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Hoje, vamos falar de humor e estereótipos. Ah os estereótipos.... Sim, lá vem outro post mal-humorento contra o humor e a liberdade de expressão. ¬¬
A Roberta adora falar de humor e manda muitíssimo bem quando faz, dá uma olhada aqui, aqui e aqui. Dá para selecionar o marcador humor e ver os vários posts sobre isso no blog também.
Vou tratar especificamente do vídeo Mulheres do Porta dos Fundos. Na boa, eu vi dois vídeos deles antes disso e gostei muito (Spoleto e Deus). Mas esse, especificamente, se baseia num estereótipo que me incomoda muito. Vejamos:
Por quê, meu Deus, as titias feministas vamos implicar com esse vídeo engraçadinho (só que não) desse grupo humorístico tão querido da galera (que, segundo comentário forte nas interwebs, pertence ao rei dos coxinhas, Luciano Huck)?
Porque reforça um estereótipo.
Parece pouco para tanta implicância, não é mesmo? Mas não é. Vai vendo. O estereótipo de que as mulheres falam demais e reclamam demais é perigoso, sim, porque valida o velho "mulher boa é mulher calada". Além de dar aval para que não sejamos ouvidas. Por que escutar uma denúncia de assédio moral ou violência psicológica (que é mais difícil de detectar) quando o "natural" da mulher é reclamar? Para que agir com respeito e ser um bom companheiro se "haja o que hajar" a mulher vai reclamar?
O grande problema dos estereótipos é este: legitimar o comportamento de uma sociedade opressora. Dizer que mulher só reclama é um jeito de nos calar. E, caso você não tenha lido o post anônimo anterior ao meu, leia e veja como isso é um problema.
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| Por quê? a gente fica mais linda caladinha? |
Vou retomar um trecho de um post da Rô, que pode ser lido na íntegra aqui, para formular um argumento sobre a falação das mulheres. Este trecho trata de um tipo específico de piada machista:
1) Piadas que afirmam o comportamento "natural" das mulheres
Que as mulheres gastam o dinheiro dos maridos, falam demais, são vaidosas, superficiais e fúteis, etc.Quem divulga estas piadas não são só homens, é claro. Como diria uma colega, você sabe que está numa luta difícil quando metade do seu time está contra você. Mulheres muitas vezes promovem esse tipo de humor sem muita reflexão. A piada ao lado, por exemplo, foi compartilhada por uma mulher que sei que sustenta a casa, inclusive o marido, há décadas. Qual a graça em se autodenegrir, sendo que o que é afirmado nem é verdade?
O intuito dessas piadas é, pura e simplesmente, ridicularizar comportamentos tidos como femininos, ou seja, ridicularizar as mulheres. Essa categoria, apesar de parecer light, justifica atitudes paternalistas de menosprezo e desqualificação ao reforçar estereótipos que estão longe de ser verdade para muitas, senão a maioria de nós.
E nem é verdade. Fato. A gente fala e reclama muito menos do que devia, companheirada! E essa é a verdade.
A Lola diz que "toda mulher tem um história de horror pra contar", mas a gente nunca conta. Nunca contei por aí que, quando tinha 14, um sujeito tentou me derrubar da bicicleta enquanto eu voltava da casa de um amigo. Nunca contei que, quando estudava em Campinas e trabalhava em São Paulo, desmaiei de cansaço no ônibus e acordei com o cara do lado me apalpando. Nunca admiti que acordo meu companheiro todo dia para me levar ao ponto de ônibus porque os números de violência sexual contra mulheres no DF são ridículos, e eu morro de medo de andar duas quadras sozinhas às 6h da manhã. Nunca admiti que fico calada de medo de perder o emprego diante do sexismo do meu chefe. Sério, eu milito há um tempão, desde a faculdade, e eu nunca disse nada disso em público. E tanta coisa para dizer, e o parágrafo ficando enorme, e, talvez, alguém tenha parado de ler porque, afinal, um parágrafo enorme de outra mulher reclamando...
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| Alô, alô, todas denunciando! |
A gente não diz nada para não incomodar os opressores, porque a gente não quer ser a moça do vídeo que só reclama, porque a gente foi convencida pela sociedade patriarcal de que se essas coisas acontecem com a gente, de certa forma, a culpa é nossa, e que a gente não aprecia toda a "proteção" que o patriarcado nos dá. Bem-vindas ao mundo em que todos os mimimis são permitidos, menos os seus!
Só para constar, quando o Porta dos Fundos ironizou o comportamento masculino, que não distingue mulher de boneca inflável de companheiro homo, brincou com o estereótipo do homem incapaz de ouvir e perceber, eu me ofendi pelos homens. Pelos da minha vida e pelos que não conheço. Hipérbole e piadas à parte, não achei que representa, nem que faz rir.
5 de abril de 2013
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A querida Valéria Guimarães me mandou um ótimo texto que faz algo parecido, mas, para mim, melhor ainda, porque não só inverte a equação, mas a reformula com a própria premissa. Explico: este discurso de 'dicas de segurança para mulheres' tem um fundamento muito simples, o de que os homens têm um instinto sexual incontrolável. A própria ideia de roupa 'provocante' é sintoma disso: certos tipos de roupa provocam algo que é difícil - ou não pode - ser contido, não é isso?
Aliás, várias outras falácias do machismo são baseadas nesse mito. Ou você já viu alguma pesquisa que prove que os homens têm, de fato, maior desejo sexual que as mulheres? Os homens ficam nessa posição de boçais que, vítimas da própria natureza animalesca, não podem fazer nada contra ela, o que, em última instância, significa que não podem se responsabilizar pelos seus impulsos.
Já deu pra ver onde isso dá, né? Estupro? É culpa da mulher que usou uma saia que fez o cara 'perder a cabeça'. Também nessa premissa se baseia todo aquele discurso que as mulheres são seres sensatos e morais que precisam 'civilizar' os homens. Aquela história de que homem só sossega quando encontra uma mulher séria, sabe? Que o homem 'tomou jeito' depois que conheceu a fulana (= mulher séria).
O texto explora essa premissa - já que homens são trogloditas em potencial, vamos inverter o discurso e limitar a liberdade deles, não a das mulheres. Como não encontrei uma versão em português, fiz uma livre tradução de partes do texto:
Em resposta à alegação de que homens são incapazes de controlar seus impulsos de estuprar mulheres usando roupas curtas, agentes dos diversos órgão de segurança lançaram uma solicitação para que os mesmos utilizem vendas nos olhos quando transitarem em lugares onde possam encontrar mulheres usando decote ou saia curta.
"Há anos ouvimos que os homens não conseguem reagir ao ver uma mulher usando, por exemplo, roupa de ginástica, e que, no entendimento deles, ver as curvas do corpo de uma mulher é um convite ao sexo, quer ela queira ou não", disse um policial. "Se isso é verdade, então não temos escolha. Queremos que as mulheres estejam seguras e, se aparentemente não há maneira de alguns homens controlarem seu comportamento ao se depararem com um decote, então todos os homens terão que cobrir seus olhos ao ir para a academia, frequentar bares ou discotecas ou mesmo ir à praia." [...]
