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Uma teoria do estupro


por Tággidi Ribeiro

Pode ser constrangedor admitir isso, mas tendemos a julgar que o estupro é natural, ou seja, nasceu com a nossa espécie, e hoje só é reprimido porque, até que enfim, o homem evoluiu. A imagem símbolo desse pensamento é a do homem coberto por peles segurando o tacape que usou para abater a mulher que agora ele arrasta pelos cabelos. Desde sempre, portanto, nos diz essa imagem, teria o homem usado da força para conseguir uma mulher, para conseguir copular. Qualquer dancinha de acasalamento devia ser o suprassumo do romantismo nessa época.

Pois bem, há várias pesquisas que apontam para essa ideia - os homens seriam mais violentos e mais libidinosos que as mulheres, sobretudo por produzir de 20 a 30 vezes mais testosterona que elas. Diz-se também que a natureza dos homens não seria "boa", como a dos macacos (seus parentes mais próximos), mas cruel, sanguinária, egoísta e superssexualizada. Também, desde que temos registros escritos, a mulher foi considerada pelo homem sua propriedade, o que faz alguns cientistas afirmarem que sempre foi assim.

Bem, eu suponho que o estupro seja ancestral (natural, portanto), tendo acontecido em algum 'ponto' da evolução - assim como a violência e o prazer sexual; assim como o carinho e o afeto. Para mim, porém, é praticamente impossível admitir a hipótese de que o estupro tenha sido prática corrente, indispensável para a cópula, dentro de um bando de hominídeos que, assim como o restante dos animais, precisava sobreviver. Não há registro de cópula, pelo menos entre mamíferos, que se dê através de violência. Se machos e fêmeas estão no cio, eles copulam - simples assim. Por que razão na espécie humana seria diferente?

Eu tendo a pensar que nessa resposta entraria a falácia de que mulheres tem bem menos desejo sexual que homens. Para conseguir sexo, portanto, seria necessária a violência. Mas se estamos falando de cópula e não de sexo, o grande argumento masculino para a naturalização da violência sexual perde o sentido, já que, como todos os outros mamíferos, quereriam as fêmeas acasalar para poder preservar a espécie. Por outro lado, sabemos que, fora o fato de que desejo sexual varia de pessoa para pessoa, o desejo nas mulheres na verdade foi reprimido durante milênios. Não podemos usar o comportamento de nossas mulheres atavicamente culpadas para explicar o comportamento da fêmea ancestral, sobre a qual não recaiu a mão pesada da religião. Pode muito bem ser que esta fêmea, assim como as fêmeas bonobo, evolutivamente próximas de nós, estivesse disposta ao ato sexual sem fim de reprodução.

Por que, então, teriam os homens começado a estuprar mulheres, num cenário em que provavelmente tanto a cópula quanto o sexo eram consentidos? Creio que, novamente, o mundo animal pode nos dar alguma chave elucidativa. Estupros, sobretudo cometidos por mamíferos não humanos, são raridade, mas existem. Na natureza, parecem nunca estar associados a prazer sexual; em apenas uma espécie de inseto, está associado à cópula e, no geral, os estupros estão associados a domínio de território (caso haja guerra ou disputa) e à manutenção do poder. Portanto, a tese de Susan Brownmiller, de que estupro tem relação com poder e não com sexo, parece se verificar inclusive na natureza. 

Por fim, minha hipótese é a de que o estupro passa a ser sistematizado somente quando os nossos ancestrais formam o sentido da propriedade, associado à ideia de inferioridade da mulher. Mas ainda aqui, creio, os estupros eram praticados nas guerras, nunca dentro da tribo. O estupro generalizado contemporâneo é fruto da demonização do sexo e da cisão da mulher em santa e puta - portanto, é fruto das principais religiões do nosso mundo. Ao demonizar o sexo, a santificação da mulher se dá por sua 'pureza', a virgindade passa a ser seu grande valor. Se um homem estupra a virgem, ela perde aquilo que lhe é mais valioso. Por outro lado, o homem sente desejo sexual pela mulher - é ela que o leva à tentação, à perdição. Por isso, é culpada de seu próprio estupro. E se a mulher não é mais virgem, não tem valor (é uma puta), sendo portanto lícito estuprá-la.

O estupro, tal qual o conhecemos hoje, é o crime mais antinatural que cometemos. A imagem do homem com o tacape arrastando 'sua' mulher é invenção contemporânea que tenta naturalizar a violência sexual para homens sem deus. Mas os deuses criados pelos homens são ainda quem manda nos estupros pelo mundo afora, por terem deixado tão entranhada a ideia de que a mulher é propriedade do marido e de que vale pela sua pureza sexual. Se nos podemos comparar com outros animais (sobretudo primatas) para inferir nosso comportamento sexual pré-histórico, devemos tomar a violência sexual como rara e relacionada à disputa de poder. Se não nos podemos comparar com os demais bichos, então só podemos teorizar sobre o que conhecemos de nossa história, e aí o lugar da mulher, dado milenarmente pela religião no arquétipo da Eva traiçoeira e responsável pela danação do homem, vai nortear nossa visão sobre a violência perpetrada por homens contra mulheres.

