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por Roberta Gregoli
Ontem comemoramos um mês de Subvertidas! Neste um mês já começamos (apenas começamos!) a desmistificar o feminismo, falamos sobre violência, sexo, humor, movimentos sociais e até sobre Deus, entre outros tópicos nesses 19 posts (dêem uma olhada na barra azul ao lado para ver todos).
Agora queria me voltar para uma outra proposta deste blog, que é divulgar a teoria feminista (e, no caso deste post em específico, a história da sexualidade). O conhecimento acadêmico produzido por feministas é fascinante porque oferece um ponto de vista altamente crítico sobre coisas que temos como certas. Por exemplo, o título deste post parece absurdo? Pois bem, o isomorfismo foi tido como fato por mais de 17 séculos.
De acordo com o modelo do sexo único (ou isomorfismo sexual), os órgãos sexuais femininos seriam iguais aos masculinos, mas dentro do corpo (o útero seria um pênis invertido, os ovários seriam testículos e assim por diante). Parece insano? Pois é, mas nomes específicos para os componentes anatômicos femininos (ovários, útero, etc) só surgiram no século XVIII. Não sei para vocês, mas para mim isso coloca as coisas em perspectiva e me faz olhar com suspeita para todos esses estudos que dizem provar diferenças entre os sexos.
O modelo do sexo único é um exemplo clássico da ciência reproduzindo e legitimando posições sociais. Não que todos os anatomistas e cientistas participassem de um complô em massa para dominar as mulheres. Eles simplesmente eram produto de se tempo e não conseguiam enxergar o mundo de outra forma. Em outras palavras, o conhecimento produzido por eles re-produzia as condições sociais em que estavam inseridos.
Isso faz parte de um assunto muito interessante e polêmico: o debate entre natureza e cultura (em inglês, conhecido como nature vs. nurture). Algum@s defendem o papel primordial da natureza (hormônios, genes, seleção natural), outr@s o da cultura e do meio em que as pessoas crescem, e há também a posição mais moderada que defende uma mistura entre os dois.
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| Natureza vs. cultura |
Eu defendo que a cultura tem um papel absolutamente fundamental. É claro que fenômenos naturais existem, mas só conseguimos significá-los através da cultura. É como uma árvore de maçã no meio de uma avenida: ela existe enquanto fato natural, mas foi plantada numa certa época, serve um certo papel dento do planejamento de paisagismo da cidade e, quando olhamos para ela, a associamos ao aquecimento global ou ao pecado original, dependendo da nossa formação - isso tudo é cultura. A mesma lógica se aplica, por exemplo, aos famigerados hormônios: eles existem, claro, mas o papel inscrito a eles - que agora são usados para explicar desde comportamento violento até sexualidade - está aberto para debate.
O problema é que no senso comum a ciência tem status de verdade absoluta, algumas vezes sem um olhar crítico sobre as circunstâncias de sua produção. Qualquer pesquisador@ sabe - e a teoria feminista tem isso muito claro - que o conhecimento científico é bem menos conclusivo e muito mais parcial do que parece. Veja o exemplo de um caso muito recente de um professor da London School of Economics que concluiu que mulheres negras são menos atraentes do que mulheres de outras etnias. É claro que a conclusão é uma balela - basicamente, beleza é uma construção social e, mesmo que fosse verdade que a maioria dos entrevistados achou mulheres negras menos atraentes, isso teria mais a ver com um padrão de beleza racista, que nada tem de objetivo (vejam análises detalhadas das falhas metodológicas do estudo aqui e aqui). Mas é uma balela sustentada por dados (manipulados, conscientemente ou não) e nomes complicados que, não fosse pelas feministas e por integrantes do movimento negro que fizeram um justificado escarcéu, talvez passasse como verdade. O caso gerou muita revolta e o professor - que é um defensor, surpresa, do politicamente incorreto - quase foi demitido. Quase. É pena.
O estudo foi chamado de 'pseudociência'... mas e se olhássemos com o mesmo grau de escrutínio para outros tantos estudos que dizem provar que o hormônio X causa o comportamento Y, que mulheres têm menos senso de direção, que homens vão melhor em matemática, que o cérebro feminino funciona assim e o masculino assado? Ou que as mulheres querem amor e os homens querem sexo? Isso sem falar no famoso instinto maternal (que para mim é cultura maternal), no "instinto" do homem de trair, etc. Como já discutido aqui, as diferenças entre mulheres e homens são abismais. Mas será que são naturais?
Como outras feministas, acredito que existem mais diferenças entre indivíduos de um mesmo sexo do que entre homens e mulheres no geral.
Espero que não interpretem o meu argumento como se eu fosse "contra" a ciência. Isso seria reducionista. O que estou propondo é pensar criticamente as condições da produção do conhecimento científico, questionando as premissas ideológicas e políticas de determinado estudo, contrastando um estudo com outros e assim por diante (veja aqui um exemplo que desconstrói 6 mitos sobre as diferenças entre os sexos). E, mesmo sendo comprovado que exista uma diferença X entre homens e mulheres, até que ponto essa diferença é natural e não cultural?
E se questionássemos a premissa-base de toda esta discussão: se, em vez de dois sexos, na verdade existissem, pelo menos, cinco sexos?
Mas isso é assunto para o próximo post.
6 de junho de 2012
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por Roberta Gregoli
É claro que essas prescrições de gênero não afetam somente as mulheres. Vejam este dos príncipes:
por Roberta Gregoli
Vocês já devem ter visto esse tipo de meme das princesas da Disney circulando pela internet. Achei tão interessante que decidi compilar as melhores frases de diferentes versões e traduzir para o português:
É claro que essas prescrições de gênero não afetam somente as mulheres. Vejam este dos príncipes:
Mesmo vendo desde quão cedo esses valores são inculcados em nós, ainda temos que aguentar pessoas que culpam as mulheres pela vaidade e pela competição feminina.