Os homens expressaram preocupação, dizendo que essas medidas podem impedir que alguns deles executem tarefas quotidianas, como ir à escola, trabalhar e participar de eventos sociais.
Em resposta, os líderes religiosos disseram "entender que isso talvez seja um inconveniente para alguns", mas que "essas pequenas dificuldades não são nada quando comparadas ao horror que uma agressão sexual causa à vítima". "Na verdade", disse o líder da organização, "qualquer limitação à liberdade dos homens é melhor que o risco que corremos de alguns deles agredirem alguém. É uma questão de bom senso."
"Sabemos que nem todos os homens são estupradores, e que alguns homens provavelmente são confiáveis para apresentar programas de TV de forma segura", disse o diretor da Televisions Within Borders, um grupo de profissionais que promove o bem-estar dxs apresentadores de TV. "Entretanto, sabemos que alguns homens não são dignos de tal confiança. E por que correr esse risco? Há muitas mulheres qualificadas que podem fazem o mesmo trabalho." [...]
Os que apoiam o movimento alegam que não houve um único caso de abuso sexual de crianças por parte de técnicos de futebol desde que todos os técnicos das equipes de futebol universitário norte-americanos foram substituídas por mulheres, após o escândalo sexual na universidade Penn State no ano passado.
por Roberta Gregoli
Uma maneira muito eficaz de se detectar padrões duplos (o famoso 'dois pesos, duas medidas') é aplicar o padrão em questão ao sexo oposto e, se soar estranho, a injustiça é explicitada. Este post mostra como seria ridículo aplicar os mesmo 'conselhos' dados às mulheres aos homens para evitar agressão sexual.
A querida Valéria Guimarães me mandou um ótimo texto que faz algo parecido, mas, para mim, melhor ainda, porque não só inverte a equação, mas a reformula com a própria premissa. Explico: este discurso de 'dicas de segurança para mulheres' tem um fundamento muito simples, o de que os homens têm um instinto sexual incontrolável. A própria ideia de roupa 'provocante' é sintoma disso: certos tipos de roupa provocam algo que é difícil - ou não pode - ser contido, não é isso?Aliás, várias outras falácias do machismo são baseadas nesse mito. Ou você já viu alguma pesquisa que prove que os homens têm, de fato, maior desejo sexual que as mulheres? Os homens ficam nessa posição de boçais que, vítimas da própria natureza animalesca, não podem fazer nada contra ela, o que, em última instância, significa que não podem se responsabilizar pelos seus impulsos.
Já deu pra ver onde isso dá, né? Estupro? É culpa da mulher que usou uma saia que fez o cara 'perder a cabeça'. Também nessa premissa se baseia todo aquele discurso que as mulheres são seres sensatos e morais que precisam 'civilizar' os homens. Aquela história de que homem só sossega quando encontra uma mulher séria, sabe? Que o homem 'tomou jeito' depois que conheceu a fulana (= mulher séria).
O texto explora essa premissa - já que homens são trogloditas em potencial, vamos inverter o discurso e limitar a liberdade deles, não a das mulheres. Como não encontrei uma versão em português, fiz uma livre tradução de partes do texto:
E se respondêssemos à agressão sexual limitando a liberdade dos homens da mesma forma que limitamos a liberdade das mulheres?
Solicitação para que homens usem vendas ao sair em público
Em resposta à alegação de que homens são incapazes de controlar seus impulsos de estuprar mulheres usando roupas curtas, agentes dos diversos órgão de segurança lançaram uma solicitação para que os mesmos utilizem vendas nos olhos quando transitarem em lugares onde possam encontrar mulheres usando decote ou saia curta."Há anos ouvimos que os homens não conseguem reagir ao ver uma mulher usando, por exemplo, roupa de ginástica, e que, no entendimento deles, ver as curvas do corpo de uma mulher é um convite ao sexo, quer ela queira ou não", disse um policial. "Se isso é verdade, então não temos escolha. Queremos que as mulheres estejam seguras e, se aparentemente não há maneira de alguns homens controlarem seu comportamento ao se depararem com um decote, então todos os homens terão que cobrir seus olhos ao ir para a academia, frequentar bares ou discotecas ou mesmo ir à praia." [...]
Seria sensato deixar homens saírem sozinhos à noite?
Preocupados com os estudos recentes que mostram que, em média, 6% dos homens são perpretadores de agressão sexual durante o curso de suas vidas [...], líderes religiosos locais fizeram um apelo para que pais proíbam seus filhos homens de saírem à noite, a menos que estejam acompanhados da mãe, irmã ou uma amiga de confiança.Os homens expressaram preocupação, dizendo que essas medidas podem impedir que alguns deles executem tarefas quotidianas, como ir à escola, trabalhar e participar de eventos sociais.
Em resposta, os líderes religiosos disseram "entender que isso talvez seja um inconveniente para alguns", mas que "essas pequenas dificuldades não são nada quando comparadas ao horror que uma agressão sexual causa à vítima". "Na verdade", disse o líder da organização, "qualquer limitação à liberdade dos homens é melhor que o risco que corremos de alguns deles agredirem alguém. É uma questão de bom senso."
É hora de admitir que alguns empregos são simplesmente muito perigosos para os homens?
As recentes acusações que Jimmy Savile estuprou centenas de crianças enquanto trabalhava como apresentador de TV para a BBC gerou diversos pedidos da sociedade civil, requisitando que se evite contratar homens para cargos semelhantes.![]() |
| Jimmy Savile |
Os que apoiam o movimento alegam que não houve um único caso de abuso sexual de crianças por parte de técnicos de futebol desde que todos os técnicos das equipes de futebol universitário norte-americanos foram substituídas por mulheres, após o escândalo sexual na universidade Penn State no ano passado.
30 de janeiro de 2013
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O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos.
por Roberta Gregoli
O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos.
Eu nem sou daquelxs que menosprezam o cinema popular brasileiro: muito pelo contrário, sou entusiasta. Admiro seu poder de alcance e seu potencial transgressor, e acho que desdenhar o cinema popular generica e acriticamente é uma das facetas do elitismo tupiniquim.
Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.
Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.
E o pilar sobre o qual De pernas para o ar 2 se sustenta é o mais fundamental e caro ao patriarcado: a divisão sexual do trabalho. Alice (Ingrid Guimarães) é uma workaholic inveterada que se desdobra para manter casa, filho e casamento. O enredo do filme gira em torno dos malabarismos de Alice para "dar conta" (como dito repetidas vezes ao longo do filme) de suas responsabilidades, à custa de sua saúde e bem-estar.
Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.
Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.
A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?
Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.
E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo
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| É raro no cinema um quadro composto somente por mulheres, ainda mais em posição de poder |
Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.
Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.
A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?
Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo
Mas numa coisa o filme acerta: quando questionada como dá conta, a mulher maravilha Vitória é rápida em responder que "é fácil, querida, eu não tenho marido". Ter um cônjuge masculino em casa representa um aumento de 2 horas de trabalho por semana para as mulheres.
Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.
Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.
Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.
Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.
