo que o que é afirmado nem é verdade?
O intuito dessas piadas é, pura e simplesmente, ridicularizar comportamentos tidos como femininos, ou seja, ridicularizar as mulheres. Essa categoria, apesar de parecer light, justifica atitudes paternalistas de menosprezo e desqualificação ao reforçar estereótipos que estão longe de ser verdade para muitas, senão a maioria de nós.
E nem é verdade. Fato. A gente fala e reclama muito menos do que devia, companheirada! E essa é a verdade.
A Lola diz que "toda mulher tem um história de horror pra contar", mas a gente nunca conta. Nunca contei por aí que, quando tinha 14, um sujeito tentou me derrubar da bicicleta enquanto eu voltava da casa de um amigo. Nunca contei que, quando estudava em Campinas e trabalhava em São Paulo, desmaiei de cansaço no ônibus e acordei com o cara do lado me apalpando. Nunca admiti que acordo meu companheiro todo dia para me levar ao ponto de ônibus porque os números de violência sexual contra mulheres no DF são ridículos, e eu morro de medo de andar duas quadras sozinhas às 6h da manhã. Nunca admiti que fico calada de medo de perder o emprego diante do sexismo do meu chefe. Sério, eu milito há um tempão, desde a faculdade, e eu nunca disse nada disso em público. E tanta coisa para dizer, e o parágrafo ficando enorme, e, talvez, alguém tenha parado de ler porque, afinal, um parágrafo enorme de outra mulher reclamando...
![]() |
| Alô, alô, todas denunciando! |
A gente não diz nada para não incomodar os opressores, porque a gente não quer ser a moça do vídeo que só reclama, porque a gente foi convencida pela sociedade patriarcal de que se essas coisas acontecem com a gente, de certa forma, a culpa é nossa, e que a gente não aprecia toda a "proteção" que o patriarcado nos dá. Bem-vindas ao mundo em que todos os mimimis são permitidos, menos os seus!
Só para constar, quando o Porta dos Fundos ironizou o comportamento masculino, que não distingue mulher de boneca inflável de companheiro homo, brincou com o estereótipo do homem incapaz de ouvir e perceber, eu me ofendi pelos homens. Pelos da minha vida e pelos que não conheço. Hipérbole e piadas à parte, não achei que representa, nem que faz rir.
5 de abril de 2013
Categorias
gênero,
humor,
liberdade de expressão,
Mazu,
opressão,
preconceito
9
por Mazu
Se todas as potências do homem na visão, na audição, nos recursos imensos do cérebro, nos recursos gustativos, nas mãos, na tactilidade, nos pés, se todas essas potências foram dadas ao homem para educação, para o rendimento no bem, isso é, potências consagradas ao bem e à luz, em nome de Deus. Seria o sexo, em suas várias manifestações, sentenciado às trevas?
- Chico Xavier
Se você anda pelo Brasil, física ou virtualmente,
e se não mora embaixo de uma pedra, tem acompanhado as várias manifestações
contra o Pastor Feliciano. Elas estão por todo lado, na rua, na
chuva, na fazenda, nas internets ou numa casinha de sapê. Este post vai destoar
um pouco das manifestações porque vou defender o Feliciano. Brinks.
Impussibru. (Bazinga!)
Bom, já assumi, sou uma pessoa religiosa, já fui
mais, mas a culpa não é bem de Deus e, sim, dos que acham que falam em nome
dele. É, gente tipo o Feliciano. Já falei sobre minha fé e o feminismo aqui. A Thaís
e a Tággidi trataram lindamente de religião e preconceito aqui e aqui. Para a
gente não ficar se repetindo, vou tratar só do Parco
Feliciano. Isso porque, pelo visto, muita gente parece não entender qual é o problema dos movimentos sociais (feminista, LGBT, dos direitos humanos) com o Impastor. Abaixo, numerei alguns exemplos do que escutei e li nos debates gerados em torno das afirmações do Feliciano:
1) A implicância com o Feliciano é preconceito contra evangélicos e cristãos?