A conclusão é que os ideais de gênero, além de ensinados desde muito cedo, são inalcançáveis. Para ambos os sexos. Mas às mulheres são negados qualquer agência e talento próprio e somos incentivadas a abrir mão de qualquer sonho ou vocação, e a passar por cima de qualquer abuso para ficar com um homem.
Precisamos de novas histórias.
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por Roberta Gregoli
Seguindo a dica da Pró-Reitora da Universidade de Oxford, Dra. Sally Mapstone (a única mulher entre os seis Pró-Reitores da Universidade), assisti a um vídeo inspirador de Sheryl Sandberg. Sandberg é diretora de operações do Facebook (a revista Época, num artigo particularmente machista, chama de "babá" de Mark Zuckerberg, como se a única posição concebível para uma mulher objetivamente extremamente competente fosse numa ocupação tipicamente feminina).
No vídeo abaixo, inititulado Por que há tão poucas mulheres líderes?, Sandberg articula algumas máximas interessantes, dicas para as mulheres continuarem - e se destacarem - no mercado de trabalho: sente-se à mesa, faça do seu parceiro um parceiro de verdade e não saia antes de sair.
Curios@? Assista ao vídeo na íntegra que vale muito a pena. Ela cita números e histórias que elucidam de maneira brilhante por quê, apesar do senso comum dizer que as mulheres avançaram no mercado de trabalho, na verdade ainda estamos empacadas como uma pequena minoria.
(Para ver o vídeo com legendas, clique aqui e selecione Portuguese, Brazilian no canto inferior esquerdo do vídeo.)
Eu gosto particularmente do estudo que usa a história de Heidi Roizen. Baseado no estudo, deixo o meu desafio: se pergunte quais associações vêm a sua cabeça quando você pensa numa "mulher ambiciosa" e o que vêm a sua cabeça quando pensa num "homem ambicioso". Se as associações forem diferentes, surpresa, você está corroborando uma visão sexista.
3 de junho de 2012
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padrões duplos,
Roberta
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Traduzido daqui.
por Roberta Gregoli
"Repórter: Tenho uma pergunta para o Robert e uma para a Scarlett. Primeiro, Robert, em Homem de Ferro 1 e 2, Tony Stark começa como uma personagem egoísta, mas aprende a lutar em equipe. Então como você abordou esse papel, levando em consideração essa maturidade como ser humano quando se trata da personagem Tony Stark, e você aprendeu alguma coisa nos três filmes?
E para a Scarlett, para entrar em forma para a Viúva Negra você teve que fazer algo diferente em relação à sua dieta, tipo, você teve que comer algum tipo específico de comida ou qualquer coisa assim?
Scarlett [para Robert]: Por que para você fazem uma pergunta existencial super interessante e para mim vem a pergunta da "comida de passarinho"?
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O respeito dado a você se você é homem na indústria de entretenimento e o respeito dado a você se você é mulher na indústria de entretenimento: tudo perfeitamente resumido na pergunta idiota do repórter."
Traduzido daqui.
28 de maio de 2012
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Roberta
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Dizem as más línguas que feministas não têm senso de humor, que são raivosas. Primeiro pergunto, quem não ficaria pelo menos chatead@ ao constatar a realidade: salário 30% menor, violência contra as mulheres que só aumenta, menos de 9% de representação no congresso e menos de 14% no senado, 34% dos cargos de chefia apesar de sermos a maioria (57%) nas universidades e assim por diante. É de rir à toa.
por Roberta Gregoli
Dizem as más línguas que feministas não têm senso de humor, que são raivosas. Primeiro pergunto, quem não ficaria pelo menos chatead@ ao constatar a realidade: salário 30% menor, violência contra as mulheres que só aumenta, menos de 9% de representação no congresso e menos de 14% no senado, 34% dos cargos de chefia apesar de sermos a maioria (57%) nas universidades e assim por diante. É de rir à toa.
Mas normalmente quando dizem que não temos senso de humor é pelo fato de não ficarmos caladas quando ouvimos piadas desrespeitosas. Aí sempre tem sempre um@ que responde dizendo que é só uma piada, que não tem nada demais. Tenho estudado humor e me sinto à vontade para afirmar categoricamente: não existe humor inofensivo. Ou se está transgredindo, ou reforçando o status quo.
Pensando nisso, decidi fazer um breve catálogo das categorias de piadas sexistas que tenho visto na rede para um exame mais de perto:
Pensando nisso, decidi fazer um breve catálogo das categorias de piadas sexistas que tenho visto na rede para um exame mais de perto:
1) Piadas que afirmam o comportamento "natural" das mulheres
Que as mulheres gastam o dinheiro dos maridos, falam demais, são vaidosas, superficiais e fúteis, etc.
O intuito dessas piadas é, pura e simplesmente, ridicularizar comportamentos tidos como femininos, ou seja, ridicularizar as mulheres. Essa categoria, apesar de parecer light, justifica atitudes paternalistas de menosprezo e desqualificação ao reforçar estereótipos que estão longe de ser verdade para muitas, senão a maioria de nós.
O intuito dessas piadas é, pura e simplesmente, ridicularizar comportamentos tidos como femininos, ou seja, ridicularizar as mulheres. Essa categoria, apesar de parecer light, justifica atitudes paternalistas de menosprezo e desqualificação ao reforçar estereótipos que estão longe de ser verdade para muitas, senão a maioria de nós.