16 de janeiro de 2013
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E chegou o momento mágico do Natal! Nas últimas semanas, Mattel e companhia concentraram seus esforços no bombardeamento de pais e crianças com lançamentos como... a "Barbie Professora do Jardim de Infância" (sim, sim). Ora, como a Roberta comentou esta semana, ao oferecermos às crianças brinquedos que não reforcem os velhos estereótipos de gênero (carrinho para menino, boneca para menina, e só), não apenas ajudamos a criar adultos menos sexistas, como incentivamos essas crianças a desenvolverem novas habilidades. Com isso, proporcionamo-lhes outras possibilidades de identificação que podem contribuir, mais tarde, para combater a divisão sexual do trabalho e das profissões. Não basta que cada criança possa ser o que quiser quando crescer, é preciso ensinar às meninas que também é legal querer ser engenheira e cientista.
por Barbara Falleiros
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| Barbie professora e sua aluninha |
Assisti esses dias a um vídeo publicitário de um brinquedo chamado GoldieBlox, um jogo de construção desenvolvido por uma engenheira de Stanford que, surpresa com a quantidade ínfima de mulheres na sua turma, decidiu fundar uma companhia de brinquedos para encorajar as meninas a se interessarem por engenharia. Para ela, não era suficiente pintar um jogo de construção de cor-de-rosa (como fazem muitas marcas de brinquedo). Suas pesquisas mostraram que meninas tendiam a gostar mais de ler, por isso ela associou o jogo de construção a uma série de livros.
Incentivar as mulheres a seguirem carreiras científicas... Muitos dos que acompanham as Subvertidas devem se lembrar de um vídeo produzido pela União Europeia com esta finalidade. Caricatura grotesca e sexista da "mulher cientista", o vídeo mostrava mulheres fatais em salto agulha, num fundo rosa, alternando instrumentos de laboratório e maquiagem.
Em resposta, a European Science Foundation lançou um concurso de vídeos: Science, it's your thing. O vídeo vencedor mostra como, em razão da presença massiva de homens nas áreas científicas (nota: há apenas 14% de mulheres na presidência das universidades europeias), as pesquisas acabam seguindo involuntariamente (ou não...) uma perspectiva masculina. É assim que os manequins de crash-test são baseados em corpos masculinos, os cintos de segurança dos carros não são adaptados para grávidas, 4/5 dos medicamentos retirados da venda num determinado período, nos Estados Unidos, traziam mais risco para a saúde das mulheres do que para a dos homens, que a compreensão da dor vem de estudos feitos unicamente em ratos machos... E se as mulheres não conseguem conquistar seu lugar na ciência, não é por falta de capacidade: estatísticas comprovam que sua presença em empresas e laboratórios aumenta a produtividade, a performance e o número de patentes registradas.
Já num registro cômico, jovens pesquisadoras britânicas realizaram uma paródia do vídeo da União Europeia. O contraste entre o ambiente real de trabalho (um verdadeiro laboratório) e a caricatura da cientista sexy mostra o quão ridícula e absurda é a imagem veiculada pelo vídeo oficial. E as cientistas tiveram a ótima ideia de convidar seus colegas homens para aparecerem dançando, como elas, de forma sexy/constrangedora. É quando o ridículo, exposto pelo padrão duplo, atinge seu máximo... Divirtam-se!
23 de dezembro de 2012
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No humor, sempre se está escolhendo um lado: ou se ri da vítima ou do algoz.
E, quando se ri da vítima, não interessa se quem está rindo é a própria vítima ou o carrasco. Assim como no caso do humor machista de Fernanda Young, as piadas racistas de Danilo Gentili não seriam menos graves ou mais aceitáveis se fossem feitas por um negro.
É claro que existem piadas e piadas. Uma piada sobre minorias feitas por representantes dessa minoria não é, necessariamente, preconceituosa. Ela pode ser autocrítica, empoderadora, subversora. Um exemplo sobre o mesmo tópico, a sexualidade feminina, é o da Margaret Cho, com uma piada mais ou menos assim (vocês podem ver a versão original aqui):
Diferente de Young, que, querendo afirmar seu gosto sexual acaba por justificar a violência de gênero, Cho afirma as mulheres como sexualmente ativas de uma maneira totalmente subversora, sobretudo por desafiar não somente a heteronormatividade como também o paradigma que divide a sexualidade feminina (e, por que não, humana) entre hétero e homossexual.
por Roberta Gregoli
Essa semana ouvi mais de uma vez afirmações muito parecidas: piada de gordo feita por gordo não tem problema, piada de gordo feita por magro, sim. Por extensão, o mesmo se aplicaria a piadas que têm como alvo minorias étnicas e históricas (negrxs, judeus, mulheres).
Resolvi testar essa tese com este vídeo da Fernanda Young, que ironiza a Marcha das Vadias:
O fato da Fernanda Young ser mulher legitima a piada ou a faz mais engraçada? Se fosse um homem, reclamaríamos, mas por ser mulher tudo bem, certo? Errado. A 'piada' ter sido feita por uma mulher, para mim, faz do quadro ainda mais triste. Por que alguém gozaria do próprio grupo, minando a legitimidade de uma forma de protesto?
Nesse caso específico, acho que existe um forte elemento de classe embutido na 'piada' de Young. É possível que ela brinque que quer ser encoxada no ônibus simplesmente porque ela não tem de pegar ônibus. É nessas horas que eu admiro a lucidez da Presidenta Dilma Rousseff quando diz que é mais difícil ser uma mulher comum do que presidenta da República porque a mulher do povo sofre mais violência e desigualdade salarial. Ou seja, é fácil para a Fernanda Young - que está com a barriga cheia, não sofre violência doméstica ou assédio de rua, reduzir a Marcha das Vadias a uma demanda por sexo caliente. É possível ter fantasias eróticas que envolvam violência física quando não se é vítima de violência de fato, quando se está empoderada o suficiente, no caso, com um emprego de reconhecimento financeiro e social. É fácil rir do assédio no transporte público quando se está dirigindo carro com o vidro fechado e insulfilm.
Enfim, como diria a sabedoria popular, pimenta nos olhos dos outros é refresco. Rir do ardume, então, é sadismo. Mas se, por um lado, em relação à classe social, Young está rindo da tragédia dos outros, por outro está rindo da própria miséria porque, apesar desse tipo de violência não fazer parte de seu cotidiano, ela, como mulher, também está sujeita a ser assediada, agredida, estuprada. Vai que o carro dela quebra.
Sobre humor e subversão, a melhor epítome que já vi está no essencial documentário O Riso dos Outros: "O humor que mais gosto é o que não ri da vítima, mas do carrasco". Veja aqui a partir da marca 43'35'' - mas vale a pena ver o documentário todo:
No humor, sempre se está escolhendo um lado: ou se ri da vítima ou do algoz.
E, quando se ri da vítima, não interessa se quem está rindo é a própria vítima ou o carrasco. Assim como no caso do humor machista de Fernanda Young, as piadas racistas de Danilo Gentili não seriam menos graves ou mais aceitáveis se fossem feitas por um negro.
