Hoje, no Versos e Subversas, faço o cruzamento de poesias de duas grandes intelectuais e artistas (Rosário Castellanos e Idea Vilariño) para discutir um pouco da """educação""" afetiva das mulheres, a construção e imposição de sua dependência emocional e sua vulnerabilidade ao amor fatalista.
MEDITAÇÃO NO UMBRAL
(Rosário Castellanos, México, 1926-1974)
Não, não é a solução
atirar-se debaixo de um trem como a Ana de Tolstoy
nem consumir o arsênico de Madame Bovary
nem aguardar na planície solitária de Ávila a visita
do anjo com a flecha
antes de amarrar o manto à cabeça
e começar a atuar.
Nem concluir as leis geométricas, contando
as vigas da cela de castigo
como o fez Sor Juana. Não é a solução
escrever, enquanto chegam as visitas,
na sala de estar da família Austen
nem fechar-se no ático
de alguma residência da Nova Inglaterra
e sonhar, com a Bíblia dos Dickinson,
debaixo de uma almofada de solteira.
Deve haver outro modo que não se chame
Safoni Mesalina nem María Egipcíaca
nem Madalena nem Clemencia Isaura.
Outro modo de ser humano e livre.
Outro modo de ser.
Neste primeiro poema, Rosário Castellanos busca repetidamente negar a vida de submissão e de condeanação trágica a que estão submetidas as mulheres: seja pela opressão social direta dos homens sobre sua liberdade de ação seja pelas saídas desesperadas a que se lançam as mulheres dominadas por amores fatais. Ela nega as figuras típicas da subjetividade feminina na literatura e também um ou outro caso real, como a de Sor Juana, religiosa católica e poetisa, considerada a primeira feminista das Américas. São meditações que Rosário realiza sobre o destino das mulheres, seu fim, sobre o tipo de vida e morte que, em geral, têm ("meditação no umbral") e dialoga com sua própria experiência concreta: é público seu enorme sofrimento decorrente de suas relações amorosas conflituosas com o "don juan" Ricardo Guerra, que a mal tratava e a traiu diversas vezes. Essa situação conduziu Rosário à depressão, à hospitais psiquiátricos e tentativas de suicídio. É justamente contra este fim trágico, e que parece inevitável às mulheres, que se rebela Rosário.
(Idea Vilariño, Uruguai, 1920-2009)
Hoje que o tempo já passou,
hoje que já passou a vida,
hoje que me rio se penso,
hoje que esqueci aqueles dias,
não sei porque me desperto
algumas noites vazias
ouvindo uma voz que canta
e que, talvez, é a minha.
Quisera morrer — agora— de amor,
para que soubesses
como e quanto te queria,
quisera morrer, quisera… de amor,
para que soubesses…
Algumas noites de paz,
— se é que as há todavia—
passando como sem mim
por essas ruas vazias,
entre a sombra estreita
e um triste odor de glicínias,
escuto uma voz que canta
e que, talvez, é a minha.
Quisera morrer — agora — de amor,
para que soubesses
como e quanto te quería;
quisera morrer, quisera… de amor, para que soubesses…
Idea Vilariño, neste outro poema, expõe a típica imagem do ser "morto de amor" ou que deseja "morrer de amor": a incompletude e o vazio de sua vida sem o homem amado e a anulação de sua subjetividade evidente pelo desejo de morte. Assim como no caso de Rosário, é público o relacionamento conturbado de Idea com o grande escritor uruguai Carlos Onetti... Idea sempre o amou incondicionalmente e por isso sofreu terrivelmente, já que Onetti parecia oscilar em seus interesses com Idea, desenvolvendo um jogo de aproximações e desprezo regular. Idea se questionava por que sempre voltava a Onetti, o "burro, cachorro, besta" a quem dedicou todos seus poemas de amor. Por que o procurava mesmo depois das mais terríveis brigas? Idea, aparentemente, nunca conseguiu dar uma resposta clara a essa pergunta. Ironicamente, foi através de seus poemas de amor que, em geral, retratam seu sofrimento e anulação, que Vilariño se tornou conhecida. Impressionante ver como mesmo a raiva não tem lugar em seus poemas, a não ser uma raiva "fria", que se mostra indiretamente como no poema abaixo no desejo de morte do amante.
TE ESTOU CHAMANDO
(Idea Vilariño, Uruguai, 1920-2009)
Amor
desde a sombra
desde a dor
amor
te estou chamando
desde o poço asfixiante das recordações
sem nada que me sirva nem te espere.
Te estou chamando
amor
como ao destino
como ao sonho
à paz
te estou chamando
com a voz
com o corpo
com a vida
com tudo o que tenho
e que não tenho
com desesperação
com sede
com pranto
como se fosses ar
e eu me afogasse
como se fosses luz
e eu morresse.
Desde uma noite cega
desde o olvido
desde horas fechadas
no solo
sem lágrimas nem amor
te estou chamando
como a morte
amor
como a morte.
