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O seu carro, a sua casa e a sua mulher


Há um ano, mudei para o Distrito Federal. Aqui, tudo é muito diferente, muita coisa choca, muita coisa assusta, para o bem e para o mal. Uma das coisas que mais me assusta, para o mal, no DF, são os casos de violência contra a mulher: são quase 15 ocorrências por dia. Em março de 2012, o DF era o líder de denúncias no ranking, seguido pelo Espírito Santo e Pará. 

O DF é muito menos lilás que isso

Na maioria dos casos, a agressão faz parte daquela velha história de "amor": a gata amava o cara, não ama mais ou não tolera mais, então, toma tiro, toma pancada e vai tomando. Outra prática comum é o assalto seguido de estupro, geralmente envolvendo casais e famílias como vítimas. Isso me fez pensar na Marcela Temmer, em outras pessoas e situações nessa vida. Muita coisa mudou, melhorou até, mas as mulheres ainda são vistas como posses do homem. É a conclusão possível, né? Triste.

Li, por indicação de uma amiga, uma notícia antiga sobre a Marie Nzoli e o cotidiano das congolesas, cotidiano este que envolve estupros diversos e variados em sua vida, por tantos motivos. Na verdade, não consigo pensar em coisa mais sem motivo que o estupro. Mentira. A guerra, o genocídio e a briga político-social pelos diamantes, no Congo, são ridiculamente e igualmente coisas sem motivo, mas enfim.

Não rola comparar o Brasil com o Congo, a situação lá é de fazer chorar, vomitar e tudo mais. Aqui, a gente conta com esse e aquele instrumento legal e instituições de defesa, mas ainda assim, determinadas coisas acontecem. Eu disse ali em cima que esses acontecimentos absurdos narrados pela Marie são sem motivo, mas é pela brutalidade né, pelo grotesco do cenário. Na real, o motivo de o estupro servir de arma de guerra; de um cara entrar na casa de outro cara e roubar a casa, o carro e estuprar sua mulher; de o ex matar ou tentar matar a ex; enfim, o motivo é o machismo. É, o machismo é motivo para coisas que vão desde as mais bobas às mais graves. Século XXI, e ainda tem MUITA gente achando que a mulher é posse do homem.

Marie Nzouli e a organização que fundou no Congo

Pessoalmente, acredito que nossas posses têm o poder de nos transformar, para o bem, quando nos trazem responsabilidades. Acredito que relacionamentos nos transformam, para o bem, quando fazem de nós pessoas melhores. É óbvio que isso não acontece sempre. Um exemplo, ou melhor, um desenho. O Lula Molusco tem uma casa de pedra e um clarinete. Vamos supor que ele comece a namorar a Pequena Sereia. Nada, nada disso vai adiantar, se o Lula Molusco continuar sendo o mesmo babaca de sempre, implicando com o Bob Esponja só porque ele é uma esponjinha feliz. Agora, se ele for namorar a Ariel e deixar o Calça Quadrada ser feliz, aí sim faria alguma diferença.

Além dessa questão de posses e relacionamento não mudarem ninguém. O mais importante de tudo é isto: as mulheres não são coisas. Não são comida, não são enfeites, não são objetos. Elas não podem sofrer  violência de qualquer natureza por não querer um homem, por estar sozinha, por não estar de burca ou por estar.

A gente, aqui no blog, é acusada o tempo todo de exagerar e tudo o mais. Já disseram que somos mal resolvidas porque vemos machismo em tudo. Bom, é nosso papel, como feministas, mostrar que o machismo está no ar. E que vai desde escutar assobio na rua até a amiga da prima da vizinha que levou um tiro porque tentou largar um cara. E, se apontar, chamar atenção aos fatos é ser mal resolvida, sim, somos mal resolvidas. E preferimos assim. Sério, se existe alguém em paz com uma sociedade em que estupro pode fazer parte do cotidiano de tantas formas, humildemente, tenho que dizer que ser bem resolvido é uma bosta, a pessoa precisa ter um problema muito sério para ser bem resolvida com a sociedade como está.


