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Misoginia


por Roberta Gregoli

A ignorância inflamada pelo medo é igual a ódio
É muito difícil falar sobre misoginia sem correr o risco de ser interpretada como reprodutora de um discurso de vitimização, mas resolvi escrever mesmo assim por dois motivos: primeiro pela quantidade de amig@s, inclusive pessoas com alto nível de escolarização, que simplesmente não conhecem a palavra. Segundo porque esta semana recebemos nosso primeiro comentário abertamente ofensivo (já devidamente apagado). Até então havíamos recebido alguns comentários de crítica, que mantivemos publicados porque acreditamos no debate aberto desde que construtivo, o que não foi o caso do comentário referido, que era puramente agressivo e sem a possibilidade de qualquer debate.

Vamos, então, acertar nossos termos: misoginia é o ódio às mulheres. Simples assim. Dependendo da sua formação, pode parecer estranho que alguém possa simplesmente odiar mulheres, assim, de maneira genérica e sem mais. Eu mesma não entendo crimes de ódio, me parece uma coisa absolutamente alienígena. Mas, infelizmente, isso não quer dizer que eles não existam. Veja, por exemplo, os mascus sanctos e suas ameaças macabras e violentas

E há um claro componente de ódio nos casos de violência contra as mulheres, para além do machismo, que, por ser uma teoria de inferioridade, é o que permite que um homem se sinta no direito de agredir uma mulher, como se ela fosse de sua posse. Já escrevi sobre "humor" machista e, das categorias que criei, a terceira tem um claro elemento de misoginia também. Veja a ilustração dada pela imagem ao lado.

Gosto muito da figura no começo deste post porque ela contém os elementos básicos do ódio: o medo e a ignorância. Acredito de verdade que o medo seja o principal combustível para qualquer manifestação de ódio. Os motivos do medo podem ser os mais diversos: questões pessoais (os mascus que se dizem mal amados), sentimento de ameaça por ter os privilégios questionados e até medos inconscientes que eu deixo para Freud explicar.

O fato é que houve um estudo fascinante feito na Universidade de Georgia relacionando homofobia e desejo homossexual. Traduzo aqui o resumo:

Está a homofobia relacionada com excitação homossexual?
 Henry E. Adams, Lester W. Wright, Jr., and Bethany A. Lohr
Universidade da Georgia, EUA

@s autor@s investigaram o papel da excitação homossexual em homens exclusivamente heterossexuais que admitiram afeto negativo com relação a indivíduos homossexuais. Os participantes consistiram de dois grupos: um de homens homofóbicos (n = 35) e um de homens não-homofóbicos (n = 29), divididos com base no resultado apresentado por eles no Índice de Homofobia (W. W. Hudson & W. A. Ricketts, 1980). Ambos os grupos foram então expostos a estímulos eróticos de conteúdo sexual explícito através de vídeos heterossexuais, homossexuais masculinos e lésbicos, e a circunferência peniana dos sujeitos foi monitorada. Eles também completaram o Questionário de Agressividade (A. H. Buss & M. Perry, 1992). Ambos os grupos apresentaram aumento na circunferência peniana em resposta aos vídeos heterossexuais e homossexuais femininos. Apenas os homens homofóbicos apresentaram ereção em resposta ao estímulo homossexual masculino. Os grupos não divergiram em relação à agressividade. A homofobia está aparentemente associada à excitação homossexual, a qual o indivíduo homofóbico nega ou não está ciente.

Não é preciso dizer mais nada. Só fica a pergunta: e os misóginos, têm medo de que?

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Publicidade machista


por Roberta Gregoli
Se fica estranho é padrão duplo
Como uma dessas coincidências incríveis, encontrei no final de semana um amigo mexicano que conheci em Oxford. Contei para ele sobre o caso aberrante da propaganda da Nova Schin, que além de ser machista não se retrata e ignora (pior, apaga) os protestos do pessoal no Facebook.


Em resposta, meu amigo disse que ficou surpreendido quando aterrissou no Brasil, vindo direto da Inglaterra, ao ver os outdoors cheios de mulheres seminuas. Ele disse que se sentiu no México. E realmente é um grande costraste com a Inglaterra. Outra coisa que ele apontou que achei interessante foi a virtual inexistência de outdoors no mesmo estilo de homens.

As Subvertidas já haviam notado esse padrão duplo em conversa particular e ficamos muito chateadas que o vídeo abaixo nunca tenha sido vinculado no Brasil (especial para a Tággidi):


Conseguimos que a Prudence retirasse sua propaganda do ar e se desculpasse em público, mas casos parecidos não param de pipocar. A Nova Schin é totalmente reacionária, não se retrata, finge que não é com eles e o CONAR apoia.


E não para por aí. A nova propaganda do Fiat Punto que traz mulheres seminuas protestando. Além de usar o corpo das mulheres, eles têm a audácia de ridicularizar protestos em que as mulheres de fato tiram a roupa por uma causa mais válida do que vender um carro a preço super inflado.

Tem também a do desodorante Axe, prometendo que é só misturar dois tipos de Axe para "acumular mulheres", como se mulheres fossem coisas que se pode acumular.