Não. Gostaria de deixar assim bem claro que o
problema que temos com o Feliciano não tem relação com a religião dele. O Jean
Willis fez uma nota bem legal sobre isso. De minha parte, vou fazer uma
brincadeira: eu até tenho amigos evangélicos, logo não sou
evangelicofóbica.
Agora, falando sério, o problema não é a
religião, é o uso que ele faz da religião para justificar e legitimar os
próprios preconceitos. Existe muita gente religiosa, inclusive evangélica,
putíssima com as afirmações babacas dele.
2) A gente não tem direito à opinião? E a liberdade de expressão?
Lógico que tem. E a liberdade de expressão
continua incompreendida, a coitadinha. Direito à opinião e à liberdade de
expressão é uma garantia nos dada pela nossa maravilhosa, LAICA e nem
sempre cumprida Constituição Federal de 1988. Mas, como todas as garantias e as
liberdades individuais, a liberdade de opinião não é absoluta, não, bro. Todas as liberdades
individuais têm o seguinte limite: o outro. Lindo, né? Me gusta.
Assim, eu posso ter opinião, você, nós podemos,
como cidadãos comuns, civis, ter a nossa opinião, por mais ridícula que ela
seja e desde que ela não prejudique outras pessoas. A gente pode fazer tudo o
que a lei não proíbe. Agora, um agente público, um agente político, um deputado
tem a liberdade muito mais limitada que a nossa. Eles só podem fazer o que a
lei permite. Por incrível que pareça. Logo, o deputado Feliciânus não pode sair por aí fazendo e
falando qualquer coisa. As ações desses caras têm que estar dentro das leis, de
acordo com a nossa amada salve, salve Constituição que não é, pasmem, a bíblia.
E a Constituição PROÍBE discriminação religiosa, de manifestação
ideológica, cor, raça e, além disso, equipara homens e mulheres em direitos e
obrigações. Lá no comecinho já, artigo 5º, ou seja, não está nem no fim, nem
oculto ou escondido na CF, está nas primeiras páginas mesmo. São garantias expressas.
Outro problema é que um deputado com essas
opiniões fortes e ofensivas é uma ameaça constante aos nossos direitos
adquiridos. Um exemplo, o cara acha que o desmantelamento da família como
instituição e o aumento da homossexualidade é culpa dos direitos que as
mulheres adquiriram. Aliás, como diria a Feminista Cansada, ele acha que SE as
mulheres exercessem esses direitos, elas ameaçariam aquelas instituições. Vai
vendo, até os caras mais conservadores sabem que a gente não tem acesso a todos
os direitos que estão no papel.
De toda forma, essa culpabilização da mulher é uma
opinião mal formada e mal informada. Primeiro que a estrutura patriarcal de família sempre terá problemas e passará por crises porque é excludente, limitadora e preconceituosa. Se a família do jeito que o patriarcado idealiza não existe, é porque o seu próprio sistema é falho. Outra coisa, a homossexualidade não "aumentou", detesto quando falam isso, como se fosse um problema. O que acontece é que, hoje, as pessoas têm um pouco mais de liberdade sexual. E Feliciano ameaça diretamente esse pouco que, ao
mesmo tempo, é muito, do que a gente já conquistou.
Por isso que a opinião dele não é simplesmente uma opinião. Essa pessoa que abre a boca para dizer isso, é a pessoa que pode (sim, tem o poder de) criar e mudar as leis. Perceba e entenda o nosso pânico.
Por isso que a opinião dele não é simplesmente uma opinião. Essa pessoa que abre a boca para dizer isso, é a pessoa que pode (sim, tem o poder de) criar e mudar as leis. Perceba e entenda o nosso pânico.
3) Eu sou homem, branco e hétero, Feliciano não me interessa (atinge).
Há. Senta aí, bonito. Xô te contá. Agora, por
enquanto, não. Afinal, é mais fácil começar pelas minorias (que apesar do que o
Felicianta acha, não significa minoria numérica, tá?). Mas se você gosta do seu
direito de ser ateu, agnóstico, católico ou qualquer outra coisa que não
evangélico, cuide-se, viu. Se você foi criado por uma mulher que trabalhou fora
(e, provavelmente, dentro) para te manter, se você tem uma companheira com quem divide as contas, cuida também, viu. Os direitos ameaçados não te
afetam diretamente, mas gente intolerante no poder, de alguma forma e em
algum momento, atinge todo mundo. Se não hoje, logo mais.
