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por Thaís Bueno
Você se lembra de uma
polêmica ocorrida na mídia no final de 2012, envolvendo uma marca de
lingerie e uma propaganda de gosto extremamente duvidoso? Na ocasião, a
propaganda exibia uma favela do Rio de Janeiro, em processo de pacificação, um
oficial caído no chão e uma mulher, negra, vestindo lingerie. O slogan: “Pacificar
foi fácil, quero ver dominar”. A polêmica, claro, deveu-se ao fato de o Conar,
órgão resposável pela regulação do que vai ou não ao ar nos meios de
comunicação, determinar que se tratava de uma propaganda sexista, que vulgarizava
a mulher e banalizava o processo de pacificação das favelas do Rio de Janeiro.
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| Campanha da Duloren, de 2012, retirada do ar pelo Conar |
Lembro que, na época, minha
opinião sobre o anúncio era muito clara: ora, a propaganda era, em último caso,
de péssimo gosto, e para mim não era novidade algo do tipo surgir na mídia
brasileira. O que me surpreendeu, no entanto, foi a reação de muitas pessoas do ramo publicitário, nas redes sociais, taxando a decisão do Conar
como ato de censura e postura politicamente correta. E eu pensei comigo:
ora, qual o problema com o politicamente correto?
Pois bem, foi nessa época que
comecei a notar que cresce há algum tempo, principalmente entre homens e
mulheres que acreditam fazer parte de uma certa “intelectualidade” brasileira
(que no entanto é bastante rasa e imediatista), um certo desprezo ao que se
acredita ser o politicamente correto. Para essas pessoas, a atitude
politicamente correta seria uma postura “quadrada”, que restringe liberdades
individuais. Comentários como “ora, que deixem a fulana tirar a roupa no
anúncio! Estamos em um país tropical, onde as mulheres usam menos que isso nas
ruas... Não sejamos hipócritas!” e “a censura voltou e o Brasil está regredindo...
daqui a alguns anos, a publicidade não poderá dizer mais nada!” estavam entre
as pérolas que li e ouvi.




O mesmo tipo de reação às vezes
surge quando certas pessoas leem um texto que apresenta marcas de gênero. Muita gente lê
uma frase como “Damos boas-vindas a todos(as) os(as) presentes” e não gosta,
argumentando que as marcas do feminino nada mais são do que uma intrusão
desnecessária, intrusão essa que “polui” o texto. Por que será que também não fico surpresa?
Se pensarmos bem, tanto no caso
da modelo de lingerie na TV quanto no caso da linguagem com marcas do
feminino, o que está em jogo não é exatamente uma simples questão de “proibição
de um determinado modo de falar”, e sim uma questão de modo de agir.
Obviamente, para quem acha que uma piada preconceituosa ou um linguajar
ofensivo à mulher não afeta a forma como sentimos a realidade e vivemos neste
mundo, o politicamente correto não faz sentido. Para essas pessoas, o
“político” está relacionado a moralidade, e não a respeito e convivência. Para
elas, portanto, o politicamente correto é apenas algo que restringe sua liberdade
de dizer o que quiser (algo que, inclusive, já foi discutido aqui no Subvertidas).
No entanto, se pensarmos que o
que lemos e escrevemos pode afetar efetivamente nossa percepção da realidade, a
política toma outra dimensão e o politicamente correto passa a ser uma das
armas de que podemos dispor para subverter ideologias e discursos dominantes.
Por exemplo, quando optamos inserir uma marca de gênero em nosso texto,
estamos provocando, pela linguagem, um estranhamento a algo que, não fosse por
essa “intrusão”, passaria em branco (e vale também pensar nos efeitos dessa
expressão, “passar em branco”, que acabei de usar). É como se, inserindo “(as)”
ao final de uma palavra masculina, estivéssemos nos lembrando de que há ali,
também, a possibilidade da existência de uma mulher. E, mais do que isso, pode
nos levar a perceber como a condição masculina nos parece ser neutra. É uma condição dominadora e que, aparentemente, não precisa ser colocada em
debate. Ela sempre se apresenta a nós como uma condição natural, uma condição
que vem a priori, uma condição à qual o feminino se opõe.
Se tomamos em consideração todas essas questões, podemos entender, também, porque é que o termo “feminista” carrega, para muitas pessoas, uma
conotação negativa, como se a feminista fosse uma mulher radical, inadequada,
difícil. E também porque, mesmo quando se trata de alguém que se opõe à ideia do sexismo, essa pessoa prefere se denominar como alguém “em favor dos direitos das mulheres”
ou “feminina”, atenuando assim os efeitos do termo “feminista” e evitando
para si o rótulo injusto que se costuma aplicar às feministas. Mas, será que se
trata apenas de uma questão de “mudar de nome”? Será que, mudando o nome, mudamos também aquilo a que nos referimos? O que uma mudança de nome implicaria?
