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Diferenças entre os cérebros de homens e mulheres

por Tággidi Ribeiro


O vídeo abaixo traz as falas da neurocientista Suzana Herculano-Houzel sobre as diferenças entre os cérebros de homens e mulheres cis e heterossexuais, principalmente. Esse vídeo é muito interessante por diversas questões, mas sobretudo, a meu ver, por trazer uma mini-história do discurso desenvolvido sobre esse tema. A neurocientista nem imagina que as pesquisas às quais se refere dão suporte científico ao que o feminismo vem afirmando desde quando não existia feminismo e erra feio ao supor que feminismo é o contrário de machismo - tudo bem, gostamos dela mesmo assim. Atenção: assista ao vídeo antes de continuar a ler o post.


E aí, gostaram? Olha, eu perguntaria à Suzana se a capacidade masculina de responder a estímulos sexuais implica maior desejo e/ou intensidade sexual. Perguntaria se essa capacidade determinaria a cultura ou seria culturalmente determinada. Perguntaria como foram realizadas as pesquisas de que ela fala - quantos homens e quantas mulheres, de que idade, classe social, nacionalidade; que tarefas essas pessoas executaram ou exatamente a que estímulos foram expostas. Quer dizer, eu pediria a referência d@s teses/estudos, né? Ou uma cópia - rs. Também perguntaria se seria possível afirmar que os dados obtidos valem universalmente e atemporalmente considerando, claro, a idade de nossa espécie. Louca ou burra ao questionar isso? (Questão interna ainda sem resposta). Por fim perguntaria, desde que se considera a condição homossexual uma condição natural, definida na gestação e de conhecida localização no cérebro, se seria possível extirpar a homossexualidade - essa pergunta é detestável, é dolorida e é melhor pensarmos sobre ela e sobre as implicações das respostas antes que os grupos de ódio o façam.

Termino reafirmando o compromisso do feminismo com a igualdade e fazendo coro ao que a Suzana (e outras tantas mulheres que não se consideram feministas) expõe: são as expectativas depositadas sobre nós que terminam por nos definir a todos, homens e mulheres cis e trans. Podemos todos ser racionais ou irracionais, sensíveis, irascíveis, criativos e, ainda, gostar de rosa e/ou azul. Podemos ser matemáticos, empresários, artistas, políticos ou cientistas. E, mesmo que não pudéssemos, mesmo que houvesse diferenças profundas entre gêneros, raças e culturas, ainda assim caberia apenas um comportamento ético: o do respeito, da compreensão, do esforço no sentido da convivência pacífica justa e da promoção da igualdade.


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Ainda em tempo de Franciscos e Felicianos

por Tággidi Ribeiro

Vale a pena ler o texto abaixo. É a resposta de Matt Dillahunt, do Atheist Experience, a uma de suas espectadoras cristãs. Todos sabem que sou ateia, mas definitivamente não importa se deus (ou deuses) existe(m) ou não. Provar isso não é uma bandeira minha. O que nos incomoda a todos, inclusive a muitos dos que creem em um deus, é a sanha totalitária de muitas religiões, que tentam nos coagir a viver sob seus dogmas. Em tempos de Franciscos e Felicianos, que reservam à mulher o mesmo espaço já conhecido da casa, o mesmo lugar já conhecido - abaixo do homem, em todas as instâncias da vida; que num mundo de 7 BILHÕES de pessoas insuflam o ódio aos homossexuais dizendo que por causa deles a humanidade corre perigo; que tentam resgatar antigos preconceitos contra negros, precisamos nos posicionar incansavelmente pelo direito à dissidência. Por que não poderíamos nos haver com deus depois? Não nos foi reservado o livre arbítrio? Enfim, espero que a fala abaixo os faça refletir sobre a minha e sobre a sua liberdade. O vídeo está no final do post. E aqui tem também o ótimo post da Mazu sobre o (in)Feliciano.

"O que ela (espectadora) escreveu foi: 'Eu não quero viver em um mundo onde os poderosos impõem suas más intenções às massas e não encaram nenhum tipo de consequência. Sem Deus, os homens escapam muito facilmente da justiça humana. Eu não engulo com isso.' Ela também abordou a pedofilia, pelo que percebi, porque alguém falou sobre padres pedófilos para ela. 'Então, você sabe, pedofilia é imoral mas há pedófilos que escapam da justiça humana e portanto é bom saber que a justiça de Deus vai eventualmente pegá-los.' Essa é a base do porquê ela acredita, então aqui está a minha resposta: O mundo onde você quer viver não tem base no mundo onde você de fato vive. Se essa é sua principal objeção às visões de mundo que não incluem justiça cósmica, me perdoe o comentário condescendente, você realmente não entende do que você está falando. A vida não é justa e o desejo de justiça que você expressa é um pensamento-chave da maior parte das religiões.

Todos sabemos que o bem muitas vezes não é premiado e o mal segue impune, então os que esperam justiça criaram uma saída para não se atolar em depressão e evitar encarar a aspereza de uma realidade indiferente. Seja céu e inferno, ou Karma ditando infinitas reencarnações, todas as religiões servem ao mesmo propósito. Alguns de nós preferem encarar a realidade, alguns de nós percebem que não há uma boa razão para crer que o universo não seja nada senão indiferente à nossa existência e aos nossos conceitos de bem e mal. Algumas pessoas percebem que lidar com a realidade em termos 'reais' é a única forma de 'realmente' melhorar a situação.

A vida não é justa. E é de fato reconfortante pensar sobre isso. Se a vida fosse justa, isso seria dizer que você é merecedor das coisas ruins que acontecem com você. E aqueles que se beneficiam de más ações seriam iguais merecedores. Perceber que não há razão para esperar justiça é o que assegura fazer coisas que imponham justiça. Perceber que o bem não é sempre recompensado é o que nos guia a premiar o bem quando o vemos. Perceber que o mal não é sempre punido é o que nos guia a trabalhar juntos como sociedade cooperativa, lidando com nossos problemas coletiva mas também individualmente, de uma forma que encoraje mudanças reais e que, esperamos, minimize ações prejudiciais. Perceber que a justiça não é garantida nos permite apreciar quando ela se realiza e assegurar que se realize em uma base regular. Sua visão particular do conceito de 'deus de justiça' representa o máximo da irresponsabilidade e da injustiça.

A religião que você escolheu nos considera pecadores ao nascer, culpados antes de dar o primeiro suspiro, responsável por coisas que nunca fizemos. Essa religião oferece perdão instantâneo e não merecido para os crimes mais horríveis e pune com pena eterna pessoas cujo único crime é a descrença. 
Somos todos humanos.
Essa religião defende a escravidão, deprecia mulheres, amaldiçoa homossexuais, ordena o apedrejamento de crianças desobedientes, sanciona guerras e extermínios, desculpa sacrifício humano e envenena toda mente que toca. Ela inclui somente um crime imperdoável: não crer. Isso é justo? A 'justiça' que você admira não é justiça, é decreto divino, é arbitrária, caprichosa e, no fim das contas, injusta e imoral.