Sinto que há uma mudança de consciência e que órgãos como o CONAR (apesar de ineficaz em alguns casos), a SEPM e outros estão aí para ouvirem essas críticas. Mudar uma cultura não é fácil e leva tempo, o importante é continuarmos denunciando,



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Vai encarar?


por Roberta Gregoli

Mulheres no esporte geram um monte de discussões interessantes e com as Olimpíadas elas entram no holofote. Aproveitemos!

Primeiro, em competições esportivas deste nível fica claro o quão defasada é a essencialização da feminilidade. Todo esse papo de que as mulheres são 'naturalmente' mais fracas e frágeis. Neste texto o autor defende que o conceito de força também é cultural, já que os homens são, desde pequenos, muito mais estimulados nesse sentido que as mulheres. Ele também apresenta os vários componentes do conceito genérico força e usa dados do exército norte-americano para mostrar como isso é relativo, inclusive que 10% das mulheres têm mais capacidade de levantar peso do que os 10% dos homens de menor desempenho. Por fim, ele diz que, comparado com outras espécies próximas de nós, homens e mulheres têm relativamente pouca diferença de tamanho. Orangotangos e gorilas machos, por exemplo, têm mais menos o dobro de tamanho das fêmeas. Os seja, ideias de fraqueza e delicadeza também são culturalmente construídas e reforçadas.

Veja, por exemplo, esta reportagem sobre a judoca Suelen Altheman. A força de Suelen é algo tão ameaçador que a jornalista não se contém em mobilizar todos, todos os estereótipos para defender o que parece ser a tese central da matéria: Suelen é feminina (= mulher). Afinal, ela é vaidosa, é casada, faz dieta e... .... ... gosta de cozinhar. Uma baita injustiça com a Suelen que, em vez de ser celebrada por ser extremamente competente, forte e promissora, vira praticamente uma Amélia. E coitado do marido, que é "obrigado a seguir as regras alimentícias da mulher".

Mas isso é só o começo. Pelo menos o artigo é celebratório, ainda que de forma totalmente distorcida. O pior foi o caso de Zoe Smith, halterofilista britânica, que recebeu um monte de críticas machistas no Twitter por "não ser muito feminina".

Reproduzo aqui a resposta que ela deu em seu blog, na tradução do Coletivo de Mulheres PUC-Rio (acesse o texto original em inglês aqui):

"Uma ofensa óbvia quando falamos de levantamento de peso feminino é 'como é pouco feminino, garotas não devem ser fortes e ter músculos, isso é errado'. E talvez estejam certos... na era vitoriana. Imaginar que as pessoas ainda pensam assim é ridículo, estamos em 2012! Isso pode soar como uma generalização, mas a maioria das pessoas que pensam assim parecem chauvinistas, caras cabeça-dura que se sentem fracos pelo fato de que nós, três garotas pequenas e muito femininas, somos mais fortes do que eles. Simples assim. Eu discuti com um cara que disse que "nós provavelmente somos todas lésbicas e nos parecemos com homens", apenas para explicar o fato de que sua opinião não é válida porque ele é um idiota. Ele veio com a resposta original que eu deveria voltar para a cozinha. Eu ri.

Como a Hannah disse anteriormente, nós não levantamos pesos para parecermos gostosas, especialmente para agradar homens assim. O que os faz pensar que nós ao menos QUEREMOS que nos achem atraentes? Se você achar, muito obrigada, estamos lisonjeadas. Mas se não, por que você realmente precisa dizer isso e o que faz você pensar que nós, pessoalmente, nos importamos se você nos acha atraentes?

O que você quer que façamos? Vamos parar de levantar peso, alterar a nossa dieta para nos livrar completamente de nossos músculos "viris" e nos tornarmos donas de casa na esperança de que um dia você nos olhe de uma forma mais favorável e nós possamos realmente ter uma chance com você?! Porque você é claramente o tipo mais gentil e mais atraente de homem que enfeita a Terra com a sua presença.


Ah, mas espera, você não é. Isso pode ser chocante para você, mas nós realmente preferimentos ser atraentes para pessoas que não têm mente fechada e são ignorantes. Loucura, hã? Nós, como qualquer mulher com um pingo de auto-confiança, preferimos homens confiantes o suficiente neles mesmos para não se sentirem menos homens pelo fato de que nós não somos fracas e frágeis."

Como o nome de um blog que eu adoro, Suelen e Zoe são mulheres que honram o rolê. E os incomodados que se mudem... de planeta.

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A abertura olímpica da utopia


por Roberta Gregoli
As sufragistas protestam em Londres
Não estou muito por dentro dos jogos das Olimpíadas, mas o que tenho acompanhado nos bastidores tem sido muito interessante. Antes mesmo dos jogos começarem, boas notícias: pela primeira vez na história, todas as delegações têm atletas mulheres - e mulheres que estão fazendo bonito. A má notícia é que a propaganda machista continua, no Brasil e no mundo.

Site do Globo Esporte anuncia "cardápio variado": #nojo
Notícia ruim e boa ao mesmo tempo foi a expulsão da atleta grega que escreveu tweets racistas. Lição para nós, que ainda nos atrapalhamos com o conceito de liberdade de expressão: tolerância zero e medidas severas contra manifestações racistas e sexistas. E avisem que a desculpa 'foi só de brincadeirinha' já não cola mais.