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Os judeus ultraortodoxos e o apartheid de gênero


por Tággidi Ribeiro

A notícia não é tão nova, mas não ganhou muito destaque da mídia, então achei bom falar sobre ela aqui. Infelizmente, fanatismo religioso é quase que correlato de violência e discriminação contra a mulher e é isso que se pode ver também em Israel.

No fim do ano passado, uma menina de oito anos virou símbolo da segregação que homens judeus ultraortodoxos impõem às mulheres em seu próprio país. De família ortodoxa, Naama Margolis era uma das meninas constantemente hostilizadas quando ia para a escola, por usar roupas consideradas imorais. A menina era chamada de prostituta, recebia cusparadas e às vezes lhe jogavam pedras.

Naama, de 8 anos, 'prostituta vestida com roupas imorais'
Quando finalmente a história de Naama veio à tona, é que o ocidente ficou sabendo como as mulheres são tratadas nos bairros povoados pelos ultraortodoxos. É um verdadeiro apartheid de gênero: homens e mulheres andam em lados opostos da rua; nos ônibus as mulheres devem se sentar atrás dos homens; nos hospitais e nos bancos há filas para um e outro gênero.

Por causa dos protestos de judeus moderados contra a segregação e a hostilização de mulheres, o governo israelita decidiu retirar as placas que indicavam a homens e mulheres em qual calçada andar. Os  ultraortodoxos reagiram atirando pedras e lixo contra os policiais em serviço.
 
Mesmo sem a resolução permanente do conflito, a resposta de Israel foi louvável. O primeiro-ministro declarou ser Israel um estado democrático, ocidental e liberal, onde a violência contra a mulher não seria tolerada. Gostaríamos de ouvir o mesmo de muitos governos pelo mundo.

Homens e mulheres protestam em Israel

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Fertilidade e valor da vida da mulher


por Tággidi Ribeiro

Só mesmo escrevendo um texto para um blog feminista a gente aprende certas coisas. Vou contar para vocês, então, o que eu aprendi esses dias sobre fertilidade e infertilidade. Só pra contextualizar, eu não saberia nada novo não fosse uma amiga ter mencionado discussão sobre um tal prazo de validade da mulher. É... pois é. Pra piorar a história, no dia seguinte leio uma reportagem f*d*p* relacionada ao tema, que você pode conferir aqui.

Bem, em primeiro lugar, todo mundo sabe que 'mulher não é produto pra ter prazo de validade', como disse minha amiga. Ou não? De qualquer forma, o ideário machista que emerge quando alguém tem a coragem de materializar esse tipo de expressão é o de que uma mulher é:

1) uma existência cujo sentido é a maternidade;
2) uma existência cujo sentido é ser sexualmente atrativa para os homens;
3) uma existência cujo sentido se perde após os 35 anos.

Olha, eu realmente não sei, mulheres, mas se eu fosse um homem e me dissessem que a minha vida só vale até os 45 anos porque meu sêmen envelhece, o que pode causar certas doenças nos filhos que eu venha a ter, sinceramente, eu ficaria irado ou simplesmente descartaria a questão. Porque eu, como homem, sei que a validade da minha existência não se resume a ter ou não filhos saudáveis e muito menos a ter ou não filhos - quer dizer, mesmo que eu nunca tenha um filho, minha vida tem sentido, o mesmo frágil e efêmero para todo ser humano.
 
 Eu não sou um homem, mas eu já sei que minha vida tem sentido mesmo que eu nunca tenha um filho. Eu já sei que eu sou um ser humano tanto quanto.

Sendo homem, eu também ficaria p* da vida caso me dissessem que já não valho mais nada por não ser sexualmente atraente. Quer dizer, como alguém pode pensar que a vida de um homem não vale porque ninguém (em 7 bilhões de pessoas) quer fazer sexo com ele? Como alguém pode mesmo pensar que um homem de qualquer idade não seja sexualmente atraente? Teria que ser alguém insano ou picareta pra pensar esse tipo de coisa.

Eu sou uma mulher, e eu já sei que minha vida tem sentido mesmo que nenhum homem queira se deitar comigo. A minha consciência me diz que a vida dos seres humanos (e eu sou um ser humano, repito) não comporta a limitação do sentido. Vale a vida d@ eremita, também vale a d@ popstar.

E fora ter de dizer o óbvio sobre o sentido da vida humana e ter de reafirmar que mulheres são seres humanos, por escrever nesse blog aprendi, como disse, sobre fertilidade e infertilidade. Algumas informações interessantes:

1) os seres humanos são das espécies menos férteis do reino animal. Temos apenas 20 a 25% de chance de gerar um novo embrião a cada nova relação sexual. 
2) para suspeitar de problemas de infertilidade, um casal de até 35 anos deve tentar engravidar durante 12 meses (é isso mesmo, 1 ano).
3) homens e mulheres envelhecem. Quanto mais velhos, mais chances de não ter filhos ou de ter filhos não saudáveis, mesmo que o parceiro seja jovem.

