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por Mazu
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| Página "Não Aguento Quando" no Facebook. |
Há dois dias, minha cunhada publicou um vídeo no Orkut
(sim, no Orkut!) em que um metaleiro destilava muito julgamento sobre o que ele
chamou de pirirockers (deve significar algo como piriguetes do roquenrol). Não
conheço o cara, mas ele fez questão de dizer que estava lá criticando a
hipocrisia das meninas que usam roupa curta, mas são roqueiras, e ficam
criticando as meninas que usam roupa curta e escutam funk. Provavelmente, a
hipocrisia que ele detectou existe. Se realmente há alguém que usa roupa curta
criticando alguém que usa roupa curta, sim, há hipocrisia. Mas essa não é a
questão. Ainda que ele tenha se explicado e dito literalmente "as pessoas
podem fazer o que quiser e ser feliz, não tenho nada com isso", o vídeo
é machista, não parece, assim de parecer logo de cara, mas é. Muito
provavelmente, essa não foi a intenção do autor e, muito provavelmente, vários
de nós (si, jo también) destilamos machismo de quando em vez, sem nos darmos
conta. E por que, meu Deus, por quê? Porque a ideologia do patriarcado é tão
embebida, incutida nos nossos costumes que pode passar despercebida.
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| Femstagram no Facebook |
Um exercício interessante, inclusive para xs
companheirxs recém chegadxs no movimento, é se escutar falando. Loucura, né?
Mas, é isso mesmo. Na grande maioria das vezes, quando uma afirmação só serve
para homens ou mulheres, essa afirmação está lá com seus 90% de chance de ser
sexista. Vou usar como exemplo o vídeo que minha cunhas postou. Não é
semanticamente possível dizer "os pirirockers", certo? Quero dizer,
não rola tirar sentido da expressão, assim sem um contexto mais específico.
Rola dizer "maria-palheta", um termo usado para groupies, e fazer sentido,
mas não rola dizer "joão-palheta" e fazer sentido, novamente, sem um
contexto que nos ampare. Não quero comprar briga com os compas da linguística,
então já adianto, com contexto e interação tudo pode na linguagem. Mas, vamos
supor, ainda que um contexto específico nos permitisse tirar sentido dessas
expressões, eles não seriam exatamente iguais, não carregariam o mesmo pacote
de sentidos, porque estamos em uma sociedade com esse e aquele discurso
anterior, ou seja, esse e aquele preconceito já estabelecido. Vide o cara
"galinha" e a mina "galinha", que trazem significados bem
diferentes empregados aqui e lá.
Alguém poderia dizer: tem coisa que só homem
faz, tem coisa que só mulher faz. A resposta mais simples para isso, além de
"oi, século XXI?" é que essas coisas só de homem ou só de mulher têm
que ter explicações muito biológicas mesmo, muito provavelmente envolvendo o
uso direto da genitália. Do contrário, a gente pode detectar sexismo novamente.
A Rô trouxe uma discussão legal sobre isso, quando tratou dos brinquedos demeninas e meninos.
Esses atos falhos nossos acontecem para o bem e
para o mal, o tempo todo. Dia desses, um amigo publicou no facebook:
"fulana de tal (que fez x e y): uma mulher para entrar na lista de
mulheres que fizeram diferença na humanidade". Sério, lendo isso, a gente
não fica com aquela impressão de que quase não existiu mulher para fazer
diferença? Pois é.
E não rola só com mulheres, dizer que os homens
são todos canalhas é tão sexista quanto dizer que as mulheres são todas
interesseiras. Toda discriminação ou papel já estabelecido, sem explicação
biológica (eu ia dizer racional, mas não seria suficiente), para um gênero
implica sexismo. Dizer que é dever do homem pagar as contas é sexista também. E
assim vai.
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| Créditos: Femstagram no Facebook |
Todo mundo escorrega, não rola dizer que não. Se
em determinado momento da vida, alguém pisa no calo e a gente vai falar mal ou
discutir, uh, como rola preconceito. Eu tenho irmã, eu sei como é. Deus me
livre daquela máxima "Não sou machista, nem feminista, sou humanista"
porque, sério, isso é um uso super errado de todos, todos, todos os termos da sentença!
Machismo não é o contrário de feminismo, nem os humanistas têm nada que ver com
a bagaça toda. Mas o ideal, para evitar os escorregas sexistas nossos de cada
dia, era a gente usar "pessoa" ou "gente" nas afirmações
para evitar, né? Tipo "tem gente interesseira" não "tem mulher
interesseira". E, aí, se me for permitido um adendo fora do escopo do blog
e do post, melhor mesmo seria tentar ser positivo e não ficar de mimimi por aí
e dizer que "tem gente legal no mundo", sei lá, talvez isso ajude na
tarefa complicada de gostarmos uns dos outros.
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| Não Aguento Quando novamente |
Voltando, a dica das tias de hoje, que serve pra
tia também, é: quando a gente for criticar alguém, para evitar cairmos em
qualquer armadilha linguística do preconceito, vamos tentar trocar o
"x" por "pessoa". Assim, ó: na frase "tinha que ser
X", sendo x = mulher, gay, preto, nordestino, gordo, se a gente não puder
trocar x por "pessoa" e conseguir sentido, que liguemos o alerta do
preconceito, porque há, talvez não seja evidente, mas há.