Quem divulga estas piadas não são só homens, é claro. Como diria uma colega, você sabe que está numa luta difícil quando metade do seu time está contra você. Mulheres muitas vezes promovem esse tipo de humor sem muita reflexão. A piada ao lado, por exemplo, foi compartilhada por uma mulher que sei que sustenta a casa, inclusive o marido, há décadas. Qual a graça em se autodenegrir, sendo que o que é afirmado nem é verdade?
2) Piadas que reforçam o comportamento "adequado" das mulheres
As piadas desta categoria normalmente ridicularizam mulheres que desviam do comportamento considerado adequado (leia-se conservador), normalmente com relação à sexualidade.
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| Exemplo clássico de reforço de padrão duplo |
Comportamentos "adequados" são, claro, comportamentos opressores: tentativas de controlar o que as mulheres vestem, falam, quantos parceiros têm e assim por diante.
Ao sobrepor a categoria 1 à categoria 2, notamos algo curioso. Se nos conformamos aos estereótipos de gênero, somos ridicularizadas, se quebramos com eles... somos ridicularizadas. Em outras palavras, não há lugar de respeito possível para as mulheres dentro da nossa sociedade atual.
3) Piadas que banalizam a violência contra as mulheres
A crônica do Veríssimo comentada num post anterior entra nesta categoria e é aqui que as coisas podem ficar bem feias. Um dos piores exemplos que vi nos últimos tempos foi este.
O que todas essas categorias fazem, e a categoria 3 faz mais nitidamente, é naturalizar o desrespeito através da ridicularização. E o desrespeito simbólico é o primeiro passo para a violência real.
Recentemente, com a Marcha das Vadias, muito se têm falado sobre a prática cruel e onipresente de se culpar as vítimas: a sociedade ensina "não seja estuprada" e não "não estupre". Todas essas piadas, e em especial a desta categoria, são exemplos de como o estupro e a violência contra as mulheres, ao serem banalizados são, por consequência, ensinados, pois naturalizam a violência de gênero. Por "naturalizar" entenda-se tornar algo normal e aceitável, afinal é essa a premissa para se achar algo engraçado.
Não se cale
A acusação de não ter senso de humor é um mecanismo de silenciamento, por isso não se deixe intimidar. E digo mais, esse tipo de piada deveria, sim, ser tabu e isso nada tem a ver com liberdade de expressão ou censura (já discuti isso aqui e aqui). Fazer uma piada sobre o Holocausto para um alemão é inaceitável. Isso porque os alemães encararam de frente os crimes cometidos no passado e os levam a sério. Da mesma forma, piadas sobre a violência contra as mulheres deveriam ser tabu -- afinal, foram mais de 90 mil vítimas nas últimas três décadas, colocando o Brasil como o sétimo país que mais mata mulheres no mundo.
Ridicularizar as mulheres por se conformarem ou não ao senso comum, banalizar o estupro e a violência não têm graça nenhuma e devemos denunciar. Existe um mecanismo governamental para registrar cybercrimes: basta acessar http://denuncia.pf.gov.br/ (discriminação entra como Crimes de Ódio). Leva menos de um minuto para fazer uma denúncia anônima, por isso não deixem de reguistrar qualquer site que passe dos limites.
Por fim, para esclarecer, feministas não só têm senso de humor como são engraçadas: veja o ativismo inteligente e lúdico das Guerrilla Girls, o já citado Feminist Ryan Rosling e comediantes de primeiro escalão como Margaret Cho (este vídeo é demais) e Kristen Wiig, só para citar alguns exemplos.
A dica, então, é compartilhar humor do bem, humor que é, de verdade, transgressor por desestabilizar os papeis de gênero -- diferente dos que reforçam comportamentos opressores sob o pretexto perverso do politicamente incorreto.
A dica, então, é compartilhar humor do bem, humor que é, de verdade, transgressor por desestabilizar os papeis de gênero -- diferente dos que reforçam comportamentos opressores sob o pretexto perverso do politicamente incorreto.
24 de maio de 2012
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humor,
padrões duplos,
Roberta
9
Pois é, mas são diversos os casos que mostram que a liberdade de expressão é mobilizada para escamotear a revolta de uma porção da população que nunca teve que se haver com os limites dos seus privilégios. Um caso exemplar é o do comediante Marcelo Tas, que, apesar de fazer um programa que critica deus e todo o mundo, não aceitou ser criticado e - pasmem - ameaçou processar uma blogueira. Seletiva essa tal liberdade de expressão.
O mesmo se aplica aos tchuchucos Danilo Gentili e Rafael Bastos. Como diz este ótimo texto, o politicamente incorreto que os dois "comediantes" tanto proclamam beira o fascismo.
Danilo Gentili pede desculpas pela piada antissemita, mas o caso da piada racista é arquivado, e até onde eu sei não houve retratação pública. Contra negros pode, contra judeus (de Higienópolis) não pode.
É isso que em inglês é conhecido como padrões duplos (double standards), isto é, quando uma regra ou código de conduta é aplicado de maneira inconsistente dependendo dos atores sociais envolvidos. O conceito de padrões duplos é, aliás, muito útil nos estudos de gênero:
por Roberta Gregoli
Já falei um pouco das brigas que tenho comprado por não ficar quieta quando ouço piadas preconceituosas. Daí quem contou a piada normalmente lança mão da carta curinga da liberdade de expressão. Engraçado mesmo é que a esses defensores ferrenhos da liberdade de expressão não ocorre que - surpresa - o direito não é só deles. Eles têm o direito de falar o que quiserem (menos incitar o ódio, que é, sim, crime) assim como os outros têm o direito de reclamar, registrar denúncias se for o caso de preconceito, etc. Não parece óbvio?