Depois de escarafunchar o assunto, me peguei pensando (não sei se corretamente) que as pessoas deviam se preocupar menos talvez com a capacidade de ter filho (já somos 7 BILHÕES, adotem) e mais com saber envelhecer (vivemos/envelhecemos cada vez mais).  Vivemos tanto hoje que é visível a nossa falta de lugar no mundo. Esse lugar precisamos conceber e construir.

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A sociedade da punheta - texto sem imagens


por Tággidi Ribeiro

Ouço amiúde por aí que somos uma sociedade sexualizada demais e que deveríamos pensar em coisas mais importantes. Toda vez que me deparo com esse tipo de discurso, penso: sexo está na ordem do ócio, do que se faz no ócio e tem como objetivo primeiro e fundamental o prazer e, portanto, a felicidade. Que poderia haver de mais importante? E pra quem diz que somos sexualizados demais, pergunto: a gente mais trabalha ou mais faz sexo?

No geral, definitivamente, trabalhamos muito mais que fazemos sexo. Aliás, trabalhamos MUITO mais. Fazer sexo, mesmo para casais, vem depois de trabalhar, administrar a casa (ou seja, trabalhar), descansar (para poder trabalhar) e ter alguma vida social (amigos e família). Ocorre que sexo, assim como comida, é uma necessidade cotidiana. Não é porque julgamos que sexo seja errado, feio ou sujo ou que existam "coisas mais importantes" que nosso corpo deixa de sentir a falta do ato. Podemos soterrar nosso desejo sob camadas de moralismo, religião, psicologia chinfrim, mas ele fica ali como hemorragia interna. O desejo sexual pede a saciedade mesmo para aqueles que sentem menos desejo (assim como a inteligência, o desejo pode ser mais ou menos presente).

Esse desejo, naturalmente existente em nós, também é excitado todo o tempo. A televisão, a internet, o cinema - as diversas mídias - falam de sexo o tempo todo, nos provocam com a imagem de corpos atraentes. Sexo vende (porque é o que queremos). Mas não compramos sexo. Compramos a promessa de satisfação sexual, a qual só pode vir numa embalagem bonita. As mídias reduziram nossos sentidos a um só: a visão. Julgamos que a realização sexual só pode se dar de forma plena em uma determinada forma. Assim, produz-se a infelicidade. E a infelicidade é eficiente. 

No fim das contas, sexo na mídia só vende como vende porque somos sexualmente infelizes. Enquanto queremos ser ou ter o corpo que nos dizem que é belo e desejável e nos desgostamos com os corpos possíveis, não menos belos, mas outros, com seu cheiro, toque, movimento, é que ficamos vulneráveis à publicidade que diz que tal carro ou perfume nos vai dar aquela mulher; que a cirurgia ou o hidratante nos vai fazer ser aquela mulher; e como o carro ou a cirurgia não trazem junto essa mulher, compramos a revista em que ela está.

Assim é que a sociedade contemporânea tornou-se a sociedade da punheta: trabalhando muito e pagando a ilusão da possibilidade de satisfação sexual criada pelo apelo visual de corpos jovens e belos. Tanto homens quanto mulheres perdem nessa jogada, sem dúvida.

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Deu no New York Times: mulheres superam homens no teste de QI!


por Tággidi Ribeiro

Bem, na verdade, não. O New York Times ignorou a notícia, sem dúvida histórica, de que as mulheres, pela primeira vez, tiveram nota mais alta que os homens no famosíssimo teste de QI (Quociente de Inteligência).

O teste de QI, como o conhecemos hoje (alvo de muitas críticas), é aplicado há mais ou menos cem anos e sempre foi usado como prova de que mulheres são menos inteligentes que homens. Durante um século homens superaram mulheres nesse teste, que mede basicamente a capacidade de raciocínio lógico de uma pessoa.

Inteligência masculina?
Mulheres, como se costuma ouvir por aí, têm maior inteligência emocional, sabendo lidar com, ensinar e cuidar de melhor forma que os homens, tidos como mais "racionais". Às mulheres caberia, portanto, segundo o senso comum e também uma parte da ciência, todo um entendimento "emotivo" do mundo.

Poderíamos, pela novidade do resultado do teste de QI, influir que a mulher é tão racional quanto o homem, ou talvez até mais que ele? Ou, ao menos, que possui habilidades lógico-cognitivas semelhantes ou mesmo superiores às de seus pares XY?

Podemos responder afirmativamente a essas questões, se sabemos que mulheres só começaram a ser aceitas em universidades há pouco mais de cem anos e que, durante quase toda a história da humanidade letrada, mulheres foram proibidas de chegar perto do conhecimento tido como masculino, ou seja, tudo que não tem relação com a limpeza da casa, a criação primeira dos filhos (alimentação e alfabetização) e a manutenção da beleza.

Contudo, nosso mundo não está preparado para tanta novidade. Em vez de admitir que mulheres, ainda que tenham menos neurônios que homens, pensam tanto quanto eles se expostas ao conhecimento, à educação, nosso mundo preferiu achar outras respostas, como 'a complexa vida da mulher moderna'.

Daí eu pergunto: quem parece lógico e racional nessa história? E respondo: não este nosso tempo - e suas conclusões.

