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por Mazu
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| Página "Não Aguento Quando" no Facebook. |
Há dois dias, minha cunhada publicou um vídeo no Orkut
(sim, no Orkut!) em que um metaleiro destilava muito julgamento sobre o que ele
chamou de pirirockers (deve significar algo como piriguetes do roquenrol). Não
conheço o cara, mas ele fez questão de dizer que estava lá criticando a
hipocrisia das meninas que usam roupa curta, mas são roqueiras, e ficam
criticando as meninas que usam roupa curta e escutam funk. Provavelmente, a
hipocrisia que ele detectou existe. Se realmente há alguém que usa roupa curta
criticando alguém que usa roupa curta, sim, há hipocrisia. Mas essa não é a
questão. Ainda que ele tenha se explicado e dito literalmente "as pessoas
podem fazer o que quiser e ser feliz, não tenho nada com isso", o vídeo
é machista, não parece, assim de parecer logo de cara, mas é. Muito
provavelmente, essa não foi a intenção do autor e, muito provavelmente, vários
de nós (si, jo también) destilamos machismo de quando em vez, sem nos darmos
conta. E por que, meu Deus, por quê? Porque a ideologia do patriarcado é tão
embebida, incutida nos nossos costumes que pode passar despercebida.
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| Femstagram no Facebook |
Um exercício interessante, inclusive para xs
companheirxs recém chegadxs no movimento, é se escutar falando. Loucura, né?
Mas, é isso mesmo. Na grande maioria das vezes, quando uma afirmação só serve
para homens ou mulheres, essa afirmação está lá com seus 90% de chance de ser
sexista. Vou usar como exemplo o vídeo que minha cunhas postou. Não é
semanticamente possível dizer "os pirirockers", certo? Quero dizer,
não rola tirar sentido da expressão, assim sem um contexto mais específico.
Rola dizer "maria-palheta", um termo usado para groupies, e fazer sentido,
mas não rola dizer "joão-palheta" e fazer sentido, novamente, sem um
contexto que nos ampare. Não quero comprar briga com os compas da linguística,
então já adianto, com contexto e interação tudo pode na linguagem. Mas, vamos
supor, ainda que um contexto específico nos permitisse tirar sentido dessas
expressões, eles não seriam exatamente iguais, não carregariam o mesmo pacote
de sentidos, porque estamos em uma sociedade com esse e aquele discurso
anterior, ou seja, esse e aquele preconceito já estabelecido. Vide o cara
"galinha" e a mina "galinha", que trazem significados bem
diferentes empregados aqui e lá.
Alguém poderia dizer: tem coisa que só homem
faz, tem coisa que só mulher faz. A resposta mais simples para isso, além de
"oi, século XXI?" é que essas coisas só de homem ou só de mulher têm
que ter explicações muito biológicas mesmo, muito provavelmente envolvendo o
uso direto da genitália. Do contrário, a gente pode detectar sexismo novamente.
A Rô trouxe uma discussão legal sobre isso, quando tratou dos brinquedos demeninas e meninos.
Esses atos falhos nossos acontecem para o bem e
para o mal, o tempo todo. Dia desses, um amigo publicou no facebook:
"fulana de tal (que fez x e y): uma mulher para entrar na lista de
mulheres que fizeram diferença na humanidade". Sério, lendo isso, a gente
não fica com aquela impressão de que quase não existiu mulher para fazer
diferença? Pois é.
E não rola só com mulheres, dizer que os homens
são todos canalhas é tão sexista quanto dizer que as mulheres são todas
interesseiras. Toda discriminação ou papel já estabelecido, sem explicação
biológica (eu ia dizer racional, mas não seria suficiente), para um gênero
implica sexismo. Dizer que é dever do homem pagar as contas é sexista também. E
assim vai.
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| Créditos: Femstagram no Facebook |
Todo mundo escorrega, não rola dizer que não. Se
em determinado momento da vida, alguém pisa no calo e a gente vai falar mal ou
discutir, uh, como rola preconceito. Eu tenho irmã, eu sei como é. Deus me
livre daquela máxima "Não sou machista, nem feminista, sou humanista"
porque, sério, isso é um uso super errado de todos, todos, todos os termos da sentença!
Machismo não é o contrário de feminismo, nem os humanistas têm nada que ver com
a bagaça toda. Mas o ideal, para evitar os escorregas sexistas nossos de cada
dia, era a gente usar "pessoa" ou "gente" nas afirmações
para evitar, né? Tipo "tem gente interesseira" não "tem mulher
interesseira". E, aí, se me for permitido um adendo fora do escopo do blog
e do post, melhor mesmo seria tentar ser positivo e não ficar de mimimi por aí
e dizer que "tem gente legal no mundo", sei lá, talvez isso ajude na
tarefa complicada de gostarmos uns dos outros.
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| Não Aguento Quando novamente |
Voltando, a dica das tias de hoje, que serve pra
tia também, é: quando a gente for criticar alguém, para evitar cairmos em
qualquer armadilha linguística do preconceito, vamos tentar trocar o
"x" por "pessoa". Assim, ó: na frase "tinha que ser
X", sendo x = mulher, gay, preto, nordestino, gordo, se a gente não puder
trocar x por "pessoa" e conseguir sentido, que liguemos o alerta do
preconceito, porque há, talvez não seja evidente, mas há.
28 de janeiro de 2013
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8
por Roberta Gregoli
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| Encontro das Subvertidas em janeiro de 2013 (Barbara em espírito e Photoshop) |
Não sei se é a gripe, se é ter acabado de fazer anos ou se é ter voltado para a Inglaterra, mas o post de hoje é fofo. Tome insulina, minha gente, que o negócio tá água com açúcar.
