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Dureza. Na verdade, para fazer um resumo grosseiro, o amor romântico, que nós pensamos como algo próprio à natureza humana, construiu-se historicamente a partir dos séculos XII-XIII, na continuidade do antifeminismo dos Pais da Igreja e da idealização da mulher surgida na literatura do período (como teorizado por exemplo aqui). Mais recentemente, esse conceito de amor foi abocanhado pela publicidade, que percebeu rapidinho que a felicidade vende.
Ou seja, um símbolo do sucesso pessoal e financeiro da família, da liderança e da realização de um homem provedor, do valor de uma mulher escolhida - dentre tantas outras - por um homem de sucesso, da exibição pública de um status social valorizador para a mulher (o casamento), e mesmo do incentivo à competitividade feminina (“o meu é maior que o seu” como “eu valho mais do que você”, “eu tenho, você não tem” como “eu sou amada, você não é”)...
Dito isso, continuo com meu romantismo, ou seja, continuo acreditando no amor. Sem esperar do alto da torre que meu príncipe traga sentido à minha existência, mas consciente de que a vida é menos dura e mais prazerosa quando vivida em companhia, e que uma existência compartilhada é a maior das riquezas. Mas a ganância de uma indústria não tem mesmo nada a ver com o amor, e eu agradeço à minha metade pé-no-chão pela grande prova de respeito ao me lembrar disso.
Ressaltando, por fim, que este textinho não está aqui para julgar nenhuma feliz proprietária de um anel de diamantes nem nenhum homem apaixonado tentando mostrar do jeito que pode a sua afeição. Há uma diferença essencial entre julgar as vítimas e contestar as engrenagens. O ponto positivo nisso tudo é a rapidez com que uma “tradição” pode se estabelecer. Ora, não há nada de errado na aliança entre pessoas que se gostam. Por que é que símbolos de comprometimento deveriam ser ditados por uma cultura consumista sangrenta que nos pressiona de todos os lados, uns para se impor, outras para se submeter? Que criemos outros símbolos, mais profundos, igualitários e verdadeiros, e menos frágeis que um diamante.
por Barbara Falleiros
[Vai aí um post no puro estilo "classe média sofre" ou "first world problems". Mas não me levem a mal por falar de noivado, jóias e relacionamentos. Se o assunto é aparentemente banal e burguês, suas implicações são alarmantes, como tentarei mostrar mais adiante: não só revelam como o sexismo e o consumismo podem ditar nossas vidas sem que percebamos, mas ainda como, bem longe da nossa existência tranquila, uma "declaração de amor" pode custar a vida e o sofrimento de milhares de seres humanos.]
"O diamante é um símbolo universal do amor. Tendo carregado inúmeros simbolismos, encarnou através dos séculos o amor romântico, emergindo hoje como seu mais poderoso mensageiro. (...) Hoje, mais do que nunca, o anel de noivado é a expressão mais poderosa do amor eterno e verdadeiro, um elemento essencial do ritual de casamento em todo o mundo." (História dos anéis de noivado, por De Beers)
Ser romântica e feminista não é das tarefas mais fáceis. Isto é, quando você se deixa levar pelo que dizem ser o romantismo. Infelizmente, de um modo geral, é mais cômodo e reconfortante ter verdades nas quais acreditar sem passar pelo esforço da reflexão... Foi assim que meu lado sentimental, flertando timidamente com a simbologia do amor indestrutível, engoliu como um ganso à foie gras o que a De Beers afirmou ser o emblema do amor para sempre. Por sorte, a minha outra metade, à qual um teimoso pragmatismo e perpétua desconfiança garantem a habilidade de detectar as inconsistências de um discurso, soube mais uma vez provar seu ponto e ganhar a discussão. Droga!
Pois bem, em resposta a uma conversa de ontem à noite sobre casamento, alianças e frescuras, minha metade enviou-me hoje cedo um email com o seguinte título: "Diamonds are bullshit". Sem rodeios. Direto na ferida.
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| A mulher e o sexo como produtos: "É claro que há um retorno para o seu investimento. Nós só não podemos mostrá-lo aqui." |
O texto falava, de um ponto de vista masculino e econômico, do stress financeiro imposto aos jovens adultos, obrigados a investir seu dinheiro (dois meses de salário, segundo a "tradição") em um objeto que perde imediatamente a metade de seu valor logo após a compra (ao contrário da prata e do ouro, considerados investimentos viáveis). Jovens que ainda por cima sofrem uma enorme pressão social por conta do pedido de casamento... O texto explicava então que essa “tradição” dos anéis de noivado era o resultado de uma cuidadosa e eficiente campanha de marketing promovida pela De Beers, a gigante dos diamantes, no final dos anos 30. Seu objetivo: transformar o anel de noivado, até então um presente ocasional, em um símbolo mandatório do amor. Era preciso torná-lo precioso e imprescindível: mesmo a “extrema raridade” dos diamantes foi uma ideia construída pela campanha. Também vieram daí as superstições em torno da compra de um anel usado (símbolo de um amor que não durou).
"A razão pela qual você não sente isso é porque isso não existe. O que você chama de amor foi inventado por caras como eu, para vender meias-calça." (Don Draper, personagem da série Mad Men, sobre publicitários da década de 50)
Dureza. Na verdade, para fazer um resumo grosseiro, o amor romântico, que nós pensamos como algo próprio à natureza humana, construiu-se historicamente a partir dos séculos XII-XIII, na continuidade do antifeminismo dos Pais da Igreja e da idealização da mulher surgida na literatura do período (como teorizado por exemplo aqui). Mais recentemente, esse conceito de amor foi abocanhado pela publicidade, que percebeu rapidinho que a felicidade vende.
“Nós gostamos de diamantes porque Gerold M. Lauck nos disse para gostarmos”, diz o texto que recebi. Com a Grande Depressão, as vendas da De Beers caíram 75%. Em 1938, ela então encomendou a uma agência publicitária um estudo de marketing focado nos homens: era necessário inculcar nos jovens a ideia de que diamantes eram o símbolo do amor, e que quanto maiores e de maior qualidade, maior era a expressão desse amor. Quanto às mulheres, elas foram encorajadas a ver os diamantes como parte integrante da dinâmica amorosa. Mas Gerold M. Lauck precisava vender o produto tanto para aqueles que podiam comprá-lo, quanto para os que não tinham condições de fazê-lo. Daí a solução estratégica de transformá-los em um símbolo de status.
Ou seja, um símbolo do sucesso pessoal e financeiro da família, da liderança e da realização de um homem provedor, do valor de uma mulher escolhida - dentre tantas outras - por um homem de sucesso, da exibição pública de um status social valorizador para a mulher (o casamento), e mesmo do incentivo à competitividade feminina (“o meu é maior que o seu” como “eu valho mais do que você”, “eu tenho, você não tem” como “eu sou amada, você não é”)...
