Mostrando postagens com marcador Roberta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Roberta. Mostrar todas as postagens
5

Você está equivocada, permita-me mansplicar

por Roberta Gregoli



É engraçado como algumas palavras comuns em língua inglesa e bastante úteis para as mulheres são raras no Brasil: condescendência, paternalismo, misoginia, teto de vidro e por aí vamos. Quero enfatizar as duas primeiras e introduzir uma terceira, uma ideia que, de tão pouco disseminada, não tem nem tradução para o português: mansplain - que vou traduzir aqui como 'mansplicar' por falta de termo melhor (desafio nossas tradutoras a encontrarem uma tradução mais irreverente!).

O termo mansplain é um jogo de palavras inteligente, aglutinação de man (homem) e explain (explicação). E, segundo o Urban Dictionary significa (na minha tradução):

  • Deleitar-se em explicações condescendentes e imprecisas, proferidas com autoconfiança de pedra e aquela certeza nauseante de que é óbvio que ele está certo porque é o homem da conversa. "Ainda que ele tivesse ciência de que ela tinha um doutorado em neurociência, achou que deveria mansplicar que "existem moléculas no cérebro chamadas neurotransmissores."
  • Explicar de maneira paternalista, presumindo total ignorância da parte dxs interlocutorxs. O mansplicador normalmente fica chocado e chateado quando sua mansplicação não é aceita como fato absoluto, quando é criticada ou totalmente rejeitada. O termo foi cunhado para descrever o comportamento de novatos em fóruns da internet frequentados inicialmente por mulheres. [...] Ambos os sexos podem ser culpados de mansplicação.
  • Explicar algo de maneira excessiva e desnecessariamente longa, com o intuito de dominar a conversação usando afirmações que não são baseadas em fatos, presumindo que as pessoas irão acreditar e concordar com ele pelo simples fato de ser homem. "A recessão foi causada porque o governo gastou muito dinheiro e as pessoas deveriam tomar conta de si mesmas, não esperar que a sociedade cuide delas................. ad nauseam. E é tudo culpa das mulheres."

Palavras e a frequência com que ocorrem são bons barômetros culturais. É a velha história das dezenas de palavras que os inuítes têm para designar 'neve' enquanto para nós, em terras tropicais, uma já basta. E quando a palavra não existe, ou é pouco usada, isso significa que o fenômeno não existe? Quem dera não existisse teto de vidro no Brasil! A falta de conceituazalição indica, a meu ver, os apagamentos, silenciamentos e distorções que demandas progressistas normalmente sofrem: "isso não é racismo porque não existe racismo no Brasil", "a lei Maria da Penha é discriminatória contra os homens", etc.

Agora, me digam, quem nunca passou por aquela situação em que você está conversando sobre um assunto sobre o qual leu e se informou e chega uma pessoa (normalmente um cara), que nunca pensou sobre aquilo até aquele momento, com um ar super condescendente e paternalista, tentando explicar por que você está errada. Quando você rebate com dados e argumentos bem fundamentados, ele faz esta cara:

O sorriso irritantemente condescendente do mansplicador:
Mitt Romney levando um fora de Obama

O pior é quando querem discutir um assunto sobre o qual você tem qualificações palpáveis, tipo uma graduação, um mestrado, doutorado... Quando o assunto é gênero e sexualidade, então, são muitas as opiniões formadas sem nenhuma base teórica, e os mansplicadores se esquecem que existe toda uma área do conhecimento dedicada ao assunto, que eles provavelmente ignoram - o que não os impede, de maneira nenhuma, de discursar num tom absolutamente confiante.

Tem um doutorado na área
Você está muito ocupado mansplicando para notar

Isso acontece muito na universidade e o ótimo mainsplained.tumblr.com é uma vitrine dos casos de mansplicação no âmbito acadêmico.

É claro que nem todos os homens praticam a mansplicação #ufa Inversamente, temos mulheres que também são particularmente afeitas ao som da própria voz. Mas é fato que a mansplicação é muito mais comumente praticada por homens por uma questão cultural. Homens são, normalmente, criados e socialmente encorajados a falarem em público, têm suas opiniões consistentemente validadas por uma sociedade que quase automaticamente endossa a sua voz, sobretudo se forem também brancos e de classe média ou alta.

Este bem humorado artigo ensina as mulheres a reagirem aos mansplicadores de plantão, usando como  exemplo o recente mas já clássico episódio em que Hillary Clinton é sabatinada por um homem que parece mais preocupado em desafiiá-la e desmoralizá-la do que com o assunto em pauta.

Então você aprendeu a fazer perguntas, não mansplicar.
Isso é sexy. Agora podemos conversar.

11

E lá se vai seu nome de donzela

por Roberta Gregoli


O tópico de hoje é delicado e quero já deixar claro que não tenho a intenção de acusar, criticar nem ofender ninguém por suas escolhas. Mas como a nossa proposta é justamente abordar esse tipo de tema que tem pouco espaço na mídia tradicional, aqui me aventuro eu.

Confesso que, quando vi o slogan ao lado pela primeira vez há alguns anos, não o compreendi em sua completude. O feminismo luta por direitos, por igualdade, equidade - ingenuamente, achei que a humanidade das mulheres só (só?!) era questionada na objetificação de seus corpos.

Entretanto, quanto mais reflito, mais me dou conta que, às mulheres, lhes é constantemente negado algo tão básico quanto a própria subjetividade: pense em todos empecilhos que enfrentamos para ter e manter uma carreira; o esforço de peitar, perante a sociedade, a potencial decisão de não ter filhxs; ter o nosso corpo transformado em espetáculo público... Este processo de apagamento do eu é perfeitamente ilustrado, num nível absolutamente primário, numa prática corriqueira: adotar o sobrenome do marido ao se casar. Alteramos o mínimo denominador, o índice mais óbvio de quem somos: nosso nome.

O que me inspirou a escrever sobre este tema esta semana foi a Beyoncé. Sim, a diva do monômio exuberante se casou e, não só adotou o nome do marido, como intitulou sua nova turnê Mrs Carter. Por quê, por quêeee, nos perguntamos. A verdade é que os motivos que levaram Beyoncé a mudar seu nome (estratégia de marketing? comentário irônico sobre a prática, enfatizado pelo figurino à la Louis XIV?) são diferentes dos que levam as mulheres não-estelares a fazerem o mesmo.