Não posso mais falar o que quiser sem ser criticado
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Discurso de ódio não é
liberdade de expressão |
Numa distorção perversa, a liberdade de expressão, tão cara à democracia, é usada para defender opressores e atacar progressistas.
O mesmo se aplica aos tchuchucos Danilo Gentili e Rafael Bastos. Como diz este ótimo texto, o politicamente incorreto que os dois "comediantes" tanto proclamam beira o fascismo.
Padrões duplos
Rafael Bastos foi demitido, não pela piada do estupro, mas pela piada contra Wanessa Camargo. Por quê? Porque o marido dela é amigo da galera do CQC. Veja mais detalhes neste brilhante post. Piada contra mulheres pode, contra a esposa de amigo (poderoso) não pode.Danilo Gentili pede desculpas pela piada antissemita, mas o caso da piada racista é arquivado, e até onde eu sei não houve retratação pública. Contra negros pode, contra judeus (de Higienópolis) não pode.
É isso que em inglês é conhecido como padrões duplos (double standards), isto é, quando uma regra ou código de conduta é aplicado de maneira inconsistente dependendo dos atores sociais envolvidos. O conceito de padrões duplos é, aliás, muito útil nos estudos de gênero:
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| Uma época eu achei que era uma vadia, mas então me dei conta que só estava agindo como um homem |
Muitas vezes o conceito de padrões duplos é usado impropriamente: "ah, se tem camiseta '100% negro', por que não '100% branco'"? Isso não é um padrão duplo, é babaquice. É como se indignar por não ter um acompanhamento para o seu caviar enquanto o vizinho morre de fome. Como já falei um pouco aqui, não é preciso afirmar identidades privilegiadas simplesmente porque o mundo já é feito por e para elas. Apesar de toda a vitimização dos "pobres" "comediantes" em questão, insistir em afirmar essas identidades é uma maneira perversa de afirmar a opressão.
14 de maio de 2012
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Roberta
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O diretor D. W. Griffith lançou, em 1915, o filme O nascimento de uma nação, que gerou diversos protestos devido ao seu conteúdo racista. Até hoje esse fato é mencionado. Quando cito a frase do Millôr acima, me respondem que ele estava sendo irônico. A reação é sempre de minimizar, negar, descreditar. A questão, então, é por que temos tanta dificuldade em encarar que artistas, ainda que brilhantes, sejam - para usar um eufemismo - figuras controversas?
Na época da disputa entre França e Estados Unidos sobre a extradição do Roman Polanski, li um artigo muito interessante que dizia que:
Soa familiar?
É simples: opiniões distintas coexistindo e sendo discutidas respeitosamente é democrático. Tentar impor opiniões com hostilidade, sem conteúdo ou lógica, é autoritário.
Consenso absoluto só é alcançado através do autoritarismo. O dissenso está no cerne da democracia. Importante é discordar sem gerar ódio, alimentar preconceitos e respeitando sensibilidades.
O que me parece muito grave é a perversidade de distorções como essa e outras parecidas: uma palavra tão carregada quanto censura é usada contra os que levantaram a discussão sobre racismo na obra de Monteiro Lobato (registrando um pedido para análise do Conselho Nacional da Educação, ou seja, um procedimento totalmente democrático).
E não se esqueçam dos que juram que as cotas raciais vêm introduzir o racismo no Brasil. Vamos negar todas as estatísticas que provam a total predominância da discriminação e voltar a celebrar o mito da democracia racial. Se isso não é perverso, me diga o que é.
É nessas horas que acho que ainda nem começamos a questionar as consequências da ditadura no Brasil. Ainda nos enrolamos com conceitos fundamentais como censura, liberdade de expressão, resistência, dissenso, respeito - todos fundamentais para o exercício pleno da democracia.
A hostilidade imediata dos que respondem a qualquer resistência, seja ela de feministas, representantes do movimento negro, etc, mostra que ainda hoje faltam espaços para a discussão de ideias e sobram tentativas de impor o "bom senso" (que na maioria das vezes é outro nome para o senso comum preconceituoso) de maneira autoritária e virulenta.
por Roberta Gregoli
Tenho comprado muita briga por não ficar quieta quando ouço piadas machistas e sexistas. A última foi com relação a uma crônica do Luís Fernando Veríssimo, que termina com o marido dizendo que vai dar uma surra na esposa. Eu disse para a pessoa que postou a piada que banalizar a violência doméstica não tinha graça, pelo menos não para as 7,2 milhões de mulheres que já foram agredidas no Brasil.
Outra pessoa entrou na discussão e, indignadíssima, disse que mais grave que a violência contra as mulheres era a minha falta de bom senso. Essa afirmação, em si, já é obviamente perversa. Ainda assim, pedi que o cidadão me iluminasse. Notei então que o argumento dele se baseava em dois pontos: 1) que o Veríssimo era magnífico e 2) em insultos pessoais, ex. eu não entendi "nada" e o meu posicionamento (ignorante) era perigoso, quase fascista (!).
Pois bem, podemos subverter o argumento dele por partes:
![]() |
| Violência doméstica é tão engraçado |
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| A cada 2 minutos, 5 mulheres agredidas |
Pois bem, podemos subverter o argumento dele por partes:
A arte da opressão
O fato de um escritor ser considerado bom - e aqui vale lembrar que nenhum cânone é imparcial - nada tem a ver com seu posicionamento político. Pode espernear, mas o fato é que Monteiro Lobato era racista e Millôr Fernandes, Henfil, Paulo Francis, Jorge Benjor (só para citar alguns nomes) eram abertamente machistas.Causa uma tremenda indignação dizer que as mulheres, em média, são menos inteligentes do que os homens, mas acontece que isso é verdade.
