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Versos e Subversas: Dependência afetiva e poesia


Hoje, no Versos e Subversas, faço o cruzamento de poesias de duas grandes intelectuais e artistas (Rosário Castellanos e Idea Vilariño) para discutir um pouco da """educação""" afetiva das mulheres, a construção e imposição de sua dependência emocional e sua vulnerabilidade ao amor fatalista.



 

 MEDITAÇÃO NO UMBRAL
(Rosário Castellanos, México, 1926-1974)

Não, não é a solução
atirar-se debaixo de um trem como a Ana de Tolstoy
nem consumir o arsênico de Madame Bovary
nem aguardar na planície solitária de Ávila a visita
do anjo com a flecha
antes de amarrar o manto à cabeça
e começar a atuar.

Nem concluir as leis geométricas, contando
as vigas da cela de castigo
como o fez Sor Juana. Não é a solução
escrever, enquanto chegam as visitas,
na sala de estar da família Austen
nem fechar-se no ático
de alguma residência da Nova Inglaterra
e sonhar, com a Bíblia dos Dickinson,
debaixo de uma almofada de solteira.

Deve haver outro modo que não se chame
Safoni Mesalina nem María Egipcíaca
nem Madalena nem Clemencia Isaura.
Outro modo de ser humano e livre.
Outro modo de ser.




Neste primeiro poema, Rosário Castellanos busca repetidamente negar a vida de submissão e de condeanação trágica a que estão submetidas as mulheres: seja pela opressão social direta dos homens sobre sua liberdade de ação seja pelas saídas desesperadas a que se lançam as mulheres dominadas por amores  fatais. Ela nega as figuras típicas da subjetividade feminina na literatura e também um ou outro caso real, como a de Sor Juana, religiosa católica e poetisa, considerada a primeira feminista das Américas. São meditações que Rosário realiza sobre o destino das mulheres, seu fim, sobre o tipo de vida e morte que, em geral, têm ("meditação no umbral") e dialoga com sua própria experiência concreta: é público seu enorme sofrimento decorrente de suas relações amorosas conflituosas com o "don juan" Ricardo Guerra, que a mal tratava e a traiu diversas vezes. Essa situação conduziu Rosário à depressão, à hospitais psiquiátricos e tentativas de suicídio. É justamente contra este fim trágico, e que parece inevitável às mulheres, que se rebela Rosário.

 


A CANÇÃO E O POEMA
(Idea Vilariño, Uruguai, 1920-2009)

Hoje que o tempo já passou,
hoje que já passou a vida,
hoje que me rio se penso,
hoje que esqueci aqueles dias,
não sei porque me desperto
algumas noites vazias
ouvindo uma voz que canta
e que, talvez, é a minha.
Quisera morrer — agora— de amor,
para que soubesses
como e quanto te queria,
quisera morrer, quisera… de amor,
para que soubesses…
Algumas noites de paz,
— se é que as há todavia—
passando como sem mim
por essas ruas vazias,
entre a sombra estreita
e um triste odor de glicínias,
escuto uma voz que canta
e que, talvez, é a minha.
Quisera morrer — agora — de amor,
para que soubesses
como e quanto te quería;
quisera morrer, quisera… de amor, para que soubesses…

Idea Vilariño, neste outro poema, expõe a típica imagem do ser "morto de amor" ou que deseja "morrer de amor": a incompletude e o vazio de sua vida sem o homem amado e a anulação de sua subjetividade evidente pelo desejo de morte. Assim como no caso de Rosário, é público o relacionamento conturbado de Idea com o grande escritor uruguai Carlos Onetti... Idea sempre o amou incondicionalmente e por isso sofreu terrivelmente, já que Onetti parecia oscilar em seus interesses com Idea, desenvolvendo um jogo de aproximações e desprezo regular. Idea se questionava por que sempre voltava a Onetti, o "burro, cachorro, besta" a quem dedicou todos seus poemas de amor. Por que o procurava mesmo depois das mais terríveis brigas? Idea, aparentemente, nunca conseguiu dar uma resposta clara a essa pergunta. Ironicamente, foi através de seus poemas de amor que, em geral, retratam seu sofrimento e anulação, que Vilariño se tornou conhecida. Impressionante ver como mesmo a raiva não tem lugar em seus poemas, a não ser uma raiva "fria", que se mostra indiretamente como no poema abaixo no desejo de morte do amante.