Parece que, no tempo de Shakespeare, “mudar o
nome” não significava muita coisa, não afetava muito o mundo tal como era. A
rose by any other name would smell as sweet (“Se uma rosa tivesse outro nome,
ainda assim teria o mesmo perfume”) é um dos trechos da mais famosa peça de
Shakespeare. Mas, hoje, séculos após a publicação de “Romeu e Julieta”, não dá
mais para pensar assim, gente. Acredito que mundo mudou, e muito. Nos dias de hoje, por algum motivo, essa suposta arbitrariedade entre o que se diz e a realidade está fragilizada. O dizer e a forma de dizer podem ser a própria ação (toda a obra de Nietzsche está aí para nos mostrar isso). E, embora o cuidado com a linguagem não resolva milagrosamente problemas que são sociais e políticos (e que, obviamente, pedem também ações políticas e sociais diretas, não apenas linguísticas), ao prestarmos atenção àquilo que falamos, nós despertamos para algumas questões importantes, e aquilo que lemos e escrevemos pode se apresentar de forma diferente. A forma de dizer, às vezes, diz por si própria.
A luta contra os preconceitos terá que ser uma luta persistente e incansável. Será preciso inúmeras tentativas e, ainda assim, não haverá nenhuma garantia de que o mundo estará livre de todos os preconceitos e a linguagem, politicamente "limpa" de uma vez por todas. Entretanto, uma das maneiras mais eficazes de combater os preconceitos sociais que, ao que tudo indica, sempre existirão, é monitorando a linguagem por meio da qual tais preconceitos são produzidos e mantidos e obrigando os usuários, em nome da linguagem politicamente correta, a exercer controle sobre sua própria fala, e, ao controlar sua própria fala, constantemente se conscientizar da existência de tais preconceitos.
Intervir na linguagem significa intervir no mundo. (Kanavillil Rajagopalan, "Sobre o porquê de tanto ódio contra a linguagem 'politicamente correta'")
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| Ainda que tenha outro nome, o sexismo vai continuar fedendo |
18 de fevereiro de 2013
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Thaís
1
Este post terá uma vibe de descontração. Sabe como é, às vezes, cansa. Já dissemos, a feminista cansada já disse. Tem muito troll no mundo, e a vida é muito curta e bela.
Quem tiver com tempo, pode recitar, com a mão no peito em postura de hino nacional, estes tweets maravilhoosos da Carina Prates (vi no feminista cansada).
Sério, se a gente não pode falar da nossa sexualidade, quem pode? Os homens?
por Mazu
Este post terá uma vibe de descontração. Sabe como é, às vezes, cansa. Já dissemos, a feminista cansada já disse. Tem muito troll no mundo, e a vida é muito curta e bela.
Escutamos algumas barbaridades, sempre de
vez em quando, por sermos mulheres e/ou feministass, e, em vista disso, resolvi
comentar determinados "argumentos".
Sei que não é sempre que estamos na pegada de
comprar briga, sei que rola um sentimento de "não compensa", mas a
nossa sociedade é muito boa em mascarar preconceitos e discriminação, a gente
vive em uma era que somos levados a acreditar, pela mídia, pelos costumes e até pelo sistema de ensino, que todo mundo pode ter o mesmo acesso a tudo. Bom,
isso é mentira, e esse é o motivo pelo qual, quando escutamos isso ou aquilo,
devemos discutir. O que não nos impede de nos divertir também, certo? ;)
Então, é isso, compas. Não esmoreçamos e vamos à Lista
de Merdas Coisas que Escutamos por Aí, versão 1:
1. "Pode ser feminista, mas não precisa ser tão radical!"
Resposta rápida: radical é tanto machismo em pleno
século XXI, eu sou até moderada, fofx!
Quem tiver com tempo, pode recitar, com a mão no peito em postura de hino nacional, estes tweets maravilhoosos da Carina Prates (vi no feminista cansada).
2. "Não sou machista, nem feminista, todo mundo é igual!"
Esse é um discurso "munitinhu", fofo, que
parece inofensivo, mas não é! E precisa ser combatido, muito! Na real, a pessoa
está dizendo: a sociedade está boa assim para mim, não me perturbem! As pessoas
que acham que todo mundo é igual costumam ocupar um lugar muito confortável na
vida, repare bem.
Já que todo mundo é igual, por que as instituições,
organizações, entidades, empresas e países são, na maioria, liderados por
homens brancos, que não são de longe a maioria (no sentido numérico) no mundo?
3. "Vocês ficam falando alto de sexo e sexualidade feminina, mulher tem que se preservar, que coisa mais vulgar..."
Esta requer elegância, sabe? Aquela elegância de
cavalo em desfile de sete de setembro. Vou usar uma figura para explicar bem,
desenhar mesmo, como nos sentimos:
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| Como Rick Astley, não estamos nem aí ("you've been rick rolled!") |
Sério, se a gente não pode falar da nossa sexualidade, quem pode? Os homens?
4. a) "Mulher de roupa curta na rua quer o quê?" e b) "Depois acontece alguma coisa vai fazer o quê?"
a) É difícil responder por que uma mulher pode
querer qualquer coisa, mas o importante mesmo é: ninguém tem nada a ver com
isso. Não dá para o sujeito ser tão egocêntrico a ponto de achar que toda roupa
curta é para ele, muito menos achar que nos interessa a sua opinião sobre nossa
aparência ou roupa. Se você for convidado e se interessar, venha, se você for
perguntado, responda, no mais, guarde suas opiniões e mãos para você, ok?
b) denunciar e por o estuprador na cadeia.
Chessus, abandonemos o mito do homem estuprador em
potencial que não consegue se segurar, de uma vez por todas. A escolha de roupa
é nossa, respeito é obrigação e é direito de todxs!
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| Campanha de carnaval, que serve pro resto do ano também |
5. "O feminismo é coisa do passado, hoje, isso não é mais necessário."
