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por Roberta Gregoli
Naomi Wolf é feminista, autora de sete livros, três dos quais foram traduzidos para o português: além do famoso O mito da beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres, também Fogo com fogo e Promiscuidades: A luta secreta para ser mulher. A entrevista para o WOW se concentra no seu livro mais recente, Vagina.
O título já reivindica uma palavra ainda considerada tabu, pelo menos em língua inglesa, e, ao mesmo tempo em que é ousado, é também uma ótima estratégia de marketing. O subtítulo, "A New Biography", faz alusão a uma parte biográfica polêmica, na qual Wolf descreve os problemas de saúde decorrentes da compressão de um nervo pélvico, que resultou na falta de sensação sexual e - o que para ela foi o momento eureka - na perda do que ela chama de 'estados positivos de consciência', ou seja, num estado de depressão. A partir dessa descoberta pessoal da conexão entre cérebro e vagina, o livro se propõe a investigá-la a fundo, fazendo um levantamento de estudos e entrevistas com médicos e cientistas.
O título já reivindica uma palavra ainda considerada tabu, pelo menos em língua inglesa, e, ao mesmo tempo em que é ousado, é também uma ótima estratégia de marketing. O subtítulo, "A New Biography", faz alusão a uma parte biográfica polêmica, na qual Wolf descreve os problemas de saúde decorrentes da compressão de um nervo pélvico, que resultou na falta de sensação sexual e - o que para ela foi o momento eureka - na perda do que ela chama de 'estados positivos de consciência', ou seja, num estado de depressão. A partir dessa descoberta pessoal da conexão entre cérebro e vagina, o livro se propõe a investigá-la a fundo, fazendo um levantamento de estudos e entrevistas com médicos e cientistas.
Na entrevista, Wolf defende que o tema da libertação sexual feminina está longe de esgotado, tendo que vista que, apesar das quatro décadas desde a revolução sexual, apenas 30% das mulheres (a referência é a mulheres estadunidenses) chegam ao orgasmo e cerca de 30% vivem em estado de baixa libido. A hipótese, interessantíssima, é que mulheres sexualmente satisfeitas são mais difíceis de serem subjugadas, e o estupro como arma de guerra comprova a hipótese pelo reverso.
O uso de estudos com base na biologia pode ser potencialmente problemático se ignorar a biologia e a medicina enquanto conjuntos de práticas e discursos construídos na cultura e moldados por ela, ou seja, se forem tomados como universais e imutáveis. O debate entre natureza e cultura é amplo e argumentos puramente biológicos correm o risco de essencializar 'o feminino'. Como uma pessoa da plateia levantou na hora das perguntas, ao focar na vagina, ficam excluídas, por exemplo, as mulheres transgênero. Wolf se saiu bem dizendo que não encontrou material científico suficiente sobre mulheres transgênero para elaborar sobre o tema, mas não endereçou o problema fundamental de reduzir a experiência feminina à vagina.
Sem ter lido Vagina para poder opinar com propriedade (quem tiver lido fique à vontade para comentar abaixo), a ideia de subverter o discurso médico tradicional, mais afeito à patologização das mulheres, e substituí-lo por novos discursos afirmando o prazer feminino - esse tópico sobre o qual nenhuma 'boa moça' deve falar - é sempre bem-vinda. Num presente em que o slut-shaming continua vivo e ativo, salutamos trabalhos na direção de substituir as narrativas de vergonha e doença associadas ao sexo por narrativas positivas de prazer, reforçando a associação entre sexo e libertação feminina.
14 de março de 2013
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O mundo novo que se descortina e afronta essas religiões dá ao indivíduo a possibilidade de ser ele mesmo - de não representar papeis, de não sofrer com imposições, de fazer suas escolhas, de não ter seu quarto e sua intimidade invadidos pelos dedos acusadores de deus.
Obviamente, sempre haverá um olho dentro de nossos quartos - mas um olho benéfico tenta impedir que estupremos outras pessoas, abusemos de crianças, batamos em nossos companheiros, enfim, que cometamos atos não consentidos entre as partes, ou falsamente consentidos, e que causem dor física e psicológica.
Que fique claro o que chamo de ato falsamente consentido: a filha que 'deixa' o papai abusar sexualmente dela não consentiu; o menino que 'deixa' o padre abusar sexualmente dele não consentiu; a esposa que mesmo não querendo 'deixa' o marido fazer sexo com ela não consentiu. As figuras de autoridade do pai, do padre, do marido usam de seu poder para impor seu desejo ao outro e, então, o culpam. Ou vocês não se lembram do padre que disse, sobre milhares de denúncias de pedofilia na Igreja Católica, que os jovens são culpados por seus abusos, pois provocam? Ou do padre que, ilustrando um estupro com caneta e bocal, disse que não há estupros?
Enfim, o que quero dizer é que a sagrada família das igrejas homofóbicas e misóginas deveria ser chamada de monstruosa família porque comporta todos os crimes cometidos por sua máxima autoridade: o pai. Essas igrejas sempre toleraram o estupro, o abuso, a violência doméstica, a tortura psicológica, até porque elas cometiam e cometem esses mesmos crimes, tendo também deus, o pai, como máxima autoridade. Não por acaso, na Bíblia, o estupro de uma mulher é uma desonra para o pai ou para o marido, mas preferível ao estupro de um homem, como se vê em Juízes, 19.
Não se iludam, um deus homofóbico e misógino foi construído à semelhança do homem e, da mesma forma, a família de suas religiões. Esta, afrontada pela igualdade, sucumbirá toda vez que um marido estuprar uma mulher (seja ela sua parenta ou não) ou nem se formará, pois homossexuais deixarão de sofrer repressão, poderão casar-se e ter filhos, se quiserem. Outras famílias se formarão, mais justas e mais felizes.
Esse é o verdadeiro terror das igrejas: gente feliz. Gente feliz esquece de dar dinheiro pra igreja com muita facilidade, ou se esquece da própria igreja. Se fôssemos felizes, Marco Feliciano não existiria.
por Tággidi Ribeiro
"A família é sagrada. Lutamos para proteger a família." Esse é o discurso da Igreja Católica e das igrejas evangélicas ao condenar a homossexualidade e o feminismo. De fato, homossexualidade e feminismo são uma ameaça à única forma de família aceita por essas religiões, qual seja, a que conta um pai homem e uma mãe mulher, unidos sob quaisquer circunstâncias até a morte. E filhos, claro.
A homossexualidade é ameaça porque tira da berlinda o homem que ama outro homem e a mulher que ama outra mulher, não os obrigando a casar para manter as aparências, como muito comumente acontecia - e acontece. Quem tem amigos gays sabe que há muitos, sim, muitos homens (sobretudo), mas também mulheres homossexuais que vivem a chamada vida dupla. Você aí casada ou casado, nem suspeita, mas pode estar casado (a) com um (a) homossexual.