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Os 'bonzinhos' também estupram

por Roberta Gregoli

Dolce & Gabbana glamourizando o estupro por gangue

Na cultura do estupro, como o nome já diz, praticamente toda a cultura funciona para sancionar o estupro e culpar xs sobreviventes. E aqui entram a banalização do estupro através de piadas, a mídia tradicional e mesmo o judiciário, que sistematicamente inocenta estupradores:


Em cima: Estupradores - Denunciados - Levados a julgamento - Presos
Embaixo: Acusados falsamente
Fonte: http://theenlivenproject.com/the-truth-about-false-accusation/

Então não é de surpreender que o mercado de bens de consumo corrobore com este paradigma, cobrindo de glamour o que, no final das contas, não passa de violência de gênero (veja a figura de abertura do post).

A Victoria's Secret entrou na dança com uma coleção de calcinhas da linha Pink, sua marca voltada para o público adolescente, que traziam a estampadas expressões como Unwrap me (Me abra) e Sure thing (Coisa certa). Apesar de não promover o estupro de maneira óbvia e direta - só mesmo uma aberração chamada Lobo da Insanidade para ser capaz disso - esse tipo de produto naturaliza, de maneira sedutora, os mitos envolvidos na manutenção da cultura de estupro.

A sociedade civil interveio (ainda bem que temos o feminismo!) com uma resposta absolutamente inusitada, bem-humorada e inteligente: criou um site falso com uma linha chamada Love Consent trazendo estampas anti-estupro. Se a linha da Victoria's Secret confundia a noção de consentimento com uma calcinha que dizia Yes, no, maybe (Sim, não, talvez), a Love Consent deixa claro: No means no (Não quer dizer não).

Victoria's Secret e ativismo feminista: de 'Coisa certa' para 'Peça permissão antes'
porque "nenhuma vagina é 'uma coisa certa'"

Como a cultura de estupro está em todo o lugar, cito também uma situação diária. Esses dias eu, conversando com um amigo (branco, escolarizado, de classe média), dizia que, uma vez que a garota (ou garoto) tenha dito não, insistir leva a uma zona ambígua que pode ser qualificada como estupro. Como disse a Lola, pensamos em estupro como uma coisa que acontece num beco escuro, envolvendo um desconhecido e muita violência. Mas não. Estupro é qualquer ato que envolva o não consentimento de uma das partes.

A cada 12 segundos, uma mulher é estuprada no Brasil. E em 84% dos casos julgados o crime é cometido por um conhecido. Este número envolve principalmente familiares, que é um caso diferente do que estou tratando aqui: o chamado date rape, para o qual não há estatísticas confiáveis que eu conheça no Brasil, é o estupro que ocorre durante um encontro ou uma 'ficada', e que é muito pouco denunciado, justamente porque o conceito ainda não está articulado na cultura popular. Mas o date rape acontece obviamente entre pessoas que se conhecem e frequentam os mesmos ciclos sociais, por isso é também chamado de acquaintance rape (estupro por um conhecido). Veja um depoimento aqui.

Vivemos numa sociedade machista (surpresa) que faz com que as mulheres acreditem que a culpa de... bom, praticamente tudo, é delas. Daí uma garota e um cara estão ficando, ele começa com umas carícias mais quentes e a garota pede para parar. O cara força a barra, seja com um pouco de violência (tenta enfiar a mão embaixo da calcinha dela ou a segura mais forte, o que pode ser confundido com a famigerada 'pegada' - que por acaso não seria mais um mecanismo da cultura do estupro??) ou com um papinho de amante latino do tipo "relaxa, gata", "não tem problema", "não é nada de mais"... E a garota vai cedendo. 

Quando contei ao meu amigo que isso também é uma forma de violência, ele se surpreendeu: "mas, no fundo, ela queria". E me disse ainda que a nossa sociedade é muito repressora e não deixa a mulher se expressar sexualmente, por isso o cara tem que insistir. Eu detesto este "no fundo ela queria" - como um cara pode ter a arrogância de achar que sabe, melhor do que a própria mulher, o que ela quer? Quando se trata de consentimento, ao contrário do que meu amigo e a Victoria's Secret acreditam, não existe "no fundo": é o que a garota diz e ponto.

