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por Barbara Falleiros
Hoje o blog está um luxo! Seguindo os conselhos das nossas leitoras superdotadas e os passos da Tággidi e da Mazu, que ressaltaram a importância de se reconhecer às mulheres seu papel na História e nas artes, hoje vamos falar de... moda! É isso mesmo. O universo hostil da feminista caminhoneira peluda ficou para trás. Subvertidas, vistam seus Louboutins na nossa marcha contra as discriminações! E de quem mais poderíamos falar senão da embaixadora da elegância parisiense, Coco Chanel?
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| A besta |
Bem, na verdade, há quase 30 anos o nome por trás da marca é o de Karl Lagerfeld que, agora falando sério, é uma besta. Suas declarações são sempre "polêmicas", isto é, preconceituosas, machistas, gordofóbicas. Primeiro disse que a Adele era gorda demais, depois encheu-a de presentes para se desculpar; afirmou ser contra o casamento gay e a adoção, porque lésbicas com crianças até vai, mas não tem muita fé na relação entre homens e filhos; disse que a "anorexia não tem nada a ver com a moda e sim com pessoas com problemas familiares"; que na França o problema mesmo é a obesidade, já que só há "1% de meninas anoréxicas contra 30% de mulheres acima do peso"; por fim, disse que Coco Chanel não era feminista porque nunca fora feia o suficiente para isso. Quanto senso de humor! [Not]. E você tinha a ilusão de que não existiam homossexuais machistas?
Se Coco Chanel se achava feia ou não, eu não sei. Sei que jamais se considerou feminista, e que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Chanel preferia a feminilidade, como se estes também fossem termos excludentes, ideia errônea que persiste ainda hoje. No entanto, Chanel é um belo exemplo de como as mudanças sociais acontecem aos tropeços, entre avanços e retrocessos, muitas vezes sem que seus atores tenham plena consciência de seu papel. Pois aquela que até o fim da vida foi chamada de Mademoiselle Chanel (senhorita), aquela que, como mulher, não obteve a legitimidade social por meio do casamento, sempre aspirou à liberdade e à independência. Suas criações refletiram estes anseios, com a aparição de silhuetas andróginas, magras, de uma estética esportiva, masculino-feminina.
O preto, cor do luto, atingiu com ela o ápice do chique. Chanel buscou a sobriedade dos hábitos das freiras, as linhas harmoniosas da abadia cisterciense onde passou sua infância, no orfanato.
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| A moda antes de Chanel: as "anquinhas"de 1880 |
"Mangas bufantes, rendas, bordados, frufrus, chapéus carregados como cestas de frutas: antes de Chanel, a moda arreia, deforma, comprime, ignora o movimento e a meteorologia. Além de seus chapéus de linhas sóbrias, Chanel impôs à moda uma sobriedade inspirada nas vestimentas masculinas, de um rigor quase militar. O século XIX e seus exageros vestimentários herdados do Segundo Império foram mortos e enterrados por uma certa Chanel. Esta já desenhava a moda que seria necessária ao mundo e à classe dominante, então prestes a renunciar à ostentação, num país em plena guerra [Primeira Guerra Mundial]. Gabrielle Chanel inventou um conforto que anunciava a mulher moderna, em movimento, esportiva, livre. " (fonte)
Chanel encurtou as saias até o joelho, eliminou o espartilho, a cintura marcada. Nos anos vinte, foi uma das primeiras a usar cabelo curto. Ela buscou no vestuário masculino as calças, que a lei francesa - desde 1799 e até hoje!! - proíbe as mulheres de vestirem. Ao longo de sua carreira, em um período que conheceu duas Grandes Guerras e duas reconstruções, ela introduziu o jersey, o tweed, os botões de uniforme, os cardigãs, as bijuterias.
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| "Devolvi ao corpo das mulheres sua liberdade; este corpo suava debaixo de 'roupas de parada' (desfile), de rendas, espartilhos, roupas de baixo, forros" |
Contudo, no final da sua vida, Chanel reagiu de forma conservadora face à uma sociedade na qual já não se encaixava. Na sua famosa entrevista de 1969, começa contando uma cena que presenciara há alguns dias, na rua, entre um homem e uma mulher. O contexto não é claro, mas ela diz: "Pensei comigo: 'Se ela não se calar vai receber um bom tapa'. E ela o levou!"; "Mas ela mereceu".
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| Chanel jovem: de calças e blusa marinheiro |
Pouco mais adiante, faz duras críticas às calças, que ela mesma introduzira na moda!
Posso conceber perfeitamente que se use calças no campo, é o que há de mais útil, não passamos frio (...). Para começar, fui eu quem as inventei há quase vinte anos. Eu as inventei por pudor, porque na minha opinião andar por aí de roupa de banho é o equivalente a estar nua. Então, quando nós tomamos banho de mar e queremos continuar na praia, não é difícil vestir uma calça; uma saia não fica bonito, um roupão é horrendo, em conclusão, uma calça é ótimo. Mas entre isso e fazer disso uma moda... O fato de haver 70% das senhoras de calças em um jantar é muito triste. Calças ficam bem em pessoas muito jovens, mas em mulheres de uma certa idade, é como se tentassem rejuvenescer. E eu não conheço nada mais envelhecedor do que tentar rejuvenescer. Acho a coisa mais besta que pode acontecer com uma mulher. Dizer 'Se eu colocar uma calça parecerei mais jovem do que com uma saia' é de uma idiotice tremenda! Enfim, esta é uma época estranha... As mulheres parecem que estão se transformando, não sei, em outro sexo. Mas não sei como isso pode acontecer, porque colocar uma calça não muda seu rosto... (...) Eles [outros estilistas] fazem calças, eu tive que fazer calças, ninguém gosta mais de saias, gostam de calças...
Tive de brigar durante dois anos com todos os estilistas por causa desses vestidos curtos. Eu os acho indecentes! Eu não sou desta época, sabe? Para mostrar seus joelhos é preciso que eles sejam muito bonitos. É uma articulação. É como se ficássemos mostrando assim o cotovelo pra frente. É horrível! (...) E eu acho que quando a gente mostra tudo, depois não se tem mais vontade de nada...
Surpreendentemente moderna nos anos vinte, de um feminismo prático, ativo, a velha Chanel, embora lúcida na sua crítica à "eterna juventude" feminina, perde-se em declarações machistas, conservadoras. A dualidade de sua personalidade parece refletir sua marca: dois Cs entrelaçados, um virado para o futuro, outro olhando para o passado. Preto e branco. Já com mais de 80 anos e um tanto amargurada, Chanel se vê presa a um tempo intermediário e parece preferir aquelas mulheres contidas da década de cinquenta... Mas o caminho que antes ajudara a trilhar conduzira muito além. Para Chanel, era demais. O tempo agora era o do amor livre, das flores nos cabelos, das minissaias e dos jeans boca-de-sino. Da deselegância livre, fluida e colorida.