Tanto Rosário como Idea foram das maiores intelectuais de seu tempo, mulheres engajadas e lutadoras e que, mesmo assim, enfrentaram enormes conflitos internos, profundas contradições em suas relações afetivas. Isto porque uma sociedade machista as educou (e ainda educa as mulheres) para a dependência afetiva, para a aceitação do amor fatal como modelo, para a anulação de sua subjetividade, para que esta se veja como frágil, incapaz ou pouco capaz de realizar diversas atividades "próprias" dos homens, emocionalmente devotadas a um só grande amor (a um só grande homem) e, portanto, tendendo a estabelecer uma relação com o sexo menos livre. Não é preciso pensar muito pra perceber que isso forja uma mulher com baixa auto-estima, totalmente ou em-grande-medida incapaz de estar sozinha e de fazer escolhas mais livres acerca de seus amores e relacionamentos.
Essa é a contradição profunda que as duas poetas enfrentaram com as armas de que dispunham: sua arte e sua luta concreta para transformar a sociedade. Acredito que ao espelhar em poesia seus sentimentos de submissão ou de amor trágico buscavam, de alguma forma, romper com esse ciclo, seja pelo questionamento direto (como em Rosário, ainda que sem encontrar possibilidades claras de saída), seja pela exposição nua e crua, mas profundamente elaborada, de seu sofrimento (como nos poemas de Idea). Dar palavras a esses sentimentos, transformar a opressão em poesia já é enfrentar a opressão íntima (socialmente construída), é se ver no espelho e permitir que outras também se vejam. E isso não é pouco. Mais do que expor as "fragilidades" de duas poetas, o intuito deste post, pelo contrário, é evidenciar a grandeza de suas lutas, a força de Rosário Castellanos e Idea Vilariño.
A luta feminista é profunda: deve não só enfrentar os casos mais cotidianos (e por isso mesmo terríveis) de violência contra as mulheres, mas também os aprisionamentos mais sutis da afetividade e da sexualidade feminina, libertando não só as mulheres de sua condicionada "fragilidade" e dependência afetiva, mas também auxiliando os homens a se libertarem de seu canalhesco don juanismo.
(Texto e traduções de Jeff Vasques)
Lembro que na minha adolescência não vi NADA que contemplasse outras formas de amor. As “lésbicas” que vi na televisão foram em produções pornográficas feitas para homens heterossexuais. Não é de se surpreender que esse tipo de material fosse mais acessível - depois da meia-noite na TV a cabo - que uma representação de afetividade autêntica entre duas mulheres. Ou seja, tudo bem que existissem lésbicas, mas para satisfação de desejos masculinos. Mas enfim, isso era final da década de 90. As coisas vão mudando, ainda que gays e lésbicas apareçam apenas de vez em quando, ainda como algo excepcional no grande circuito das narrativas cinematográficas ou literárias. Essa excepcionalidade não garante a quebra dos padrões, mas essa ínfima existência é um respiro em meio ao mar de produções que confirmam estereótipos heterossexuais de como ser mulher e de como ser homem. O sucesso de Flores raras é sinal de novos tempos.
V
fará poesia com sua vida,
VII
e dar a vida, se necessário.
reconhecerá meu rosto na trincheira
enquanto os dois disparam juntos
contra o inimigo.
nem terá medo de se descobrir ante a magia da paixão
em uma praça cheia de multidões.
Poderá gritar - te amo -
ou colocar placas no alto dos edifícios
proclamando seu direito de sentir
o mais lindo e humano dos sentimentos.
X
nem das fraldas do filho,
será como um vento fresco
levando consigo, entre nuvens de sonho e de passado,
as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram separados
como seres de distintas estaturas.
me dará ar, espaço,
alimento para crescer e ser melhor,
como uma Revolução
que faz de cada dia
o começo de uma nova vitória.
aquelas que eu podia ter sido;
as mulheres primorosas,
modelo de virtudes,
contra elas
odeio suas ameaças em meu corpo
me inspiram;
às escondidas do marido
o pudor da nudez, por baixo da passada e engomada
roupa íntima.
levantam um dedo acusador
e, às vezes, cedo a seus olhares de reprimenda
e gostaria de ter a aceitação universal,
ser a “boa menina”, a “mulher decente”
a impecável Gioconda,
tirar dez em conduta
com o partido, o estado, as amizades,
minha família, meus filhos e todos os demais seres
que, abundantes, povoam este nosso mundo.