TE ESTOU CHAMANDO
(Idea Vilariño, Uruguai, 1920-2009)

Amor
desde a sombra
desde a dor
amor
te estou chamando
desde o poço asfixiante das recordações
sem nada que me sirva nem te espere.
Te estou chamando
amor
como ao destino
como ao sonho
à paz
te estou chamando
com a voz
com o corpo
com a vida
com tudo o que tenho
e que não tenho
com desesperação
com sede
com pranto
como se fosses ar
e eu me afogasse
como se fosses luz
e eu morresse.
Desde uma noite cega
desde o olvido
desde horas fechadas
no solo
sem lágrimas nem amor
te estou chamando
como a morte
amor
como a morte.


Tanto Rosário como Idea foram das maiores intelectuais de seu tempo, mulheres engajadas e lutadoras e que, mesmo assim, enfrentaram enormes conflitos internos, profundas contradições em suas relações afetivas. Isto porque uma sociedade machista as educou (e ainda educa as mulheres) para a dependência afetiva, para a aceitação do amor fatal como modelo, para a anulação de sua subjetividade, para que esta se veja como frágil, incapaz ou pouco capaz de realizar diversas atividades "próprias" dos homens, emocionalmente devotadas a um só grande amor (a um só grande homem) e, portanto, tendendo a estabelecer uma relação com o sexo menos livre. Não é preciso pensar muito pra perceber que isso forja  uma mulher com baixa auto-estima, totalmente ou em-grande-medida incapaz de estar sozinha e de fazer escolhas mais livres acerca de seus amores e relacionamentos.


Essa é a contradição profunda que as duas poetas enfrentaram com as armas de que dispunham: sua arte e sua luta concreta para transformar a sociedade. Acredito que ao espelhar em poesia seus sentimentos de submissão ou de amor trágico buscavam, de alguma forma, romper com esse ciclo, seja pelo questionamento direto (como em Rosário, ainda que sem encontrar possibilidades claras de saída), seja pela exposição nua e crua, mas profundamente elaborada, de seu sofrimento (como nos poemas de Idea). Dar palavras a esses sentimentos, transformar a opressão em poesia já é enfrentar a opressão íntima (socialmente construída), é se ver no espelho e permitir que outras também se vejam. E isso não é pouco. Mais do que expor as "fragilidades" de duas poetas, o intuito deste post, pelo contrário, é evidenciar a grandeza de suas lutas, a força de Rosário Castellanos e Idea Vilariño.


A luta feminista é profunda: deve não só enfrentar os casos mais cotidianos (e por isso mesmo terríveis) de violência contra as mulheres, mas também os aprisionamentos mais sutis da afetividade e da sexualidade feminina, libertando não só as mulheres de sua condicionada "fragilidade" e dependência afetiva, mas também auxiliando os homens a se libertarem de seu canalhesco don juanismo.


(Texto e traduções de Jeff Vasques) 

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Por que gostamos tanto de ver lésbicas no cinema?



por Larissa

Flores Raras, de Bruno Barreto, estreou nesta sexta-feira, 16, em 150 cinemas do Brasil. O filme, exibido anteriormente na abertura do festival de Gramado, ficou em 1º lugar de público no festival de cinema de São Francisco e em 2º lugar em Berlim. Não é à toa que a obra era ansiosamente aguardada pelas lésbicas do país.


Trata-se da história de amor, entre duas mulheres notáveis: Lota de Macedo Soares, a idealizadora e responsável pela construção do Aterro do Flamengo; e Elisabeth Bishop, renomada poetisa estadunidense, ganhadora, dentre outros, do Prêmio Pulitzer de 1956, com a obra Norte e Sul, escrita no período em que estava no Brasil.

Veja o trailer do filme: 


Antes da divulgação do trailer, havia receios a respeito da representação das personagens que iríamos encontrar. Não é raro, no cinema, que figuras célebres reconhecidamente homossexuais tenham essa parte de sua identidade disfarçada, ou apresentada apenas como um mero detalhe, como se viver a homossexualidade abertamente em uma cultura heteronormativa fosse algo banal na vida das pessoas. Os exemplos são muitos, não cabe aqui uma lista.

Em Flores raras, as cenas são claras. As duas se amam, se beijam, trocam carícias ternas e picantes. É mesmo possível reconhecer uma representação de afetividade convincente entre duas lésbicas. Glória Pires encena uma Lota decidida e autoritária, poço de segurança que se desfaz. Em uma certa crítica do filme, a atriz foi acusada, por essa atuação corajosa, de fazer uma caricatura forçada de masculinidade. Não há artificialidade nisso, não é uma caricatura. Nem todas as mulheres (ainda bem) seguem os padrões rígidos de feminilidade impostos pela cultura sexista heteronormativa. Isso não é caricatural, é a diversidade das formas de se ser pessoa humana.

