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A descarada tentativa moderna de dominação feminina: sobre mídia, estética e valores

por Maria C.

Há uma ideologia perversa rondando a vida das mulheres. Como um vento gelado, um vírus incontrolável, essa coisa entra por todas as frestas, nos alcança por todos os lados, numa espécie de Estado totalitário midiático nazista sei-lá-o-quê. Não dá pra escapar: é o mito da beleza, a ditadura da magreza, da juventude, da perfeição. Mulher que é mulher é linda, jovem, magra, clara, bem cuidada, perfeita.

Não sou autoridade no assunto, nem é o tema, mas durante o nazismo, buscou-se apoio científico, nas ciências naturais da época, a fim de justificar-se a superioridade da raça ariana; da filosofia, utilizando-se inadequadamente os ideais de Nietzsche: seu conceito de super-humano em contraposição ao niilismo (em “Assim falou Zaratruschta”), havendo suposta ligação entre o nazismo e o Übermensch; e ainda, aliada ao uso pesado da mídia, foi utilizada a estética em favor do ideal totalitário. Hitler afirmou que “o maior princípio de beleza é a saúde”. Isso soa tão familiar...

Decaídas as questões políticas, militares e expansionistas, mas persistente o cinismo pseudocientífico e a necessidade de dominação e de criação de uma espécie superior – uma espécie superior de mulheres em relação às outras, as supermulheres, ouso afirmar que estamos vivendo uma espécie de nazismo criado especialmente para nós, mulheres.

Qualquer comercial de TV destinado diretamente ao público feminino confirma a minha tese: “Cuidar das axilas é fácil!” ou então “O que você faz para acabar com as pontas duplas?” Vejam só, as mulheres devem inserir cuidados diários com suas axilas, que não bastam estar depiladas; devem ser claras, lisas, esfoliadas e macias! E as pontas duplas, então? Seus cabelos, pintados, alisados, chapados, hidratados, selados e sei-lá-o-quê devem receber diariamente produtos para evitar as pontas duplas, pois onde já se viu uma mulher ter pontas que não possam imitar uma franja? Nos filmes, nas novelas, nos telejornais e também nos comerciais de TV, todas as mulheres são magras, jovens, tem lindas peles e estão maquiadas, ao passo que os homens são normais: têm gordos, magros, altos, baixos, jovens, velhos, carecas, cabeludos, com dentes brancos ou amarelos.

Existe então uma nova raça, de supermulheres, as mulheres perfeitas, e digo esteticamente perfeitas, e somente estas têm dignidade para serem representadas na mídia? Ou melhor, apenas estas representam as mulheres, de modo que as demais não merecem sequer representação? Somos o terceiro estado pré-revolucionário, acaso? Um alienígena que necessitasse coletar dados sobre a população feminina e partisse da representação midiática sofreria um choque. Não acreditaria na disparidade daquilo que vê na TV e nas ruas. Onde estão as mulheres perfeitas, se perguntaria ele? Vivem no Olimpo? 

A questão é: porque querem nos fazer acreditar que precisamos dos “valores” que nos impõem, que precisamos internalizar estes valores, que necessitamos tanto da transvaloração do que é próprio do ser humano para apropriar “valores” femininos, tão externos e estéticos, a fim de definir o que é uma mulher, ao menos uma mulher de verdade, uma mulher bem sucedida, uma mulher perfeita. Por que de que adianta ter uma bela carreira, ser respeitável em seu meio, mas esteticamente ser considerada uma bruxa velha? É isso o que conta para as mulheres? Segundo aqueles novos valores propriamente femininos impostos pelo ideário anti-feminino (o nazismo feminino de que falo, em sátira), o poder, também inerente ao übermensch, no caso da mulher, é inútil, se ela é feia, ou gorda, ou tem rugas, manchas na pele, eventualmente um cabelo seco ou uma simples unha quebrada. Ela é menos mulher. Em seu tamanho poder lhe debocham pelas costas, onde já se viu uma mulher dessas não fazer as unhas? E por que, querida leitora, eu lhe pergunto, porque nós concordamos com esses editoriais nazi-fascitas em revistas sorridentes, que dizem que devemos pesar 50kg aos 45 anos e, deus nos livre, ter celulite? Por que corremos às lojas de cosméticos atrás dos hidratantes de axilas, dos esfoliantes de cotovelos; das clínicas de estética, dizendo amém, e socorro, sou um lixo humano e não mereço viver pois tenho cílios curtos? 

Porque há uma diabólica conspiração, tão evidente e escancarada, e há tanta gente lucrando com isso, que não nos questionamos mais: mulheres feias não têm representatividade, direitos, nem dignidade: não é mais literário (desgraçado Vinícius), é constitucional e científico, afinal, magreza anoréxica de passarela é saudável, e qualquer 200g a mais é obesidade mórbida. Tudo saúde, e morte aos gordos, porque barriga não é mais um órgão, mas um pecado mortal, uma coisa horrorosa, banida da TV, e isso é sério.

Minha ironia se deve à raiva, ao desprezo mesmo à tamanha tentativa de dominação da força feminina.

