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Os filósofos iluministas e a mulher - a contribuição de Adília Maia Gaspar

por Tággidi Ribeiro

Não só as religiões trataram de produzir discursos que, digamos assim, 'esquentassem a chapa' das mulheres. Desde nos dividir entre santas e putas e nos culpar por sermos estupradas a nos obrigar a pagar (com nossos corpos) dívidas de outros homens da casa - as religiões complicaram e muito as nossas vidas. As tais não são, contudo, as únicas culpadas (para usar vocábulo apropriado) por termos sido massacradas* ao longo da história. Não só os religiosos, mas também alguns (muitos) filósofos fizeram o favor de tentar justificar o tratamento vilipendioso dado às mulheres.

No livro A Representação das Mulheres no Discurso dos Filósofos: Hume, Rousseau, Kant e Condorcet, a portuguesa Adília Maia Gaspar reúne textos desses quatro filósofos iluministas sobre a mulher. Que ninguém pense em relativizar historicamente o pensamento desses homens (brincando sério): são todos contemporâneos e ainda assim têm visões distintas acerca do valor da mulher na construção da sociedade e como ser humano. O chato, na verdade, é saber que as ideias mais machistas foram as que mais ganharam adesão, sendo publicizadas pelos grandes meios e repetidas à exaustão pelos ogros de hoje.

Kant
"Mulher tem que ser bonita" - agora o povo do boteco vai poder falar de boca cheia que quem disse isso foi Kant. Bem, ele não disse exatamente dessa forma - ele separou os gêneros em belo e nobre. A mulher (o belo sexo), segundo Kant, é naturalmente mais bela que o homem e pouco capaz de pensar. O homem (o sexo nobre) é naturalmente mais dado à filosofia que a mulher, e nem de longe tão belo. Para que os pares não parecessem muito díspares, Kant recomendava à mulher ganhar algum verniz intelectual; ao homem, recomendava que estivesse limpo e arrumadinho.

Rousseau
"Lugar de mulher é na cozinha" - Rousseau dizia que as mulheres tinham uma tendência natural a obedecer. Se elas eram mais fracas fisicamente, isso era sinal de que deviam ser submetidas aos homens (interessante o filósofo que questiona o direito da força dizendo isso, não?). Já que as mulheres tinham nascido dóceis e fracas, Rousseau achava que elas deviam ser ensinadas a serem boazinhas, agradáveis e a cuidarem da casa.

Hume e Condorcet, contemporâneos mais esclarecidos desses dois outros famigerados filósofos das luzes, atribuíram à pressão social o fraco desejo sexual e o recato, à época considerados naturais nas mulheres (Hume) e pretenderam que o direito à educação e ao voto fossem garantidos igualmente a homens e mulheres (Condorcet). Este chega a defender uma ideia completamente absurda para os homens do século XVIII e que ainda hoje não é aceita por todo mundo: a de que mulheres também são capazes de fazer-se cientistas e filósofas. Para prová-la, refere professoras de medicina e filósofas do século XVII, estigmatizadas e posteriormente proibidas de frequentar as universidades.

Condorcet
Verdadeiramente revolucionárias em sua época, as palavras de Hume e Condorcet foram escarnecidas e providencialmente esquecidas. Ainda bem que mulheres conscientes como a Adília Maia Gaspar perceberam a importância fazer esse trabalho de rememoração, buscando na história do pensamento masculino a história da mulher. Como povos conquistados, nós mulheres precisamos ler as entrelinhas da história do conquistador para construir a nossa história. Precisamos, sobretudo, contestar a narrativa do conquistador.



*Falar em massacre de gênero não é exagero: nos proibiram a educação, fomos varridas da vida política, submeteram-nos ao confinamento doméstico, reprimiram nosso desejo mas repetidamente nos violentaram, e, quando quisemos nos revoltar, nos mataram.