Abertura

Vi a abertura ao vivo. Fiz questão, por morar na Inglaterra e ter acompanhado todos os papos e os mistérios (que, diga-se de passagem, nem se comparam ao frisson que se passa no Brasil, com 4 anos de antecipação). Quando disseram que iam colocar ovelhas no palco, não botei fé. E realmente achei o espetáculo chocho, bem ao estilo inglês: bem executado, mas sem emoção. Mas achei a cerimônia muito interessante por uma série de motivos, e pela repercussão.

Este ótimo artigo sobre o feito de Danny Boyle (para quem não se lembra, o diretor de Trainspotting e Quem quer ser um milionário?) para mim é conclusivo: a cerimônia foi um poema celebratório apaixonado para o país que Boyle gostaria que existisse - uma Grã-Bretanha multicultural, tolerante, gay-friendly e que tem como princípio o Estado do bem estar social. Isso explica o beijo lésbico, a presença das minorias étnicas em praticamente todos os quadros, a homenagem ao NHS (o equivalente ao SUS no Brasil, motivo de orgulho para os britânicos em comparação aos Estados Unidos, por exemplo, onde saúde custa e caro).

Boyle já tinha me ganhado no começo, quando entraram as sufragistas. O direito ao voto foi conquistado pelas mulheres na Grã-Bretanha em 1918, fato que o comentador da Globo citou. Na minha opinião, seria uma oportunidade para fazer o elo com o Brasil e citar o movimento nativo, já que aqui muitas pessoas sequer conhecem a palavra 'sufragista' ou sabem que o sufrágio feminino foi conquistado em 1932 num movimento encabeçado por Bertha Lutz. Mas acho que esperar algo parecido da Globo é um pouco de delírio da minha parte.

Ideal x real

Aplausos para Danny Boyle, então, que conseguiu até mesmo que uma rainha carrancuda participasse de um vídeo bem humorado. E é aí que eu queria chegar - a realidade versus o ideal.

Olha todos estes países que costumavam ser meus
Apesar de achar que, para muitos países no mundo, o tributo ao NHS não fez sentido algum, trata-se, na verdade, de um ponto político nevrálgico. Este ano houve uma reestruturação enorme por parte do governo conservador, resultando no que, muitos acreditam, será a deterioração do sistema de saúde público inglês. Além disso, tendo em vista a rendição de toda a Europa ao sistema bancário, colocando a seguridade social - e todos os ganhos conquistados no continente no último século em termos de políticas públicas promovendo a igualdade social - em segundo (terceiro, quarto...) plano, saúde de graça é, sem dúvida, algo digno de celebração.

Além disso, para um país que se pretende escolarizado e multicultural, a confusão com as bandeiras da Coreia do Norte e Sul foi vexatório.

Outro dado de realidade para a utopia boyleana: apesar de ser, de fato, um país multi-étnico, a Grã-Bretanha é insistentemente segregatória e racista. Prova veio como reação à própria cerimônia de abertura: veja aqui um artigo extremamente racista publicado no Daily Mail, o tabloide mais popular do país. Traduzo aqui parte do texto:

Era para ser uma representação da vida moderna na Inglaterra, mas seria difícil para os organizadores encontrarem uma mãe branca escolarizada de meia-idade e um pai negro morando juntos com uma família feliz dessa maneira [...] A pauta da igualdade multicultural foi tão encenada que foi doloroso assistir.
O artigo depois foi alterado, excluindo esta parte, e mais tarde retirado do ar. No Brasil chamariam de censura, lá é bom senso - que faltou ao colunista na hora de escrever.

Diversidade racial e sexual, feministas, saúde de graça de qualidade e uma rainha bem humorada: a Inglaterra de Danny Boyle é muito mais interessante do que a Inglaterra de fato.

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O machismo vai te comer


por Roberta Gregoli


Num post anterior descrevi como mesmo as mais bem-intencionadas das feministas acabam caindo nas armadilhas sutis do sexismo. Também argumentei que não devemos nunca culpar as mulheres porque o machismo está em todo lugar e fomos criadas com ele, não raras as vezes até mesmo dentro de nossas famílias. O nome carinhoso que eu dou para isso é lavagem cerebral cultural. E é preciso muita reflexão e paciência nessas horas - com nós mesmas e com o próximo.

Deve ter uma parcela de leitor@s que lê esse primeiro parágrafo e pensa: aí, mania de perseguição. Eu sou tão descolad@, tod@s @s meus amig@s são descolad@s, minha família é prafrentex, eu não fui criad@ assim porque essa de machismo não rola no meu meio.

Mas você vai ao cinema, certo?

Há um teste muito interessante para filmes chamado teste Bechdel*. Para passar no teste, um filme precisa cumprir 3 critérios simples:

1) ter pelo menos duas mulheres que tenham nome
2) que conversem entre si
3) sobre um assunto que não seja homens

É incrível a quantidade de filmes que não passa no teste -- vale a pena começar a prestar atenção quando for ao cinema.

O teste Bechdel surgiu com este quadrinho, criado por Alison Bechdel em 1985

É como se, não bastasse não haver espaços de representação para as mulheres (coberto pelo primeiro critério), quando eles existem são sempre colocados em relação aos homens (critérios 2 e 3). Somos condicionadas a sempre considerar os homens e, mais do que isso, a nos pensarmos em relação a eles.