A tentativa de confinamento das mulheres no espelho, centradas em seu umbigo é repulsiva. Trata-se de uma estética de destruição, querem que nos rasguemos, nossas próprias algozes, de modo que assim, deixemos o caminho livre para que qualquer um nos explore, e explore qualquer necessidade patética que resolvam nos impingir, tais como hidratar as axilas ou viver de dieta intravenosa, um dogma! A revolta é grande. 

A solução? Diante de uma cultura de dominação forte/fraco, lógico/sentimental, tão arraigada e imposta tão covardemente que acreditamos que se funda na ciência, e é inata (!), é preciso de um movimento contrário de idêntica força, que parta da rejeição desta cultura. Um despertar já seria um começo. Conhecer a verdade e descobrir que não precisamos de nada do que nos dizem já é um passo a caminho da liberdade. Abra sua mente. Diga não. 

Quem sabe?

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Nicoles e Sabrinas, Giseles e Grazis

por Tággidi Ribeiro


Esses dias me vi 'obrigada' a explicar a seguinte frase: "Eu gosto dessas meninas. Da Sabrina Sato, da Nicole Bahls." Pois é. Eu falei isso. E, sim, eu gosto dessas meninas. Já me peguei rindo delas, de suas bobagens, da falta de papas na língua, de sua rudeza. Tem uma coisa crua nelas que me é familiar e me faz simpatizar com elas. Acho que também sinto empatia por elas porque sei que são mulheres não respeitadas. São as típicas mulheres pelas quais os homens babam e as meninas gritam no recalque - e vão, namorados, maldizer a vulgaridade das 'mulheres que não se dão ao respeito', das piranhas, vagabundas, putas. 

Uma informação necessária: eu também já as chamei assim e não foi o feminismo que me 'salvou' de vê-las dessa forma; foi, antes mesmo de entrar em contato com o feminismo, a percepção de que, em algum momento de nossas vidas, todas nós somos putas. Putas porque traímos o namorado ou ficamos com o namorado de outra, porque aparecemos com uma saia curta demais, tiramos uma ótima nota, fomos antipáticas, porque usamos argumentos pertinentes em uma discussão ou porque simplesmente não foram com a nossa cara... Em algum momento, por um período breve ou nem tanto de nossas vidas, seremos chamadas de 'puta, vaca, piranha' (nos dirão isso na cara ou não). Acho que, a partir do momento em que entendi isso, eu passei a olhar para as mulheres, sobretudo para essas que eu achincalhava ou que eu via serem achincalhadas, de outra forma. E, claro, não pude deixar de comparar essa facilidade do ódio dirigido às mulheres à simpatia ou 'neutralidade' que eram dedicadas aos homens. Os comportamentos que geram o vilipêndio às mulheres são aceitos com naturalidade se são os homens que os protagonizam.

Verdade, verdade... quando odiamos os homens? Existe ódio aos homens correlato ao ódio que sentimos pelas mulheres (cotidiano, fácil e visceral)? Se existe, porque esse sentimento não se verifica na língua? Quer dizer: porque todo e qualquer xingamento dirigido a um homem parece fraco demais, parece nunca atingi-lo de fato? Dê uma olhada no vídeo abaixo, a partir do minuto 7:15.


Esteja claro que não defendo que passemos a dispensar ao homem o mesmo ódio que dispensamos às mulheres. Imagina! A ideia do feminismo não é rebaixar o homem à mulher (que, sim, ainda é vista como inferior) e sim elevar a mulher ao homem, igualá-los naquilo o mais importante: o estatuto de ser humano. E é justamente aqui que entram as Nicoles e Sabrinas da vida, as que não se dão ao respeito, as putas (e, por extensão, todas as mulheres) - porque é como se elas precisassem (nós precisássemos) de algumas 'qualidades' para alcançar esse estatuto. Elas não são seres humanos a priori (não nos enganemos - não somos). 

Como contraponto a essas mulheres minoradas, há um discurso, um comportamento e uma imagem do que seria a mulher de 'valor'. Na mídia, elas são, por exemplo, Gisele Bündchen e Grazi Massafera, ambas casadas e mães, mulheres discretas, sem arroubos, sensuais em certa medida, lindas. Nós não a chamaríamos de vulgares, mesmo que sejam retratadas seminuas ou usem vestidos provocantes. Nós não diríamos que são burras, ainda que seus discursos sejam vazios. Elas são as 'mulheres que se dão ao respeito', não meros objetos sexuais... Nós não vilipendiamos essas mulheres, elas nos são simpáticas ou 'neutras'. Elas chegam bem perto daquilo que os homens são, com a diferença, salutar, de que homens não precisam casar, ser pais, discretos, algo sensuais, lindos... para serem objeto do nosso afeto e respeito. A outra diferença é que, mulheres que são, Gisele e Grazi a qualquer momento podem tornar-se alvo das bocas do inferno.