28 de janeiro de 2013
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8
por Roberta Gregoli
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| Encontro das Subvertidas em janeiro de 2013 (Barbara em espírito e Photoshop) |
Não sei se é a gripe, se é ter acabado de fazer anos ou se é ter voltado para a Inglaterra, mas o post de hoje é fofo. Tome insulina, minha gente, que o negócio tá água com açúcar.
Algo muito poderoso acontece quando as pessoas se juntam. Pode ser algo poderosamente horrível, como quando um bando de caras se juntam para assediar mulheres na rua, mas pode ser maravilhoso também. Não que o nosso blog seja lá tudo isso (ainda nem temos tantos seguidores quanto outros blogs feministas), mas para mim ele é maravilhoso por vários motivos. Primeiro porque me trouxe mais perto dessas mulheres fantásticas e inteligentes. Cada uma do seu jeito traz um ingrediente especial ao blog: o humor incrivelmente sucinto da Mazu, a prosa extraordinária da Barbara, as reflexões filosóficas e por vezes pertinentemente raivosas da Tággidi.
Em segundo lugar, e isso acontece em qualquer fórum feminista (basta ver os relatos no Cantada de rua - conte o seu caso), o nosso blog é uma pequena ilustração da capacidade de empoderamento na coletividade. Me lembro de uma vez ter visto uma charge que agora não consigo encontrar: uma sala com diversas mulheres, todas pensando "Sou a única feminista aqui". A gente quando se cala - o que é fácil de acontecer numa cultura em que 'feminista' continua a significar mal-amada, amargurada, incendiária de sutiã - inevitavelmente se sente isolada e impotente. Ao colocarmos a boca no trombone arrumamos muita briga, mas também encontramos pessoas que pensam parecido e nos dão força. E isso empodera e incentiva a continuar colocando a boca no trombone, que é o primeiro passo para qualquer mudança.
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| Agora conte para todo mundo! |
Por último, uma coisa fascinante que vejo acontecer com o blog é a mudança de fato. A mudança é proporcional ao nosso tamanho, mas ainda assim é, para mim, recompensadora. Além dxs leitorxs e amigxs que entram em contato com denúncias e reflexões, o que mais me impressiona é ver uma mudança de comportamento das pessoas à minha volta. Isso toma uma série de formas, desde a mais básica, que é um grupo se policiar nos comentários sexistas quando estou por perto, até a 'conversão' de fato. Como os silenciamentos, as inversões perversas e o menosprezo à pauta feminista são o padrão, a discussão de certos temas feministas no senso comum continuam num nível muito básico, e vejo alguns conhecidxs começarem a repensar suas posições, provocadxs pelos nossos textos. E, num mundo cheio de masculinistas e trolls, um a menos é muito.
Por isso tudo, meus agradecimentos. A todxs xs nossxs leitores, em especial xs que comentam e compartilham nossos textos, e, muito especialmente, a Barbara, Mazu e Tággidi, minhas queridas há mais de uma década.
Acabo este post por aqui para não elevar a glicemia de ninguém. E ai de quem disser que feminista não pode ser romântica.
23 de janeiro de 2013
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Há um ano, mudei para o Distrito Federal. Aqui, tudo é muito diferente, muita coisa choca, muita coisa assusta, para o bem e para o mal. Uma das coisas que mais me assusta, para o mal, no DF, são os casos de violência contra a mulher: são quase 15 ocorrências por dia. Em março de 2012, o DF era o líder de denúncias no ranking, seguido pelo Espírito Santo e Pará.
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| O DF é muito menos lilás que isso |
Na maioria dos casos, a agressão faz parte daquela velha história de "amor": a gata amava o cara, não ama mais ou não tolera mais, então, toma tiro, toma pancada e vai tomando. Outra prática comum é o assalto seguido de estupro, geralmente envolvendo casais e famílias como vítimas. Isso me fez pensar na Marcela Temmer, em outras pessoas e situações nessa vida. Muita coisa mudou, melhorou até, mas as mulheres ainda são vistas como posses do homem. É a conclusão possível, né? Triste.
Li, por indicação de uma amiga, uma notícia antiga sobre a Marie Nzoli e o cotidiano das congolesas, cotidiano este que envolve estupros diversos e variados em sua vida, por tantos motivos. Na verdade, não consigo pensar em coisa mais sem motivo que o estupro. Mentira. A guerra, o genocídio e a briga político-social pelos diamantes, no Congo, são ridiculamente e igualmente coisas sem motivo, mas enfim.
Não rola comparar o Brasil com o Congo, a situação lá é de fazer chorar, vomitar e tudo mais. Aqui, a gente conta com esse e aquele instrumento legal e instituições de defesa, mas ainda assim, determinadas coisas acontecem. Eu disse ali em cima que esses acontecimentos absurdos narrados pela Marie são sem motivo, mas é pela brutalidade né, pelo grotesco do cenário. Na real, o motivo de o estupro servir de arma de guerra; de um cara entrar na casa de outro cara e roubar a casa, o carro e estuprar sua mulher; de o ex matar ou tentar matar a ex; enfim, o motivo é o machismo. É, o machismo é motivo para coisas que vão desde as mais bobas às mais graves. Século XXI, e ainda tem MUITA gente achando que a mulher é posse do homem.