17 de dezembro de 2012
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por Tággidi Ribeiro
Não só as religiões trataram de produzir discursos que, digamos assim, 'esquentassem a chapa' das mulheres. Desde nos dividir entre santas e putas e nos culpar por sermos estupradas a nos obrigar a pagar (com nossos corpos) dívidas de outros homens da casa - as religiões complicaram e muito as nossas vidas. As tais não são, contudo, as únicas culpadas (para usar vocábulo apropriado) por termos sido massacradas* ao longo da história. Não só os religiosos, mas também alguns (muitos) filósofos fizeram o favor de tentar justificar o tratamento vilipendioso dado às mulheres.
No livro A Representação das Mulheres no Discurso dos Filósofos: Hume, Rousseau, Kant e Condorcet, a portuguesa Adília Maia Gaspar reúne textos desses quatro filósofos iluministas sobre a mulher. Que ninguém pense em relativizar historicamente o pensamento desses homens (brincando sério): são todos contemporâneos e ainda assim têm visões distintas acerca do valor da mulher na construção da sociedade e como ser humano. O chato, na verdade, é saber que as ideias mais machistas foram as que mais ganharam adesão, sendo publicizadas pelos grandes meios e repetidas à exaustão pelos ogros de hoje.
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| Kant |
"Mulher tem que ser bonita" - agora o povo do boteco vai poder falar de boca cheia que quem disse isso foi Kant. Bem, ele não disse exatamente dessa forma - ele separou os gêneros em belo e nobre. A mulher (o belo sexo), segundo Kant, é naturalmente mais bela que o homem e pouco capaz de pensar. O homem (o sexo nobre) é naturalmente mais dado à filosofia que a mulher, e nem de longe tão belo. Para que os pares não parecessem muito díspares, Kant recomendava à mulher ganhar algum verniz intelectual; ao homem, recomendava que estivesse limpo e arrumadinho.
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| Rousseau |
"Lugar de mulher é na cozinha" - Rousseau dizia que as mulheres tinham uma tendência natural a obedecer. Se elas eram mais fracas fisicamente, isso era sinal de que deviam ser submetidas aos homens (interessante o filósofo que questiona o direito da força dizendo isso, não?). Já que as mulheres tinham nascido dóceis e fracas, Rousseau achava que elas deviam ser ensinadas a serem boazinhas, agradáveis e a cuidarem da casa.
Já Hume e Condorcet, contemporâneos mais esclarecidos desses dois outros famigerados filósofos das luzes, atribuíram à pressão social o fraco desejo sexual e o recato, à época considerados naturais nas mulheres (Hume) e pretenderam que o direito à educação e ao voto fossem garantidos igualmente a homens e mulheres (Condorcet). Este chega a defender uma ideia completamente absurda para os homens do século XVIII e que ainda hoje não é aceita por todo mundo: a de que mulheres também são capazes de fazer-se cientistas e filósofas. Para prová-la, refere professoras de medicina e filósofas do século XVII, estigmatizadas e posteriormente proibidas de frequentar as universidades.
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| Condorcet |
Verdadeiramente revolucionárias em sua época, as palavras de Hume e Condorcet foram escarnecidas e providencialmente esquecidas. Ainda bem que mulheres conscientes como a Adília Maia Gaspar perceberam a importância fazer esse trabalho de rememoração, buscando na história do pensamento masculino a história da mulher. Como povos conquistados, nós mulheres precisamos ler as entrelinhas da história do conquistador para construir a nossa história. Precisamos, sobretudo, contestar a narrativa do conquistador.
*Falar em massacre de gênero não é exagero: nos proibiram a educação, fomos
varridas da vida política, submeteram-nos ao confinamento doméstico,
reprimiram nosso desejo mas repetidamente nos violentaram, e, quando quisemos nos revoltar, nos mataram.
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por Mazu
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| Como é que é?? |
Este post vai ter um tom de
desabafo, mas espero que a companheirada me perdoe. Estou aqui lembrando de
quando a Bárbara teve uma semana super legal, só que não. Esse foi o meu final
de semana massa, só que ao contrário. Fui chamada de feminista exagerada,
extremista e acusada de ser incapaz de escutar a opinião alheia. Vai vendo. Justo
eu que, na real, sempre me achei uma feminista de moderada a leve. Isso porque
eu não entro em todas as discussões e dou até um sorriso amarelo quando meu
chefe faz suas observações sexistas. Não me julguem, preciso pagar as contas.
Sei que tem uma das blogueiras
famosas que se autodenomina “feminista cansada”, não sei bem se ela está
cansada pelos mesmos motivos que eu, mas, cara, como cansa.
E sabe por que cansa tanto?
Porque a gente se pega tendo a mesma discussão várias vezes, de diversas
formas, com várias pessoas e, às vezes, com as mesmas. Esse feriado que passou,
tive que repetir umas cinco vezes que feminismo não é o contrário de machismo,
que a culpa da tripla jornada de trabalho não é das sufragistas (sim, eu
escutei essa barbaridade de uma mulher jovem e bem resolvida), que a Carminha
(a da novela) não merecia apanhar e que se a gente andasse de burca, o índice
de violência contra a mulher não diminuiria nem no Distrito Federal e nem na
China. Eu estaria feliz se tivesse mudado alguma coisa em alguém, mas parece
que só fiquei mesmo com a fama de feminista chata e nada razoável.
De qualquer forma, serviu para
refletir sobre algumas coisas. E uma matéria de revista me ajudou muito nisso. A
Época de outubro de 2012 traz a
seguinte matéria de capa: “A Mulher venceu a guerra dos sexos: elas estudam
mais, são mais valorizadas no trabalho e já nem querem saber de namorar para
não atrapalhar a carreira. Os homens que se cuidem...”. Parece exagero, mas aí mora a origem de todo
o mal: andam vendendo um imaginário de que a mulher já alcançou o máximo que
poderia alcançar na nossa sociedade e que os homens estão ameaçados. Meu Deus,
que bobagem!
Essa sensação de que já estamos
com todos os direitos conquistados faz o feminismo parecer obsoleto e ridículo.
E isso é um tiro no pé de todo mundo, inclusive dos homens. Já dissemos
milhares de vezes no blog, a independência das meninas é a independência dos
meninos. Ninguém precisa proteger ou sustentar uma mulher, hoje em dia, e isso
tira peso de responsabilidade dos dois lados.