Monetarização e ostentação do amor. Que romântico!
O fato é que o único verdadeiro sucesso envolvido na história foi o de uma manipulação marqueteira que fez com que, hoje, 80% das americanas recebam anéis de diamante ao ficarem noivas. Uma moda cada vez mais presente no Brasil. E na excitação da esperança de felicidade para sempre, acabamos nos esquecendo de que, ao peneirarmos esses símbolos, só o que encontramos de reluzente é o sangue derramado por uma indústria que se construiu na lama. Como mostrado no vídeo abaixo, na década de 1990, a guerra civil em Sierra Leona resultou em dez mil civis propositalmente mutilados, entre outras atrocidades quase indizíveis (estupro coletivo, mutilação de genitais de crianças) cometidas pelos rebeldes da Frente Revolucionária Unida, que escoaram cerca de 10 a 15% dos diamantes do comércio mundial. Isso em Sierra Leona, sem falar de Angola...
Dito isso, continuo com meu romantismo, ou seja, continuo acreditando no amor. Sem esperar do alto da torre que meu príncipe traga sentido à minha existência, mas consciente de que a vida é menos dura e mais prazerosa quando vivida em companhia, e que uma existência compartilhada é a maior das riquezas. Mas a ganância de uma indústria não tem mesmo nada a ver com o amor, e eu agradeço à minha metade pé-no-chão pela grande prova de respeito ao me lembrar disso.
Ressaltando, por fim, que este textinho não está aqui para julgar nenhuma feliz proprietária de um anel de diamantes nem nenhum homem apaixonado tentando mostrar do jeito que pode a sua afeição. Há uma diferença essencial entre julgar as vítimas e contestar as engrenagens. O ponto positivo nisso tudo é a rapidez com que uma “tradição” pode se estabelecer. Ora, não há nada de errado na aliança entre pessoas que se gostam. Por que é que símbolos de comprometimento deveriam ser ditados por uma cultura consumista sangrenta que nos pressiona de todos os lados, uns para se impor, outras para se submeter? Que criemos outros símbolos, mais profundos, igualitários e verdadeiros, e menos frágeis que um diamante.
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| "Para cada mão pedida em casamento, uma outra é arrancada." |
24 de março de 2013
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1
por Barbara Falleiros
Hoje o blog está um luxo! Seguindo os conselhos das nossas leitoras superdotadas e os passos da Tággidi e da Mazu, que ressaltaram a importância de se reconhecer às mulheres seu papel na História e nas artes, hoje vamos falar de... moda! É isso mesmo. O universo hostil da feminista caminhoneira peluda ficou para trás. Subvertidas, vistam seus Louboutins na nossa marcha contra as discriminações! E de quem mais poderíamos falar senão da embaixadora da elegância parisiense, Coco Chanel?
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| A besta |
Bem, na verdade, há quase 30 anos o nome por trás da marca é o de Karl Lagerfeld que, agora falando sério, é uma besta. Suas declarações são sempre "polêmicas", isto é, preconceituosas, machistas, gordofóbicas. Primeiro disse que a Adele era gorda demais, depois encheu-a de presentes para se desculpar; afirmou ser contra o casamento gay e a adoção, porque lésbicas com crianças até vai, mas não tem muita fé na relação entre homens e filhos; disse que a "anorexia não tem nada a ver com a moda e sim com pessoas com problemas familiares"; que na França o problema mesmo é a obesidade, já que só há "1% de meninas anoréxicas contra 30% de mulheres acima do peso"; por fim, disse que Coco Chanel não era feminista porque nunca fora feia o suficiente para isso. Quanto senso de humor! [Not]. E você tinha a ilusão de que não existiam homossexuais machistas?
Se Coco Chanel se achava feia ou não, eu não sei. Sei que jamais se considerou feminista, e que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Chanel preferia a feminilidade, como se estes também fossem termos excludentes, ideia errônea que persiste ainda hoje. No entanto, Chanel é um belo exemplo de como as mudanças sociais acontecem aos tropeços, entre avanços e retrocessos, muitas vezes sem que seus atores tenham plena consciência de seu papel. Pois aquela que até o fim da vida foi chamada de Mademoiselle Chanel (senhorita), aquela que, como mulher, não obteve a legitimidade social por meio do casamento, sempre aspirou à liberdade e à independência. Suas criações refletiram estes anseios, com a aparição de silhuetas andróginas, magras, de uma estética esportiva, masculino-feminina.
O preto, cor do luto, atingiu com ela o ápice do chique. Chanel buscou a sobriedade dos hábitos das freiras, as linhas harmoniosas da abadia cisterciense onde passou sua infância, no orfanato.
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| A moda antes de Chanel: as "anquinhas"de 1880 |
"Mangas bufantes, rendas, bordados, frufrus, chapéus carregados como cestas de frutas: antes de Chanel, a moda arreia, deforma, comprime, ignora o movimento e a meteorologia. Além de seus chapéus de linhas sóbrias, Chanel impôs à moda uma sobriedade inspirada nas vestimentas masculinas, de um rigor quase militar. O século XIX e seus exageros vestimentários herdados do Segundo Império foram mortos e enterrados por uma certa Chanel. Esta já desenhava a moda que seria necessária ao mundo e à classe dominante, então prestes a renunciar à ostentação, num país em plena guerra [Primeira Guerra Mundial]. Gabrielle Chanel inventou um conforto que anunciava a mulher moderna, em movimento, esportiva, livre. " (fonte)
Chanel encurtou as saias até o joelho, eliminou o espartilho, a cintura marcada. Nos anos vinte, foi uma das primeiras a usar cabelo curto. Ela buscou no vestuário masculino as calças, que a lei francesa - desde 1799 e até hoje!! - proíbe as mulheres de vestirem. Ao longo de sua carreira, em um período que conheceu duas Grandes Guerras e duas reconstruções, ela introduziu o jersey, o tweed, os botões de uniforme, os cardigãs, as bijuterias.
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| "Devolvi ao corpo das mulheres sua liberdade; este corpo suava debaixo de 'roupas de parada' (desfile), de rendas, espartilhos, roupas de baixo, forros" |
Contudo, no final da sua vida, Chanel reagiu de forma conservadora face à uma sociedade na qual já não se encaixava. Na sua famosa entrevista de 1969, começa contando uma cena que presenciara há alguns dias, na rua, entre um homem e uma mulher. O contexto não é claro, mas ela diz: "Pensei comigo: 'Se ela não se calar vai receber um bom tapa'. E ela o levou!"; "Mas ela mereceu".