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| Marie Nzouli e a organização que fundou no Congo |
Pessoalmente, acredito que nossas posses têm o poder de nos transformar, para o bem, quando nos trazem responsabilidades. Acredito que relacionamentos nos transformam, para o bem, quando fazem de nós pessoas melhores. É óbvio que isso não acontece sempre. Um exemplo, ou melhor, um desenho. O Lula Molusco tem uma casa de pedra e um clarinete. Vamos supor que ele comece a namorar a Pequena Sereia. Nada, nada disso vai adiantar, se o Lula Molusco continuar sendo o mesmo babaca de sempre, implicando com o Bob Esponja só porque ele é uma esponjinha feliz. Agora, se ele for namorar a Ariel e deixar o Calça Quadrada ser feliz, aí sim faria alguma diferença.
Além dessa questão de posses e relacionamento não mudarem ninguém. O mais importante de tudo é isto: as mulheres não são coisas. Não são comida, não são enfeites, não são objetos. Elas não podem sofrer violência de qualquer natureza por não querer um homem, por estar sozinha, por não estar de burca ou por estar. 

A gente, aqui no blog, é acusada o tempo todo de exagerar e tudo o mais. Já disseram que somos mal resolvidas porque vemos machismo em tudo. Bom, é nosso papel, como feministas, mostrar que o machismo está no ar. E que vai desde escutar assobio na rua até a amiga da prima da vizinha que levou um tiro porque tentou largar um cara. E, se apontar, chamar atenção aos fatos é ser mal resolvida, sim, somos mal resolvidas. E preferimos assim. Sério, se existe alguém em paz com uma sociedade em que estupro pode fazer parte do cotidiano de tantas formas, humildemente, tenho que dizer que ser bem resolvido é uma bosta, a pessoa precisa ter um problema muito sério para ser bem resolvida com a sociedade como está.
21 de janeiro de 2013
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3
Na cultura do estupro, como o nome já diz, praticamente toda a cultura funciona para sancionar o estupro e culpar xs sobreviventes. E aqui entram a banalização do estupro através de piadas, a mídia tradicional e mesmo o judiciário, que sistematicamente inocenta estupradores:
Então não é de surpreender que o mercado de bens de consumo corrobore com este paradigma, cobrindo de glamour o que, no final das contas, não passa de violência de gênero (veja a figura de abertura do post).
A Victoria's Secret entrou na dança com uma coleção de calcinhas da linha Pink, sua marca voltada para o público adolescente, que traziam a estampadas expressões como Unwrap me (Me abra) e Sure thing (Coisa certa). Apesar de não promover o estupro de maneira óbvia e direta - só mesmo uma aberração chamada Lobo da Insanidade para ser capaz disso - esse tipo de produto naturaliza, de maneira sedutora, os mitos envolvidos na manutenção da cultura de estupro.
A sociedade civil interveio (ainda bem que temos o feminismo!) com uma resposta absolutamente inusitada, bem-humorada e inteligente: criou um site falso com uma linha chamada Love Consent trazendo estampas anti-estupro. Se a linha da Victoria's Secret confundia a noção de consentimento com uma calcinha que dizia Yes, no, maybe (Sim, não, talvez), a Love Consent deixa claro: No means no (Não quer dizer não).
Como a cultura de estupro está em todo o lugar, cito também uma situação diária. Esses dias eu, conversando com um amigo (branco, escolarizado, de classe média), dizia que, uma vez que a garota (ou garoto) tenha dito não, insistir leva a uma zona ambígua que pode ser qualificada como estupro. Como disse a Lola, pensamos em estupro como uma coisa que acontece num beco escuro, envolvendo um desconhecido e muita violência. Mas não. Estupro é qualquer ato que envolva o não consentimento de uma das partes.
Vivemos numa sociedade machista (surpresa) que faz com que as mulheres acreditem que a culpa de... bom, praticamente tudo, é delas. Daí uma garota e um cara estão ficando, ele começa com umas carícias mais quentes e a garota pede para parar. O cara força a barra, seja com um pouco de violência (tenta enfiar a mão embaixo da calcinha dela ou a segura mais forte, o que pode ser confundido com a famigerada 'pegada' - que por acaso não seria mais um mecanismo da cultura do estupro??) ou com um papinho de amante latino do tipo "relaxa, gata", "não tem problema", "não é nada de mais"... E a garota vai cedendo.
Se eu fosse super-heroína e pudesse escolher um único superpoder, queria ser capaz de empoderar as mulheres. Fazer com que magicamente nos libertássemos dessas culpas construídas para nos tornarem dóceis e sexualmente disponíveis para os homens.
por Roberta Gregoli
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| Dolce & Gabbana glamourizando o estupro por gangue |
Na cultura do estupro, como o nome já diz, praticamente toda a cultura funciona para sancionar o estupro e culpar xs sobreviventes. E aqui entram a banalização do estupro através de piadas, a mídia tradicional e mesmo o judiciário, que sistematicamente inocenta estupradores:
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| Em cima: Estupradores - Denunciados - Levados a julgamento - Presos Embaixo: Acusados falsamente Fonte: http://theenlivenproject.com/the-truth-about-false-accusation/ |
Então não é de surpreender que o mercado de bens de consumo corrobore com este paradigma, cobrindo de glamour o que, no final das contas, não passa de violência de gênero (veja a figura de abertura do post).