Sobre a tripla jornada de
trabalho, a gente não trabalha mais porque a gente quer. Esta é a ideologia
mais reacionária do planeta: a de que as minorias fazem ou deixam de fazer as
coisas porque querem, já que hoje somos todos iguais. (Ai, faça-me o favor,
vamos estudar história, né?) O que aconteceu é que as mulheres ganharam espaço
no mercado de trabalho, mas ainda convivemos com a ideologia patriarcal de que
a casa e os filhos são mais nossos que dos caras. O que não tem nada,
absolutamente nada, a ver com as sufragistas. (Pelamor!) Tem a ver com a
ideologia dominante do patriarcado. E se essa ideologia ainda exerce pressão
sobre nós, mulheres, deixa eu te contar, moça, o feminismo ainda tem muito
motivo para existir.
Um dos objetivos do blog é
mostrar que as feministas não são loucas raivosas, e estou, hoje, tendo
dificuldade com isso, já que estou cansada (como acabei de explicar) e com
raiva, e a matéria da Época só não
está pior porque acabou em cinco páginas.
A matéria começa falando de uma
novela dos anos 1980 que está sendo readaptada. Indiferente, não foi boa antes,
não vai ser boa agora. O ponto mais ou menos válido do início da matéria é que
como alguma coisa mudou na sociedade em 20 anos, a readaptação meio que reflete
isso. Por exemplo, uma das personagens era uma mulher mais livre sexualmente e,
nos anos 1980, sua liberdade sexual foi censurada, hoje em dia, ela se sente
mais enturmada socialmente. Uau.
A partir daí, a matéria começa a
descrever como ocupamos o mercado de trabalho, como somos protegidas por
algumas leis e como somos maioria nas Universidades. E segue dessa forma, duas
páginas e meio de alegria, mostrando todas as nossas conquistas que, durante o
texto, foram chamadas de “cataclismos sociais”, juro, na página 72:
“O mais provável que é que estejamos olhando para mudanças permanentes, como as provocadas por cataclismos sociais como o voto feminino ou a Segunda Guerra Mundial, que exigiu a presença feminina nas fábricas.”
Excelente escolha lexical da
jornalista!
Depois de toda essa alegria,
alguma coisa aconteceu com quem estava escrevendo a matéria, eu penso que um
troço chamado “pesquisa” tenha acontecido com ela, e ela começou a apresentar
os dados de que já falamos no blog algumas vezes. Ocupamos o mercado de
trabalho, mas ainda ganhamos menos, somos menos promovidas, vivemos mais
estressadas porque existe a pressão de ser bem sucedida no trabalho, mas existe
a pressão de ser mãe e esposa para ser feliz. No cenário político, a
participação ainda é pequena e tals. A matéria diz até uma coisa que gostei
muito de ler sobre o fato de estarmos sobrecarregadas com essas pressões todas:
“ou as empresas se adaptam ou as mulheres terão de rever seu papel em um dos
dois lugares” (casa ou escritório). Ainda que isso possa soar como outra forma
de pressão do tipo "pense bem no que você quer ser", é libertador, de certa forma,
pensar que não precisamos ser tudo. Ainda que ser uma boa profissional e uma
boa mãe de família seja comum, hoje em dia, é massacrante. E a gente tem direito
de escolher, ou uma coisa ou outra.
| Aviso para a Época: esta propagando foi retirada pelo Conar por ser machista e racista, não é um sinal de vitória para mulher nenhuma. |
De repente, a matéria ficou legal
apontando como no Brasil, as mulheres ainda são mais apegadas a tradição
patriarcal. Aqui, ter marido e filhos é prova de sucesso para mulher. É fato. E
é inesquecível quando a seguinte situação acontece com você. Você estuda e se
vira e tem suas coisas e escuta: você é casada? Tem filhos? Responde que não e
percebe aquele olhar de desprezo na sua direção. Quem nunca?
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| Grifei Teló e Du Loren, na lista de "sinais" de vitórias |
Bom, a matéria estava indo super
bem falando que, hoje, a mudança depende menos das leis e mais de comportamentos
que precisam ser alterados, até o último parágrafo em que trouxe uma frase do
Silvio de Abreu (Who?): “a mulheres já garantiram o espaço e estão por cima. O
homem é que passou a reivindicar o seu lugar.” Meu Deus. Não. Como a matéria
trouxe tantas pesquisas e pesquisadoras legais e opta por terminar com essa
frase de um sujeito que não tem tradição nenhuma na pesquisa sobre gênero? Só
porque ele escreveu uma novela chamada “Guerra dos sexos”?
Tanto esforço e tempo que a gente
passa dizendo que “você não está sendo oprimido quando uma minoria exige
direitos que você sempre teve”. Tanto tempo mostrando números absurdos de
violência e para quê? Para uma grande revista de grande circulação vir com essa
conversa de que já ganhamos, está tudo dominado, os homens que se cuidem? Sério
como assim alguém acha que “Ai se eu te pego” do Michel Teló e a propaganda
racista e preconceituosa da Du Loren são sinais de que já alcançamos nosso
lugar ao sol? Como não ficar brava, como ser razoável? Alguém me ajude com
isso.
Que canseira e que desânimo. Para
começar, não existe guerra dos sexos ou, pelo menos, não deveria existir, já que
ter direitos iguais é legal para todo mundo porque ninguém tem mais
responsabilidade do que ninguém. Em segundo lugar, esse tipo de matéria e de
ideias que ela propaga só serve para deixar os homens na defensiva, e isso não
ajuda o movimento. Aliás, não ajuda ninguém.
15 de outubro de 2012
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5
Mas se há sempre um padrão ideal que se busca atingir, por que é então que as feministas criticam as mulheres que querem ficar mais bonitas? - pergunta de novo o senso comum. Balela. Mas pensemos: ficar bonita por que e para quem? A nossa beleza ocidental, "globalizada", é também comercializada. É um produto. Por trás dela está a indústria da beleza. Esta indústria precisa criar um ideal cada vez mais inatingível para abalar a tal ponto a nossa percepção de si, para que nos sintamos tão feias, tão desagradáveis visualmente, que a cada manhã passemos horas na frente do espelho, diante de um arsenal de frascos e tubos e aparelhos, nunca suficientes, para que tenhamos enfim coragem de levantar os olhos em direção ao outro e enxergar nossa presença no mundo. Odiar nossos corpos para comprar uma imagem melhor. O que as feministas criticam é esta necessidade de ser ou de ficar bonita (inclusive para "seduzir" um homem) como a única forma de uma mulher se afirmar como sujeito. A Tággidi falou outro dia de como a propaganda molda nossas mentes e corpos. Produtos de beleza tornam-se promessas de sucesso. A felicidade é jovem, lisa, limpa. Antirrugas, perfumes, peeling, hidratação, drenagem linfática, escova progressiva, luzes, silicone, lipoaspiração, bronzeamento, musculação, clareamento dos dentes. Ficar bonita e pagar pela beleza é vencer na vida.