Algo muito poderoso acontece quando as pessoas se juntam. Pode ser algo poderosamente horrível, como quando um bando de caras se juntam para assediar mulheres na rua, mas pode ser maravilhoso também. Não que o nosso blog seja lá tudo isso (ainda nem temos tantos seguidores quanto outros blogs feministas), mas para mim ele é maravilhoso por vários motivos. Primeiro porque me trouxe mais perto dessas mulheres fantásticas e inteligentes. Cada uma do seu jeito traz um ingrediente especial ao blog: o humor incrivelmente sucinto da Mazu, a prosa extraordinária da Barbara, as reflexões filosóficas e por vezes pertinentemente raivosas da Tággidi.
Em segundo lugar, e isso acontece em qualquer fórum feminista (basta ver os relatos no Cantada de rua - conte o seu caso), o nosso blog é uma pequena ilustração da capacidade de empoderamento na coletividade. Me lembro de uma vez ter visto uma charge que agora não consigo encontrar: uma sala com diversas mulheres, todas pensando "Sou a única feminista aqui". A gente quando se cala - o que é fácil de acontecer numa cultura em que 'feminista' continua a significar mal-amada, amargurada, incendiária de sutiã - inevitavelmente se sente isolada e impotente. Ao colocarmos a boca no trombone arrumamos muita briga, mas também encontramos pessoas que pensam parecido e nos dão força. E isso empodera e incentiva a continuar colocando a boca no trombone, que é o primeiro passo para qualquer mudança.
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| Agora conte para todo mundo! |
Por último, uma coisa fascinante que vejo acontecer com o blog é a mudança de fato. A mudança é proporcional ao nosso tamanho, mas ainda assim é, para mim, recompensadora. Além dxs leitorxs e amigxs que entram em contato com denúncias e reflexões, o que mais me impressiona é ver uma mudança de comportamento das pessoas à minha volta. Isso toma uma série de formas, desde a mais básica, que é um grupo se policiar nos comentários sexistas quando estou por perto, até a 'conversão' de fato. Como os silenciamentos, as inversões perversas e o menosprezo à pauta feminista são o padrão, a discussão de certos temas feministas no senso comum continuam num nível muito básico, e vejo alguns conhecidxs começarem a repensar suas posições, provocadxs pelos nossos textos. E, num mundo cheio de masculinistas e trolls, um a menos é muito.
Por isso tudo, meus agradecimentos. A todxs xs nossxs leitores, em especial xs que comentam e compartilham nossos textos, e, muito especialmente, a Barbara, Mazu e Tággidi, minhas queridas há mais de uma década.
Acabo este post por aqui para não elevar a glicemia de ninguém. E ai de quem disser que feminista não pode ser romântica.
23 de janeiro de 2013
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solidariedade feminina
1
por Barbara Falleiros
Hoje o blog está um luxo! Seguindo os conselhos das nossas leitoras superdotadas e os passos da Tággidi e da Mazu, que ressaltaram a importância de se reconhecer às mulheres seu papel na História e nas artes, hoje vamos falar de... moda! É isso mesmo. O universo hostil da feminista caminhoneira peluda ficou para trás. Subvertidas, vistam seus Louboutins na nossa marcha contra as discriminações! E de quem mais poderíamos falar senão da embaixadora da elegância parisiense, Coco Chanel?
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| A besta |
Bem, na verdade, há quase 30 anos o nome por trás da marca é o de Karl Lagerfeld que, agora falando sério, é uma besta. Suas declarações são sempre "polêmicas", isto é, preconceituosas, machistas, gordofóbicas. Primeiro disse que a Adele era gorda demais, depois encheu-a de presentes para se desculpar; afirmou ser contra o casamento gay e a adoção, porque lésbicas com crianças até vai, mas não tem muita fé na relação entre homens e filhos; disse que a "anorexia não tem nada a ver com a moda e sim com pessoas com problemas familiares"; que na França o problema mesmo é a obesidade, já que só há "1% de meninas anoréxicas contra 30% de mulheres acima do peso"; por fim, disse que Coco Chanel não era feminista porque nunca fora feia o suficiente para isso. Quanto senso de humor! [Not]. E você tinha a ilusão de que não existiam homossexuais machistas?
Se Coco Chanel se achava feia ou não, eu não sei. Sei que jamais se considerou feminista, e que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Chanel preferia a feminilidade, como se estes também fossem termos excludentes, ideia errônea que persiste ainda hoje. No entanto, Chanel é um belo exemplo de como as mudanças sociais acontecem aos tropeços, entre avanços e retrocessos, muitas vezes sem que seus atores tenham plena consciência de seu papel. Pois aquela que até o fim da vida foi chamada de Mademoiselle Chanel (senhorita), aquela que, como mulher, não obteve a legitimidade social por meio do casamento, sempre aspirou à liberdade e à independência. Suas criações refletiram estes anseios, com a aparição de silhuetas andróginas, magras, de uma estética esportiva, masculino-feminina.
O preto, cor do luto, atingiu com ela o ápice do chique. Chanel buscou a sobriedade dos hábitos das freiras, as linhas harmoniosas da abadia cisterciense onde passou sua infância, no orfanato.