Para mim, mudar meu nome sempre esteve fora de cogitação, justamente porque enxergo a questão como identitária e eu não me reconheceria como, sei lá, Roberta Silva. Além disso, alterar o sobrenome tem também um impacto profissional, sobretudo na carreira acadêmica. Qualquer mudança no nome significa, na prática, jogar no lixo seu currículo de publicações. Existem professoras, inclusive, que mantêm o sobrenome do ex-esposo, mesmo depois do divórcio, porque já se consolidaram na área com ele. Imagine que triste, sua identidade intelectual para sempre vinculada a um casamento falido. E, se você virar grande referência na área - se conseguir 'construir um nome', como dizem - o nome construído vai ser o do ex, não o seu.

Esperando por sua nova identidade
com glamour
Na verdade, a prática de alterar o nome, em sua origem, simboliza a inauguração de uma nova fase na vida da mulher, quando ela assume o papel de esposa (dentro dessa concepção tradicional, o único que cabe à mulher). Em inglês, 'nome de solteira' (maiden name) literalmente significa 'nome de donzela', índice da concepção arcaica da prática. Ao se casar e perder sua virgindade - que nesse sistema funcionava como moeda de troca que determinava o 'valor' da mulher (pensando bem, as coisas não mudaram muito...) - a identidade de antes, símbolo de seu estado virginal de solteira, devia ser descartada, porque a identidade de prestígio social para uma mulher era (e ainda é) a de casada.

Isso tudo me soa tão sem sentido que só consigo entender os motivos que levam algumas mulheres de hoje a adotarem o sobrenome do marido a partir de um exercício intelectual de abstração.

Uma das causas mais comuns deve ser a tradição: 'é assim que é feito, nunca parei pra pensar sobre isso, onde eu assino?' Primeiro que não é assim que é feito necessariamente. Desde 2002, acrescentar sobrenomes é opcional e qualquer um dos cônjuges pode fazê-lo

Daí vamos para um outro forte motivo, que é a pressão social. A sociedade policia as mulheres de todas as maneiras possíveis e imagináveis - até aí, não há novidade. Mas, nesta questão específica, a coisa pode ficar muito hostil... E dá-lhe terrorismo emocional: será que já tá pensando no divórcio? não vai demonstrar seu amor por ele? mas e a celebração da sua união? Todas essas jogadas de romantismo que, no final, só servem para reforçar a tradição.

Tem gente que menciona xs filhxs e eu não entendo bem qual é o drama. A mãe chama Fulana A, o pai chama Fulano B, x filhx chama Fulaninhx A B (e nem vamos entrar no mérito do último nome ser o do homem). Tá ali, o nome dos dois, não há ambiguidade quanto à origem da criança. Agora, se a mãe não tiver o nome do pai vão achar que a criança é bastarda, é isso? É essa a preocupação, que, ai e se ela for mãe solteira? Ou divorciada? Em que século estamos mesmo?

Outro dia me apareceu uma nova. Alguém me contou que a noiva não queria adotar o nome do noivo e era um absurdo porque ele estava disposto a adotar o nome dela. Se é para ter igualdade, por que ela não aceita, já que ele ia fazer o mesmo? A resposta é simples: porque ela não quer. Se ele quer adotar o nome dela, ótimo, vá em frente. Agora, dureza ela ter que ficar dando satisfação para todo mundo de uma escolha que deveria ser só dela: o nome é dela, a identidade é dela.

Pronta para fazer - e com sorte
não ter que REfazer - toda a papelada
Além de tudo, por mais que ninguém goste de pensar nisso na hora do casamento, o divórcio é uma possibilidade real: 56% dos casamentos terminam em divórcio no Brasil. Então, manter seu próprio nome, além de uma questão ideológica, seria também pragmática: é como fazer uni-duni-tê para ver se vai mudar todos os registros de sua existência civil duas vezes. Só a primeira vez já me desanimaria.

O feminismo luta para que as mulheres sejam livres (ironicamente, até isso pode ser usado contra as mulheres, como quando dizem que faz sentido ganharmos menos porque colocar a carreira em segundo plano é uma decisão pessoal). O tema da mudança do nome é complicado justamente porque aborda decisões pessoais. Afinal, muitas mulheres dizem mudar o nome por escolha própria, da mesma forma como muitas dizem que são donas de casa porque querem.

Eu volto a enfatizar que não desmereço nem critico nenhuma mulher por ter adotado o nome do esposo, ou por ser dona de casa, mas questiono, sim, se essas são escolhas reais

Afinal, como falar em liberdade de escolha quando não existe igualdade? Se os homens adotassem o nome das mulheres em igual proporção que as mulheres adotam o nome dos homens, aí, sim, ok, temos escolha. Você está mentindo se disser para umx estudante do ensino público da periferia que elx pode ser o que quiser quando crescer. É possível dizer que elx escolheu não ser médicx (ou qualquer outra profissão de status que requeira estudo de qualidade e investimento financeiro)? Só há liberdade de fato quando existem oportunidades iguais.

Minha intenção com este texto não foi convencer ninguém a fazer nada. Só fomentar a discussão para levar a uma escolha esclarecida, expondo um lado do debate que muitas vezes fica obscurecido. Com todas as informações postas e pesadas, sem levar em conta qualquer pressão familiar ou social, aí, sim, podemos falar em escolha real. 


4

Não saia de casa à noite sozinho, HOMEM

por Roberta Gregoli

Uma maneira muito eficaz de se detectar padrões duplos (o famoso 'dois pesos, duas medidas') é aplicar o padrão em questão ao sexo oposto e, se soar estranho, a injustiça é explicitada. Este post mostra como seria ridículo aplicar os mesmo 'conselhos' dados às mulheres aos homens para evitar agressão sexual.

A querida Valéria Guimarães me mandou um ótimo texto que faz algo parecido, mas, para mim, melhor ainda, porque não só inverte a equação, mas a reformula com a própria premissa. Explico: este discurso de 'dicas de segurança para mulheres' tem um fundamento muito simples, o de que os homens têm um instinto sexual incontrolável. A própria ideia de roupa 'provocante' é sintoma disso: certos tipos de roupa provocam algo que é difícil - ou não pode - ser contido, não é isso?

Aliás, várias outras falácias do machismo são baseadas nesse mito. Ou você já viu alguma pesquisa que prove que os homens têm, de fato, maior desejo sexual que as mulheres? Os homens ficam nessa posição de boçais que, vítimas da própria natureza animalesca, não podem fazer nada contra ela, o que, em última instância, significa que não podem se responsabilizar pelos seus impulsos.

Já deu pra ver onde isso dá, né? Estupro? É culpa da mulher que usou uma saia que fez o cara 'perder a cabeça'. Também nessa premissa se baseia todo aquele discurso que as mulheres são seres sensatos e morais que precisam 'civilizar' os homens. Aquela história de que homem só sossega quando encontra uma mulher séria, sabe? Que o homem 'tomou jeito' depois que conheceu a fulana (= mulher séria).