Sim, eu sei que há pedófilos por aí que escaparam de nossa justiça falha. Você percebe que o seu sistema diz que todos eles são elegíveis a um paraíso eterno? Como isso redireciona sua objeção? Sob as leis do cristianismo, o pedófilo que escapou da justiça aqui pode também escapar da justiça definitiva. Sob as leis do cristianismo, ele talvez viva eternamente no paraíso, enquanto alguém que passou a vida toda fazendo o bem, ajudando os outros e contribuindo de maneira positiva, na única vida que temos certeza que teremos, no final é julgado indigno desse prêmio. Não se engane: você não aceitou um senso cósmico de justiça que alivia o problema. Você aceitou um que alivia o problema para você. É uma justificativa egoísta que não demonstra preocupação com questões de justiça. É o pico da arrogância e do seu desejo de se sentir especial porque 'alguém lá em cima' acha que você é especial.

De acordo com o paradigma que você defende, 'ele' acha que qualquer um que o adore é especial, sem preocupação com justiça ou caráter. Vá, leia Romanos. Ninguém fala desse ponto mais claramente que Paulo. A Lei foi estabelecida com pleno conhecimento de que ninguém seria apto a cumpri-la. Ela foi estabelecida para demonstrar essa incapacidade e nos trazer a danação depois. E então se estabeleceu um  escape para que algumas passassem, independentemente de suas posturas em relação a essa Lei. Sua religião a fez escrava. Fez com que não se preocupasse. Fez você apoiar a imoralidade e a injustiça, enquanto afirma que decretos arbitrários e escapes contam igualmente. É uma mentira repreensível, que a envenena e a impede de entender a realidade. Quando as grades caírem dos seus olhos como aconteceu com muitos de nós, estaremos aqui e você vai perceber que não está sozinha. E não tem culpa."

O que eu espero, do fundo do coração, é que, com deus ou sem deus, as pessoas se guiem por aquilo que abarca a todos: nossa condição humana e viva, igual em importância desde nosso primeiro até nosso último suspiro. Espero que deixemos de justificar, por deuses ou partidos, atrocidades - como fizemos tantas vezes ao longo do século XX, ao longo da história, e continuamos a fazer. 


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E se acontecer? O que fazer em caso de estupro: vítima, família, amigos, estuprador

por Tággidi Ribeiro



O projeto de lei 60/99, que determina atendimento multidisciplinar e imediato às vítimas de violência sexual, foi aprovado recentemente pela câmara dos deputados. Está à espera, agora, do nosso senado. Se esta casa também o aprovar, todos os hospitais públicos do país (ou conveniados ao SUS) serão obrigados a atender vítimas de violência sexual em suas especificidades: profilaxia para a gravidez e aids, atendimento psicológico, diagnóstico e tratamento de áreas lesionadas e preservação de material que possa configurar prova da agressão, além de encaminhamento à delegacia (especializada, se houver). 

Obviamente, esperamos que esse projeto seja aprovado e se torne realidade em nossos hospitais. Mas enquanto isso não acontece (sem contar que pode mesmo nem chegar a acontecer), o que podemos fazer caso sejamos vítimas de estupro?

Beber não é crime. Estupro é.
Em primeiro lugar, precisamos esclarecer que crime é esse. Estupro, para o senso comum, é o ato sexual com penetração praticado mediante violência física. Já para o direito penal brasileiro, o crime de estupro tem duas tipificações: 1) estupro: forçar alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso; 2) estupro de vulnerável: ter conjunção carnal ou praticar ato libidinoso com menor de 14 anos ou com alguém que, por qualquer motivo, não tenha o necessário discernimento para a prática ou não possa oferecer resistência.    

Dadas essas definições, precisamos atentar para duas coisas: 1) estupro não é só ato sexual com penetração; 2) a diferença entre os dois tipos é que, no primeiro caso, a vítima é/está consciente e autônoma; no segundo, ela não é/está autônoma e/ou consciente. Considera-se, aqui, a capacidade de tomada de decisão, de consentir ou não o ato sexual, e a chance de resistência por parte da vítima, caso não o consinta. Para exemplificar: se nosso chefe nos coagiu a fazer sexo ameaçando-nos de difamação, ele cometeu estupro; se ele nos embriagou e nos deixou inconscientes, ele cometeu estupro de vulnerável.

Em qualquer situação, a primeira coisa a fazer é ter uma certeza: a culpa não foi nossa. Não foi a nossa saia, nem o decote, nem a bebedeira, nem o 'não' que 'deveríamos' ter gritado, mas não conseguimos. A culpa do estupro é do estuprador. Só dele - seja ele desconhecido ou amigo, namorado, marido, pai. Digo isso porque é dessa certeza que vamos precisar para denunciar o criminoso (saiba como) e também para responder às desconfianças e mesmo acusações que deverão recair sobre nós. Se houver como, se nos sentirmos fortes para isso, se nos lembrarmos... podemos guardar provas, materiais ou não: tirar fotos, fazer vídeos, gravar a fala, guardar alguma característica peculiar do estuprador (caso seja desconhecido), placa de carro ou mesmo pelos que porventura fiquem em nós, para exame de DNA. É imprescindível ir ao hospital o mais rápido possível - nada de tomar banho, mesmo que queiramos mais que tudo: é imprescindível fazer profilaxia anti-HIV e da gravidez e isso é mais importante que tentar preservar provas, como a presença de sêmen ou lesões corporais. 

Enfrentar o mundo: a dor, a culpa, a decisão, o hospital, a possibilidade de ficar grávida ou de contrair qualquer DST, o medo, a delegacia, o possível despreparo dos profissionais - vamos precisar de suporte. Não podemos ter vergonha (a culpa não é nossa!) de contar e pedir ajuda aos nossos pais e amigos, porque estaremos apenas começando.

Pais, parentes e amigos de prováveis vítimas de estupro (que somos todas nós, mulheres de qualquer idade, cis e trans): o próximo post vai falar de vocês.  



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A família ameaçada por sua santidade

por Tággidi Ribeiro



"A família é sagrada. Lutamos para proteger a família." Esse é o discurso da Igreja Católica e das igrejas evangélicas ao condenar a homossexualidade e o feminismo. De fato, homossexualidade e feminismo são uma ameaça à única forma de família aceita por essas religiões, qual seja, a que conta um pai homem e uma mãe mulher, unidos sob quaisquer circunstâncias até a morte. E filhos, claro. 

A homossexualidade é ameaça porque tira da berlinda o homem que ama outro homem e a mulher que ama outra mulher, não os obrigando a casar para manter as aparências, como muito comumente acontecia - e acontece. Quem tem amigos gays sabe que há muitos, sim, muitos homens (sobretudo), mas também mulheres homossexuais que vivem a chamada vida dupla. Você aí casada ou casado, nem suspeita, mas pode estar casado (a) com um (a) homossexual.

O feminismo, por seu turno, afirma a insubmissão da mulher, iguala-a ao homem em direitos e deveres. O feminismo vem para dizer que, em primeiro lugar, a vida da mulher já é uma vida completa e não depende de um homem ou um filho para se 'realizar'. A mulher que se entende como vida que vale por si pode permanecer solteira e sem filhos, ou separar-se caso julgue que sua relação não lhe é proveitosa, o que certamente é uma ameaça à família das igrejas homofóbicas e misóginas. 