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| Chanel jovem: de calças e blusa marinheiro |
Pouco mais adiante, faz duras críticas às calças, que ela mesma introduzira na moda!
Posso conceber perfeitamente que se use calças no campo, é o que há de mais útil, não passamos frio (...). Para começar, fui eu quem as inventei há quase vinte anos. Eu as inventei por pudor, porque na minha opinião andar por aí de roupa de banho é o equivalente a estar nua. Então, quando nós tomamos banho de mar e queremos continuar na praia, não é difícil vestir uma calça; uma saia não fica bonito, um roupão é horrendo, em conclusão, uma calça é ótimo. Mas entre isso e fazer disso uma moda... O fato de haver 70% das senhoras de calças em um jantar é muito triste. Calças ficam bem em pessoas muito jovens, mas em mulheres de uma certa idade, é como se tentassem rejuvenescer. E eu não conheço nada mais envelhecedor do que tentar rejuvenescer. Acho a coisa mais besta que pode acontecer com uma mulher. Dizer 'Se eu colocar uma calça parecerei mais jovem do que com uma saia' é de uma idiotice tremenda! Enfim, esta é uma época estranha... As mulheres parecem que estão se transformando, não sei, em outro sexo. Mas não sei como isso pode acontecer, porque colocar uma calça não muda seu rosto... (...) Eles [outros estilistas] fazem calças, eu tive que fazer calças, ninguém gosta mais de saias, gostam de calças...
Tive de brigar durante dois anos com todos os estilistas por causa desses vestidos curtos. Eu os acho indecentes! Eu não sou desta época, sabe? Para mostrar seus joelhos é preciso que eles sejam muito bonitos. É uma articulação. É como se ficássemos mostrando assim o cotovelo pra frente. É horrível! (...) E eu acho que quando a gente mostra tudo, depois não se tem mais vontade de nada...
Surpreendentemente moderna nos anos vinte, de um feminismo prático, ativo, a velha Chanel, embora lúcida na sua crítica à "eterna juventude" feminina, perde-se em declarações machistas, conservadoras. A dualidade de sua personalidade parece refletir sua marca: dois Cs entrelaçados, um virado para o futuro, outro olhando para o passado. Preto e branco. Já com mais de 80 anos e um tanto amargurada, Chanel se vê presa a um tempo intermediário e parece preferir aquelas mulheres contidas da década de cinquenta... Mas o caminho que antes ajudara a trilhar conduzira muito além. Para Chanel, era demais. O tempo agora era o do amor livre, das flores nos cabelos, das minissaias e dos jeans boca-de-sino. Da deselegância livre, fluida e colorida.
17 de dezembro de 2012
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2
por Tággidi Ribeiro
Esse é apenas o meu segundo post da série sobre a entrevista da Catherine Hakim na Veja, mas sinceramente, gente, eu tou com uma preguiça dessa mulher que deus me livre. Então, não comentarei frase por frase como no post passado, ok?
Beleza e carreira - “Aristóteles já dizia que a beleza é melhor do que qualquer carta de apresentação. As vantagens de uma boa aparência podem ser percebidas desde a infância. Pesquisas revelam que 75% das crianças que se encaixam nos padrões de beleza aceitos universalmente, como um rosto simétrico, são julgadas como corretas e cativantes, enquanto só 25% das que não têm essas características são vistas dessa forma. Presume-se que os belos são mais competentes -- e eles são tratados como tal. Atratividade e beleza são fundamentais para a ascensão profissional das mulheres nas sociedades modernas.”
1. Aristóteles é o filófoso que amassou o barro da sociedade moderna (ou os modernos o juntaram a seu barro), mas não é por isso que precisamos lhe dar razão. Assim como não precisamos dar razão sempre à ciência, que vemos tantas vezes contradizer-se. Agora, direi três nomes para contradizer a última frase dessa fala: Hillary Clinton, Angela Merkel e Dilma Roussef. É o bastante.
As feias que me perdoem - “Beleza extrema é algo raro, um item de luxo. Nem todo mundo nasce Elizabeth Taylor. Quem não tirou a sorte grande deve aprimorar o seu poder de atração. Na França, é comum o conceito de Belle Laide, a mulher feia que se torna atraente graças à forma como se apresenta à sociedade e ao seu estilo. Christine Lagarde, a diretora do Fundo Monetário Internacional, o FMI, é um exemplo de mulher que não ostenta a beleza clássica, mas é extremamente atraente. Tem personalidade, carisma, charme e boas maneiras. Se você não é bonito, por favor, vá à luta. Cultive um belo corpo, aprenda a dançar, desenvolva habilidades. E distribua sorrisos. Como Marilyn Monroe sempre soube, o mundo sorri de volta para quem sabe sorrir. O sorriso é um sinal universal de acolhimento, aceitação e contentamento em relação aos demais. Torna a todos mais atraentes.”
2. 'As feias que me perdoem, mas eu me embananei toda na hora de defender minhas teorias sobre como é necessário ser belo', deveria ter dito Catherine Hakim. Carisma, personalidade, charme e boas maneiras, saber dançar e sorrir não são atributos do belo, quer dizer, não são próprios do belo, qualquer que seja ele. Todos nós conhecemos gente bonita e antipática/ feia e simpática, assim como conhecemos gente bonita e simpática/ feia e antipática. Geralmente preferimos pessoas (bonitas ou feias) simpáticas (que saibam dançar ou não), porque é melhor conviver com elas. Ainda assim, o sucesso profissional dessas pessoas dependerá de outros fatores, inclusive de ordem cultural. Nós brasileiros costumamos ser bem simpáticos, dizem, e, realmente, aqui a simpatia muitas vezes supera a necessidade de compromisso ou competência. Que eu saiba, na França, compromisso e competência são bem mais importantes que simpatia. Não é, Christine Lagarde, oitava mulher mais poderosa do mundo?
Qué dizê, gente, o que a Catherine Hakim faz basicamente é tentar nos convencer de que mulheres poderosíssimas como Christine Lagarde devem seu status a sua beleza, carisma e charme e não a sua competência e trajetória. Deem uma olhada na lista das 100 mulheres mais poderosas do mundo, da Forbes, e nesse documentário e tirem suas próprias conclusões.
O próximo post, ainda sobre Hakim, vai ser tenso. Aguardem.
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| Pensem. |
O próximo post, ainda sobre Hakim, vai ser tenso. Aguardem.