Millôr Fernandes, 'Barbarelas', O Pasquim, n. 27, dez. 1969
O diretor D. W. Griffith lançou, em 1915, o filme O nascimento de uma nação, que gerou diversos protestos devido ao seu conteúdo racista. Até hoje esse fato é mencionado. Quando cito a frase do Millôr acima, me respondem que ele estava sendo irônico. A reação é sempre de minimizar, negar, descreditar. A questão, então, é por que temos tanta dificuldade em encarar que artistas, ainda que brilhantes, sejam - para usar um eufemismo - figuras controversas?
Na época da disputa entre França e Estados Unidos sobre a extradição do Roman Polanski, li um artigo muito interessante que dizia que:
Na França, os artistas e intelectuais são deuses seculares, tratados com deferência em qualquer circunstância, tenham lá cometido roubos (Jean Genet), feito panfletagem antissemita (Louis-Ferdinand Céline) e estrangulado a mulher (Louis Althusser).Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo, 10/10/2009
Soa familiar?
Democracia e/ou Autoritarismo
Não entendi direito por que o moço da história do Veríssimo me chamou de fascista (ele não conseguiu articular direito o argumento), mas o curioso foi que, ao tentar me silenciar sem muita coerência, ele fez justamente o que condenava.É simples: opiniões distintas coexistindo e sendo discutidas respeitosamente é democrático. Tentar impor opiniões com hostilidade, sem conteúdo ou lógica, é autoritário.
Consenso absoluto só é alcançado através do autoritarismo. O dissenso está no cerne da democracia. Importante é discordar sem gerar ódio, alimentar preconceitos e respeitando sensibilidades.
O que me parece muito grave é a perversidade de distorções como essa e outras parecidas: uma palavra tão carregada quanto censura é usada contra os que levantaram a discussão sobre racismo na obra de Monteiro Lobato (registrando um pedido para análise do Conselho Nacional da Educação, ou seja, um procedimento totalmente democrático).
E não se esqueçam dos que juram que as cotas raciais vêm introduzir o racismo no Brasil. Vamos negar todas as estatísticas que provam a total predominância da discriminação e voltar a celebrar o mito da democracia racial. Se isso não é perverso, me diga o que é.
É nessas horas que acho que ainda nem começamos a questionar as consequências da ditadura no Brasil. Ainda nos enrolamos com conceitos fundamentais como censura, liberdade de expressão, resistência, dissenso, respeito - todos fundamentais para o exercício pleno da democracia.
A hostilidade imediata dos que respondem a qualquer resistência, seja ela de feministas, representantes do movimento negro, etc, mostra que ainda hoje faltam espaços para a discussão de ideias e sobram tentativas de impor o "bom senso" (que na maioria das vezes é outro nome para o senso comum preconceituoso) de maneira autoritária e virulenta.
12 de maio de 2012
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Para os homens, isso significaria licença paternidade decente (5 dias serve para quê?), se libertar do fardo do papel de provedor, poder gostar e fazer coisas tipicamente tidas como femininas (roupas, comédias românticas, ter vaidade, etc), poder escolher trabalhar em casa, e assim por diante.
É claro que o poder da cultura é tão forte e profundo que, mesmo sem querer, todxs estão sujeitxs a reproduzir ideias opressoras. É por isso que não basta não querer ser machista - é preciso estar continuamente pensando gênero de maneira crítica.
Por isso, proponho: Subverta-se!
por Roberta Gregoli
Ano passado participei de um simpósio na London School of Economics sobre masculinidade e guerra. Depois de uma das apresentações, alguém da plateia questionou por que era normal vermos cidadãos reivindicando direitos de imigrantes ou ocidentais defendendo a Palestina, por exemplo, mas muito difícil vermos homens feministas. Isso me fez pensar.
Primeiro, vamos deixar claro, ainda que não tão visíveis, existem sim, homens feministas. Acho também que não é assim tão comum ver um apoio forte a causas alheias. Quanto maior a tensão e as diferenças sociais, mais difícil a identificação com uma causa. Num país racista, por exemplo, é menos comum que brancos defendam o direito dos não-brancos.
Ano passado participei de um simpósio na London School of Economics sobre masculinidade e guerra. Depois de uma das apresentações, alguém da plateia questionou por que era normal vermos cidadãos reivindicando direitos de imigrantes ou ocidentais defendendo a Palestina, por exemplo, mas muito difícil vermos homens feministas. Isso me fez pensar.
Primeiro, vamos deixar claro, ainda que não tão visíveis, existem sim, homens feministas. Acho também que não é assim tão comum ver um apoio forte a causas alheias. Quanto maior a tensão e as diferenças sociais, mais difícil a identificação com uma causa. Num país racista, por exemplo, é menos comum que brancos defendam o direito dos não-brancos.
O abismo que nos separa
Isso leva imediatamente ao cerne da questão. A divisão entre os sexos é uma das mais profundas que experienciamos. Desde antes do nascimento (com os pais correndo para saber o sexo do bebê aos 3 meses de gestação), já somos divididos entre mulheres e homens. A partir daí essa divisão só é reforçada: roupas, cores, brinquedos, comportamentos e sentimentos ensinados como apropriados, profissões, salários, papéis na família.
A diferença social construída entre mulheres e homens é abismal e, mais importante, tida como natural. Para o feminismo, a natureza tem um papel bastante limitado nessa equação. Há discussões interessantíssimas sobre como o gênero - e mesmo o sexo - são constructos sociais e históricos.