Nesta contradição invisível
entre o que deveria ter sido e o que é
travei numerosas batalhas mortais,
batalhas inúteis delas contra mim
- elas contra mim que sou eu mesma -
Com a “psique dolorida” despenteio-me
transgredindo ancestrais programações
desgarrando-me das mulheres internas
que, desde a infância, torcem o rosto para mim
pois não me encaixo no molde perfeito de seus sonhos,
pois me atrevo a ser esta louca falível, terna e vulnerável
que se apaixona feito puta triste
por causas justas, homens bonitos e palavras brincalhonas
pois, já adulta, atrevi-me a viver a infância proibida,
e fiz amor sobre escrivaninhas em horários comerciais
e rompi laços invioláveis e me atrevi a desfrutar
o corpo são e sinuoso com que os genes
de todos os meus ancestrais me dotaram.
Porém, nos poços escuros em que me afundo;
nas manhãs em que, ao entreabrir os olhos,
sinto as lágrimas fazerem força
apesar da felicidade
que finalmente conquistei
rompendo estratos e camadas de rocha terciária
e quaternária,
vejo minhas outras mulheres sentadas no vestíbulo
fitando-me com olhos doídos
e me culpe pela felicidade.
contra esta mulher
feita
plena
esta mulher de peitos em peito
e largos quadris
que, por minha mãe e contra ela,
eu gosto de ser.
por Mazu
![]() |
| Fallon Fox |
| Antes e depois de Fallon Fox |
Sobre a composição física e densidade óssea:
Na verdade, se a pessoa tem o cromossomo Y e testículos ela tem produção de testosterona e conversão de testosterona em um derivado mais ativo. Isso faz com que tenha mais musculatura, maior estatura, mais densidade óssea do que mulheres. Isso faz com que homens e mulheres tenham constituição diferente, o que fica bem mais nítido depois da puberdade.
De fato, se alguém remove os testículos antes da puberdade terá musculatura e estatura mais próximas do "feminino", porque a maior parte da produção e utilização da testosterona se dá da puberdade em diante. Ou seja, ainda que ela tome hormônios feminizantes hoje, ela ainda tem "vantagens" do homem quando se fala em força física.
- Médica Pediatra
A densidade óssea vem da contração muscular e do balanço positivo de nitrogênio que é muito mais intenso em um sujeito que produz testosterona. O fato de ela ter feito a cirurgia não tira essa densidade óssea já existente.
- Médico Ortopedista
Sobre as diferenças entre uma lutadora que passou pela cirurgia de mudança de sexo e uma lutadora que se droga:
Ela (transexual) seria muito mais fraca que uma lutadora que se droga, pois o uso de anabolizantes faz que sua testosterona e DHT se elevem, no mínimo, 10 vezes mais que o fisiológico de um homem. Conheço fisiculturistas em que esse valor passou das 100 vezes mais. Além da testosterona, o uso de anabolizantes esteroides eleva outros tipos de hormônios. O uso apenas de testo não é o segredo.
- Médico Ortopedista
Sobre a participação de Fallon nos eventos
Difícil dar opinião. Depende de o que pensamos que seja o objetivo do esporte. Se for vencer uma disputa equilibrada, não concordaria com a participação dela em esportes femininos porque ela tem uma vantagem indiscutível. Por outro lado, se o objetivo do esporte for o de promover integração, educação etc etc etc, a discussão muda completamente.
- Médica Pediatra
Difícil, heim? No entanto, acho que talvez estejamos caminhando rumo à diminuição das diferenças de capacidades físicas de homens e mulheres. Nas olimpíadas de Londres, não teve uma chinesa que nadou tão rápido que empatou ou ficou pouco atrás do Ryan Lochte? E não é necessário que sejamos desafiadas para que possamos 'incrementar' nossa força física? Se uma mulher trans tem reconhecido seu direito de usar seu nome de mulher, se quer reconhecida como mulher, não deveria mesmo lutar com mulheres?
- Blogueira Feminista
![]() |
| Fallon Fox |
![]() |
| Chris Cyborg, que foi pega no doping depois de nocautear uma adversária em alguns segundos |
![]() |
| Ronda Rousey, atual campeã mundial da categoria peso galo do UFC |
Fico triste porque queria vir aqui com uma solução pronta e emblemática, uma bandeira. Mas também não posso ser hipócrita. A gente tem mais é que debater, se informar e ler, a informação costuma ser o caminho mais seguro para o respeito.
De qualquer forma, a Comissão Atlética, na Flórida, parece ter tomado sua decisão, e as meninas da luta têm que se adaptar a ela. E talvez isso seja bom, como disse a nossa amiga blogueira, quando existe desafio, a gente sempre se supera.
![]() |
| Movimento de ativistas afegãs pelos direitos das mulheres |
![]() |
| Noorjahan Akbar |
Onde foi que aprendi sobre liberdade
| Young Women for Change, organização criada por Noorjahan Akbar e Anita Haidary em prol dos direitos das mulheres afegãs |
![]() |
| As mulheres do Young Women for Change |
![]() |
| Você também acredita que o "normal" existe? |
![]() |
| Redes sociais: revelando preconceitos since 1997 |
![]() |
| "Ninguém nasce mulher"... E ninguém nasce homem tampouco |
