26 de outubro de 2012
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5
Mas se há sempre um padrão ideal que se busca atingir, por que é então que as feministas criticam as mulheres que querem ficar mais bonitas? - pergunta de novo o senso comum. Balela. Mas pensemos: ficar bonita por que e para quem? A nossa beleza ocidental, "globalizada", é também comercializada. É um produto. Por trás dela está a indústria da beleza. Esta indústria precisa criar um ideal cada vez mais inatingível para abalar a tal ponto a nossa percepção de si, para que nos sintamos tão feias, tão desagradáveis visualmente, que a cada manhã passemos horas na frente do espelho, diante de um arsenal de frascos e tubos e aparelhos, nunca suficientes, para que tenhamos enfim coragem de levantar os olhos em direção ao outro e enxergar nossa presença no mundo. Odiar nossos corpos para comprar uma imagem melhor. O que as feministas criticam é esta necessidade de ser ou de ficar bonita (inclusive para "seduzir" um homem) como a única forma de uma mulher se afirmar como sujeito. A Tággidi falou outro dia de como a propaganda molda nossas mentes e corpos. Produtos de beleza tornam-se promessas de sucesso. A felicidade é jovem, lisa, limpa. Antirrugas, perfumes, peeling, hidratação, drenagem linfática, escova progressiva, luzes, silicone, lipoaspiração, bronzeamento, musculação, clareamento dos dentes. Ficar bonita e pagar pela beleza é vencer na vida.
"Uma coisa é viver pela imagem, mas essas feministas aí são muito descuidadas, credo". Ora, um pouco de perspectiva histórica não faz mal a ninguém. Temos que pensar no significado da ruptura da imagem tradicional da mulher provocada pelo movimento feminista nos anos 60/70. As feministas desta época romperam com uma beleza considerada burguesa e alienada e valorizaram mais o natural: o natural de um corpo solto, livre.
Li uma entrevista interessante sobre o assunto, não muito recente (de 2003), com uma escritora e militante francesa chamada Benoîte Groult. Seu caso é particular pois ela viveu sua juventude no meio da moda, sua mãe tinha uma maison de couture e seu tio era o famoso estilista Paul Poiret, considerado um precursor do estilo Art Déco. Na entrevista, Benoîte fala da obrigação de seduzir os homens que pesava sobre as garotas em idade de se casar:
Benoîte conta então como, nos anos 70, as mulheres da sua geração deixaram de ter vergonha do próprio corpo e buscaram falar sobre ele, conhecê-lo. Elas se libertaram da obrigação de serem belas para casar e das roupas que as oprimiam, não só simbolicamente, mas também fisicamente: a cinta-liga, por exemplo, que machucava e cortava a cintura.
Ser bonita é ser feliz! ... já dizia a propaganda de sabonete.
por Barbara Falleiros
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| Atributos típicos da feminista padrão: cabelo mal cuidado, roupa desleixada, fumo e muitos pelos no corpo. |
Nos últimos meses, com as garotas da Femen oferecendo à grande mídia a imagem polida de neofeministas nórdicas geneticamente privilegiadas (como sugeriu Sara Winter), assistimos a uma grande revolução: a palavra feminista, que o vulgo assimilara anteriormente a sapatona hippie peluda desleixada, ganha a nova acepção de loirinha gostosa pagando peitinho. Como convém, a luta das mulheres reduz-se a este âmbito, por natureza "feminino", que é a beleza: só o que interessa é saber se a ativista é feia ou bonita, encaixá-la ou excluí-la de um padrão de beleza. E por quê? [Aqui termina a ironia desta introdução] Porque a beleza é o único poder que se concede às mulheres.
As relações entre feminismo e beleza são complexas; estes conceitos, por si só, já o são. Porém, mais uma vez a história nos ajuda a fugir das generalizações da ignorância. A grande bandeira do senso comum antifeminista é a de que feministas não são femininas, entendendo a feminilidade como uma certa graça, delicadeza, vaidade e beleza características das mulheres. Só aí já dava discussão para uma vida inteira.
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| "Linda e loira" já no século XV. Mas ainda nada de silicone, bronzeamento ou alisamento. |
Mas vamos devagar. Primeiramente, não dá para ser "contra a beleza" pois esta, enquanto experiência de apreciação estética, é própria do gênero humano. Padrões de beleza ideal estão presentes em todas as sociedades, em todos os tempos. No entanto, estes padrões não são absolutos mas variam conforme o lugar e a época. Por exemplo, na Europa do século XV, o ideal de beleza feminina caracterizava-se pela pele pálida, os seios pequenos, o ventre redondo. Jamais uma dama tentaria esconder com seus cabelos louros uma testa proeminente! Pelo contrário: as outras é que, desesperadas, tentavam aumentar a superfície da sua testa depilando com cal viva o alto da cabeça... Vale dizer também que, nesta época, a beleza era entendida como um reflexo das qualidades morais...
Mas se há sempre um padrão ideal que se busca atingir, por que é então que as feministas criticam as mulheres que querem ficar mais bonitas? - pergunta de novo o senso comum. Balela. Mas pensemos: ficar bonita por que e para quem? A nossa beleza ocidental, "globalizada", é também comercializada. É um produto. Por trás dela está a indústria da beleza. Esta indústria precisa criar um ideal cada vez mais inatingível para abalar a tal ponto a nossa percepção de si, para que nos sintamos tão feias, tão desagradáveis visualmente, que a cada manhã passemos horas na frente do espelho, diante de um arsenal de frascos e tubos e aparelhos, nunca suficientes, para que tenhamos enfim coragem de levantar os olhos em direção ao outro e enxergar nossa presença no mundo. Odiar nossos corpos para comprar uma imagem melhor. O que as feministas criticam é esta necessidade de ser ou de ficar bonita (inclusive para "seduzir" um homem) como a única forma de uma mulher se afirmar como sujeito. A Tággidi falou outro dia de como a propaganda molda nossas mentes e corpos. Produtos de beleza tornam-se promessas de sucesso. A felicidade é jovem, lisa, limpa. Antirrugas, perfumes, peeling, hidratação, drenagem linfática, escova progressiva, luzes, silicone, lipoaspiração, bronzeamento, musculação, clareamento dos dentes. Ficar bonita e pagar pela beleza é vencer na vida.
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| Benoîte Groult |
Li uma entrevista interessante sobre o assunto, não muito recente (de 2003), com uma escritora e militante francesa chamada Benoîte Groult. Seu caso é particular pois ela viveu sua juventude no meio da moda, sua mãe tinha uma maison de couture e seu tio era o famoso estilista Paul Poiret, considerado um precursor do estilo Art Déco. Na entrevista, Benoîte fala da obrigação de seduzir os homens que pesava sobre as garotas em idade de se casar:
"Durante toda a minha infância, eu vivi obcecada pela obrigação de beleza e sedução que era imposta às meninas. Em 1936 eu tinha 16 anos e nessa idade, naquele tempo, entrávamos na horrível categoria de meninas "para casar" (...). Se, com 25 anos, a gente ainda não estivesse casada, entrávamos em outra categoria horrível, a das solteironas, o terrível arquétipo da literatura dos dois últimos séculos: tornávamo-nos aquela tia largada, desprezada, prima pobre, éramos consideradas necessariamente feias."