A diferença social construída entre mulheres e homens é abismal e, mais importante, tida como natural. Para o feminismo, a natureza tem um papel bastante limitado nessa equação. Há discussões interessantíssimas sobre como o gênero - e mesmo o sexo - são constructos sociais e históricos.
À ideia de que mulheres e homens são naturalmente diametralmente diferentes, somamos que o feminismo é muitas vezes reduzido à ideia de competição. Na velha novela da guerra entre os sexos, as feministas querem "ser homens" ou "dominar os homens". Dentro dessa lógica babaca, homens feministas estariam aceitando e defendendo a dominação feminina. Ignorância brutal. O que nós, feministas, queremos é outra coisa.
Uma versão extrema dessa lógica são os grupos "masculinistas" (que nada mais são que grupos de ódio). O primeiro problema é que esses grupos pressupõem que a igualdade já existe, o que não é verdade. Não é preciso defender os direitos daqueles que já têm seus direitos assegurados e isso vale também para o dia do orgulho hétero, da consciência branca, etc. O mundo é feito por e para homens brancos heterossexuais. Qualquer afirmação dessas identidades privilegiadas é um desrespeito às minorias que lutam por um mínimo de justiça e equidade.
Uma versão extrema dessa lógica são os grupos "masculinistas" (que nada mais são que grupos de ódio). O primeiro problema é que esses grupos pressupõem que a igualdade já existe, o que não é verdade. Não é preciso defender os direitos daqueles que já têm seus direitos assegurados e isso vale também para o dia do orgulho hétero, da consciência branca, etc. O mundo é feito por e para homens brancos heterossexuais. Qualquer afirmação dessas identidades privilegiadas é um desrespeito às minorias que lutam por um mínimo de justiça e equidade.
Como os homens se beneficiam com o feminismo
O "masculinismo" ignora que o feminismo, ao subverter as categorias de gênero, liberta também os homens para ocuparem outros papéis sociais, e demanda que instituições criem políticas e ações mais igualitárias para os dois sexos.
Para os homens, isso significaria licença paternidade decente (5 dias serve para quê?), se libertar do fardo do papel de provedor, poder gostar e fazer coisas tipicamente tidas como femininas (roupas, comédias românticas, ter vaidade, etc), poder escolher trabalhar em casa, e assim por diante.
Nenhum homem vive isolado. Direitos iguais significam mais respeito e oportunidades para as mulheres que os homens amam: esposas, companheiras, mães, filhas, amigas, familiares. Como é criar uma filha sabendo que, por mais oportunidades de estudos que possamos oferecer, ela ganhará 30% menos que um homem? E que estará muito mais propensa a sofrer violência física de seu companheiro?
Ou criar um filho sabendo que ele pode ser agredido e expulso da escola por dançar balé e que terá 4 vezes mais chances de morrer durante a juventude?
Ou criar um filho sabendo que ele pode ser agredido e expulso da escola por dançar balé e que terá 4 vezes mais chances de morrer durante a juventude?
Não é verdade que os homens não querem mudar.
É verdade que muitos homens têm medo de mudar.
É verdade que uma infinidade de homens sequer
começaram a entender como o patriarcado os impede
de conhecerem a si mesmos, de estarem em contato
com os seus sentimentos, de amarem.
bell hooks, The Will to Change: Men, Masculinity and Love, p. xvii (minha tradução)
É claro que o poder da cultura é tão forte e profundo que, mesmo sem querer, todxs estão sujeitxs a reproduzir ideias opressoras. É por isso que não basta não querer ser machista - é preciso estar continuamente pensando gênero de maneira crítica.
Por isso, proponho: Subverta-se!
10 de maio de 2012
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masculinismo,
Roberta
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Quando discuto assuntos de gênero, é comum que me digam "mas essa é uma visão feminista", num tom negativo. Respondo que é um ponto de vista feminista, sim, e qual o problema?
Por que teríamos hesitação em nos afirmarmos feministas? Violência doméstica (a cada 2 minutos, 5 mulheres são agredidas violentamente no Brasil), estupro (banalizado em rede nacional), os chamados "crimes de honra" e outras formas horríveis de agressão ainda acontecem diariamente. Por que hesitar em defender a igualdade e o final da opressão de gênero?
Vejam esse maravilhoso teste, que serve tanto para ver se você é feminista quanto para desmistificar o feminismo.
Orgulho feminista
Como a parada do orgulho gay demonstra, é preciso afirmar positivamente identidades oprimidas pelo senso comum preconceituoso.
Algumas iniciativas são a marcha das vadias, diversos projetos fotográficos chamados "This is what a feminist looks like" ("é assim que uma feminista se parece") e o delicioso e bem-humorado Feminist Ryan Gosling, que usa imagens do ator com frases que popularizam teorias e conceitos feministas.
Mais ideias para desmistificar ou popularizar o feminismo?
por Roberta Gregoli
Muita água já rolou desde a chamada primeira onda do feminismo, com as sufragistas reivindicando o direito ao voto na virada do século XIX para o XX. No entanto, ainda hoje as palavras 'feminismo' e 'feminista' vêm cheias de associações negativas. Em inglês, brinca-se que feminismo é "the F word", ou seja, um tabu tão grande, ou maior, que a palavra fuck.
Mas por quê?
Ridicularização, menosprezo e hostilidade são algumas das atitudes de resistência frente a qualquer movimento que ameaça privilégios e desestabiliza o status quo (vide ações afirmativas como cotas raciais e de gênero -- e não se esqueçam que comunistas comem criancinhas...). O que espanta é a persistência dessas associações negativas, que parecem não terem mudado muito desde a primeira vaga feminista, provando que ainda há muito trabalho a ser feito.
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| Reivindicando a palavra que começa com F: http://www.reclaimingthefword.net/ |
Mas por quê?