Ele está certo quanto à sociedade repressora, mas a repressão não é que ela está louquinha para transar com ele mas tem que parecer uma boa moça para que ele queira casar com ela (além de arrogante, esta lógica é de outro século, não?). A repressão funciona a partir do momento que a garota não tem assertividade para dizer: NÃO, EU NÃO QUERO TRANSAR COM VOCÊ. PONTO.

Ou seja, o ceder é que é a repressão da sociedade em funcionamento. A cultura do estupro nos cria para defender estupradores ao repetir sem cessar que a culpa é das mulheres.


Que estamos em débito com o cara porque ele pagou pelo jantar, porque demos "falsa esperança", porque fomos até a casa dele... Algumas ficam "com dó" porque o cara está insistindo e, ah, ele é tão bonzinho...

Se eu fosse super-heroína e pudesse escolher um único superpoder, queria ser capaz de empoderar as mulheres. Fazer com que magicamente nos libertássemos dessas culpas construídas para nos tornarem dóceis e sexualmente disponíveis para os homens.

Então, que fique claro: Não é não

Garotos, se e a gata disse 'não' uma vez, que seja o suficiente. Senão, você é um estuprador em potencial #pensenisso

Não forcem a barra. 'Forçar a barra', como a própria expressão sugere, é uma violência, o que te qualifica como agressor. Se ela estiver a fim, ela vai te procurar e vocês vão transar quando e se ela quiser de verdade.

Garotas, empoderem-se. Leiam este excelente post da tia Mazu. E, mesmo que você esteja pelada na frente de um cara e mude de ideia, diga NÃO. Seu corpo, suas regras. Sempre.



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Uma cabeça no meio da praça e outras histórias de horror e honra


por Barbara Falleiros

Há alguns dias, na Turquia, uma cabeça humana foi arremessada no meio da praça de um vilarejo da província de Isparta. Pouco tempo antes, uma mulher de 26 anos, já mãe de duas crianças e então grávida de 5 meses, entrara na justiça com um pedido de aborto tardio. Ela revelara que o bebê era fruto de meses de violência e chantagem: seu agressor - um conhecido - aproveitara-se da ausência de seu marido, tirara fotos dela nua e ameaçara enviá-las à sua família, obrigando-a a manter relações sexuais com ele. Ele também ameaçara matar seus filhos. 

Yalvac na Turquia
Chega de violência contra as mulheres
As estatísticas da violência contra as mulheres na Turquia são preocupantes. Cerca de 42% das mulheres maiores de 15 anos (a porcentagem sobe para 47% nas zonas rurais) sofreram em algum momento da vida violência física ou sexual da parte de seu esposo ou companheiro, segundo a ONG Human Rights Watch (dados de 2009). Em 2004, a Anistia Internacional  já publicara um relatório sobre a situação das mulheres vítimas de violência no país, especificamente no âmbito familiar. Estimava-se então que entre um terço e a metade das mulheres turcas sofriam violência física em casa: eram espancadas, violentadas, assassinadas ou levadas a se suicidarem.  Em 2002, dois irmãos de 16 e 23 anos assassinaram a própria irmã, divorciada, porque ela chegava tarde em casa: "Nós lavamos nossa honra e não nos arrependemos de nada". Em 2009, uma jovem de 14 anos foi sequestrada a caminho do supermercado e violentada durante 4 dias. Ela conseguiu escapar. Sua família, porém, considerando que o que acontecera sujara a honra de todos, decidiu matá-la: ela foi estrangulada pelo pai. Em 2010, no sudeste do país, uma jovem de 16 anos, suspeita de "frequentar homens", foi enterrada viva pela sua família. Este tipo de violência familiar, diga-se de passagem, não atinge somente mulheres: há somente 3 dias, um adolescente foi assassinado com 14 tiros pelo pai e pelo tio, que suspeitavam da sua homossexualidade.