Não: racismo, sexismo, homofobia, violência. Amor. Paz.
O mundo novo que se descortina e afronta essas religiões dá ao indivíduo a possibilidade de ser ele mesmo - de não representar papeis, de não sofrer com imposições, de fazer suas escolhas, de não ter seu quarto e sua intimidade invadidos pelos dedos acusadores de deus.

Obviamente, sempre haverá um olho dentro de nossos quartos - mas um olho benéfico tenta impedir que estupremos outras pessoas, abusemos de crianças, batamos em nossos companheiros, enfim, que cometamos atos não consentidos entre as partes, ou falsamente consentidos, e que causem dor física e psicológica.

Criminosos elegem o novo papa da igreja. (Clique para ampliar)
Que fique claro o que chamo de ato falsamente consentido: a filha que 'deixa' o papai abusar sexualmente dela não consentiu; o menino que 'deixa' o padre abusar sexualmente dele não consentiu; a esposa que mesmo não querendo 'deixa' o marido fazer sexo com ela não consentiu. As figuras de autoridade do pai, do padre, do marido usam de seu poder para impor seu desejo ao outro e, então, o culpam. Ou vocês não se lembram do padre que disse, sobre milhares de denúncias de pedofilia na Igreja Católica, que os jovens são culpados por seus abusos, pois provocam? Ou do padre que, ilustrando um estupro com caneta e bocal, disse que não há estupros?

Enfim, o que quero dizer é que a sagrada família das igrejas homofóbicas e misóginas deveria ser chamada de monstruosa família porque comporta todos os crimes cometidos por sua máxima autoridade: o pai. Essas igrejas sempre toleraram o estupro, o abuso, a violência doméstica, a tortura psicológica, até porque elas cometiam e cometem esses mesmos crimes, tendo também deus, o pai, como máxima autoridade. Não por acaso, na Bíblia, o estupro de uma mulher é uma desonra para o pai ou para o marido, mas preferível ao estupro de um homem, como se vê em Juízes, 19.

Não se iludam, um deus homofóbico e misógino foi construído à semelhança do homem e, da mesma forma, a família de suas religiões. Esta, afrontada pela igualdade, sucumbirá toda vez que um marido estuprar uma mulher (seja ela sua parenta ou não) ou nem se formará, pois homossexuais deixarão de sofrer repressão, poderão casar-se e ter filhos, se quiserem. Outras famílias se formarão, mais justas e mais felizes.

Esse é o verdadeiro terror das igrejas: gente feliz. Gente feliz esquece de dar dinheiro pra igreja com muita facilidade, ou se esquece da própria igreja. Se fôssemos felizes, Marco Feliciano não existiria.








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Dia internacional das mulheres - post coletivo

por todas nós


Hoje não queremos flores, nem desejamos ser comparadas a elas. Por isso não venham nos dizer, neste dia 8 de março, o quanto somos belas, delicadas e perfumadas. Não somos bonecas novas recém-saídas da caixa. Somos gente. Feias ou bonitas, delicadas ou brutas, nada disso vem ao caso. Porque hoje não se comemoram as qualidades femininas que supostamente nos tornam atraentes. O dia internacional da mulher foi e será um dia de luta. 

Não venham nos dizer que somos contraditórias, que nos deixamos levar pela emoção. Só se esta emoção for a revolta, a raiva de saber que há lugares do mundo em que 70% das mulheres sofrerão violência sexual em algum momento de suas vidas. Uma rosa não apaga o que viveu a jovem indiana, jogada nua para fora de um ônibus, com seu intestino perfurado pela barra de ferro que foi introduzida na sua vagina. Hoje é um dia de luto, por ela e por tantas outras, por aquelas que estão sendo violentadas e assassinas no exato minuto em que escrevemos. Hoje é um dia de luta, para que canalhas como os da banda New Hit não cometam atrocidades e saiam impunes.

Não nos falem da nossa sensibilidade, como se o sentir e o amar fossem próprios a um sexo e não a todo o gênero humano. Não nos dêem um beijo na testa, nos parabenizando por sermos boas mães. Boas mães o são por amor, comprometimento e responsabilidade, e não porque são mulheres. Péssimas mães também existem, assim como ótimos pais. Tampouco nos falem da nossa capacidade de amar incondicionalmente. Não nos encorajem a suportar o que não podemos, a aceitar o inaceitável.

Não queremos ser enaltecidas, endeusadas ou ser tidas como epítome da virtude e da civilidade. Queremos ter o direito de ser más. Queremos a igualdade que garante que a escolha entre virtude ou vício seja individual, não generalizada para todo um gênero.

Chega de contradições. Não adianta nos falar que toda a mulher merece respeito hoje e nos assediar na rua amanhã. Nós não precisamos de gentilezas. Não pedimos favores, não queremos condescendência. Não queremos ouvir como é maravilhoso ser mulher, principalmente porque o 'ser mulher' não existe, é construído cultural e socialmente.

Hoje não nos dêem flores. Exigimos direitos e justiça. O que queremos é dignidade. Queremos oportunidades iguais, salários iguais. Queremos respeito e o direito de andar onde quisermos, com a roupa que quisermos e em segurança. Queremos fazer parte de uma cultura que não sexualiza nossos corpos constantemente para vender produtos. Uma cultura que não promova o estupro. Hoje - e todos os dias - não precisamos de elogios sobre a nossa feminilidade, queremos a liberdade real de nos expressarmos e vivenciarmos nossos corpos em toda sua plenitude.

Nós, mulheres feministas, lutamos por igualdade de direitos e deveres, pelo fim da violência de gênero, pelo fim da cultura do estupro, pelo fim da objetificação das mulheres, por nossa liberdade, por nossa felicidade sexual, pela propriedade de nossos corpos, pela ideia de que mulheres são gente. Não esperamos presentes menos caros que esses neste 8 de março.

Se quiser nos parabenizar, parabenize-nos pela luta, porque é isso o 8 de março, um dia de luta, não uma homenagem à feminilidade. Não se trata de comemoração. Se algumas mulheres, em alguns lugares, trabalham, votam e significam na sociedade, de maneira independente dos homens, isso é possível porque, não muito tempo atrás, outras mulheres lutaram por isso. Algumas morreram por isso, muitas continuam a morrer porque nossa luta não atingiu ainda seu objetivo e porque a liberdade e a independência feminina ainda não são fatores globais. Se quiser nos presentear ou homenagear, de verdade, de alguma forma, denuncie o machismo, aponte essa ordem social repressora, que tantas vezes passa despercebida. Lute conosco. Subverta-se!

E que hoje seja um dia de celebração também. Celebração das conquistas dessa luta árdua, que, apesar de longe de estar ganha, nos motiva e nos apaixona. Celebração da amizade e do amor entre as mulheres, da sororidade. Celebração de tudo o que conquistamos, nos dando energia para seguir em frente...

...até que todas sejamos livres.