Bette Davis, solteirona em
The Old Maid
Benoîte conta então como, nos anos 70, as mulheres da sua geração deixaram de ter vergonha do próprio corpo e buscaram falar sobre ele, conhecê-lo. Elas se libertaram da obrigação de serem belas para casar e das roupas que as oprimiam, não só simbolicamente, mas também fisicamente: a cinta-liga, por exemplo, que machucava e cortava a cintura.
"Que libertação, que felicidade! Era como se eu tivesse renascido! Eu tinha mais de 40 anos, mas comecei a viver. Já não era obrigada a usar os vestidos de alta-costura da minha mãe. Nós não éramos obrigadas a obedecer aos cânones de beleza. Podíamos afrouxar as algemas, vestir-nos como gostávamos (...)"
Ao promoverem uma liberação física e mental em relação ao corpo feminino, elas conseguiram usufruir de uma liberdade que fez com que se sentissem
de fato belas. Uma ideia eficiente retomada por uma série de campanhas
atuais que procuram incentivar as mulheres a amarem e respeitarem o
próprio corpo.
Benoîte Groult é uma feminista que fez plástica e que não é contra a medicina estética per se. Sim. Existe. Mas daí a fazer das mulheres escravas de um padrão cruel e inatingível é bem diferente. Ela chama a atenção para o que considera um retrocesso na nossa época, uma vulnerabilidade aos ditados da moda e aos padrões de beleza que prova como ainda estamos impregnadas da ideologia tradicional.
Benoîte Groult é uma feminista que fez plástica e que não é contra a medicina estética per se. Sim. Existe. Mas daí a fazer das mulheres escravas de um padrão cruel e inatingível é bem diferente. Ela chama a atenção para o que considera um retrocesso na nossa época, uma vulnerabilidade aos ditados da moda e aos padrões de beleza que prova como ainda estamos impregnadas da ideologia tradicional.
É desesperador! É como se a revolução de 1968 não tivesse servido para nada. Seios siliconados, lábios inchados artificialmente, coxas lipoaspiradas! Impõe-se uma beleza feminina estereotipada que é uma escravidão.
(...) Chegamos a um estágio inacreditável de pornô chique na moda. E ninguém diz: vocês são ridículas com seus saltos agulha torturando seus dedos, vocês morrerão de dores nas costas mais tarde. Estas mulheres que eu vejo nos aeroportos com seus saltos 12 cm, de saia apertada, arrastando malas pesadas, olho pra elas com a mesma pena que me inspiram as mulheres de véu. Todas elas se deixam condicionar, umas pela religião, outras pela sociedade de consumo ou pelas supostas fantasias masculinas.
Com esta crítica, retomo as perguntas colocadas acima. O cerne da questão não está em ser ou não ser bonita, mas em ser bonita para que, por que ou para quem? Para se sentir amada? Para se dar valor? Simplesmente para existir? É nas motivações que se escondem as amarras.
Ser bonita é ser feliz! ... já dizia a propaganda de sabonete.
14 de outubro de 2012
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4
por Mazu
por Mazu
Eu me apaixonei por Kung Fu e Sanshou durante meu
namoro com meu companheiro, ele praticava e gostava muito e, um dia, me
levou para conhecer. O Kung Fu é uma arte milenar e linda, requer muito mais
concentração e inteligência do que as pessoas julgam. O nível de autoconhecimento
e autocontrole dos praticantes sérios é visível e admirável.
Apesar de toda a admiração, não tive nem tempo, nem oportunidade ainda de
praticar o Kung Fu (em especial o Choy lay fut, o estilo que tive contato, é bom dizer porque são muitos estilos). Mas conhecer o Sanshou, o boxe
chinês que compartilha alguns dos fundamentos, me fez muito bem. Em tudo, desde
entender e concatenar mais os movimentos físicos, ganhar mais coordenação e
mais cárdio até perceber que eu vivia
guardando muita raiva no coração. E, de verdade, é do coração que vem a força.
Nessa onda de praticar, eu comecei a assistir
lutas e acompanhar os treinos, me interessar mesmo. Ultimamente, o maridão anda
treinando com uma equipe de MMA aqui de Brasília, e eu acabei indo assistir ao Shooto Brasil 34, e convivendo mesmo com a
galera fã e praticante do Mixed Martial Arts, que como o nome diz, é uma
mistura de várias modalidades de artes marciais, as mais "pedidas"
são o Muay Thai, o jiu-jítsu e o Wrestling, mas não para por aí não.
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| Feliz em demonstrar o que "bater como uma menina" significa |
Bom, aí, neste convívio, comecei a notar algumas
coisas. Primeiro, refiri-me ao julgamento das pessoas ali em cima porque existe
muito mau julgamento e pré-julgamento no mundo, e com as artes marciais não
seria diferente. Existem vários preconceitos relacionados a esse tipo de
esporte, e eles não dizem respeito apenas às mulheres praticantes de artes
marciais.
Na verdade, o julgamento das pessoas com relação
às artes marciais é super preconceituoso também com relação aos homens, existe
um estereótipo, na maioria das vezes, falso, do marombado burro e violento que é mais ligado aos meninos do jiu-jítsu
e Muai Thay, mas acaba não deixando ninguém de fora. Agora, quando você
acompanha os praticantes sérios do esporte, você percebe que as coisas são bem
diferentes, eu, pessoalmente, acabei por conhecer muita gente legal e sábia. É, pois é, pois
é, pois é.
Mas este blog é feminista e a minha elegia
acaba aqui. E eu começo a pancadaria perguntando: se a imagem é ruim para os caras, imagina para as meninas?
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| Cris uma vez colocou para dormir um jornalista que disse que mulheres são mais fracas que homens |
Acho que vale ressaltar que características que
são consideradas masculinas, tipo força, porte físico, habilidade para luta,
são consideradas masculinas por imposição social. A gente falou disso em outras
ocasiões aqui no blog. Logo, as meninas mais fortes e mais centradas não são necessariamente
lésbicas. Vale dizer também que, por sua vez, nem todas as lésbicas possuem
essas que são consideradas as características masculinas. Força física, a falta
ou excesso, a percentagem de musculatura de um corpo nada tem a ver com sexualidade e, de acordo com pesquisas recentes,
nem com sexo. Eu me sinto boba afirmando o óbvio, mas a gente ouve cada comentário quando as meninas estão lutando, que olha...