Para esta, dá para aplicar quase que a mesma
resposta da 2, e é bom lembrar que, por exemplo, no Brasil, as mulheres votam
só há 76 anos. A primeira senadora foi eleita em, pasmem, 1990, e a primeira
ministra data de 1988. Vai vendo. Não rola dizer que o meio do caminho, aliás,
o começo do caminho é o fim do caminho, saca? Ainda temos um tantão para
percorrer até a isonomia, e o grande problema de parar antes disso, no meio ou
começo do caminho, é que esses são lugares muito propícios ao retrocesso. Logo,
sigamos.
![]() |
| Por anna-grrrl.tumblr.com |
6. "Os caras que são feministas são umas mulherzinhas"
Isso, para a gente, é elogio. Eles são legais, mas
não são tão legais assim. ;) Brincs.
A gente vive em um mundo que ser
"mulherzinha" pode ter o significado de frágil ou medroso - não
aguento, nem entendo, mas... E "homem" em frases como "seja
homem" pode significar corajoso. Se a gente for usar os termos dessa
forma, eu diria que homens feministas são muito mais "homens" que
aqueles que preferem seguir o fluxo da maioria, o que não requer nem coragem,
nem esforço algum.
A Márcia Tiburi escreveu um texto muito, muito, bom
sobre o lugar da "mulherzinha" e quem realmente anda ocupando esse
lugar.
7. "Os caras que defendem licença-paternidade querem ficar 30 dias de folga, coçando o saco."
Parabéns para você que acha que o papel do pai, na
criação do filho, é coçar o saco ou que acha que cuidar de um recém-nascido é o
mesmo que folga. Espero que as pessoas que acreditam nisso nunca tenham filhos,
do contrário, só lamento.
É isso, por enquanto, afinal de contas, nós bem sabemos que outras listas virão e que esta não está completa.
9 de fevereiro de 2013
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Obviamente, essa "mexicana nativa", se é que se pode falar assim, foi extremamente influente nos planos de conquista orquestrados por Cortéz, planos esses que terminaram em um dos maiores genocídios de que se tem notícia. E é muito interessante pensar que, muitos anos após a conquista do México, durante o processo de independência e de formação do imaginário nacional do país (uma nova ordem patriarcal e religiosa), a figura de Malinche reapareceu, passando a representar a mulher traidora e vil, que se entregou (linguística, cultural, militar e sexualmente) ao inimigo, e assim entregou ao invasor todo o México. Ao contrário da imagem da Virgem de Guadalupe, a virgem mestiça que representaria a face “santa” da cultura mexicana, Malinche carregaria a imagem de puta (e não deixa de ser engraçado e irônico que, em uma cidade do Texas, EUA, exista um bairro em que as ruas Guadalupe e Malinche se cruzam). “Hijo de La Malinche”, “malinchista”, “à La Chingada” são todas expressões pejorativas (que aqui no Brasil têm correspondentes como "filho da puta" e "para a puta que o pariu") que remetem à figura da índia e são bastante usadas no México.
Pensando em toda essa história e também que a História que conhecemos é sempre contada segundo uma ideologia, não me surpreende que La Malinche tenha se transformado em palavrão na boca dos mexicanos. Ela foi uma mulher dotada de um poder extraordinário, dado o contexto político. Como intérprete de Cortéz, ela estava na posição singular de decidir o que ambas as partes do conflito iriam saber e o que seria mantido em segredo. Ela não apenas estava passando informações de uma língua para outra, mas tinha o poder de decidir se mudaria ou não o curso da história, a cada frase. Uma mulher como ela, com tamanho poder, não poderia ser admirada, nem respeitada. Ela teria que ser rebaixada e ridicularizada, tanto naquele momento específico, quanto em todo o desenrolar da história do México.
por Thaís Bueno
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| La Malinche, de Rosario Marquardt, 1992 |
Se existisse um hall of fame para tradutorxs, com certeza no topo da lista de homenageadxs estaria uma índia, que, não bastasse ter sido a tradutora do original, foi também amante dele.
Trata-se de La Malinche, como é mais conhecida (mas também foi chamada de Malinalli e Malintzin na tribo onde cresceu). La Malinche foi uma princesa de origens asteca e maia, nascida no final do século XV, na região onde hoje fica o México, e ainda criança foi vendida como escrava, por seu padrasto, a um comerciante local. Em seguida, com a invasão do México pelos espanhóis, La Malinche foi parar nas mãos de Hernan Cortéz, espanhol que foi figura central no episódio da conquista do México.
Ao perceber que Malinche se virava muito bem com idiomas, os espanhóis a recrutaram como intérprete de Cortéz. A partir de então, ela passou a traduzir, para o invasor, não apenas as palavras do imperador asteca Montezuma, mas tudo o que os astecas discutiam a respeito da chegada dos espanhóis.