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| A moda antes de Chanel: as "anquinhas"de 1880 |
"Mangas bufantes, rendas, bordados, frufrus, chapéus carregados como cestas de frutas: antes de Chanel, a moda arreia, deforma, comprime, ignora o movimento e a meteorologia. Além de seus chapéus de linhas sóbrias, Chanel impôs à moda uma sobriedade inspirada nas vestimentas masculinas, de um rigor quase militar. O século XIX e seus exageros vestimentários herdados do Segundo Império foram mortos e enterrados por uma certa Chanel. Esta já desenhava a moda que seria necessária ao mundo e à classe dominante, então prestes a renunciar à ostentação, num país em plena guerra [Primeira Guerra Mundial]. Gabrielle Chanel inventou um conforto que anunciava a mulher moderna, em movimento, esportiva, livre. " (fonte)
Chanel encurtou as saias até o joelho, eliminou o espartilho, a cintura marcada. Nos anos vinte, foi uma das primeiras a usar cabelo curto. Ela buscou no vestuário masculino as calças, que a lei francesa - desde 1799 e até hoje!! - proíbe as mulheres de vestirem. Ao longo de sua carreira, em um período que conheceu duas Grandes Guerras e duas reconstruções, ela introduziu o jersey, o tweed, os botões de uniforme, os cardigãs, as bijuterias.
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| "Devolvi ao corpo das mulheres sua liberdade; este corpo suava debaixo de 'roupas de parada' (desfile), de rendas, espartilhos, roupas de baixo, forros" |
Contudo, no final da sua vida, Chanel reagiu de forma conservadora face à uma sociedade na qual já não se encaixava. Na sua famosa entrevista de 1969, começa contando uma cena que presenciara há alguns dias, na rua, entre um homem e uma mulher. O contexto não é claro, mas ela diz: "Pensei comigo: 'Se ela não se calar vai receber um bom tapa'. E ela o levou!"; "Mas ela mereceu".
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| Chanel jovem: de calças e blusa marinheiro |
Pouco mais adiante, faz duras críticas às calças, que ela mesma introduzira na moda!
Posso conceber perfeitamente que se use calças no campo, é o que há de mais útil, não passamos frio (...). Para começar, fui eu quem as inventei há quase vinte anos. Eu as inventei por pudor, porque na minha opinião andar por aí de roupa de banho é o equivalente a estar nua. Então, quando nós tomamos banho de mar e queremos continuar na praia, não é difícil vestir uma calça; uma saia não fica bonito, um roupão é horrendo, em conclusão, uma calça é ótimo. Mas entre isso e fazer disso uma moda... O fato de haver 70% das senhoras de calças em um jantar é muito triste. Calças ficam bem em pessoas muito jovens, mas em mulheres de uma certa idade, é como se tentassem rejuvenescer. E eu não conheço nada mais envelhecedor do que tentar rejuvenescer. Acho a coisa mais besta que pode acontecer com uma mulher. Dizer 'Se eu colocar uma calça parecerei mais jovem do que com uma saia' é de uma idiotice tremenda! Enfim, esta é uma época estranha... As mulheres parecem que estão se transformando, não sei, em outro sexo. Mas não sei como isso pode acontecer, porque colocar uma calça não muda seu rosto... (...) Eles [outros estilistas] fazem calças, eu tive que fazer calças, ninguém gosta mais de saias, gostam de calças...
Tive de brigar durante dois anos com todos os estilistas por causa desses vestidos curtos. Eu os acho indecentes! Eu não sou desta época, sabe? Para mostrar seus joelhos é preciso que eles sejam muito bonitos. É uma articulação. É como se ficássemos mostrando assim o cotovelo pra frente. É horrível! (...) E eu acho que quando a gente mostra tudo, depois não se tem mais vontade de nada...
Surpreendentemente moderna nos anos vinte, de um feminismo prático, ativo, a velha Chanel, embora lúcida na sua crítica à "eterna juventude" feminina, perde-se em declarações machistas, conservadoras. A dualidade de sua personalidade parece refletir sua marca: dois Cs entrelaçados, um virado para o futuro, outro olhando para o passado. Preto e branco. Já com mais de 80 anos e um tanto amargurada, Chanel se vê presa a um tempo intermediário e parece preferir aquelas mulheres contidas da década de cinquenta... Mas o caminho que antes ajudara a trilhar conduzira muito além. Para Chanel, era demais. O tempo agora era o do amor livre, das flores nos cabelos, das minissaias e dos jeans boca-de-sino. Da deselegância livre, fluida e colorida.
17 de dezembro de 2012
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4
por Roberta Gregoli
Fico me perguntando por que, mesmo depois de pelo menos 40 anos, muitos dos mitos e estereótipos relacionados ao feminismo e às feministas continuam presentes e fortes. Já tentei traçar algumas razões, mas vai ver que é mesmo difícil de entender. Então vamos simplificar.
Feminismo não é
| O nome disto é misandria |
Feminismo é
Feministas não são
São assim e assim:
O feminismo quer substituir
por
E
por
E quer substituir
por
Feminismo não é
Feminismo é
O feminismo quer substituir
por
E
por
Por favor, entendam: feminismo não é
Feminismo é
Ficou claro ou quer que eu desenhe?
24 de outubro de 2012
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4
por Mazu
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| Como é que é?? |
Este post vai ter um tom de
desabafo, mas espero que a companheirada me perdoe. Estou aqui lembrando de
quando a Bárbara teve uma semana super legal, só que não. Esse foi o meu final
de semana massa, só que ao contrário. Fui chamada de feminista exagerada,
extremista e acusada de ser incapaz de escutar a opinião alheia. Vai vendo. Justo
eu que, na real, sempre me achei uma feminista de moderada a leve. Isso porque
eu não entro em todas as discussões e dou até um sorriso amarelo quando meu
chefe faz suas observações sexistas. Não me julguem, preciso pagar as contas.