A Victoria's Secret entrou na dança com uma coleção de calcinhas da linha Pink, sua marca voltada para o público adolescente, que traziam a estampadas expressões como Unwrap me (Me abra) e Sure thing (Coisa certa). Apesar de não promover o estupro de maneira óbvia e direta - só mesmo uma aberração chamada Lobo da Insanidade para ser capaz disso - esse tipo de produto naturaliza, de maneira sedutora, os mitos envolvidos na manutenção da cultura de estupro.
A sociedade civil interveio (ainda bem que temos o feminismo!) com uma resposta absolutamente inusitada, bem-humorada e inteligente: criou um site falso com uma linha chamada Love Consent trazendo estampas anti-estupro. Se a linha da Victoria's Secret confundia a noção de consentimento com uma calcinha que dizia Yes, no, maybe (Sim, não, talvez), a Love Consent deixa claro: No means no (Não quer dizer não).
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| Victoria's Secret e ativismo feminista: de 'Coisa certa' para 'Peça permissão antes' porque "nenhuma vagina é 'uma coisa certa'" |
Como a cultura de estupro está em todo o lugar, cito também uma situação diária. Esses dias eu, conversando com um amigo (branco, escolarizado, de classe média), dizia que, uma vez que a garota (ou garoto) tenha dito não, insistir leva a uma zona ambígua que pode ser qualificada como estupro. Como disse a Lola, pensamos em estupro como uma coisa que acontece num beco escuro, envolvendo um desconhecido e muita violência. Mas não. Estupro é qualquer ato que envolva o não consentimento de uma das partes.
A cada 12 segundos, uma mulher é estuprada no Brasil. E em 84% dos casos julgados o crime é cometido por um conhecido. Este número envolve principalmente familiares, que é um caso diferente do que estou tratando aqui: o chamado date rape, para o qual não há estatísticas confiáveis que eu conheça no Brasil, é o estupro que ocorre durante um encontro ou uma 'ficada', e que é muito pouco denunciado, justamente porque o conceito ainda não está articulado na cultura popular. Mas o date rape acontece obviamente entre pessoas que se conhecem e frequentam os mesmos ciclos sociais, por isso é também chamado de acquaintance rape (estupro por um conhecido). Veja um depoimento aqui.
Vivemos numa sociedade machista (surpresa) que faz com que as mulheres acreditem que a culpa de... bom, praticamente tudo, é delas. Daí uma garota e um cara estão ficando, ele começa com umas carícias mais quentes e a garota pede para parar. O cara força a barra, seja com um pouco de violência (tenta enfiar a mão embaixo da calcinha dela ou a segura mais forte, o que pode ser confundido com a famigerada 'pegada' - que por acaso não seria mais um mecanismo da cultura do estupro??) ou com um papinho de amante latino do tipo "relaxa, gata", "não tem problema", "não é nada de mais"... E a garota vai cedendo.
Quando contei ao meu amigo que isso também é uma forma de violência, ele se surpreendeu: "mas, no fundo, ela queria". E me disse ainda que a nossa sociedade é muito repressora e não deixa a mulher se expressar sexualmente, por isso o cara tem que insistir. Eu detesto este "no fundo ela queria" - como um cara pode ter a arrogância de achar que sabe, melhor do que a própria mulher, o que ela quer? Quando se trata de consentimento, ao contrário do que meu amigo e a Victoria's Secret acreditam, não existe "no fundo": é o que a garota diz e ponto.
Ele está certo quanto à sociedade repressora, mas a repressão não é que ela está louquinha para transar com ele mas tem que parecer uma boa moça para que ele queira casar com ela (além de arrogante, esta lógica é de outro século, não?). A repressão funciona a partir do momento que a garota não tem assertividade para dizer: NÃO, EU NÃO QUERO TRANSAR COM VOCÊ. PONTO.
Ou seja, o ceder é que é a repressão da sociedade em funcionamento. A cultura do estupro nos cria para defender estupradores ao repetir sem cessar que a culpa é das mulheres.
Que estamos em débito com o cara porque ele pagou pelo jantar, porque demos "falsa esperança", porque fomos até a casa dele... Algumas ficam "com dó" porque o cara está insistindo e, ah, ele é tão bonzinho...
Que estamos em débito com o cara porque ele pagou pelo jantar, porque demos "falsa esperança", porque fomos até a casa dele... Algumas ficam "com dó" porque o cara está insistindo e, ah, ele é tão bonzinho...
Se eu fosse super-heroína e pudesse escolher um único superpoder, queria ser capaz de empoderar as mulheres. Fazer com que magicamente nos libertássemos dessas culpas construídas para nos tornarem dóceis e sexualmente disponíveis para os homens.
Então, que fique claro: Não é não.