"Uma coisa é viver pela imagem, mas essas feministas aí são muito descuidadas, credo". Ora, um pouco de perspectiva histórica não faz mal a ninguém. Temos que pensar no significado da ruptura da imagem tradicional da mulher provocada pelo movimento feminista nos anos 60/70. As feministas desta época romperam com uma beleza considerada burguesa e alienada e valorizaram mais o natural: o natural de um corpo solto, livre.
Li uma entrevista interessante sobre o assunto, não muito recente (de 2003), com uma escritora e militante francesa chamada Benoîte Groult. Seu caso é particular pois ela viveu sua juventude no meio da moda, sua mãe tinha uma maison de couture e seu tio era o famoso estilista Paul Poiret, considerado um precursor do estilo Art Déco. Na entrevista, Benoîte fala da obrigação de seduzir os homens que pesava sobre as garotas em idade de se casar:
Benoîte conta então como, nos anos 70, as mulheres da sua geração deixaram de ter vergonha do próprio corpo e buscaram falar sobre ele, conhecê-lo. Elas se libertaram da obrigação de serem belas para casar e das roupas que as oprimiam, não só simbolicamente, mas também fisicamente: a cinta-liga, por exemplo, que machucava e cortava a cintura.
Ser bonita é ser feliz! ... já dizia a propaganda de sabonete.
por Barbara Falleiros
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| Atributos típicos da feminista padrão: cabelo mal cuidado, roupa desleixada, fumo e muitos pelos no corpo. |
Nos últimos meses, com as garotas da Femen oferecendo à grande mídia a imagem polida de neofeministas nórdicas geneticamente privilegiadas (como sugeriu Sara Winter), assistimos a uma grande revolução: a palavra feminista, que o vulgo assimilara anteriormente a sapatona hippie peluda desleixada, ganha a nova acepção de loirinha gostosa pagando peitinho. Como convém, a luta das mulheres reduz-se a este âmbito, por natureza "feminino", que é a beleza: só o que interessa é saber se a ativista é feia ou bonita, encaixá-la ou excluí-la de um padrão de beleza. E por quê? [Aqui termina a ironia desta introdução] Porque a beleza é o único poder que se concede às mulheres.
As relações entre feminismo e beleza são complexas; estes conceitos, por si só, já o são. Porém, mais uma vez a história nos ajuda a fugir das generalizações da ignorância. A grande bandeira do senso comum antifeminista é a de que feministas não são femininas, entendendo a feminilidade como uma certa graça, delicadeza, vaidade e beleza características das mulheres. Só aí já dava discussão para uma vida inteira.
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| "Linda e loira" já no século XV. Mas ainda nada de silicone, bronzeamento ou alisamento. |
Mas vamos devagar. Primeiramente, não dá para ser "contra a beleza" pois esta, enquanto experiência de apreciação estética, é própria do gênero humano. Padrões de beleza ideal estão presentes em todas as sociedades, em todos os tempos. No entanto, estes padrões não são absolutos mas variam conforme o lugar e a época. Por exemplo, na Europa do século XV, o ideal de beleza feminina caracterizava-se pela pele pálida, os seios pequenos, o ventre redondo. Jamais uma dama tentaria esconder com seus cabelos louros uma testa proeminente! Pelo contrário: as outras é que, desesperadas, tentavam aumentar a superfície da sua testa depilando com cal viva o alto da cabeça... Vale dizer também que, nesta época, a beleza era entendida como um reflexo das qualidades morais...
Mas se há sempre um padrão ideal que se busca atingir, por que é então que as feministas criticam as mulheres que querem ficar mais bonitas? - pergunta de novo o senso comum. Balela. Mas pensemos: ficar bonita por que e para quem? A nossa beleza ocidental, "globalizada", é também comercializada. É um produto. Por trás dela está a indústria da beleza. Esta indústria precisa criar um ideal cada vez mais inatingível para abalar a tal ponto a nossa percepção de si, para que nos sintamos tão feias, tão desagradáveis visualmente, que a cada manhã passemos horas na frente do espelho, diante de um arsenal de frascos e tubos e aparelhos, nunca suficientes, para que tenhamos enfim coragem de levantar os olhos em direção ao outro e enxergar nossa presença no mundo. Odiar nossos corpos para comprar uma imagem melhor. O que as feministas criticam é esta necessidade de ser ou de ficar bonita (inclusive para "seduzir" um homem) como a única forma de uma mulher se afirmar como sujeito. A Tággidi falou outro dia de como a propaganda molda nossas mentes e corpos. Produtos de beleza tornam-se promessas de sucesso. A felicidade é jovem, lisa, limpa. Antirrugas, perfumes, peeling, hidratação, drenagem linfática, escova progressiva, luzes, silicone, lipoaspiração, bronzeamento, musculação, clareamento dos dentes. Ficar bonita e pagar pela beleza é vencer na vida.
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| Benoîte Groult |
Li uma entrevista interessante sobre o assunto, não muito recente (de 2003), com uma escritora e militante francesa chamada Benoîte Groult. Seu caso é particular pois ela viveu sua juventude no meio da moda, sua mãe tinha uma maison de couture e seu tio era o famoso estilista Paul Poiret, considerado um precursor do estilo Art Déco. Na entrevista, Benoîte fala da obrigação de seduzir os homens que pesava sobre as garotas em idade de se casar:
"Durante toda a minha infância, eu vivi obcecada pela obrigação de beleza e sedução que era imposta às meninas. Em 1936 eu tinha 16 anos e nessa idade, naquele tempo, entrávamos na horrível categoria de meninas "para casar" (...). Se, com 25 anos, a gente ainda não estivesse casada, entrávamos em outra categoria horrível, a das solteironas, o terrível arquétipo da literatura dos dois últimos séculos: tornávamo-nos aquela tia largada, desprezada, prima pobre, éramos consideradas necessariamente feias."
Bette Davis, solteirona em
The Old Maid
Benoîte conta então como, nos anos 70, as mulheres da sua geração deixaram de ter vergonha do próprio corpo e buscaram falar sobre ele, conhecê-lo. Elas se libertaram da obrigação de serem belas para casar e das roupas que as oprimiam, não só simbolicamente, mas também fisicamente: a cinta-liga, por exemplo, que machucava e cortava a cintura.