É interessante perceber que 'ideologicamente' não há diferenças entre Nicoles, Sabrinas, Giseles e Grazis, pois todas se inserem em lugares esperados para as mulheres. As primeiras são as putas (as fáceis, as indignas, as pra trepar), as outras são as santas (as honestas, as direitas, as pra casar). Esses lugares são lugares de mercado: cada uma delas vende artigos diversos para classes diversas. As primeiras, para classes mais populares; as outras, para classes mais abastadas. Esses lugares também são lugares demarcados culturalmente, corporalmente, nas falas e nas formas. Nicoles e Sabrinas falam 'errado' e seus corpos são musculosos; Giseles e Grazis falam 'certo' e seus corpos são delgados. Nicoles, Sabrinas, Giseles e Grazis são produtos pensados e nós, de uma forma ou de outra, no elogio ou no insulto, os compramos - enquanto sem perceber valoramos as mulheres a partir de uma identificação classista.

Mas, pera lá, se elas estão aí para a manutenção do status quo feminino, dentro de uma divisão de classes, do trabalho e da beleza feita por homens e para homens, porque não deveriam ser, todas, alvo? Simples: porque o alvo deve ser a indústria que as produz, e toda a cultura de uso da mulher - o alvo é sempre o patriarcado.

Para fechar a minha explicação, que começou laaaaá em cima: gosto de Nicoles e Sabrinas porque as vejo não como 'as vagabundas que estão atrás de dinheiro fácil', mas como sujeitos contingenciados pela história, como todos nós: por uma história de milênios de opressão da figura feminina (sobretudo dessa figura associada tão instantaneamente ao sexo); por uma história que sempre 'conspurcou' uma determinada parcela de mulheres para que ocupassem 'o pior lugar', o lugar indefensável, o da mulher 'desonrada', o da prostituta; por uma história de vida que eu não sei qual é, que pode ter sido feliz ou triste, mas na qual certamente também encontram-se os encadeamentos que as levaram a ser 'celebridades' e a ser esse tipo específico de celebridade. O simples fato de permitir ao outro uma história o humaniza - e isso mata em mim o ódio que mataria (ainda que apenas verbalmente) o outro.

Por fim, acho que nós mulheres não podemos nos furtar a pensar o quanto a exacerbação da sexualidade nos corpos de Nicoles e Sabrinas irritam a nossa própria sexualidade. O que quero dizer: assim como muitos homens homofóbicos desejam secretamente os corpos de outros homens, na nossa raiva voltada a esses corpos de mulheres não estaria também o nosso desejo?

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Rindo com mulheres

por Roberta Gregoli

"Ameaçador à dominação masculina não são as mulheres rindo dos homens; 
a real ameaça são mulheres rindo com mulheres"
- Nancy Reincke*

Solidariedade feminina em Hollywood
Já escrevi sobre a competição feminina e esse é um assunto que me interessa muito, inclusive num nível pessoal, e, correndo o risco de soar piegas, confesso que as pessoas mais fantásticas, inspiradoras, inteligentes, competentes e carinhosas que conheço são mulheres. Tenho muitos amigos homens também e eles são maravilhosos, mas com certeza devo muito às mulheres da minha vida.

Por isso estranho quando vejo mulheres sendo competitivas comigo ou umas com as outras. Estranho, mas compreendo. A competição feminina não é um mito, porque é empiricamente observada, mas uma construção essencial ao funcionamento do patriarcado. É simples: sem solidariedade não há coletividade, sem coletividade não há mudança. Enquanto as mulheres ficam competindo e brigando umas com as outras, a desigualdade entre mulheres e homens persiste sem grande resistência.

Pink Gang: iradas!
Este excelente texto clama por menos misoginia e mais amor e sororidade, leiam que vale muito a pena. É esse o meu apelo também, e aproveito para sintetizar algumas ideias no sentido de minar o paradigma tradicional, substituindo os sintomas das dinâmicas machistas por atitudes saudáveis e de apoio mútuo. Assim, precisamos de:

inspiração em vez de inveja
solidariedade em vez de rivalidade
empatia e compreensão em vez de culpabilização
colaboração em vez de competição
mais elogios e menos críticas
respeito em vez de imposição

e risada, muita risada, sempre



Ampliem esta lista nos comentários. Precisamos de mais tudo de bom!

* Reincke, Nancy. "Antidote to Dominance: Women's Laughter As Counteraction." The Journal of Popular Culture 24.4 (1991): 27-37, p. 36. Texto completo em inglês aqui.

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Por que as titias estão paxonadas nas Guerrilla Girls

por Mazu



Hoje, resolvi falar de um movimento que merece ser falado, lembrado, amado, idolatrado, oh boy! Quero pedir as meninas do Guerrilla Girls em casamento, e elas provavelmente me diriam que não, que casamento é bobagem de uma sociedade machista e tals. Enfim, guerrilla girls, suas lindas!! 

1 - Quem são as Guerrilla Girls?

Nas palavras das gatas, ou melhor, gorilas:

"Somos um grupo de artistas mulheres que usa fatos, humor e visual chocante para expor sexismo, racismo e corrupção - no mundo da arte, na política e na cultura pop. Nós revelamos as entrelinhas, o subtexto, o que se faz vista grossa, o injusto" (...) "Tentamos retorcer um assunto e apresentá-lo de uma maneira que não foi feita antes, com a esperança de mudar a cabeça de algumas pessoas" (Käthe Kollwitz, uma das guerrilheiras fundadoras, em entrevista ao Estado de São Paulo).
 