Obviamente, essa "mexicana nativa", se é que se pode falar assim, foi extremamente influente nos planos de conquista orquestrados por Cortéz, planos esses que terminaram em um dos maiores genocídios de que se tem notícia. E é muito interessante pensar que, muitos anos após a conquista do México, durante o processo de independência e de formação do imaginário nacional do país (uma nova ordem patriarcal e religiosa), a figura de Malinche reapareceu, passando a representar a mulher traidora e vil, que se entregou (linguística, cultural, militar e sexualmente) ao inimigo, e assim entregou ao invasor todo o México. Ao contrário da imagem da Virgem de Guadalupe, a virgem mestiça que representaria a face “santa” da cultura mexicana, Malinche carregaria a imagem de puta (e não deixa de ser engraçado e irônico que, em uma cidade do Texas, EUA, exista um bairro em que as ruas Guadalupe e Malinche se cruzam). “Hijo de La Malinche”, “malinchista”, “à La Chingada” são todas expressões pejorativas (que aqui no Brasil têm correspondentes como "filho da puta" e "para a puta que o pariu") que remetem à figura da índia e são bastante usadas no México.
| Vista do Google Maps da irônica esquina em que a rua Guadalupe e a avenida Malinche se cruzam em Laredo, Texas, EUA |
Pensando em toda essa história e também que a História que conhecemos é sempre contada segundo uma ideologia, não me surpreende que La Malinche tenha se transformado em palavrão na boca dos mexicanos. Ela foi uma mulher dotada de um poder extraordinário, dado o contexto político. Como intérprete de Cortéz, ela estava na posição singular de decidir o que ambas as partes do conflito iriam saber e o que seria mantido em segredo. Ela não apenas estava passando informações de uma língua para outra, mas tinha o poder de decidir se mudaria ou não o curso da história, a cada frase. Uma mulher como ela, com tamanho poder, não poderia ser admirada, nem respeitada. Ela teria que ser rebaixada e ridicularizada, tanto naquele momento específico, quanto em todo o desenrolar da história do México.
Essa questão me faz lembrar um ótimo professor que, certa vez, em sala de aula, contou para a turma uma das inúmeras e péssimas piadas sobre a “loira burra”, que todo mundo conhece. A turma riu. Em seguida, o professor perguntou: “vocês sabem por que riram?” A turma em silêncio. Ele próprio respondeu à pergunta, explicando que, pelo simples fato de a loira ser loira, ou seja, se encaixar no padrão de beleza que o nosso país mais valoriza, ela não pode nem deve ter outras características positivas, como inteligência ou bom humor, pois, caso isso aconteça, seu poder será muito grande e ela poderia ameaçar o status quo.
A história de La Malinche pode nos ensinar muito sobre o porquê de a “loira” sempre ser “burra” em nossas piadas. No entanto, há alguns anos, a figura de La Malinche tem sido resgatada por estudiosas (e isso me torna muito otimista) que passaram a defender para a indígena a imagem da mulher que representa a abertura ao outro e que, em uma situação de poder, o utiliza para transpor limites de gênero e cor, celebrando o hibridismo e a mestiçagem em detrimento de um ideal de pureza.
Norma Alarcón[1], feminista chicana, buscou em Todorov uma boa e nova definição para papel de La Malinche na história mexicana e latino-americana:
Norma Alarcón[1], feminista chicana, buscou em Todorov uma boa e nova definição para papel de La Malinche na história mexicana e latino-americana:
primeiro exemplo e, portanto, símbolo da hibridação de culturas, ela proclama o estado novo mexicano e, mais do que isso, o estado presente de todxs nós, uma vez que, se não somos todxs bilíngues via de regra, somos, inevitavelmente, bi ou triculturais. La Malinche glorifica a mistura em detrimento da pureza, bem como o papel dx intermediárix. Ela não se submete ao outro simplesmente. Ela adota a ideologia do outro para melhor compreender sua própria cultura, conforme se pode ver na eficácia de seu comportamento (mesmo que "compreender" signifique aqui "destruir").
[1] ALARCÓN, Norma. “Traddutora, traditora: a paradigmatic figure of chicana feminism”, in Inderpal Grewal & Caren Kaplan (org.) Scattered hegemonies. Postmodernity and transnational feminist practices. Minneapolis & London: University of Minnesota Press, 1994, p. 43-56.
4 de fevereiro de 2013
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história,
teoria feminista,
Thaís,
tradução
3
por Mazu
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| Página "Não Aguento Quando" no Facebook. |
Há dois dias, minha cunhada publicou um vídeo no Orkut
(sim, no Orkut!) em que um metaleiro destilava muito julgamento sobre o que ele
chamou de pirirockers (deve significar algo como piriguetes do roquenrol). Não
conheço o cara, mas ele fez questão de dizer que estava lá criticando a
hipocrisia das meninas que usam roupa curta, mas são roqueiras, e ficam
criticando as meninas que usam roupa curta e escutam funk. Provavelmente, a
hipocrisia que ele detectou existe. Se realmente há alguém que usa roupa curta
criticando alguém que usa roupa curta, sim, há hipocrisia. Mas essa não é a
questão. Ainda que ele tenha se explicado e dito literalmente "as pessoas
podem fazer o que quiser e ser feliz, não tenho nada com isso", o vídeo
é machista, não parece, assim de parecer logo de cara, mas é. Muito
provavelmente, essa não foi a intenção do autor e, muito provavelmente, vários
de nós (si, jo también) destilamos machismo de quando em vez, sem nos darmos
conta. E por que, meu Deus, por quê? Porque a ideologia do patriarcado é tão
embebida, incutida nos nossos costumes que pode passar despercebida.
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| Femstagram no Facebook |
Um exercício interessante, inclusive para xs
companheirxs recém chegadxs no movimento, é se escutar falando. Loucura, né?