Esse foi só um exemplo dentre vários que poderia citar. Você pode fazer outros testes também: veja o número de mulheres que trabalha na sua empresa e os cargos elas ocupam; compare o número de mulheres na sua sala de aula com o número de professoras (cursos de Letras são ótimos para isso, porque em geral a classe é majoritariamente feminina e a porcentagem muda completamente quando você olha para o quadro de professores e para os cargos mais elevados de chefia do departamento); preste atenção nas atitudes sutis do dia-a-dia, desde as cantadas desrespeitosas - que na maioria das vezes são "só de brincadeirinha" - até ser ignorada ou ridicularizada simplesmente por ter uma opinião e expressá-la.**

O machismo é um bicho papão, que perversamente aprendemos a respeitar desde pequen@s. Por isso proponho aqui, de maneira metafórica, a máxima católica - e guardem este momento, porque não é sempre que isso acontece em blogs feministas: orai e vigiai. Em termos laicos: reflita e esteja atent@, sempre.

Afinal, mulheres e homens, não se enganem: o machismo está em todo o lugar e, se você deixar, ele vai te comer!


* Obrigada à Crocomila por compartilhar o vídeo do Feminist Frequency, que é excelente.
** Como levantou a Patti, querida leitora aqui do blog.

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Você não está sendo oprimido...


por Roberta Gregoli


No meu texto anterior, defendi a reserva de cargos de chefia para mulheres numa organização sem fins lucrativos. Como sou feminista e não me calo nunca, tenho várias anedotas no mesmo estilo para contar.

Quando assumi a presidência do corpo de pós-graduandos do meu colégio em Oxford, organizei um jantar para promover integração e networking entre mulheres. Foi um escarcéu. Me confrontaram dizendo que aquilo era ilegal, que era discriminação contra os homens. Eu fiquei com dó, porque claro, quem aguenta tamanha opressão? Não poder participar de um jantar! É muito traumático mesmo. O mais irônico é que mulheres só foram aceitas em todos os colégios de Oxford no final da década de 1970, ou seja, jantares exclusivos para homens foram a regra por mais de 700 anos.

Orgulho branco, orgulho hetero e orgulho mimimi
Ao montar a rede de mulheres na associação de ex-alunos que faço parte, recebi um email de um homem, num tom meio de brincadeira, meio irônico, dizendo que ele sempre se perguntou por que, já que existia a rede de mulheres, não havia na associação uma rede de homens. Eu respondi que, provavelmente, porque a sociedade já era a rede das homens.

Proibida a entrada de meninas
No mundo todo, em todas as esferas de poder, a igualdade de gênero ainda é um ideal longe da realidade - e aqui falo sem exagero, já que mesmo os países mais evoluídos nesse quesito estão longe dos 50% de mulheres na política, educação (nos cargos mais altos das universidade, ainda que as mulheres tendam a ser mais escolarizadas), cargos gerenciais e de direção. Por que, então, ter uma equipe só de mulheres significa ser excludente e reacionári@ enquanto, no mundo todo, o clube do Bolinha está longe de ter terminado?

Na Inglaterra isso é tão óbvio que dá gosto citar. O ministério inglês tem mais ex-alunos de um único colégio de Oxford - e olha que existem mais de 30 colégios em Oxford - do que mulheres. Sem brincadeira. Basta olhar para o David Cameron, Nick Clegg, Gordon Brown & Co. para ver que, liberal ou conservador, política na Inglaterra é um jogo exclusivo, não somente de pessoas do mesmo sexo, como também com atributos tão específicos (branco, heterossexual, de elite) que acabam se tornando fisicamente parecidas.

Separados no nascimento: Nick Clegg e David Cameron
Na Inglaterra, esquerda e direita têm literalmente a mesma cara
Eu sou a favor de ações positivas como forma de reparação. Você não está excluindo o grupo dominante porque, por definição, o grupo dominante não é excluído. Dominante e oprimido é paradoxo, sacou?


A dificuldade com qualquer tipo de cota ou reserva de vaga é que você está abertamente negando privilégios e dizendo "não" para o grupo pessoas que se acostumaram a ter esse privilégio como dado, como natural e normal. Negar os direitos das minorias é fácil porque há uma série de discursos médicos, legais, culturais e sociais, já incorporados no senso comum, para apoiar essa exclusão.

Falar "não" para a maioria é difícil (e, num nível pessoal, desgastante) porque vai contra uma corrente poderosa e devastadora de preconceitos, medos e perversidades e, mesmo com muita estatística e boa vontade, é difícil desfazer esses discursos pois a dominação, principalmente a de gênero, está profundamente arraigada -- afinal gênero é o marco zero de todas as sociedades ocidentais.*

* Foster, William David. Gender and Society in Contemporary Brazilian Cinema. Austin: University of Texas Press, 1999, p. 8.

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Doando poder


por Roberta Gregoli
As mulheres representam metade da população mundial,
trabalham 2/3 das horas trabalhadas no mundo,
recebem 10% da renda mundial e são donas de
menos de 1% das propriedades do mundo
Bora lá discutir mais um tópico polêmico!