Elas usam apelidos inspirados em grandes nomes femininos da arte, nas manifestações, nunca mostram o rosto, usam máscaras de gorilas (sério, como não amar?).

2 - Quando surgiram?

Elas começaram em 1985, em resposta a uma exposição do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, a tal exposição, chamada de "Uma pesquisa internacional sobre pintura e esculturas contemporâneas", contava com 165 artistas, dos quais treze eram mulheres. Elas começaram com pôsteres nas redondezas do museu e foram crescendo. Passaram, então, a abordar não só temas relacionados à discriminação de gênero, mas também questões políticas e racismo.

3 - Por que máscaras de gorilas?

A lenda diz que uma das fundadoras era ruim de ortografia (história da minha vida) e escreveu gorila em vez de guerrilla. Outro motivo é que elas pretendem permanecer anônimas porque não querem o foco nas suas personalidades e sim nos fatos que elas expõem sobre machismo, racismo e discriminação.

4 -  O que elas fazem?

Como disse, elas começaram com pôsteres mostrando como a participação das mulheres nos museus era pequena. Conforme o movimento foi crescendo, os manifestos começaram a aparecer em outdoors. Grandes, gigantes manifestos com estatísticas, nomes e fontes. Muita gente ficou desconfortável, sabe? Essas feministas deselegantes, sério, como não amar?
Hoje, o movimento está maior com três divisões e com bastante reconhecimento. Elas fazem tours com workshops e apresentações teatrais.

Vale ler sobre, falar sobre e macacar por aí. Uma boa fonte é a Bravo! deste mês, na matéria da Nina Rahe, outra linda, sobre artistas mulheres.


Alguns exemplos do trabalho das Guerrilla Girls:

As vantagens de ser uma artista mulher:
1- trabalhar sem a pressão do sucesso;
2- Não ter que participar de apresentações com homens;
3- Ter uma fuga do mundo da arte em seus trabalhos gratuitos de free lancer
4- Saber que sua carreira pode decolar quando você tiver 80
5- Ter a certeza de que independente do tipo de arte que você produz, sua obra será classificada como feminina;
6- Não ficar presa em um cargo de professor titular;
7- Ver suas ideias no trabalho dos outros;
8 - ter a oportunidade de escolher entre a carreira e a maternidade;
9 - Não ter que engasgar com aqueles charutos enormes ou pintar vestida com ternos italianos;
10 - Ter mais tempo para trabalhar quando seu parceiro te larga por alguém mais novo;
11- Ser incluída em versões revisadas da história da arte;
12- Não ter que passar pela vergonha alheia de ser chamada de gênio;
13 - Ter suas fotos usando roupa de gorila publicada nas revistas de arte.

Pop-quiz das Guerrilla Girls:
Q. Se novembro* é o mês da consciência negra, e março o mês das mulheres, o que acontece o resto do ano?
R. (invertida) discriminação.

O Oscar anatômicamente representado:
Ele é branco e homem como os caras que ganharam.
Melhor diretor é um prêmio que nunca foi concedido a mulheres.
92,8% dos prêmios de roteiro foram concedidos a homens.
Apenas 5.5% dos prêmios de atuação foram concedidos a pessoas negras.

As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte Moderna?
Menos de 5% dos artistas são mulheres, mas 85% dos nus são femininos.

É isso, minha gente, chega de corpos brancos e sarados e carinha de pato nas fotografias. Não sei vocês, mas eu vou ali por uma máscara de gorila e sensualizar nas internets. ;)


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Biologia da Evolução e Feminismo

por Roberta Gregoli

Uma leitora querida nos enviou um vídeo que me inspirou a abordar um assunto no qual venho pensando faz algum tempo: a biologia da evolução. Reproduzo abaixo o vídeo, que serve como ilustração para alguns pontos que quero traçar, mas já adianto que o conteúdo é ofensivo, de mau gosto e traz informações imprecisas:


Eu já havia detectado vários problemas no vídeo, mas para os detalhes científicos que desconheço entrevistei um amigo que faz doutorado na área aqui na Universidade de Oxford. Como ele não fala português, expliquei a tese do vídeo e os principais argumentos mobilizados e a primeira reação dele foi: "Um abastardamento da ciência!".

A partir daí ele foi me apontando as barbaridades imprecisões propostas pelo vídeo, que discuto abaixo, incorporando também a minha interpretação enquanto feminista.


Mito: Os poros nos seios e bunda liberam mais feromônios, por isso os homens gostam mais dessas partes


Primeiro, a atração por seios e bunda está ligada à visão, não ao olfato. Apesar da explicação capenga do 'professor' - que, aliás, acho que diz mais sobre o seu gosto pessoal por sexo oral (e aqui fica o meu único ponto positivo para ele!) - ninguém fica excitado por cheirar um seio, como qualquer assinante da Playboy pode atestar.

Em segundo lugar, nós, feministas, sabemos muito bem que os ideais de beleza são culturalmente construídos e socialmente impostos. Como já vimos, o padrão de beleza na Idade Média era de seios pequenos e testas largas. Como explicar essa mudança de acordo com o argumento do vídeo? Os poros dilatados que liberam feromônio migraram da testa para a bunda?