"Que libertação, que felicidade! Era como se eu tivesse renascido! Eu tinha mais de 40 anos, mas comecei a viver. Já não era obrigada a usar os vestidos de alta-costura da minha mãe. Nós não éramos obrigadas a obedecer aos cânones de beleza. Podíamos afrouxar as algemas, vestir-nos como gostávamos (...)"
Ao promoverem uma liberação física e mental em relação ao corpo feminino, elas conseguiram usufruir de uma liberdade que fez com que se sentissem
de fato belas. Uma ideia eficiente retomada por uma série de campanhas
atuais que procuram incentivar as mulheres a amarem e respeitarem o
próprio corpo.
Benoîte Groult é uma feminista que fez plástica e que não é contra a medicina estética per se. Sim. Existe. Mas daí a fazer das mulheres escravas de um padrão cruel e inatingível é bem diferente. Ela chama a atenção para o que considera um retrocesso na nossa época, uma vulnerabilidade aos ditados da moda e aos padrões de beleza que prova como ainda estamos impregnadas da ideologia tradicional.
Benoîte Groult é uma feminista que fez plástica e que não é contra a medicina estética per se. Sim. Existe. Mas daí a fazer das mulheres escravas de um padrão cruel e inatingível é bem diferente. Ela chama a atenção para o que considera um retrocesso na nossa época, uma vulnerabilidade aos ditados da moda e aos padrões de beleza que prova como ainda estamos impregnadas da ideologia tradicional.
É desesperador! É como se a revolução de 1968 não tivesse servido para nada. Seios siliconados, lábios inchados artificialmente, coxas lipoaspiradas! Impõe-se uma beleza feminina estereotipada que é uma escravidão.
(...) Chegamos a um estágio inacreditável de pornô chique na moda. E ninguém diz: vocês são ridículas com seus saltos agulha torturando seus dedos, vocês morrerão de dores nas costas mais tarde. Estas mulheres que eu vejo nos aeroportos com seus saltos 12 cm, de saia apertada, arrastando malas pesadas, olho pra elas com a mesma pena que me inspiram as mulheres de véu. Todas elas se deixam condicionar, umas pela religião, outras pela sociedade de consumo ou pelas supostas fantasias masculinas.
Com esta crítica, retomo as perguntas colocadas acima. O cerne da questão não está em ser ou não ser bonita, mas em ser bonita para que, por que ou para quem? Para se sentir amada? Para se dar valor? Simplesmente para existir? É nas motivações que se escondem as amarras.
Ser bonita é ser feliz! ... já dizia a propaganda de sabonete.
14 de outubro de 2012
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2
No início de 2012 comemorou-se os 80 anos da oficialização do sufrágio feminino no Brasil: em 24 de fevereiro de 1932, o presidente Getúlio Vargas assinava o decreto nº 21.076, instituindo o Código Eleitoral Brasileiro, em que constava, no Art. 2º: "É eleitor o cidadão maior de 21 anos, sem distinção de sexo, alistado na forma deste Código", embora o Art. 121 ainda isentasse as mulheres da obrigação do voto. Além disso, só podiam votar as mulheres solteiras e viúvas que possuíssem renda própria e as casadas que tivessem a autorização do marido (estas restrições foram removidas em 1934; quanto à obrigatoriedade do voto feminino, esta veio somente em 1946, aplicada apenas às mulheres que exerciam uma atividade remunerada).
Foi no início do século XX que teve início, na Inglaterra, um
forte movimento feminista de luta pelo direito ao voto das mulheres, a
Women's Social and Political Union, cujas militantes ficaram conhecidas como suffragettes. Estas sufragistas pioneiras influenciaram um nome importante desta luta no Brasil, Bertha Lutz, segunda mulher a ingressar no serviço público (como bióloga, no Museu Nacional), fundadora (em 1919) da Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher
e candidata (em 1933) a uma vaga na Assembleia Nacional. Embora não
tendo conseguido se eleger, foi deputada na Câmara Federal ao assumir,
em 1936, uma suplência. Antes dela, algumas (poucas) mulheres já haviam
ocupado cargos políticos, como Alzira Soriano, eleita em 1928 a primeira mulher prefeita (de Lajes - RN) ou a paulista Carlota Pereira Queirós, primeira deputada federal, em 1933.
A Roberta postou ontem na página Facebook das Subvertidas o link para o Guia Feminista para as Eleições 2012, muito elucidativo, do qual cito trechos abaixo:
A União Interparlamentar publicou um índice atualizado no final do mês passado referente à participação das mulheres em 190 parlamentos nacionais. E sabe qual país tem o maior índice de mulheres no parlamento? A Ruanda, que se reconstrói após o genocídio. Logo atrás dela estão, entre outros, Cuba, Senegal, Finlândia, Islândia, Noruega. O Brasil só aparece bem lá embaixo, no número 119, perdendo para uma série de países cujos nomes evocam a miséria, a violência dos conflitos e/ou a restrição cultural da liberdade feminina, como Afeganistão, Serra Leoa, Libéria, Emirados Árabes, Paquistão...
Em termos de participação feminina na política, dá pra ver que estamos mal. Por isso que a lei de cotas, em vigor nas eleições de hoje, é interessante, obrigando os partidos a apresentarem 30% de candidaturas femininas. Como afirmam no Guia citado acima, "votar em mulher pode ser visto como uma ação afirmativa visando fortalecer a participação das mulheres na política formal".
Aí vem o babaca e fala: "Ué, mas vocês aí não querem a igualdade, pra que então ter cotas? Só por que é mulher? Isso é discriminação!", e se for um babaca daqueles que se acha sagaz, "Vocês não falam que existem mais de dois sexos? Como é que tem que ter porcentagem de homem e mulher? E o travesti, não conta? E se o Laerte quiser se candidatar?"
É aquela velha história: Você não está sendo oprimido quando outro grupo ganha direitos que você sempre teve. A realidade e os índices mostram que não há distribuição igualitária do poder e que este desequilíbrio tem como base diferenças de gênero. Mas, claro, não basta votar em mulher só porque é mulher. O negócio é votar em pessoas que não sejam corruptas, desonestas, fundamentalistas, machistas, preconceituosas, elitistas... Diz-se por aí que estes espécimes estão em extinção: por isso mesmo, preocupemo-nos em criar condições para que cresçam e se reproduzam!
por Barbara Falleiros
Hoje é dia de eleição e a lei proíbe de declarar voto, de tentar pressionar eleitores em favor de um candidato, de fazer propaganda política. Mas não proíbe de relembrar a história e de refletir um pouco sobre o funcionamento das coisas...