É claro que existem piadas e piadas. Uma piada sobre minorias feitas por representantes dessa minoria não é, necessariamente, preconceituosa. Ela pode ser autocrítica, empoderadora, subversora. Um exemplo sobre o mesmo tópico, a sexualidade feminina, é o da Margaret Cho, com uma piada mais ou menos assim (vocês podem ver a versão original aqui):
Um de meus primeiros empregos como comediante stand-up foi num cruzeiro lésbico. No barco, eu transei com uma mulher pela primeira vez. Daí veio todo o drama, será que sou gaaaay, sou héeetero? Então me toquei que só sou safada [I'm just slutty]. Cadê a minha parada? E o orgulho de ser vadia [slut pride]?
Diferente de Young, que, querendo afirmar seu gosto sexual acaba por justificar a violência de gênero, Cho afirma as mulheres como sexualmente ativas de uma maneira totalmente subversora, sobretudo por desafiar não somente a heteronormatividade como também o paradigma que divide a sexualidade feminina (e, por que não, humana) entre hétero e homossexual.
Interessante também o fato do show ser de 2000, ou seja, Cho antecipa a existência de uma marcha das vadias (em inglês, chamada Slut Walk) em mais de uma década, ainda que a Marcha das Vadias tenha reivindicações para além da liberdade sexual feminina, envolvendo questões como violência e ocupação do espaço público. Taí, então, um bom exemplo de humor inteligente, subversivo e pioneiro.
O humor que goza do carrasco, ou seja, desafiador do status quo e do senso comum preconceituoso é claramente mais complexo, exige mais esforço e sutileza. Existem também as piadas auto-depreciativas e sardônicas, que, quando feitas de maneira inteligente podem ser interessantes, mas a linha entre o reforço da opressão e o rir de si mesmo de maneira saudável é bastante tênue, ainda mais quando o assunto são minorias.
O humor que ri da vítima, como O Riso dos Outros defende, é o humor que gera o riso fácil porque reflete preconceitos e estereótipos já consolidados. É o humor que vomita de volta para a sociedade o que ela tem de pior. E, apesar dos comediantes toscos se sentirem lesados na sua liberdade de expressão (como se esse fosse um direito só deles), o nível de tolerância com esse tipo de humor é grande numa sociedade em que a educação ainda é largamente acrítica (ou simplesmente de má qualidade) e a grande mídia emburrece.
Como pode atestar qualquer mulher que tenha um mínimo de consciência e já tenha sido encoxada num ônibus, a piada da Young não é inofensiva. Ao naturalizar esse tipo de comportamento dizendo que isso é normal (pior, que é o que as mulheres querem), Young está participando na legitimação desse tipo de violência. Legitimando de maneira particularmente contundente e nociva porque, como mulher, ela supostamente teria maior autoridade para dizer "o que as mulheres querem".
Em resumo: uma piada nunca é inofensiva e sempre se está escolhendo um lado. A diferença entre o carrasco que ri da vítima e a vítima que faz piada sobre a própria condição é que, no segundo caso, o humor, além de perverso, é masoquista.
16 de dezembro de 2012
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9
Curti os comentários de um dos meus textos anteriores, sobre humor e escatologia. Talvez meu ponto principal não tenha ficado muito claro: não que eu ache que "falar merda" seja intrinsicamente bom, mas que precisamos de mais mulheres falando merda. Em outras palavras, argumentei contra um moralismo que obrigada as mulheres a se conformarem a estereótipos de delicadeza, timidez e contenção.
Em geral, a divisão entre o que é 'apropriado' falar na intimidade e publicamente não é só pessoal mas também cultural, e pode ser bastante repressora, principalmente para as mulheres. Basta ver aqui o depoimento da Dani Calabresa sobre mulheres fazendo comédia. Ela diz:
Aliás, o vídeo do qual este depoimento foi tirado me chocou tanto que resolvi analisá-lo em detalhe. Veja na íntegra:
Curti os comentários de um dos meus textos anteriores, sobre humor e escatologia. Talvez meu ponto principal não tenha ficado muito claro: não que eu ache que "falar merda" seja intrinsicamente bom, mas que precisamos de mais mulheres falando merda. Em outras palavras, argumentei contra um moralismo que obrigada as mulheres a se conformarem a estereótipos de delicadeza, timidez e contenção.
Em geral, a divisão entre o que é 'apropriado' falar na intimidade e publicamente não é só pessoal mas também cultural, e pode ser bastante repressora, principalmente para as mulheres. Basta ver aqui o depoimento da Dani Calabresa sobre mulheres fazendo comédia. Ela diz:
Eu acho que a sociedade permite que os homens sejam loucos e engraçados desde sempre. Então é bonito um menino falar palavrão, é bonito um menino arrotar, soltar pum. A menina que faz isso é louca. A mulher tem medo de se expor ao ridículo. Eu sempre fui mais moleca, eu era gorda, louca, queria fazer os outros rir. Para mim era normal, mas a mulherada quer passar maquiagem, quer ficar bonita. Hoje eu sou mais vaidosa do que há muito tempo atrás. Na TV as pessoas me produzem, gente, me penteiam, eu não sabia fazer nada disso.
Aliás, o vídeo do qual este depoimento foi tirado me chocou tanto que resolvi analisá-lo em detalhe. Veja na íntegra:
0m01s
Dani Calabresa é apresentada como pizza nos seguintes termos: "O motoboy já entregou a nossa pizza?" Justo, podem dizer, já que esse é o nome artístico dela. Mas será que a mesma piada se aplicaria a um comediante homem chamado, sei lá, João Melancia? "O fruteiro já entregou nossa melancia?" Me cheira a padrão duplo.
1m
A segunda piada machista é do desagradabilíssimo Marcelo Mansfield, sobre as vezes em que "comeu calabresa". Duas piadas machistas em menos de 1 minuto e meio.
1m23s
Eu AMO quando ela responde no mesmo nível e diz que não faz "nenhum personagem tão bem como o Mansfield se faz de homem... Quase engana". Vale a pena ver o vídeo só por esse fora e pela expressão no rosto dele.
2m33s
Danilo Gentili, já citado aqui por sua piada racista, insinua que ela dormiu com alguém da MTV para manter o emprego. Ela não se submete e responde de novo à altura e com convicção, entrando na brincadeira e, por consequência, ridicularizando a fala dele.
3m23s
Ela desafia Mansfield de novo, esfregando o currículo na virilha. Referências a vagina são sempre tabu e achei ótimo ela usá-la contra o misógino de plantão.
5m20s
A câmera dá um close up longo nas pernas dela. Alguma dúvida de que isso nunca aconteceria com um humorista homem?
5m30s
Referência a quando a humorista era "gordinha". Sem comentários.
7m08s
Mansfield faz uma piada inteligentíssima #not sobre a "dicção" dela, subentende-se voz aguda, ou seja, de mulher. Ela, como sempre, responde na lata: "Você tem que ligar o aparelho auditivo". Muito menos criativo e perspicaz, Mansfield responde "haha, como você é engraçada, Dani". Coitado.