O feminismo, por seu turno, afirma a insubmissão da mulher, iguala-a ao homem em direitos e deveres. O feminismo vem para dizer que, em primeiro lugar, a vida da mulher já é uma vida completa e não depende de um homem ou um filho para se 'realizar'. A mulher que se entende como vida que vale por si pode permanecer solteira e sem filhos, ou separar-se caso julgue que sua relação não lhe é proveitosa, o que certamente é uma ameaça à família das igrejas homofóbicas e misóginas.
O feminismo, por seu turno, afirma a insubmissão da mulher, iguala-a ao homem em direitos e deveres. O feminismo vem para dizer que, em primeiro lugar, a vida da mulher já é uma vida completa e não depende de um homem ou um filho para se 'realizar'. A mulher que se entende como vida que vale por si pode permanecer solteira e sem filhos, ou separar-se caso julgue que sua relação não lhe é proveitosa, o que certamente é uma ameaça à família das igrejas homofóbicas e misóginas.
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| Não: racismo, sexismo, homofobia, violência. Amor. Paz. |
Obviamente, sempre haverá um olho dentro de nossos quartos - mas um olho benéfico tenta impedir que estupremos outras pessoas, abusemos de crianças, batamos em nossos companheiros, enfim, que cometamos atos não consentidos entre as partes, ou falsamente consentidos, e que causem dor física e psicológica.
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| Criminosos elegem o novo papa da igreja. (Clique para ampliar) |
Enfim, o que quero dizer é que a sagrada família das igrejas homofóbicas e misóginas deveria ser chamada de monstruosa família porque comporta todos os crimes cometidos por sua máxima autoridade: o pai. Essas igrejas sempre toleraram o estupro, o abuso, a violência doméstica, a tortura psicológica, até porque elas cometiam e cometem esses mesmos crimes, tendo também deus, o pai, como máxima autoridade. Não por acaso, na Bíblia, o estupro de uma mulher é uma desonra para o pai ou para o marido, mas preferível ao estupro de um homem, como se vê em Juízes, 19.Não se iludam, um deus homofóbico e misógino foi construído à semelhança do homem e, da mesma forma, a família de suas religiões. Esta, afrontada pela igualdade, sucumbirá toda vez que um marido estuprar uma mulher (seja ela sua parenta ou não) ou nem se formará, pois homossexuais deixarão de sofrer repressão, poderão casar-se e ter filhos, se quiserem. Outras famílias se formarão, mais justas e mais felizes.
Esse é o verdadeiro terror das igrejas: gente feliz. Gente feliz esquece de dar dinheiro pra igreja com muita facilidade, ou se esquece da própria igreja. Se fôssemos felizes, Marco Feliciano não existiria.
12 de março de 2013
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Tággidi
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por Thaís Bueno
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| Você também acredita que o "normal" existe? |
Eu gostaria de começar este post com uma pergunta: você se lembra de qual foi a última notícia que leu sobre casos de sexismo, racismo ou homofobia? Lembra-se de quando isso ocorreu e de qual foi o desfecho da história?
Todxs nós sabemos que episódios vergonhosos de desrespeito à dignidade
de grupos sociais minoritários acontecem frequentemente, tanto no Brasil
quanto em outros países, e pipocam na mídia a todo o momento.
Quase todos os dias ficamos sabendo de algum crime relacionado a homofobia,
racismo, desrespeito aos direitos das mulheres... E também não é raro
emergir, em certos momentos, ondas de discursos de ódio contra homossexuais, negros, mulheres e outras categorias sociais minoritárias, principalmente
nas redes sociais, ambiente onde muita gente acha que tem liberdade total para
escrever o que pensa.
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| Redes sociais: revelando preconceitos since 1997 |
Pois bem. Nesse cenário todo, o que me surpreende é que, mesmo em uma época na qual essas questões sociais são frequentemente debatidas, tais crimes ainda ocorram. Fala-se muito sobre o feminismo, sobre questões de gênero, raça, etnia, homossexualidade. Acompanhamos, também na mídia, debates, análises, considerações – e muitas delas realmente críticas e bem intencionadas – em defesa dos grupos minoritários. As informações estão aí, para qualquer um que queira se instruir, e já ficou mais do que claro que posturas preconceituosas e discursos de ódio têm sido cada vez menos tolerados. Ainda assim, essas posturas continuam aparecendo e os discursos continuam sendo feitos. Por quê?
É óbvio que, se determinado tipo de crime ou abuso está sendo noticiado e discutido, isso é algo bom. É sinal de que estamos numa sociedade democrática (embora eu ache que, às vezes, esse “democrática” precisa de algumas aspas), e que os crimes e abusos estão aparecendo – diferentemente de algumas décadas atrás, quando sexismo, racismo e homofobia aconteciam de forma mais velada e aceita. No entanto, suspeito que há, ainda, um pequeno fator no meio disso tudo ao qual a gente não dá atenção: em muitos casos, essas minorias são tratadas como problema.
Um exemplo disso é o discurso segundo o qual o feminismo veio para solucionar "problemas" das mulheres. E isso é um sinal de algo ainda mais preocupante: a categoria "homem" raramente é questionada ou debatida. Quantas vezes
você já viu alguém perguntar como é ser homem na sociedade brasileira?
Obviamente, o status da mulher e a forma como ela é tratada no nosso
país é algo frequentemente debatido, assim como ocorre com negros e
homossexuais. Questionamentos sobre como “como é ser negro em uma
sociedade racista” ou “como é ser homossexual em uma sociedade
homofóbica” são bastante comuns. Mas, curiosamente, nunca vi alguém
perguntar coisas do tipo “como é para você ser branco?” ou
“como você se sente sendo heterossexual?”. E então, como é ser homem?
Pensando
nessas questões, acredito que, muitas vezes, a forma como a mídia e nós
mesmxs tratamos essas questões de ordem social e política acaba por
fossilizar os grupos minoritários como se eles fossem espécies em análise, em
algum laboratório, esperando pelas considerações de um pesquisador. E,
no caso do feminismo, mesmo com a intenção de defendê-lo, acabamos
tratando-o o como aquilo que precisa ser debatido, analisado, discutido.
Ora, mulheres, gays e negros não são problemas, gente, e não devem ser
pensados assim. Da mesma forma, as categorias “homem”, “branco” e
“heterossexual” também não são rótulos neutros e podem (e devem) ser
questionados e debatidos.