Na verdade, praticamente tudo o que foi dito acima pode ser desconsiderado. A discussão sobre quem é mais inteligente é, no fundo, pouco inteligente. É necessário lembrar, sempre, claro, que mulheres foram PROIBIDAS de estudar durante milênios. Mas é necessário, sobretudo, denunciar o silenciamento do gênio feminino na história. Temos a impressão de que somente os homens pensaram e construíram este mundo quando, na verdade, existe um processo deliberado de anulação da figura feminina como agente transformador. Ou vai dizer que você sabia que a equipe de cientistas que anunciou recentemente a descoberta do Bóson de Higgs foi liderada por uma mulher?

Eu não sou uma mulher diferente

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Que educação dar a seu filho?


por Tággidi Ribeiro


Esse post não diz como vocês (homens e mulheres) devem educar seus filhos. Mas certamente apontará como não educar.  

Para começar, quero me dirigir às mulheres (homens, continuem a leitura, vocês são a contrapartida das lembranças que se sucederão). Pergunto: mulheres, quando vocês sofreram as primeiras investidas masculinas? Quando foram desrespeitadas - tiveram seus corpos invadidos de alguma forma - pela primeira vez?

Eu me lembro de que na infância eu já era assediada por seres do sexo masculino. Eles eram tão criança quanto eu e, por isso, durante grande parte da minha vida, atribuí o comportamento agressivo dos meninos nessa fase específica da vida como coisa de criança, de gente que ainda não aprendeu a se comportar.

Hoje vejo o erro desse ângulo de visão. Na verdade, aqueles meninos já haviam aprendido a se comportar e o que faziam era fruto de seu aprendizado de como tratar uma menina. E o que eles faziam? Bem, me lembro de diversas situações, todas análogas às do mundo adulto. De estar num clube, por exemplo, e me passarem a mão - não um fdp pedófilo, mas uma criança da minha idade (6, 7 anos). Lembro-me de que muitas vezes eu e minhas colegas tivemos nossas saias levantadas, quando os meninos não davam um jeitinho de espiar nossas calcinhas. Lembro-me de ser chamada de gostosa por um menino da minha turma que me olhava como, descobri depois, um ator de filme pornô chinfrim olhava pra mulher que ele ia comer - e nós tínhamos só dez anos. 


Ainda aos dez, cansada de ser assediada por esse mesmo colega e completamente sozinha nisso porque diziam os adultos que se ele fazia era porque eu dava corda, porque eu não me dava ao respeito (hein?), resolvi pegar ele de porrada. Passei uma aula inteira mandando bilhetes em que dizia que ia acabar com ele e um amiguinho dele era quem respondia, dizendo que era o outro quem ia acabar comigo. Eu o esperei no fim da aula e ele tinha tanto medo que não fez nada. Eu o chacoalhava pelos braços e gritava: "Você ainda vai fazer isso comigo?" Ele não conseguia responder porque, acredito, jamais imaginou que uma menina pudesse se comportar daquela forma. 

Enfim, como eu dizia, erramos ao querer encerrar esse tipo de falta de respeito na infância, na "falta de educação" que consideramos normal nessa etapa da vida. Também não podemos julgar que tal comportamento é natural, sendo expressão da sexualidade infantil. Com o tempo descobri, acompanhando o crescimento de meninos muito próximos a mim, que eles são ensinados a desrespeitar as meninas - nas rodinhas masculinas, homens em formação ouvem seus exemplos (pais, tios, vizinhos) falarem das mulheres como corpos a serem devassados, importando ou não sua vontade (como espiar, como encarar, como roçar, como forçar). Ora, aprendemos sobretudo por imitação. Penso que a TV ou a internet sejam influências menos relevantes que as falas não censuradas dos heróis de nossa infância.

Lembro-me de que um menino bem próximo, de "dentro de casa", um dia enfiou a mão no meio das minhas pernas, rindo, na frente de todo mundo, e eu gritei com todas as minhas forças. Tínhamos seis anos. O que EU ouvi dos adultos em volta?

- Deixa de escândalo.



 Não é "bonitinho".

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Sou gay, mas sou honesto


por Tággidi Ribeiro



"Você é gorda, mas é limpinha. Você é feia, mas é de graça." Lembro-me de que, na época da faculdade (lá se vão quase dez anos), eu ria muito com Dalton Trevisan, autor dessa fala. Não é que tenha visto graça algum dia em destratar uma mulher por ser gorda ou feia - era o absurdo, a cócega nervosa do absurdo da violência verbal - que me fazia rir. Posto isso, digo o que penso: ser gord@ ou ser fei@ não é demérito, de forma alguma. 

E ser gay, é? Para mim, é claro que não. Não há demérito em ser gay, negro, velho, mulher. Muita gente pode concordar comigo, afirmar que ninguém é menos por pertencer a essas categorias, mas será que, lá no fundo, não compartilha dos mesmos sentimentos/pensamentos do "Não tenho preconceito! (mas...)!"? Ou do "Não tenho preconceito, desde que seja..."?