Mito: Lucy se escondia numa moita e o cheiro de sua genitália atraía parceiros sexuais


Ahn? Numa moita? Ele estava lá pra ver, né? Só pode, porque do punhado de fósseis existentes, não há um único que tenha sido encontrado numa moita ou com qualquer vestígio que possa indicar esse padrão para a cópula.

Marofa de pomba nada!
Igualmente sem embasamento é a história do cheiro da vagina, elegantemente colocada pelo 'professor' como "marofa de pomba". E é este o ponto mais negativo do vídeo, na minha opinião: ele reforça um clichê dos mais toscos (quem nunca ouviu piadas que comparam o cheiro da vagina ao do bacalhau?). A associação entre vagina/mulher e sujeira/impureza é antiquíssima, presente em diversas religiões tradicionais, e essa é uma maneira de atualizá-la para um contexto contemporâneo laico. Parabéns por esse desserviço, 'professor'!


Mito: A migração do canal vaginal criou a família nuclear


O bonobo (Pan paniscus), a espécie mais próxima do ser humano, e a única em que a fêmea tem o canal vaginal na mesma posição que as mulheres, não se organiza em torno da família nuclear. Ponto. Toda a tese da 'aula' vai por água abaixo.

E nem precisamos entrar no detalhe de que não é preciso transar na posição papai-e-mamãe para ser capaz de identificar x parceirx. Ah, e 'papai-e-mamãe' em inglês é missionary position, não father and mother, ok?


Just-so stories


Esse tipo de narrativa sem embasamento científico sólido é chamada na ciência e na filosofia de just-so stories ('foi mais ou menos assim', numa tradução livre) ou falácia ad hoc. Explicações desse tipo concatenam fatos observáveis - A, B, C - e criam uma narrativa (fictícia) que mais ou menos explica como se chegou de A a B a C.

E vale lembrar que a evolução não é um agente inteligente, com uma agenda presciente, sabendo onde quer chegar. Muitas coisas acontecem simplesmente por acaso e tentar encontrar um único fator que explique algo tão complexo como a formação da família nuclear não passa de um disparate.

Fato - hipótese - resultado: Essencialismo biológico


O Gene Egoísta


Mesmo Richard Dawkins no livro O Gene Egoísta, de 1976, considerado um divisor de águas do campo da biologia da evolução, não escapa do sexismo.

O livro traz um capítulo cujo título, "Batalha dos sexos", já anuncia o contexto no qual o autor enxerga as diferenças sexuais. O capítulo é permeado por linguagem sexista, com o óvulo sendo o "gameta honesto" e o espermatozoide o "gameta explorador" (p. 142*), os homens como sendo 'imprestáveis' ("Males, then, seem to be pretty worthless fellows", p. 143; homem como ser inútil é uma das estratégias de opressão do patriarcado - ao constantemente colocar a mulher no lugar retórico de superior, justifica-se maior cobrança e imposições às mulheres); e é interessante quando ele começa a narrar um cenário fictício em que existem dois sexos, iguais e sem hierarquia, A e B (pp. 300-301), e no final da história acontece, sem querer querendo, que A é o sexo masculino...

Não é o caso de atacar a biologia da evolução em si, mas a frequente falta de embasamento crítico e ético ao se fazer ciência. A ciência não é produzida no vácuo e xs cientistas inevitavelmente trazem sua bagagem cultural e social para suas hipóteses, análises e conclusões. Basta estudar um pouco da história da sexualidade para ver como a ciência já tratou as mulheres de maneira perversa. Não ter consciência e não incluir essa dimensão crítica com relação à própria formação resulta quase certamente na (re)produção de conhecimento preconceituoso.

De fato, sob o selo legitimador da ciência, muitos estereótipos de gênero nocivos são propagados: como o cérebro 'enxerga' homens e mulheres de maneira diferente ou mesmo como mulheres negras são menos atraentes que mulheres de outras etnias (sim, racismo puro por parte do doutorando da LSE, que mais tarde foi totalmente rechaçado). Essas pesquisas até têm sua utilidade, já que escancaram o que nós, feministas, tanto repetimos: que existe uma diferença na percepção de homens e mulheres e que o padrão de beleza imposto é branco, no caso desses dois exemplos. Mas o problema é que, despidas de questionamentos de ordem política, social e cultural, elas acabam por reforçar o que nós com tão duras penas tentamos minar e questionar.

Ao prover explicações baseadas somente na dimensão biológica (cérebro, cromossomos, hormônios), essas pesquisas afirmam as desigualdades como naturais, não sociais. Muitas vezes ignorando o debate natureza x cultura, esse tipo de pesquisa coloca a cultura (normalmente machista, classista e racista) como consequência inescapável de um hardware pré-instalado em nós, seres humanos.

Em contrapartida, o que nós, feministas, propomos é, no mínimo, que fatores sociais sejam levados em conta e que esses estudos sejam vistos não só como inseridos numa cultura como também como instrumentos de sua propagação. É por isso que precisamos de mais mulheres e mais feministas no campo da biologia da evolução.


* As páginas se referem ao original em inglês: Dawkins, Richard. The Selfish Gene: New Edition. Oxford, New York: Oxford University Press, 1989.