Mas, é isso mesmo. Na grande maioria das vezes, quando uma afirmação só serve
para homens ou mulheres, essa afirmação está lá com seus 90% de chance de ser
sexista. Vou usar como exemplo o vídeo que minha cunhas postou. Não é
semanticamente possível dizer "os pirirockers", certo? Quero dizer,
não rola tirar sentido da expressão, assim sem um contexto mais específico.
Rola dizer "maria-palheta", um termo usado para groupies, e fazer sentido,
mas não rola dizer "joão-palheta" e fazer sentido, novamente, sem um
contexto que nos ampare. Não quero comprar briga com os compas da linguística,
então já adianto, com contexto e interação tudo pode na linguagem. Mas, vamos
supor, ainda que um contexto específico nos permitisse tirar sentido dessas
expressões, eles não seriam exatamente iguais, não carregariam o mesmo pacote
de sentidos, porque estamos em uma sociedade com esse e aquele discurso
anterior, ou seja, esse e aquele preconceito já estabelecido. Vide o cara
"galinha" e a mina "galinha", que trazem significados bem
diferentes empregados aqui e lá.
Alguém poderia dizer: tem coisa que só homem
faz, tem coisa que só mulher faz. A resposta mais simples para isso, além de
"oi, século XXI?" é que essas coisas só de homem ou só de mulher têm
que ter explicações muito biológicas mesmo, muito provavelmente envolvendo o
uso direto da genitália. Do contrário, a gente pode detectar sexismo novamente.
A Rô trouxe uma discussão legal sobre isso, quando tratou dos brinquedos demeninas e meninos.
Esses atos falhos nossos acontecem para o bem e
para o mal, o tempo todo. Dia desses, um amigo publicou no facebook:
"fulana de tal (que fez x e y): uma mulher para entrar na lista de
mulheres que fizeram diferença na humanidade". Sério, lendo isso, a gente
não fica com aquela impressão de que quase não existiu mulher para fazer
diferença? Pois é.
E não rola só com mulheres, dizer que os homens
são todos canalhas é tão sexista quanto dizer que as mulheres são todas
interesseiras. Toda discriminação ou papel já estabelecido, sem explicação
biológica (eu ia dizer racional, mas não seria suficiente), para um gênero
implica sexismo. Dizer que é dever do homem pagar as contas é sexista também. E
assim vai.
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| Créditos: Femstagram no Facebook |
Todo mundo escorrega, não rola dizer que não. Se
em determinado momento da vida, alguém pisa no calo e a gente vai falar mal ou
discutir, uh, como rola preconceito. Eu tenho irmã, eu sei como é. Deus me
livre daquela máxima "Não sou machista, nem feminista, sou humanista"
porque, sério, isso é um uso super errado de todos, todos, todos os termos da sentença!
Machismo não é o contrário de feminismo, nem os humanistas têm nada que ver com
a bagaça toda. Mas o ideal, para evitar os escorregas sexistas nossos de cada
dia, era a gente usar "pessoa" ou "gente" nas afirmações
para evitar, né? Tipo "tem gente interesseira" não "tem mulher
interesseira". E, aí, se me for permitido um adendo fora do escopo do blog
e do post, melhor mesmo seria tentar ser positivo e não ficar de mimimi por aí
e dizer que "tem gente legal no mundo", sei lá, talvez isso ajude na
tarefa complicada de gostarmos uns dos outros.
![]() |
| Não Aguento Quando novamente |
Voltando, a dica das tias de hoje, que serve pra
tia também, é: quando a gente for criticar alguém, para evitar cairmos em
qualquer armadilha linguística do preconceito, vamos tentar trocar o
"x" por "pessoa". Assim, ó: na frase "tinha que ser
X", sendo x = mulher, gay, preto, nordestino, gordo, se a gente não puder
trocar x por "pessoa" e conseguir sentido, que liguemos o alerta do
preconceito, porque há, talvez não seja evidente, mas há.
28 de janeiro de 2013
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racismo
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Nada de errado com essas mulheres - dizer sim ou não é uma prerrogativa, afinal, o corpo delas é delas. Suas ações ou reações, em todo caso, visam à satisfação própria ou do eventual parceiro ou ao menos não chegam a causar dano. Mas os homens sintetizados na figura de Jacob Palmer são claramente um problema. Não por quererem sexo - tem problema nenhum querer, inclusive com várias mulheres, ao mesmo tempo ou não. O problema é a essência desse querer e as práticas que derivam daí.
Esse homem crê, pois trata-se de crença e não mais, que nasceu para dominar, que esse é seu estar e ser no mundo. A mulher é inferior a ele, deve necessariamente sê-lo, de modo que qualquer tipo de relação em que ela esteja a seu lado como igual ou a ele seja superior é impensável. Esse homem não usa a mulher para fazer sexo, usa do sexo para reafirmar seu poder sobre a mulher - não importa o quão gentil ele seja, ele menospreza a parceira com quem dorme: por ser mulher, de antemão; por ter dito 'sim' e, portanto, ser 'fácil', 'vadia', 'puta' etc. No limite, homens como Jacob Palmer não fazem sexo, masturbam-se com uma mulher, já que o sexo, aqui, é elemento de afirmação de (uma ideia de) masculinidade, de heterossexualidade. Então, temos que: 1) nada há de mais importante para um (esse) homem que ser homem (senso comum = heterossexual, superior, poderoso); 2) essa forma do masculino não admite outra forma do feminino que não a da inferioridade e da submissão - sem a existência desta, a forma masculina se extingue; 3) o sexo é usado pra manutenção dessas formas, não objetiva o prazer.