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Outubro Rosa, porque algumas lutas são de todos nós


por Mazu



O Outubro Rosa poderia ser azul, verde ou lilás, mas quando se trata de prevenir e tratar de um assunto tão importante, acho que podemos deixar determinadas coisas de lado, só por um momento. Existem vários mitos que explicam a atribuição arbitrária de cores para masculino e o feminino. E, em algum momento de nossas vidas já escutamos várias histórias sobre como a cor lilás foi atribuída ao movimento feminista (cor do tecido de operárias assassinadas, junção entre o vermelho e o azul, etc). Contudo, entretanto, todavia, discutir as cores e o reflexo delas na sociedade e movimentos sociais não é bem a intenção deste post. Apesar de isso dar pano para manga e ser muito interessante, gostaria mesmo de aproveitar o Outubro Rosa e falar sobre a importância da prevenção do câncer de mama e alguns tabus que, infelizmente, ainda existem.

Assisti a uma pequena notícia de outubro do ano passado sobre o câncer de mama, machismo e tabu. Apesar de pequeno o vídeo incita muita reflexão. Acontece que para algumas mulheres, tocar-se, despir-se e ser tocada ainda são coisas culturalmente difíceis de lidar. E quebrar esse tabu pode ser super importante se isso ajudar a detectar qualquer problema e salvar vidas. 
Tocar-se e conhecer-se

Como disse, o vídeo é uma notícia bem rápida sobre mulheres das comunidades rurais mexicanas, apontando que, ano passado, ainda existiam mulheres que não faziam o exame porque os maridos temiam que suas mulheres fossem vistas ou tocadas pelos médicos. Isso parece distante da nossa realidade, mas deve ser muito mais real do que imaginamos. Especialmente, no Brasil, em que determinadas coisas insistem em ficar mascaradas.

Um argumento bom para começar é que os seios são nossos. Ponto, parágrafo, próxima linha. Não importa se uma mulher é casada com um homem, outra mulher ou se é religiosa ou não, ou se está aqui ou na China. Quando se trata da prevenção de uma doença como câncer é muito importante ter a noção, o senso, o sentimento de indivíduo. Isso porque se eu ficar doente, ainda que as pessoas que me amam e se preocupam comigo sofram, ninguém vai ficar doente comigo, certo? Ninguém vai dividir esse fardo específico comigo. Nem o marido, nem o pai, nem os amigos. Eles podem ficar tristes, mas, eventualmente, quem vai passar por tudo (e é muita coisa) sou eu.

Congresso Nacional Rosa pelo Outubro Rosa
Não quero dizer aqui que as pessoas têm que ter uma atitude egoísta com relação ao câncer. Na verdade, quanto mais solidariedade melhor. O que deve ficar claro é que meu corpo é meu, e o seu, é seu. Esse sentimento de autorrespeito e autoconhecimento pode evitar várias coisas e está relacionado com abandonar aquele mito da mulher patrimônio de que já falei aqui. Prevenir-se contra o câncer de mama é um dos vários motivos pelos quais as mulheres devem se entender como donas dos seus próprios corpos.

Todo mundo sempre conhece uma história, uma anedota sobre essa posse/ciúme do corpo alheio, sempre conhecemos alguém cujo companheiro não gosta que a esposa amamente em público ou corte o cabelo, ou altere sua aparência física de alguma forma. É importante perceber o seguinte: agradar ou ser mais paciente com essa ou aquela "besteirinha" da(o) parceira(o) não é um problema. O problema é o excesso, quando isso pode custar a dignidade ou a saúde de alguém. E também quando todas as tentativas de agradar ou compreender são unilaterais, ou seja, só partem de uma das pessoas no relacionamento.

Em 2004, uma trabalhadora metalúrgica do ABC paulista levou um beliscão no seio do seu superior direto, no chão de fábrica, em horário de expediente e, o mais importante, sem o consentimento dela. Na época, eu trabalhava com vários sindicalistas na CUT, e estávamos todos prontos para ajudá-la com os vários processos que isso acarretaria. Nunca conseguimos. A trabalhadora não seguiu adiante com as denúncias porque seu namorado ficou muito incomodado de ser publicamente visto como corno, já que outro homem havia apalpado SUA mulher. E aí está um exemplo claro de excesso. Deixar de exercer um direito ou deixar de cuidar da saúde por outra pessoa não compensa. Ninguém que ama e se importa de fato, exigiria esse tipo de sacrifício.