Se o status de certas categorias de identidade não é questionado ou debatido, isso acontece por uma razão muito simples: essas categorias são hegemônicas e construídas por mecanismos ideológicos há séculos. Cabe a nós, portanto, questionar esses mecanismos. Eles é que merecem nossa atenção e nossa análise. Esses processos é que precisam ser solucionados.
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| "Ninguém nasce mulher"... E ninguém nasce homem tampouco |
4 de março de 2013
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Thaís
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Não sou antropóloga para sair teorizando sobre ritos de passagem, mas lá fui eu humildemente ler na Wikipedia sobre trotes estudantis. Aprendi que ritos de passagem proporcionam "o aprendizado de valores fundamentais para a vida no nível seguinte" e que os trotes são "ritos de passagem às avessas, representando uma prática oposta aos valores humanistas da universidade".
Como tentamos mostrar em inúmeros posts aqui do blog, a carta do humor é utilizada de modo frequente para tirar o peso da violência, "maquiar" problemáticas sérias, reforçar, por exemplo, a chamada cultura do estupro. Diante da faixa de protesto com os dizeres "Somos mulheres, não bonecas infláveis. Temos ideias, não somos manipuláveis", os partidários do Miss Bixete se divertiram simulando sexo com uma boneca. Mulher objeto. Mais ainda, eles distribuíram folhetos de incitação à violência contra as mulheres baseados na capa do best seller - diga-se de passagem, criticado por muitas feministas - Cinquenta tons de cinza: "Cinquenta golpes de cinta. A cura para o fogo no rabo dessa mulherada mal comida." Devem ter se divertido tanto e achado tanta genialidade no trocadilho. Mas qualquer um que parasse um segundo para refletir sobre a frase não esboçaria nem mais um sorriso amarelo. A violência física contra as mulheres não é uma piada. Ela mata, de verdade, todos os dias.
por Barbara Falleiros
As leitoras e leitores deste blog devem ter acompanhado, esta semana, o caso de hostilização de um grupo de estudantes feministas que protestava contra trotes sexistas na USP de São Carlos. Para quem ainda não soube do ocorrido, aqui vai o relato divulgado no Facebook por uma integrante da Frente Feminista de São Carlos, levemente resumido:
Todo ano ocorre aqui na USP São Carlos o Miss Bixete, evento no qual, após passarem pela "apelidação" (apelidos pejorativos e fazendo juízo de valor sobre seus corpos e sua sexualidade), as calouras são levadas pelos veteranos para que desfilem. Ao longo do desfile os veteranos gritam em coro "peitão, peitão, peitão" pedindo para que a caloura mostre os seios e incentivam que ela dance e exponha seu corpo. Uma prática também frequente nesse dia do "evento" é a "competição do picolé". Nesta competição, cada uma das calouras recebe um picolé e têm que chupá-lo simulando sexo oral. A que terminar o picolé primeiro "ganha".Como resposta ao evento, nos últimos cinco anos, o Coletivo de Mulheres do CAASO (centro acadêmico) e Federal promovem um ato em boicote ao Miss bixete, a fim de tentar conscientizar o maior número de pessoas possível. Nesta última terça-feira, a Frente Feminista de São Carlos reuniu 50 pessoas para a manifestação em repúdio ao evento. A manifestação era pacífica e contava com instrumentos de batuque, músicas, faixas com palavras de ordem e panfletagem.
Retrato de um imbecil (não encontrei a foto original) Ao longo da manifestação, integrantes do GAP (Grupo de Apoio a Putaria) e alunos da USP que participavam do evento, arrancaram e rasgaram alguns dos cartazes da manifestação, tentarem impedir nossa entrada no CAASO, jogaram cerveja, copos e duas bombas em nossa direção. Houve empurrões, tentativa de agressão, assédio às meninas e um grupo que, no final da manifestação, perseguiu com pedaços de pau os manifestantes. Como resposta a nossa faixa, os meninos do GAP simulavam ato sexual com uma boneca inflável diante da manifestação. Alguns participantes do evento tiraram as roupas e fizeram gestos obscenos, sempre se direcionando aos manifestantes e dizendo provocações como "isso aqui é para corrigir esse bando de viado e sapatão". A USP abriu inquérito para investigar a respeito dos alunos que ficaram nus e a mídia local tem se focado nisso.
Não sou antropóloga para sair teorizando sobre ritos de passagem, mas lá fui eu humildemente ler na Wikipedia sobre trotes estudantis. Aprendi que ritos de passagem proporcionam "o aprendizado de valores fundamentais para a vida no nível seguinte" e que os trotes são "ritos de passagem às avessas, representando uma prática oposta aos valores humanistas da universidade".
O calouro é encarado pelo veterano como algo (mais que um animal, mas menos que um ser humano) que deve ser domesticado pelo emprego de práticas humilhantes e vexatórias. Da mesma forma, denominar o calouro de bixo (ou bixete, se for mulher), parece querer indicar que o calouro deve ser humilhado a ponto de nem mesmo merecer que a palavra bicho seja escrita corretamente. (Zuin, 2002, p. 44).
O interessante, a meu ver, é que no caso de trotes sexistas não se trata de passagem por uma situação de constrangimento ritual - e portanto, pontual, isto é, delimitada no tempo (um dia, uma semana de trote) - que, ao seu fim, levará o indivíduo constrangido a ser aceito e em breve alçado ao mesmo nível hierárquico dos que o constrangeram. Em um trote sexista há apenas a reprodução e a perpetuação da violência, do menosprezo e dos abusos que as mulheres e/ou "minorias" sofrem cotidianamente e continuarão a sofrer em suas vidas muito tempo depois de terminado o trote.
Os comentários de leitores às reportagens que saíram no jornal ilustram bem o desconhecimento do discurso que sustenta esse tipo de prática sexista. "É só tomar um banho que passa" não funciona no caso de um trote sexista porque as meninas vão continuar sendo julgadas pelo seu corpo e porque o sexo oral, na nossa sociedade, vai continuar sendo associado à uma prática coerciva ou humilhante (lembrando que o "grito de guerra" de uma faculdade contra outra costuma ser o "Chupa!": "Chupa medicina!", "chupa engenharia!", "chupa Poli!" etc.). Nada disso provoca "engrandecimento". E é preciso que o discurso mude urgentemente do "se não quer não participe" para o "se ofende não organize"... Está na hora de começar a pensar.
Os comentários de leitores às reportagens que saíram no jornal ilustram bem o desconhecimento do discurso que sustenta esse tipo de prática sexista. "É só tomar um banho que passa" não funciona no caso de um trote sexista porque as meninas vão continuar sendo julgadas pelo seu corpo e porque o sexo oral, na nossa sociedade, vai continuar sendo associado à uma prática coerciva ou humilhante (lembrando que o "grito de guerra" de uma faculdade contra outra costuma ser o "Chupa!": "Chupa medicina!", "chupa engenharia!", "chupa Poli!" etc.). Nada disso provoca "engrandecimento". E é preciso que o discurso mude urgentemente do "se não quer não participe" para o "se ofende não organize"... Está na hora de começar a pensar.