Garotos, se e a gata disse 'não' uma vez, que seja o suficiente. Senão, você é um estuprador em potencial #pensenisso
Não forcem a barra. 'Forçar a barra', como a própria expressão sugere, é uma violência, o que te qualifica como agressor. Se ela estiver a fim, ela vai te procurar e vocês vão transar quando e se ela quiser de verdade.
Garotas, empoderem-se. Leiam este excelente post da tia Mazu. E, mesmo que você esteja pelada na frente de um cara e mude de ideia, diga NÃO. Seu corpo, suas regras. Sempre.
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por Barbara Falleiros
Hoje o blog está um luxo! Seguindo os conselhos das nossas leitoras superdotadas e os passos da Tággidi e da Mazu, que ressaltaram a importância de se reconhecer às mulheres seu papel na História e nas artes, hoje vamos falar de... moda! É isso mesmo. O universo hostil da feminista caminhoneira peluda ficou para trás. Subvertidas, vistam seus Louboutins na nossa marcha contra as discriminações! E de quem mais poderíamos falar senão da embaixadora da elegância parisiense, Coco Chanel?
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| A besta |
Bem, na verdade, há quase 30 anos o nome por trás da marca é o de Karl Lagerfeld que, agora falando sério, é uma besta. Suas declarações são sempre "polêmicas", isto é, preconceituosas, machistas, gordofóbicas. Primeiro disse que a Adele era gorda demais, depois encheu-a de presentes para se desculpar; afirmou ser contra o casamento gay e a adoção, porque lésbicas com crianças até vai, mas não tem muita fé na relação entre homens e filhos; disse que a "anorexia não tem nada a ver com a moda e sim com pessoas com problemas familiares"; que na França o problema mesmo é a obesidade, já que só há "1% de meninas anoréxicas contra 30% de mulheres acima do peso"; por fim, disse que Coco Chanel não era feminista porque nunca fora feia o suficiente para isso. Quanto senso de humor! [Not]. E você tinha a ilusão de que não existiam homossexuais machistas?
Se Coco Chanel se achava feia ou não, eu não sei. Sei que jamais se considerou feminista, e que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Chanel preferia a feminilidade, como se estes também fossem termos excludentes, ideia errônea que persiste ainda hoje. No entanto, Chanel é um belo exemplo de como as mudanças sociais acontecem aos tropeços, entre avanços e retrocessos, muitas vezes sem que seus atores tenham plena consciência de seu papel. Pois aquela que até o fim da vida foi chamada de Mademoiselle Chanel (senhorita), aquela que, como mulher, não obteve a legitimidade social por meio do casamento, sempre aspirou à liberdade e à independência. Suas criações refletiram estes anseios, com a aparição de silhuetas andróginas, magras, de uma estética esportiva, masculino-feminina.
O preto, cor do luto, atingiu com ela o ápice do chique. Chanel buscou a sobriedade dos hábitos das freiras, as linhas harmoniosas da abadia cisterciense onde passou sua infância, no orfanato.
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| A moda antes de Chanel: as "anquinhas"de 1880 |
"Mangas bufantes, rendas, bordados, frufrus, chapéus carregados como cestas de frutas: antes de Chanel, a moda arreia, deforma, comprime, ignora o movimento e a meteorologia. Além de seus chapéus de linhas sóbrias, Chanel impôs à moda uma sobriedade inspirada nas vestimentas masculinas, de um rigor quase militar. O século XIX e seus exageros vestimentários herdados do Segundo Império foram mortos e enterrados por uma certa Chanel. Esta já desenhava a moda que seria necessária ao mundo e à classe dominante, então prestes a renunciar à ostentação, num país em plena guerra [Primeira Guerra Mundial]. Gabrielle Chanel inventou um conforto que anunciava a mulher moderna, em movimento, esportiva, livre. " (fonte)
Chanel encurtou as saias até o joelho, eliminou o espartilho, a cintura marcada. Nos anos vinte, foi uma das primeiras a usar cabelo curto. Ela buscou no vestuário masculino as calças, que a lei francesa - desde 1799 e até hoje!! - proíbe as mulheres de vestirem. Ao longo de sua carreira, em um período que conheceu duas Grandes Guerras e duas reconstruções, ela introduziu o jersey, o tweed, os botões de uniforme, os cardigãs, as bijuterias.
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| "Devolvi ao corpo das mulheres sua liberdade; este corpo suava debaixo de 'roupas de parada' (desfile), de rendas, espartilhos, roupas de baixo, forros" |
Contudo, no final da sua vida, Chanel reagiu de forma conservadora face à uma sociedade na qual já não se encaixava. Na sua famosa entrevista de 1969, começa contando uma cena que presenciara há alguns dias, na rua, entre um homem e uma mulher. O contexto não é claro, mas ela diz: "Pensei comigo: 'Se ela não se calar vai receber um bom tapa'. E ela o levou!"; "Mas ela mereceu".
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| Chanel jovem: de calças e blusa marinheiro |
Pouco mais adiante, faz duras críticas às calças, que ela mesma introduzira na moda!