 ("A mão que bate também acalma. Um tapa ou dois não é motivo para fugir." - Die Fremde, 2010)
 
A honra. O que implica esta noção e como ela participa dos mecanismos da violência? Ninguém tem dúvidas quanto à extrema complexidade do tema, mas tentarei retomar aqui - bem modestamente - algumas ideias de Pinar Selek, uma socióloga e militante feminista turca (exilada). Estudando a construção da masculinidade na Turquia e o papel do sistema militarista na construção dos gêneros, ela mostrou como o Estado, através do exército, instrumentaliza o termo "honra" associando-o ao patriotismo. "O homem aprende a combater no serviço militar, não somente contra o inimigo, para salvar a honra do Estado, mas também contra todos que ameaçam a sua honra masculina e a de seu pequeno reinado: a família". Com as mudanças sociais, sobretudo com o movimento de liberação das mulheres, "os homens que temem perder seu status, os que se sentem fracos, tentam recuperar sua honra masculina através da violência que aprenderam desde a infância e que sistematizaram no serviço militar. (...) As estatísticas nos dizem que a maior parte das mulheres assassinadas por homens são aquelas que tinham largado estes homens ou estavam prestes a fazê-lo".

Nevin Yildirim, grávida de seu agressor
Mas voltemos a Yalvac e à cabeça exibida em praça pública como símbolo da honra vingada. Se tantos homens no país assassinam as mulheres vítimas de violência, fazendo recair sobre elas a responsabilidade pela desonra, neste caso, com uma facada na barriga, dez tiros (a maior parte nos genitais) e uma cabeça decepada, eis que a vítima se transformou em heroína tarantinesca... A jovem Nevin Yildirim, após assassinar seu agressor Nurettin Gider, disse:

"Aqui está a cabeça daquele que colocou em jogo a minha honra. Agora ninguém mais poderá fazê-lo. Eu lavei minha honra. As pessoas falarão dos meus filhos como os filhos de uma mulher que lavou sua honra."

A dimensão do gesto de Nevin Yildirim só pode ser entendida dentro do contexto dos crimes de honra praticados no país.  É claro que seu ato, tomado objetivamente ou isoladamente, reúne uma série de elementos de horror. Mas  não o vejo como sendo simplesmente um extremo ato de desespero. A honra é uma construção social determinada pelas relações de poder. Ao assassinar seu agressor, Nevin agiu de acordo com o mesmo código de violência, mas ela reverteu, no entanto, esta relação de poder. O inesperado, aqui, não é defesa da honra, mas a defesa da honra feminina da parte de uma mulher agredida.

Nevin Yildirim está atualmente presa. Diz-se que seu caso reacendeu os debates em torno do aborto (autorizado no país até 10 semanas de gravidez). Pelo que li até agora, a justiça ainda não se pronunciou quanto ao seu pedido de aborto fora do período permitido. Vale lembrar que o primeiro-ministro turco Recep Tayip Erdogan considera o aborto um assassinato. Este mesmo primeiro-ministro disse, em 2010, não acreditar na igualdade entre homens e mulheres.

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Vamos fazer uma passeata em apoio aos estupradores


por Tággidi Ribeiro

No madrugada do dia 26 de agosto, domingo, duas primas adolescentes de 16 anos foram estupradas, uma delas por dez homens, todos integrantes de uma banda de pagode chamada New Hit. O crime hediondo aconteceu na cidade de Rui Barbosa, Bahia. Nove integrantes da banda e mais um PM, acusado de ter sido conivente com o abuso, estão presos.

A história é mais uma das histórias de horror que meninas e mulheres têm para contar e vem se juntar às terríveis histórias de estupros coletivos, cada vez mais noticiadas na mídia. Pela falta de estatísticas e informação, não podemos dizer se a prática desse tipo de estupro vem aumentando ou se são as mulheres que têm reportado com mais frequência o crime. Desconfio que tenha que ver em alguns casos com a disseminação da ideologia masculinista - um dos frutos, penso, do backlash.