4) Os evangélicos não podem ter representação parlamentar?
Uai, poder pode. O que não pode é tentar passar e
impor suas crenças para o resto do país. Oferecer a cura gay na igreja não é
proibido, embora, pessoalmente, pareça-me absurdo. Agora, transformar a cura
gay em lei não pode. Fere diretamente a liberdade de um monte de gente.
É assim: num Estado laico que prega a liberdade
religiosa, as crenças ficam nas respectivas casas (igrejas, terreiros, centros,
etc.). No Congresso, os pastores não devem ser pastores; nem os padres, padres. Isso
porque eles não representam apenas os que votaram neles, ali, eles estão por
todo mundo. É pra ser simples, cada um no seu quadrado, e todos se respeitando.
5) E aí, a gente faz o quê?
Muitas coisas. Para começar, a gente se junta aos
protestos. Pode parecer que não adianta, mas adianta. Devemos ir às
manifestações e assinar as petições. A mentalidade felicianística ameaça não só
os direitos dos homossexuais e das mulheres, ameaça o Estado democrático que a
gente vem buscando há tempos e queima muito o filme dos cristãos.
Então, bora participar.
Para terminar, tenhamos pensamento crítico. Não por nada, não, sem querer
ofender, se você tem uma religião que prega violência contra o diferente,
talvez seja interessante pensar melhor a respeito. Estudar um pouquinho de
história, ver tudo de horrível que esse tipo de pensamento já causou e ainda
causa. Mas, assim, de boa, sem querer pregar contra nenhuma religião. Sei lá,
me chame de louca, mas Deus, pra mim, é amor.
![]() |
| Tággidi subvertendo! |
22 de março de 2013
Categorias
família,
feminismo,
homofobia,
homossexualidade,
liberdade de expressão,
Mazu,
preconceito,
religião
0
A questão aqui é a forma como somos educados, a Júlia já falou disso aqui, e já indiquei leitura sobre isso aqui. Enfiam na cabeça das meninas desde cedo que a limpeza é uma de suas características: ser porquinho, para um menino, é feio, para uma menina, uh, é a desgraça da família. Isso pode ser um problema, por exemplo, para as meninas que gostam de coisas mais atléticas. Pode ser um problema para mulheres que não curtem trabalho de casa, já que se a casa está suja a culpa é da mulher que habita a casa. Até quando eu morei em república mista, eu sentia isso. Outra coisa que sinto é que estas meninas (que não curtem trabalho de casa) são a maioria e sempre foram. A diferença é que, hoje, a gente tem um pouco mais de voz.
Por sua vez, a bola fora da marca Vanish é um pouco mais sutil. Para começar, algumas pessoas podem achar a propaganda agradável aos olhos. Mesmo que seja, para quem gosta de branquelões sarados, de certa forma, a propaganda também define seu nicho: as mulheres. Não só pelas imagens dos branquelões sarados, porque talvez os homens gays curtam, mas porque também diz “o que uma mulher merece?”. Parece até homenagem, mas está dizendo que a gente merece várias coisas, depois que lavarmos a roupa. O que também pode soar agradável é que eles perguntam se o companheiro tem "ajudado" em casa. Bom, qual é o problema desse verbo "ajudar"? Você ajuda quando não é sua obrigação, certo? E isso é phoda, a maioria dos homens foi criada para não entender tarefas domésticas como suas obrigações, logo, se quiserem, eles “ajudam”.
O outro lado disso é quando eles ajudam, nossa, é uma festa, ganham até medalha. Nossa, um homem que ajuda em casa é um partidão! Cara, isso é ruim porque é injusto, quando algo se torna sua obrigação, ninguém agradece, quando você ajuda, quase sempre agradecem. Então, quando a mulher faz e faz bem, ninguém menciona, se faz mal, sim, a desgraça da família. Agora, um homem, quando faz o mínimo de tarefa de casa é um herói. É injusto e é padrão duplo. O que eu gostaria de ver mesmo é a divisão justa e igual das obrigações. A casa e os filhos não são mais da esposa do que são do marido. E eu digo isso até para questões legais, no caso de um divórcio, o que tem de errado um homem ficar com a casa e a guarda das crianças se isso for melhor para todo mundo? Por que isso deveria causar algum escândalo?