Pergunto porque é comum ouvir gente dizendo: "O cara é gay, mas parece homem, aí eu respeito". Ou: "Tudo bem ser gay, desde que eu não saiba." Muito já se disse também sobre negros: "É preto, mas é do bem". "É preto, mas é honesto." (Na época em que eu era criança, era frase corrente, e era tida como elogio. É por essas e outras que eu acredito em mudanças.)

E chegamos ao século XXI. Da mesma forma que negros eram desculpados por sua cor e se desculpavam por tê-la, vemos homossexuais desculpados e desculpando-se. Quem desculpa os homossexuais? Para quem os homossexuais pedem desculpas? Respostas respectivas: quem não deve; para quem não devem.

Homossexuais são 'desculpados' por uma sociedade heteronormativa 'descolada', 'de  bem', que aceita quem se comporta 'bem'. Ser gay pode, mas não pode parecer gay e precisa ter emprego estável, parceiro fixo também discreto etc. Homossexuais se desculpam diante desse conjunto heteronormativo dizendo: "Sou gay, mas sou honesto, sou trabalhador, pago minhas contas, sou discreto, não sou promíscuo". Quer dizer: um homossexual só pode escolher a quem devotar seu afeto e/ou seu desejo sexual SE preencher tais requisitos.

Agora, deixo que vocês me digam: como mulheres e velhos, por exemplo, se desculpam hoje? Como buscam respeito nesse nosso tempo, na nossa sociedade?




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A mídia mascara crimes de ódio


por Tággidi Ribeiro
 

Você não sabe nada sobre o massacre de Realengo.

Você ouviu dizer que um maluco brasileiro qualquer resolveu imitar os malucos dos Estados Unidos e saiu atirando contra alunos de uma escola do Rio de Janeiro, no dia sete de abril do ano passado. Você estava cansad@ desse tipo de história e da falsa comoção midiática que ela gera, da dor de gente real transformada em espetáculo. Você, supondo que se tratava mesmo de um cara que surtou, tomou a história como mais uma tragédia e seguiu a sua vida, oras.

Mas, como eu disse, você não sabe nada sobre Realengo. Então, vamos esclarecer as coisas, porque eu tenho certeza de que a sua perspectiva sobre este e sobre alguns dos últimos massacres em escolas vai mudar - e você vai ficar mais atento. O que aconteceu na Escola Municipal Tasso da Silveira foi um crime de ódio calculado, planejado durante meses e que contou com o apoio de um grupo de incitadores do ódio.

Se vemos Wellington Menezes de Oliveira falando em qualquer dos muitos vídeos que circulam na net, concluímos que ele é um louco. Se lemos sua carta de suicídio, sabemos que ele é um louco. Contudo, só o fazemos porque ele matou doze crianças, pois que o discurso de Wellington é um discurso estabelecido em inúmeras seitas e religiões, que pregam a eliminação de todo mal. Infelizmente, o mal maior em muitas religiões é a mulher.

Então, retifico: Wellington não matou doze crianças - matou dez meninas e dois meninos. Segundo testemunhos de quem presenciou o massacre, Wellington feria meninos e executava meninas, a quem chamava de 'seres impuros'. A Lola Aronovich explicou tudo muito bem neste post.

Agora você sabe, finalmente, algo sobre Realengo e poderá ficar mais atento a crimes semelhantes. Portanto, quando vir notícias como essa, desconfie. Se você ler mais um ou dois artigos sobre o mesmo assunto, poderá pensar que os gêneros não evidenciados (ou deliberadamente trocados) pela imprensa, assim como as explicações dadas para os assassinatos de mulheres,  tentam encobrir o nível da violência a que estão expostas, tentam mascarar os crimes de ódio que as vitimizam.

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Marilyn Monroe obscenamente humana

por Tággidi Ribeiro
 
     

Assisti a muitos filmes de Marilyn Monroe e percebi sua fragilidade como atriz. Em All about Eve, no início de sua carreira, Marilyn interpreta o papel de uma jovem atriz em busca da fama, muito insegura e bonita, sensual, ingênua e algo burra. Ironicamente, a loira, durante quase toda sua carreira, fez esse tipo de personagem sexy e bobinha. Mesmo em The Misfits, em que aparece num papel dramático.

Com mais tempo, percebi que talvez não fosse o talento de Marilyn o problema, mas o mercado que  criou o estereótipo da mulher loura, sensual e burra. Hollywood fez de Marilyn Monroe a mulher mais sexy do século XX neglicenciando sua humanidade, inteligência, sensibilidade. Marilyn gostava de ler, de escrever. Há quem diga que poderia ter sido uma grande escritora. Dizia coisas de poeta, como poucas vezes vemos não poetas dizerem.

Dogs never bite me. Just humans. Cães nunca me morderam. Só pessoas.
Eu sei muito bem que a humanização de Marilyn é também um produto da mesma indústria que a objetificou. Em geral, depois que grandes astros morrem, resulta numa forma eficiente de vendê-los. Contudo, esses seres tão distantes e próximos que se movem diante de nós na tela gigante do cinema são obscenamente humanos. Por isso, penso na menina Norma Jean antes de se tornar Marilyn Monroe. E no ser humano que ela não pôde ser depois.