O texto explora essa premissa - já que homens são trogloditas em potencial, vamos inverter o discurso e limitar a liberdade deles, não a das mulheres. Como não encontrei uma versão em português, fiz uma livre tradução de partes do texto:

E se respondêssemos à agressão sexual limitando a liberdade dos homens da mesma forma que limitamos a liberdade das mulheres?

Solicitação para que homens usem vendas ao sair em público

Em resposta à alegação de que homens são incapazes de controlar seus impulsos de estuprar mulheres usando roupas curtas, agentes dos diversos órgão de segurança lançaram uma solicitação para que os mesmos utilizem vendas nos olhos quando transitarem em lugares onde possam encontrar mulheres usando decote ou saia curta.

"Há anos ouvimos que os homens não conseguem reagir ao ver uma mulher usando, por exemplo, roupa de ginástica, e que, no entendimento deles, ver as curvas do corpo de uma mulher é um convite ao sexo, quer ela queira ou não", disse um policial. "Se isso é verdade, então não temos escolha. Queremos que as mulheres estejam seguras e, se aparentemente não há maneira de alguns homens controlarem seu comportamento ao se depararem com um decote, então todos os homens terão que cobrir seus olhos ao ir para a academia, frequentar bares ou discotecas ou mesmo ir à praia." [...]

Seria sensato deixar homens saírem sozinhos à noite?

Preocupados com os estudos recentes que mostram que, em média, 6% dos homens são perpretadores de agressão sexual durante o curso de suas vidas [...], líderes religiosos locais fizeram um apelo para que pais proíbam seus filhos homens de saírem à noite, a menos que estejam acompanhados da mãe, irmã ou uma amiga de confiança.



Os homens expressaram preocupação, dizendo que essas medidas podem impedir que alguns deles executem tarefas quotidianas, como ir à escola, trabalhar e participar de eventos sociais.

Em resposta, os líderes religiosos disseram "entender que isso talvez seja um inconveniente para alguns", mas que "essas pequenas dificuldades não são nada quando comparadas ao horror que uma agressão sexual causa à vítima". "Na verdade", disse o líder da organização, "qualquer limitação à liberdade dos homens é melhor que o risco que corremos de alguns deles agredirem alguém. É uma questão de bom senso."


É hora de admitir que alguns empregos são simplesmente muito perigosos para os homens?

As recentes acusações que Jimmy Savile estuprou centenas de crianças enquanto trabalhava como apresentador de TV para a BBC gerou diversos pedidos da sociedade civil, requisitando que se evite contratar homens para cargos semelhantes.


Jimmy Savile
"Sabemos que nem todos os homens são estupradores, e que alguns homens provavelmente são confiáveis para apresentar programas de TV de forma segura", disse o diretor da Televisions Within Borders, um grupo de profissionais que promove o bem-estar dxs apresentadores de TV. "Entretanto, sabemos que alguns homens não são dignos de tal confiança. E por que correr esse risco? Há muitas mulheres qualificadas que podem fazem o mesmo trabalho." [...]

Os que apoiam o movimento alegam que não houve um único caso  de abuso sexual de crianças por parte de técnicos de futebol desde que todos os técnicos das equipes de futebol universitário norte-americanos foram substituídas por mulheres, após o escândalo sexual na universidade Penn State no ano passado.




8

Quando uma Subvertida ama

por Roberta Gregoli

Encontro das Subvertidas em janeiro de 2013
(Barbara em espírito e Photoshop)
Não sei se é a gripe, se é ter acabado de fazer anos ou se é ter voltado para a Inglaterra, mas o post de hoje é fofo. Tome insulina, minha gente, que o negócio tá água com açúcar.

Algo muito poderoso acontece quando as pessoas se juntam. Pode ser algo poderosamente horrível, como quando um bando de caras se juntam para assediar mulheres na rua, mas pode ser maravilhoso também. Não que o nosso blog seja lá tudo isso (ainda nem temos tantos seguidores quanto outros blogs feministas), mas para mim ele é maravilhoso por vários motivos. Primeiro porque me trouxe mais perto dessas mulheres fantásticas e inteligentes. Cada uma do seu jeito traz um ingrediente especial ao blog: o humor incrivelmente sucinto da Mazu, a prosa extraordinária da Barbara, as reflexões filosóficas e por vezes pertinentemente raivosas da Tággidi.

Em segundo lugar, e isso acontece em qualquer fórum feminista (basta ver os relatos no Cantada de rua - conte o seu caso), o nosso blog é uma pequena ilustração da capacidade de empoderamento na coletividade. Me lembro de uma vez ter visto uma charge que agora não consigo encontrar: uma sala com diversas mulheres, todas pensando "Sou a única feminista aqui". A gente quando se cala - o que é fácil de acontecer numa cultura em que 'feminista' continua a significar mal-amada, amargurada, incendiária de sutiã - inevitavelmente se sente isolada e impotente. Ao colocarmos a boca no trombone arrumamos muita briga, mas também encontramos pessoas que pensam parecido e nos dão força. E isso empodera e incentiva a continuar colocando a boca no trombone, que é o primeiro passo para qualquer mudança.

Agora conte para todo mundo!
Por último, uma coisa fascinante que vejo acontecer com o blog é a mudança de fato. A mudança é proporcional ao nosso tamanho, mas ainda assim é, para mim, recompensadora. Além dxs leitorxs e amigxs que entram em contato com denúncias e reflexões, o que mais me impressiona é ver uma mudança de comportamento das pessoas à minha volta. Isso toma uma série de formas, desde a mais básica, que é um grupo se policiar nos comentários sexistas quando estou por perto, até a 'conversão' de fato. Como os silenciamentos, as inversões perversas e o menosprezo à pauta feminista são o padrão, a discussão de certos temas feministas no senso comum continuam num nível muito básico, e vejo alguns conhecidxs começarem a repensar suas posições, provocadxs pelos nossos textos. E, num mundo cheio de masculinistas e trolls, um a menos é muito.

Por isso tudo, meus agradecimentos. A todxs xs nossxs leitores, em especial xs que comentam e compartilham nossos textos, e, muito especialmente, a Barbara, Mazu e Tággidi, minhas queridas há mais de uma década.

Acabo este post por aqui para não elevar a glicemia de ninguém. E ai de quem disser que feminista não pode ser romântica.