Como tentamos mostrar em inúmeros posts aqui do blog, a carta do humor é utilizada de modo frequente para tirar o peso da violência, "maquiar" problemáticas sérias, reforçar, por exemplo, a chamada cultura do estupro. Diante da faixa de protesto com os dizeres "Somos mulheres, não bonecas infláveis. Temos ideias, não somos manipuláveis", os partidários do Miss Bixete se divertiram simulando sexo com uma boneca. Mulher objeto. Mais ainda, eles distribuíram folhetos de incitação à violência contra as mulheres baseados na capa do best seller - diga-se de passagem, criticado por muitas feministas - Cinquenta tons de cinza: "Cinquenta golpes de cinta. A cura para o fogo no rabo dessa mulherada mal comida." Devem ter se divertido tanto e achado tanta genialidade no trocadilho. Mas qualquer um que parasse um segundo para refletir sobre a frase não esboçaria nem mais um sorriso amarelo. A violência física contra as mulheres não é uma piada. Ela mata, de verdade, todos os dias.
Temos aqui no blog leitores machistas, cada vez mais fiéis, que a esta altura já devem estar digitando um comentário: "Mas na manifestação essas vadias ficam peladas, não ficam?" Nem se incomodem em escrever, essa reflexão já foi feita, por exemplo, aqui:
Que as calouras sejam pouco induzidas a participar do tal desfile não desculpa a existência de um evento em que jovens mulheres, que provaram sua capacidade intelectual ao serem admitidas em um vestibular concorrido, sejam imediatamente reduzidas ao valor de seus corpos ao pisarem na universidade. Além disso, nota-se que o mesmo tipo de raciocínio utilizado para culpabilizar vítimas de estupro ou violência aparece aqui, já que comentário faz recair o julgamento moral sobre as participantes do "concurso" ao invés de responsabilizar seus organizadores: tornaram-se "engenheiras respeitáveis" apesar de terem participado, apesar de seu "exibicionismo adolescente", e a culpa das que se sentissem pressionadas seria delas mesmas por não terem "estrutura psicológica".
O que mais dificulta, no entanto, os combates feministas contra discursos e práticas machistas do tipo deste trote é o fato das diversas manifestações de nudez serem facilmente confundidas. O que é que tem mostrar o pênis se as "feministas" - ou "esse pessoal" - mostram o peito?
Vamos esclarecer as coisas. O movimento das Femen, com o qual eu particularmente não me identifico e a respeito do qual mantenho as dúvidas colocadas aqui, contextualiza explicitamente a prática da nudez de suas manifestantes como estratégia para atrair a atenção da mídia tradicional.
Já o movimento da Marcha das Vadias surgiu em resposta a uma alegação de um policial canadense para quem "se as mulheres evitassem se vestir como vadias, não seriam estupradas". Sabemos que não é a roupa que causa o estupro mas as relações de poder, que desumanizam a mulher. Ironizando a fala do policial e mostrando que, segundo esse tipo de pensamento, toda mulher seria "vadia", as militantes da Marcha das Vadias costumam desfilar usando roupas curtas e algumas com seios nus, reivindicando o direito das mulheres de fazerem o que quiserem de seus corpos e pedindo o respeito total ao corpo feminino, contra sua sexualização exagerada. O que elas tentam mostrar é que a quantidade de pele exposta por uma mulher não é jamais um convite para que os homens se disponham de seu corpo como bem entenderem e sem consentimento.
Quanto aos pênis dos estudantes, fica claro que a nudez foi usada intencionalmente de forma violenta, ainda mais acompanhada de gestos obscenos e ameaças homofóbicas, como relatado ("Isso aqui é para corrigir esse bando de viado e sapatão"). O pênis, em si, não significa nada. Um pênis nu é tão inonfesivo quanto um seio de fora. Exceto quando ele é usado como órgão e símbolo de perpretação da violência, da humilhação e do ódio.
Agora dá para entender a diferença? Ela não é pequena.
O que mais dificulta, no entanto, os combates feministas contra discursos e práticas machistas do tipo deste trote é o fato das diversas manifestações de nudez serem facilmente confundidas. O que é que tem mostrar o pênis se as "feministas" - ou "esse pessoal" - mostram o peito?
Vamos esclarecer as coisas. O movimento das Femen, com o qual eu particularmente não me identifico e a respeito do qual mantenho as dúvidas colocadas aqui, contextualiza explicitamente a prática da nudez de suas manifestantes como estratégia para atrair a atenção da mídia tradicional.
Já o movimento da Marcha das Vadias surgiu em resposta a uma alegação de um policial canadense para quem "se as mulheres evitassem se vestir como vadias, não seriam estupradas". Sabemos que não é a roupa que causa o estupro mas as relações de poder, que desumanizam a mulher. Ironizando a fala do policial e mostrando que, segundo esse tipo de pensamento, toda mulher seria "vadia", as militantes da Marcha das Vadias costumam desfilar usando roupas curtas e algumas com seios nus, reivindicando o direito das mulheres de fazerem o que quiserem de seus corpos e pedindo o respeito total ao corpo feminino, contra sua sexualização exagerada. O que elas tentam mostrar é que a quantidade de pele exposta por uma mulher não é jamais um convite para que os homens se disponham de seu corpo como bem entenderem e sem consentimento.
Quanto aos pênis dos estudantes, fica claro que a nudez foi usada intencionalmente de forma violenta, ainda mais acompanhada de gestos obscenos e ameaças homofóbicas, como relatado ("Isso aqui é para corrigir esse bando de viado e sapatão"). O pênis, em si, não significa nada. Um pênis nu é tão inonfesivo quanto um seio de fora. Exceto quando ele é usado como órgão e símbolo de perpretação da violência, da humilhação e do ódio.
Agora dá para entender a diferença? Ela não é pequena.
Para terminar este post numa nota positiva: como foi dito acima, os protestos contra o evento Miss bixete acontecem há cinco anos e têm surtido efeito, já que o evento parece estar perdendo cada vez mais força - apesar do acontecido este ano, e esperamos que os responsáveis sejam sancionados pela Universidade. Parabéns para o Coletivo de Mulheres do CAASO e a Frente Feminista! Também fiquei agradavelmente surpresa com a quantidade de homens feministas na manifestação do coletivo. Liberdade, igualdade e respeito para todo mundo, e um ótimo ano escolar para todos os esperançosos que iniciam os melhores anos de suas vidas.