Apesar de Bruno Barreto negar que o filme seja sobre homossexualidade, mas sim sobre perdas, o tema está lá com a própria vivência homossexual dessas mulheres históricas. É louvável que haja esse e outros temas. Já Glória Pires, em entrevista no festival de Gramado, comenta a importância da questão no filme em nosso momento político de avanços e reações apavoradas dos grupos conservadores em relação aos direitos homossexuais. Vale lembrar que o projeto do filme, iniciado há 17 anos com a compra dos direitos autorais do livro por Lucy Barreto, lidou com dificuldades em conseguir patrocínio pelo receio que muitas instituições têm de vincular suas marcas à homossexualidade.

E voltamos à pergunta título: Por que gostamos de ver lésbicas no cinema?
Gostamos de ver lésbicas no cinema, na televisão, nos livros porque gostamos de nos sentir representadas. Gostamos de reconhecer nossos conflitos, alegrias, anseios. As histórias contadas são formas de representação da realidade. Elas podem confirmar nossas crenças, reforçar ou questionar padrões, trazer reflexões sob outras perspectivas. O fato de só haver representações de amor heterossexuais acessíveis ao público em geral e principalmente aos adolescentes é uma violência através do silenciamento. 

Lembro que na minha adolescência não vi NADA que contemplasse outras formas de amor. As “lésbicas” que vi na televisão foram em produções pornográficas feitas para homens heterossexuais. Não é de se surpreender que esse tipo de material fosse mais acessível - depois da meia-noite na TV a cabo - que uma representação de afetividade autêntica entre duas mulheres. Ou seja, tudo bem que existissem lésbicas, mas para satisfação de desejos masculinos. Mas enfim, isso era final da década de 90. As coisas vão mudando, ainda que gays e lésbicas apareçam apenas de vez em quando, ainda como algo excepcional no grande circuito das narrativas cinematográficas ou literárias. Essa excepcionalidade não garante a quebra dos padrões, mas essa ínfima existência é um respiro em meio ao mar de produções que confirmam estereótipos heterossexuais de como ser mulher e de como ser homem.  O sucesso de Flores raras é sinal de novos tempos.

Veja:

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Versos e Subversas: Gioconda Belli





Gioconda Belli (Nicarágua, 1948) é uma das poetas nicaraguenses mais conhecidas dentro e fora de seu país. Ainda jovem se integrou às fileiras da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) na luta pela derrubada do governo ditatorial de Somoza. Foi correio clandestino, transportou armas, viajou pela Europa e América recolhendo recursos e divulgando a luta sandinista. E, claro, no meio de tudo isso, escrevia suas poesias. Com o triunfo da Revolução Nicaraguense, em 1979, ocupou vários cargos dentro do governo revolucionário. Com a posterior burocratização do partido no poder, Gioconda se afasta da FSLN e passa a criticar duramente seu “endireitamento”.

De início, a poesia de Belli, produzida no contexto da revolução nicaraguense, coloca grande ênfase na união dos nicaragüenses contra a tirania de Somoza, tratando o amor de um casal como metáfora da unidade sociopolítica e de gênero em oposição a tirania. Esse amor era "arma contra a opressão… o desejo dionisíaco que vence a morte, o desespero". Belli apresentava, então, a mulher como a entidade destinada principalmente a dar amor, associada com o sentimental e com o passivo. Ela era a natureza e a paisagem nicaragüenses, a terra que esperava ser possuída pelo amante-guerrilheiro (ativo, forte e que domina o espaço público), dicotomia de gênero própria do universo patriarcal.

Porém, Belli também já incluía em seus versos elementos inovadores da representação feminina, fissuras no discurso patriarcal que evidenciavam a negociação que a escritora fazia entre o tradicional e o novo.  Com a vitória da revolução nicaraguense, essas fissuras vão aos poucos crescendo e uma nova identidade feminina vai se assumindo como voz dominante em sua poética, ainda que com recaídas próprias das tensões com o velho discurso. Belli realiza uma corajosa autocrítica do eu-feminino, reconhece o excessivo idealismo com que encarava as relações amorosas, passa a questionar abertamente a submissão da mulher e a defender que esta possa estabelecer seus próprios limites, suas próprias regras, o que realmente quer ou não quer no amor.

Vista em sua totalidade, a poesia de Belli é um fantástico registro da trajetória do eu-feminino, com seus conflitos e contradições de identidade até uma consciência feminista. Um retrato bastante genuíno das latinoamericanas-lutadoras do século XX e começo do XXI, com seus acertos e também com sua incansável negociação com a opressão tradicional de nossa cultura machista e patriarcal.