Fora a pura crueldade do ato, é escandaloso perceber que mais uma vez as vítimas arcam com o ônus do descrédito, da violência verbal de anônimos, da acusação de serem tão culpadas quanto os estupradores, ou mais, pois 'estavam pedindo para serem estupradas' ao entrar no ônibus onde estavam dez homens a quem pediriam autógrafos e com quem tirariam fotos. As adolescentes estão confinadas, pois os fãs e defensores da banda julgam que elas querem somente fama e dinheiro, e as agridem com ameaças, inclusive de morte. Fama? Dinheiro? Mostre-me uma só vítima de estupro coletivo que conseguiu fama e dinheiro e eu te direi quem és.

No entanto, para curar a cegueira do machismo, não bastam as palavras do coronel Paulo Uzeda, que afirmou ter encontrado as meninas completamente sujas de sêmen. Não basta também o exame feito pela ginecologista Maria Verônica Simões, que confirma a violência sexual. Não bastará, quiçá, o laudo do Departamento de Polícia Técnica, que deve sair em poucos dias.

Quem, homem ou mulher, foi criado numa cultura do estupro, tem inúmeras justificativas para que mulheres sejam estupradas:

1) elas entraram em um ônibus com dez homens, o que elas esperavam?
2) elas queriam 'dar' pra eles.
3) o que estavam fazendo de madrugada sem os pais, já que eram menores?
4) meninas de 16 anos não são mais virgens nem inocentes.
5) devem ter consentido no início, mas depois não gostaram.
6) eles não devem ter feito o que elas queriam, por isso inventaram a história.
7) com aquelas roupas, o que elas estavam pensando?
8) homens são assim mesmo, não pode dar brecha...

Bem, se eu fosse um homem e dissessem que sou um estruprador em potencial, basta que eu tenha oportunidade, ou que eu esteja em vantagem numérica em relação às mulheres, eu sentiria vergonha e sairia gritando aos quatro ventos que 'não, não, há homens confiáveis!'. Além disso, eu ficaria preocupadíssimo com as mulheres no geral e em especial com aquelas que me são caras - mãe, irmãs, tias, avós, amigas. Porque, sério, imaginar que, assim como você, seus amigos e parentes do sexo masculino são estupradores em potencial deve ser no mínimo aterrador e ainda degradante.


Mas, como eu dizia, gente inserida na cultura do estupro, essa que nos tira a empatia por mulheres que sofreram violência sexual, arranja qualquer justificativa para o crime. Quando todas as justificativas se esgotam, há ainda quem afirme que está "torcendo pros meninos sair dessa adoro eles e nem porisso vou deixar de curtir a banda". 

Essa gente tentou organizar uma marcha em favor dos músicos da New Hit suspeitos de estupro. Felizmente, a marcha foi cancelada no Facebook (https://www.facebook.com/pages/Banda-New-Hit/235598166526876). Esperamos que seja cancelada de fato, pois parece simplesmente absurda. Nem Julian Assange mereceu tanta defesa.

Às meninas da Bahia, todo o apoio das Subvertidas. A todas as mulheres que têm sua vida sexual devassada e são colocadas sob suspeita quando reportam uma violência - vocês não estão sozinhas. 

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Julian Assange e a cultura do estupro


por Roberta Gregoli

Há algumas semanas, Julian Assange, fundador da Wikileaks, voltou ao holofote da mídia por procurar asilo político na Embaixada do Equador em Londres, numa tentativa desesperada de evitar a extradição para a Suécia, onde é acusado de estupro. A figura de Assange é muito sedutora por encarnar ideais nobres como a liberdade de expressão e dar asas à imaginação dos mais dados a sentimentos anti-americanos e a teorias da conspiração. Mas, para falar sobre as acusações da Suécia, temos que deixar tudo isso de lado. Essas acusações nada tem a ver com a persona pública de Assange, o que ele significa ou seus méritos e desméritos políticos. 