5

De pernas fincadas no patriarcado

por Roberta Gregoli


O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos. 
Eu nem sou daquelxs que menosprezam o cinema popular brasileiro: muito pelo contrário, sou entusiasta. Admiro seu poder de alcance e seu potencial transgressor, e acho que desdenhar o cinema popular generica e acriticamente é uma das facetas do elitismo tupiniquim.

Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.

E o pilar sobre o qual De pernas para o ar 2 se sustenta é o mais fundamental e caro ao patriarcado: a divisão sexual do trabalho. Alice (Ingrid Guimarães) é uma workaholic inveterada que se desdobra para manter casa, filho e casamento. O enredo do filme gira em torno dos malabarismos de Alice para "dar conta" (como dito repetidas vezes ao longo do filme) de suas responsabilidades, à custa de sua saúde e bem-estar.

É raro no cinema um quadro composto somente
por mulheres, ainda mais em posição de poder

Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.

Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.


A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?

Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.

E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo

Mas numa coisa o filme acerta: quando questionada como dá conta, a mulher maravilha Vitória é rápida em responder que "é fácil, querida, eu não tenho marido". Ter um cônjuge masculino em casa representa um aumento de 2 horas de trabalho por semana para as mulheres.


Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.

Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.


3

Os 'bonzinhos' também estupram

por Roberta Gregoli

Dolce & Gabbana glamourizando o estupro por gangue

Na cultura do estupro, como o nome já diz, praticamente toda a cultura funciona para sancionar o estupro e culpar xs sobreviventes. E aqui entram a banalização do estupro através de piadas, a mídia tradicional e mesmo o judiciário, que sistematicamente inocenta estupradores:


Em cima: Estupradores - Denunciados - Levados a julgamento - Presos
Embaixo: Acusados falsamente
Fonte: http://theenlivenproject.com/the-truth-about-false-accusation/

Então não é de surpreender que o mercado de bens de consumo corrobore com este paradigma, cobrindo de glamour o que, no final das contas, não passa de violência de gênero (veja a figura de abertura do post).

A Victoria's Secret entrou na dança com uma coleção de calcinhas da linha Pink, sua marca voltada para o público adolescente, que traziam a estampadas expressões como Unwrap me (Me abra) e Sure thing (Coisa certa). Apesar de não promover o estupro de maneira óbvia e direta - só mesmo uma aberração chamada Lobo da Insanidade para ser capaz disso - esse tipo de produto naturaliza, de maneira sedutora, os mitos envolvidos na manutenção da cultura de estupro.

A sociedade civil interveio (ainda bem que temos o feminismo!) com uma resposta absolutamente inusitada, bem-humorada e inteligente: criou um site falso com uma linha chamada Love Consent trazendo estampas anti-estupro. Se a linha da Victoria's Secret confundia a noção de consentimento com uma calcinha que dizia Yes, no, maybe (Sim, não, talvez), a Love Consent deixa claro: No means no (Não quer dizer não).

Victoria's Secret e ativismo feminista: de 'Coisa certa' para 'Peça permissão antes'
porque "nenhuma vagina é 'uma coisa certa'"

Como a cultura de estupro está em todo o lugar, cito também uma situação diária. Esses dias eu, conversando com um amigo (branco, escolarizado, de classe média), dizia que, uma vez que a garota (ou garoto) tenha dito não, insistir leva a uma zona ambígua que pode ser qualificada como estupro. Como disse a Lola, pensamos em estupro como uma coisa que acontece num beco escuro, envolvendo um desconhecido e muita violência. Mas não. Estupro é qualquer ato que envolva o não consentimento de uma das partes.

A cada 12 segundos, uma mulher é estuprada no Brasil. E em 84% dos casos julgados o crime é cometido por um conhecido. Este número envolve principalmente familiares, que é um caso diferente do que estou tratando aqui: o chamado date rape, para o qual não há estatísticas confiáveis que eu conheça no Brasil, é o estupro que ocorre durante um encontro ou uma 'ficada', e que é muito pouco denunciado, justamente porque o conceito ainda não está articulado na cultura popular. Mas o date rape acontece obviamente entre pessoas que se conhecem e frequentam os mesmos ciclos sociais, por isso é também chamado de acquaintance rape (estupro por um conhecido). Veja um depoimento aqui.

Vivemos numa sociedade machista (surpresa) que faz com que as mulheres acreditem que a culpa de... bom, praticamente tudo, é delas. Daí uma garota e um cara estão ficando, ele começa com umas carícias mais quentes e a garota pede para parar. O cara força a barra, seja com um pouco de violência (tenta enfiar a mão embaixo da calcinha dela ou a segura mais forte, o que pode ser confundido com a famigerada 'pegada' - que por acaso não seria mais um mecanismo da cultura do estupro??) ou com um papinho de amante latino do tipo "relaxa, gata", "não tem problema", "não é nada de mais"... E a garota vai cedendo. 

Quando contei ao meu amigo que isso também é uma forma de violência, ele se surpreendeu: "mas, no fundo, ela queria". E me disse ainda que a nossa sociedade é muito repressora e não deixa a mulher se expressar sexualmente, por isso o cara tem que insistir. Eu detesto este "no fundo ela queria" - como um cara pode ter a arrogância de achar que sabe, melhor do que a própria mulher, o que ela quer? Quando se trata de consentimento, ao contrário do que meu amigo e a Victoria's Secret acreditam, não existe "no fundo": é o que a garota diz e ponto.

Ele está certo quanto à sociedade repressora, mas a repressão não é que ela está louquinha para transar com ele mas tem que parecer uma boa moça para que ele queira casar com ela (além de arrogante, esta lógica é de outro século, não?). A repressão funciona a partir do momento que a garota não tem assertividade para dizer: NÃO, EU NÃO QUERO TRANSAR COM VOCÊ. PONTO.

Ou seja, o ceder é que é a repressão da sociedade em funcionamento. A cultura do estupro nos cria para defender estupradores ao repetir sem cessar que a culpa é das mulheres.


Que estamos em débito com o cara porque ele pagou pelo jantar, porque demos "falsa esperança", porque fomos até a casa dele... Algumas ficam "com dó" porque o cara está insistindo e, ah, ele é tão bonzinho...

Se eu fosse super-heroína e pudesse escolher um único superpoder, queria ser capaz de empoderar as mulheres. Fazer com que magicamente nos libertássemos dessas culpas construídas para nos tornarem dóceis e sexualmente disponíveis para os homens.