Sei que tem uma das blogueiras
famosas que se autodenomina “feminista cansada”, não sei bem se ela está
cansada pelos mesmos motivos que eu, mas, cara, como cansa.
E sabe por que cansa tanto?
Porque a gente se pega tendo a mesma discussão várias vezes, de diversas
formas, com várias pessoas e, às vezes, com as mesmas. Esse feriado que passou,
tive que repetir umas cinco vezes que feminismo não é o contrário de machismo,
que a culpa da tripla jornada de trabalho não é das sufragistas (sim, eu
escutei essa barbaridade de uma mulher jovem e bem resolvida), que a Carminha
(a da novela) não merecia apanhar e que se a gente andasse de burca, o índice
de violência contra a mulher não diminuiria nem no Distrito Federal e nem na
China. Eu estaria feliz se tivesse mudado alguma coisa em alguém, mas parece
que só fiquei mesmo com a fama de feminista chata e nada razoável.
De qualquer forma, serviu para
refletir sobre algumas coisas. E uma matéria de revista me ajudou muito nisso. A
Época de outubro de 2012 traz a
seguinte matéria de capa: “A Mulher venceu a guerra dos sexos: elas estudam
mais, são mais valorizadas no trabalho e já nem querem saber de namorar para
não atrapalhar a carreira. Os homens que se cuidem...”. Parece exagero, mas aí mora a origem de todo
o mal: andam vendendo um imaginário de que a mulher já alcançou o máximo que
poderia alcançar na nossa sociedade e que os homens estão ameaçados. Meu Deus,
que bobagem!
Essa sensação de que já estamos
com todos os direitos conquistados faz o feminismo parecer obsoleto e ridículo.
E isso é um tiro no pé de todo mundo, inclusive dos homens. Já dissemos
milhares de vezes no blog, a independência das meninas é a independência dos
meninos. Ninguém precisa proteger ou sustentar uma mulher, hoje em dia, e isso
tira peso de responsabilidade dos dois lados.
Sobre a tripla jornada de
trabalho, a gente não trabalha mais porque a gente quer. Esta é a ideologia
mais reacionária do planeta: a de que as minorias fazem ou deixam de fazer as
coisas porque querem, já que hoje somos todos iguais. (Ai, faça-me o favor,
vamos estudar história, né?) O que aconteceu é que as mulheres ganharam espaço
no mercado de trabalho, mas ainda convivemos com a ideologia patriarcal de que
a casa e os filhos são mais nossos que dos caras. O que não tem nada,
absolutamente nada, a ver com as sufragistas. (Pelamor!) Tem a ver com a
ideologia dominante do patriarcado. E se essa ideologia ainda exerce pressão
sobre nós, mulheres, deixa eu te contar, moça, o feminismo ainda tem muito
motivo para existir.
Um dos objetivos do blog é
mostrar que as feministas não são loucas raivosas, e estou, hoje, tendo
dificuldade com isso, já que estou cansada (como acabei de explicar) e com
raiva, e a matéria da Época só não
está pior porque acabou em cinco páginas.
A matéria começa falando de uma
novela dos anos 1980 que está sendo readaptada. Indiferente, não foi boa antes,
não vai ser boa agora. O ponto mais ou menos válido do início da matéria é que
como alguma coisa mudou na sociedade em 20 anos, a readaptação meio que reflete
isso. Por exemplo, uma das personagens era uma mulher mais livre sexualmente e,
nos anos 1980, sua liberdade sexual foi censurada, hoje em dia, ela se sente
mais enturmada socialmente. Uau.
A partir daí, a matéria começa a
descrever como ocupamos o mercado de trabalho, como somos protegidas por
algumas leis e como somos maioria nas Universidades. E segue dessa forma, duas
páginas e meio de alegria, mostrando todas as nossas conquistas que, durante o
texto, foram chamadas de “cataclismos sociais”, juro, na página 72:
“O mais provável que é que estejamos olhando para mudanças permanentes, como as provocadas por cataclismos sociais como o voto feminino ou a Segunda Guerra Mundial, que exigiu a presença feminina nas fábricas.”
Excelente escolha lexical da
jornalista!
Depois de toda essa alegria,
alguma coisa aconteceu com quem estava escrevendo a matéria, eu penso que um
troço chamado “pesquisa” tenha acontecido com ela, e ela começou a apresentar
os dados de que já falamos no blog algumas vezes. Ocupamos o mercado de
trabalho, mas ainda ganhamos menos, somos menos promovidas, vivemos mais
estressadas porque existe a pressão de ser bem sucedida no trabalho, mas existe
a pressão de ser mãe e esposa para ser feliz. No cenário político, a
participação ainda é pequena e tals. A matéria diz até uma coisa que gostei
muito de ler sobre o fato de estarmos sobrecarregadas com essas pressões todas:
“ou as empresas se adaptam ou as mulheres terão de rever seu papel em um dos
dois lugares” (casa ou escritório). Ainda que isso possa soar como outra forma
de pressão do tipo "pense bem no que você quer ser", é libertador, de certa forma,
pensar que não precisamos ser tudo. Ainda que ser uma boa profissional e uma
boa mãe de família seja comum, hoje em dia, é massacrante. E a gente tem direito
de escolher, ou uma coisa ou outra.
| Aviso para a Época: esta propagando foi retirada pelo Conar por ser machista e racista, não é um sinal de vitória para mulher nenhuma. |
De repente, a matéria ficou legal
apontando como no Brasil, as mulheres ainda são mais apegadas a tradição
patriarcal. Aqui, ter marido e filhos é prova de sucesso para mulher. É fato. E
é inesquecível quando a seguinte situação acontece com você. Você estuda e se
vira e tem suas coisas e escuta: você é casada? Tem filhos? Responde que não e
percebe aquele olhar de desprezo na sua direção. Quem nunca?