Muito se fala do que estaria por trás dessas acusações, incluindo a suposta participação da CIA em planos secretos de extraditá-lo para os Estados Unidos. Um assunto sobre o qual menos se fala é o crime em questão: estupro. E isso tem a ver com a cultura do estupro (algo começamos a discutir um pouco na semana passada) e o caso de Assange é realmente emblemático.

A primeira reação que ouço com relação a esse caso é o desmerecimento do crime. Como se estupro fosse um delitozinho qualquer que alguém tira da manga quando quer derrubar uma pessoa importante. Ou uma tentativa desesperada de alguma vadia (porque, como já vimos, culpar a mulher é lugar comum) de chamar atenção. Vale lembrar, então, que Assange foi acusado por duas mulheres diferentes, cujos nomes não foram divulgados e hoje vivem escondidas

Daí vem o Presidente do Equador fazer um grande desfavor ao continente e dizer que, na América Latina, o que Assange fez não seria considerado crime. Essa fala me incomodou profundamente porque reforça - e oficializa - a banalização do estupro entre os latino-americanos, mas, na verdade, é um posicionamento comum com relação ao caso. O deputado britânico George Galloway disse que se trata meramente de um caso de "falta de etiqueta sexual" (veja aqui em português) e um dos mitos correntes relacionados ao caso é que as acusações não constituiriam crime na lei britânica. Ou seja, mude o país, mude o oficial, o denominador comum é o desmerecimento da violência sexual.

Este artigo fornece os detalhes das acusações contra Assange e aí fica claro o que esses oficiais custam a entender: a violência sexual, como diz a Lola, não se trata apenas de sexo à força num beco escuro, com muita violência. Acordar com um homem fazendo sexo com você, como declara uma das vítimas - mesmo que você tenha dado para ele na noite anterior -, é, sim, estupro. Ter um cara sem roupa se esfregando contra você contra a sua vontade, como declara a outra vítima, também é violência sexual. 


Não é à toa que o processo está sendo movido na Suécia, um dos países de maior igualdade de gênero no mundo. Não que isso queira dizer que eles "procurem pelo em ovo" ou "façam tempestade em copo d'água", mas sim que essas mulheres foram levadas a sério, enquanto em muitos outros lugares (pelo como podemos supôr com base nas falas dos oficiais do Equador e do Reino Unido) elas teriam sido desmerecidas, ridicularizadas e, provavelmente, as queixas nunca teria sido levadas adiante.

O ponto em questão não é os feitos políticos de Assange nem perseguição política, e sim estupro. Ninguém está pedindo que Assange seja punido, extraditado para os Estados Unidos ou que responda por outros crimes, apenas que seja julgado por estas acusações específicas. Assange tem os melhores advogados e teve mais oportunidades de recorrer ao mandato judicial de sua prisão (incluindo um processo que chegou até a Suprema Corte) do que qualquer outro réu na história britânica. E como diz esta ótima crítica, não podemos nos esquecer que as vítimas de violência sexual também têm direitos. Não é chegada a hora de Assange responder pelas acusações contra ele?

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Uma teoria do estupro


por Tággidi Ribeiro

Pode ser constrangedor admitir isso, mas tendemos a julgar que o estupro é natural, ou seja, nasceu com a nossa espécie, e hoje só é reprimido porque, até que enfim, o homem evoluiu. A imagem símbolo desse pensamento é a do homem coberto por peles segurando o tacape que usou para abater a mulher que agora ele arrasta pelos cabelos. Desde sempre, portanto, nos diz essa imagem, teria o homem usado da força para conseguir uma mulher, para conseguir copular. Qualquer dancinha de acasalamento devia ser o suprassumo do romantismo nessa época.

Pois bem, há várias pesquisas que apontam para essa ideia - os homens seriam mais violentos e mais libidinosos que as mulheres, sobretudo por produzir de 20 a 30 vezes mais testosterona que elas. Diz-se também que a natureza dos homens não seria "boa", como a dos macacos (seus parentes mais próximos), mas cruel, sanguinária, egoísta e superssexualizada. Também, desde que temos registros escritos, a mulher foi considerada pelo homem sua propriedade, o que faz alguns cientistas afirmarem que sempre foi assim.