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| Gina Carano e as marcas da guerra |
É verdade, as meninas têm ocupado seu espaço nas
artes marciais (vide as medalhistas olímpicas) e, durante o pouco tempo que
pratiquei, nunca senti nenhuma diferenciação ou discriminação na academia que
frequentei. Agora, o MMA insiste em manter as mulheres nuas segurando placas
nos seus eventos, e não consigo entender o porquê. Que sentido faz um evento ter
mais garotas de biquíni do que lutadoras, se estamos falando de um evento de
luta e não de um desfile de roupas de banho?
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| Mischa Tate, beleza padrão de ring girl, mas prefere descer a porrada |
Assistir ao Shooto Brasil 34 me deixou louca da
vida. Uma luta, dentre as onze do evento, foi feminina e, na minha opinião, a
mais legal. No resto do evento, meninas com bundas gigantescas de fora
mostravam em que round a luta estava porque né? Contar até três é phoda. A
gente precisava mesmo de ajuda. E se eu começar a falar dos eventos do UFC, não
vai ter espaço né? Porque lá, mulher lutadora nem existir, existe. Existem as
belas esposas, as belas ring-girls e uma juíza, porque os juízes são escolhidos
e designados pela Associação Atlética Norte Americana e não pelos grandes
empresários do evento. Não vou mentir, assisto, mas ô evento machista do
baralho.
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| Participação femina no Shooto 34: 1 lutadora... |
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| ...três ring-girls |
Vasculhando as internets por aí, encontrei este
documentário rapidíssimo sobre Meninas do MMA, vale pelo depoimento da atleta,
falando sobre ser mãe, mulher e lutadora, sobre o que é patrocínio para ela. É divertidíssimo
também o depoimento da dançarina que dizia que não conseguia "nem
olhar" para a luta de tão violento que era. É engraçado, o que 'violento'
significa para cada um. Durante o Shooto, eu não pisquei na luta da Claudinha
Gadelha (foto acima), que foi tão daora! Em compensação, cada vez que passava uma
daquelas meninas de bunda de fora e subiam os comentários do público, eu tinha
vontade de não ver e nem ouvir e, talvez, morrer ou matar alguém.
24 de setembro de 2012
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Primeiro, em competições esportivas deste nível fica claro o quão defasada é a essencialização da feminilidade. Todo esse papo de que as mulheres são 'naturalmente' mais fracas e frágeis. Neste texto o autor defende que o conceito de força também é cultural, já que os homens são, desde pequenos, muito mais estimulados nesse sentido que as mulheres. Ele também apresenta os vários componentes do conceito genérico força e usa dados do exército norte-americano para mostrar como isso é relativo, inclusive que 10% das mulheres têm mais capacidade de levantar peso do que os 10% dos homens de menor desempenho. Por fim, ele diz que, comparado com outras espécies próximas de nós, homens e mulheres têm relativamente pouca diferença de tamanho. Orangotangos e gorilas machos, por exemplo, têm mais menos o dobro de tamanho das fêmeas. Os seja, ideias de fraqueza e delicadeza também são culturalmente construídas e reforçadas.
Veja, por exemplo, esta reportagem sobre a judoca Suelen Altheman. A força de Suelen é algo tão ameaçador que a jornalista não se contém em mobilizar todos, todos os estereótipos para defender o que parece ser a tese central da matéria: Suelen é feminina (= mulher). Afinal, ela é vaidosa, é casada, faz dieta e... .... ... gosta de cozinhar. Uma baita injustiça com a Suelen que, em vez de ser celebrada por ser extremamente competente, forte e promissora, vira praticamente uma Amélia. E coitado do marido, que é "obrigado a seguir as regras alimentícias da mulher".
Mas isso é só o começo. Pelo menos o artigo é celebratório, ainda que de forma totalmente distorcida. O pior foi o caso de Zoe Smith, halterofilista britânica, que recebeu um monte de críticas machistas no Twitter por "não ser muito feminina".
O que você quer que façamos? Vamos parar de levantar peso, alterar a nossa dieta para nos livrar completamente de nossos músculos "viris" e nos tornarmos donas de casa na esperança de que um dia você nos olhe de uma forma mais favorável e nós possamos realmente ter uma chance com você?! Porque você é claramente o tipo mais gentil e mais atraente de homem que enfeita a Terra com a sua presença.
Ah, mas espera, você não é. Isso pode ser chocante para você, mas nós realmente preferimentos ser atraentes para pessoas que não têm mente fechada e são ignorantes. Loucura, hã? Nós, como qualquer mulher com um pingo de auto-confiança, preferimos homens confiantes o suficiente neles mesmos para não se sentirem menos homens pelo fato de que nós não somos fracas e frágeis."
Como o nome de um blog que eu adoro, Suelen e Zoe são mulheres que honram o rolê. E os incomodados que se mudem... de planeta.
por Roberta Gregoli
Mulheres no esporte geram um monte de discussões interessantes e com as Olimpíadas elas entram no holofote. Aproveitemos!
Mulheres no esporte geram um monte de discussões interessantes e com as Olimpíadas elas entram no holofote. Aproveitemos!
Primeiro, em competições esportivas deste nível fica claro o quão defasada é a essencialização da feminilidade. Todo esse papo de que as mulheres são 'naturalmente' mais fracas e frágeis. Neste texto o autor defende que o conceito de força também é cultural, já que os homens são, desde pequenos, muito mais estimulados nesse sentido que as mulheres. Ele também apresenta os vários componentes do conceito genérico força e usa dados do exército norte-americano para mostrar como isso é relativo, inclusive que 10% das mulheres têm mais capacidade de levantar peso do que os 10% dos homens de menor desempenho. Por fim, ele diz que, comparado com outras espécies próximas de nós, homens e mulheres têm relativamente pouca diferença de tamanho. Orangotangos e gorilas machos, por exemplo, têm mais menos o dobro de tamanho das fêmeas. Os seja, ideias de fraqueza e delicadeza também são culturalmente construídas e reforçadas.Veja, por exemplo, esta reportagem sobre a judoca Suelen Altheman. A força de Suelen é algo tão ameaçador que a jornalista não se contém em mobilizar todos, todos os estereótipos para defender o que parece ser a tese central da matéria: Suelen é feminina (= mulher). Afinal, ela é vaidosa, é casada, faz dieta e... .... ... gosta de cozinhar. Uma baita injustiça com a Suelen que, em vez de ser celebrada por ser extremamente competente, forte e promissora, vira praticamente uma Amélia. E coitado do marido, que é "obrigado a seguir as regras alimentícias da mulher".
Mas isso é só o começo. Pelo menos o artigo é celebratório, ainda que de forma totalmente distorcida. O pior foi o caso de Zoe Smith, halterofilista britânica, que recebeu um monte de críticas machistas no Twitter por "não ser muito feminina".