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| Grifei Teló e Du Loren, na lista de "sinais" de vitórias |
Bom, a matéria estava indo super
bem falando que, hoje, a mudança depende menos das leis e mais de comportamentos
que precisam ser alterados, até o último parágrafo em que trouxe uma frase do
Silvio de Abreu (Who?): “a mulheres já garantiram o espaço e estão por cima. O
homem é que passou a reivindicar o seu lugar.” Meu Deus. Não. Como a matéria
trouxe tantas pesquisas e pesquisadoras legais e opta por terminar com essa
frase de um sujeito que não tem tradição nenhuma na pesquisa sobre gênero? Só
porque ele escreveu uma novela chamada “Guerra dos sexos”?
Tanto esforço e tempo que a gente
passa dizendo que “você não está sendo oprimido quando uma minoria exige
direitos que você sempre teve”. Tanto tempo mostrando números absurdos de
violência e para quê? Para uma grande revista de grande circulação vir com essa
conversa de que já ganhamos, está tudo dominado, os homens que se cuidem? Sério
como assim alguém acha que “Ai se eu te pego” do Michel Teló e a propaganda
racista e preconceituosa da Du Loren são sinais de que já alcançamos nosso
lugar ao sol? Como não ficar brava, como ser razoável? Alguém me ajude com
isso.
Que canseira e que desânimo. Para
começar, não existe guerra dos sexos ou, pelo menos, não deveria existir, já que
ter direitos iguais é legal para todo mundo porque ninguém tem mais
responsabilidade do que ninguém. Em segundo lugar, esse tipo de matéria e de
ideias que ela propaga só serve para deixar os homens na defensiva, e isso não
ajuda o movimento. Aliás, não ajuda ninguém.
15 de outubro de 2012
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5
Mas se há sempre um padrão ideal que se busca atingir, por que é então que as feministas criticam as mulheres que querem ficar mais bonitas? - pergunta de novo o senso comum. Balela. Mas pensemos: ficar bonita por que e para quem? A nossa beleza ocidental, "globalizada", é também comercializada. É um produto. Por trás dela está a indústria da beleza. Esta indústria precisa criar um ideal cada vez mais inatingível para abalar a tal ponto a nossa percepção de si, para que nos sintamos tão feias, tão desagradáveis visualmente, que a cada manhã passemos horas na frente do espelho, diante de um arsenal de frascos e tubos e aparelhos, nunca suficientes, para que tenhamos enfim coragem de levantar os olhos em direção ao outro e enxergar nossa presença no mundo. Odiar nossos corpos para comprar uma imagem melhor. O que as feministas criticam é esta necessidade de ser ou de ficar bonita (inclusive para "seduzir" um homem) como a única forma de uma mulher se afirmar como sujeito. A Tággidi falou outro dia de como a propaganda molda nossas mentes e corpos. Produtos de beleza tornam-se promessas de sucesso. A felicidade é jovem, lisa, limpa. Antirrugas, perfumes, peeling, hidratação, drenagem linfática, escova progressiva, luzes, silicone, lipoaspiração, bronzeamento, musculação, clareamento dos dentes. Ficar bonita e pagar pela beleza é vencer na vida.
"Uma coisa é viver pela imagem, mas essas feministas aí são muito descuidadas, credo". Ora, um pouco de perspectiva histórica não faz mal a ninguém. Temos que pensar no significado da ruptura da imagem tradicional da mulher provocada pelo movimento feminista nos anos 60/70. As feministas desta época romperam com uma beleza considerada burguesa e alienada e valorizaram mais o natural: o natural de um corpo solto, livre.
Li uma entrevista interessante sobre o assunto, não muito recente (de 2003), com uma escritora e militante francesa chamada Benoîte Groult. Seu caso é particular pois ela viveu sua juventude no meio da moda, sua mãe tinha uma maison de couture e seu tio era o famoso estilista Paul Poiret, considerado um precursor do estilo Art Déco. Na entrevista, Benoîte fala da obrigação de seduzir os homens que pesava sobre as garotas em idade de se casar:
Benoîte conta então como, nos anos 70, as mulheres da sua geração deixaram de ter vergonha do próprio corpo e buscaram falar sobre ele, conhecê-lo. Elas se libertaram da obrigação de serem belas para casar e das roupas que as oprimiam, não só simbolicamente, mas também fisicamente: a cinta-liga, por exemplo, que machucava e cortava a cintura.
Ser bonita é ser feliz! ... já dizia a propaganda de sabonete.
por Barbara Falleiros
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| Atributos típicos da feminista padrão: cabelo mal cuidado, roupa desleixada, fumo e muitos pelos no corpo. |
Nos últimos meses, com as garotas da Femen oferecendo à grande mídia a imagem polida de neofeministas nórdicas geneticamente privilegiadas (como sugeriu Sara Winter), assistimos a uma grande revolução: a palavra feminista, que o vulgo assimilara anteriormente a sapatona hippie peluda desleixada, ganha a nova acepção de loirinha gostosa pagando peitinho. Como convém, a luta das mulheres reduz-se a este âmbito, por natureza "feminino", que é a beleza: só o que interessa é saber se a ativista é feia ou bonita, encaixá-la ou excluí-la de um padrão de beleza. E por quê? [Aqui termina a ironia desta introdução] Porque a beleza é o único poder que se concede às mulheres.