Jeff Vasques

 
NOVA TESE FEMINISTA
(Gioconda Belli, tradução  de Jeff Vasques)

Como te dizer
homem
que não te necessito?
Não posso cantar a liberação feminina
se não te canto
e te convido a descobrir liberações comigo.

Não me agrada a gente que se engana
dizendo que o amor não é necessário
-"tenha medo, eu tremo"

Há tanto novo que aprender,
formosos homens da caverna a resgatar,
novas maneiras de amar que ainda não inventamos.

Em nome próprio declaro
que gosto de me saber mulher
frente a um homem que se sabe homem,
que sei de ciência certa
que o amor
é melhor que as multi-vitaminas,
que o casal humano
é o princípio inevitável da vida,

que por isso não quero jamais liberar-me do homem;
o amo
com todas suas debilidades
e gosto de compartilhar sua teimosia
todo este amplo mundo
onde ambos somos imprescindíveis.

Não quero que me acusem de mulher tradicional
mas podem me acusar
tantas como quantas vezes queiram
de mulher.

REGRAS DO JOGO PARA OS HOMENS QUE QUEIRAM MULHERES MULHERES
(Gioconda Belli, tradução de Silvio Diogo)

I
O homem que me amar
deverá saber abrir as cortinas da pele,
encontrar a profundidade de meus olhos
e conhecer o que se aninha em mim,
a andorinha transparente da ternura.

II
O homem que me amar
não desejará possuir-me como uma mercadoria,
nem me exibir como troféu de caça,
saberá estar a meu lado
com o mesmo amor
com o qual estarei ao lado seu.

III
O amor do homem que me amar
será forte como as árvores de ceibo,
protetor e seguro como elas,
puro como uma manhã de dezembro.

IV
O homem que me amar
não duvidará de meu sorriso
nem temerá a abundância de meu cabelo,
respeitará a tristeza, o silêncio
e com carícias tocará meu ventre como violão
para que brotem música e alegria
do fundo de meu corpo.

V
O homem que me amar
poderá encontrar em mim
a rede onde descansar
do pesado fardo de suas preocupações,
a amiga com quem compartilhar seus íntimos segredos,
o lago onde flutuar
sem medo de que a âncora do compromisso
o impeça de voar quando queira ser pássaro.
de vir a ser pássaro.

VI
O homem que me amar
fará poesia com sua vida,
construindo cada dia
com o olhar posto no futuro.

VII
Acima de todas as coisas,
o homem que me amar
deverá amar o povo
não como uma palavra abstrata
tirada da manga,
mas como algo real, concreto,
a quem render homenagem com ações
e dar a vida, se necessário.

VIII
O homem que me amar
reconhecerá meu rosto na trincheira
joelhos no chão me amará
enquanto os dois disparam juntos
contra o inimigo.

IX
O amor de meu homem
não conhecerá o temor da entrega,
nem terá medo de se descobrir ante a magia da paixão
em uma praça cheia de multidões.
Poderá gritar - te amo -
ou colocar placas no alto dos edifícios
proclamando seu direito de sentir
o mais lindo e humano dos sentimentos.

X
O amor de meu homem
não fugirá das cozinhas,
nem das fraldas do filho,
será como um vento fresco
levando consigo, entre nuvens de sonho e de passado,
as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram separados
como seres de distintas estaturas.

XI
O amor de meu homem
não desejará rotular ou etiquetar,
me dará ar, espaço,
alimento para crescer e ser melhor,
como uma Revolução
que faz de cada dia
o começo de uma nova vitória.

NÃO ME ARREPENDO DE NADA
(Gioconda Belli, tradução base de Silvio Diogo, versão de Jeff Vasques)

Daqui, da mulher que sou,
às vezes me entrego a contemplar
aquelas que eu podia ter sido;
as mulheres primorosas,
modelo de virtudes,
trabalhadoras boas esposas
que minha mãe desejou para mim.

Não sei por quê
passei minha vida inteira me rebelando
contra elas
odeio suas ameaças em meu corpo
a culpa que suas vidas impecáveis
por um estranho feitiço,
me inspiram;

revolto-me contra seus bons ofícios,
os prantos noturnos sob o travesseiro,
às escondidas do marido
o pudor da nudez, por baixo da passada e engomada
roupa íntima.

Estas mulheres, no entanto,
olham-me do interior de seus espelhos,
levantam um dedo acusador
e, às vezes, cedo a seus olhares de reprimenda
e gostaria de ter a aceitação universal,
ser a “boa menina”, a “mulher decente”
a impecável Gioconda,
tirar dez em conduta
com o partido, o estado, as amizades,
minha família, meus filhos e todos os demais seres
que, abundantes, povoam este nosso mundo.

