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“Prefiro pecar contra minha língua que pecar contra minhas ideias”


por Mazu

O título deste post é uma frase proferida por Yadira Calvo, uma das maiores escritoras da Costa Rica e América Latina, em uma entrevista concedida no dia 13 de fevereiro deste ano. Yadira recebeu, em 2012, o prêmio Mágon, o mais importante prêmio cultural da Costa Rica. Somam-se a esse grande feito: anos de docência nas melhores universidades de seu país e mais de onze obras publicadas e aclamadas.

Do alto desse currículo, essa autora, cientista da linguagem e feminista falou sobre a importância da linguagem na manutenção da ordem social ou, preferencialmente, no desmantelamento dessa ordem.

De vez em quando, a gente recebe esse ou aquele comentário sobre o uso de marcas de gênero que expressem diversidade, desde o básico “os (as)”, o “@” e, mais recente e abrangente “x”. Algumas pessoas parecem pensar que marcar a diversidade de gênero nos nomes é uma perda de tempo porque, em português, o plural masculino tem essa função. Já outras parecem acreditar que essas questões de linguagem não são dignas de tanta preocupação ou debate, que a simples alteração na forma de marcar o gênero na língua não resolveria os problemas de desigualdade e discriminação. Obviamente, não se trata de uma solução mágica e de efeito imediato. Contudo, também não se trata de uma solução tão paliativa assim. A reivindicação ou tentativa de buscar uma marca de gênero que expresse a diversidade é muito válida e tem, sim, razão de ser.


Isso porque a linguagem, nas palavras da Yadira, é a roda de transmissão da cultura. Como a cultura é sexista, a linguagem tem esse tom. A gente pode considerar a língua um patrimônio e defendê-la, mas não no que nos apaga ou diminui. A defesa da língua como patrimônio sagrado, rígido e imutável além de ser muito preconceituosa, é muito falha porque faz parecer que a língua está acima do falante, como se o falante tivesse que obedecer à língua e à gramática, quando, na verdade, o caminho real é quase oposto. Essas relações são bem mais complexas e fluidas do que a simples hierarquia dos fatores.

A gente já falou várias vezes aqui como o feminino pode ser empregado para desvalorizar e diminuir, num determinado discurso. Isso não é à toa, a história como é contada, grande parte da literatura e a maioria das religiões estabeleceram bem o lugar da mulher na nossa cultura, e, obviamente, isso está marcado na linguagem. Em mandarim, por exemplo, o ideograma de “bem”, “bom”, usado para responder ao cumprimento “tudo bem?”, é o ideograma de casa com o ideograma de mulher dentro, ou seja, mulher quietinha dentro de casa, tudo bem.

Para a gente romper com esse lugar social que nos deram e que foi historicamente construído e legitimado, a gente tem que romper em todas as instâncias. Por isso, pode parecer picuinha implicar com tratamento no masculino quando existem mulheres no grupo, mas não é não. Ainda que os imortais das Academias de Letras (que são, sem nenhuma surpresa, a maioria homens) se irritem porque a regra é que o masculino inclua a todos, a gente bem sabe que isso é reflexo de uma sociedade sexista que, em realidade, nos exclui. E não só nós, mulheres, como qualquer homem que não queira ocupar um determinado papel dito de homem e, por isso, acaba recebendo esse ou aquele rótulo e perdendo o título de homem.

Não Aguento Quando
Por outro lado, homens, quando incluídos em uma expressão coletiva de tratamento no feminino, têm como reação mais provável a irritação e o sentimento de ofensa, ou seja, a manifestação do feminino na língua, quando não é apagada, é pejorativa. A Yadira fala de como esse tom pejorativo vem da Grécia Antiga e do que Aristóteles chamava de “homem incompleto” (as mulheres), de como os homossexuais passivos eram menosprezados por ocupar um lugar que seria o da mulher no coito. Essa explicação me ajudou muito porque eu nunca entendi bem esse negócio de chamar homossexual de “mulherzinha”, já que gênero é gênero e opção sexual é opção sexual. E aí você se depara com uma possível razão que data de milhares de anos atrás, vinda de uma sociedade que, ok, tem seus méritos, mas era misógina, xenófoba e bélica.