Catedral iluminada de rosa em Brasília
Não é que a gente não precisa da ajuda ou cooperação dos companheiros e companheiras, insisto, quanto mais solidariedade, melhor. O envolvimento de todos no combate e prevenção pode salvar vidas. As iniciativas como o Outubro Rosa são essenciais, e todos e todas devemos participar. É importante encorajar as mulheres das nossas vidas a se prevenir e se cuidar. Como mulheres, devemos procurar médicos que nos façam sentir confortáveis e devemos nos sentir confortáveis conosco mesmas para fazer e pedir aos médicos exames de todo o tipo. Lembrando que todo câncer quando detectado em estágios iniciais tem grandes chances de cura. Nenhum argumento deve valer mais que esse.

PS.: Antes que alguém venha como alguma piadinha sobre o câncer de próstata, vou me adiantar. As subvertidas apoiariam, com certeza, qualquer iniciativa que buscasse quebrar tabus para salvar vidas. Afinal, esse é um dos preceitos do movimento feminista, queremos homens e mulheres vivendo felizes e saudáveis!

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Feminista aos 30


por Roberta Gregoli

Desde que comecei este blog e, mesmo antes disso, quando comecei a me identificar mais forte e abertamente com o feminismo, várixs conhecidxs, em graus variados de boa intencionalidade, me questionaram. Me perguntaram se feminismo não era o contrário de machismo, e por isso igualmente radical; me perguntaram se não era melhor ver as pessoas simplesmente como pessoas, sem rótulos como mulheres, negros, etc (a resposta para estas perguntas estão aqui); e sempre tem um ou outro que faz piada, fica desconfortável ou ri quando eu digo que sou feminista. 

Isso não me incomoda, mas me levou a um outro tipo de auto-questionamento: por que agora? Afinal de contas, eu sempre fui mulher e a sociedade não mudou muito nos 30 anos em que estive neste mundo. 

Acho que existem alguns fatores pessoais, outros mais gerais. Pessoalmente, tenho estudado gênero há alguns anos e, quanto mais 'treinamento' se tem, mais se enxerga o machismo. É a velha história do fusca verde. Você compra um achando que não tem igual, mas a partir daquele momento começa a ver fuscas verdes em todo o lugar. A conscientização é um processo muito forte e é um dos principais objetivos deste blog. 

Mas mesmo quem nunca estudou gênero pode se identificar com as ideias feministas, sobretudo quando o sexismo bate na porta - e ele certamente bate na nossa porta aos 30.

Aos 30 anos algumas pressões sociais começam a pesar mais forte: você começa a se questionar sobre a sua carreira e, como mulher, percebe que é mais difícil chegar ao topo. Na escola e na faculdade você provavelmente se destacou - não faltam evidências de que as mulheres em geral vão melhor na escola e formam a maioria dxs ingressantes, e concluintes, na universidade -, mas, de repente, se vê ganhando menos que a maioria dos seus colegas homens. É como se, até o final dos estudos nos dissessem que podemos chegar lá, e, por nós mesmas nos damos conta de que, na verdade, não. Essa barreira invisível, porém amplamente verificada no mundo todo, é chamada teto de vidro (minha tradução de glass ceiling, já que o conceito não está ainda popularizado no Brasil). O teto de vidro não se resume a um fator isolado, mas sim a uma combinação de fatores, mensuráveis ou não, que impedem as mulheres de chegar ao topo, independente do grau de escolaridade e qualificação profissional.

E evidências da existência do teto de vidro não faltam: lacuna salarial de quase 30% no Brasil, menos de 4% de mulheres CEOs nas 500 maiores empresas dos Estados Unidos, 18% de mulheres nos cargos mais alto das universidades europeias (e apenas 9% de reitoras, apesar de 59% dxs graduandxs serem mulheres), discriminação de gênero e raça em processos seletivos (que pode ser consciente, do tipo "pede-se boa aparência", que é outro jeito de dizer "brancx", ou inconsciente, e aqui entram processos de identificação em que o chefe, muito provavelmente homem e branco, tem mais chances de se enxergar naquele "jovem promissor" do que numa jovem tão promissora, e talvez tão ou mais qualificada).