Então, que fique claro: Não é não

Garotos, se e a gata disse 'não' uma vez, que seja o suficiente. Senão, você é um estuprador em potencial #pensenisso

Não forcem a barra. 'Forçar a barra', como a própria expressão sugere, é uma violência, o que te qualifica como agressor. Se ela estiver a fim, ela vai te procurar e vocês vão transar quando e se ela quiser de verdade.

Garotas, empoderem-se. Leiam este excelente post da tia Mazu. E, mesmo que você esteja pelada na frente de um cara e mude de ideia, diga NÃO. Seu corpo, suas regras. Sempre.



2

Doentes somos nós

por Roberta Gregoli


A loucura consumista do natal está aqui e, com ela, o reforço dos estereótipos de gênero através o marketing sexista. Particularmente trágico, para mim, são os estereótipos de gênero reforçados por brinquedos infantis, que por sinal abundam já que, afinal, trata-se de uma das maiores e mais lucrativas fatias de mercado.

(Já adianto que um mundo em que brinquedos desafiam os estereótipos de gênero e propões novas possibilidades existe e é na Suécia. Veja aqui como seria esse mundo distante.)

Como diria a Riley, num tom compreensivelmente inconformado, meninos querem super-heróis e meninas também querem super-heróis, mas os fabricantes de brinquedo iludem as meninas para que comprem brinquedos cor-de-rosa:


E em toda a sua sabedoria, Riley hesita: "meninas querem brinquedos cor-de-rosa e meninos... meninos não querem brinquedos cor-de-rosa." Mesmo tão pequena, Riley já entendeu que tabu maior do que meninas querendo super-heróis, ou carros, ou espadas, são meninos querendo "coisas cor-de-rosa".

É claro que estão aí xs que insistem que as diferenças na escolha de brinquedos são inatas. Claro, porque é muito mais lógico que os seres humanos tenham desenvolvido mecanismos biológicos especificamente selecionados para fazer com que um menino goste mais de caminhões que de castelos cor-de-rosa do que considerar que a diferença entre os sexos, em geral, é dada e reforçada desde o nascimento.

Este excelente artigo discute pesquisas científicas sobre o assunto e conclui que:

Macacos à parte, é possível que a preferência por certos brinquedos seja resultado da pressão do grupo tanto quanto de diferenças inatas. Mais ou menos na metade da pré-escola, meninas começam a flexibilizar suas preferências e brincar com diversos tipos de brinquedo diferentes enquanto os meninos se tornam mais rígidos com seus brinquedos 'de menino' [...]. Uma explicação lógica para isso seria que meninos pagam um preço mais alto pela diversificação. Ninguém estranha quando uma menina brinca de basquete ou com um carrinho de corrida; pelo contrário, isso talvez seja visto com bons olhos. Mas um menino com uma boneca ainda é, para muitos pais, quase tão alarmante como era nos anos 70. Um estudo clássico da universidade SUNY Binghampton, por exemplo, mostrou que meninos estão duas vezes menos propensos a explorar brinquedos tipicamente femininos quando há outra criança no recinto. [minha tradução]

Um episódio recente que aconteceu na minha família ilustra bem como tais comportamentos normativos são constantemente vigiados, reforçados - ou seja, como eles não têm nada de natural - e como qualquer desvio mínimo pode resultar em choque e punição. Meu sobrinho queria uma boneca de natal. Queria. Ontem ele me explicou por que mudou de ideia, depois de uma conversa com o pai: "Tia, eu sou menino, eu tenho pipi. A plincesa Popstar tem peleleca." Apesar de estar há somente 3 anos neste mundo, ele já entendeu o conceito de cisgênero, segundo o qual o sexo biológico e o gênero confluem (ter pipi = gênero masculino, que na nossa sociedade não inclui gostar de bonecas).


Sem entrar no mérito do valor educativo da boneca Barbie, qual o problema em um menino querer uma boneca? Para o senso comum, muitos. Quando contei para uma amiga que queria comprar um bonequinha para ele, a reação foi: "Melhor não, vai que ele vira gay. Daí vão te culpar."

Nem vou discutir a homofobia na premissa de que "virar gay" é algo ruim, algo pelo qual alguém deva ser culpadx. Para além da homofobia, esse tipo de fala revela que o senso comum ainda não se tocou que orientação sexual, assim como o sexo biológico, não tem nada a ver com identidade de gênero. Que o diga o Laerte, que é transgênero e 'heterossexual' (cada vez mais me dou conta da limitação do paradigma hétero-homossexual. Ele se aplica a pessoas transgênero? E axs transsexuais? Como rotular um homem que nasceu mulher e é casado com uma mulher?).


Identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico são três coisas distintas e há uma série de combinações possíveis entre os três.

Ainda assim, querer uma boneca não tem necessariamente a ver com identidade de gênero. Por que bonecas não podem fazer parte do universo masculino? Brinquedos têm a função social de preparar as crianças para a vida adulta. Bonecas têm a ver com a esfera doméstica, com filhxs, e certamente precisamos de mais maridos e pais presentes, que de fato dividam o trabalho doméstico e o cuidado com xs filhxs.

É nessas horas que admiro ainda mais pais e mães que ousam sair da caixinha e apoiar seus filhos em gostos que desafiam o status quo opressor. Acho triste que, no mundo adulto, um menino usar saia seja um ato tão subversivo que vire manchete mundial. E curto as crianças por se importarem com o que gostam, sem dramas. Como quando o pequeno Sam, de cinco anos, explicou que não gostava dos sapatos que causaram tamanho furor na internet por serem cor-de-rosa, mas porque eram de zebra, seu animal favorito.


Percebemos, então, que todo o drama é criado pelxs adultxs, ansiosxs por reforçarem e reproduzirem esse monte de paranoias. E tudo por simples medo daquilo que desafia suas ideias pré-concebidas a respeito de gênero e sexualidade.

Negamos a nossas filhas o prazer de se imaginarem super-heroínas e aos nossos filhos a possibilidade de experimentar dar carinho e cuidado a um outro ser. Por isso não venham me dizer que Riley, Sam ou o meu sobrinho têm algum distúrbio ou 'confusão de gênero'. Doentes somos nós.

Deixo aqui, então, um guia de presentes não-sexistas para este natal, pois acredito que muito mais nocivo do que o medo infundado de criar um filho homossexual - como se isso fosse pior do que criar um filho machista - é impor nossos dramas às crianças.

E, pior, perpetuá-los por mais uma geração, que terá de abrir mão de parte de sua experimentação, criatividade e imaginação pelo medo dxs adultxs de tudo aquilo que difere de seus preconceitos - por medo do que é natural.