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E aí, como vai sua moral?


por Tággidi Ribeiro


Estátua da justiça em Berna. Cega.
Creio que todos nós passamos por momentos de dúvidas e menos dúvidas, mas será que nos colocamos as questões em termos de conduta moral? Os adultos, no geral, circunscrevem seus valores e os questionam? Idealizam um ethos cuja realização perseguem? Pergunto porque tenho dificuldade em entender como se processam as diversas escolhas dos indivíduos, sobretudo quando prejudicam seus iguais e também a si mesmos. A internet é prolífica em exemplos e talvez por meio dela possamos conhecer mais o pensamento de nossa época do que por qualquer outro meio. Protegidas por pseudônimos ou pelo anonimato, pessoas de todos os sexos não relutam em deixar cair suas máscaras e pode ser realmente assustador o que se esconde por trás delas. Vou me valer de duas notícias recentes, de janeiro e fevereiro deste ano, para ilustrar o que quero dizer. 

Em janeiro, a mulher de um detento morre em um dia comum de visita. Segundo a polícia, ela havia engolido um 'pacote' que não quis entregar durante a revista e entrou em convulsão, morrendo logo em seguida. É muito fácil achar essa história toda muito estranha e julgar ser necessária investigação séria do caso, inda mais com as declarações da família e as fotos em que a mulher aparece cheia de hematomas. A maior parte dos comentários dos diversos artigos de internet, entretanto, era de gente dizendo que 'era bem feito', por ela ter se envolvido com traficante; e mais: ela estava grávida e nem esse fato, que geralmente comove, chegou a arrefecer o sentimento de que aquela mulher merecia morrer. Ainda havia gente que afirmava não sentir pena pelo feto porque ele seria, tal qual o pai, um bandido

Mas filho de bandido tem que morrer.
Mais recentemente, no início de fevereiro, uma menina mexicana de 12 anos, estuprada repetidamente pelo padrasto de 44, deu a luz a uma criança. De início no entanto, a informação era de que a menina contava 9 anos e fora abusada por um vizinho de 17. Com qualquer idade, óbvio, é uma desgraça que meninas/mulheres sejam estupradas e engravidem, mas na internet, ainda pensando ter 9 anos a menina, o burburinho cruel veio dizer que 'as meninas de hoje não prestam desde criança' . Alguém sugeriu que a menina não tivesse levado a gravidez adiante, por ser fruto de violência, por ser de risco a gravidez, devido à idade da mãe, e pela incapacidade dessa criança de ser mãe: educar, cuidar, manter. Então, contra essa voz, todos se voltaram, repetindo: 'um crime não pode ser motivo para outro pior'. 

Não sei quanto a vocês, mas para mim as falas em um e outro caso revelam uma brutalidade que não se encontra, parece, em outra espécie que não a humana. Assassinato e estupro são justificados; não há empatia, em absoluto, pelas vítimas; quanto à morte de um feto, é justificado em um caso e não em outro, de forma completamente arbitrária. Aqui, é fundamental destacar as 'razões' para a falta de empatia dos comentaristas, ou seja, é necessário perguntar: em que situações não se deplora a lesão física e psicológica ou mesmo a morte de alguém? Em que situações instaura-se uma tal ambiguidade que não chega a tornar lícito matar ou estuprar, mas que ao mesmo tempo retira de tais atos o estatuto de crime? Por fim, em que situações a opinião condena ao estupro ou à morte outros indivíduos ou, mais amplamente, qual o ideário de justiça, inseparável da moralidade, do nosso povo? 

O que eu falo impunemente.
No caso da morte da mulher do detento, podemos elencar as seguintes razões para a falta de empatia: ser a mulher de um traficante; ter supostamente tentado entrar com drogas em um presídio; agir supostamente de forma ilícita estando grávida. A primeira razão está relacionada ao mote 'diz-me com quem andas', que é inclusive citado em um dos comentários - ou seja, se essa mulher casou com um criminoso, deve ser criminosa, e também seu futuro filho o seria; a segunda e terceira razões trazem algo mais capcioso, pois que são comportamentos, ainda que supostos, moralmente reprováveis, de caráter criminoso. Esses motivos, então, como que validam a primeira fala: estamos de fato diante de uma criminosa  - lembremo-nos de que a ideia de que criminosos merecem morrer é senso comum. Há aqui dois pontos interessantes, o fato de o criminoso, a despeito da gravidade de sua falta e da comprovação desta, ser destituído de humanidade e, por isso, da possibilidade de figurar como vítima. Isso quer dizer que em qualquer circunstância, qualquer sofrimento infligido a essa mulher, e mesmo a morte, torna-se punição para seus crimes, não importando se há crime de fato, se tal punição se aplica em relação a e na medida do crime, nem se é aplicada por aqueles designados para tal, os agentes da lei. Portanto, acima da lei, acima de qualquer ideia de equilíbrio entre falta e punição, a justiça da opinião condena à morte, sem deplorar, o criminoso que comete qualquer falta e ainda seus descendentes. 

Tão inocentes.
E que falta cometeu a criança de 9 anos (depois sabidos 12)? Se a ausência de empatia ante uma morte imprevista e talvez mesmo dolosa se dá pela desumanização e esta se processa sobre a figura do criminoso, devemos supor essa adolescente também criminosa, para que não se desenvolva a empatia ante seu estupro e a gravidez dele decorrida? Sim, há quem cogite a possibilidade e mesmo quem afirme ser a menina a culpada de seu próprio estupro. Há também quem cogite a consensualidade da menina e essa suposta consensualidade é uma falta - note-se que, num primeiro momento, todos supunham ter 9 anos a criança. Posteriormente, quando se sabe que ela na verdade conta 12, o caso deixa de ter repercussão. É como se meninas de 12 anos fossem indefensáveis. Nem o fato de ser o padrasto o estuprador causa qualquer tipo de comoção. Nosso mundo parece enxergar meninas de 12 anos como entes absolutamente autônomos, já formados, capazes de 'virar a cabeça' dos homens ou, mais comumente, biscatinhas. E, como sabemos, o senso comum  minimiza ou desconsidera a violência cometida contra elas. Biscatinhas - ou putinhas, piriguetes, vagabundas, vadias - merecem a violência sofrida. Daí a quase total falta de empatia pela menina de 12 anos estuprada pelo padrasto de 44. É interessante mesmo perceber (neste caso específico, quando se julga que a menina tem 9 anos) que os comentaristas de internet praticamente não falam em crime e as palavras 'bandido', 'criminoso' e 'estuprador' não são usadas. Novamente, acima da lei, acima de qualquer ideia de equilíbrio entre falta cometida e punição; acima inclusive da existência da falta, a opinião condena ao estupro, justifica-o ou, o que talvez seja ainda pior, ignora-o - o silêncio é a anulação do crime, sem o qual não há culpado ou vítima. Mas não esqueçamos que essa adolescente deu à luz uma criança e, se no caso da mulher grávida do bandido o feto também era condenado, neste caso ele aparece como o único inocente. Um filho de bandido se tornará bandido, e por isso é desejável que morra; já o filho de um estuprador não se tornará estuprador. O feto fruto de relação consensual entre dois criminosos não merece viver, mas o feto fruto de uma relação não consensual deve ser preservado a todo custo, mesmo ao custo da vida e/ou do sofrimento físico e psicológico da mãe, a menina de 12 anos. 