Para as que ainda não se decidiram, os 30 é também a época em que provavelmente mais nos questionamos se queremos ou não ter filhos - e enfatizo estas palavras porque está claro que no Brasil ainda persiste a infeliz ideia da maternidade compulsória. Aí entram questões como o equilíbrio entre vida pessoal e carreira e o desafio de se passar da jornada dupla para a jornada tripla de trabalho.


Aos 30 anos, começamos a sentir os primeiros sinais do envelhecimento e, num contexto em o valor das mulheres é medido exclusivamente pela aparência, trata-se de um processo desafiador. Não importa a competência, o sucesso, a inteligência, o talento... que o diga Hillary Clinton, Adele, Dilma Rousseff.

Enfim, acho que os 30 é quando começamos a ficar fartas - tirando as que foram mais espertas mais cedo. É quando cansamos de ver que os chefes dão mais atenção, e valor, ao que um homem fala do que ao que você fala, mesmo você sabendo que suas ideias têm mais substância; quando cansamos de trabalhar o dobro para ter o mesmo reconhecimento; quando estamos sábias o suficiente para entender que cantadas não são elogios e sim mais uma forma de abuso verbal; quando entendemos que a impossibilidade de amizade entre homens e mulheres é um mito baseado na ideia de que mulheres não podem ser mais do que objetos sexuais; quando nos damos conta de a competição feminina é uma grande balela com o objetivo de nos manter desunidas.

É por isso que sou feminista. E é por isso que agora, mais do nunca: porque, para mim, o feminismo me ajuda a entender, melhor do que nunca, o mundo e a minha circunscrição nele.


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Violência Psicológica



por Mazu


Já falamos aqui no Blog em várias ocasiões sobre a violência contra a mulher e até sobre a violência da mulher contra o homem. Na maioria das vezes, falamos da violência física porque ela chama mais a atenção, é mais evidente pelas marcas que produz e, consequentemente, mais evidente nas estatísticas. 

A violência psicológica foi abordada de maneira geral porque quando falamos de diversos preconceitos e padrões acabamos tocando na questão. Se existe um padrão preconceituoso do que é mulher boa e certa e do que as que não o são merecem por não serem, isso é também violência psicológica.

O que aconteceu foi que, ontem, assisti um episódio de uma série policial que gosto muito chamada Criminal Minds, que tratou da violência doméstica psicológica.
Elenco de Criminal Minds

O enredo principal de "The Crossing", o episódio em questão, gira em torno de uma mulher que um dia disse "ops" para um técnico de informática que prestava serviço para sua empresa, e ele, então, com base nisso, passou a persegui-la e criou uma relação fantasiosa entre eles. Esse caso daria um debate bem interessante que vou deixar para a próxima, já que gostaria mesmo de comentar o enredo secundário, que trata de uma mulher que atirou no marido enquanto ele dormia.

Essa senhora nunca tinha sofrido nenhuma espécie de violência física, mas seus advogados estavam alegando "síndrome da mulher agredida" (tradução super literal, não sei se temos alguma coisa parecida no Brasil). Quando os agentes vão entrevistar os dois filhos do casal, eles dizem que o pai, na verdade, era super paciente com a mãe, que era uma péssima dona de casa e burra.  Os agentes visitam a casa da família que era muito limpa e tinha um esquema de organização quase milimétrico. E quando vão entrevistar a mulher, ela diz que não, que o marido nunca a agredira nem quando ela merecia e que, era, pelo contrário, muito paciente tendo em vista que ela era péssima em tudo. Disse também que não participava da vida escolar dos filhos porque já os constrangia bastante dentro do lar e não queria fazer isso também fora de casa. Ou seja, o marido criou para ela (e para os filhos) uma imagem de incompetente, incapaz e não-merecedora. E isso justificou anos de maus tratos (psicológicos) da família, enquanto ela era basicamente uma empregada doméstica na casa.
Mary-Margaret Humes, em sua excelente interpretação
da esposa assassina
Na hora, lembrei-me de diversas pessoas que conheci ao longo da vida, inclusive de mim mesma. Tive, durante a faculdade, por quase dois anos um namorado muito ciumento cuja tática era me fazer sentir burra e, às vezes, feia. Nunca chegou a nenhum extremo porque me livrei disso, graças a mim. Lembrei também de uma prima, uma amiga e do caso Yoki, que já comentei aqui. Mais uma vez, não quero dizer que devemos matar nem usar de violência, insisto nisso porque quando fui tratar do caso da Elise andaram dizendo por aí que eu estava defendo o ato dela, e eu não estava. Nem estou agora defendendo o ato da mulher fictícia que assassinou o marido no seriado. As Subvertidas são contra toda forma de violência. Estou só dizendo que a violência psicológica é uma das principais formas de dominação, se paramos para pensar. Já dissemos aqui, existe um imaginário idiota na nossa sociedade de que diz que tudo de ruim que acontece com uma mulher acontece por culpa dela. Esse imaginário besta junto com imposição psicológica e falsa de que não somos boas o suficiente ou não somos boas como são os homens em determinadas coisas é o que forma o aparelho da opressão feminina.