7m33s
Danilo Gentili pergunta se a Playboy nunca a procurou. Claro, porque mulher não pode só ter talento, tem que "mostrar o talento" na mente mesquinha dele.
7m55s
A partir desse momento a questão do gênero relacionada ao humor entrar em cena aberta e diretamente e Gentili diz que Dani é a melhor humorista mulher do Brasil.
8m11s
Mansfield mina a afirmação de Gentili, dizendo um "é" irônico. De novo, ela responde rápida e certeira: "Quer meu posto, né?" Ele responde dizendo que não é tão masculino. Ahn? O assunto não era a melhor humorista mulher? Melhor dar a ela o título de melhor humorista, ponto. Os dois homens humoristas desse programa, pelo menos, ficam léguas na retaguarda em comparação à rapidez, ousadia e inteligência dela.
8m30s
Gentili pergunta por que não há tantas mulheres humoristas no Brasil e Dani Calabresa dá o depoimento transcrito acima.
9m25s
Mansfield insinua que ela não é talentosa, por isso precisa se maquiar. Mais uma piada machista, sem contar o bullying.
9m32s
Gentili pergunta se foi o casamento que a deixou mais vaidosa e ela, para mim infelizmente, diz que sim.
10m27s
Mais uma piada abertamente machista: Gentili diz que amarrou uma vassoura no microfone para ela fazer stand-up. Inaceitável.
11m22s
Gentili insinua que ela se prostituiu para ganhar a vida. Inaceitável e tosco.
13m20s
Gentili pergunta quando ela terá um bebê. Por que as pessoas se sentem no direito de tal invasão da privacidade alheia quando se trata de ter filhos? E alguém imagina a mesma pergunta sendo feita a um homem na mesma situação? #padrãoduplo
13m30s
Roger, da banda, passa uma cantada. Pessoas, se liguem: cantada não é elogio, é desrespeito. Ela reage, deixando o cantador sem graça #yes
Em menos de 21 minutos, uma artista consagrada tem que passar por:
E ainda perguntam por que não há mais mulheres comediantes no Brasil.
14m12s
Gentili diz que, na época (quando ela era gorda, entende-se), a única maneira de dar no couro para ela era "entrar no coro". Inaceitável.16m17s
Márcio Ribeiro, outro comediante convidado, a assedia sexualmente, no que é, para mim, o momento mais chocante do programa. Passar a mão na perna de maneira indesejada é assédio sexual. E fica claro pela expressão e reação dela que a ação é indesejada e não consensual.18m32s
Ela faz piada sobre o pênis do marido, sinalizando a própria vida sexual. "É como andar de banana boat todo o dia!" Como é bom ter mulheres fazendo piadas sobre sexo de maneira não leviana.Contagem final
Em menos de 21 minutos, uma artista consagrada tem que passar por:
- 11 piadas machistas
- 7 ocorrências de bullying
- 1 take voyeurístico do seu corpo
- 1 ocorrência de assédio sexual
E ainda perguntam por que não há mais mulheres comediantes no Brasil.
28 de novembro de 2012
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mídia,
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Roberta
11
Gosto muito de comédia stand-up. Como toda a forma de comédia, estão presentes comentários políticos, sociais e culturais, mas no stand-up, diferente de filmes e esquetes, esses comentários são feitos de maneira totalmente direta e imediata.
Há quem não goste, mas eu adoro esse filme. Primeiro porque a comédia é um campo majoritariamente masculino e um filme escrito por uma mulher e estrelado só por mulheres é uma raridade. Segundo porque não acho o filme clichê, muito pelo contrário. A cena acima, que infelizmente está cortada neste clip, termina com a noiva se aliviando na rua, usando o vestido de noiva. Um belo comentário sobre a instituição do casamento. E o enredo em torno da rivalidade entre as madrinhas de casamento termina em solidariedade feminina, o que é raro em Hollywood justamente pelo potencial subversivo que isso guarda.
por Roberta Gregoli
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| Adoro peidar |
Gosto muito de comédia stand-up. Como toda a forma de comédia, estão presentes comentários políticos, sociais e culturais, mas no stand-up, diferente de filmes e esquetes, esses comentários são feitos de maneira totalmente direta e imediata.
O problema é a ideologia que está por trás dos comentários. A Má já falou sobre comédia stand-up e concordo: muito do que tenho visto no Brasil é de virar o estômago, humor reacionário em seu estado mais puro. Reflexo de uma mentalidade reacionária (mas o Serra perdeu a eleição e talvez assinou o óbito de sua carreira política, o que significa que ainda há esperança!).
Já defendi que não existe humor inofensivo, mas isso não significa que comédia só possa ser usada para banalizar e naturalizar preconceitos e discursos de ódio.
| Margaret Cho e fã alucinada |
Ontem fui a um show de comédia stand-up da coreana-americana Margaret Cho, em Londres. Como conheço a maioria dos seus shows, sei que ela tem a boca suja, mas ontem estava particularmente suja. E achei ótimo. Precisamos de mais mulheres falando de assuntos ainda hoje tidos como tabu: menstruação, menopausa, masturbação e sexo, muito sexo. Enquanto santa e puta forem categorias mutuamente excludentes, precisamos de mulheres fazendo piada sobre a própria vida sexual, sobre boquete, sexo anal; enquanto houver a ideia de orientação sexual como algo rígido, com a heterossexualidade como norma, precisamos de mulheres falando sobre sexo com homens e com mulheres.
Precisamos também de mulheres falando sobre o aborto. E aqui alguns podem se chocar. Mas ora, se piada de estupro é "só brincadeirinha", por que de aborto não pode? #padrãoduplo
A Sarah Silverman é outra comediante norte-americana, também de minoria étnica (judia) e gerou polêmica com este post no Twitter, em abril deste ano:
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Ela escreveu e eu traduzo: fui ali fazer um aborto rápido caso a lei seja revogada ("R v W" é uma referência ao caso Roe contra Wade, que levou à descriminalização do aborto em âmbito nacional, em 1973).
Sob protestos indignados dos conservadores, talvez principalmente por isso, o comentário é sensacional pois enfatiza o perigo iminente de se perder um direito conquistado pelas mulheres norte-americanas há quase 4 décadas. A graça da piada é que Silverman nem estava grávida, ela disse depois que só estava inchada por ter comido um burrito.
Sob protestos indignados dos conservadores, talvez principalmente por isso, o comentário é sensacional pois enfatiza o perigo iminente de se perder um direito conquistado pelas mulheres norte-americanas há quase 4 décadas. A graça da piada é que Silverman nem estava grávida, ela disse depois que só estava inchada por ter comido um burrito.
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| Meninas passam bilhetes, meninos 'passam' gases |
Precisamos também de mulheres falando sobre temas escatológicos, o chamado 'humor de banheiro'. E a Margaret Cho é ótima nisso, ela fala sobre mijar nas calças, cagar nas calças, peidar. Independente de achar graça nesse tipo de humor ou não, acho importante que piadas assim estejam sendo feitas por mulheres. Porque homens falam abertamente sobre todas essas coisas, fazem piadas, enquanto nós somos educadas para, na melhor das hipóteses, usar eufemismos. E mais do que falar, nós precisamos rir dessas experiências porque o riso naturaliza. E não há nada mais natural do que nossas necessidades fisiológicas. É como se a nossa própria experiência corpórea em seu nível mais concreto nos fosse negada. Ou pelo menos nos fosse negado falar sobre ela, que é a mesma coisa.