Como eu dizia no início, é um tanto difícil compreender o processo das escolhas morais dos indivíduos, que conduzem seus julgamentos e também seu comportamento diário. É difícil saber, inclusive, se há de fato a escolha, que pressupõe o contato com diferentes visões acerca de um mesmo conceito, dado ou fato - a construção da ética não nos permite ignorar as alteridades, pois tal ignorância nos faria retornar ao fascismo. Enfim, são questões complexas (essas e as demais levantadas ao longo do texto) e eu as exploro superficialmente, tanto por falta de conhecimento quanto por falta de tempo. Tenho a impressão, contudo, de que já na superfície se pode revelar o grau de insanidade de algumas vozes. 


Algum comentarista disposto a mostrar o rosto?

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Tio Oscar é racista, sexista e gosta de ostentar

por Tággidi Ribeiro




O Oscar é a festa máxima do cinema. Máxima porque sabemos que nela estarão os filmes mais bem produzidos, mais caros, mais vistos e/ou comentados. Alguns desse filmes se tornam clássicos, outros são esquecidos, assim como seus atores, atrizes, roteiristas, diretores, diretoras etc. 

Halle Berry - Oscar em 2002
Opa, eu disse diretoras? Sorry. My bad. Em 85 anos de festa (para quem?), apenas quatro mulheres foram indicadas ao prêmio de melhor direção e apenas uma delas o venceu: Kathryn Bigelow, em 2010(!). A essa altura, sendo leitor(a) deste blog, você já deve estar se perguntando: e negrxs? Apenas um(!), John Singleton - em 1991, foi indicado a melhor diretor e não ganhou. Atores e atrizes negros em papéis principais? Apenas quatro atores e uma(!) atriz. Outras oito estatuetas para indicados a atuações coadjuvantes, só. Gays? Filmes sim, mas não pessoas. A diversidade para por aqui. Por isso, o discurso de Jodie Foster no Globo de Ouro deste ano foi tão emocionante. 

Sabendo desse contexto não fica difícil entender porque um cara como Seth MacFarlane tem lugar como apresentador nesse evento falsamente chiquérrimo. Me contem: existe algo mais brega, mais fora de moda, mais sem graça que piada racista e sexista? É sério: pagar rios de dinheiro pra deixar as pessoas constrangidas, pra ninguém se divertir de verdade, é o cúmulo da cafonice. 

E o mundo inteiro parou pra rir amarelo com MacFarlane fazendo piada sobre o enredo de Django Livre ser como a relação entre Chris Brown e Rihanna; envolvendo o nome de Quvenzhané Wallis, indicada ao Oscar de melhor atriz com 9 anos(!), numa 'brincadeira' sobre George Clooney gostar de mulheres mais novas - pausa: 1) convenhamos, ele jamais faria isso se a atriz fosse branca; 2) o site de 'humor' The Onion chamou a mesma criança de algo pior que vadia, depois se desculpou (desculpas my ass, tem que meter processo. Como alguém tem coragem de pensar em insultar uma menina de 9 anos na noite mais importante de sua vida ou em qualquer outra ocasião? Novamente, isso não aconteceria se ela fosse branca). 

Vilão da Lazy Town
MacFarlane (que tem uma cara de personagem de Lazy Town, não?) insistiu no seu conceito de humor: latinos? São bonitos e pouco importa o que falam; mulheres? São loucas obsessivas. 'Por isso vou brincar que eu iria brincar que a gente já viu os peitos de um monte de atrizes mas eu não vou brincar de verdade porque eu sei que elas não vão gostar' (quão adolescente isso soa para vocês?). Aliás, na 'canção' feita pelo... comediante, era muito engraçado ver peitos de atrizes inclusive em filmes nos quais suas personagens eram estupradas. Quanto cultura do estupro isso soa para vocês?

Empatia zero. Felizmente, MacFarlane está sendo apontado como o pior apresentador da história do Oscar. Menos pelo racismo e pelo sexismo e mais por satirizar a morte de Lincoln, um dos grandes heróis estadunidenses. Ainda bem que esse tipo de cara ajuda bastante na hora de se enterrar.

Helen Hunt
Por fim, eu que acabei dando tanta atenção ao Oscar por causa desse babaca que a Academia contratou provavelmente para mostrar quem manda - homens brancos -, mais uma vez achei a festa cafona por outro motivo: a ostentação. Não consigo deixar de perceber como imorais os ternos e vestidos caríssimos, as limousines, as joias (colares de 2,5 milhões de dólares!). Como alguém pode dizer que essas celebridades todas são superlegais e generosas se têm coragem de participar disso? Se o amor ao dinheiro e ao luxo é um dos principais motores do mal que há no mundo?

Helen Hunt quase se safou dessa, aparecendo com um vestido de US$ 200,00. Seu colar, contudo, valia US$ 700.000. Fazer propaganda, incitar o desejo no público não é menos danoso ao mundo e portanto não menos desculpável.

Estamos no século XXI, 2013. Edição encerrada. Tio Oscar, tão velhinho, precisa rever muitos conceitos.  


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Entre o aborto e a adoção

por Tággidi Ribeiro



Estive pensando recentemente em um dos argumentos mais usados pelos autointitulados "pró-vida" contra o aborto - o de que mulheres não 'precisam' abortar em nenhum caso, já que sempre podem entregar seus filhos para adoção. Essa 'alternativa' garantiria a vida do bebê e o seguimento tranquilo da vida da mãe, livre ao mesmo tempo dos fardos da maternidade e do 'assassinato'. 

Aparentemente, essa solução é tão justa que nem é preciso falar sobre essa mãe, essa mulher que carregou durante nove meses um feto, que sentiu as contrações que anunciavam a chegada de mais um bebê ao mundo, que o segurou nos braços e o amamentou, antes de entregá-lo para uma história sobre a qual não terá mais controle algum e que, ainda assim, terá marcado para sempre. Ninguém fala, também, sobre como é o processo de entrega para adoção, e nem que esse modelo de mãe que dá o filho assim que nasce não é o único e nem o mais comum. Por fim, estrategicamente, os "pró-vida" omitem que mulheres que dão os filhos para adoção são ainda mais estigmatizadas que aquelas que efetivamente abortam.

Vê-se, portanto, que há muito a ser dito. Em primeiro lugar, gente, estar grávida já não é fácil quando se quer o bebê, quando se está feliz - lembrem-se de que a maioria das mulheres sente enjoos, sono, cansaço; seu corpo muda radicalmente; precisa ir toda hora ao banheiro porque o bebê pressiona a bexiga; tem dificuldade de andar, sentar, levantar e até de achar posição confortável para dormir; fora a instabilidade de humor. Agora, imaginem  esses nove meses de gravidez de uma mulher que não está feliz e que não quer o filho. Imaginem passando por todos esses 'pequenos' desconfortos físicos e hormonais essa mulher que muitas vezes vai esconder da família que está grávida ou, na impossibilidade de fazê-lo, vai ser rechaçada diariamente; imaginem essa mulher que foi abandonada pelo pai da criança ou cujo pai é um estuprador - que pode ser, inclusive, alguém da própria família. Imaginem todos os dias dessa mulher não podendo querer seu próprio filho e profundamente culpada por essa impossibilidade. 