5

Humor masoquista

por Roberta Gregoli

Essa semana ouvi mais de uma vez afirmações muito parecidas: piada de gordo feita por gordo não tem problema, piada de gordo feita por magro, sim. Por extensão, o mesmo se aplicaria a piadas que têm como alvo minorias étnicas e históricas (negrxs, judeus, mulheres).

Resolvi testar essa tese com este vídeo da Fernanda Young, que ironiza a Marcha das Vadias:


O fato da Fernanda Young ser mulher legitima a piada ou a faz mais engraçada? Se fosse um homem, reclamaríamos, mas por ser mulher tudo bem, certo? Errado. A 'piada' ter sido feita por uma mulher, para mim, faz do quadro ainda mais triste. Por que alguém gozaria do próprio grupo, minando a legitimidade de uma forma de protesto? 

Nesse caso específico, acho que existe um forte elemento de classe embutido na 'piada' de Young. É possível que ela brinque que quer ser encoxada no ônibus simplesmente porque ela não tem de pegar ônibus. É nessas horas que eu admiro a lucidez da Presidenta Dilma Rousseff quando diz que é mais difícil ser uma mulher comum do que presidenta da República porque a mulher do povo sofre mais violência e desigualdade salarial. Ou seja, é fácil para a Fernanda Young - que está com a barriga cheia, não sofre violência doméstica ou assédio de rua, reduzir a Marcha das Vadias a uma demanda por sexo caliente. É possível ter fantasias eróticas que envolvam violência física quando não se é vítima de violência de fato, quando se está empoderada o suficiente, no caso, com um emprego de reconhecimento financeiro e social. É fácil rir do assédio no transporte público quando se está dirigindo carro com o vidro fechado e insulfilm.

Enfim, como diria a sabedoria popular, pimenta nos olhos dos outros é refresco. Rir do ardume, então, é sadismo. Mas se, por um lado, em relação à classe social, Young está rindo da tragédia dos outros, por outro está rindo da própria miséria porque, apesar desse tipo de violência não fazer parte de seu cotidiano, ela, como mulher, também está sujeita a ser assediada, agredida, estuprada. Vai que o carro dela quebra.

Sobre humor e subversão, a melhor epítome que já vi está no essencial documentário O Riso dos Outros: "O humor que mais gosto é o que não ri da vítima, mas do carrasco". Veja aqui a partir da marca 43'35'' - mas vale a pena ver o documentário todo:


No humor, sempre se está escolhendo um lado: ou se ri da vítima ou do algoz.

E, quando se ri da vítima, não interessa se quem está rindo é a própria vítima ou o carrasco. Assim como no caso do humor machista de Fernanda Young, as piadas racistas de Danilo Gentili não seriam menos graves ou mais aceitáveis se fossem feitas por um negro.

É claro que existem piadas e piadas. Uma piada sobre minorias feitas por representantes dessa minoria  não é, necessariamente, preconceituosa. Ela pode ser autocrítica, empoderadora, subversora. Um exemplo sobre o mesmo tópico, a sexualidade feminina, é o da Margaret Cho, com uma piada mais ou menos assim (vocês podem ver a versão original aqui):

Um de meus primeiros empregos como comediante stand-up foi num cruzeiro lésbico. No barco, eu transei com uma mulher pela primeira vez. Daí veio todo o drama, será que sou gaaaay, sou héeetero? Então me toquei que só sou safada [I'm just slutty]. Cadê a minha parada? E o orgulho de ser vadia [slut pride]?
Diferente de Young, que, querendo afirmar seu gosto sexual acaba por justificar a violência de gênero, Cho afirma as mulheres como sexualmente ativas de uma maneira totalmente subversora, sobretudo por desafiar não somente a heteronormatividade como também o paradigma que divide a sexualidade feminina (e, por que não, humana) entre hétero e homossexual.

Interessante também o fato do show ser de 2000, ou seja, Cho antecipa a existência de uma marcha das vadias (em inglês, chamada Slut Walk) em mais de uma década, ainda que a Marcha das Vadias tenha reivindicações para além da liberdade sexual feminina, envolvendo questões como violência e ocupação do espaço público. Taí, então, um bom exemplo de humor inteligente, subversivo e pioneiro.

O humor que goza do carrasco, ou seja, desafiador do status quo e do senso comum preconceituoso é claramente mais complexo, exige mais esforço e sutileza. Existem também as piadas auto-depreciativas e sardônicas, que, quando feitas de maneira inteligente podem ser interessantes, mas a linha entre o reforço da opressão e o rir de si mesmo de maneira saudável é bastante tênue, ainda mais quando o assunto são minorias.

O humor que ri da vítima, como O Riso dos Outros defende, é o humor que gera o riso fácil porque reflete preconceitos e estereótipos já consolidados. É o humor que vomita de volta para a sociedade o que ela tem de pior. E, apesar dos comediantes toscos se sentirem lesados na sua liberdade de expressão (como se esse fosse um direito só deles), o nível de tolerância com esse tipo de humor é grande numa sociedade em que a educação ainda é largamente acrítica (ou simplesmente de má qualidade) e a grande mídia emburrece.

Como pode atestar qualquer mulher que tenha um mínimo de consciência e já tenha sido encoxada num ônibus, a piada da Young não é inofensiva. Ao naturalizar esse tipo de comportamento dizendo que isso é normal (pior, que é o que as mulheres querem), Young está participando na legitimação desse tipo de violência. Legitimando de maneira particularmente contundente e nociva porque, como mulher, ela supostamente teria maior autoridade para dizer "o que as mulheres querem".

Em resumo: uma piada nunca é inofensiva e sempre se está escolhendo um lado. A diferença entre o carrasco que ri da vítima e a vítima que faz piada sobre a própria condição é que, no segundo caso, o humor, além de perverso, é masoquista.

0

Sexismo de cada dia

por Roberta Gregoli

É uma satisfação anunciar que hoje o Subvertidas faz 7 meses! 

Foram 106 postagens e mais de 34 mil visitas de diversos países do mundo. Parabéns às nossas excelentes colaboradoras e um obrigada enorme a todxs que nos acompanham e compartilham nossas postagens.
As Subvertidas ganhando o mundo:
mapa de origem dos visitantes do blog
Para celebrar nosso aniversário, vamos inaugurar uma nova seção no blog, o Sexismo de cada dia. Inspirado no projeto The Everyday Sexism, uma iniciativa bem-sucedida e interessantíssima que gerou até ameaças de morte à autora. A ideia é compartilhar instâncias de sexismo e machismo vividas no dia-a-dia. Relatos de sexismo associado a outros preconceitos, como homofobia e racismo, são particularmente bem-vindos.