Lembra que a Tággidi escreveu sobre motivos para não casar? Então, essa crença do "amarre um homem se for capaz e, se não for, morra sozinha" é uma das maneiras de diminuir a gente. E mais, essa opressão psicológica "de ser menos" acaba por fortalecer outros imaginários patriarcais da nossa sociedade, tipo o de que precisamos de um homem para sermos inteiras, completas. O tipo de coisa que irrita muito. E as companheiras lésbicas? E se uma mulher simplesmente não quiser casar ou qualquer coisa do tipo? Porque, na real, relacionamento não completa, nem conserta ninguém.

E aí, enquanto esse aparelho da opressão funciona na nossa sociedade, algumas mulheres toleram violência, toleram o fato de trabalhar muito mais, como acabou de descrever a Bárbara, a gente vai ficando tolerante porque é incutida em nós a idéia de que temos que ser tolerantes, porque somos menos. Perigoso, não é mesmo? E já deu né? Passou da hora de romper com isso, nós não somos menos. Nunca fomos. Ser solteira não é defeito, muito menos ser independente. E se uma mulher tem um homem em sua vida, isso pode ser bom ou ruim, mas ela é o que é, com ou sem ele.

Hoje, estou de aniversário, 31, vai vendo. Minha irmã me ligou e eu estava me queixando de estar envelhecendo ao que ela respondeu: pelo menos você já casou. Fiquei tão chateada, de todas as coisas que já fiz nessa vida, em 31 anos, (não vou mentir: queria ter feito mais), mas, ainda assim, ela se lembrou só do meu casamento como um grande feito que deveria me acalmar diante do fato de passar dos trinta. Sei que ela não fez por mal, afinal, somos criadas assim. Escutamos nas novelas, filmes, em todos os lugares que casamento e filhos deveriam ser nossos grandes objetivos de vida. E é por isso que movimento feminista precisa crescer, ainda mais, para ocupar, ainda mais, esses espaços e quebrar esses padrões.

Enfim, todos os episódios de Criminal Minds começam e terminam com uma citação, vou copiá-los e terminar com a citação final do episódio que comentei:
"Woman must not depend upon the protection of man, but must be taught to protect herself."
Susan B. Anthony
(Uma mulher não deve depender da proteção de um homem, mas deve ser ensinada a defender a si mesma)

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Que educação dar a seu filho?


por Tággidi Ribeiro


Esse post não diz como vocês (homens e mulheres) devem educar seus filhos. Mas certamente apontará como não educar.  

Para começar, quero me dirigir às mulheres (homens, continuem a leitura, vocês são a contrapartida das lembranças que se sucederão). Pergunto: mulheres, quando vocês sofreram as primeiras investidas masculinas? Quando foram desrespeitadas - tiveram seus corpos invadidos de alguma forma - pela primeira vez?

Eu me lembro de que na infância eu já era assediada por seres do sexo masculino. Eles eram tão criança quanto eu e, por isso, durante grande parte da minha vida, atribuí o comportamento agressivo dos meninos nessa fase específica da vida como coisa de criança, de gente que ainda não aprendeu a se comportar.