Chega o dia do parto. Se esclarecida, essa mulher já informou ou vai informar as enfermeiras que pretende dar seu filho para a adoção. As enfermeiras, se esclarecidas, vão imediatamente comunicar o Conselho Tutelar, sem fazer julgamentos. Os psicólogos e assistentes sociais do Conselho Tutelar irão imediatamente recolher o recém-nascido a um abrigo, também sem fazer julgamentos. Mas haverá julgamentos, nós bem sabemos. Porque, como eu disse acima, os "pró-vida" tentam forjar uma aura de compaixão em torno do ato de dar o filho para adoção mas, cotidianamente, as mães que praticam esse ato de compaixão são consideradas monstros sem coração que tiveram a 'coragem', a 'capacidade' de rejeitar a 'maior dádiva' de uma mulher. Como a mulher é o que menos importa, muitos psicólogos e assistentes sociais pressionam pesadamente a mãe para que fique com seu filho, o que aumenta sua dor, sofrimento e culpa. Se a mulher for forte o suficiente para aguentar a pressão, pode ser que ela saia da maternidade carregando apenas o estigma e a culpa. Mas ela pode também sair carregando o filho que não quer e do qual não pode cuidar. Indo para um abrigo ou para a casa da mãe que a rejeita, essa criança está em uma situação de vulnerabilidade ímpar. Levando consigo ou não seu filho, essa mulher terá passado por uma das situações mais traumáticas de sua vida. Para que vocês tenham uma ideia do tamanho desse trauma, na segunda matéria linkada neste texto, a mãe que doa o filho se esteriliza como punição para seu ato.

É fácil perceber que a solução dada pelos "pró-vida" não é justa. Na verdade, talvez seja a mais injusta, pois que a pretexto de defender a vida do feto, não leva em consideração a vida da mãe e nem a vida da criança que o feto virá a ser. Se essa criança recém-nascida for branca, menina e saudável, muito facilmente achará alguém que a adote. Se for um menino negro e/ou tiver qualquer deficiência física ou de cognição, não terá tanta sorte. Chega a parecer obra de um cínico o seguinte texto de um entusiasta da adoção:
"(...) Enquanto a maioria esmagadora da fila de adotantes busca recém-nascidas, meninas e brancas, a fila de adotáveis é composta na sua maioria por crianças de mais de 3 anos de idade, negras (e na maioria meninos, já que as meninas são mais adotadas). Outro problema é que há muitos grupos de irmãos disponíveis e o ideal é não separá-los. Como 99% dos habilitados não tem disponibilidade de adotar irmãos, as filas não andam. Moral da história. O processo de adoção não é nenhum bicho-papão. É simples, barato e relativamente rápido, se comparado com qualquer outro processo no Brasil. Se o perfil de criança que você busca não é o padrão, ou seja, se você está interessado em adoção tardia, não tem exigência de raça, aceita grupos de irmãos, aceita doenças tratáveis (hiperatividade, dificuldade de fala tratável com fonoaudiologia, etc.), tudo isso vai impactar no tempo que seu processo vai demorar. Há casos que se encerram em poucas semanas ou meses. Tudo é possível se você sonhar com uma família especial." (http://www.epinion.com.br/adocao/mitos-e-realidades-sobre-o-processo-de-adocao)
Quanto às mães, não tendo podido de fato escolher ou mesmo tendo escolhido levar sua gravidez adiante
"...sentem-se consternadas em datas de comemorações importantes, tem pesadelos com bebês sem rosto e apresentam dificuldade na elaboração do luto pela perda. Em sua maioria, conseguem em sua fantasia 'criar' os filhos em suas mentes e até mesmo fantasiar sobre o seu desenvolvimento, imaginando como estão, como vivem e o que sabem da sua história. Algumas não conseguem estabelecer novos relacionamentos, sentindo-se não merecedoras de amor e com frequência negam a si mesma qualquer forma de prazer ou alegria. Ainda que se casem e possuam novas famílias, a sombra do filho entregue em adoção estará sempre presente." (Daiane Oliveira e Cristina Kruel) 
Eu perguntei a deus. Ela é pró-escolha.




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A vingança de Quentin Tarantino

por Tággidi Ribeiro




Assisti a Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012), de Quentin Tarantino. Pensei um monte de coisas - durante e depois do filme -, então esse texto é uma tentativa de organizar tudo o que me passou pela cabeça. Como não sou crítica de cinema - apenas amo cinema - peço que me perdoem de antemão o vocabulário não especializado que vou usar. (Ah, se você não viu o filme, não leia esse texto.)

Eu adorei o filme por muitas razões. Em primeiro lugar, sempre gostei da violência dos filmes do Tarantino, muitas vezes trágica, mas quase sempre cômica e por isso palatável. Em Django, essas duas facetas se concertam muito bem, e podemos deplorar a cena em que um escravo é devorado por cães, ou a cena em que uma escrava fugida (Brunhilde, papel de Kerry Washington) é tirada do 'forno' usado para seu castigo e ainda a luta de mandingos. Por outro lado, nos diverte - sim, diverte - a cena em que o próprio Tarantino explode(!), a morte do xerife, a cena da emboscada em que morrem dezenas de homens brancos que querem matar Django (Jamie Foxx) e seu amigo Schultz (Christoph Waltz) e na qual Tarantino tira um sarro homérico da KKK (que ainda estava em formação, diga-se).

O filme opera com a dicotomia opressor/oprimido e não tem muitos escrúpulos ao simplesmente eliminar quem oprime - os escravocratas do sul dos Estados Unidos, caricatos em sua maldade. Obviamente, quem se identifica com o negro oprimido comemora e se sente vingado. Então, só me resta dizer que Django é pura catarse.

...E o Vento Levou
Acho que Tarantino se tornou um especialista nesse movimento catártico: em Bastardos Inglórios (2009), comemoramos um cinema inteiro explodindo e matando nazistas, inclusive Hitler; em À Prova de Morte (2007), comemoramos a caça a um psicopata misógino que mata mulheres por diversão - atenção, são mulheres, só mulheres, que o caçam. E tem Kill Bill, também, né? As escolhas de Tarantino são conscientes e vemos a tela do cinema transformar-se no lugar desses grupos historicamente... f*didos: mulheres, judeus e negros, enquanto a arte se coloca classicamente à disposição, talvez não da ideologia, mas da ideia, da moral (de uma moral). Tarantino trabalha com uma ética da vingança muito clara: é lícito matar quem seja, a qualquer momento e de qualquer maneira, desde que seja o inimigo. Não há misericórdia. E nós, em frente à tela, pensamos: "Mas também pudera! Olha o que o inimigo (branco escravista, nazista, misógino) fez!" Assim, lavamos a alma...