Créditos: Femstagram
Considerando a relação entre língua e contexto social não rola dizer que uma palavra é só uma palavra, que uma piada é só uma piada, que uma expressão é só uma expressão. Os termos e expressões que empregamos quando falamos e escrevemos nos posicionam muito, socialmente e ideologicamente. As pessoas que chamam um acampamento do MST de “invasão” e as pessoas que chamam de “ocupação” já estão posicionadas no debate a partir do emprego termo. Só com uma palavra a gente já sabe onde as pessoas estão e, às vezes, de onde elas vêm.



É por essas e por outras que a gente tem que se manifestar na forma de escrever, de falar, e ocupar nosso espaço no mundo simbólico também. Dizer “homem” e “mulher” já não dá mais conta da nossa realidade hoje, e isso também se aplica a tratar o homem como eterna maioria. E é por isso que a leitura desta entrevista é muito significativa e importante para quem anda buscando entender melhor essas novas tentativas de marcas de gênero e a razão do debate. A Yadira descreve bem e rapidamente o funcionamento da linguagem enquanto espelho e propagadora de uma determinada ordem social, passando pelos mitos religiosos, culturais e científicos, ou seja, indo de Eva, passando pela Amneris, chegando às histéricas do Freud. Imperdível.


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E lá se vai seu nome de donzela

por Roberta Gregoli


O tópico de hoje é delicado e quero já deixar claro que não tenho a intenção de acusar, criticar nem ofender ninguém por suas escolhas. Mas como a nossa proposta é justamente abordar esse tipo de tema que tem pouco espaço na mídia tradicional, aqui me aventuro eu.

Confesso que, quando vi o slogan ao lado pela primeira vez há alguns anos, não o compreendi em sua completude. O feminismo luta por direitos, por igualdade, equidade - ingenuamente, achei que a humanidade das mulheres só (só?!) era questionada na objetificação de seus corpos.

Entretanto, quanto mais reflito, mais me dou conta que, às mulheres, lhes é constantemente negado algo tão básico quanto a própria subjetividade: pense em todos empecilhos que enfrentamos para ter e manter uma carreira; o esforço de peitar, perante a sociedade, a potencial decisão de não ter filhxs; ter o nosso corpo transformado em espetáculo público... Este processo de apagamento do eu é perfeitamente ilustrado, num nível absolutamente primário, numa prática corriqueira: adotar o sobrenome do marido ao se casar. Alteramos o mínimo denominador, o índice mais óbvio de quem somos: nosso nome.

O que me inspirou a escrever sobre este tema esta semana foi a Beyoncé. Sim, a diva do monômio exuberante se casou e, não só adotou o nome do marido, como intitulou sua nova turnê Mrs Carter. Por quê, por quêeee, nos perguntamos. A verdade é que os motivos que levaram Beyoncé a mudar seu nome (estratégia de marketing? comentário irônico sobre a prática, enfatizado pelo figurino à la Louis XIV?) são diferentes dos que levam as mulheres não-estelares a fazerem o mesmo.


Para mim, mudar meu nome sempre esteve fora de cogitação, justamente porque enxergo a questão como identitária e eu não me reconheceria como, sei lá, Roberta Silva. Além disso, alterar o sobrenome tem também um impacto profissional, sobretudo na carreira acadêmica. Qualquer mudança no nome significa, na prática, jogar no lixo seu currículo de publicações. Existem professoras, inclusive, que mantêm o sobrenome do ex-esposo, mesmo depois do divórcio, porque já se consolidaram na área com ele. Imagine que triste, sua identidade intelectual para sempre vinculada a um casamento falido. E, se você virar grande referência na área - se conseguir 'construir um nome', como dizem - o nome construído vai ser o do ex, não o seu.

Esperando por sua nova identidade
com glamour
Na verdade, a prática de alterar o nome, em sua origem, simboliza a inauguração de uma nova fase na vida da mulher, quando ela assume o papel de esposa (dentro dessa concepção tradicional, o único que cabe à mulher). Em inglês, 'nome de solteira' (maiden name) literalmente significa 'nome de donzela', índice da concepção arcaica da prática. Ao se casar e perder sua virgindade - que nesse sistema funcionava como moeda de troca que determinava o 'valor' da mulher (pensando bem, as coisas não mudaram muito...) - a identidade de antes, símbolo de seu estado virginal de solteira, devia ser descartada, porque a identidade de prestígio social para uma mulher era (e ainda é) a de casada.