Hoje vejo o erro desse ângulo de visão. Na verdade, aqueles meninos já haviam aprendido a se comportar e o que faziam era fruto de seu aprendizado de como tratar uma menina. E o que eles faziam? Bem, me lembro de diversas situações, todas análogas às do mundo adulto. De estar num clube, por exemplo, e me passarem a mão - não um fdp pedófilo, mas uma criança da minha idade (6, 7 anos). Lembro-me de que muitas vezes eu e minhas colegas tivemos nossas saias levantadas, quando os meninos não davam um jeitinho de espiar nossas calcinhas. Lembro-me de ser chamada de gostosa por um menino da minha turma que me olhava como, descobri depois, um ator de filme pornô chinfrim olhava pra mulher que ele ia comer - e nós tínhamos só dez anos. 


Ainda aos dez, cansada de ser assediada por esse mesmo colega e completamente sozinha nisso porque diziam os adultos que se ele fazia era porque eu dava corda, porque eu não me dava ao respeito (hein?), resolvi pegar ele de porrada. Passei uma aula inteira mandando bilhetes em que dizia que ia acabar com ele e um amiguinho dele era quem respondia, dizendo que era o outro quem ia acabar comigo. Eu o esperei no fim da aula e ele tinha tanto medo que não fez nada. Eu o chacoalhava pelos braços e gritava: "Você ainda vai fazer isso comigo?" Ele não conseguia responder porque, acredito, jamais imaginou que uma menina pudesse se comportar daquela forma. 

Enfim, como eu dizia, erramos ao querer encerrar esse tipo de falta de respeito na infância, na "falta de educação" que consideramos normal nessa etapa da vida. Também não podemos julgar que tal comportamento é natural, sendo expressão da sexualidade infantil. Com o tempo descobri, acompanhando o crescimento de meninos muito próximos a mim, que eles são ensinados a desrespeitar as meninas - nas rodinhas masculinas, homens em formação ouvem seus exemplos (pais, tios, vizinhos) falarem das mulheres como corpos a serem devassados, importando ou não sua vontade (como espiar, como encarar, como roçar, como forçar). Ora, aprendemos sobretudo por imitação. Penso que a TV ou a internet sejam influências menos relevantes que as falas não censuradas dos heróis de nossa infância.

Lembro-me de que um menino bem próximo, de "dentro de casa", um dia enfiou a mão no meio das minhas pernas, rindo, na frente de todo mundo, e eu gritei com todas as minhas forças. Tínhamos seis anos. O que EU ouvi dos adultos em volta?

- Deixa de escândalo.



 Não é "bonitinho".

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Não demos amor à toa - ainda sobre Montserrat Moreno


por Mazu
A gente consegue.
Faz um tempinho que não apareço por aqui, então, vou fazer uma postagem dupla. Primeiro quero falar do vídeo da Montserrat Moreno que estou devendo há semanas. Aqui está, senhoras e senhores, com legendas, nada profissionais e sofridas porque espanhol europeu, naquela rapidez, difícil:

Educar com igualdade para aprender a amar sem violência.

Lembrem-se de selecionar o idioma da legenda para que elas apareçam.

Tem algumas coisas que queria comentar sobre o vídeo, já falamos muito aqui dos padrões que são seguidos na educação e que colaboram para a disseminação de alguns preconceitos, comportamento e discriminações. Depois de assistir ao vídeo, vocês vão entender que todos eles vieram da bunda dos cavalos da Grécia antiga. É pois é. De qualquer forma, ela destaca a importância de continuarmos a buscar nosso espaço no mundo acadêmico e seguirmos defendendo o que já conquistamos.

Agora, gostaria mesmo de chamar atenção para o final do vídeo sobre os mitos do amor romântico. O vídeo faz a gente pensar em todo mundaréu de bobagens que a gente ACHA que tem que aguentar por amor. Por exemplo, existem mulheres que suportam/suportaram violência e outras coisas por amor. Vai vendo.

Já disse aqui antes que minha mãe foi feminista, posso dizer seguramente que ela deixou de ser por amor. Olha que bosta. Então, depois de Montserrat Absoluta Moreno ter matado o cupido, vou deixar alguns conselhos pós-semana dos namorados:

Amor pra ser massa, tem que fazer bem. Ninguém deve suportar nada que lhe violente de forma alguma por amor, amor não é isso não. Isso é opressão, a gente já viu aqui que a opressão se veste de um monte de coisas. No caso das mulheres, se veste de humor, se veste de amor, instinto maternal e assim vai. Não é que as pessoas não devam se apaixonar ou ser mães e pais ou se casar. Não é isso. É que fica parecendo, a nossa sociedade faz parecer, que ser esposa, namorada, mãe deve ser a prioridade da mulher. Pode ser, se você quiser. Se não, beleza.