A um Passo da Eternidade
Casablanca
Claro que incomoda o fato de que Schultz, o branco parceiro, tenha mais consciência e sentimento de revolta que Django, o negro protagonista (pra haver mudança é preciso dissidência?). E incomoda também o fato de que o grande vilão, o mais detestável do filme, seja negro: Stephen (Samuel L. Jackson), um escravo doméstico (pra haver manutenção é preciso haver anuência?). Incomoda ainda o fato de que as mulheres sejam praticamente anuladas no filme. Mas, quer saber, dou um mega desconto! Tarantino está há quase duas décadas fazendo filmes com personagens femininas que fogem de estereótipos e dando destaque a atores negros - temos uma mulher negra protagonista em Jackie Brown (1997). Em Bastardos Inglórios vemos um negro e uma branca fazendo par amoroso - é quase impossível assistir a isso na grande tela...

Pergunto: quantas vezes assistimos a um herói negro montado em um cavalo branco resgatando sua donzela? Quantas vezes vimos a clássica cena do beijo ter dois protagonistas negros?

Django Livre




E não foi só a questão ideológica que me pegou em Django Livre (aliás, se houvesse ideologia sem qualidade, eu falaria mal). Gosto das atuações do principal quarteto masculino do filme: Jamie Foxx como Django - ele tem força e melancolia no olhar, o que eu acho fascinante e necessário pra quem tem as costas marcadas pelo chicote e busca a amada; de Christoph Waltz, como o caçador de recompensas libertário e cínico, o alemão Schultz - Christoph já havia 'quebrado tudo' como o coronel Hans Landa, em Bastardos; a atuação de Leonardo DiCaprio é excelente, como o malvado Calvin Candie; e Samuel L. Jackson deveria estar concorrendo ao Oscar, pelamor.

A trilha sonora é ótima. Tarantino sempre cuida muito bem disso. E faz TODO SENTIDO usar rap em algumas cenas de tensão. É como se a existência desse gênero musical se justificasse, sabe? Sem querer ser determinista, mas já sendo: como se somente os negros, tendo vivido a escravidão por tantos séculos, soubessem o que é o peso do mundo.

E pra quem acha que o filme está mal editado ou mal cortado, nas cenas grotescas eu me lembrei direitinho dos filmes de faroeste e dei muita risada. Não é isso o que o Tarantino faz: homenagear o cinema? Mesmo na cena em que Lara Candie, morre, não há erro ou gratuidade: conta-se (não achei a referência, ainda!) que, ao saber que as pessoas ao serem alvejadas não morriam dramaticamente, caindo devagarziiiinho, como em geral acontecia nos westerns, Sérgio Leone (se não me engano) chegou a usar cordas para puxar seus atores no momento em que levassem o tiro, o que criou o mesmo efeito exagerado e obviamente cômico da morte da irmã de Calvin Candie.

Enfim, eu chorei, sorri e saí feliz do cinema, pensando todas essas e mais um monte de coisas. E vocês?




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Ela descobriu o prazer e o amor aos 60

por Tággidi Ribeiro

Nunca é tarde para desistir de um casamento infeliz
Todos nós conhecemos a seguinte história: uma mulher se casa jovem, tem filhos, o marido é um mulherengo, o casamento se esgota, mas continuam vivendo juntos até morrer, experimentando graus variados de sofrimento, raiva, até mesmo ódio, cansaço, no mínimo tédio e alguns momentos de conciliação que no fim das contas servem para a manutenção do inferno. 

Isso é da época em que o casamento era indissolúvel, do 'o que deus uniu o homem não separa', de mulheres que ousassem separar-se do marido serem consideradas putas e virarem párias sociais. Hoje em dia, a coisa é um pouco diferente: tanto o homem quanto a mulher podem pôr fim a um casamento infeliz e mulheres separadas são bem menos estigmatizadas. Ainda assim, casais arrastam relações perniciosas por anos até decidirem-se pela separação.

A questão é que a mentalidade - e as leis - mudaram há pouco tempo. Daí termos um contingente cada vez maior de homens e mulheres divorciados somente depois de vinte ou trinta anos de casamento. Como a protagonista da história que vou contar agora, de desfecho tão diferente dessas que todos nós conhecemos.
Nunca é tarde para sair de uma relação abusiva

Ela é uma mulher de fibra, lutadora, trabalhadora e batalhadora desde sempre mas, como costuma acontecer, uniu-se a um homem que, além de não reconhecer suas qualidades, a rebaixava. Era, além disso, perdulário, adúltero e tirano: gastava as economias da família, assediava amigas e parentes da mulher, fechava negócios sem consultá-la, usando o dinheiro dela. Quando ela relembra esses fatos, diz que poderia possuir patrimônio três ou quatro vezes maior do que o que tem hoje, construído na labuta diária e na administração sensata dos ganhos.

Ela ficou com esse homem durante 37 anos e é tanto tempo, é tanta vida que a maioria de nós pensaria ser impossível ou inútil tentar se desligar de todo esse passado. Mas ela enfrentou toda a sua história e resolveu separar-se do marido. O filho já estava criado e tinha escolhido seu caminho. Mulheres separadas já não eram mais mal vistas como quando se casou. Ela era financeiramente independente. Não havia motivo algum para manter a relação sofrida e conflituosa.

Nunca é tarde para descobrir o amor e o prazer do sexo
Ela começou tudo de novo - aos quase 60 anos: solteira, morando sozinha. Trabalhando sempre, viu que tinha tempo para si. Começou a dançar. Tomou gosto. Conheceu a paquera. Começou a namorar. E pela primeira vez, em toda sua vida, sentiu prazer no sexo. Sentiu tesão de verdade. O marido dizia que ela era 'ruim de cama' e justificava dessa forma a traição. Ela descobriu que ele é que não era lá muito bom.

Nem tudo foram flores: ela viveu outra relação abusiva mas da qual, gato escaldado, logo se libertou. E assim vai, libertando-se, e é assim que eu a vejo, como um grande exemplo para todas as mulheres (e homens também) de liberdade, de renovação, de força, de que a felicidade é possível agora, a qualquer momento.

Ela hoje namora, está apaixonada, é sexualmente realizada, mas não quer casar. Ela gosta de viajar - tomou gosto pela Europa, por Paris, que conheceu depois dos 60 anos. Ela trabalha. Ela é uma mulher bonita, vaidosa sem exageros, ativa e inteligente. Orgulha-se de seu filho e ele dela. A vida vale - mais - a pena.
Sim, nós podemos!
ps: pra quem acha que a vida da mulher acaba depois dos trinta anos.
ps2: para as mulheres que perderam a autoestima em casamentos infelizes, sendo continuamente inferiorizadas por seus maridos - essa é uma história real.


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Quem são os masculinistas?

por Tággidi Ribeiro



Pensem numa pessoa entediada. Bem, sou eu. Estou entediada neste momento por uma coisa só: porque é necessário falar dos masculinistas, ou seja, dos homens que não amam as mulheres. A Lola Aronovich já falou muito deles. Mas ainda não foi, não é o suficiente - e sabe-se lá quanto será suficiente falar de gente que é ou louca, ou burra. 