Ainda sobre mulheres e escatologia, me lembro que ano passado houve uma cena do filme Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011) que foi particularmente criticada:
Há quem não goste, mas eu adoro esse filme. Primeiro porque a comédia é um campo majoritariamente masculino e um filme escrito por uma mulher e estrelado só por mulheres é uma raridade. Segundo porque não acho o filme clichê, muito pelo contrário. A cena acima, que infelizmente está cortada neste clip, termina com a noiva se aliviando na rua, usando o vestido de noiva. Um belo comentário sobre a instituição do casamento. E o enredo em torno da rivalidade entre as madrinhas de casamento termina em solidariedade feminina, o que é raro em Hollywood justamente pelo potencial subversivo que isso guarda.
Ando pensando muito nas comediantes mulheres no Brasil, mas acho que esse é assunto para um outro post, mesmo porque ainda não consegui chegar a nenhuma conclusão clara. O maravilhoso humor desbocado da Dercy Gonçalves é certamente transgressor, mas não sei o suficiente sobre a nova geração... Talvez a Ingrid Guimarães e a Heloísa Périssé se aproximem mais desse tipo de humor subversivo com relação ao papel da mulher. Comentários?
31 de outubro de 2012
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3
por Barbara Falleiros
... A violência do sexismo ordinário numa manhã de segunda-feira. Contei isso no meu mural do Facebook. Alguns ficaram chocados, sensíveis à agressividade da cena. Outros riram. Outros botaram na conta do tão famoso mau humor parisiense. Perguntaram-me o que as mulheres responderam. Não é difícil adivinhar: balbuciaram uma resposta, ficaram sem jeito e finalmente se calaram. O homem conseguiu o que queria.
"Solteira, mas chique". Quanto sentido se esconde atrás de uma mera conjunção adversativa! Celibato e elegância, dois termos inconciliáveis que se unem por intermédio da Kookaï. O que diz a marca é que ela é capaz de conferir algum valor a uma pobre mulher incapaz de seduzir e manter um homem ao seu lado. Vestindo Kookaï e sem descer do salto, esta mulher troca sozinha o pneu do carro, já que não tem um homem que o faça por ela. Viva a independência! A marca tenta dar uma outra nuance à propaganda traduzindo "single" por "sozinha no mundo". Não convenceu. Aliás, não dá pra saber o que é pior.

SEXTA-FEIRA
No ônibus lotado, cheio de idosos, um lugar fica vago. Um homem de uns 50 anos, com uma das mãos enfaixada, oferece o lugar para uma garota adolescente. Ela recusa. Ele insiste. Ela recusa novamente. Ele se senta e diz sorrindo: "Bom, se hoje em dia as mulheres não querem se sentar, sento eu!" Um homem educado, não é? Na verdade, não. Mesmo que ele tivesse as melhores das intenções, ao insistir para que a garota se sentasse, este homem estava assumindo que toda mulher é fraca, mais fraca que um homem, mais fraca que um homem mais velho e machucado...
DOMINGO
Comentando com uma amiga o nome curioso de um conhecido: "Ah, era um personagem de livro!" - digo. "Nossa, o pai dele devia gostar de ler!" - ela responde. O pai... E por que não a mãe? Por que é o pai quem dá a palavra final com relação ao nome do filho? Por que se alguém na família tem um nível cultural elevado, é mais provável que seja o pai?
por Barbara Falleiros
Même la guerre est quotidienne.
Marguerite Duras
Perdõem-me o teor egocêntrico desta introdução. Mas quando meus textos começaram a aparecer aqui no Subvertidas, todo mundo achou assim... meio esquisito. É que, embora eu tenha estudado um pouco sobre a vida das mulheres na Idade Média, nunca tinha levantado bandeiras. Ninguém diria de mim com convicção: "Ah, aquela lá é uma feminista!" Certamente pela palavra carregar consigo um estigma muito grande. O fato é que conheço pouco da teoria feminista. Porém, como qualquer mulher, tenho minhas histórias de horror pra contar, guardo na memória a imagem enevoada do medo. Como toda mulher, enfrento as pequenas violências cotidianas, as piadinhas que parecem inocentes, os abusos verbais travestidos de cantadas, o dilema da família versus carreira, o acúmulo de responsabilidades, as pressões com relação ao corpo, à idade, à maternidade, aos cabelos brancos que já insisto em esconder...
Desde que comecei a escrever aqui, passei a observar com mais atenção esses detalhes cotidianos. No post de hoje reproduzo algumas notas sobre o que vi e ouvi nos últimos dias.
QUINTA-FEIRA
Acompanho por alto um grupo do Facebook que tentou organizar - sem sucesso - um debate com a Führerin do Femen Brazil, Sara Winter. Como não houve diálogo e o Femen Br perdeu sozinho toda a credibilidade, o tal grupo do Facebook mudou de rumo e passou a debochar da Sara, ao mesmo tempo em que tentava promover discussões feministas. O volume de mensagens é grande mas, se entendi bem, a Sara estava se fazendo de morta para evitar as perguntas quando alguém teve a ideia da seguinte "piadinha", com base na imagem, ao lado, do best-seller Onde está Wally? A resposta, que vinha em seguida, era esta:
E o pessoal achou graça. As semanas passaram e é como se nada tivesse restado da polêmica em torno do comercial do homem invisível, da Nova Schin. No entanto, os elementos da imagem são os mesmos: na praia, uma mulher é importunada por um jovem e, num sobressalto, acaba mostrando os seios; os dois homens que se viram para olhar a cena estão sorrindo, enquanto outras duas mulheres exibem uma expressão de espanto. Assim, esse livro que é um clássico da nossa infância mostra que submeter uma mulher a uma situação vergonhosa é engraçado (para os homens). E o pessoal riu... dentro de um grupo feminista, o pessoal riu. Como se não bastasse, a própria ideia da "piadinha" ridiculariza não só o sumiço, mas também a nudez de Sara nos protestos. Surpresa! Exatamente como a propaganda do Fiat Punto.
SEGUNDA-FEIRA
No trem. Duas mulheres adultas conversam ao lado de um homem de uns quarenta anos, vestindo terno e gravata. Ele interrompe uma delas: "Com licença, senhora, posso fazer uma pergunta?" A mulher, surpresa, responde com educação: "Sim, claro, senhor!" E ele continua: "Vocês estão na menopausa? Por que não ficam quietas?"
... A violência do sexismo ordinário numa manhã de segunda-feira. Contei isso no meu mural do Facebook. Alguns ficaram chocados, sensíveis à agressividade da cena. Outros riram. Outros botaram na conta do tão famoso mau humor parisiense. Perguntaram-me o que as mulheres responderam. Não é difícil adivinhar: balbuciaram uma resposta, ficaram sem jeito e finalmente se calaram. O homem conseguiu o que queria.