E toda vez que lhe for oferecido ou cobrado amor eterno e incondicional pergunte o porquê. Não entregue sua vida e sua existência a ninguém, nem por amor. Todo relacionamento prevê uma ou mais pessoas, ninguém deve fazer todo o trabalho. A gente sempre tem o direito de falar sim e sempre tem o direito de falar não. As pessoas fazem falta, mas seguimos sendo inteiras sem elas. Eu diria que ficamos mais inteiras sem algumas pessoas.

Eu queria muito que minha mãe ouvisse isso um dia ou que minha colega de trabalho que me contou hoje que desistiu de denunciar o ex-marido ouvisse isso. E eu quero, um dia, ensinar isso pros meus filhos. Queria mesmo que a gente abandonasse essa medida. Esse padrão.

E já que estamos falando de amor...
Eu quero te dar meu coração, vc quer? - Não obrigada.

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Professoras, educadoras e alunas:


Reflexões derivadas do livro Como se ensina a ser menina de Montserrat Moreno

por Mazu


Eu tive uma mãe feminista. Por algum tempo. Nada de ruim aconteceu com a minha mãe, ela vai muito bem de saúde, já do feminismo dela, não consigo dizer o mesmo. Agora que ela está chegando aos sessenta anos, ela está bem menos feminista, às vezes nada feminista, mas de qualquer forma, ela foi uma figura muito importante na minha constituição feminista.

Ela foi, provavelmente, uma das primeiras mulheres sindicalistas na minha cidade de 180 mil habitantes no interior paulista, bovino, ruralista e patriarcal. Certa feita, recebeu uma ligação de um dos dirigentes pelegos do sindicato (palavras dela) que não se identificou, dizendo que uma mãe de família não devia deixar suas filhas pequenas sozinhas por tanto tempo, era perigoso.

Enfim, lembro-me que minha irmã e eu podíamos brincar de tudo, de todas as formas, com os meninos ou meninas, futebol ou boneca, nenhum impedimento. Lembro-me de mamãe ter se recusado expressamente a colocar a gente no balé porque disseram para ela que faria bem para a delicadeza das meninas.

De todas as lembranças da infância e feminismo falecido da mamãe, existe uma que me marcou muito. Na quarta série, a professora me pediu que ficasse para falar com ela depois da aula, eu fiquei bem surpresa, já que sempre fui meio nerd e não dava trabalho na escola. Fiquei mais surpresa ainda quando a professora me disse que eu não estava me sentando de uma forma adequada, como uma menina deveria sentar, de pernas fechadas. Sério, fiquei muito constrangida e desnorteada com o que aquilo poderia significar, e, em especial, com o complemento da professora: sua mãe não te ensinou? Não, não tinha me ensinado não. E quando falei com mamãe a respeito disso, ela mais do que depressa foi comprar briga com a professora. De qualquer maneira, eu achei por bem sempre sentar com as pernas fechadas. Só muito depois, fui entender o que aquilo tudo queria dizer. E muito mais depois, fui me encontrar no livro da Montserrat Moreno, Como se ensina a ser menina, sobre o sexismo na escola.

Tenho muitas notas e escritos sobre esse livro, como não os encontro na bagunça da minha recente mudança, vou deixar aqui um vídeo da Montserrat. É uma forma de retomar a discussão levantada pela Júlia sobre educação e sexismo em outro post. Mas, volto logo a falar dele, um livro curto e rápido e fácil de ler, mas que rende tantos estalos, tantas ideias e tantas quedas de ficha mesmo.

Este é o vídeo delicioso com a autora sobre a repetição de padrões e seu sentido (ou a falta dele) na educação, assim como o papel do amor e afetividade para @s educand@s. Como o vídeo está em espanhol, estou trabalhando em uma legenda, assim que ficar pronta, dou notícias no blog. Mas até o final da semana, deve estar pronta.