Bem, eu suponho que o estupro seja ancestral (natural, portanto), tendo acontecido em algum 'ponto' da evolução - assim como a violência e o prazer sexual; assim como o carinho e o afeto. Para mim, porém, é praticamente impossível admitir a hipótese de que o estupro tenha sido prática corrente, indispensável para a cópula, dentro de um bando de hominídeos que, assim como o restante dos animais, precisava sobreviver. Não há registro de cópula, pelo menos entre mamíferos, que se dê através de violência. Se machos e fêmeas estão no cio, eles copulam - simples assim. Por que razão na espécie humana seria diferente?

Eu tendo a pensar que nessa resposta entraria a falácia de que mulheres tem bem menos desejo sexual que homens. Para conseguir sexo, portanto, seria necessária a violência. Mas se estamos falando de cópula e não de sexo, o grande argumento masculino para a naturalização da violência sexual perde o sentido, já que, como todos os outros mamíferos, quereriam as fêmeas acasalar para poder preservar a espécie. Por outro lado, sabemos que, fora o fato de que desejo sexual varia de pessoa para pessoa, o desejo nas mulheres na verdade foi reprimido durante milênios. Não podemos usar o comportamento de nossas mulheres atavicamente culpadas para explicar o comportamento da fêmea ancestral, sobre a qual não recaiu a mão pesada da religião. Pode muito bem ser que esta fêmea, assim como as fêmeas bonobo, evolutivamente próximas de nós, estivesse disposta ao ato sexual sem fim de reprodução.

Por que, então, teriam os homens começado a estuprar mulheres, num cenário em que provavelmente tanto a cópula quanto o sexo eram consentidos? Creio que, novamente, o mundo animal pode nos dar alguma chave elucidativa. Estupros, sobretudo cometidos por mamíferos não humanos, são raridade, mas existem. Na natureza, parecem nunca estar associados a prazer sexual; em apenas uma espécie de inseto, está associado à cópula e, no geral, os estupros estão associados a domínio de território (caso haja guerra ou disputa) e à manutenção do poder. Portanto, a tese de Susan Brownmiller, de que estupro tem relação com poder e não com sexo, parece se verificar inclusive na natureza. 

Por fim, minha hipótese é a de que o estupro passa a ser sistematizado somente quando os nossos ancestrais formam o sentido da propriedade, associado à ideia de inferioridade da mulher. Mas ainda aqui, creio, os estupros eram praticados nas guerras, nunca dentro da tribo. O estupro generalizado contemporâneo é fruto da demonização do sexo e da cisão da mulher em santa e puta - portanto, é fruto das principais religiões do nosso mundo. Ao demonizar o sexo, a santificação da mulher se dá por sua 'pureza', a virgindade passa a ser seu grande valor. Se um homem estupra a virgem, ela perde aquilo que lhe é mais valioso. Por outro lado, o homem sente desejo sexual pela mulher - é ela que o leva à tentação, à perdição. Por isso, é culpada de seu próprio estupro. E se a mulher não é mais virgem, não tem valor (é uma puta), sendo portanto lícito estuprá-la.

O estupro, tal qual o conhecemos hoje, é o crime mais antinatural que cometemos. A imagem do homem com o tacape arrastando 'sua' mulher é invenção contemporânea que tenta naturalizar a violência sexual para homens sem deus. Mas os deuses criados pelos homens são ainda quem manda nos estupros pelo mundo afora, por terem deixado tão entranhada a ideia de que a mulher é propriedade do marido e de que vale pela sua pureza sexual. Se nos podemos comparar com outros animais (sobretudo primatas) para inferir nosso comportamento sexual pré-histórico, devemos tomar a violência sexual como rara e relacionada à disputa de poder. Se não nos podemos comparar com os demais bichos, então só podemos teorizar sobre o que conhecemos de nossa história, e aí o lugar da mulher, dado milenarmente pela religião no arquétipo da Eva traiçoeira e responsável pela danação do homem, vai nortear nossa visão sobre a violência perpetrada por homens contra mulheres.