Nesta contradição invisível
entre o que deveria ter sido e o que é
travei numerosas batalhas mortais,
batalhas inúteis delas contra mim
- elas contra mim que sou eu mesma -

Com a “psique dolorida” despenteio-me
transgredindo ancestrais programações
desgarrando-me das mulheres internas
que, desde a infância, torcem o rosto para mim
pois não me encaixo no molde perfeito de seus sonhos,
pois me atrevo a ser esta louca falível, terna e vulnerável
que se apaixona feito puta triste
por causas justas, homens bonitos e palavras brincalhonas
pois, já adulta, atrevi-me a viver a infância proibida,
e fiz amor sobre escrivaninhas em horários comerciais
e rompi laços invioláveis e me atrevi a desfrutar
o corpo são e sinuoso com que os genes
de todos os meus ancestrais me dotaram.

Não culpo ninguém. Melhor, agradeço a eles pelos dons.
Não me arrependo de nada, como disse Edith Piaf.
Porém, nos poços escuros em que me afundo;
nas manhãs em que, ao entreabrir os olhos,
sinto as lágrimas fazerem força
apesar da felicidade
que finalmente conquistei
rompendo estratos e camadas de rocha terciária
e quaternária,
vejo minhas outras mulheres sentadas no vestíbulo
fitando-me com olhos doídos
e me culpe pela felicidade.

Irracionais boas meninas
rodeiam-me e desfilam suas canções infantis contra mim;
contra esta mulher
feita
plena
esta mulher de peitos em peito
e largos quadris
que, por minha mãe e contra ela,
eu gosto de ser.

22

O caso de Fallon Fox

por Mazu


Fallon Fox
Esta semana, resolvi fazer entrevistas por esse mundão a fora. Tudo porque resolvi falar de um assunto que anda me fazendo pensar e coçar o cabeção há alguns dias. Fallon Fox!

Fallon Fox é uma lutadora de MMA que passou pela cirurgia de mudança de sexo. Lá por meados de abril, ela recebeu autorização para lutar num campeonato feminino na Flórida. Isso causou altos bafafás e teve até lutador do UFC suspenso por destilar preconceito em vídeo.

Antes e depois de Fallon Fox
O motivo de tanto barulho é o mesmo que me deixou cheia de dúvidas e me dividiu. Mesmo que algumas pessoas tenham a opinião de que a diferença de força física entre homens e mulheres é socialmente construída, ainda tem muita gente que afirma que a parada é biológica mesmo. Eu, com o pouco de experiência que tenho em treino, posso afirmar que nunca fui páreo para homens do meu peso, até alguns menores e mais novos costumavam me derrubar com certa facilidade. Será social, comigo? Logo eu toda feminista e tals? Não sei.

Mas por que estou falando de diferença entre homens e mulheres, se a Fallon não é homem, agora ela é mulher, certo? Legalmente e biologicamente. Então, ela perdeu a chamada "força masculina"? Sua composição física é igual a das outras lutadoras? Seria ela menos ou mais forte que algumas lutadoras que se entopem de hormônio masculino? Aqui, dá para ler a opinião de várias lutadoras diferentes.


Ronda Rousey, a primeira mulher campeã do UFC e atleta de artes marciais desde a infância, acha que Fox teria uma vantagem por ter passado a puberdade como homem, período em que teria adquirido a densidade óssea de um homem.

Como a gente pode ver, é complicado. Agora ela é uma mulher e tem os direitos que todas nós temos. Mas, vamos supor que eu fosse uma lutadora, eu não sei se me sentiria confortável e respeitada em enfrentá-la. Estou sendo super sincera aqui. E por essa divisão, confusão e tals, que fui pedir ajuda aos amigos de várias áreas, falei com militantes, médicos, treinadores e abaixo, trago algumas das respostas que recebi.

Sobre a composição física e densidade óssea:


Na verdade, se a pessoa tem o cromossomo Y e testículos ela tem produção de testosterona e conversão de testosterona em um derivado mais ativo. Isso faz com que tenha mais musculatura, maior estatura, mais densidade óssea do que mulheres. Isso faz com que homens e mulheres tenham constituição diferente, o que fica bem mais nítido depois da puberdade.