Projetos parecidos existem já em português, como o Cantada de rua - conte o seu caso - que, na minha opinião, deveria se chamar assédio de rua. Essas iniciativas são importantes porque combatem um dos pilares fundamentais para a perpetuação da opressão de gênero: a negação de que a opressão de gênero ainda exista. O famoso "feminismo é coisa do passado", "machismo não existe mais", "feminista quer achar pelo em ovo" e diversas variações dessas frases.

A iniciativa vai em linha com a concepção de blog coletivo, que tem como proposta dar espaço a uma pluralidade de vozes, refletindo a pluralidade do feminismo e da própria experiência das mulheres, que muitas vezes são mal representadas por noções essencializadoras como "a alma feminina", "a sexualidade feminina", etc. Não escondemos que nós, as colaboradoras, temos muito em comum, incluindo classe e etnia, por isso também aproveitamos a oportunidade para convidarmos novas colaboradoras a fazer parte da equipe.

Para participar do "Sexismo de cada dia", envie sua contribuição (de qualquer tamanho) para subvertemos@gmail.com. Indique também no email como quer ser identificadx (pelo primeiro nome, nome completo, apelido ou de maneira anônima). Vamos montar uma fila de contribuições e vamos publicando aos poucos, nos intervalos das postagens das colaboradoras.

Para o pontapé inicial, começo eu:

Abordei dois professores brasileiros, ambos homens trabalhando em universidades de prestígio no Brasil e de renome internacional na área, para ver se se interessavam no meu projeto de pesquisa de doutorado (representações de gênero no cinema brasileiro). Ambos disseram que o corpus de filmes que eu tinha escolhido era interessante, mas que eu devia descartar a parte de gênero. Porque não era assim tão "interessante". Ignorei os dois, claro, e passei em Oxford com o projeto original.

Aguardamos suas contribuições!

9

Por que não há mais mulheres comediantes no Brasil

por Roberta Gregoli


A guerreira Dani Calabresa

Curti os comentários de um dos meus textos anteriores, sobre humor e escatologia. Talvez meu ponto principal não tenha ficado muito claro: não que eu ache que "falar merda" seja intrinsicamente bom, mas que precisamos de mais mulheres falando merda. Em outras palavras, argumentei contra um moralismo que obrigada as mulheres a se conformarem a estereótipos de delicadeza, timidez e contenção.

Em geral, a divisão entre o que é 'apropriado' falar na intimidade e publicamente não é só pessoal mas também cultural, e pode ser bastante repressora, principalmente para as mulheres. Basta ver aqui o depoimento da Dani Calabresa sobre mulheres fazendo comédia. Ela diz:

Eu acho que a sociedade permite que os homens sejam loucos e engraçados desde sempre. Então é bonito um menino falar palavrão, é bonito um menino arrotar, soltar pum. A menina que faz isso é louca. A mulher tem medo de se expor ao ridículo. Eu sempre fui mais moleca, eu era gorda, louca, queria fazer os outros rir. Para mim era normal, mas a mulherada quer passar maquiagem, quer ficar bonita. Hoje eu sou mais vaidosa do que há muito tempo atrás. Na TV as pessoas me produzem, gente, me penteiam, eu não sabia fazer nada disso.

Aliás, o vídeo do qual este depoimento foi tirado me chocou tanto que resolvi analisá-lo em detalhe. Veja na íntegra:


0m01s

Dani Calabresa é apresentada como pizza nos seguintes termos: "O motoboy já entregou a nossa pizza?" Justo, podem dizer, já que esse é o nome artístico dela. Mas será que a mesma piada se aplicaria a um comediante homem chamado, sei lá, João Melancia? "O fruteiro já entregou nossa melancia?" Me cheira a padrão duplo.

1m

A segunda piada machista é do desagradabilíssimo Marcelo Mansfield, sobre as vezes em que "comeu calabresa". Duas piadas machistas em menos de 1 minuto e meio.

1m23s

Eu AMO quando ela responde no mesmo nível e diz que não faz "nenhum personagem tão bem como o Mansfield se faz de homem... Quase engana". Vale a pena ver o vídeo só por esse fora e pela expressão no rosto dele.

2m33s

Danilo Gentili, já citado aqui por sua piada racista, insinua que ela dormiu com alguém da MTV para manter o emprego. Ela não se submete e responde de novo à altura e com convicção, entrando na brincadeira e, por consequência, ridicularizando a fala dele.

3m23s

Ela desafia Mansfield de novo, esfregando o currículo na virilha. Referências a vagina são sempre tabu e achei ótimo ela usá-la contra o misógino de plantão.

5m20s

A câmera dá um close up longo nas pernas dela. Alguma dúvida de que isso nunca aconteceria com um humorista homem?

5m30s

Referência a quando a humorista era "gordinha". Sem comentários.

7m08s

Mansfield faz uma piada inteligentíssima #not sobre a "dicção" dela, subentende-se voz aguda, ou seja, de mulher. Ela, como sempre, responde na lata: "Você tem que ligar o aparelho auditivo". Muito menos criativo e perspicaz, Mansfield responde "haha, como você é engraçada, Dani". Coitado.

7m33s

Danilo Gentili pergunta se a Playboy nunca a procurou. Claro, porque mulher não pode só ter talento, tem que "mostrar o talento" na mente mesquinha dele.

7m55s

A partir desse momento a questão do gênero relacionada ao humor entrar em cena aberta e diretamente e Gentili diz que Dani é a melhor humorista mulher do Brasil.

8m11s

Mansfield mina a afirmação de Gentili, dizendo um "é" irônico. De novo, ela responde rápida e certeira: "Quer meu posto, né?" Ele responde dizendo que não é tão masculino. Ahn? O assunto não era a melhor humorista mulher? Melhor dar a ela o título de melhor humorista, ponto. Os dois homens humoristas desse programa, pelo menos, ficam léguas na retaguarda em comparação à rapidez, ousadia e inteligência dela.

8m30s

Gentili pergunta por que não há tantas mulheres humoristas no Brasil e Dani Calabresa dá o depoimento transcrito acima.

9m25s

Mansfield insinua que ela não é talentosa, por isso precisa se maquiar. Mais uma piada machista, sem contar o bullying.

9m32s

Gentili pergunta se foi o casamento que a deixou mais vaidosa e ela, para mim infelizmente, diz que sim.

10m27s

Mais uma piada abertamente machista: Gentili diz que amarrou uma vassoura no microfone para ela fazer stand-up. Inaceitável.

11m22s

Gentili insinua que ela se prostituiu para ganhar a vida. Inaceitável e tosco.