3 de março de 2013
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A liberdade das mulheres, um tema que comecei a esboçar há algumas semanas, é importante, em primeiro lugar, porque é uma das principais bandeiras do feminismo - "até que todas sejamos livres" - e, em segundo, porque a ideia de liberdade serve, muitas vezes, para explicar e justificar, perversamente, a opressão. É o mesmo que aquela história racista de que xs negrxs são, em sua maioria, pobres porque são preguiçosxs. Reduzir o papel subordinado a uma escolha pessoal é uma maneira fácil de desqualificar a demanda por direitos.
Então, acredito - à revelia dxs leitorxs liberais do Economist - que temos que poder dizer sem pudor que lugar de mulher é no trabalho, na política, no ringue. Sem desrespeitar o trabalho árduo das donas de casa e mães em período integral, precisamos afirmar e reafirmar essas outras posições como possíveis, ainda que mais difíceis... ainda que não baste apenas a vontade individual.
por Roberta Gregoli
"On peut toujours faire quelque chose de ce qu'on a fait de nous"
Sartre, L'Existencialisme est un Humanisme
Podemos sempre fazer algo com o que fizeram de nós, isso é liberdade. Mas, veja bem, não se trata de uma liberdade irrestrita ou total: o limite está dado. É muito diferente do que nos vendeu a Xuxa com sua teologia capitalista, segundo a qual "tudo pode ser, só basta acreditar", que pressupõe um vácuo social onde só basta a vontade individual. Liberdade é o que você faz com o que - a sociedade, suas experiências, sua criação, suas oportunidades e seus recursos - fizeram de você.
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| Problematizando o clichê da liberdade total e irrestrita |
A liberdade das mulheres, um tema que comecei a esboçar há algumas semanas, é importante, em primeiro lugar, porque é uma das principais bandeiras do feminismo - "até que todas sejamos livres" - e, em segundo, porque a ideia de liberdade serve, muitas vezes, para explicar e justificar, perversamente, a opressão. É o mesmo que aquela história racista de que xs negrxs são, em sua maioria, pobres porque são preguiçosxs. Reduzir o papel subordinado a uma escolha pessoal é uma maneira fácil de desqualificar a demanda por direitos.
Tenho pensado mais intensamente sobre esse assunto desde dezembro de 2012, quando o Economist lançou, num de seus debates virtuais, o tópico Mulher & trabalho. Nesse tipo de debate, há uma proposição da casa, que é sempre introduzida pela expressão This house believes... e umx debatedorx para cada lado, contra e a favor. Xs internautas, após lerem os argumentos de ambas as partes, têm uma semana para votar online.
A proposição no caso era This house believes that a woman's place is at work (Esta casa acredita que lugar de mulher é no trabalho) e o resultado do debate foi, para mim, surpreendente: 53% disseram que não, ou seja, que o lugar da mulher não é no trabalho.
O principal eixo argumentativo dos que se opunham à proposição foi (na minha tradução):
As mulheres não têm um lugar designado na sociedade. Em sociedades livres, elas escolhem onde querem estar. Para pelo menos 5 milhões de mulheres norte-americanas, acontece que esse lugar é em casa, como mães em período integral. O que há de errado nisso?
Sedutor, não é? Mas como esbocei no meu post anterior, não se pode falar em liberdade quando não há igualdade de oportunidades. Será que essas 5 milhões de norte-americanas escolheram, de fato, ser donas de casa e mães em período integral?
Vamos computar os fatos (com foco na realidade brasileira, nosso maior interesse aqui, mas, pelo que estudei, também aplicável aos Estados Unidos, ainda que os números possam variar):
No Brasil, é comprovado que mulheres têm mais dificuldade em conseguir um emprego, apesar de serem mais escolarizadas que os homens. Há até discriminação descarada - e ilegal - em ofertas de emprego, privilegiando homens. Quando conseguem um emprego, a desigualdade salarial é de quase 30%. Além disso, são diversos os fatores culturais que contribuem para um entendimento equivocado de que as mulheres são mais aptas a cuidar da casa e dxs filhxs (ex. brinquedos que incentivam o trabalho domésticos, mitos como o do instinto maternal, etc).
Tendo esse quadro em vista, quando um casal decide ter filhxs, qual dos dois cônjuges está mais propenso a largar a carreira ou colocá-la em segundo plano? É uma questão de matemática até, ganhando em média quase 1/3 a menos que os homens, o salário da esposa oferecerá menos conforto que o do esposo. Isso sem falar que, numa sociedade onde o clube do bolinha é a regra, em que ainda se acredita que mulheres bonitas não devem trabalhar porque 'desconcentram' os homens, as chances de ascensão profissional são muito menores para as mulheres.
Dizem xs reacionárixs que as feministas são "contra" as donas de casa, que não respeitam o seu trabalho e que acham que todas as mulheres deviam trabalhar. Reducionismo puro. Não é questão de desvalorizar o trabalho doméstico - que, aliás, se remunerado, somaria 10% do PIB nacional. A questão é problematizar o conceito de escolha e de liberdade: com toda essa dificuldade, se uma mulher decide abrir mão da carreira ou colocá-la em segundo plano, essa foi uma escolha realmente? Se você pode escolher entre A e B, mas sabe que B é um caminho muito mais tortuoso e difícil, será que podemos falar de 'escolha'?
Vamos computar os fatos (com foco na realidade brasileira, nosso maior interesse aqui, mas, pelo que estudei, também aplicável aos Estados Unidos, ainda que os números possam variar):
No Brasil, é comprovado que mulheres têm mais dificuldade em conseguir um emprego, apesar de serem mais escolarizadas que os homens. Há até discriminação descarada - e ilegal - em ofertas de emprego, privilegiando homens. Quando conseguem um emprego, a desigualdade salarial é de quase 30%. Além disso, são diversos os fatores culturais que contribuem para um entendimento equivocado de que as mulheres são mais aptas a cuidar da casa e dxs filhxs (ex. brinquedos que incentivam o trabalho domésticos, mitos como o do instinto maternal, etc).
Tendo esse quadro em vista, quando um casal decide ter filhxs, qual dos dois cônjuges está mais propenso a largar a carreira ou colocá-la em segundo plano? É uma questão de matemática até, ganhando em média quase 1/3 a menos que os homens, o salário da esposa oferecerá menos conforto que o do esposo. Isso sem falar que, numa sociedade onde o clube do bolinha é a regra, em que ainda se acredita que mulheres bonitas não devem trabalhar porque 'desconcentram' os homens, as chances de ascensão profissional são muito menores para as mulheres.