Porque os masculinistas não são outra coisa: são loucos ou burros. Provavelmente as duas coisas, como diria o Chaves. Não posso dizer que sejam simplesmente imaturos, pois que têm na maioria das vezes mais de vinte e poucos anos - perdoamos sempre os arroubos da adolescência, mas a homens adultos e vacinados só podemos deplorar a falta de capacidade intelectual ou a pura desrazão. #fazeroquê 

Masculinistas são homens que dizem que vivemos numa sociedade 'bucetista', que lambe o salto das mulheres, como se realmente nós, mulheres, comandássemos o mundo. Se você (homem ou mulher) acha que nós mulheres comandamos o mundo, olhem para as taxas de estupro reportado na Inglaterra - país de primeiro mundo, longe de ser tão machista quanto o Brasil - e ponham a mão na consciência. Olhem para o dinheiro e para o poder - que estão na mão de quem

Olhem para o islã... Embora o problema não seja, fundamentalmente e sem trocadilho, o islã. O problema são todas as nações e religiões deste planeta insistindo que as mulheres não somos iguais, com nossas dores, alegrias, desejos e história. Nosso mundo, mesmo sabendo de tanto, não consegue admitir o básico: pertencemos a uma mesma espécie, não há porque sermos consideradas inferiores e tratadas como tal por nossos companheiros.

meme genial da Maíra Lacerda.
Os masculinistas, no entanto, ao melhor estilo old school década de 1950, rejeitam qualquer ideia que se aproxima de igualdade e criticam este momento singular da história, nos seguintes termos: as namoradas não são mais 'capazes' de fazer mingau para seus namorados e isso significa o fim dos relacionamentos. Tudo culpa do feminismo!
mais um meme da Maíra!

Masculinistas são homens que seguem um tal de Nessahan Alita e dizem 'praticar o desapego', o que significa basicamente que eles fogem de se envolver emocionalmente com mulheres, considerando-as 'depósito de porra'. Apenas as novinhas (meninas entre 12 e 18 anos) e superlindas jovens interessam, pois para eles a vida de uma mulher acaba aos 30 anos. Para o homem, começa aos 30 anos.

Bem, depois de comer merda pra poder cagar isso tudo aí, os masculinistas ainda se julgam 'homens honrados'. E tanto que podem chegar a planejar assassinatos, serem cúmplices de chacina e fazerem apologia ao estupro e à morte de mulheres, negros e homossexuais. 

Você não sabia que os masculinistas existiam? Bem, agora você sabe. Uma única página no facebook reúne mais de 20.000 desses descerebrados misóginos - que reclamam da falta de mingau...

ps: denuncie páginas preconceituosas, sempre

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Quando um homem grita "Linda!"

por Tággidi Ribeiro

Esse relato poderia servir pra um dos nossos Sexismos de Cada Dia, mas vou postá-lo aqui. Assim aproveito e já falo umas coisinhas que há tempos venho pensando e sobre as quais outras pessoas têm pensado também - ainda bem!

Fim de ano no ano passado e tod@s nós aproveitamos pra reencontrar amigxs, confraternizar, beber umas cervejas, brincar de colega (rs) secreto e tal. Estava eu indo pra uma dessas confraternizações, andando pela rua apressada, porque estava um tanto atrasada, quando sinto um toque no meu braço e ouço a frase já ouvida por tantas de nós em tantas situações ao longo da vida: "Moça, você é linda". Sem nem pensar retirei meu braço com rapidez e disse um 'obrigada' baixo (sim, eu disse) ao mesmo tempo constrangido e raivoso e segui meu caminho.

A expressão chave aqui, na minha opinião, é 'ao longo da vida'. A gente nasce recebendo elogios à nossa beleza física. Somos crianças e ouvimos prognósticos - 'vai dar trabalho', 'vai ficar linda'. Desde pequenas, o nosso fito, ou melhor, o fito dos outros para nós, é sermos bonitas, antes de tudo: 'vamos colocar essa roupa pra ficar bonita', 'não chora que fica feia'.

Já falamos sobre isso, sobre a valorização absurda da beleza física feminina, aqui no blog. Falamos também sobre o que acontece depois que uma mulher 'perde' essa 'beleza', que hoje em dia significa basicamente engordar ou envelhecer. E também já falamos sobre essa educação perversa que transforma crianças do sexo feminino em bibelôs que o patriarcado chama de princesas - as quais depois ataca como fúteis. Ainda assim, esse 'ao longo da vida' é tão forte que eu - feminista - respondi 'obrigada' a um homem impertinente e desrespeitoso que teve a capacidade de tocar numa desconhecida e dizer sua opinião sobre a aparência dela.

Esse 'obrigada' está entranhado em mim, em nós, porque nos fizeram crer que um elogio à nossa aparência, vindo de qualquer um, é de fato um elogio, quando é, na verdade, a reprodução em discurso do lugar que ainda se acredita deva ser o da mulher até ser mãe - o lugar do enfeite. 'Mulher tem que ser bonita' - ouço um monte de homem, mesmo se considerado feio, dizer; 'mulher feia nem pra zona presta', ouvi ontem dizerem, a respeito da novela Salve Jorge e daquelas prostitutas traficadas, forçadas, todas lindíssimas. Quer mais pra achar que 'linda' não é assim elogio de fato? Homem no geral não fica #chatiado se não tem a beleza elogiada, nem se não tem beleza; também não fica especialmente feliz se é bonito e recebe elogios - o valor de um homem independe da beleza física.

Mas o relato não acabou no caminho que segui, pois logo ouvi gritarem meu nome. Olhei para trás e um grande amigo me chamava. E em sua roda de amigos estava o homem que instantes antes havia tocado e 'elogiado' uma desconhecida. Seu constrangimento não podia ser maior. Como assim, então, ele estava sendo apresentado para a mulher que pouco antes chamou de 'linda'?! Mas, vejam bem, como eu disse, seu constrangimento era grande, não sua felicidade. E não porque eu lhe tratasse mal - ele estava na mesa com um meu amigo, eu não o confrontaria nessa situação. Ademais, eu falava muito apressadamente com meu amigo, que estava apressada, afinal de contas. Enfim, fui embora logo, dando um tchau geral e propositadamente reparando no meu entusiasta, agora mais murcho que alface em fim de churrasco. Não perguntou a meu amigo quem eu era, não pediu meu telefone.

www.facebook.com/pages/Homem-Feminista-de-Verdade
Aquele homem não tinha me elogiado, nem me cantado. Aquele homem tinha usado seu direito de me encher o saco, de tocar em mim sem jamais ter me visto (!) dado pela nossa sociedadezinha machista. Só isso. Por isso, em tantas discussões com esse meu amigo, eu rebati o argumento repetido por ele (e por quase todos os outros homens) de que 'parar de olhar e falar com mulheres na rua é o fim da cantada'. Bem, se a cantada é só a sua expressão babaca sobre o corpo de uma mulher, então que seja o fim. Agora, se a cantada é aquilo que tem o objetivo de chamar a atenção de uma mulher - pra que aconteça a conversa, o beijo e por aí vai, então agir como adulto maduro e feminista faz bem. Aqui vai a receita: olhe para a mulher de seu agrado sem fazer dela um pedaço de carne, veja se ela retribui esse olhar e fale com ela. O resto é mimimi de quem não se preocupa com o outro - nós, mulheres, que, quem dera, ouvíssemos de abuso verbal só 'você é linda' ao longo da vida.