13m20s

Gentili pergunta quando ela terá um bebê. Por que as pessoas se sentem no direito de tal invasão da privacidade alheia quando se trata de ter filhos? E alguém imagina a mesma pergunta sendo feita a um homem na mesma situação? #padrãoduplo

13m30s

Roger, da banda, passa uma cantada. Pessoas, se liguem: cantada não é elogio, é desrespeito. Ela reage, deixando o cantador sem graça #yes

14m12s

Gentili diz que, na época (quando ela era gorda, entende-se), a única maneira de dar no couro para ela era "entrar no coro". Inaceitável.

16m17s

Márcio Ribeiro, outro comediante convidado, a assedia sexualmente, no que é, para mim, o momento mais chocante do programa. Passar a mão na perna de maneira indesejada é assédio sexual. E fica claro pela expressão e reação dela que a ação é indesejada e não consensual.

18m32s

Ela faz piada sobre o pênis do marido, sinalizando a própria vida sexual. "É como andar de banana boat todo o dia!" Como é bom ter mulheres fazendo piadas sobre sexo de maneira não leviana.

Contagem final


Em menos de 21 minutos, uma artista consagrada tem que passar por:

  • 11 piadas machistas
  • 7 ocorrências de bullying
  • 1 take voyeurístico do seu corpo
  • 1 ocorrência de assédio sexual
Tudo em rede nacional.

E ainda perguntam por que não há mais mulheres comediantes no Brasil.


0

Veja que lixo

por Roberta Gregoli

Pura estupidez ou algo mais?
Eu tinha planejado continuar falando de humor, mas é claro que o texto homofóbico da Veja não poderia passar batido neste botequim.

O texto teve imensa repercussão nas redes sociais, gerando memes como a figura acima, a trend #vejaquelixo no Twitter, um protesto virtual no Facebook que já conta com mais de 4 mil participantes e até uma paródia envolvendo Hitler. Não vou falar sobre o texto em si porque acho que os principais problemas, inclusive os de ordem lógica, já foram muito bem abordados aquiaqui.

Faço minhas as palavras do deputado Jean Wyllis quando diz que "[o]s argumentos de Guzzo contra o casamento igualitário seriam uma confissão pública de estupidez se não fosse uma peça de má fé e desonestidade intelectual a serviço do reacionarismo da revista Veja". É esta desonestidade intelectual que me interessa, da qual o texto da Veja é sintoma e reforço. 

Primeiro porque o colunista que escreveu o texto não é um repórter pouco experiente e ingênuo, como pode a princípio parecer pelo tom retrógrado e desinformado de seu texto. Segundo a própria revista:
A história de José Roberto Guzzo, que assina suas colunas com as iniciais J.R., confunde-se com a de VEJA. De 1976 a 1991, por quinze anos, portanto, Guzzo foi diretor de redação da revista. Há seis meses ele voltou como colunista e agora, com sua análise rigorosa e fundamentalmente bem escrita, passa a revezar com Pompeu na última página [...].
Veja
, 05/08/2008 na edição 497

Para os que dizem que não devemos comentar para não dar mais visibilidade ao caso (isso quando não lançam mão de uma ideia distorcida de liberdade de expressão, que, em outro momento, eu chamei de liberdade de opressão), é bom explicitar a abrangência do artigo. A revista Veja é a mais lida do Brasil com uma tiragem de 1.203.766 exemplares, sendo 923.219 assinaturas. Não comentar, neste caso, é deixar que a posição da revista, que chega na casa de quase 1 milhão de pessoas semanalmente, passe como perspectiva única e inquestionável. Precisamos fazer muito, muito barulho.

E barulho virtual é barulho que se ouve. Para provar o papel das mídias alternativas definindo os rumos do Brasil, nada melhor do que o exemplo de José Serra. A compra do apoio, desvelado e sem apologias, da grande mídia não foi o suficiente para convencer os eleitores, e Serra terminou a eleição para a prefeitura de São Paulo tendo a si mesmo como pior adversário. Com um índice de rejeição de 30% em junho, o número chegou a 52% em final de outubro, tornando sua eleição matematicamente inviável, independente do adversário.

Serra da Veja
O papel das mídias alternativas foi fundamental neste processo, seja divulgando a publicação do livro A Privataria Tucana, totalmente boicotado pela grande mídia, seja mostrando, através do uso do humor, Serra sob uma luz menos amistosa:

Serra das redes sociais
#Serraloko
É normal e mesmo positivo que existam canais de tendência conservadora, afinal, vozes plurais são necessárias numa democracia. O problema é que na mídia tradicional brasileira o espaço é desproporcionalmente ocupado para uma única voz. Veja, por exemplo, este 'debate'. Os 'debatedores' incluem o próprio J. R. Guzzo e Reinaldo Azevedo, o mesmo que defende, em seu blog ("um dos mais acessados do Brasil"), o pastor Silas Malafaia com títulos tragicômicos como "O combate à homofobia não pode ser 'catolicofóbico', 'evangelicofóbico', 'diferentofóbico'. Ou: Movimento gay quer passar de beneficiário da liberdade de expressão à condição de censor?".

Coloco a palavra debate entre aspas porque, como não há pessoas com opiniões divergentes, ela não se aplica. Mesmo fisicamente, os 3 'debatedores' e o moderador se assemelham: são todos homens, brancos, de meia-idade para cima. Em vez de 'debate' deveriam usar 'bate papo' ou 'troca de figurinhas'.

Veja redefinindo a palavra 'debate', que passa a
significar 'tapinhas nas costas entre compadres'
Eu já defendi em outra ocasião que esse discurso perversamente distorcido, imposto com uma linguagem agressiva, e, em última instância, ignorante, como o exemplificado pela Veja são legados da ditadura militar brasileira, pois se trata de um discurso de legitimação de uma tradição que tem na sua base a quebra dos direitos humanos.
Se o paralelo parece tênue, basta acessar o acervo da revista para achar a capa de 13/08/1969 (ao lado). A revista rotula de terroristas os grupos de oposição à ditadura militar. Os ataques ferozes e por vezes infundados a figuras como Lula da Silva e Dilma Rousseff são, então, muito mais que incidentes isolados, efeitos de uma tendência política histórica.

Como o texto de Guzzo muito bem ilustra, essa tendência é violentamente reacionária e se sustenta mantendo os leitores da revista ignorantes (já que muitas vezes as reportagens se baseiam no senso comum e não trazem nenhum indício de opiniões diversas) e preconceituosos (já que legitimam discursos de ódio). Trata-se de uma mídia sustentada, enfim, pela desinformação.