Reproduzo aqui a resposta que ela deu em seu blog, na tradução do Coletivo de Mulheres PUC-Rio (acesse o texto original em inglês aqui):
"Uma ofensa óbvia quando falamos de levantamento de peso feminino é 'como é pouco feminino, garotas não devem ser fortes e ter músculos, isso é errado'. E talvez estejam certos... na era vitoriana. Imaginar que as pessoas ainda pensam assim é ridículo, estamos em 2012! Isso pode soar como uma generalização, mas a maioria das pessoas que pensam assim parecem chauvinistas, caras cabeça-dura que se sentem fracos pelo fato de que nós, três garotas pequenas e muito femininas, somos mais fortes do que eles. Simples assim. Eu discuti com um cara que disse que "nós provavelmente somos todas lésbicas e nos parecemos com homens", apenas para explicar o fato de que sua opinião não é válida porque ele é um idiota. Ele veio com a resposta original que eu deveria voltar para a cozinha. Eu ri.
Como a Hannah disse anteriormente, nós não levantamos pesos para parecermos gostosas, especialmente para agradar homens assim. O que os faz pensar que nós ao menos QUEREMOS que nos achem atraentes? Se você achar, muito obrigada, estamos lisonjeadas. Mas se não, por que você realmente precisa dizer isso e o que faz você pensar que nós, pessoalmente, nos importamos se você nos acha atraentes?O que você quer que façamos? Vamos parar de levantar peso, alterar a nossa dieta para nos livrar completamente de nossos músculos "viris" e nos tornarmos donas de casa na esperança de que um dia você nos olhe de uma forma mais favorável e nós possamos realmente ter uma chance com você?! Porque você é claramente o tipo mais gentil e mais atraente de homem que enfeita a Terra com a sua presença.
Ah, mas espera, você não é. Isso pode ser chocante para você, mas nós realmente preferimentos ser atraentes para pessoas que não têm mente fechada e são ignorantes. Loucura, hã? Nós, como qualquer mulher com um pingo de auto-confiança, preferimos homens confiantes o suficiente neles mesmos para não se sentirem menos homens pelo fato de que nós não somos fracas e frágeis."Como o nome de um blog que eu adoro, Suelen e Zoe são mulheres que honram o rolê. E os incomodados que se mudem... de planeta.
8 de agosto de 2012
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4
por Júlia Neves
Uma de nossas leitoras postou uma matéria interessante na nossa página do Facebook sobre um assunto que já estava na minha lista de assuntos para o Subvertidas. Trata-se de uma pré-escola sueca, a Egalia, que tem tentado eliminar a distinção dos gêneros masculino e feminino ao evitar que as crianças utilizem os pronomes "ele" e "ela", por exemplo.
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| A pré-escola Egalia, na Suécia, onde meninos e meninas usam as mesmas cores para designar igualdade de gênero |
A metodologia desta escola, ao meu ver, é um tanto extremista. O principal problema é tentar ensinar às crianças de que "somos todos iguais". Não, não somos. Somos diferentes. Existem sim diferenças entre mulheres e homens. Uma delas é exatamente o mito disseminado ao longo da história de que mulheres são inferiores aos homens. Seria realmente o ideal, ensinar às crianças que há igualdade entre os gêneros. Mas não há, pois as mulheres, junto com todas as minorias, foram excluídas historica, politica e socialmente de diversas formas.
Acho que o mais importante dentro de uma educação que tem como objetivo uma igualdade de direitos entre gêneros é ressaltar que não devemos ficar presos a papeis sociais que já foram rigidamente estabelecidos. Atividades que misturam brincadeiras supostamente de meninos e de meninas, por exemplo, já incentivam o aprendizado de que não há funções estritamente masculinas ou femininas.
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| Boneca também é coisa de menino |
Li um artigo de duas pesquisadoras (Isabel de Oliveira e Silva e Iza Rodrigues da Luz) sobre a diferenciação de gênero na pré-escola. Neste trabalho, elas analisam mais especificamente a educação de meninos dentro de pré-escolas em Belo Horizonte. Um dos pontos abordados pelas autoras é exatamente esta separação de tarefas destinadas a meninas e meninos desde o início da educação escolar.
Elas entrevistaram professoras sobre as brincadeiras realizadas dentro de sala de aula e perguntam se elas tentam incentivar atividades que quebrem com estereótipos de papeis femininos e masculinos: as educadoras dizem tentar mudar estes papeis, mas confessam que têm dificuldades em criar novas culturas de gênero. Sendo assim, estimulam as meninas a cozinharem para os meninos e estes a olharem as meninas na cozinha.
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| O que é mesmo que as meninas não conseguem fazer? |
Outro aspecto importante do artigo de Silva e da Luz é também a falta de cuidado com meninos na pré-escola. Parte-se do pressuposto de que garotos conseguem cuidar de si desde cedo e, portanto, professoras tendem a dar menos atenção a eles em forma de carinho, afeto e proteção, por exemplo. As pesquisadoras associam este comportamento na educação dos meninos ao próprio modelo que as professoras têm do que é "ser homem" e "ser mulher" e acabam perpetuando o que já está consolidado.
Não concordo com uma metodologia tão extremista como a da escola sueca, pois acredito que haja um choque de realidades entre a inexistência de gênero dentro da escola e a diferença entre gêneros fora dela. No entanto, acho que deve haver maior atenção dos cursos de pedagogia e das próprias educadoras (e, claro, educadores) na abordagem de atividades dentro de sala que quebrem o papel de princesa para as meninas e de herois para os meninos.
1 de junho de 2012
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É a questão do ovo e da galinha, realmente. No entanto, vindo de uma base acadêmica dos estudos culturais, defendo que a arte representa sim a vida. Mas é a vida que imita a arte. Tenho forte convicção de que é a mídia (e nesta incluo tudo, música, literatura, artes plásticas, imprensa, publicidade, etc.) que dissemina discursos e, sendo assim, estereótipos e preconceitos também. Para nós dos estudos culturais, a representação de classe social, etnia, gênero e sexualidade na indústria cultural é fundamental para o entendimento de qualquer sociedade, pois parte-se do princípio de que nós, seres humanos, somos esponjas e absorvemos todo o tempo aquilo que vemos, escutamos e aprendemos em nossa volta.
O depoimento de Newsom é a base para o enredo do documentário. Ela, que já foi atriz e hoje é diretora de cinema, conta sobre seus conflitos, dificuldades e desafios como mulher, principalmente sobre a pressão de ser constantemente julgada por sua beleza e não pelo seu intelecto. Eu, particularmente, achei esta base um tanto dramática. Embora entenda a problemática da aparência física, achei a fala dela muito emocional; um discurso com questões verdadeiras e comum a muitas mulheres, porém um tanto vitimizado.