De fato, se alguém remove os testículos antes da puberdade terá musculatura e estatura mais próximas do "feminino", porque a maior parte da produção e utilização da testosterona se dá da puberdade em diante. Ou seja, ainda que ela tome hormônios feminizantes hoje, ela ainda tem "vantagens" do homem quando se fala em força física.
- Médica Pediatra

A densidade óssea vem da contração muscular e do balanço positivo de nitrogênio que é muito mais intenso em um sujeito que produz testosterona. O fato de ela ter feito a cirurgia não tira essa densidade óssea já existente.
- Médico Ortopedista

Sobre as diferenças entre uma lutadora que passou pela cirurgia de mudança de sexo e uma lutadora que se droga:


Ela (transexual) seria muito mais fraca que uma lutadora que se droga, pois o uso de anabolizantes faz que sua testosterona e DHT se elevem, no mínimo, 10 vezes mais que o fisiológico de um homem. Conheço fisiculturistas em que esse valor passou das 100 vezes mais. Além da testosterona, o uso de anabolizantes esteroides eleva outros tipos de hormônios. O uso apenas de testo não é o segredo.
- Médico Ortopedista

Sobre a participação de Fallon nos eventos


Difícil dar opinião. Depende de o que pensamos que seja o objetivo do esporte. Se for vencer uma disputa equilibrada, não concordaria com a participação dela em esportes femininos porque ela tem uma vantagem indiscutível. Por outro lado, se o objetivo do esporte for o de promover integração, educação etc etc etc, a discussão muda completamente.
- Médica Pediatra 

Difícil, heim? No entanto, acho que talvez estejamos caminhando rumo à diminuição das diferenças de capacidades físicas de homens e mulheres. Nas olimpíadas de Londres, não teve uma chinesa que nadou tão rápido que empatou ou ficou pouco atrás do Ryan Lochte? E não é necessário que sejamos desafiadas para que possamos 'incrementar' nossa força física? Se uma mulher trans tem reconhecido seu direito de usar seu nome de mulher, se quer reconhecida como mulher, não deveria mesmo lutar com mulheres?
- Blogueira Feminista

Fallon Fox
Chris Cyborg, que foi pega no doping depois de nocautear uma adversária em alguns segundos

Ronda Rousey, atual campeã mundial da categoria peso galo do UFC
 
Do que li e ouvi por aí, tirei que uma lutadora que passou pela cirurgia de mudança de sexo, especialmente as que foram homens na puberdade, teriam alguma vantagem sobre uma mulher cisgênero. Agora, a Fallon já perdeu lutas, logo, essa vantagem não deve ser insuperável. A meu ver, desleal mesmo é a competição com quem se droga, seja a pessoa cisgênero ou transgênero.

Fico triste porque queria vir aqui com uma solução pronta e emblemática, uma bandeira. Mas também não posso ser hipócrita. A gente tem mais é que debater, se informar e ler, a informação costuma ser o caminho mais seguro para o respeito.

De qualquer forma, a Comissão Atlética, na Flórida, parece ter tomado sua decisão, e as meninas da luta têm que se adaptar a ela. E talvez isso seja bom, como disse a nossa amiga blogueira, quando existe desafio, a gente sempre se supera.

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Falar pelo outro ou praticar a escuta do outro?

 Por Thaís Bueno


Movimento de ativistas afegãs pelos direitos das mulheres

Visitando alguns blogs que gosto de acompanhar, topei com um post de uma ativista pelos direitos das mulheres, nascida no Afeganistão, chamada Noorjahan Akbar. Não conhecia nada sobre ela, nem sobre o trabalho que ela realiza. Comecei a ler o post, sem esperar muito, e, no final, estava encantada com as palavras que ela trazia e com a forma como ela descreve sua cultura. 

Nos dias de hoje, em que discussões sobre injustiça política e social, identidade e cultura estão pipocando a todo momento, é importante ter em mente que, independentemente de sua postura política e das suas concepções ideológicas, é preciso ter muito cuidado ao se tentar falar pelo outro e defendê-lo. Há por aí uma série de discursos protecionistas/paternalistas que supostamente defendem os grupos minoritarizados como se fossem pobres coitados, que não têm capacidade de falar por si mesmos. E também já houve, por muito tempo, uma infinidade de discursos, seja na mídia, nos círculos acadêmicos ou nos grupos de agência política, que buscam "falar pelo outro", ou "dar voz ao outro"

Foi por essa razão que eu quis traduzir este post para o português e trazê-lo para este blog. Ler o texto de Akbar é lembrar que o outro tem voz própria, e que talvez ele prefira falar por si. É lembrar que, na verdade, por termos nosso próprio lugar, nossa história e nossa cultura, não podemos falar pelo outro. Podemos, no máximo, escutá-lo e ajudá-lo a ser ouvido. Ou lido.

Noorjahan Akbar

Onde foi que aprendi sobre liberdade 

Por Noorjahan Akbar – Ativista pelos direitos das mulheres afegãs, cofundadora da organização Young Women for Change, autora do UN Dispatch e correspondente afegã para o A Safe World for Women.