Dizem xs reacionárixs que as feministas são "contra" as donas de casa, que não respeitam o seu trabalho e que acham que todas as mulheres deviam trabalhar. Reducionismo puro. Não é questão de desvalorizar o trabalho doméstico - que, aliás, se remunerado, somaria 10% do PIB nacional. A questão é problematizar o conceito de escolha e de liberdade: com toda essa dificuldade, se uma mulher decide abrir mão da carreira ou colocá-la em segundo plano, essa foi uma escolha realmente? Se você pode escolher entre A e B, mas sabe que B é um caminho muito mais tortuoso e difícil, será que podemos falar de 'escolha'?
Relações de liberdade que só podem se realizar, para todas as mulheres, com a igualdade. Esta perspectiva é, portanto, radicalmente distinta do individualismo liberal que defende a liberdade de cada mulher para fazer o que quiser com seu corpo, mas que não é capaz de identificar que, no atual modelo, a liberdade não caracteriza a vida da maioria das mulheres. - Tica Moreno, Marcha Mundial das Mulheres
Então, acredito - à revelia dxs leitorxs liberais do Economist - que temos que poder dizer sem pudor que lugar de mulher é no trabalho, na política, no ringue. Sem desrespeitar o trabalho árduo das donas de casa e mães em período integral, precisamos afirmar e reafirmar essas outras posições como possíveis, ainda que mais difíceis... ainda que não baste apenas a vontade individual.
27 de fevereiro de 2013
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É por essas e por outras que a gente tem que se manifestar na forma de escrever, de falar, e ocupar nosso espaço no mundo simbólico também. Dizer “homem” e “mulher” já não dá mais conta da nossa realidade hoje, e isso também se aplica a tratar o homem como eterna maioria. E é por isso que a leitura desta entrevista é muito significativa e importante para quem anda buscando entender melhor essas novas tentativas de marcas de gênero e a razão do debate. A Yadira descreve bem e rapidamente o funcionamento da linguagem enquanto espelho e propagadora de uma determinada ordem social, passando pelos mitos religiosos, culturais e científicos, ou seja, indo de Eva, passando pela Amneris, chegando às histéricas do Freud. Imperdível.
por Mazu
O título deste post é uma frase
proferida por Yadira Calvo, uma das maiores escritoras da Costa Rica e América
Latina, em uma entrevista concedida no dia 13 de fevereiro deste ano. Yadira recebeu, em 2012, o prêmio Mágon, o mais importante prêmio cultural da Costa
Rica. Somam-se a esse grande feito: anos de docência nas melhores universidades
de seu país e mais de onze obras publicadas e aclamadas.
Do alto desse currículo, essa autora,
cientista da linguagem e feminista falou sobre a importância da linguagem na
manutenção da ordem social ou, preferencialmente, no desmantelamento dessa
ordem.
De vez em quando, a gente recebe
esse ou aquele comentário sobre o uso de marcas de gênero que expressem
diversidade, desde o básico “os (as)”, o “@” e, mais recente e abrangente “x”.
Algumas pessoas parecem pensar que marcar a diversidade de gênero nos nomes é
uma perda de tempo porque, em português, o plural masculino tem essa função. Já
outras parecem acreditar que essas questões de linguagem não são dignas de
tanta preocupação ou debate, que a simples alteração na forma de marcar o
gênero na língua não resolveria os problemas de desigualdade e discriminação. Obviamente,
não se trata de uma solução mágica e de efeito imediato. Contudo, também não se
trata de uma solução tão paliativa assim. A reivindicação ou tentativa de
buscar uma marca de gênero que expresse a diversidade é muito válida e tem,
sim, razão de ser.
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Isso porque a linguagem, nas
palavras da Yadira, é a roda de transmissão da cultura. Como a cultura é
sexista, a linguagem tem esse tom. A gente pode considerar a língua um
patrimônio e defendê-la, mas não no que nos apaga ou diminui. A defesa da
língua como patrimônio sagrado, rígido e imutável além de ser muito
preconceituosa, é muito falha porque faz parecer que a língua está acima do
falante, como se o falante tivesse que obedecer à língua e à gramática, quando,
na verdade, o caminho real é quase oposto. Essas relações são bem mais
complexas e fluidas do que a simples hierarquia dos fatores.
A gente já falou várias vezes
aqui como o feminino pode ser empregado para desvalorizar e diminuir, num
determinado discurso. Isso não é à toa, a história como é contada, grande parte
da literatura e a maioria das religiões estabeleceram bem o lugar da mulher na
nossa cultura, e, obviamente, isso está marcado na linguagem. Em mandarim, por
exemplo, o ideograma de “bem”, “bom”, usado para responder ao cumprimento “tudo
bem?”, é o ideograma de casa com o ideograma de mulher dentro, ou seja, mulher
quietinha dentro de casa, tudo bem.
Para a gente romper com esse lugar
social que nos deram e que foi historicamente construído e legitimado, a gente
tem que romper em todas as instâncias. Por isso, pode parecer picuinha implicar
com tratamento no masculino quando existem mulheres no grupo, mas não é não.
Ainda que os imortais das Academias de Letras (que são, sem nenhuma surpresa, a
maioria homens) se irritem porque a regra é que o masculino inclua a todos, a
gente bem sabe que isso é reflexo de uma sociedade sexista que, em realidade,
nos exclui. E não só nós, mulheres, como qualquer homem que não queira ocupar
um determinado papel dito de homem e, por isso, acaba recebendo esse ou aquele
rótulo e perdendo o título de homem.
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| Não Aguento Quando |
Por outro lado, homens, quando
incluídos em uma expressão coletiva de tratamento no feminino, têm como reação
mais provável a irritação e o sentimento de ofensa, ou seja, a manifestação do
feminino na língua, quando não é apagada, é pejorativa. A Yadira fala de como
esse tom pejorativo vem da Grécia Antiga e do que Aristóteles chamava de “homem
incompleto” (as mulheres), de como os homossexuais passivos eram menosprezados
por ocupar um lugar que seria o da mulher no coito. Essa explicação me ajudou
muito porque eu nunca entendi bem esse negócio de chamar homossexual de
“mulherzinha”, já que gênero é gênero e opção sexual é opção sexual. E aí você
se depara com uma possível razão que data de milhares de anos atrás, vinda de
uma sociedade que, ok, tem seus méritos, mas era misógina, xenófoba e bélica.
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| Créditos: Femstagram |
Considerando a relação entre
língua e contexto social não rola dizer que uma palavra é só uma palavra, que
uma piada é só uma piada, que uma expressão é só uma expressão. Os termos e
expressões que empregamos quando falamos e escrevemos nos posicionam muito,
socialmente e ideologicamente. As pessoas que chamam um acampamento do MST de
“invasão” e as pessoas que chamam de “ocupação” já estão posicionadas no debate
a partir do emprego termo. Só com uma palavra a gente já sabe onde as pessoas
estão e, às vezes, de onde elas vêm.