Estou montando uma rede de mulheres como parte da associação de ex-alunxs do meu mestrado e esta semana, ao organizar as eleições para os cargos da diretiva, esbarramos numa questão crucial: se sexo seria um critério de candidatura. Para mim, é claro que sim: homens são bem-vindos para se associarem à rede, mas os cargos de chefia ficam reservados às mulheres. Ao contrário do que algumas disseram, não se trata de discriminação nem exclusão.

Um dos argumentos contra foi que o importante é ter uma pessoa qualificada, independente de ser homem ou mulher... Ora, mesmo no caso hipotético de recebermos uma candidatura de um homem mais qualificado, como ele poderá representar as mulheres em nossas necessidades e desafios específicos? E se uma associação voluntária sem fins lucrativos não é o espaço para as mulheres desenvolverem suas habilidades e enriquecerem seu currículo, então onde será? Se um dos principais propósitos da rede é dar apoio às mulheres para ocuparem mais cargos liderança, que irônico seria se a diretiva fosse composta majoritariamente por homens?

É improvável que isso aconteça -- mas porque os homens não terão interesse em se candidatar, não porque as mulheres estão agarrando com unhas e dentes as oportunidades de se colocarem no poder e garantindo o direito de suas companheiras de ocuparem esse espaço.

O fato curioso é que, mesmo antes deste incidente, nas duas reuniões que tivemos, pessoas diferentes levantaram a questão de como envolver os homens na discussão. Logo ficou claro para mim que estávamos gastando um tempo desproporcional discutindo o papel dos homens numa rede de mulheres. Fiquei pensando se o contrário seria verdadeiro num mundo em que influência e poder estão concentrados nas mãos de uma parcela tão restrita da população. Há alguns anos, eu era presidente de uma organização voluntária coordenando, por coincidência, uma equipe só de mulheres. Mais de uma vez ouvi das colaboradoras que devíamos tentar atrair mais homens para a diretiva. O principal argumento era que precisávamos de diversidade, afinal, o mundo é muito diversificado. O mundo sim, as esferas de poder não, basta ver a figura no começo do post.

Mas voltando ao caso da rede de mulheres, por que tanta preocupação em se certificar de que os homens terão espaço? Na associação, a diretiva é 86% masculina (apenas 1 cargo em 7 é ocupado por uma mulher) e nenhum homem mostrou interesse em participar da rede. Não parece sensato esperarmos que algum homem queira participar para daí considerarmos a possibilidade? Pelo menos o contrário sempre foi verdadeiro: se não fossem as mulheres reivindicarem o direito ao voto, o direito ao divórcio, a lei Maria da Penha, nada teria caído de mãos beijadas pela benevolência alheia.

Eu não as culpo, pois acho que há dois fatores difíceis de se livrar: o primeiro é a introjeção da opressão. Qualquer coisa que se pareça minimamente com o feminismo ameaça e incomoda e costuma ser ridicularizado e rechaçado, por isso muitas mulheres não querem ser vistas como "muito feministas", para usar a expressão de uma delas. Houve até papos de que uma rede de mulheres "não seria levada a sério". Acho que só essas duas colocações já deixam claro a necessidade da iniciativa. O segundo fator é o patriarcado em si, que nos condiciona social e culturalmente a nos pensarmos em relação aos homens, sempre -- mas deixemos este assunto para um texto futuro. 

Cotas e iniciativas como a rede de mulheres não tem a ver com exclusão, ressentimento ou ódio aos homens. O propósito não é colocar as mulheres contra os homens, mas sim oferecer espaços positivos de interação e oportunidades de liderança, que infelizmente ainda faltam às mulheres no "mundão", como diz a querida Sandra Seabra Moreira.

Mas enquanto nós, mulheres, negarmos a nós mesmas esse direito, o direito ao poder, e não nos posicionarmos claramente em defesa de mais oportunidades para nós mesmas e nossas companheiras, enquanto continuarmos a abrir mão do poder, introjetando a opressão a que somos sujeitas, nós, feministas, teremos que continuar incomodando.

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Minha vagina, meu templo - ou não


por Roberta Gregoli

Há pouco mais de um ano, foi em Oxford um grupo chamado Orchid Project fazer uma apresentação sobre Mutilação Genital Feminina (MGF). Eu já tinha ouvido falar da MGF, mas a palestra me deixou absolutamente perplexa. Reproduzo aqui alguns dados.

A MGF é uma prática ainda em voga em diversos países (mais da metade dos países africano e também na Malásia, Curdistão e entre grupos de imigrantes na Europa), que consiste em cortar partes da genitália feminina, normalmente em crianças de 5 a 8 anos. São 4 tipos de mutilação:

  • No tipo 1, o clitóris é parcialmente ou totalmente removido (clitorectomia);
  • No tipo 2, o clitóris e pequenos lábios são removidos;
  • No tipo 3, o clitóris, pequenos e grandes lábios são removidos e parte da pele remanescente é costurada em graus variáveis de abertura. Por vezes, corta-se novamente uma abertura maior para a noite de núpcias e para dar a luz;
  • No tipo 4 enquadram-se todos os outros tipos de procedimentos que agridem a genital feminina, como raspagem, picadas, esfregões e o uso de ervas ou outras substâncias.
As consequências são obviamente o risco de infecção e até morte. Em 2004, mais de 140 milhões de meninas e mulheres viviam com as consequências da MGF no mundo.