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Um ano de Subvertidas, obrigada!

por todas nós


Hoje o blog comemora um ano de existência. E estamos muito felizes. São mais de 200 textos, mais de 500 comentários e 96.000 visitas! Tentando com a nossa proposta de pluralidade, publicamos textos,  de sete colaboradoras fixas, 11 relatos enviados para o Sexismo de Cada Dia e nove Guest Posts. Este espaço é uma (pequena) plataforma, mas que nós podemos atestar pessoalmente ser muito significativa.

Questões de gênero são geralmente explosivas porque mexem com ansiedades relacionadas a normas sociais e inevitavelmente vêm atreladas à questão da sexualidade. O blog promove um fórum para podermos nos expressar livremente e desenvolver um argumento completo, que pode então ser lido e discutido. E é particularmente eficaz para contrabalancear páginas e blogs misóginos, ainda que muitos deles tenham milhares de seguidores.

Fora o desejo de transformar a sociedade hodierna, esse dado também evidencia a necessidade da existência deste espaço e dos espaços das nossas colegas feministas. Se a reação de disposição contrária à ação que clama liberdade e igualdade a todas as mulheres é tão intensa e, nos parece tantas vezes, desproporcional, então só podemos concluir que sob a superfície do humor e do afeto brasileiros esconde-se, ao lado do racismo e da homofobia, e de um sem número de preconceitos, também a misoginia, também a discriminação de gênero. Expor essa ferida é sem dúvida a melhor forma de sarar.

Precisamos de mais textos, mais relatos, 'causos', anedotas, reflexões. Enviem suas contribuições - de qualquer tamanho, linguagem, assinados ou anônimos.


Acima de tudo, muito, muito obrigada por tudo! Por nos acompanharem, por deixarem comentários, por todo o carinho!

E não se esquecem de nos seguir no Facebook e no Twitter!


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Uma Sociedade - VIrginia Woolf - Parte Final

por Mazu

Primeiramente, aos seguidores, minha sinceras desculpas pelo sumiço bem no meio da nossa novela feminista. Teve gripe, intoxicação alimentar, visita dos pais, foi uma loucura. Prometo que não sumo mais assim, no meio de uma história.

Então, vamos lá, de volta com Virginia Woolf. A primeira parte do conto Uma Sociedade pode ser lida aqui.

E a segunda parte abaixo, clique em Mais informações para que o texto todo seja mostrado:


No meio de um relato que me interessava e me prendia mais que qualquer coisa que já tinha ouvido antes, ela deu o resmungo mais esquisito, meio choroso
"Castidade! Castidade! Aonde foi parar minha castidade!" ela lamentou. "Ai, ajuda! O vidro de perfume!"

Não tinha nada na sala além de um vidro de mostarda, que eu estava prestes a dar para ela quando ela recuperou a compostura.

"Você devia ter pensado nisso há três meses atrás" disse severamente.

"Verdade," ela respondeu. "Mas ficar pensando nisso agora não vai fazer bem nenhum. Falando nisso, que infelicidade minha mãe ter me colocado o nome de Castalia."

"Ah, Castalia, sua mãe", comecei a dizer quando ela pegou o pote de mostarda.
 "Não, não, não", ela disse, balançando a cabeça. "Se você fosse casta teria gritado ao me ver em vez de ter corrido até mim e me abraçado. Não, Cassandra. Nenhuma de nós é casta". Assim, continuamos conversando.

Enquanto isso, a sala foi enchendo, já que era o dia marcado para discutir o resultado das nossas observações. Pareceu-me que todo mundo se sentiu como eu me senti a respeito da Castalia. Beijaram-na e disseram como estavam felizes de vê-la novamente. Finalmente, quando estavam todas confortáveis, Jane levantou-se e disse que era hora de começar. Ela começou dizendo que já estávamos fazendo perguntas por mais de cinco anos e que, apesar disso, seríamos obrigadas a considerar os resultados inconclusos. Nesse momento, Castalia me cutucou e disse que não estava muito certa disso. Então, ela se levantou e interrompeu Jane, que estava no meio da frase, dizendo:

"Antes de você dizer mais alguma coisa, gostaria de saber se devo ficar no recinto". Então adicionou, "já que, devo confessar, sou uma mulher impura".

Todo mundo olhou para ela com espanto.

"Você está grávida?" perguntou Jane.

Ela assentiu com a cabeça.

Foi extraordinário perceber as diferentes expressões em seus rostos. Um zunido tomou conta da sala, do qual pude distinguir as palavras "impura", "Bebê", "Castalia" e outras coisas do tipo. Jane, que estava particularmente movida, perguntou:

"Ela deve ir? Ela é impura?"

Foi um rugido tão grande que deve ter sido possível escutar lá de fora. "Não! Não! Não! Deixem-na ficar! Impura? Bobagem!" Ainda assim, percebi que algumas das novinhas, as de dezenove ou vinte anos, mantiveram-se caladas como se oprimidas pela timidez. 

Então, nós a rodeamos e começamos a fazer perguntas e, por fim, uma das novinhas, que se mantinha no fundo, aproximou-se e disse a Castalia: "O que vem a ser castidade, então? Quero dizer, é bom, ruim ou simplesmente não significa nada? Ela respondeu tão baixo que não pude ouvir o que disse.