Posso conceber perfeitamente que se use calças no campo, é o que há de mais útil, não passamos frio (...). Para começar, fui eu quem as inventei há quase vinte anos. Eu as inventei por pudor, porque na minha opinião andar por aí de roupa de banho é o equivalente a estar nua. Então, quando nós tomamos banho de mar e queremos continuar na praia, não é difícil vestir uma calça; uma saia não fica bonito, um roupão é horrendo, em conclusão, uma calça é ótimo. Mas entre isso e fazer disso uma moda... O fato de haver 70% das senhoras de calças em um jantar é muito triste. Calças ficam bem em pessoas muito jovens, mas em mulheres de uma certa idade, é como se tentassem rejuvenescer. E eu não conheço nada mais envelhecedor do que tentar rejuvenescer. Acho a coisa mais besta que pode acontecer com uma mulher. Dizer 'Se eu colocar uma calça parecerei mais jovem do que com uma saia' é de uma idiotice tremenda! Enfim, esta é uma época estranha... As mulheres parecem que estão se transformando, não sei, em outro sexo. Mas não sei como isso pode acontecer, porque colocar uma calça não muda seu rosto... (...) Eles [outros estilistas] fazem calças, eu tive que fazer calças, ninguém gosta mais de saias, gostam de calças...
Tive de brigar durante dois anos com todos os estilistas por causa desses vestidos curtos. Eu os acho indecentes! Eu não sou desta época, sabe? Para mostrar seus joelhos é preciso que eles sejam muito bonitos. É uma articulação. É como se ficássemos mostrando assim o cotovelo pra frente. É horrível! (...) E eu acho que quando a gente mostra tudo, depois não se tem mais vontade de nada...
Surpreendentemente moderna nos anos vinte, de um feminismo prático, ativo, a velha Chanel, embora lúcida na sua crítica à "eterna juventude" feminina, perde-se em declarações machistas, conservadoras. A dualidade de sua personalidade parece refletir sua marca: dois Cs entrelaçados, um virado para o futuro, outro olhando para o passado. Preto e branco. Já com mais de 80 anos e um tanto amargurada, Chanel se vê presa a um tempo intermediário e parece preferir aquelas mulheres contidas da década de cinquenta... Mas o caminho que antes ajudara a trilhar conduzira muito além. Para Chanel, era demais. O tempo agora era o do amor livre, das flores nos cabelos, das minissaias e dos jeans boca-de-sino. Da deselegância livre, fluida e colorida.
17 de dezembro de 2012
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9
por Mazu
Faz algum tempo já que venho notando que o slutshaming é uma prática corriqueira entre adolescentes. Não só entre os adolescentes, é verdade, mas nas redes sociais em especial, a prática entre os adolescentes me assusta e preocupa bastante. Posso ser boba, mas eu sempre esperei mais das novas gerações. Estou pensando que a gente devia criar uma página no FB e um twitter chamado “Dicas das titias feministas” que nem tem as Dicas do He-man, só que feminista coisa que o He-man não é, enfim, a gente pode ir amadurecendo a ideia.
A gente poderia começar tratando do que aconteceu com a Kristen Stewart e a Karina Veiga, já que esses dois casos deixaram a prática do slutshaming bem evidente entre jovens.
Muita coisa me assustou nessas duas histórias, mas o que me deixou com dor de cabeça foi a quantidade de jovens mulheres que começaram a atacar as duas meninas por meio das internets (no caso da Stewart rolou até camiseta e tals). Isso me preocupa porque se a gente não for por nós mesmas, quem vai ser? Os caras é que não. Ok, existe homem feminista, mas não é como se eles dessem em árvores, especialmente porque, no caso deles, o processo de empatia deve ser mais complicado. Agora, com as meninas, era para ser mais natural, eu imagino. Aí eu leio plaquinhas sobre piriguetes e outros rótulos no Facebook e fico achando que, pelo jeito, estou imaginando errado.
Então, titia Mazu vai estrear As dicas das tias feministas e contar um segredinho: esses mitos românticos de pureza e delicadeza das princesas só existem para deixar as mulheres obedientes. Assim como a educação diferenciada que se dá aos meninos e meninas. Tudo isso tem como objetivo a nossa submissão. Não a nossa felicidade.
por Mazu
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| Sim, porque só as mães diriam isso. Aff. |
A gente poderia começar tratando do que aconteceu com a Kristen Stewart e a Karina Veiga, já que esses dois casos deixaram a prática do slutshaming bem evidente entre jovens.
Para quem mora em Marte e não sabe do que estou falando, a atriz norte-americana da saga Crepúsculo, Kristen Stewart, traiu seu namorado (Robert Pattinson) e foi crucificada loucamente na mídia e redes sociais. Como se isso fosse problema de mais alguém além de eles dois. No final, os dois continuam juntos e, pelos rumores, terão um bebê. Um final nada parecido e absolutamente horroroso teve a história da estudante brasileira, Karina Veiga, que dizem que traiu o namorado porque ninguém sabe mesmo (no caso da Stewart rolou uma fotos e tals), mas o que a gente sabe mesmo é que o namorado divulgou fotos e vídeos íntimos do casal, usando a conta dela do Facebook. Ah, a vingança! ¬¬
Muita coisa me assustou nessas duas histórias, mas o que me deixou com dor de cabeça foi a quantidade de jovens mulheres que começaram a atacar as duas meninas por meio das internets (no caso da Stewart rolou até camiseta e tals). Isso me preocupa porque se a gente não for por nós mesmas, quem vai ser? Os caras é que não. Ok, existe homem feminista, mas não é como se eles dessem em árvores, especialmente porque, no caso deles, o processo de empatia deve ser mais complicado. Agora, com as meninas, era para ser mais natural, eu imagino. Aí eu leio plaquinhas sobre piriguetes e outros rótulos no Facebook e fico achando que, pelo jeito, estou imaginando errado.