A maior parte do meu trabalho e dos meus textos está focada nas atrocidades e injustiças cometidas contra mulheres no Afeganistão, mas, neste blog, eu gostaria de discutir sobre outro tipo de injustiça. 

Recentemente, uma jornalista estadunidense me enviou uma versão preliminar de seu artigo sobre meu trabalho, para edição. Em um parágrafo ao longo do texto, ela afirmava que eu tinha tido a rara oportunidade de receber uma educação e uma formação escolar nos Estados Unidos da América, e que essa experiência de liberdade me garantiu a possibilidade de nunca sofrer injustiças novamente. Nessa frase, eu notei várias concepções que ela fazia da minha pessoa e de minha cultura, e o contraste em relação à cultura dos Estados Unidos, algo que se reflete muito na literatura produzida neste campo. 

Muitos dos textos sobre ativistas afegãs que lutam pelos direitos das mulheres se baseiam na concepção de que nós, mulheres afegãs, aprendemos sobre liberdade e igualdade quando vamos para países que não são nossas pátrias e nossas culturas, e no meu caso particular, acredita-se que o fato de eu ter estudado nos Estados Unidos me trouxe um gostinho de liberdade e me levou a lutar contra a injustiça. Acredita-se na ideia de que eu era uma oprimida e, consequentemente, mera vítima no Afeganistão, e que, se não fosse pelo tempo que passei nos Estados Unidos, eu não teria me transformado em uma ativista pelos direitos das mulheres. 

Esse monopólio dos valores universais tem muitas consequências negativas. Ele contribui para uma visão binária do mundo, em que metade das pessoas é “progressista” e “civilizada” e o restante, desprovido dessas características e desses valores. Além disso, esse tipo de literatura ajuda a construir o discurso usado para deslegitimar as ativistas afegãs como mulheres “ocidentalizadas”. A ideia de que eu ou outras ativistas aprendemos sobre a liberdade nos Estados Unidos se torna, assim, uma faca de dois gumes usada para nos rotular, tanto aqui no Ocidente quanto em nossos países. A ideia de que liberdade ou liberação são conceitos unicamente estadunidenses, ou ocidentais, e de que, consequentemente, nós aprendemos sobre liberdade na América (já que nossas culturas somente nos oprimem e não há possibilidade de liberação em nossa terra natal) é absurda. 

Eu não aprendi sobre liberdade na América. 

Eu aprendi sobre liberdade com meus pais. Quando eu tinha seis anos, eles decidiram que não queriam viver sob o regime do Talibã e queriam educar suas filhas livremente. Eles abandonaram toda a vida que haviam construído, tudo o que haviam feito durante suas vidas, para serem livres. 

Eu aprendi sobre liberdade com minha tia. Quando estava com quarenta anos, ela decidiu aprender sozinha a ler e escrever, para ser mais independente. Ela permitiu que sua única filha viajasse milhares de quilômetros para que pudesse ter uma formação escolar e ser livre. 

Eu aprendi sobre liberdade com as mulheres do meu país, que cantam sobre ser livre em dúzias de idiomas e dialetos, e que contam às suas filhas histórias de liberdade. 

Eu aprendi sobre liberdade com prisioneiras políticas afegãs, jornalistas e escritoras, que preferem a prisão ao silêncio e à opressão. 

Eu aprendi sobre liberdade com um soldado do Exército Nacional Afegão, que conheci no ano passado. O nome dele é Nadeem e ele arrisca sua vida todos os dias, não por causa dos 150 dólares que ele recebe como salário, mas para libertar seu país do radicalismo. 

Eu aprendi sobre liberdade com a poesia de Rabia Balkhi, uma princesa que conseguiu abalar a divisão de classes e a discriminação sexual ao se atrever a amar um escravo, e que foi assassinada por querer ser livre para amar quem ela escolhesse. 

Eu aprendi sobre liberdade com Merman Parwin, que rompeu com tradições opressivas ao se tornar a primeira mulher a cantar em uma rádio afegã. 

Eu aprendi sobre liberdade com Batool Muradi, que foi acusada de adultério por seu marido, o que pode ter sérias consequências, mas decidiu não ficar calada.