Alguém disse: "fiquei chocada por uns dez minutos".

"Na minha opinião", disse Poll, que estava ficando rabugenta de tanto ler na Biblioteca de Londres, "castidade não é nada mais que ignorância, o mais vergonhoso estado de espírito. Devíamos admitir apenas as não-castas na nossa sociedade. Eu voto que Castalia seja nossa Presidenta". Isso foi debatido violentamente.

"É injusto rotular mulheres pela castidade, seja pela presença ou ausência dela", disse Poll. "Algumas de nós não tivemos oportunidade. Além do mais, não acho que a própria Cassy vá dizer que fez o que fez por puro amor ao conhecimento".

"Ele tem vinte e um e é lindo de morrer", disse Cassy, com um gesto encantador.

"Eu voto", afirmou Helen, "que ninguém tenha permissão de falar em castidade ou falta de castidade, a não ser as que estiverem apaixonadas".

"Ora bolas", disse Judith, que esteve pesquisando assuntos científicos, "Não estou apaixonada e não vejo a hora de explicar minhas medidas para dispensar prostitutas e fertilizar virgens por lei do Parlamento".

Continuou falando de uma invenção sua que deveria ser construída nas estações de trem e em outros lugares públicos, invenção essa que, por uma pequena taxa, protegeria a saúde da nação, acomodaria seus filhos e aliviaria suas filhas. Pelo jeito, ela tinha inventado um método de preservar, em tubos lacrados, os germes dos Lordes Chanceleres do futuro ou, nas palavras dela, "poetas, pintores ou músicos", ela continuou, "supondo, obviamente, que tais espécies não estejam extintas e que as mulheres ainda se interessem em ter filhos".

"Mas é claro que queremos ter filhos!" disse Castalia toda impaciente.

Jane bateu na mesa. "Esse é justamente o ponto que viemos discutir", disse. "Faz cinco anos que estamos tentando definir se continuamos ou não com a raça humana. A Castalia antecipou a nossa decisão. Fica para o restante de nós nos decidirmos".

Então, em sequência, nossas mensageiras se levantaram e apresentaram seus relatos. As maravilhas da civilização excediam muito nossas expectativas, e, conforme descobríamos que os homens voavam, falavam uns com outros atravessando distâncias, penetravam os mistérios de um átomo e abraçavam o universo em suas especulações, um murmúrio de admiração nos escapava dos lábios.

"Estamos orgulhosas", dissemos, "que nossas mães tenham sacrificado suas juventudes por uma causa assim!" Castalia, quem estava ouvindo atentamente, parecia mais orgulhosa que o resto de nós. Então, Jane nos lembrou que tínhamos ainda muito que aprender, e Castalia pediu que fizéssemos rápido. Continuamos analisando uma vastidão de dados estatísticos. Descobrimos que a Inglaterra tinha uma população de muitos milhões e que alguma percentagem desse número passava fome constantemente e estava na prisão; que o tamanho médio da família de um trabalhador é tal e que um número muito grande de mulheres morria de moléstias causadas pelo parto. Foram lidos relatórios de visitas a fábricas, oficinas, favelas e estaleiros. Foram dadas descrições da Bolsa de Valores, de uma grande casa de negócios da cidade e de uma repartição do governo. As colônias britânicas foram, então, discutidas, e alguns relatos nos foram dados sobre a Índia, a África e a Irlanda.

Estava sentada ao lado de Castalia e percebi sua inquietude. "Não devíamos nos precipitar com conclusão nenhuma agora", ela disse. "Aparentemente, a civilização é bem mais complexa do que imaginávamos, não seria melhor nos limitarmos à nossa questão original? Concordamos que o objetivo da vida era produzir boas pessoas e bons livros. Até agora, só falamos de aviões, fábricas e dinheiro. Vamos falar sobre os homens mesmo e sua arte, já que esse é o centro da questão".

Assim, as que foram jantar fora se apresentaram com grandes folhas de papel contendo as respostas para várias questões. Tais questões foram estruturadas depois de muita consideração. Um homem bom, conforme concordamos, deve, a qualquer custo, ser honesto, apaixonado e espiritual. Mas a única forma de descobrir se um homem possuía ou não essas características era fazendo perguntas, geralmente, começando de uma distância remota do centro da questão. Kensington é um lugar bom para se viver? Onde seu filho está sendo educado, e sua filha? Agora, diga-me, quanto você paga pelos seus cigarros? Falando nisso, Sir Joseph é um barão ou apenas um cavalheiro? Normalmente, descobríamos mais coisas com perguntas triviais desse tipo do que com aquelas mais diretas. "Aceitei meu título de nobreza", afirmou Lord Bunkum, "porque minha esposa assim desejava". Não consigo nem lembrar quantos títulos mais foram aceitos pelo mesmo motivo. "Trabalhando quinze das 24 horas como eu trabalho", começavam dizendo dez mil trabalhadores. "Não, não, claro que você não lê, nem escreve. Mas por que você trabalha tanto?" "Minha prezada senhora, com uma família que cresce" "Mas por que sua família cresce?" Também era culpa das esposas ou talvez do Império Britânico.