Alguma companheira poderia dizer que era mais importante falar do comportamento machista do namorado envolvido na história da Karina Veiga, por exemplo, do que das meninas machistas, já que as meninas são mais vítimas de uma educação machista do que outra coisa. É fato, e a gente já tratou disso aqui e aqui. É lógico que eu não quero crucificar as meninas que têm comportamentos machistas, mas acho que o movimento tem que pensar em formas de abordar e tratar disso, porque é um grande problema.
No caso do machismo do namorado traído, sinceramente, me dá uma preguiça depressiva comentar sobre o tipo de ser humano que ele é. Para começar quem sou eu, o que eu sei, não é mesmo? A única coisa que sei sobre ele é essa atitude gigantescamente escrota. Com base nisso unicamente, o que dá pra dizer é que ele é um gigantesco imbecil, mas, vai saber se ele já não salvou uns filhotinhos de gato de algum incêndio e tals. O que para mim não significaria nada, mas para algumas meninas adolescentes parece que significa muito. O que me leva ao centro dessa discussão, que são os príncipes encantados contemporâneos.
Porque a questão está justamente nesses mitos imbecilississimos que derivam da literatura romântica e do mito do par perfeito. Só para constar, o romantismo não é, em si, um problema. Ia ser hipócrita da minha parte criticar o romantismo. O problema é quando a gente passa a justificar determinados atos de violência, como é o slutshaming, usando o amor e o romantismo.
Pelo menos é isso que eu percebo nas adolescentes que realizam a inquisição das piriguetes. O que se fala, por exemplo, da Kristen: como ela foi trair o cara que é o Edward, um vampiro vegetariano e tudo mais. Como ela pode fazer isso? No caso da Veiga, então, pô coitado do namorado, estava com o coração partido, logo, tudo bem, porque no amor e na guerra vale tudo. Ruim é quem parte os corações por aí. Como ela não quis ser a princesinha de um cara só. Como?
Pelo menos é isso que eu percebo nas adolescentes que realizam a inquisição das piriguetes. O que se fala, por exemplo, da Kristen: como ela foi trair o cara que é o Edward, um vampiro vegetariano e tudo mais. Como ela pode fazer isso? No caso da Veiga, então, pô coitado do namorado, estava com o coração partido, logo, tudo bem, porque no amor e na guerra vale tudo. Ruim é quem parte os corações por aí. Como ela não quis ser a princesinha de um cara só. Como?
O que me perturba muito é que algumas pessoas expressam esse tipo de opinião descrita acima e ninguém estranha, nenhum alerta de insanidade toca. Você lê um comentário com um conteúdo desse tipo e vai dormir à noite de boa, sério? Então, por amor, vale humilhar, vale bater, vale matar?! Alerta vermelho cereja intenso, gente! Grave isso, muito grave.
Não sei por qual motivo, razão ou circunstância determinados mitos (tipo que por amor se mata ou se morre) seguem sendo propagados. Junto com uma educação sexista de que a gente ainda não conseguiu se livrar, isso cria um grande problema, a propagação de uma sociedade sexista e machista. Porque o que eu percebo, entre algumas meninas mais novas, é que elas genuinamente acreditam que se elas forem princesas, encontrarão seus príncipes. E o pior, serão felizes para sempre. Aí toda e qualquer pessoa que fuja disso, que se comporte de outra forma, alguém que ameace esse imaginário de qualquer maneira é uma pessoa má, uma vadia, uma piranha e tals. É, no feminino mesmo, porque os meninos quando não são príncipes estão sendo homens e, então, tudo bem. #NOT
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| Dicas das tias feministas |
Um relacionamento para ser feliz e durar não depende do que é considerado um bom comportamento. Um relacionamento não pode depender de um elemento seu apenas, já que os relacionamentos têm pelo menos dois ou mais indivíduos. O relacionamento para ser bom e dar certo não vai prender ninguém a nenhuma espécie de estereótipo. Vai se basear em respeito pelas pessoas, não em respeito pelo orgulho masculino, por exemplo.
O ponto é se alguém quiser esperar pelo seu príncipe ou princesa encantada, beleza. Quem quiser outra coisa, beleza. Só não pode usar determinadas expectativas ou frustrações decorrentes para fazer bullying em quem pensa ou se comporta de outra forma. Sacou?
O ponto é se alguém quiser esperar pelo seu príncipe ou princesa encantada, beleza. Quem quiser outra coisa, beleza. Só não pode usar determinadas expectativas ou frustrações decorrentes para fazer bullying em quem pensa ou se comporta de outra forma. Sacou?
Então, é isso minha gente, até a próxima.