No início de 2012 comemorou-se os 80 anos da oficialização do sufrágio feminino no Brasil: em 24 de fevereiro de 1932, o presidente Getúlio Vargas assinava o decreto nº 21.076, instituindo o Código Eleitoral Brasileiro, em que constava, no Art. 2º: "É eleitor o cidadão maior de 21 anos, sem distinção de sexo, alistado na forma deste Código", embora o Art. 121 ainda isentasse as mulheres da obrigação do voto. Além disso, só podiam votar as mulheres solteiras e viúvas que possuíssem renda própria e as casadas que tivessem a autorização do marido (estas restrições foram removidas em 1934; quanto à obrigatoriedade do voto feminino, esta veio somente em 1946, aplicada apenas às mulheres que exerciam uma atividade remunerada).
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| Bertha Lutz: grande nome da luta em prol do voto feminino |
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| Alzira Soriano: primeira prefeita mulher na América Latina |
Atualmente, temos uma mulher na presidência da
República, e ainda, uma mulher que foi torturada e perseguida durante o período mais sombrio da nossa história recente. Parece-nos que um longo caminho histórico foi percorrido. Mas é
o suficiente? Por que é importante termos mulheres participando
ativamente da vida política?
Ora,
estatisticamente, as mulheres são a maioria no país: ligeiramente a maioria da população
brasileira (e da população economicamente ativa), possuem um grau de escolaridade mais elevado e uma esperança de vida maior. No entanto, nas eleições municipais de 2008, foram eleitas apenas 504 mulheres, o que representa 9,7% do total de prefeit@s. E a porcentagem de vereadoras mulheres foi de 12,5%.
A Roberta postou ontem na página Facebook das Subvertidas o link para o Guia Feminista para as Eleições 2012, muito elucidativo, do qual cito trechos abaixo:
As mulheres representam hoje mais da metade da população do brasil (51,03%) e também mais da metade do eleitorado brasileiro (51,9%). São responsáveis por grande parte da riqueza produzida no país e realizam quase todo trabalho doméstico e as tarefas de cuidado, fundamentais para que as pessoas possam viver bem, sentirem-se protegidas, respeitadas e acolhidas no cotidiano da vida. No entanto, nos espaços públicos, onde são decididos os rumos do país, onde são elaboradas e aprovadas as leis, onde são planejadas e implementadas políticas públicas e definidos os projetos de desenvolvimento, as mulheres são minoria. Não porque não queiram estar ali, mas porque são excluídas desses espaços, uma vez que não são eleitas.
Mudar este quadro e eleger mulheres é, sobretudo, uma questão democrática, de justiça de gênero, de justiça distributiva do poder. Se as mulheres constroem a sociedade, produzem riqueza, cuidam das pessoas, cuidam do meio ambiente, educam, cuidam da saúde, é necessário que o poder de gerir o Estado, que gerencia a vida em sociedade, seja dividido igualitariamente entre mulheres e homens.
A União Interparlamentar publicou um índice atualizado no final do mês passado referente à participação das mulheres em 190 parlamentos nacionais. E sabe qual país tem o maior índice de mulheres no parlamento? A Ruanda, que se reconstrói após o genocídio. Logo atrás dela estão, entre outros, Cuba, Senegal, Finlândia, Islândia, Noruega. O Brasil só aparece bem lá embaixo, no número 119, perdendo para uma série de países cujos nomes evocam a miséria, a violência dos conflitos e/ou a restrição cultural da liberdade feminina, como Afeganistão, Serra Leoa, Libéria, Emirados Árabes, Paquistão...
Em termos de participação feminina na política, dá pra ver que estamos mal. Por isso que a lei de cotas, em vigor nas eleições de hoje, é interessante, obrigando os partidos a apresentarem 30% de candidaturas femininas. Como afirmam no Guia citado acima, "votar em mulher pode ser visto como uma ação afirmativa visando fortalecer a participação das mulheres na política formal". Aí vem o babaca e fala: "Ué, mas vocês aí não querem a igualdade, pra que então ter cotas? Só por que é mulher? Isso é discriminação!", e se for um babaca daqueles que se acha sagaz, "Vocês não falam que existem mais de dois sexos? Como é que tem que ter porcentagem de homem e mulher? E o travesti, não conta? E se o Laerte quiser se candidatar?"
É aquela velha história: Você não está sendo oprimido quando outro grupo ganha direitos que você sempre teve. A realidade e os índices mostram que não há distribuição igualitária do poder e que este desequilíbrio tem como base diferenças de gênero. Mas, claro, não basta votar em mulher só porque é mulher. O negócio é votar em pessoas que não sejam corruptas, desonestas, fundamentalistas, machistas, preconceituosas, elitistas... Diz-se por aí que estes espécimes estão em extinção: por isso mesmo, preocupemo-nos em criar condições para que cresçam e se reproduzam!
7 de outubro de 2012
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1
Números:
por Mazu
Sinceramente, considero a desinformação e a ignorância duas das piores pragas da humanidade. Então, resolvi fazer um post informativo sobre alguns conceitos:
Dicionário Houaiss:
Feminismo
1 doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade
2 Derivação: por metonímia.
movimento que milita neste sentido
3 Derivação: por extensão de sentido.
teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos
4 Derivação: por metonímia.
atividade organizada em favor dos direitos e interesses das mulheres
Nazismo
1 doutrina e partido do movimento nacional-socialista alemão fundado e liderado por Adolph Hitler (1889-1945); hitlerismo, nacional-socialismo
Números:
Líderes mulheres no nazismo: 0
Número de mortos pelo nazismo: ainda não se sabe ao certo, mas a estimativa está por volta dos 9 milhões.
Número de mortos pelo feminismo: 0
Características:
Papel das mulheres para os nazistas: gerar filhos arianos saudáveis
Papel das mulheres para os feministas: basicamente, o que elas quiserem
Personagem do Nazismo: Hitler
Personagem do Feminismo: como é uma luta coletiva nunca conseguiremos citar um nome só. O feminismo tem personagens e milhares.
Relações históricas possíveis entre o feminismo e o nazismo:
As discussões internéticas cansam a gente a vida inteira porque muitos desses conceitos são idiotamente usados.
Quero dizer que, basicamente, chamar de nazista quem discorda de você é tipo xingar a mãe, sabe? Ir embora com a bola porque está perdendo, é, no mínimo, besta e superficial.
Não defendemos uma supremacia do feminino sobre o masculino, a gente quer isonomia e respeito, o que a gente obviamente não tem. Vide todo este blog e tudo o mais no mundo. Isso não tem nada que ver com nazismo. Agora, se me permitem o adendo, o nazismo foi um movimento machista. Claro que nem todo machista é nazista, mas todo nazista é machista, perceba.