Amor a toda prova é exemplar nesse sentido. Jacob Palmer faz um discurso sobre a perda da masculinidade a Cal (Steve Carell) quando o conhece e sabe que este foi traído e abandonado pela mulher; zomba dele por ter transado apenas com a esposa em toda a vida; deprecia eventuais gestos 'femininos' (como usar canudo para tomar drink). A partir daí, todo o esforço de Cal, auxiliado por Jacob, objetiva a recuperação de sua 'masculinidade' através da 'conquista' do sexo oposto.
Claro que tudo feito com uma boa dose de charme e carisma dos atores, além de algum humor, dá impressão de ser ok. Tudo dá certo no final. Cal recupera sua masculinidade, quer dizer, sua mulher. E Jacob Palmer acaba se apaixonando por, obviamente, uma mulher que recusa suas investidas e com quem não transa na primeira noite... Prova de que mesmo os grandes cafajestes se redimem quanto encontram uma mulher de valor, né?
Não.
por Tággidi Ribeiro
Assisti esses dias ao filme Amor a toda prova, que pensei fosse uma comediazinha romântica inocente. Nada. É mais uma dessas produções machistas em que as mulheres são todas loucas e os homens se dividem nos estereótipos de 'banana', 'babaca' e 'o cara'. O cara é aquele tipo David Beckham, que se veste muito bem, é rico e elegante, absolutamente educado e bonito. O Beckham do filme, de nome Jacob Palmer e interpretado pelo Ryan Gosling (as mina pira), é ainda espirituoso e tem estratégias infalíveis pra levar uma mulher pra cama. Obviamente, Gosling/Jacob Palmer é o macho alfa do filme: as mulheres nunca tomam a iniciativa - ele escolhe quem vai pegar. E elas todas caem na dele. E quem não?
Bem, eu apostaria que mulheres que não gostem do tipo macho alfa arrogante de tanta confiança na testosterona rejeitem esse cara; que mulheres que não estejam a fim de transar no dia específico JP igualmente o façam; e que mulher, enfim, que não se sente à vontade pra transar com um cara que provavelmente não vai ligar depois rejeita Jacob Palmer. De outro lado, mulheres que gostem do tipo macho alfa, que estejam com vontade de transar e que estejam confortáveis com o fato de que provavelmente Jacob Palmer se materializará apenas uma noite irão efetivamente pra casa dele ouvir Dirty Dancing.
Bem, eu apostaria que mulheres que não gostem do tipo macho alfa arrogante de tanta confiança na testosterona rejeitem esse cara; que mulheres que não estejam a fim de transar no dia específico JP igualmente o façam; e que mulher, enfim, que não se sente à vontade pra transar com um cara que provavelmente não vai ligar depois rejeita Jacob Palmer. De outro lado, mulheres que gostem do tipo macho alfa, que estejam com vontade de transar e que estejam confortáveis com o fato de que provavelmente Jacob Palmer se materializará apenas uma noite irão efetivamente pra casa dele ouvir Dirty Dancing.
Nada de errado com essas mulheres - dizer sim ou não é uma prerrogativa, afinal, o corpo delas é delas. Suas ações ou reações, em todo caso, visam à satisfação própria ou do eventual parceiro ou ao menos não chegam a causar dano. Mas os homens sintetizados na figura de Jacob Palmer são claramente um problema. Não por quererem sexo - tem problema nenhum querer, inclusive com várias mulheres, ao mesmo tempo ou não. O problema é a essência desse querer e as práticas que derivam daí.
Esse homem crê, pois trata-se de crença e não mais, que nasceu para dominar, que esse é seu estar e ser no mundo. A mulher é inferior a ele, deve necessariamente sê-lo, de modo que qualquer tipo de relação em que ela esteja a seu lado como igual ou a ele seja superior é impensável. Esse homem não usa a mulher para fazer sexo, usa do sexo para reafirmar seu poder sobre a mulher - não importa o quão gentil ele seja, ele menospreza a parceira com quem dorme: por ser mulher, de antemão; por ter dito 'sim' e, portanto, ser 'fácil', 'vadia', 'puta' etc. No limite, homens como Jacob Palmer não fazem sexo, masturbam-se com uma mulher, já que o sexo, aqui, é elemento de afirmação de (uma ideia de) masculinidade, de heterossexualidade. Então, temos que: 1) nada há de mais importante para um (esse) homem que ser homem (senso comum = heterossexual, superior, poderoso); 2) essa forma do masculino não admite outra forma do feminino que não a da inferioridade e da submissão - sem a existência desta, a forma masculina se extingue; 3) o sexo é usado pra manutenção dessas formas, não objetiva o prazer.
Amor a toda prova é exemplar nesse sentido. Jacob Palmer faz um discurso sobre a perda da masculinidade a Cal (Steve Carell) quando o conhece e sabe que este foi traído e abandonado pela mulher; zomba dele por ter transado apenas com a esposa em toda a vida; deprecia eventuais gestos 'femininos' (como usar canudo para tomar drink). A partir daí, todo o esforço de Cal, auxiliado por Jacob, objetiva a recuperação de sua 'masculinidade' através da 'conquista' do sexo oposto.