Os dados são chocantes e a tentação de vilificar esses grupos é imensa. As coisas ficam mais complexas quando colocadas em perspectiva: a MGF é uma tradição e, apesar de muitas mães afirmarem que não queriam que suas filhas fossem cortadas, uma genitália não-cortada é considerada feia e uma menina que não foi cortada não se casará, o que nessas sociedades é o principal papel social da mulher.

Intervenções de países estrangeiros de tom moralista e imperialista há 50-60 anos resultaram numa reafirmação da FGM como tradição. E isso que é o legal do Orchid Project: elas trabalham com as comunidades, durante meses e até anos, para que a iniciativa de banir a prática parta de dentro, não de um bando de gringos eurocêntricos ainda que bem intencionados.

O pessoal do Orchid Project diz que é possível erradicar a MGF completamente, como aconteceu com a prática de enfaixamento de pés na China, que foi banida em apenas 12 anos. A ONG Tostan já conseguiu que 5.300 comunidades abandonassem a prática de MGF utilizando uma metodologia super interessante, sempre com enfoque na comunidade.

Na época que assisti à palestra comecei a divulgar os dados para amig@s e foi interessante ver a reação de indignação das pessoas. Um amigo, inclusive, ficou muito movido e chamou as comunidades de primitivas, dizendo que não aceitava uma coisa dessas. Simpatizo muito com o sentimento de indignação e tristeza, mas ao mesmo tempo acho que as coisas são muito mais complexas porque estão inseridas culturalmente, e a verdade é que somos muito cegos quando se trata da nossa cultura

A muffia: sem pelos, melhorada cosmeticamente
Veja, por exemplo, as chamadas cirurgias de rejuvenescimento vaginal. (E aqui faço a ligação com meu último texto sobre a banalização das cirurgias plásticas no Brasil.) Elas estão sendo feitas em número crescente no Reino Unido, o que rendeu até uma marcha própria em Londres: a Muff March (a Marcha da Xoxota). E, surpresa, o Brasil faz 5 vezes mais cirurgias de rejuvenescimento vaginal do que a média dos top 25 do mundo

Ame seus lábios
Claro que se pode argumentar que há uma diferença grande entre a intervenção feita por esse tipo de cirurgia e a MGF, mas pelo menos em princípio elas são muito parecidas: a alteração da genitália feminina (incluindo um procedimento cirúrgico doloroso que sempre envolve algum risco) para se atingir uma estética arbitrariamente construída cultural e socialmente

Não sei se meu amigo, que é brasileiro, se consideraria um bárbaro como ele esbravejou com relação às comunidades africanas. Mas acho que cabe a nós pelo menos nos indagarmos -- e nos indagarmos genuinamente, esquecendo argumentos que têm por base uma ideia distorcida de liberdade do tipo "fui eu que escolhi fazer a cirurgia" ou "eu não me sentia bem com o meu corpo" -- o quanto valores estéticos culturais são, na verdade, instrumentos de opressão das mulheres. E a MGF, assim como as cirurgias plásticas, são a ilustração perfeita de toda a tortura e dor que as mulheres passam para se enquadrar nos valores de uma sociedade ainda incrivelmente machista.

Suas partes íntimas são normais!

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Representadas na real


por Roberta Gregoli

Não dá para ser o que você não vê
O post anterior rendeu e foi muito legal ver os comentários, um questionando as influências estrangeiras e ambos de garotas magras. Aqui há um outro depoimento seguindo a mesma linha, sobre a dificuldade de ser magra. Primeiro acho que, neste caso, o padrão não é duplo como o título do post sugere, mas sim inatingível. Também não acho que seja o caso de se opôr a iniciativas estrangeiras porque, na realidade, a luta é a mesma, ainda que os padrões variem mais ou menos de país para país. Explico melhor.

Talvez eu tenha dado a entender que o padrão era em relação à magreza, mas não era a só isso que eu me referia. O fato é que o padrão é inalcançável e ponto. Se você é gorda, tem que emagrecer; se é magra, tem que ter curvas; a pele tem que ser perfeita (sem espinhas, marcas, praticamente sem poros); o peito tem que ser grande e, se for grande, tem que ser de outro formato; ter bunda mas não ter culote... O padrão é irreal simplesmente porque, quando se trata da aparência das mulheres, nunca está bom. E o que vemos como mulheres bonitas em revistas que ditam o padrão são imagens geradas por computador, não mulheres reais. 

Ou seja, as variações do padrão não importam porque é impossível atingi-lo. Claro, senão não teríamos que comprar mais nada. Em outras palavras, consumimos mais para tentar alcançar o inalcançável. Este vídeo ilustra bem este tipo de marketing sexista:


Não precisa nem falar inglês para entender que a quantidade de produtos que uma mulher precisa para "ser feliz" é muito maior que para o homem (segundo o vídeo, "se barbeie e fique bêbado, porque você já é demais"). O vídeo também ilustra bem a maneira como o marketing sexista joga com as inseguranças femininas, das rugas à incontinência urinária, passando pela menstruação (dá-lhe patologização do corpo feminino).

Tal exploração das inseguranças femininas vende muita roupa, maquiarem, escova, babyliss e, num número exorbitante de casos, cirurgia plástica. Segundo a ISAPS (Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética), o Brasil é o segundo país do mundo com o maior número de cirurgias plásticas: foram mais de 1,5 milhão em 2009, o que significa que 1 em cada 6 procedimentos cirúrgicos feitos em território nacional foram de ordem estética. 