O ponto todo deste post é que Feminazi não é um termo possível e nem engraçado, é um termo que deixa absolutamente claro como algumas pessoas devem voltar para a escola. Simples assim. Homenagem a tais pessoas, vinda diretamente de seu ídolo:
11 de setembro de 2012
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2
Montserrat Moreno em seu livro Como se aprende a ser menina? explica que os homens escreveram a história e de alguma forma excluíram ou minimizaram a participação das mulheres em eventos históricos. A isso soma-se a forma como somos educadas: aprendemos a ocupar o lugar de coadjuvante, desde pequenas.
Não vou nem entrar no mérito do tipo de revolução que foi aquela, uma revolução burguesa e tals. Mas por que a participação feminina deve ser lembrada ou festejada? É ponto pacífico que as mulheres lutaram na revolução, contudo, depois, algumas não foram consideradas nem ex-combatentes, nem nada. Tudo bem, algumas constam como heroínas e combatentes em alguns documentos históricos, mas alguém lembra de uma jacobina ou girondina importante? Algum lugar político de proeminência foi dado a alguma dessas mães? A matéria não apontou nenhum desses fatores. Ficou só no "olha só do que a gente também participou".
por Mazu
Li esses dias uma matéria absurdamente curta, rasa e superficial sobre a participação das mulheres na Revolução Francesa. A matéria de uma página estava na Edição de 18 anos da revista Persona Mulher. Pessoalmente, tenho uma porção de problemas com a revista, mas a matéria me lembrou de umas questões bem importantes.
Li esses dias uma matéria absurdamente curta, rasa e superficial sobre a participação das mulheres na Revolução Francesa. A matéria de uma página estava na Edição de 18 anos da revista Persona Mulher. Pessoalmente, tenho uma porção de problemas com a revista, mas a matéria me lembrou de umas questões bem importantes.
Primeiramente, a autora conta como, na verdade, as mulheres ("mães com os filhos famintos") foram realmente quem impulsionaram a Revolução Francesa. Aliás, a revista toda segue muito essa linha de mostrar como, no fundo, no fundo, as mulheres estão por trás de tudo que acontece no mundo. Esse "por trás" me irrita muito, em primeiro lugar, porque já temos consciência, hoje, de que as mulheres participaram muito mais da vida política e social do que conta a história. Em segundo lugar porque devíamos estar à frente ou ao lado, pelo menos, e não por trás de nenhum acontecimento ou personagem histórica.
Mas, aparentemente, lendo livros de história e olhando para a constituição das instituições políticas, de esquerda, direita ou centro, a impressão é que as mulheres são sempre coadjuvantes ou vices, quando sequer figuram em algum acontecimento. A pergunta é: por que a história menciona pouco ou quase nada as mulheres? E quando menciona, por que é sempre a esposa, a amante, a filha de alguém?
Montserrat Moreno em seu livro Como se aprende a ser menina? explica que os homens escreveram a história e de alguma forma excluíram ou minimizaram a participação das mulheres em eventos históricos. A isso soma-se a forma como somos educadas: aprendemos a ocupar o lugar de coadjuvante, desde pequenas.
A impressão que tive da Persona Mulher é que a publicação festeja esse lugar de coadjuvante há dezoito anos. A matéria sobre a Revolução Francesa, por exemplo, aponta que estivemos ali e fizemos isso, mas esquece de mencionar o que as mulheres conseguiram com esse levante. Aonde chegaram?
Não vou nem entrar no mérito do tipo de revolução que foi aquela, uma revolução burguesa e tals. Mas por que a participação feminina deve ser lembrada ou festejada? É ponto pacífico que as mulheres lutaram na revolução, contudo, depois, algumas não foram consideradas nem ex-combatentes, nem nada. Tudo bem, algumas constam como heroínas e combatentes em alguns documentos históricos, mas alguém lembra de uma jacobina ou girondina importante? Algum lugar político de proeminência foi dado a alguma dessas mães? A matéria não apontou nenhum desses fatores. Ficou só no "olha só do que a gente também participou".
Obviamente, as mulheres fazem/fizeram grande diferença (e o trabalho pesado também) nas mudanças históricas e na participação social desde sempre. A grande questão para o movimento feminista contemporâneo é menos afirmar e festejar a participação feminina, e mais o resultado dessa participação. Se as mulheres eram boas o suficiente para subir no cavalo e destronar um rei, elas deviam ser boas o suficiente para o resto, fazer parte do governo que se formava em seguida.
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| Atrás do burguês sempre há uma grande mulher, atrás do revolucionário não há ninguém porque sua companheira segue ao lado e nunca atrás |
A gente esteve na história sempre, o tempo todo, ao lado e à frente e não por trás de nada, não. Penso que o momento chegou de cobrar esse nosso lugar ao lado e à frente. Comprovar historicamente a nossa capacidade e participação é mega importante, lógico que é, mas vira um elefante branco se não usarmos para ocupar espaços que nos permitam escrever e conduzir a história.
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por Roberta Gregoli
Notícia ruim e boa ao mesmo tempo foi a expulsão da atleta grega que escreveu tweets racistas. Lição para nós, que ainda nos atrapalhamos com o conceito de liberdade de expressão: tolerância zero e medidas severas contra manifestações racistas e sexistas. E avisem que a desculpa 'foi só de brincadeirinha' já não cola mais.
por Roberta Gregoli
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| As sufragistas protestam em Londres |
Não estou muito por dentro dos jogos das Olimpíadas, mas o que tenho acompanhado nos bastidores tem sido muito interessante. Antes mesmo dos jogos começarem, boas notícias: pela primeira vez na história, todas as delegações têm atletas mulheres - e mulheres que estão fazendo bonito. A má notícia é que a propaganda machista continua, no Brasil e no mundo.
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| Site do Globo Esporte anuncia "cardápio variado": #nojo |
Abertura
Vi a abertura ao vivo. Fiz questão, por morar na Inglaterra e ter acompanhado todos os papos e os mistérios (que, diga-se de passagem, nem se comparam ao frisson que se passa no Brasil, com 4 anos de antecipação). Quando disseram que iam colocar ovelhas no palco, não botei fé. E realmente achei o espetáculo chocho, bem ao estilo inglês: bem executado, mas sem emoção. Mas achei a cerimônia muito interessante por uma série de motivos, e pela repercussão.
Este ótimo artigo sobre o feito de Danny Boyle (para quem não se lembra, o diretor de Trainspotting e Quem quer ser um milionário?) para mim é conclusivo: a cerimônia foi um poema celebratório apaixonado para o país que Boyle gostaria que existisse - uma Grã-Bretanha multicultural, tolerante, gay-friendly e que tem como princípio o Estado do bem estar social. Isso explica o beijo lésbico, a presença das minorias étnicas em praticamente todos os quadros, a homenagem ao NHS (o equivalente ao SUS no Brasil, motivo de orgulho para os britânicos em comparação aos Estados Unidos, por exemplo, onde saúde custa e caro).