4 de dezembro de 2012
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por Barbara Falleiros
Na semana passada, falei sobre o debate na França a respeito do casamento civil entre adultos do mesmo sexo e da falta de clareza, quando não da explícita má-fé dos setores mais conservadores da sociedade. Comentei especialmente o preconceito demonstrado por certos políticos do partido direitista do ex-presidente Sarkozy. Pois agora foi a vez da ex-primeira-dama-herdeira-modelo-cantora Carla Bruni, de volta à mídia para promover seu novo disco, dar a sua opinião sobre o assunto. Em entrevista à Vogue, ela se disse favorável ao casamento para todos: "Não vejo nada instável ou pervertido em famílias homoparentais". Ponto pra ela! Mas na sequência da entrevista, a princesa boêmia deixou escapar uma prova de que sua existência na Villa Montmorency (espécie de condomínio fechado, reduto dos ricaços em Paris) é muito distante daquela das mulheres do mundo real.
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| "Humm... Acho que me expressei mal." |
Na minha geração - disse ela - a gente não precisa ser feminista. As pioneiras abriram o caminho. Eu não sou nem um pouco militante feminista. Por outro lado, eu sou burguesa. Eu gosto da vida em família, de fazer a mesma coisa todos os dias.
Foi o bastante para suscitar uma enxurrada de mensagens no Twitter (#ChereCarlaBruni) explicando porque nossa geração precisa sim ser feminista. Dias depois, Carla Bruni se explicou, disse que não era bem aquilo, que ela só tinha escolhido de se engajar em outras causas (a educação, a luta contra a Aids)... Mas, no fundo, o que mais me impressiona na sua fala é como se coloca a oposição entre a vida regrada de família (burguesa, como ela diz) e o militantismo feminista hoje, tudo isso após a defesa das famílias homoparentais. Quer dizer, a imagem de "abertura" com relação à configuração dos lares é traída por esta visão da família tradicional que é a sua, em que o pai é o grande homem de poder (presidente! Quer mais o quê?) e a mulher não pode ser feminista porque é, acima de tudo, discreta, com uma carreira menos importante que a do marido, assumindo a função maternal e cuja existência se coloca no campo da sensibilidade (arte, música).
Para mim, o casal Sarkozy é um dos mais emblemáticos do velho "cada qual em seu lugar" nas relações. Este homem irrascível, baixinho e poderoso, e esta mulher longilínea e bela, que se apaga atrás dele como que para ressaltar ainda mais seu poder. É sempre impressionante retraçar a trajetória de Carla Bruni. A imagem que ela exibia antes era a da sensibilidade poética associada à liberdade sexual: uma longa lista de relacionamentos incluindo, entre outros, Mick Jagger, Eric Clapton, um editor francês e em seguida um filósofo, filho deste editor... E é curioso vê-la exaltar a rotina quando, anos atrás, declarava que a monogamia era entediante e a poliandria preferível! Que contraste com essa Carla Bruni-Sarkozy, primeira-dama e mãe modelo, que amamentou sua bebezinha (a amamentação não é assim tão comum na França), tirando do ombro do pai a responsabilidade do cuidado do bebê: "[Por não ter que preparar a mamadeira] Você não tem que levantar à noite. Mesmo assim, por solidariedade, eu abro um olho!" - declarou na época Sarkozy.
Por mais que ela tente se justificar, as declarações de Carla são um reflexo dessa sua vida em conformidade com os valores de sua classe e de seu meio. O que não reflete em nada os problemas cotidianos das mulheres de sua geração, tampouco da nossa. Por isso, vale a ocasião de lembrar mais uma vez porque precisamos, ainda hoje, do feminismo. Seguem alguns dos twitts em resposta:
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| Corpo contido, sorriso forçado, olhar baixo. |
Por mais que ela tente se justificar, as declarações de Carla são um reflexo dessa sua vida em conformidade com os valores de sua classe e de seu meio. O que não reflete em nada os problemas cotidianos das mulheres de sua geração, tampouco da nossa. Por isso, vale a ocasião de lembrar mais uma vez porque precisamos, ainda hoje, do feminismo. Seguem alguns dos twitts em resposta:
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| Enquanto me perguntarem se eu sou a assistente do senador [ela é senadora], a geração seguinte precisará do feminismo. |
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| 80% das tarefas domésticas executadas pelas mulheres. |
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| Precisarei do feminismo enquanto me disserem: "Coloca um decote" quando me vestir para uma entrevista de emprego. |
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| Precisaremos do feminismo enquanto os homens que paparicam seus filhos forem vistos como perversos ou homossexuais. |
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| Enquanto se disser que um cara "come" e que uma mulher "é comida", precisaremos do feminismo. |
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| Minha geração precisará do feminismo enquanto o Carrefour fizer sua propaganda de compras online só com mulheres. |
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| 75000 mulheres adultas estupradas por ano na França são suficientes para me convencer de que minha geração precisa do feminismo. |
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| Pergunte às mulheres que pegam ônibus no Cairo se a nossa geração precisa do feminismo! |
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| Certamente precisamos de mais feministas do que de Carlas Bruni! |


