As relações entre feminismo e beleza são complexas; estes conceitos, por si só, já o são. Porém, mais uma vez a história nos ajuda a fugir das generalizações da ignorância. A grande bandeira do senso comum antifeminista é a de que feministas não são femininas, entendendo a feminilidade como uma certa graça, delicadeza, vaidade e beleza características das mulheres. Só aí já dava discussão para uma vida inteira.
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| "Linda e loira" já no século XV. Mas ainda nada de silicone, bronzeamento ou alisamento. |
Mas vamos devagar. Primeiramente, não dá para ser "contra a beleza" pois esta, enquanto experiência de apreciação estética, é própria do gênero humano. Padrões de beleza ideal estão presentes em todas as sociedades, em todos os tempos. No entanto, estes padrões não são absolutos mas variam conforme o lugar e a época. Por exemplo, na Europa do século XV, o ideal de beleza feminina caracterizava-se pela pele pálida, os seios pequenos, o ventre redondo. Jamais uma dama tentaria esconder com seus cabelos louros uma testa proeminente! Pelo contrário: as outras é que, desesperadas, tentavam aumentar a superfície da sua testa depilando com cal viva o alto da cabeça... Vale dizer também que, nesta época, a beleza era entendida como um reflexo das qualidades morais...
Mas se há sempre um padrão ideal que se busca atingir, por que é então que as feministas criticam as mulheres que querem ficar mais bonitas? - pergunta de novo o senso comum. Balela. Mas pensemos: ficar bonita por que e para quem? A nossa beleza ocidental, "globalizada", é também comercializada. É um produto. Por trás dela está a indústria da beleza. Esta indústria precisa criar um ideal cada vez mais inatingível para abalar a tal ponto a nossa percepção de si, para que nos sintamos tão feias, tão desagradáveis visualmente, que a cada manhã passemos horas na frente do espelho, diante de um arsenal de frascos e tubos e aparelhos, nunca suficientes, para que tenhamos enfim coragem de levantar os olhos em direção ao outro e enxergar nossa presença no mundo. Odiar nossos corpos para comprar uma imagem melhor. O que as feministas criticam é esta necessidade de ser ou de ficar bonita (inclusive para "seduzir" um homem) como a única forma de uma mulher se afirmar como sujeito. A Tággidi falou outro dia de como a propaganda molda nossas mentes e corpos. Produtos de beleza tornam-se promessas de sucesso. A felicidade é jovem, lisa, limpa. Antirrugas, perfumes, peeling, hidratação, drenagem linfática, escova progressiva, luzes, silicone, lipoaspiração, bronzeamento, musculação, clareamento dos dentes. Ficar bonita e pagar pela beleza é vencer na vida.
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| Benoîte Groult |
Li uma entrevista interessante sobre o assunto, não muito recente (de 2003), com uma escritora e militante francesa chamada Benoîte Groult. Seu caso é particular pois ela viveu sua juventude no meio da moda, sua mãe tinha uma maison de couture e seu tio era o famoso estilista Paul Poiret, considerado um precursor do estilo Art Déco. Na entrevista, Benoîte fala da obrigação de seduzir os homens que pesava sobre as garotas em idade de se casar:
"Durante toda a minha infância, eu vivi obcecada pela obrigação de beleza e sedução que era imposta às meninas. Em 1936 eu tinha 16 anos e nessa idade, naquele tempo, entrávamos na horrível categoria de meninas "para casar" (...). Se, com 25 anos, a gente ainda não estivesse casada, entrávamos em outra categoria horrível, a das solteironas, o terrível arquétipo da literatura dos dois últimos séculos: tornávamo-nos aquela tia largada, desprezada, prima pobre, éramos consideradas necessariamente feias."
Bette Davis, solteirona em
The Old Maid
Benoîte conta então como, nos anos 70, as mulheres da sua geração deixaram de ter vergonha do próprio corpo e buscaram falar sobre ele, conhecê-lo. Elas se libertaram da obrigação de serem belas para casar e das roupas que as oprimiam, não só simbolicamente, mas também fisicamente: a cinta-liga, por exemplo, que machucava e cortava a cintura.
"Que libertação, que felicidade! Era como se eu tivesse renascido! Eu tinha mais de 40 anos, mas comecei a viver. Já não era obrigada a usar os vestidos de alta-costura da minha mãe. Nós não éramos obrigadas a obedecer aos cânones de beleza. Podíamos afrouxar as algemas, vestir-nos como gostávamos (...)"
Ao promoverem uma liberação física e mental em relação ao corpo feminino, elas conseguiram usufruir de uma liberdade que fez com que se sentissem
de fato belas. Uma ideia eficiente retomada por uma série de campanhas
atuais que procuram incentivar as mulheres a amarem e respeitarem o
próprio corpo.
Benoîte Groult é uma feminista que fez plástica e que não é contra a medicina estética per se. Sim. Existe. Mas daí a fazer das mulheres escravas de um padrão cruel e inatingível é bem diferente. Ela chama a atenção para o que considera um retrocesso na nossa época, uma vulnerabilidade aos ditados da moda e aos padrões de beleza que prova como ainda estamos impregnadas da ideologia tradicional.
Benoîte Groult é uma feminista que fez plástica e que não é contra a medicina estética per se. Sim. Existe. Mas daí a fazer das mulheres escravas de um padrão cruel e inatingível é bem diferente. Ela chama a atenção para o que considera um retrocesso na nossa época, uma vulnerabilidade aos ditados da moda e aos padrões de beleza que prova como ainda estamos impregnadas da ideologia tradicional.