Boyle já tinha me ganhado no começo, quando entraram as sufragistas. O direito ao voto foi conquistado pelas mulheres na Grã-Bretanha em 1918, fato que o comentador da Globo citou. Na minha opinião, seria uma oportunidade para fazer o elo com o Brasil e citar o movimento nativo, já que aqui muitas pessoas sequer conhecem a palavra 'sufragista' ou sabem que o sufrágio feminino foi conquistado em 1932 num movimento encabeçado por Bertha Lutz. Mas acho que esperar algo parecido da Globo é um pouco de delírio da minha parte.
Ideal x real
Aplausos para Danny Boyle, então, que conseguiu até mesmo que uma rainha carrancuda participasse de um vídeo bem humorado. E é aí que eu queria chegar - a realidade versus o ideal.
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| Olha todos estes países que costumavam ser meus |
Apesar de achar que, para muitos países no mundo, o tributo ao NHS não fez sentido algum, trata-se, na verdade, de um ponto político nevrálgico. Este ano houve uma reestruturação enorme por parte do governo conservador, resultando no que, muitos acreditam, será a deterioração do sistema de saúde público inglês. Além disso, tendo em vista a rendição de toda a Europa ao sistema bancário, colocando a seguridade social - e todos os ganhos conquistados no continente no último século em termos de políticas públicas promovendo a igualdade social - em segundo (terceiro, quarto...) plano, saúde de graça é, sem dúvida, algo digno de celebração.
Além disso, para um país que se pretende escolarizado e multicultural, a confusão com as bandeiras da Coreia do Norte e Sul foi vexatório.
Outro dado de realidade para a utopia boyleana: apesar de ser, de fato, um país multi-étnico, a Grã-Bretanha é insistentemente segregatória e racista. Prova veio como reação à própria cerimônia de abertura: veja aqui um artigo extremamente racista publicado no Daily Mail, o tabloide mais popular do país. Traduzo aqui parte do texto:
Outro dado de realidade para a utopia boyleana: apesar de ser, de fato, um país multi-étnico, a Grã-Bretanha é insistentemente segregatória e racista. Prova veio como reação à própria cerimônia de abertura: veja aqui um artigo extremamente racista publicado no Daily Mail, o tabloide mais popular do país. Traduzo aqui parte do texto:
Era para ser uma representação da vida moderna na Inglaterra, mas seria difícil para os organizadores encontrarem uma mãe branca escolarizada de meia-idade e um pai negro morando juntos com uma família feliz dessa maneira [...] A pauta da igualdade multicultural foi tão encenada que foi doloroso assistir.
O artigo depois foi alterado, excluindo esta parte, e mais tarde retirado do ar. No Brasil chamariam de censura, lá é bom senso - que faltou ao colunista na hora de escrever.
Diversidade racial e sexual, feministas, saúde de graça de qualidade e uma rainha bem humorada: a Inglaterra de Danny Boyle é muito mais interessante do que a Inglaterra de fato.
Diversidade racial e sexual, feministas, saúde de graça de qualidade e uma rainha bem humorada: a Inglaterra de Danny Boyle é muito mais interessante do que a Inglaterra de fato.
1 de agosto de 2012
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por Tággidi Ribeiro
Bem, na verdade, não. O New York Times ignorou a notícia, sem dúvida histórica, de que as mulheres, pela primeira vez, tiveram nota mais alta que os homens no famosíssimo teste de QI (Quociente de Inteligência).
O teste de QI, como o conhecemos hoje (alvo de muitas críticas), é aplicado há mais ou menos cem anos e sempre foi usado como prova de que mulheres são menos inteligentes que homens. Durante um século homens superaram mulheres nesse teste, que mede basicamente a capacidade de raciocínio lógico de uma pessoa.
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| Inteligência masculina? |
Mulheres, como se costuma ouvir por aí, têm maior inteligência emocional, sabendo lidar com, ensinar e cuidar de melhor forma que os homens, tidos como mais "racionais". Às mulheres caberia, portanto, segundo o senso comum e também uma parte da ciência, todo um entendimento "emotivo" do mundo.
Poderíamos, pela novidade do resultado do teste de QI, influir que a mulher é tão racional quanto o homem, ou talvez até mais que ele? Ou, ao menos, que possui habilidades lógico-cognitivas semelhantes ou mesmo superiores às de seus pares XY?
Podemos responder afirmativamente a essas questões, se sabemos que mulheres só começaram a ser aceitas em universidades há pouco mais de cem anos e que, durante quase toda a história da humanidade letrada, mulheres foram proibidas de chegar perto do conhecimento tido como masculino, ou seja, tudo que não tem relação com a limpeza da casa, a criação primeira dos filhos (alimentação e alfabetização) e a manutenção da beleza.
Contudo, nosso mundo não está preparado para tanta novidade. Em vez de admitir que mulheres, ainda que tenham menos neurônios que homens, pensam tanto quanto eles se expostas ao conhecimento, à educação, nosso mundo preferiu achar outras respostas, como 'a complexa vida da mulher moderna'.
Daí eu pergunto: quem parece lógico e racional nessa história? E respondo: não este nosso tempo - e suas conclusões.
Na verdade, praticamente tudo o que foi dito acima pode ser desconsiderado. A discussão sobre quem é mais inteligente é, no fundo, pouco inteligente. É necessário lembrar, sempre, claro, que mulheres foram PROIBIDAS de estudar durante milênios. Mas é necessário, sobretudo, denunciar o silenciamento do gênio feminino na história. Temos a impressão de que somente os homens pensaram e construíram este mundo quando, na verdade, existe um processo deliberado de anulação da figura feminina como agente transformador. Ou vai dizer que você sabia que a equipe de cientistas que anunciou recentemente a descoberta do Bóson de Higgs foi liderada por uma mulher?
Na verdade, praticamente tudo o que foi dito acima pode ser desconsiderado. A discussão sobre quem é mais inteligente é, no fundo, pouco inteligente. É necessário lembrar, sempre, claro, que mulheres foram PROIBIDAS de estudar durante milênios. Mas é necessário, sobretudo, denunciar o silenciamento do gênio feminino na história. Temos a impressão de que somente os homens pensaram e construíram este mundo quando, na verdade, existe um processo deliberado de anulação da figura feminina como agente transformador. Ou vai dizer que você sabia que a equipe de cientistas que anunciou recentemente a descoberta do Bóson de Higgs foi liderada por uma mulher?
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| Eu não sou uma mulher diferente |
