Penso em Norma Jean como a multidão de meninas seduzidas pelo dinheiro 'fácil' das fotos eróticas, pelas promessas de se tornar modelo ou atriz. As moças bonitas são instadas a se despir (não se diz tão cotidianamente: "O que é bonito é pra se mostrar"?). E elas se mostram no dia a dia, nos bordéis da esquina, nas capas da Playboy, como panicats, BBBs; elas 'estrelam' quadros do Zorra Total, viram figurantes no programa do Sílvio Santos. Comumente, tornam-se garotas de programa, atrizes de filme pornô e/ou são compradas por homens endinheirados. Comumente, também, garotas que se despem (instadas por toda a sociedade) são automaticamente tachadas de putas e segregadas - deixam de ser mulheres 'dignas', tornam-se 'aquilo', o objeto, e não podem voltar atrás, pois jamais serão 'redimidas'. É como se uma sociedade inteira fizesse o papel do conquistador barato que faz a virgem 'ceder' para depois desmoralizá-la publicamente. É perverso.

Essas mulheres todas não são Scarlett Johasson, que se ressente de ser mais vista como sexy que como atriz de talento (notem, no artigo linkado, que a foto escolhida tem por objetivo depreciar a fala de Scarlett). Essas mulheres não são Scarlett ou Marilyn - nem voz elas têm. E elas morrem assim, e os jornais e a opinião pública absolvem seus assassinos. Marilyn fala um pouco por todas elas, mas ainda não é/foi o suficiente. O maior símbolo sexual do cinema morreu sem o reconhecimento daquilo que tentava, obscenamente, lembrar a todo mundo.
I have feelings too. I am still human. Eu também tenho sentimentos. Eu ainda sou humana.

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Eu quero os homens que querem sim


por Tággidi Ribeiro 

Tem uma música do Itamar Assumpção e da Alice Ruiz que eu adoro. Chama-se “Vou tirar você do dicionário”. Na versão da Zélia Duncan tem um adendo que é genial: “Eu quero as mulheres que dizem sim/E quem não tem vergonha de ser assim”.

Eu sou uma mulher que diz sim. Sou fácil. Muito fácil mesmo. Sou do tipo que diz sim sem o homem precisar fazer muita coisa – na verdade, ele não precisa fazer nada fora existir, ser do jeito que é e eu me interessar por ele. E ainda sou do tipo que “dá em cima”: flerto, pergunto se quer ficar comigo, chamo pra sair. Não insisto, porque respeito a vontade do outro. Pra mim, não é não. 'Não' não me encoraja, me avisa que devo parar, mesmo que eu queira o contrário.

Posto isso, vou contar uma historinha.

Há mais ou menos três anos, conheci um homem que me chamou a atenção imediatamente. Eu o achei bonito, de sorriso e voz. Ele correspondeu. Me convidou para sair, fomos tomar uma cerveja, conversamos durante um bom tempo. Nos beijamos.

Só.

Quando nos beijamos, algo não aconteceu. Não aconteceu a ‘química’, não aconteceu a vontade de ir além. Nem de continuar o beijo. Conversamos mais um pouco e eu disse que iria embora.

Aí começa a novela. Mas acalmem-se, porque não é drama.

Eu disse que iria embora e ele perguntou por que. Estava bom, não estava? Eu disse que a companhia dele era agradável, mas que eu queria ir para minha casa. Sem ele. À minha frente havia agora um homem incrédulo. Lembro que me disse: “Eu sei o que eu senti e o que você sentiu”. Ahã... Senta lá, Cláudia.

É muita pretensão querer ter certeza do sentimento do outro. Mas eu entendo a pretensão de um homem acostumado a ver mulheres negando o que sentem, por medo do que ‘vão pensar’, medo do que ‘ele vai pensar’. É pensamento que faz sentido num mundo em que as mulheres não têm a liberdade de dizer o que querem, de declarar seu desejo. Ainda hoje, há homens e mulheres que acham que não há nada mais ‘feio’, nem que ‘desvaloriza’ mais uma mulher que declarar, assumir o próprio desejo.

Bem, continuando a narrativa: eu disse que eu era uma mulher fácil e que se eu estava dizendo ‘não’ a ele era porque, oras, eu não queria mesmo. Ele fingiu entender e passou meses tentando me conquistar. Como se eu fosse um país.

Não deu certo, claro.

Homens que esperam receber um 'não' para querer de verdade, apaixonar-se ou valorizar uma mulher são a coisa mais broxante que existe. 

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Quero ver você, Marieta Severo!


por Tággidi Ribeiro


Em fevereiro deste ano, 2 revistas do grupo Abril estamparam fotos de capa lindas de 2 personalidades conhecidas e respeitadíssimas do meio artístico. Marieta Severo foi capa da LOLA Magazine. Chico Buarque foi capa da ALFA Homem. Chico e Marieta foram casados durante uns 30 anos e há mais ou menos 20 estão separados.