Não conheço nenhum documentário que discuta isso na mídia brasileira. Seria um prato cheio, olhar de perto como as novelas representam gênero e sexualidade, por exemplo. As novelas, banalizadas por muitos, são uma das maiores fontes de cultura popular no Brasil. Muita gente diz que não vê, que acha uma bobagem, mas todo mundo conhece a história, os personagens, as intrigas. E as mulheres geralmente representam os mesmos papeis: são ou vilãs ou mocinhas; na maior parte das vezes são lindas e gostosas (padrão nacional) e fazem de tudo para ficar com o príncipe encantado. Quando bem-sucedidas, são geralmente de mau caráter ou então Virgens Marias.
por Júlia Neves
Andando por um mercado de rua aqui em Berlim, me deparei com uma roupinha de bebê que dizia "got my looks from my mom and the brain from my dad" (tenho o físico da minha mãe e o cérebro do meu pai). Na hora, já reclamei com um amigo que me acompanhava no passeio: "é sempre assim, a beleza é feminina, a inteligência, masculina. Depois não sabem de onde vem estes preconceitos grotescos. É a vida imitando a arte". Ao escutar isso, meu amigo ficou aguçado e quase instantaneamente disse: "Que isso! É a arte que imita a vida!"
Andando por um mercado de rua aqui em Berlim, me deparei com uma roupinha de bebê que dizia "got my looks from my mom and the brain from my dad" (tenho o físico da minha mãe e o cérebro do meu pai). Na hora, já reclamei com um amigo que me acompanhava no passeio: "é sempre assim, a beleza é feminina, a inteligência, masculina. Depois não sabem de onde vem estes preconceitos grotescos. É a vida imitando a arte". Ao escutar isso, meu amigo ficou aguçado e quase instantaneamente disse: "Que isso! É a arte que imita a vida!"
É a questão do ovo e da galinha, realmente. No entanto, vindo de uma base acadêmica dos estudos culturais, defendo que a arte representa sim a vida. Mas é a vida que imita a arte. Tenho forte convicção de que é a mídia (e nesta incluo tudo, música, literatura, artes plásticas, imprensa, publicidade, etc.) que dissemina discursos e, sendo assim, estereótipos e preconceitos também. Para nós dos estudos culturais, a representação de classe social, etnia, gênero e sexualidade na indústria cultural é fundamental para o entendimento de qualquer sociedade, pois parte-se do princípio de que nós, seres humanos, somos esponjas e absorvemos todo o tempo aquilo que vemos, escutamos e aprendemos em nossa volta.
O problema é quando se cria um produto cultural de acordo com a repetição de estereótipos e preconceitos de todos os tipos, enfatizando um discurso já estabelecido e deixando pouco espaço para novas representações culturais. O documentário da diretora Jennifer Siebel Newsom, Miss Representation (com legendas em português), critica exatamente este modelo de representação de mulheres e meninas na mídia norte-americana. Em seu filme, Newsom questiona a excessiva objetificação e sexualização de mulheres na televisão, em filmes, na imprensa e em propagandas com depoimentos de mulheres importantes para a política e cultura americanas, como a ex-secretária de Estado Condoleezza Rice, a atriz Geena Davis e a comediante Margaret Cho.
O depoimento de Newsom é a base para o enredo do documentário. Ela, que já foi atriz e hoje é diretora de cinema, conta sobre seus conflitos, dificuldades e desafios como mulher, principalmente sobre a pressão de ser constantemente julgada por sua beleza e não pelo seu intelecto. Eu, particularmente, achei esta base um tanto dramática. Embora entenda a problemática da aparência física, achei a fala dela muito emocional; um discurso com questões verdadeiras e comum a muitas mulheres, porém um tanto vitimizado.
Mesmo assim, recomendo o documentário pelas entrevistas e pela discussão da representação midiática de mulheres que é sempre extremamente sexualizada e focada na aparência: as mulheres devem ser bonitas para que os homens possam admirá-las. Mas quando uma mulher mostra intelecto, ela é ridicularizada e alvo de piadas, é a escrota do pedaço. É o que acontece com a Hilary Clinton, com a própria Condoleezza Rice e, no Brasil, com a presidenta Dilma Rousseff. Quantas vezes não ouvi piadas que ridicularizam a presidenta por ela ser mulher: "é mal comida", "sapata", "divorciada" e por aí vai. Ou então que ela não manda, é a secretária do ex-presidente Lula; assim como Hilary Clinton só entrou na política por conta de seu marido:
O documentário de Newsom critica este tipo de misrepresentation (má representação) que circula de diversos modos na indústria cultural, em qualquer lugar do mundo, seja nos Estados Unidos, na Alemanha ou no Brasil. Na mídia, encontramos predominantemente imagens de mulheres sensuais, frágeis, em busca de um marido/provedor e, quando elas são intelectuais ou poderosas, geralmente esta imagem é passada de forma negativa. Por conta disso, há uma falta enorme de imagens de liderança feminina na mídia, já que esta posição acaba sendo ridicularizada, como mostra a foto acima.
Em alguns de seus posts aqui no Subvertidas, a Roberta comentou sobre os comentários infelizes de celebridades brasileiras relacionados ao estupro e ao abuso de mulheres. Por mais que várias pessoas acreditem que o humor politicamente incorreto é inofensivo, estas representações preconceituosas de mulheres, negros, homossexuais e pobres consolidam-se e, pior ainda, tornam-se naturalizadas no nosso dia-a-dia, reforçando mesmo os piores estereótipos.
Não conheço nenhum documentário que discuta isso na mídia brasileira. Seria um prato cheio, olhar de perto como as novelas representam gênero e sexualidade, por exemplo. As novelas, banalizadas por muitos, são uma das maiores fontes de cultura popular no Brasil. Muita gente diz que não vê, que acha uma bobagem, mas todo mundo conhece a história, os personagens, as intrigas. E as mulheres geralmente representam os mesmos papeis: são ou vilãs ou mocinhas; na maior parte das vezes são lindas e gostosas (padrão nacional) e fazem de tudo para ficar com o príncipe encantado. Quando bem-sucedidas, são geralmente de mau caráter ou então Virgens Marias.
O meio termo é raridade, pois não há espaço para mulheres que não se encaixam nesses padrões e, muito menos, para a representação de outros modelos de feminilidade que não estejam limitados a tais categorias. Esses discursos proliferam-se com tanta naturalidade que nós mesmos reproduzimos vários dos comportamentos representados na telinha. E é aí que passamos a achar normal uma roupa de bebê atribuir beleza à mãe e a inteligência ao pai.
22 de maio de 2012
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