É desesperador! É como se a revolução de 1968 não tivesse servido para nada. Seios siliconados, lábios inchados artificialmente, coxas lipoaspiradas! Impõe-se uma beleza feminina estereotipada que é uma escravidão.
(...) Chegamos a um estágio inacreditável de pornô chique na moda. E ninguém diz: vocês são ridículas com seus saltos agulha torturando seus dedos, vocês morrerão de dores nas costas mais tarde. Estas mulheres que eu vejo nos aeroportos com seus saltos 12 cm, de saia apertada, arrastando malas pesadas, olho pra elas com a mesma pena que me inspiram as mulheres de véu. Todas elas se deixam condicionar, umas pela religião, outras pela sociedade de consumo ou pelas supostas fantasias masculinas.
Com esta crítica, retomo as perguntas colocadas acima. O cerne da questão não está em ser ou não ser bonita, mas em ser bonita para que, por que ou para quem? Para se sentir amada? Para se dar valor? Simplesmente para existir? É nas motivações que se escondem as amarras.
Ser bonita é ser feliz! ... já dizia a propaganda de sabonete.
14 de outubro de 2012
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3
por Barbara Falleiros
... A violência do sexismo ordinário numa manhã de segunda-feira. Contei isso no meu mural do Facebook. Alguns ficaram chocados, sensíveis à agressividade da cena. Outros riram. Outros botaram na conta do tão famoso mau humor parisiense. Perguntaram-me o que as mulheres responderam. Não é difícil adivinhar: balbuciaram uma resposta, ficaram sem jeito e finalmente se calaram. O homem conseguiu o que queria.
"Solteira, mas chique". Quanto sentido se esconde atrás de uma mera conjunção adversativa! Celibato e elegância, dois termos inconciliáveis que se unem por intermédio da Kookaï. O que diz a marca é que ela é capaz de conferir algum valor a uma pobre mulher incapaz de seduzir e manter um homem ao seu lado. Vestindo Kookaï e sem descer do salto, esta mulher troca sozinha o pneu do carro, já que não tem um homem que o faça por ela. Viva a independência! A marca tenta dar uma outra nuance à propaganda traduzindo "single" por "sozinha no mundo". Não convenceu. Aliás, não dá pra saber o que é pior.

SEXTA-FEIRA
No ônibus lotado, cheio de idosos, um lugar fica vago. Um homem de uns 50 anos, com uma das mãos enfaixada, oferece o lugar para uma garota adolescente. Ela recusa. Ele insiste. Ela recusa novamente. Ele se senta e diz sorrindo: "Bom, se hoje em dia as mulheres não querem se sentar, sento eu!" Um homem educado, não é? Na verdade, não. Mesmo que ele tivesse as melhores das intenções, ao insistir para que a garota se sentasse, este homem estava assumindo que toda mulher é fraca, mais fraca que um homem, mais fraca que um homem mais velho e machucado...
DOMINGO
Comentando com uma amiga o nome curioso de um conhecido: "Ah, era um personagem de livro!" - digo. "Nossa, o pai dele devia gostar de ler!" - ela responde. O pai... E por que não a mãe? Por que é o pai quem dá a palavra final com relação ao nome do filho? Por que se alguém na família tem um nível cultural elevado, é mais provável que seja o pai?
por Barbara Falleiros
Même la guerre est quotidienne.
Marguerite Duras
Perdõem-me o teor egocêntrico desta introdução. Mas quando meus textos começaram a aparecer aqui no Subvertidas, todo mundo achou assim... meio esquisito. É que, embora eu tenha estudado um pouco sobre a vida das mulheres na Idade Média, nunca tinha levantado bandeiras. Ninguém diria de mim com convicção: "Ah, aquela lá é uma feminista!" Certamente pela palavra carregar consigo um estigma muito grande. O fato é que conheço pouco da teoria feminista. Porém, como qualquer mulher, tenho minhas histórias de horror pra contar, guardo na memória a imagem enevoada do medo. Como toda mulher, enfrento as pequenas violências cotidianas, as piadinhas que parecem inocentes, os abusos verbais travestidos de cantadas, o dilema da família versus carreira, o acúmulo de responsabilidades, as pressões com relação ao corpo, à idade, à maternidade, aos cabelos brancos que já insisto em esconder...
Desde que comecei a escrever aqui, passei a observar com mais atenção esses detalhes cotidianos. No post de hoje reproduzo algumas notas sobre o que vi e ouvi nos últimos dias.
QUINTA-FEIRA
Acompanho por alto um grupo do Facebook que tentou organizar - sem sucesso - um debate com a Führerin do Femen Brazil, Sara Winter. Como não houve diálogo e o Femen Br perdeu sozinho toda a credibilidade, o tal grupo do Facebook mudou de rumo e passou a debochar da Sara, ao mesmo tempo em que tentava promover discussões feministas. O volume de mensagens é grande mas, se entendi bem, a Sara estava se fazendo de morta para evitar as perguntas quando alguém teve a ideia da seguinte "piadinha", com base na imagem, ao lado, do best-seller Onde está Wally? A resposta, que vinha em seguida, era esta:
E o pessoal achou graça. As semanas passaram e é como se nada tivesse restado da polêmica em torno do comercial do homem invisível, da Nova Schin. No entanto, os elementos da imagem são os mesmos: na praia, uma mulher é importunada por um jovem e, num sobressalto, acaba mostrando os seios; os dois homens que se viram para olhar a cena estão sorrindo, enquanto outras duas mulheres exibem uma expressão de espanto. Assim, esse livro que é um clássico da nossa infância mostra que submeter uma mulher a uma situação vergonhosa é engraçado (para os homens). E o pessoal riu... dentro de um grupo feminista, o pessoal riu. Como se não bastasse, a própria ideia da "piadinha" ridiculariza não só o sumiço, mas também a nudez de Sara nos protestos. Surpresa! Exatamente como a propaganda do Fiat Punto.