É por essas e por outras que a gente tem que se manifestar na forma de escrever, de falar, e ocupar nosso espaço no mundo simbólico também. Dizer “homem” e “mulher” já não dá mais conta da nossa realidade hoje, e isso também se aplica a tratar o homem como eterna maioria. E é por isso que a leitura desta entrevista é muito significativa e importante para quem anda buscando entender melhor essas novas tentativas de marcas de gênero e a razão do debate. A Yadira descreve bem e rapidamente o funcionamento da linguagem enquanto espelho e propagadora de uma determinada ordem social, passando pelos mitos religiosos, culturais e científicos, ou seja, indo de Eva, passando pela Amneris, chegando às histéricas do Freud. Imperdível.
22 de fevereiro de 2013
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3
por Thaís Bueno
Você se lembra de uma
polêmica ocorrida na mídia no final de 2012, envolvendo uma marca de
lingerie e uma propaganda de gosto extremamente duvidoso? Na ocasião, a
propaganda exibia uma favela do Rio de Janeiro, em processo de pacificação, um
oficial caído no chão e uma mulher, negra, vestindo lingerie. O slogan: “Pacificar
foi fácil, quero ver dominar”. A polêmica, claro, deveu-se ao fato de o Conar,
órgão resposável pela regulação do que vai ou não ao ar nos meios de
comunicação, determinar que se tratava de uma propaganda sexista, que vulgarizava
a mulher e banalizava o processo de pacificação das favelas do Rio de Janeiro.
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| Campanha da Duloren, de 2012, retirada do ar pelo Conar |
Lembro que, na época, minha
opinião sobre o anúncio era muito clara: ora, a propaganda era, em último caso,
de péssimo gosto, e para mim não era novidade algo do tipo surgir na mídia
brasileira. O que me surpreendeu, no entanto, foi a reação de muitas pessoas do ramo publicitário, nas redes sociais, taxando a decisão do Conar
como ato de censura e postura politicamente correta. E eu pensei comigo:
ora, qual o problema com o politicamente correto?
Pois bem, foi nessa época que
comecei a notar que cresce há algum tempo, principalmente entre homens e
mulheres que acreditam fazer parte de uma certa “intelectualidade” brasileira
(que no entanto é bastante rasa e imediatista), um certo desprezo ao que se
acredita ser o politicamente correto. Para essas pessoas, a atitude
politicamente correta seria uma postura “quadrada”, que restringe liberdades
individuais. Comentários como “ora, que deixem a fulana tirar a roupa no
anúncio! Estamos em um país tropical, onde as mulheres usam menos que isso nas
ruas... Não sejamos hipócritas!” e “a censura voltou e o Brasil está regredindo...
daqui a alguns anos, a publicidade não poderá dizer mais nada!” estavam entre
as pérolas que li e ouvi.




O mesmo tipo de reação às vezes
surge quando certas pessoas leem um texto que apresenta marcas de gênero. Muita gente lê
uma frase como “Damos boas-vindas a todos(as) os(as) presentes” e não gosta,
argumentando que as marcas do feminino nada mais são do que uma intrusão
desnecessária, intrusão essa que “polui” o texto. Por que será que também não fico surpresa?
Se pensarmos bem, tanto no caso
da modelo de lingerie na TV quanto no caso da linguagem com marcas do
feminino, o que está em jogo não é exatamente uma simples questão de “proibição
de um determinado modo de falar”, e sim uma questão de modo de agir.
Obviamente, para quem acha que uma piada preconceituosa ou um linguajar
ofensivo à mulher não afeta a forma como sentimos a realidade e vivemos neste
mundo, o politicamente correto não faz sentido. Para essas pessoas, o
“político” está relacionado a moralidade, e não a respeito e convivência. Para
elas, portanto, o politicamente correto é apenas algo que restringe sua liberdade
de dizer o que quiser (algo que, inclusive, já foi discutido aqui no Subvertidas).
No entanto, se pensarmos que o
que lemos e escrevemos pode afetar efetivamente nossa percepção da realidade, a
política toma outra dimensão e o politicamente correto passa a ser uma das
armas de que podemos dispor para subverter ideologias e discursos dominantes.
Por exemplo, quando optamos inserir uma marca de gênero em nosso texto,
estamos provocando, pela linguagem, um estranhamento a algo que, não fosse por
essa “intrusão”, passaria em branco (e vale também pensar nos efeitos dessa
expressão, “passar em branco”, que acabei de usar). É como se, inserindo “(as)”
ao final de uma palavra masculina, estivéssemos nos lembrando de que há ali,
também, a possibilidade da existência de uma mulher. E, mais do que isso, pode
nos levar a perceber como a condição masculina nos parece ser neutra. É uma condição dominadora e que, aparentemente, não precisa ser colocada em
debate. Ela sempre se apresenta a nós como uma condição natural, uma condição
que vem a priori, uma condição à qual o feminino se opõe.
Se tomamos em consideração todas essas questões, podemos entender, também, porque é que o termo “feminista” carrega, para muitas pessoas, uma
conotação negativa, como se a feminista fosse uma mulher radical, inadequada,
difícil. E também porque, mesmo quando se trata de alguém que se opõe à ideia do sexismo, essa pessoa prefere se denominar como alguém “em favor dos direitos das mulheres”
ou “feminina”, atenuando assim os efeitos do termo “feminista” e evitando
para si o rótulo injusto que se costuma aplicar às feministas. Mas, será que se
trata apenas de uma questão de “mudar de nome”? Será que, mudando o nome, mudamos também aquilo a que nos referimos? O que uma mudança de nome implicaria?
Parece que, no tempo de Shakespeare, “mudar o
nome” não significava muita coisa, não afetava muito o mundo tal como era. A
rose by any other name would smell as sweet (“Se uma rosa tivesse outro nome,
ainda assim teria o mesmo perfume”) é um dos trechos da mais famosa peça de
Shakespeare. Mas, hoje, séculos após a publicação de “Romeu e Julieta”, não dá
mais para pensar assim, gente. Acredito que mundo mudou, e muito. Nos dias de hoje, por algum motivo, essa suposta arbitrariedade entre o que se diz e a realidade está fragilizada. O dizer e a forma de dizer podem ser a própria ação (toda a obra de Nietzsche está aí para nos mostrar isso). E, embora o cuidado com a linguagem não resolva milagrosamente problemas que são sociais e políticos (e que, obviamente, pedem também ações políticas e sociais diretas, não apenas linguísticas), ao prestarmos atenção àquilo que falamos, nós despertamos para algumas questões importantes, e aquilo que lemos e escrevemos pode se apresentar de forma diferente. A forma de dizer, às vezes, diz por si própria.