Ainda mais significativas que as respostas eram as recusas em responder. Muito poucos respondiam a todas as questões sobre moralidade e religião e, se respondiam, não era de maneira séria. As perguntas sobre o valor do dinheiro e poder eram quase invariavelmente evitadas ou ofereciam grandes riscos a quem perguntava. "Tenho certeza", disse Jill, "que se o Sr. Harley Botinhas Apertadas não tivesse fatiando o carneiro, no momento em que perguntei sobre o sistema capitalista, ele teria cortado minha garganta. A única razão de escaparmos com nossas vidas depois de tanta perguntação é que os homens são ao mesmo tempo famintos e cavalheiros. Eles nos desprezam demais para levar em conta o que dizemos".

"Claro que nos desprezam", disse Eleonor. "Enquanto vocês constatavam isso, eu fazia perguntas entre os artistas. Então, nenhuma mulher nunca foi artista, certo, Poll?” "Jane-Austen-Charlotte-Brontë-George-Eliot," gritou Poll, como um homem gritando rosquinhas em uma rua do bairro. "Maldita seja!" alguém desabafou. "Que chatice ela é!"

"Desde Sappho, nunca houve nenhuma mulher de qualidade", começou Eleanor, citando uma publicação semanal.

"Agora sabemos bem que Sappho era, de certa forma, uma invenção libidinosa do Professor Hobkin", interrompeu Ruth.

"De qualquer forma, não existe razão para supor que alguma mulher algum dia tenha sido ou seja capaz de escrever", continuou Eleonor. "E mesmo assim, sempre que estou entre os autores, eles não param de falar sobre seus livros. Magistral! Eu digo ou algo do tipo: é como o próprio Shakespeare! (já que a gente precisa dizer alguma coisa) e garanto a vocês que eles acreditam em mim".

"Isso não prova nada", disse Jane. "Todos eles fazem isso". E suspirou: "simplesmente não nos ajuda muito. Talvez seja o caso de examinar a literatura moderna. Liz, é sua vez".

Elizabeth se levantou e disse que, para dar conta de sua pesquisa, ela teve de se vestir como um homem e se fazer passar por um crítico. "Li novos livros de maneira bem constante nos últimos cinco anos", disse. "Sr. Well é o escritor vivo mais popular, então, vem o Sr. Arnold Bennett, em seguida, Sr. Compton Mackenzie; Sr. McKenna e Sr. Walpole pode ser considerados como se estivessem no mesmo patamar". Então, ela se sentou.

"Mas você não nos disse nada!" nos queixamos. "Ou você está querendo dizer que esses senhores superaram imensamente Jane-Eliot, e a ficção inglesa está -- onde estão essas críticas escritas por você?”

“Ah, sim, 'guardadinha com eles'. Guardadas, bem guardadas", disse ela, alternado de maneira inquieta a posição dos pés. "E tenho certeza que eles dão bem mais do que recebem".

Todas nós tínhamos certeza disso. "Mas", seguimos pressionando, "eles escrevem livros bons?"

"Livros bons?" disse ela olhando para o teto. "Vocês devem ter em mente", ela disse, falando com extrema rapidez, "que a ficção é o espelho da vida. E não se pode negar que a educação tem a maior importância e que seria extremamente irritante, se uma pessoa estivesse sozinha em Brighton, tarde da noite, sem saber qual a melhor pensão para se hospedar, e vamos supor que fosse um domingo chuvoso, não seria agradável ir ao cinema?"

"Mas o que isso tem a ver?" perguntamos.

"Nada, nada, nada, tanto faz", respondeu.

"Então, fale-nos a verdade", nós ordenamos.

"A verdade? Mas a verdade não é maravilhosa", ela confessou, "o Sr. Chitter vem escrevendo um artigo semanal, nos últimos treze anos, sobre amor ou torrada com manteiga e mandou todos os filhos para Eton".

"A verdade!" exigimos.

"Ah, a verdade", ela resmungou, "a verdade não tem nada que ver com literatura", sentou-se e recusou-se a dizer outra palavra sequer.

Tudo ficou super solto, sem conclusão.

"Senhoras, devemos tentar somar os resultados", Jane começou a dizer, quando um burburinho, que já tinha sido notado pela janela há algum tempo, apagou a voz dela.

"Guerra! Guerra! Guerra! Declaração de guerra!" - homens estavam gritando pelas ruas.

Olhamos umas para as outras horrorizadas.

"Que guerra?" gritamos. "Que guerra?"

Lembramos, muito tarde, que não nos ocorreu mandar ninguém para a Câmara dos Comuns. Simplesmente, esquecemos. Olhamos para Poll, que tinha lido prateleiras de livros de história da Biblioteca de Londres e pedimos que nos explicasse. "Por que os homens vão para guerra?", perguntamos.

"Algumas vezes, por uma razão; outras vezes, por outras", disse calmamente. "Em 1760, por exemplo,"... Os gritos que vinham de fora abafaram sua voz. "Novamente, em 1797. Em 1840, foram os austríacos, em 18661-1870, foram os franco-prussianos, em 1990, por sua vez".

"Mas já estamos em 1914!" nós a interrompemos.

"Ah, agora, eu não sei porque estão indo à guerra", admitiu.

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