SEGUNDA-FEIRA
No trem. Duas mulheres adultas conversam ao lado de um homem de uns quarenta anos, vestindo terno e gravata. Ele interrompe uma delas: "Com licença, senhora, posso fazer uma pergunta?" A mulher, surpresa, responde com educação: "Sim, claro, senhor!" E ele continua: "Vocês estão na menopausa? Por que não ficam quietas?"
... A violência do sexismo ordinário numa manhã de segunda-feira. Contei isso no meu mural do Facebook. Alguns ficaram chocados, sensíveis à agressividade da cena. Outros riram. Outros botaram na conta do tão famoso mau humor parisiense. Perguntaram-me o que as mulheres responderam. Não é difícil adivinhar: balbuciaram uma resposta, ficaram sem jeito e finalmente se calaram. O homem conseguiu o que queria.
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| Alguém acha graça? |
Sinto muito, mas não tem graça. Tampouco é um caso de mau humor. O que este homem disse não é o fruto de uma reação individual de exasperação provocada por um estado particular de espírito, é a reprodução de um discurso arraigado sobre a relação das mulheres com a palavra. "Pleurer, parler, filer, femmes l'ont de nature", disse no século XIV o cronista Gilles Li Muisis, amigo de Dante: "É da natureza feminina chorar, falar e fiar". A mulher é tradicionalmente associada à esfera da sensibilidade, enquanto o homem é colocado do lado da racionalidade. E somos educados para isso. Meninos não choram, certo? Qual a porcentagem de homens num curso de literatura e de mulheres num curso de engenharia? A mulher sente e fala, o homem reprime e pensa. É por isso que este homem do metrô se considera no direito de repreender duas pessoas desconhecidas em um local público, simplesmente porque ele é o homem (sério, detentor da autoridade) e elas são as mulheres (desequilibradas, falam demais).
"A mulher louca é alvoroçadora, é simples e nada sabe", lemos nos Provérbios 9:13, enquanto que "A mulher sábia se mantém calada", lembra o Bispo Edir Macedo. Afirmar que a mulher fala demais é o mesmo que dizer que sua palavra não tem nenhum valor.
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| Isto não é uma piada, é uma estratégia de desvalorização da palavra feminina |
QUARTA-FEIRA
Nos corredores do metrô, passo por dois cartazes publicitários de uma marca de roupas.
"Solteira, mas chique". Quanto sentido se esconde atrás de uma mera conjunção adversativa! Celibato e elegância, dois termos inconciliáveis que se unem por intermédio da Kookaï. O que diz a marca é que ela é capaz de conferir algum valor a uma pobre mulher incapaz de seduzir e manter um homem ao seu lado. Vestindo Kookaï e sem descer do salto, esta mulher troca sozinha o pneu do carro, já que não tem um homem que o faça por ela. Viva a independência! A marca tenta dar uma outra nuance à propaganda traduzindo "single" por "sozinha no mundo". Não convenceu. Aliás, não dá pra saber o que é pior.
"Esfomeada, mas chique". Uma geladeira cheia de salada, um iogurte na mão, do tipo desses "iogurte de mulher" com 0% de gordura e de açúcar. Apologia a um padrão de beleza magro e incentivo à anorexia, assim, abertamente. Os que conceberam esta propaganda devem ter se sentido muito orgulhos de criar um conceito "provocante", reprodução tão original do discurso dominante...

SEXTA-FEIRA
No ônibus lotado, cheio de idosos, um lugar fica vago. Um homem de uns 50 anos, com uma das mãos enfaixada, oferece o lugar para uma garota adolescente. Ela recusa. Ele insiste. Ela recusa novamente. Ele se senta e diz sorrindo: "Bom, se hoje em dia as mulheres não querem se sentar, sento eu!" Um homem educado, não é? Na verdade, não. Mesmo que ele tivesse as melhores das intenções, ao insistir para que a garota se sentasse, este homem estava assumindo que toda mulher é fraca, mais fraca que um homem, mais fraca que um homem mais velho e machucado...
DOMINGO
Comentando com uma amiga o nome curioso de um conhecido: "Ah, era um personagem de livro!" - digo. "Nossa, o pai dele devia gostar de ler!" - ela responde. O pai... E por que não a mãe? Por que é o pai quem dá a palavra final com relação ao nome do filho? Por que se alguém na família tem um nível cultural elevado, é mais provável que seja o pai?
Pois esta foi a minha semana.
Aqueles que estão tão bem acomodados a uma configuração social injusta lançarão mão de todas as estratégias de silenciamento, velhas como o mundo, e dirão mais uma vez que tudo isso é um grande exagero. Que é mania de perseguição, que é falta de senso de humor, que eu estou maluca, que não sei levar na brincadeira, que a gente é tudo um bando de drama queen, que é mal amada, que tem inveja porque é feia, que é burra e não entendeu, que bem-feito-quem-mandou-ser-desse-jeito, que não sabe fechar a matraca, que agora só falta chorar...
A força do machismo está no acúmulo de pequenas coisas. Um acontecimento isolado é um detalhe, um conjunto de pequenas coisas "sem importância" constitui um sistema de veiculação de ideias e valores que servem a uma determinada configuração do poder.
A realidade esta aí, toda, inteira. Basta ver e ouvir.
23 de setembro de 2012
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