Não que os homens não façam cirurgias estéticas ou sofram tentando se enquadrar em padrões de beleza (mencione a palavra "calvo" para um homem que passou dos 30 e comprove), mas a escala é claramente outra. Isso porque as mulheres são julgadas primariamente pela aparência física: de atrizes a políticas, é claro que o padrão é duplo em relação aos homens
Homens e mulheres em desenhos animados
Homens também têm mais opções de identificação na mídia (vejam a figura acima), justamente porque o que conta essencialmente no caso deles não é a aparência física. E, como o pessoal genial do Miss Representation sempre repete, não dá para ser o que você não vê. No caso dos padrões de beleza especificamente, não dá para se aceitar sem se ver representada - na real.

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Na real, é Photoshop


por Roberta Gregoli

Já falamos um pouco aqui sobre a representação das mulheres na mídia e sobre os padrões crueis de beleza perpetrados em geral. Além do maravilhoso documentário Miss Representation, existem outros (como as 4 versões do também maravilhoso Killing Us Softly) e canais do YouTube (como o Feminist Frequency) sobre o tema. Infelizmente, até onde eu saiba não há nada parecido sendo feito no Brasil, então aproveito este espaço para divulgar o que tem sido feito no mundo anglófono, principalmente nos Estados Unidos. 

Para entender a seriedade da questão dos ideais irreais de beleza, sobretudo e mais claramente manifestados no uso indiscriminado de Photoshop, veja este vídeo de apenas 75 segundos. Se fosse um caso ou outro, tudo bem, mas o fato é que todas as imagens de mulheres que vemos são manipuladas digitalmente, criando padrões inalcançáveis de beleza. A consequência para as meninas e mulheres reais vão desde a baixa autoestima, passando por distúrbios alimentares até a auto-mutilação. Esta matéria mostra o antes e depois do Photoshop, deixando claro que o que vemos não são mulheres reais e sim, pura e simplesmente, CGI (imagens geradas por computador). O cúmulo (ou talvez somente um exemplo mais óbvio) foi a loja de roupas europeia H&M, que criou um catálogo inteiro usando o mesmo corpo - gerado por computador - para todas as modelos:

H&M admite ter colado rostos de modelos a corpo criado digitalmente
O debate em torno da questão foi reavivado recentemente, quando a adolescente norte-americana de 14 anos Julia Bluhm pediu a revista Seventeen (uma das maiores revistas para o público adolescente nos Estados Unidos) que incluísse em cada edição uma foto que não fosse modificada por Photoshop. A revista negou. Há agora um abaixo-assinado com o mesmo pedido que já conta com mais de 83 mil assinaturas e um mutirão virtual chamado Keep it real. A ideia é desafiar por 3 dias (de 27 a 29 de junho), no mundo virtual, as revistas a incluírem pelo menos uma foto não alterada digitalmente. 

Para fazer parte do desafio, junte-se ao grupo no Facebook e acesse o pacote de recursos elaborado pelo pessoal do Miss Representation. Como o pacote está em inglês, traduzo aqui, em linhas gerais, os passos do desafio:

- Mude a capa do seu Facebook para esta (traduzida com exclusividade pelas Subvertidas!):


- Publique este poster no seu mural:

Dia 1 (27 de junho)
Poste no Twitter frases com a hashtag #KeepItReal. Na página 3 do pacote de recursos, há uma lista do Twitter das revistas para envio direto.

Dia 2 (28 de junho)
Poste no seu blog - as Subvertidas adiantadas!

Dia 3 (29 de junho)
Use o Instagram com a hashtag #KeepItRealChallenge e publique fotos que capturem o que você acredita que seja beleza real. A melhor foto será publicada num outdoor em Nova York! Se você não usar o Instagram, publique no Twitter com a hashtag #KeepItReal ou no grupo do Facebook.

Essa é uma discussão que precisa ganhar força urgentemente no Brasil - onde ainda é aceitável que o corpo feminino seja usado para vender cerveja e a onipresença do Photoshop segue sem ser desafiada -, por isso não deixem de participar da campanha!

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Loucura, medicina e o vibrador


O útero errante na versão almofadinha
A patologização da mulher e do corpo feminino tem uma história longa. A medicina, historicamente uma prática masculina, sempre interpretou o corpo feminino como símbolo da loucura. A palavra histeria vem do grego hyster, que significa - tcha-ram - útero. A ideia era de que esse mal afetava uma mulher cujo útero se desprendia por falta de lubrificação e ficava viajando pelo corpo. A teoria do "útero errante" (wandering womb) persistiu na Europa por muitos séculos e Freud no final do século XIX reforçou a associação entre o feminino e a loucura.

Como já discutido num post anterior, a partir do século XVIII, o modelo do sexo único passou a dar lugar a um modelo de maior diferenciação biológica entre mulheres e homens. É só então que corpos masculinos e femininos passam a ser vistos como fundamentalmente biologicamente diferentes. Essa diferença justificava posições sociais diferenciadas e implicava diferentes comportamentos sexuais e necessidades (ex. a sexualidade masculina passa a ser vista como naturalmente agressiva e a feminina como uma resposta ao desejo masculino, motivada pelos instintos reprodutivo e maternal). Mulheres "normais" eram as castas e passivas e desejos sexuais "excessivos" eram considerados anormais. Isso resultou no aumento do números dos ditos casos de histeria durante o século XIX. A histeria era então considerada uma doença que atacava mulheres excessivamente passionais que não tinham satisfação sexual.