Existem homens bem habilidosos nas tarefas domésticas e mulheres nem tanto. Acho que essas pessoas não se mostram porque existem ainda esses estigmas bobos que fariam com que elas fossem julgadas dessa ou daquela maneira.
Por essas e por outras que as feministas "chatas" vão sempre pegar no pé dos publicitários e publicitárias, eles estão com a faca e o queijo na mão para demonstrar que não estamos mais no século XVIII, eles têm acesso aos maiores canais de divulgação. Não são eles que criam os padrões, mas eles têm a capacidade de legitimá-los e reforçá-los. De minha parte continuo achando que seria tipo mágico viver em uma sociedade em que o limite do que a gente pode e deve fazer fosse o respeito pelo outro e não esses preconceitos bestas do que se espera de um homem, do que se espera de uma mulher.
por Mazu
Existem muitos estigmas sociais que marcam as mulheres, existem os mais novos e os mais antigos. A questão da limpeza, que provavelmente tem algo que ver com a da pureza, é provavelmente um dos estigmas mais antigos. Do meu ponto de vista, um dos mais irritantes. Ele se manifesta de várias maneiras e em várias situações, hoje, vou listar três que, especialmente, chamaram minha atenção nos últimos dias.
No banheiro do trabalho, agora, existem várias mensagens do que a mulher tem que fazer para "não jogar a compostura pelo ralo", todas essas mensagens que aparentemente nos ensinam a ter compostura trazem princípios básicos de higiene e até um princípio errado de higiene (diz que devemos deixar a tampa levantada, quando a gente sabe que dar descarga com a tampa levantada espalha partículas pelo banheiro inteiro). Sinceramente, não me oponho às questões de higiene e ficaria mais feliz se as pessoas as seguissem, agora, por que cargas d'água isso tem algo com a minha compostura? Lógico, porque somos mulheres e isso significa que temos que ser limpinhas. Perceba, não estou dizendo que as mulheres nem os homens devem ser sujinhos, só estou tentando mostrar que higiene para mulher é quase uma questão moral. Vai vendo. No banheiro dos homens, não tem nada para ler. Coitadinhos.
Enfim, algo me diz que esse estigma da pureza e da limpeza é o que transformou a gente nas faxineiras oficiais do mundo. Aparentemente, nenhum homem pode fazer uma faxina melhor do que uma mulher. A gente sabe que isso é mentira, cuidar da casa é uma tarefa super difícil, mas todos e todas podemos aprender. Bom, nessa de limpeza ser tarefa de mulher, tudo que diz respeito à faxina, cuidar da casa e cuidar dos homens está voltado para o público feminino. Bons exemplos são estes dois materiais promocionais das marcas Veja e Vanish.
![]() |
| Captura de tela do site da Vanish: a gente limpa primeiro, depois vamos trabalhar e conquistar nosso espaço |
A questão aqui é a forma como somos educados, a Júlia já falou disso aqui, e já indiquei leitura sobre isso aqui. Enfiam na cabeça das meninas desde cedo que a limpeza é uma de suas características: ser porquinho, para um menino, é feio, para uma menina, uh, é a desgraça da família. Isso pode ser um problema, por exemplo, para as meninas que gostam de coisas mais atléticas. Pode ser um problema para mulheres que não curtem trabalho de casa, já que se a casa está suja a culpa é da mulher que habita a casa. Até quando eu morei em república mista, eu sentia isso. Outra coisa que sinto é que estas meninas (que não curtem trabalho de casa) são a maioria e sempre foram. A diferença é que, hoje, a gente tem um pouco mais de voz.