Claro que tudo feito com uma boa dose de charme e carisma dos atores, além de algum humor, dá impressão de ser ok. Tudo dá certo no final. Cal recupera sua masculinidade, quer dizer, sua mulher. E Jacob Palmer acaba se apaixonando por, obviamente, uma mulher que recusa suas investidas e com quem não transa na primeira noite... Prova de que mesmo os grandes cafajestes se redimem quanto encontram uma mulher de valor, né?
Não.
22 de dezembro de 2012
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A loucura consumista do natal está aqui e, com ela, o reforço dos estereótipos de gênero através o marketing sexista. Particularmente trágico, para mim, são os estereótipos de gênero reforçados por brinquedos infantis, que por sinal abundam já que, afinal, trata-se de uma das maiores e mais lucrativas fatias de mercado.
(Já adianto que um mundo em que brinquedos desafiam os estereótipos de gênero e propões novas possibilidades existe e é na Suécia. Veja aqui como seria esse mundo distante.)
Como diria a Riley, num tom compreensivelmente inconformado, meninos querem super-heróis e meninas também querem super-heróis, mas os fabricantes de brinquedo iludem as meninas para que comprem brinquedos cor-de-rosa:
E em toda a sua sabedoria, Riley hesita: "meninas querem brinquedos cor-de-rosa e meninos... meninos não querem brinquedos cor-de-rosa." Mesmo tão pequena, Riley já entendeu que tabu maior do que meninas querendo super-heróis, ou carros, ou espadas, são meninos querendo "coisas cor-de-rosa".
É claro que estão aí xs que insistem que as diferenças na escolha de brinquedos são inatas. Claro, porque é muito mais lógico que os seres humanos tenham desenvolvido mecanismos biológicos especificamente selecionados para fazer com que um menino goste mais de caminhões que de castelos cor-de-rosa do que considerar que a diferença entre os sexos, em geral, é dada e reforçada desde o nascimento.
Este excelente artigo discute pesquisas científicas sobre o assunto e conclui que:
Um episódio recente que aconteceu na minha família ilustra bem como tais comportamentos normativos são constantemente vigiados, reforçados - ou seja, como eles não têm nada de natural - e como qualquer desvio mínimo pode resultar em choque e punição. Meu sobrinho queria uma boneca de natal. Queria. Ontem ele me explicou por que mudou de ideia, depois de uma conversa com o pai: "Tia, eu sou menino, eu tenho pipi. A plincesa Popstar tem peleleca." Apesar de estar há somente 3 anos neste mundo, ele já entendeu o conceito de cisgênero, segundo o qual o sexo biológico e o gênero confluem (ter pipi = gênero masculino, que na nossa sociedade não inclui gostar de bonecas).
Sem entrar no mérito do valor educativo da boneca Barbie, qual o problema em um menino querer uma boneca? Para o senso comum, muitos. Quando contei para uma amiga que queria comprar um bonequinha para ele, a reação foi: "Melhor não, vai que ele vira gay. Daí vão te culpar."
Nem vou discutir a homofobia na premissa de que "virar gay" é algo ruim, algo pelo qual alguém deva ser culpadx. Para além da homofobia, esse tipo de fala revela que o senso comum ainda não se tocou que orientação sexual, assim como o sexo biológico, não tem nada a ver com identidade de gênero. Que o diga o Laerte, que é transgênero e 'heterossexual' (cada vez mais me dou conta da limitação do paradigma hétero-homossexual. Ele se aplica a pessoas transgênero? E axs transsexuais? Como rotular um homem que nasceu mulher e é casado com uma mulher?).
Identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico são três coisas distintas e há uma série de combinações possíveis entre os três.
Ainda assim, querer uma boneca não tem necessariamente a ver com identidade de gênero. Por que bonecas não podem fazer parte do universo masculino? Brinquedos têm a função social de preparar as crianças para a vida adulta. Bonecas têm a ver com a esfera doméstica, com filhxs, e certamente precisamos de mais maridos e pais presentes, que de fato dividam o trabalho doméstico e o cuidado com xs filhxs.
Deixo aqui, então, um guia de presentes não-sexistas para este natal, pois acredito que muito mais nocivo do que o medo infundado de criar um filho homossexual - como se isso fosse pior do que criar um filho machista - é impor nossos dramas às crianças.
E, pior, perpetuá-los por mais uma geração, que terá de abrir mão de parte de sua experimentação, criatividade e imaginação pelo medo dxs adultxs de tudo aquilo que difere de seus preconceitos - por medo do que é natural.
por Roberta Gregoli
(Já adianto que um mundo em que brinquedos desafiam os estereótipos de gênero e propões novas possibilidades existe e é na Suécia. Veja aqui como seria esse mundo distante.)
Como diria a Riley, num tom compreensivelmente inconformado, meninos querem super-heróis e meninas também querem super-heróis, mas os fabricantes de brinquedo iludem as meninas para que comprem brinquedos cor-de-rosa:
E em toda a sua sabedoria, Riley hesita: "meninas querem brinquedos cor-de-rosa e meninos... meninos não querem brinquedos cor-de-rosa." Mesmo tão pequena, Riley já entendeu que tabu maior do que meninas querendo super-heróis, ou carros, ou espadas, são meninos querendo "coisas cor-de-rosa".