Ridicularização, menosprezo e hostilidade são algumas das atitudes de resistência frente a qualquer movimento que ameaça privilégios e desestabiliza o status quo (vide ações afirmativas como cotas raciais e de gênero -- e não se esqueçam que comunistas comem criancinhas...). O que espanta é a persistência dessas associações negativas, que parecem não terem mudado muito desde a primeira vaga feminista, provando que ainda há muito trabalho a ser feito.
Quando discuto assuntos de gênero, é comum que me digam "mas essa é uma visão feminista", num tom negativo. Respondo que é um ponto de vista feminista, sim, e qual o problema?Por que teríamos hesitação em nos afirmarmos feministas? Violência doméstica (a cada 2 minutos, 5 mulheres são agredidas violentamente no Brasil), estupro (banalizado em rede nacional), os chamados "crimes de honra" e outras formas horríveis de agressão ainda acontecem diariamente. Por que hesitar em defender a igualdade e o final da opressão de gênero?
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| A diva Margaret Cho |
Orgulho feminista
Como a parada do orgulho gay demonstra, é preciso afirmar positivamente identidades oprimidas pelo senso comum preconceituoso.
Algumas iniciativas são a marcha das vadias, diversos projetos fotográficos chamados "This is what a feminist looks like" ("é assim que uma feminista se parece") e o delicioso e bem-humorado Feminist Ryan Gosling, que usa imagens do ator com frases que popularizam teorias e conceitos feministas.
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| Ei, garota. Gênero é um constructo social, mas todo mundo curte um chamego |
7 de maio de 2012
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Apesar de não ser nem se pretender acadêmico, o livro de Leandro Narloch se dispõe a popularizar as pesquisas acadêmicas históricas das últimas décadas. O resultado foi um fenômeno editorial merecedor de comentário crítico, ficando mais de 40 semanas entre os mais vendidos e a venda de mais de 200 mil exemplares. Além da divulgação da revisitação histórica ocorrida nas últimas décadas constituir uma ideia interessante (e, como se provou, lucrativa), o livro apresenta um estilo envolvente e abre discussões estimulantes. Apesar de não ser um livro sobre gênero, uma crítica feminista rende observações interessantes.
O primeiro ponto que chama a atenção no livro é o título, que à primeira vista parece impreciso, ou pelo menos índice de um entendimento superficial da noção de politicamente correto. A proposição de desmitificar figuras e acontecimentos históricos a que o livro se propõe pouco tem a ver com a ideia de politicamente correto. Dizer que Zumbi tinha escravos, um dos pontos mais comentados do livro segundo o autor, não é politicamente correto ou incorreto – é historicamente correto ou não.
O que o autor chama de politicamente incorreto vem fazer vulto a discussões recentes que defendem, de maneira sensacionalista, que o politicamente correto tolhe a liberdade de expressão. O que os proclamadores do politicamente incorreto não fazem é problematizar o fato de que instâncias de expressão individual, como discursos homofóbicos, racistas, machistas ou de incitação ao ódio, ferem o que é social e legalmente aceito.
O que o autor chama de politicamente incorreto se alinha, então, com alguns exemplos de figuras públicas, no mínimo, controversas, como o caso da apologia ao estupro feita pelo comediante Rafael Bastos, a piada antissemita de Danilo Gentili, ou o deputado Jair Bolsonaro, que mais de uma vez fez comentários abertamente homofóbicos e racistas, para citar somente alguns casos de maior destaque no ano de 2011.

Pouco mais de um mês mais tarde, a revista Carta Capital protagonizou o que se configura como uma revolução na mídia brasileira ao noticiar o livro Privataria Tucana perante o completo silêncio das grandes mídias, dentre as quais a revista Veja. Desde então as coisas só pioraram para a Veja, agora com seu envolvimento com Carlos Cachoeira. A afirmação de Narloch, além de ser, no mínimo, irônica, é prova de seu alinhamento político.
por Roberta Gregoli
O primeiro ponto que chama a atenção no livro é o título, que à primeira vista parece impreciso, ou pelo menos índice de um entendimento superficial da noção de politicamente correto. A proposição de desmitificar figuras e acontecimentos históricos a que o livro se propõe pouco tem a ver com a ideia de politicamente correto. Dizer que Zumbi tinha escravos, um dos pontos mais comentados do livro segundo o autor, não é politicamente correto ou incorreto – é historicamente correto ou não.O que o autor chama de politicamente incorreto vem fazer vulto a discussões recentes que defendem, de maneira sensacionalista, que o politicamente correto tolhe a liberdade de expressão. O que os proclamadores do politicamente incorreto não fazem é problematizar o fato de que instâncias de expressão individual, como discursos homofóbicos, racistas, machistas ou de incitação ao ódio, ferem o que é social e legalmente aceito.
O que o autor chama de politicamente incorreto se alinha, então, com alguns exemplos de figuras públicas, no mínimo, controversas, como o caso da apologia ao estupro feita pelo comediante Rafael Bastos, a piada antissemita de Danilo Gentili, ou o deputado Jair Bolsonaro, que mais de uma vez fez comentários abertamente homofóbicos e racistas, para citar somente alguns casos de maior destaque no ano de 2011.
Talvez essa não seja a intenção do autor, que parece se espantar quando seu livro é citado pelos que são contra o feriado da Consciência Negra (explicado em ‘Quem disse que sou contra Zumbi?’). Ele afirma que o livro foi feito “para irritar aqueles que usam a história como instrumento político”. Esses dois exemplos mostram que o autor ignora, conscientemente ou por ingenuidade, uma das primeiras lições do feminismo: que não existe posicionamento apolítico. Narloch defende que a configuração maniqueísta de personagens e acontecimentos históricos entre bem e mal, bandido e vilão, é uma divisão posterior, que envolve apropriações por grupos diversos, mas o autor parece ingenuamente desatento à apropriação à qual seu próprio livro mais facilmente se presta.