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| Alguém acha graça? |
Sinto muito, mas não tem graça. Tampouco é um caso de mau humor. O que este homem disse não é o fruto de uma reação individual de exasperação provocada por um estado particular de espírito, é a reprodução de um discurso arraigado sobre a relação das mulheres com a palavra. "Pleurer, parler, filer, femmes l'ont de nature", disse no século XIV o cronista Gilles Li Muisis, amigo de Dante: "É da natureza feminina chorar, falar e fiar". A mulher é tradicionalmente associada à esfera da sensibilidade, enquanto o homem é colocado do lado da racionalidade. E somos educados para isso. Meninos não choram, certo? Qual a porcentagem de homens num curso de literatura e de mulheres num curso de engenharia? A mulher sente e fala, o homem reprime e pensa. É por isso que este homem do metrô se considera no direito de repreender duas pessoas desconhecidas em um local público, simplesmente porque ele é o homem (sério, detentor da autoridade) e elas são as mulheres (desequilibradas, falam demais).
"A mulher louca é alvoroçadora, é simples e nada sabe", lemos nos Provérbios 9:13, enquanto que "A mulher sábia se mantém calada", lembra o Bispo Edir Macedo. Afirmar que a mulher fala demais é o mesmo que dizer que sua palavra não tem nenhum valor.
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| Isto não é uma piada, é uma estratégia de desvalorização da palavra feminina |
QUARTA-FEIRA
Nos corredores do metrô, passo por dois cartazes publicitários de uma marca de roupas.
"Solteira, mas chique". Quanto sentido se esconde atrás de uma mera conjunção adversativa! Celibato e elegância, dois termos inconciliáveis que se unem por intermédio da Kookaï. O que diz a marca é que ela é capaz de conferir algum valor a uma pobre mulher incapaz de seduzir e manter um homem ao seu lado. Vestindo Kookaï e sem descer do salto, esta mulher troca sozinha o pneu do carro, já que não tem um homem que o faça por ela. Viva a independência! A marca tenta dar uma outra nuance à propaganda traduzindo "single" por "sozinha no mundo". Não convenceu. Aliás, não dá pra saber o que é pior.
"Esfomeada, mas chique". Uma geladeira cheia de salada, um iogurte na mão, do tipo desses "iogurte de mulher" com 0% de gordura e de açúcar. Apologia a um padrão de beleza magro e incentivo à anorexia, assim, abertamente. Os que conceberam esta propaganda devem ter se sentido muito orgulhos de criar um conceito "provocante", reprodução tão original do discurso dominante...

SEXTA-FEIRA
No ônibus lotado, cheio de idosos, um lugar fica vago. Um homem de uns 50 anos, com uma das mãos enfaixada, oferece o lugar para uma garota adolescente. Ela recusa. Ele insiste. Ela recusa novamente. Ele se senta e diz sorrindo: "Bom, se hoje em dia as mulheres não querem se sentar, sento eu!" Um homem educado, não é? Na verdade, não. Mesmo que ele tivesse as melhores das intenções, ao insistir para que a garota se sentasse, este homem estava assumindo que toda mulher é fraca, mais fraca que um homem, mais fraca que um homem mais velho e machucado...
DOMINGO
Comentando com uma amiga o nome curioso de um conhecido: "Ah, era um personagem de livro!" - digo. "Nossa, o pai dele devia gostar de ler!" - ela responde. O pai... E por que não a mãe? Por que é o pai quem dá a palavra final com relação ao nome do filho? Por que se alguém na família tem um nível cultural elevado, é mais provável que seja o pai?
Pois esta foi a minha semana.
Aqueles que estão tão bem acomodados a uma configuração social injusta lançarão mão de todas as estratégias de silenciamento, velhas como o mundo, e dirão mais uma vez que tudo isso é um grande exagero. Que é mania de perseguição, que é falta de senso de humor, que eu estou maluca, que não sei levar na brincadeira, que a gente é tudo um bando de drama queen, que é mal amada, que tem inveja porque é feia, que é burra e não entendeu, que bem-feito-quem-mandou-ser-desse-jeito, que não sabe fechar a matraca, que agora só falta chorar...
A força do machismo está no acúmulo de pequenas coisas. Um acontecimento isolado é um detalhe, um conjunto de pequenas coisas "sem importância" constitui um sistema de veiculação de ideias e valores que servem a uma determinada configuração do poder.
A realidade esta aí, toda, inteira. Basta ver e ouvir.
23 de setembro de 2012
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3
por Mazu
Mas, no caso da piada do trombadinha é um pouco mais grave. Acho que demonstra certo conformismo - aquilo do que se ri, uma criança assaltando alguém, assim como a mulher que apanha, ou os políticos corruptos, é parte da nossa vida. E, aparentemente, a gente está de boa com isso. A gente faz piada e ri para não chorar, sei lá.
Acho que causaria desconforto né? Eu espero. Mas e se fosse na terceira pessoa, imagina uns dos Rafas Bestas da vida dizendo:
por Mazu
Eu pessoalmente não gosto de stand-up, com preconceito ou sem, com pimenta ou com sal, não gosto. É pessoal. Contudo, divido minha vida com alguém que gosta e acabei assistindo um desses shows na TV. A gente já falou muito de humor aqui mesmo assim, fiquei pensando numa outra coisa. O que significa transformar coisa grave que acontece no cotidiano em piada? Tipo política, problema social, discriminação e preconceito, como isso tudo vira piada?
No caso em especial, o humorista encenava um trombadinha assaltando em inglês no Rio, isso porque as Olimpíadas estão chegando e todo mundo lá está aprendendo pelo menos um pouquinho do idioma para receber os turistas. Ele dizia como uma voz que imitava a de uma criança: gimme your wallet, you lose, playboy. E a platéia morria de rir.
O riso pode ser uma espécie de catarse, segundo alguns especialistas, alguma coisa incomoda e aí alguém fala e demonstra que sente também e o riso vem, meio que de alívio, tipo no caso da pergunta da Tia feita pela adolescente no Programa Livre. E aí, você pode usar a piada para dizer o que você sente e expressar realmente sua visão sobre alguém, tipo na parte em que o mentiroso diz o que ele acha realmente do seu chefe.
Mas, no caso da piada do trombadinha é um pouco mais grave. Acho que demonstra certo conformismo - aquilo do que se ri, uma criança assaltando alguém, assim como a mulher que apanha, ou os políticos corruptos, é parte da nossa vida. E, aparentemente, a gente está de boa com isso. A gente faz piada e ri para não chorar, sei lá.
Aí, eu tive uma ideia meio Loyola Brandão de criar uma stand-up ao contrário, imagina só uma mulher espancada fazendo piada sobre a vida, ou uma criança agredida e abandonada ou um paciente terminal de câncer:
Oi, sou fulana. Uma coisa que vocês devem saber a meu respeito é que eu apanho todo dia do meu marido. O pior dia é segunda, agora eu gosto mesmo é de quarta, porque é dia de futebol e ele se esquece de mim.