As mulheres trabalhando fora de casa também é um fenômeno mais ou menos recente. Inclusive, hoje, quase 40% dos lares brasileiros são mantidos por mulheres. E, sério, que pessoa, depois de um dia de trabalho, chega em casa a fim de fazer faxina? Ou quer passar o final de semana assim? Quem gostaria disso?
Uma das minhas colegas do trabalho tem dois filhos e um marido, todos eles trabalham menos e trazem menos renda para casa, e é ela que faz faxina, lava a roupa e cozinha. Já perguntei, por que eles não fazem nada? E ela me disse que quando fazem, fazem errado. Há! Esse é o truque mais antigo do mundo, tenho quase certeza que fui eu quem inventou. Toda vez que meus pais me pediam para fazer alguma coisa que eu não queria, eu fazia errado para não ter que fazer mais. Para não ser injusta, podemos dizer que ninguém os ensinou, logo, eles não sabem. Mas se as meninas aprendem, tenho certeza, que os meninos aprendem.
Falando agora dos materiais promocionais, acho que a bola fora da marca Veja foi mais explícita, eles receberam muitas críticas e mudaram a apresentação da sua página no Facebook. O grande problema foi o termo escolhido, usar o termo "mulher" é excluir os homens do seu nicho. A gente já discutiu isso, se usarmos "homem" a gente pode estar falando da humanidade inteira, assim como o masculino engloba toda uma coletividade, ainda que os homens, num determinado grupo, sejam minoria. Agora dizer "mulher" é só para mulher, nada mais.
![]() |
| Arte de Laís Bicudo para o Subvertidas |
Por sua vez, a bola fora da marca Vanish é um pouco mais sutil. Para começar, algumas pessoas podem achar a propaganda agradável aos olhos. Mesmo que seja, para quem gosta de branquelões sarados, de certa forma, a propaganda também define seu nicho: as mulheres. Não só pelas imagens dos branquelões sarados, porque talvez os homens gays curtam, mas porque também diz “o que uma mulher merece?”. Parece até homenagem, mas está dizendo que a gente merece várias coisas, depois que lavarmos a roupa. O que também pode soar agradável é que eles perguntam se o companheiro tem "ajudado" em casa. Bom, qual é o problema desse verbo "ajudar"? Você ajuda quando não é sua obrigação, certo? E isso é phoda, a maioria dos homens foi criada para não entender tarefas domésticas como suas obrigações, logo, se quiserem, eles “ajudam”.
O outro lado disso é quando eles ajudam, nossa, é uma festa, ganham até medalha. Nossa, um homem que ajuda em casa é um partidão! Cara, isso é ruim porque é injusto, quando algo se torna sua obrigação, ninguém agradece, quando você ajuda, quase sempre agradecem. Então, quando a mulher faz e faz bem, ninguém menciona, se faz mal, sim, a desgraça da família. Agora, um homem, quando faz o mínimo de tarefa de casa é um herói. É injusto e é padrão duplo. O que eu gostaria de ver mesmo é a divisão justa e igual das obrigações. A casa e os filhos não são mais da esposa do que são do marido. E eu digo isso até para questões legais, no caso de um divórcio, o que tem de errado um homem ficar com a casa e a guarda das crianças se isso for melhor para todo mundo? Por que isso deveria causar algum escândalo?
Existem homens bem habilidosos nas tarefas domésticas e mulheres nem tanto. Acho que essas pessoas não se mostram porque existem ainda esses estigmas bobos que fariam com que elas fossem julgadas dessa ou daquela maneira.
Por essas e por outras que as feministas "chatas" vão sempre pegar no pé dos publicitários e publicitárias, eles estão com a faca e o queijo na mão para demonstrar que não estamos mais no século XVIII, eles têm acesso aos maiores canais de divulgação. Não são eles que criam os padrões, mas eles têm a capacidade de legitimá-los e reforçá-los. De minha parte continuo achando que seria tipo mágico viver em uma sociedade em que o limite do que a gente pode e deve fazer fosse o respeito pelo outro e não esses preconceitos bestas do que se espera de um homem, do que se espera de uma mulher.
10 de março de 2013
Categorias
divisão do trabalho,
educação,
Mazu,
padrões duplos