A luta contra os preconceitos terá que ser uma luta persistente e incansável. Será preciso inúmeras tentativas e, ainda assim, não haverá nenhuma garantia de que o mundo estará livre de todos os preconceitos e a linguagem, politicamente "limpa" de uma vez por todas. Entretanto, uma das maneiras mais eficazes de combater os preconceitos sociais que, ao que tudo indica, sempre existirão, é monitorando a linguagem por meio da qual tais preconceitos são produzidos e mantidos e obrigando os usuários, em nome da linguagem politicamente correta, a exercer controle sobre sua própria fala, e, ao controlar sua própria fala, constantemente se conscientizar da existência de tais preconceitos.
Intervir na linguagem significa intervir no mundo. (Kanavillil Rajagopalan, "Sobre o porquê de tanto ódio contra a linguagem 'politicamente correta'")
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| Ainda que tenha outro nome, o sexismo vai continuar fedendo |
18 de fevereiro de 2013
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Thaís
1
Este post terá uma vibe de descontração. Sabe como é, às vezes, cansa. Já dissemos, a feminista cansada já disse. Tem muito troll no mundo, e a vida é muito curta e bela.
Quem tiver com tempo, pode recitar, com a mão no peito em postura de hino nacional, estes tweets maravilhoosos da Carina Prates (vi no feminista cansada).
Sério, se a gente não pode falar da nossa sexualidade, quem pode? Os homens?
por Mazu
Este post terá uma vibe de descontração. Sabe como é, às vezes, cansa. Já dissemos, a feminista cansada já disse. Tem muito troll no mundo, e a vida é muito curta e bela.
Escutamos algumas barbaridades, sempre de
vez em quando, por sermos mulheres e/ou feministass, e, em vista disso, resolvi
comentar determinados "argumentos".
Sei que não é sempre que estamos na pegada de
comprar briga, sei que rola um sentimento de "não compensa", mas a
nossa sociedade é muito boa em mascarar preconceitos e discriminação, a gente
vive em uma era que somos levados a acreditar, pela mídia, pelos costumes e até pelo sistema de ensino, que todo mundo pode ter o mesmo acesso a tudo. Bom,
isso é mentira, e esse é o motivo pelo qual, quando escutamos isso ou aquilo,
devemos discutir. O que não nos impede de nos divertir também, certo? ;)
Então, é isso, compas. Não esmoreçamos e vamos à Lista
de Merdas Coisas que Escutamos por Aí, versão 1:
1. "Pode ser feminista, mas não precisa ser tão radical!"
Resposta rápida: radical é tanto machismo em pleno
século XXI, eu sou até moderada, fofx!
Quem tiver com tempo, pode recitar, com a mão no peito em postura de hino nacional, estes tweets maravilhoosos da Carina Prates (vi no feminista cansada).
2. "Não sou machista, nem feminista, todo mundo é igual!"
Esse é um discurso "munitinhu", fofo, que
parece inofensivo, mas não é! E precisa ser combatido, muito! Na real, a pessoa
está dizendo: a sociedade está boa assim para mim, não me perturbem! As pessoas
que acham que todo mundo é igual costumam ocupar um lugar muito confortável na
vida, repare bem.
Já que todo mundo é igual, por que as instituições,
organizações, entidades, empresas e países são, na maioria, liderados por
homens brancos, que não são de longe a maioria (no sentido numérico) no mundo?
3. "Vocês ficam falando alto de sexo e sexualidade feminina, mulher tem que se preservar, que coisa mais vulgar..."
Esta requer elegância, sabe? Aquela elegância de
cavalo em desfile de sete de setembro. Vou usar uma figura para explicar bem,
desenhar mesmo, como nos sentimos:
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| Como Rick Astley, não estamos nem aí ("you've been rick rolled!") |
Sério, se a gente não pode falar da nossa sexualidade, quem pode? Os homens?
4. a) "Mulher de roupa curta na rua quer o quê?" e b) "Depois acontece alguma coisa vai fazer o quê?"
a) É difícil responder por que uma mulher pode
querer qualquer coisa, mas o importante mesmo é: ninguém tem nada a ver com
isso. Não dá para o sujeito ser tão egocêntrico a ponto de achar que toda roupa
curta é para ele, muito menos achar que nos interessa a sua opinião sobre nossa
aparência ou roupa. Se você for convidado e se interessar, venha, se você for
perguntado, responda, no mais, guarde suas opiniões e mãos para você, ok?
b) denunciar e por o estuprador na cadeia.
Chessus, abandonemos o mito do homem estuprador em
potencial que não consegue se segurar, de uma vez por todas. A escolha de roupa
é nossa, respeito é obrigação e é direito de todxs!
![]() |
| Campanha de carnaval, que serve pro resto do ano também |
5. "O feminismo é coisa do passado, hoje, isso não é mais necessário."
Para esta, dá para aplicar quase que a mesma
resposta da 2, e é bom lembrar que, por exemplo, no Brasil, as mulheres votam
só há 76 anos. A primeira senadora foi eleita em, pasmem, 1990, e a primeira
ministra data de 1988. Vai vendo. Não rola dizer que o meio do caminho, aliás,
o começo do caminho é o fim do caminho, saca? Ainda temos um tantão para
percorrer até a isonomia, e o grande problema de parar antes disso, no meio ou
começo do caminho, é que esses são lugares muito propícios ao retrocesso. Logo,
sigamos.
![]() |
| Por anna-grrrl.tumblr.com |
6. "Os caras que são feministas são umas mulherzinhas"
Isso, para a gente, é elogio. Eles são legais, mas
não são tão legais assim. ;) Brincs.
A gente vive em um mundo que ser
"mulherzinha" pode ter o significado de frágil ou medroso - não
aguento, nem entendo, mas... E "homem" em frases como "seja
homem" pode significar corajoso. Se a gente for usar os termos dessa
forma, eu diria que homens feministas são muito mais "homens" que
aqueles que preferem seguir o fluxo da maioria, o que não requer nem coragem,
nem esforço algum.
A Márcia Tiburi escreveu um texto muito, muito, bom
sobre o lugar da "mulherzinha" e quem realmente anda ocupando esse
lugar.
7. "Os caras que defendem licença-paternidade querem ficar 30 dias de folga, coçando o saco."
Parabéns para você que acha que o papel do pai, na
criação do filho, é coçar o saco ou que acha que cuidar de um recém-nascido é o
mesmo que folga. Espero que as pessoas que acreditam nisso nunca tenham filhos,
do contrário, só lamento.
É isso, por enquanto, afinal de contas, nós bem sabemos que outras listas virão e que esta não está completa.
9 de fevereiro de 2013
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