Acho que causaria desconforto né? Eu espero. Mas e se fosse na terceira pessoa, imagina uns dos Rafas Bestas da vida dizendo:
Mulher de malandro gosta mesmo é de quarta-feira, que quarta tem futebol e aí ela não apanha.
Acho que é isso a chave para o riso, não é com você, não é de verdade, aí pode rir. Mas olha, se para haver riso precisa haver identificação (por isso que dominar outro idioma não significa entender piadas de outras culturas), se a gente ri, a gente se identifica.
Eu já fui assaltada por uma criança no Braz em São Paulo, foi uma das coisas mais tristes que me aconteceu. Já me passaram a mão no metrô, que também foi uma das piores coisas que me aconteceu. Eu queria mesmo que falar isso sério não causasse desconforto e sim debate, ação e mudança! E que falar disso brincando não fosse essa catarse besta, fosse só o que é mesmo, piada ruim, sem graça.
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| Ele é um comediante brilhante no quesito não fazer rir |
27 de agosto de 2012
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preconceito
0
Esse foi só um exemplo dentre vários que poderia citar. Você pode fazer outros testes também: veja o número de mulheres que trabalha na sua empresa e os cargos elas ocupam; compare o número de mulheres na sua sala de aula com o número de professoras (cursos de Letras são ótimos para isso, porque em geral a classe é majoritariamente feminina e a porcentagem muda completamente quando você olha para o quadro de professores e para os cargos mais elevados de chefia do departamento); preste atenção nas atitudes sutis do dia-a-dia, desde as cantadas desrespeitosas - que na maioria das vezes são "só de brincadeirinha" - até ser ignorada ou ridicularizada simplesmente por ter uma opinião e expressá-la.**
por Roberta Gregoli
Num post anterior descrevi como mesmo as mais bem-intencionadas das feministas acabam caindo nas armadilhas sutis do sexismo. Também argumentei que não devemos nunca culpar as mulheres porque o machismo está em todo lugar e fomos criadas com ele, não raras as vezes até mesmo dentro de nossas famílias. O nome carinhoso que eu dou para isso é lavagem cerebral cultural. E é preciso muita reflexão e paciência nessas horas - com nós mesmas e com o próximo.
Deve ter uma parcela de leitor@s que lê esse primeiro parágrafo e pensa: aí, mania de perseguição. Eu sou tão descolad@, tod@s @s meus amig@s são descolad@s, minha família é prafrentex, eu não fui criad@ assim porque essa de machismo não rola no meu meio.
Mas você vai ao cinema, certo?
Num post anterior descrevi como mesmo as mais bem-intencionadas das feministas acabam caindo nas armadilhas sutis do sexismo. Também argumentei que não devemos nunca culpar as mulheres porque o machismo está em todo lugar e fomos criadas com ele, não raras as vezes até mesmo dentro de nossas famílias. O nome carinhoso que eu dou para isso é lavagem cerebral cultural. E é preciso muita reflexão e paciência nessas horas - com nós mesmas e com o próximo.
Deve ter uma parcela de leitor@s que lê esse primeiro parágrafo e pensa: aí, mania de perseguição. Eu sou tão descolad@, tod@s @s meus amig@s são descolad@s, minha família é prafrentex, eu não fui criad@ assim porque essa de machismo não rola no meu meio.
Mas você vai ao cinema, certo?
Há um teste muito interessante para filmes chamado teste Bechdel*. Para passar no teste, um filme precisa cumprir 3 critérios simples:
1) ter pelo menos duas mulheres que tenham nome
2) que conversem entre si
3) sobre um assunto que não seja homens
É incrível a quantidade de filmes que não passa no teste -- vale a pena começar a prestar atenção quando for ao cinema.
É como se, não bastasse não haver espaços de representação para as mulheres (coberto pelo primeiro critério), quando eles existem são sempre colocados em relação aos homens (critérios 2 e 3). Somos condicionadas a sempre considerar os homens e, mais do que isso, a nos pensarmos em relação a eles.
1) ter pelo menos duas mulheres que tenham nome
2) que conversem entre si
3) sobre um assunto que não seja homens
É incrível a quantidade de filmes que não passa no teste -- vale a pena começar a prestar atenção quando for ao cinema.
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| O teste Bechdel surgiu com este quadrinho, criado por Alison Bechdel em 1985 |
É como se, não bastasse não haver espaços de representação para as mulheres (coberto pelo primeiro critério), quando eles existem são sempre colocados em relação aos homens (critérios 2 e 3). Somos condicionadas a sempre considerar os homens e, mais do que isso, a nos pensarmos em relação a eles.
Esse foi só um exemplo dentre vários que poderia citar. Você pode fazer outros testes também: veja o número de mulheres que trabalha na sua empresa e os cargos elas ocupam; compare o número de mulheres na sua sala de aula com o número de professoras (cursos de Letras são ótimos para isso, porque em geral a classe é majoritariamente feminina e a porcentagem muda completamente quando você olha para o quadro de professores e para os cargos mais elevados de chefia do departamento); preste atenção nas atitudes sutis do dia-a-dia, desde as cantadas desrespeitosas - que na maioria das vezes são "só de brincadeirinha" - até ser ignorada ou ridicularizada simplesmente por ter uma opinião e expressá-la.**
O machismo é um bicho papão, que perversamente aprendemos a respeitar desde pequen@s. Por isso proponho aqui, de maneira metafórica, a máxima católica - e guardem este momento, porque não é sempre que isso acontece em blogs feministas: orai e vigiai. Em termos laicos: reflita e esteja atent@, sempre.
Afinal, mulheres e homens, não se enganem: o machismo está em todo o lugar e, se você deixar, ele vai te comer!
* Obrigada à Crocomila por compartilhar o vídeo do Feminist Frequency, que é excelente.
** Como levantou a Patti, querida leitora aqui do blog.
* Obrigada à Crocomila por compartilhar o vídeo do Feminist Frequency, que é excelente.
** Como levantou a Patti, querida leitora aqui do blog.
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Traduzido daqui.
por Roberta Gregoli
"Repórter: Tenho uma pergunta para o Robert e uma para a Scarlett. Primeiro, Robert, em Homem de Ferro 1 e 2, Tony Stark começa como uma personagem egoísta, mas aprende a lutar em equipe. Então como você abordou esse papel, levando em consideração essa maturidade como ser humano quando se trata da personagem Tony Stark, e você aprendeu alguma coisa nos três filmes?
E para a Scarlett, para entrar em forma para a Viúva Negra você teve que fazer algo diferente em relação à sua dieta, tipo, você teve que comer algum tipo específico de comida ou qualquer coisa assim?
Scarlett [para Robert]: Por que para você fazem uma pergunta existencial super interessante e para mim vem a pergunta da "comida de passarinho"?
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O respeito dado a você se você é homem na indústria de entretenimento e o respeito dado a você se você é mulher na indústria de entretenimento: tudo perfeitamente resumido na pergunta idiota do repórter."
Traduzido daqui.
28 de maio de 2012
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Roberta

