Acho que as imagens falam por si só, mas não custa chamar a atenção para algumas 'coisas': 


1) Vamos combinar, gente, que a Marieta Severo está MUITO mais jovem, bonita e desejável que o Chico Buarque (nas fotos, ao menos). No entanto, é ele que tem 'fama de galã'. Ela é a mulher que 'esculpe o próprio tempo'. Lemos nas entrelinhas: ele é desejável; ela tem de lidar com a idade. Chico Buarque e Marieta Severo devem ter a mesma idade, ali perto dos 70. Ele namora uma 'menina' de 28 anos; ela é casada com um homem que parece mais velho. Muita gente naturaliza isso: 'mulheres mais novas procuram homens mais velhos; homens querem sempre mulheres mais novas'. Eu só não dou o meu mindinho pra dizer que isso é cultural porque meu mindinho é muito precioso. Mas aposto que, vendo nas novelas, nos filmes, nas propagandas homens mais velhos com mulheres mais novas, muitos de nós passamos a crer que é assim, sempre foi e sempre será. Só que não. O que acontece é que pares românticos como Antonio Fagundes e Camila Pitanga, José Mayer e Taís Araújo vão ensinando às meninas e mulheres quais homens podem ser seus parceiros; e um Tarcísio Meira com quase 80 anos fazendo o garanhão e ficando com Ângela Vieira, Glória Pires e Camila Pitanga (!) numa mesma produção ensinam até quando um homem pode ser sexualmente desejável. O mesmo tratamento a mídia não dá às mulheres com mais de 60 anos. Por isso, os homens em geral não as veem como possíveis parceiras sexuais ou afetivas. E, no geral, pensamos que elas já passaram da idade de serem sexualmente desejáveis.

2) Também acho interessante os nomes das revistas e as formas de se venderem. LOLA, para as mulheres, me remete a uma Lolita que cresceu - lembra o tempo. A revista se diz 'instigante, irreverente, inovadora', feita para 'uma mulher que não tem tempo a perder' (bingo!). E quem é que tem? ALFA, para os homens, remete a poder. 'Inteligência; atitude; elegância; boa vida' têm/querem os homens, segundo a revista. E quem disse que as mulheres não querem? Que diferença no trato, não?

3) Claro que tanto a foto do Chico quanto a da Marieta possuem tratamento de imagem. As revistas não vivem mais sem photoshop, é fato. Mas como eu queria ver a Marieta Severo na foto de capa sem esse tratamento de imagem que a deixa com uma pele que, todo mundo sabe, é de mentira! Como eu queria ver as rugas de uma mulher serem tratadas com o mesmo respeito que as rugas dos homens! Mas não: toda vez que as mulheres aparecem, assim como o Chico Buarque, flácidas, enrugadas, velhas é num contexto desrespeitoso. A beleza da idade, das marcas, pode existir tanto para homens quanto para mulheres. Não só os homens são lindos sem botox, mostrando as marcas do tempo.

Beleza com marcas de expressão, olheiras, bigode chinês, poros abertos, flacidez.
Sem botox. As mulheres também podem.

Né, Simone?

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Como o ocidente matou Amina Filali


por Tággidi Ribeiro

Mulher carrega foto de Amina Filali em protesto

O ocidente deplorou a morte de Amina Filali, de apenas 16 anos. Para quem não sabe da história, a adolescente marroquina cometeu suicídio por ter sido obrigada a casar com seu estuprador (o nome dele não foi divulgado). No Marrocos é previsto em lei que homens deixem de cumprir pena pelo crime de estupro casando-se com suas vítimas. O estuprador de Amina achou por bem, então, casar-se com ela, em vez de ser condenado a até vinte anos de prisão. A família da moça concordou. Ela não. Infelizmente, Amina não era dona do seu corpo, nem de sua vontade

Durante cinco meses de casamento, Amina foi constantemente agredida verbal e fisicamente, e repetidamente estuprada. Tentou voltar para a família, que não a recebeu. Sem saída para o inferno que seria sua vida,  a adolescente tomou veneno de rato. Amina morreu no meio da rua – quando soube que ela havia ingerido o veneno, seu “marido” a arrastou pelos cabelos em via pública.

O ocidente, como dito antes, deplorou a morte da adolescente Amina Filali, em março deste ano. A comunidade internacional se mobilizou pela revogação da lei que obriga mulheres estupradas a casarem-se com os homens que as estupraram – o que ainda não aconteceu. Mesmo aqui no Brasil, onde em geral as vítimas de estupro enfrentam a desconfiança da opinião pública, Amina despertou compaixão.

Sei que muita gente deve ter falado ou pensado sobre a condição das mulheres orientais – sobre o quanto elas ainda sofrem com a falta de liberdade. Contudo, o pano de fundo da situação das mulheres orientais não difere do nosso e o fato do ocidente ter olhado com respeito para essa morte não o torna menos responsável por ela. Nós também matamos Amina Filali.