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Lições de gênero da Disney


por Roberta Gregoli

Vocês já devem ter visto esse tipo de meme das princesas da Disney circulando pela internet. Achei tão interessante que decidi compilar as melhores frases de diferentes versões e traduzir para o português:


É claro que essas prescrições de gênero não afetam somente as mulheres. Vejam este dos príncipes:


Mesmo vendo desde quão cedo esses valores são inculcados em nós, ainda temos que aguentar pessoas que culpam as mulheres pela vaidade e pela competição feminina.

A conclusão é que os ideais de gênero, além de ensinados desde muito cedo, são inalcançáveis. Para ambos os sexos. Mas às mulheres são negados qualquer agência e talento próprio e somos incentivadas a abrir mão de qualquer sonho ou vocação, e a passar por cima de qualquer abuso para ficar com um homem. 

Precisamos de novas histórias.

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Guest Post: Uma educação sem gênero?

por Júlia Neves

Uma de nossas leitoras postou uma matéria interessante na nossa página do Facebook sobre um assunto que já estava na minha lista de assuntos para o Subvertidas. Trata-se de uma pré-escola sueca, a Egalia, que tem tentado eliminar a distinção dos gêneros masculino e feminino ao evitar que as crianças utilizem os pronomes "ele" e "ela", por exemplo. 

A pré-escola Egalia, na Suécia, onde meninos e meninas usam as mesmas cores para designar igualdade de gênero
A metodologia desta escola, ao meu ver, é um tanto extremista. O principal problema é tentar ensinar às crianças de que "somos todos iguais". Não, não somos. Somos diferentes. Existem sim diferenças entre mulheres e homens. Uma delas é exatamente o mito disseminado ao longo da história de que mulheres são inferiores aos homens. Seria realmente o ideal, ensinar às crianças que há igualdade entre os gêneros. Mas não há, pois as mulheres, junto com todas as minorias, foram excluídas historica, politica e socialmente de diversas formas. 

Acho que o mais importante dentro de uma educação que tem como objetivo uma igualdade de direitos entre gêneros é ressaltar que não devemos ficar presos a papeis sociais que já foram rigidamente estabelecidos. Atividades que misturam brincadeiras supostamente de meninos e de meninas, por exemplo, já incentivam o aprendizado de que não há funções estritamente masculinas ou femininas.

Boneca também é coisa de menino
Li um artigo de duas pesquisadoras (Isabel de Oliveira e Silva e Iza Rodrigues da Luz) sobre a diferenciação de gênero na pré-escola. Neste trabalho, elas analisam mais especificamente a educação de meninos dentro de pré-escolas em Belo Horizonte. Um dos pontos abordados pelas autoras é exatamente esta separação de tarefas destinadas a meninas e meninos desde o início da educação escolar. 

Elas entrevistaram professoras sobre as brincadeiras realizadas dentro de sala de aula e perguntam se elas tentam incentivar atividades que quebrem com estereótipos de papeis femininos e masculinos: as educadoras dizem tentar mudar estes papeis, mas confessam que têm dificuldades em criar novas culturas de gênero.  Sendo assim, estimulam as meninas a cozinharem para os meninos e estes a olharem as meninas na cozinha. 

O que é mesmo que as meninas não conseguem fazer?
Outro aspecto importante do artigo de Silva e da Luz é também a falta de cuidado com meninos na pré-escola. Parte-se do pressuposto de que garotos conseguem cuidar de si desde cedo e, portanto, professoras tendem a dar menos atenção a eles em forma de carinho, afeto e proteção, por exemplo. As pesquisadoras associam este comportamento na educação dos meninos ao próprio modelo que as professoras têm do que é "ser homem" e "ser mulher" e acabam perpetuando o que já está consolidado.

Não concordo com uma metodologia tão extremista como a da escola sueca, pois acredito que haja um choque de realidades entre a inexistência de gênero dentro da escola e a diferença entre gêneros fora dela. No entanto, acho que deve haver maior atenção dos cursos de pedagogia e das próprias educadoras (e, claro, educadores) na abordagem de atividades dentro de sala que quebrem o papel de princesa para as meninas e de herois para os meninos.