Nas palavras do autor do artigo intitulado ‘Politicamente fascista’: “O rótulo “politicamente incorreto” acaba sendo uma forma eufemística, bem-educada e aceitável (isto é, politicamente correta) de se dizer reacionário, direitista, fascistoide.” Para quem acha que essa é uma definição exagerada, veja algumas máximas do livro de Narloch : “quem lê esses pronunciamentos [dos ministros que aprovaram o AI-5] hoje fica com a impressão de que 1968 foi uma desordem assustadora. É verdade”, “quem hoje se considera índio poderia deixar de culpar os outros por seus problemas” ou “Viva o Brasil capitalista”.
O problema não são os fatos em si (se os índios colaboraram com os portugueses ou se Zumbi tinha ou não escravos), mas a forma como esses fatos são dispostos e interpretados, como quando o autor tenta provar que a ditadura brasileira foi “branda” (pp. 324-325). Se houve mais ou menos mortes no Brasil do que em outros países é uma questão, outra é dar a esse número um adjetivo que expressa um julgamento. O adjetivo, além de ser inevitavelmente conivente, não leva em consideração outras consequências da ditadura militar, como o padrão de quebra nos direitos humanos que até hoje mata mais de mil civis no estado do Rio de Janeiro. Outro exemplo é a conclusão de que “a guerrilha provocou o endurecimento do regime militar”. Sem entrar no mérito (ou desmérito) da luta armada, a visão parece se alinhar com os que chamaram os motins de Londres da “revolta do iPad”, ou seja, tão reducionista e ideológica quanto a dos “esquerdistas” que o autor tenta derrubar.
O problema não são os fatos em si (se os índios colaboraram com os portugueses ou se Zumbi tinha ou não escravos), mas a forma como esses fatos são dispostos e interpretados, como quando o autor tenta provar que a ditadura brasileira foi “branda” (pp. 324-325). Se houve mais ou menos mortes no Brasil do que em outros países é uma questão, outra é dar a esse número um adjetivo que expressa um julgamento. O adjetivo, além de ser inevitavelmente conivente, não leva em consideração outras consequências da ditadura militar, como o padrão de quebra nos direitos humanos que até hoje mata mais de mil civis no estado do Rio de Janeiro. Outro exemplo é a conclusão de que “a guerrilha provocou o endurecimento do regime militar”. Sem entrar no mérito (ou desmérito) da luta armada, a visão parece se alinhar com os que chamaram os motins de Londres da “revolta do iPad”, ou seja, tão reducionista e ideológica quanto a dos “esquerdistas” que o autor tenta derrubar.
Os silenciamentos do autor são também reveladores. Apesar de caracterizar em detalhes D. Pedro I e D. Pedro II e discorrer sobre a independência do Brasil, um outro tema das atuais revisitações históricas do período imperial em nenhum momento é mencionado: o papel fundamental da Imperatriz Leopoldina no processo de independência. Outro exemplo relacionado às mulheres demonstra o desconhecimento de Narloch da noção de politicamente correto: o uso da palavra ‘homem’ para designar ‘humanidade’ é considerada sexista em diversos países. Na Inglaterra (que o autor exalta no capítulo ‘Negros’), há tempos é senso comum que o uso de 'homem' em sentido genérico exclui pelo menos 50% dos sujeitos históricos.
No entanto, o livro inadvertidamente provê recursos interessantes para o debate feminista. O capítulo ‘Escritores’, que desmistifica alguns dos grandes nomes da literatura brasileira, por exemplo, fornece alguns argumentos pertinentes para a desestabilização dos cânones (que invariavelmente excluem as mulheres), nesse caso o literário.
É claro que a problematização e revisitação de personagens e acontecimentos históricos não só é possível como bem-vinda. Mas isso teria que ser feito com alguém com muito mais sensibilidade do que Narloch.
Em debate na Festa Literária Internacional de Pernambuco, em 14/01/2011, o autor defende a revista Veja nos seguintes termos:
Em debate na Festa Literária Internacional de Pernambuco, em 14/01/2011, o autor defende a revista Veja nos seguintes termos:
“Um amigo que mora em Brasília me contou que toda sexta-feira à noite, quando a Veja entra no ar na internet, há um alvoroço na capital, para se saber qual é o próximo ministro que vai cair. Não concordo 100% com a Veja, a acho muito ranzinza, muito adjetivo e pouco substantivo, mas prefiro uma revista que incomode governantes do que uma que não incomode, como a Carta Capital, que só tem anúncios do governo.”

Pouco mais de um mês mais tarde, a revista Carta Capital protagonizou o que se configura como uma revolução na mídia brasileira ao noticiar o livro Privataria Tucana perante o completo silêncio das grandes mídias, dentre as quais a revista Veja. Desde então as coisas só pioraram para a Veja, agora com seu envolvimento com Carlos Cachoeira. A afirmação de Narloch, além de ser, no mínimo, irônica, é prova de seu alinhamento político.
Ainda que o debate promovido pelo livro seja estimulante e a popularização de estudos acadêmicos atuais seja interessante e necessária, mais garantido é ler os estudos nos quais ele se baseia – ou esperar que outra pessoa os popularize de maneira mais politicamente correta.
Referência: NARLOCH, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. 2a edição, revista e ampliada. São Paulo: Leya, 2011. 367 páginas.
2 de maio de 2012
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