Nós matamos Amina Filali porque ainda julgamos que uma mulher só tem valor se for sexualmente pouco ativa. Para os marroquinos, a questão é simples: se a mulher praticou sexo antes do casamento, consentido ou não, ela nada mais vale. Por isso a lei faculta ao estuprador (com quem a mulher não consentiu sexo) casar-se com sua vítima – só ele pode redimi-la e ampará-la, já que nenhum outro homem quereria para si uma mulher que já foi de outro. Mais flexíveis que os orientais, permitimos às moças certa liberdade sexual: ter alguns parceiros/namorados antes do casamento é considerado normal. Ter muitos parceiros, não. Mulheres de muitos parceiros são preteridas para o casamento, sabemos muito bem disso. Então ficamos assim: no oriente, uma mulher de valor deve ter apenas um único homem em sua vida; no ocidente, uma mulher de valor deve ter, no máximo, cinco homens. Lembro a todos que, até os anos 1960, a valoração da mulher a leste e a oeste era dada pela mesma marca de um só parceiro sexual para a vida toda. E pergunto: quando vamos chegar à conclusão incrível de que essa distinção ridícula não faz sentido?

Por não ter resposta, reafirmo: nós também matamos Amina Filali. Enquanto medirmos o valor de uma mulher por quantos parceiros ela teve ao longo de sua vida, continuaremos matando e estuprando mulheres. Enquanto as mulheres não forem donas de seu corpo e sua vontade, continuaremos. Enquanto não assumirmos que as mulheres são seres humanos e não propriedades, continuaremos estuprando e matando Amina Filali.   
Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente

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Memórias machistas


por Tággidi Ribeiro

Há relativamente pouco tempo, eu comecei a olhar de forma muito diferente para as  mulheres. Eu havia desde sempre sido um tanto quanto antipática a elas, ao passo que me dava muito bem com os homens, minhas companhias preferidas em todas as ocasiões. Havia, na minha trajetória, feito boas amigas, mas poucas. Havia conhecido mulheres em minha opinião interessantes, mas poucas. Tinha, no geral, pouco apreço pelo meu próprio gênero, que eu julgava dedicado em demasia à conquista da beleza e do casamento, invejoso, dado a picuinhas.

Competição feminina como mecanismo
de manutenção do patriarcado
Que haja mulheres que se encaixem nesse estereótipo não é de estranhar. Como não é de estranhar que homens se encaixem no estereótipo cerveja, futebol e mulher (que, aliás, não define o que são, mas seus interesses comezinhos, e os reduz a seres desprovidos de subjetividade, logo, pouco humanos). O fato era que eu aceitava conviver com o estereótipo masculino e rejeitava o feminino, em relação ao qual me sentia completamente deslocada.

A questão vinha de criança. Filha mais velha, tendo um irmão menor, vi a hierarquia etária ser subjugada à hierarquia de gênero. Na minha memória, esse subjugo representou a primeira contradição do mundo adulto. O discurso de autoridade era muito forte: 'respeite os mais velhos' - e eu tendia a ser obediente. Mas quando esse discurso, com o qual eu havia concordado porque me parecera justo, deu lugar àquele da constituição de gênero (embora mais novo, meu irmão tinha mais liberdade que eu por ser meninO), eu protestei.

Sei que a contradição aqui parece ser a minha. Afinal, tal experienciamento do machismo tão cedo poderia ter facilmente me levado ao enfrentamento desse status quo e à rivalização com o sexo oposto, arbitrariamente posto acima do meu. O enfrentamento se deu de fato: contestava, sempre, desobedecia. Mas em vez de tomar os homens como “inimigos”, tomei as mulheres. 

Consigo compreender o porquê: eram as mulheres que me instavam, pois que responsáveis por minha educação, a ser como elas. Aprender a cuidar da casa, ter bons modos, preservar a sexualidade foram todos ensinamentos femininos. Eram ensinamentos limitadores, me restringiam ao espaço da casa e esse era o espaço que não me interessava, não só ele, pelo menos. Eu queria mais era saber do mundo.

“Isso é o que eu vestia quando 
eu ‘Estava pedindo...’”
Bem, o mundo aconteceu comigo. Com o passar do mundo, como disse, comecei a olhar as mulheres de outra forma. Fui sabendo, conhecendo a História e histórias que, achei, fossem só minhas: histórias de abuso, de desrespeito - de violência em suas várias formas. Eu, que logo no início da adolescência me condoí com as desigualdades sociais, compreendi e rejeitei o preconceito contra negros e homossexuais, que deplorei a desproteção das crianças – eu não enxergava meu próprio rabo.

O espelho e a reflexão me reconciliaram com meu gênero. Pude compreender a minha pregressa condição de ‘antipática’ ao mesmo tempo em que entendia a mesma condição nas outras mulheres – é sempre mais fácil subjugar iguais se os fazemos julgar que não o são. Pude compreender as mulheres da minha infância e suas agruras, que eu ignorava.

Interessante é que só depois de me livrar da culpa, da ideia de ser uma mulher indigna e suja (detalhe cruel e, agora sei, comum às vítimas: era eu quem carregava a mancha pelos abusos sofridos, ainda criança e pré-adolescente, não os meus agressores), pude perceber melhor o desespero do meu gênero: o de receber de volta o silêncio que permite a violência.

Daí, o que precisei fazer foi quebrar o meu próprio silêncio.