É claro que estão aí xs que insistem que as diferenças na escolha de brinquedos são inatas. Claro, porque é muito mais lógico que os seres humanos tenham desenvolvido mecanismos biológicos especificamente selecionados para fazer com que um menino goste mais de caminhões que de castelos cor-de-rosa do que considerar que a diferença entre os sexos, em geral, é dada e reforçada desde o nascimento.
Este excelente artigo discute pesquisas científicas sobre o assunto e conclui que:
Macacos à parte, é possível que a preferência por certos brinquedos seja resultado da pressão do grupo tanto quanto de diferenças inatas. Mais ou menos na metade da pré-escola, meninas começam a flexibilizar suas preferências e brincar com diversos tipos de brinquedo diferentes enquanto os meninos se tornam mais rígidos com seus brinquedos 'de menino' [...]. Uma explicação lógica para isso seria que meninos pagam um preço mais alto pela diversificação. Ninguém estranha quando uma menina brinca de basquete ou com um carrinho de corrida; pelo contrário, isso talvez seja visto com bons olhos. Mas um menino com uma boneca ainda é, para muitos pais, quase tão alarmante como era nos anos 70. Um estudo clássico da universidade SUNY Binghampton, por exemplo, mostrou que meninos estão duas vezes menos propensos a explorar brinquedos tipicamente femininos quando há outra criança no recinto. [minha tradução]
Um episódio recente que aconteceu na minha família ilustra bem como tais comportamentos normativos são constantemente vigiados, reforçados - ou seja, como eles não têm nada de natural - e como qualquer desvio mínimo pode resultar em choque e punição. Meu sobrinho queria uma boneca de natal. Queria. Ontem ele me explicou por que mudou de ideia, depois de uma conversa com o pai: "Tia, eu sou menino, eu tenho pipi. A plincesa Popstar tem peleleca." Apesar de estar há somente 3 anos neste mundo, ele já entendeu o conceito de cisgênero, segundo o qual o sexo biológico e o gênero confluem (ter pipi = gênero masculino, que na nossa sociedade não inclui gostar de bonecas).
Sem entrar no mérito do valor educativo da boneca Barbie, qual o problema em um menino querer uma boneca? Para o senso comum, muitos. Quando contei para uma amiga que queria comprar um bonequinha para ele, a reação foi: "Melhor não, vai que ele vira gay. Daí vão te culpar."
Nem vou discutir a homofobia na premissa de que "virar gay" é algo ruim, algo pelo qual alguém deva ser culpadx. Para além da homofobia, esse tipo de fala revela que o senso comum ainda não se tocou que orientação sexual, assim como o sexo biológico, não tem nada a ver com identidade de gênero. Que o diga o Laerte, que é transgênero e 'heterossexual' (cada vez mais me dou conta da limitação do paradigma hétero-homossexual. Ele se aplica a pessoas transgênero? E axs transsexuais? Como rotular um homem que nasceu mulher e é casado com uma mulher?).
Identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico são três coisas distintas e há uma série de combinações possíveis entre os três.
Ainda assim, querer uma boneca não tem necessariamente a ver com identidade de gênero. Por que bonecas não podem fazer parte do universo masculino? Brinquedos têm a função social de preparar as crianças para a vida adulta. Bonecas têm a ver com a esfera doméstica, com filhxs, e certamente precisamos de mais maridos e pais presentes, que de fato dividam o trabalho doméstico e o cuidado com xs filhxs.
É nessas horas que admiro ainda mais pais e mães que ousam sair da caixinha e apoiar seus filhos em gostos que desafiam o status quo opressor. Acho triste que, no mundo adulto, um menino usar saia seja um ato tão subversivo que vire manchete mundial. E curto as crianças por se importarem com o que gostam, sem dramas. Como quando o pequeno Sam, de cinco anos, explicou que não gostava dos sapatos que causaram tamanho furor na internet por serem cor-de-rosa, mas porque eram de zebra, seu animal favorito.
Percebemos, então, que todo o drama é criado pelxs adultxs, ansiosxs por reforçarem e reproduzirem esse monte de paranoias. E tudo por simples medo daquilo que desafia suas ideias pré-concebidas a respeito de gênero e sexualidade.
Negamos a nossas filhas o prazer de se imaginarem super-heroínas e aos nossos filhos a possibilidade de experimentar dar carinho e cuidado a um outro ser. Por isso não venham me dizer que Riley, Sam ou o meu sobrinho têm algum distúrbio ou 'confusão de gênero'. Doentes somos nós.
Percebemos, então, que todo o drama é criado pelxs adultxs, ansiosxs por reforçarem e reproduzirem esse monte de paranoias. E tudo por simples medo daquilo que desafia suas ideias pré-concebidas a respeito de gênero e sexualidade.
Negamos a nossas filhas o prazer de se imaginarem super-heroínas e aos nossos filhos a possibilidade de experimentar dar carinho e cuidado a um outro ser. Por isso não venham me dizer que Riley, Sam ou o meu sobrinho têm algum distúrbio ou 'confusão de gênero'. Doentes somos nós.
Deixo aqui, então, um guia de presentes não-sexistas para este natal, pois acredito que muito mais nocivo do que o medo infundado de criar um filho homossexual - como se isso fosse pior do que criar um filho machista - é impor nossos dramas às crianças.
E, pior, perpetuá-los por mais uma geração, que terá de abrir mão de parte de sua experimentação, criatividade e imaginação pelo medo dxs adultxs de tudo aquilo que difere de seus preconceitos - por medo do que é natural.
19 de dezembro de 2012
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