O tratamento - pasmem - era massagem manual das genitais por um médico, até que se chegasse ao "paroxismo histérico" - o que hoje chamaríamos de orgasmo. Massagens com água se disseminaram em spas pela Europa e nos Estados Unidos, e o vibrador elétrico se tornou um utensílio popular com a disseminação de eletricidade nas casas. O filme Hysteria (Tanya Wexler, 2011), ainda inédito no Brasil, conta a história da invenção do vibrador. Ainda não assisti ao filme para saber se os fatos batem, mas pelo menos parece divertido.

O lado menos divertido da história é que, caso as massagens não funcionassem, clitorectomia era o próximo tratamento proposto. Instituições nos Estados Unidos e Reino Unido ofereciam a clitorectomia como tratamento para uma série de 'doenças', desde histeria, mania, retardo mental, insanidade, incontinência urinária e... divórcio, um claro sintoma de doença mental. Há casos documentados em que a esposa aceitou voltar ao marido após a cirurgia, atestando, obviamente, o sucesso do tratamento.

A moral da história é que a patologização do corpo e da psique femininas tem uma função normatizadora. Em outras palavras, ela serve para delinear o comportamento considerado aceitável e reprimir quem não está em conformidade. Não é à toa que mulheres já foram queimadas como bruxas, que mulheres ativistas foram e são consideradas loucas e anormais.

Isso pode parecer história do passado, mas se pensamos nas dezenas de males ainda associados à tensão pré-menstrual (e qual seria o equivalente para os homens? será que o corpo deles não sofre nenhuma alteração hormonal?), sem contar a frequência com que nos referimos a mulheres como loucas, vemos que a história se repete, só mudam as nomenclaturas.

Chamar uma mulher de "louca" é um hábito que homens jovens devem aprender a quebrar. Como o termo, "loucura" é uma peça na longa e terrível tradição de patologização das emoções femininas (especialmente com relação à sexualidade).
Jenna Sauers, Jezebel

Referência: Mottier, Véronique. Sexuality, A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2008.

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Cinco sexos


por Roberta Gregoli

Como já começamos a discutir no meu post anterior e no da Júlia, a teoria feminista é interessante e libertadora. Hoje queria apresentar brevemente a teoria de uma acadêmica chamada Anne Fausto-Sterling, professora da Brown University nos EUA. Fausto-Sterling escreveu em 1993 um artigo intitulado "Os Cinco Sexos", causando muito frisson ao afirmar que em vez de dois (mulher e homem) existem, na verdade, pelo menos cinco sexos

Edinanci Silva
No artigo, Fausto-Sterling usa a palavra intersexo como termo genérico para se referir a indivíduos que misturam características femininas e masculinas, e afirma que essas pessoas podem constituir até 4% de todos os nascimentos naturais. Na atualização de 2000, "Os Cinco Sexos, Revisitado", ela admite que o número deve ser menor, em torno de 1,7%. Ainda assim, considerando que o mundo tem em torno de 7 bilhões de pessoas, isso representa mais ou menos 119 milhões de pessoas que divergem do que ela chama de dimorfismo ideal, seja devido aos hormônios, genes ou anatomia. No Brasil, tivemos um caso famoso na judoca Edinanci Silva. 

Esses indivíduos quase sempre passam pela chamada cirurgia de designação sexual e é aí que as coisas ficam ainda mais interessantes. Cabe @ médic@ definir o sexo do bebê. Ou seja, na discussão cultura x natureza, ponto para a cultura. Mesmo o sexo, que normalmente serve como base para o que é biológico ou natural (dizem que sexo é biológico e gênero é cultural), está aberto a apropriações da cultura. Volto então ao meu argumento anterior de que tudo é cultura, nada é natureza


A outra consequência óbvia do artigo de Fausto-Sterling é nos obrigar a questionar as categorias de sexo. Dividimos tudo em dois: pesquisas apontam como o corpo masculino e feminino operam diferentemente. E se, em vez de dois, dividíssemos os estudos em cinco? E se largássemos mão de dividir? Com certeza acharíamos padrões antes impensados. Afinal, como eu já coloquei antes, muit@s defendem que há mais diferenças entre pessoas do mesmo sexo do que entre um sexo e outro

Desconstruir gênero é papel do feminismo porque liberta. Transexuais e intersexos são extremamente relevantes para esta discussão porque ajudam a desconstruir a ideia de sexo como algo natural, biológico, "normal". E o normal aprisiona ou exclui indivíduos que não estão em conformidade.

É claro que esse tipo de desconstrução não deve desqualificar a luta por direitos iguais, que se baseia obviamente na diferença entre os sexos. Negar as diferenças entre homens e mulheres não é produtivo quando se demanda salários iguais, por exemplo. Mas acho que uma coisa não exclui a outra e é possível desconstruir o binarismo de gênero - e de sexo - sem negar a luta das mulheres.