Não. Eu não aprendi sobre liberdade na América. A ânsia por liberdade não é algo ocidental, e a concepção de liberação não é algo inventado no Ocidente, não é algo que eu só poderia conhecer nos Estados Unidos. A liberdade está no meu sangue, e no sangue de milhões de mulheres e homens que nunca estiveram nos Estados Unidos, mas que sabem que, sendo seres humanos, merecem ter o direito de respirar o ar puro e ter opiniões, sem medo de serem condenados por isso. Sendo um país cujos fundadores eram senhores de escravos, um país com séculos de escravidão e segregação, mentalidade colonial e imperialista, além de altos números de negros em suas prisões, os Estados Unidos não poderiam ser minha inspiração para lutar por liberdade. 

Young Women for Change, organização criada por Noorjahan Akbar e Anita Haidary em prol dos direitos das mulheres afegãs


As mulheres do Young Women for Change

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Diga-me, como é ser homem?

por Thaís Bueno 


Você também acredita que o "normal" existe?


Eu gostaria de começar este post com uma pergunta: você se lembra de qual foi a última notícia que leu sobre casos de sexismo, racismo ou homofobia? Lembra-se de quando isso ocorreu e de qual foi o desfecho da história? 

Todxs nós sabemos que episódios vergonhosos de desrespeito à dignidade de grupos sociais minoritários acontecem frequentemente, tanto no Brasil quanto em outros países, e pipocam na mídia a todo o momento. Quase todos os dias ficamos sabendo de algum crime relacionado a homofobia, racismo, desrespeito aos direitos das mulheres... E também não é raro emergir, em certos momentos, ondas de discursos de ódio contra homossexuais, negros, mulheres e outras categorias sociais minoritárias, principalmente nas redes sociais, ambiente onde muita gente acha que tem liberdade total para escrever o que pensa.


Redes sociais: revelando preconceitos since 1997


Pois bem. Nesse cenário todo, o que me surpreende é que, mesmo em uma época na qual essas questões sociais são frequentemente debatidas, tais crimes ainda ocorram. Fala-se muito sobre o feminismo, sobre questões de gênero, raça, etnia, homossexualidade. Acompanhamos, também na mídia, debates, análises, considerações – e muitas delas realmente críticas e bem intencionadas – em defesa dos grupos minoritários. As informações estão aí, para qualquer um que queira se instruir, e já ficou mais do que claro que posturas preconceituosas e discursos de ódio têm sido cada vez menos tolerados. Ainda assim, essas posturas continuam aparecendo e os discursos continuam sendo feitos. Por quê?

É óbvio que, se determinado tipo de crime ou abuso está sendo noticiado e discutido, isso é algo bom. É sinal de que estamos numa sociedade democrática (embora eu ache que, às vezes, esse “democrática” precisa de algumas aspas), e que os crimes e abusos estão aparecendo – diferentemente de algumas décadas atrás, quando sexismo, racismo e homofobia aconteciam de forma mais velada e aceita. No entanto, suspeito que há, ainda, um pequeno fator no meio disso tudo ao qual a gente não dá atenção: em muitos casos, essas minorias são tratadas como problema. 




Um exemplo disso é o discurso segundo o qual o feminismo veio para solucionar "problemas" das mulheres. E isso é um sinal de algo ainda mais preocupante: a categoria "homem" raramente é questionada ou debatida. Quantas vezes você já viu alguém perguntar como é ser homem na sociedade brasileira? Obviamente, o status da mulher e a forma como ela é tratada no nosso país é algo frequentemente debatido, assim como ocorre com negros e homossexuais. Questionamentos sobre como “como é ser negro em uma sociedade racista” ou “como é ser homossexual em uma sociedade homofóbica” são bastante comuns. Mas, curiosamente, nunca vi alguém perguntar coisas do tipo “como é para você ser branco?” ou “como você se sente sendo heterossexual?”. E então, como é ser homem?

Pensando nessas questões, acredito que, muitas vezes, a forma como a mídia e nós mesmxs tratamos essas questões de ordem social e política acaba por fossilizar os grupos minoritários como se eles fossem espécies em análise, em algum laboratório, esperando pelas considerações de um pesquisador. E, no caso do feminismo, mesmo com a intenção de defendê-lo, acabamos tratando-o o como aquilo que precisa ser debatido, analisado, discutido. Ora, mulheres, gays e negros não são problemas, gente, e não devem ser pensados assim. Da mesma forma, as categorias “homem”, “branco” e “heterossexual” também não são rótulos neutros e podem (e devem) ser questionados e debatidos.

Se o status de certas categorias de identidade não é questionado ou debatido, isso acontece por uma razão muito simples: essas categorias são hegemônicas e construídas por mecanismos ideológicos há séculos. Cabe a nós, portanto, questionar esses mecanismos. Eles é que merecem nossa atenção e nossa análise. Esses processos é que precisam ser solucionados.

"Ninguém nasce mulher"... E ninguém nasce homem tampouco