Isso tudo me soa tão sem sentido que só consigo entender os motivos que levam algumas mulheres de hoje a adotarem o sobrenome do marido a partir de um exercício intelectual de abstração.

Uma das causas mais comuns deve ser a tradição: 'é assim que é feito, nunca parei pra pensar sobre isso, onde eu assino?' Primeiro que não é assim que é feito necessariamente. Desde 2002, acrescentar sobrenomes é opcional e qualquer um dos cônjuges pode fazê-lo

Daí vamos para um outro forte motivo, que é a pressão social. A sociedade policia as mulheres de todas as maneiras possíveis e imagináveis - até aí, não há novidade. Mas, nesta questão específica, a coisa pode ficar muito hostil... E dá-lhe terrorismo emocional: será que já tá pensando no divórcio? não vai demonstrar seu amor por ele? mas e a celebração da sua união? Todas essas jogadas de romantismo que, no final, só servem para reforçar a tradição.

Tem gente que menciona xs filhxs e eu não entendo bem qual é o drama. A mãe chama Fulana A, o pai chama Fulano B, x filhx chama Fulaninhx A B (e nem vamos entrar no mérito do último nome ser o do homem). Tá ali, o nome dos dois, não há ambiguidade quanto à origem da criança. Agora, se a mãe não tiver o nome do pai vão achar que a criança é bastarda, é isso? É essa a preocupação, que, ai e se ela for mãe solteira? Ou divorciada? Em que século estamos mesmo?

Outro dia me apareceu uma nova. Alguém me contou que a noiva não queria adotar o nome do noivo e era um absurdo porque ele estava disposto a adotar o nome dela. Se é para ter igualdade, por que ela não aceita, já que ele ia fazer o mesmo? A resposta é simples: porque ela não quer. Se ele quer adotar o nome dela, ótimo, vá em frente. Agora, dureza ela ter que ficar dando satisfação para todo mundo de uma escolha que deveria ser só dela: o nome é dela, a identidade é dela.

Pronta para fazer - e com sorte
não ter que REfazer - toda a papelada
Além de tudo, por mais que ninguém goste de pensar nisso na hora do casamento, o divórcio é uma possibilidade real: 56% dos casamentos terminam em divórcio no Brasil. Então, manter seu próprio nome, além de uma questão ideológica, seria também pragmática: é como fazer uni-duni-tê para ver se vai mudar todos os registros de sua existência civil duas vezes. Só a primeira vez já me desanimaria.

O feminismo luta para que as mulheres sejam livres (ironicamente, até isso pode ser usado contra as mulheres, como quando dizem que faz sentido ganharmos menos porque colocar a carreira em segundo plano é uma decisão pessoal). O tema da mudança do nome é complicado justamente porque aborda decisões pessoais. Afinal, muitas mulheres dizem mudar o nome por escolha própria, da mesma forma como muitas dizem que são donas de casa porque querem.

Eu volto a enfatizar que não desmereço nem critico nenhuma mulher por ter adotado o nome do esposo, ou por ser dona de casa, mas questiono, sim, se essas são escolhas reais

Afinal, como falar em liberdade de escolha quando não existe igualdade? Se os homens adotassem o nome das mulheres em igual proporção que as mulheres adotam o nome dos homens, aí, sim, ok, temos escolha. Você está mentindo se disser para umx estudante do ensino público da periferia que elx pode ser o que quiser quando crescer. É possível dizer que elx escolheu não ser médicx (ou qualquer outra profissão de status que requeira estudo de qualidade e investimento financeiro)? Só há liberdade de fato quando existem oportunidades iguais.

Minha intenção com este texto não foi convencer ninguém a fazer nada. Só fomentar a discussão para levar a uma escolha esclarecida, expondo um lado do debate que muitas vezes fica obscurecido. Com todas as informações postas e pesadas, sem levar em conta qualquer pressão familiar ou social, aí, sim, podemos falar em escolha real. 


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Meninos têm pênis, meninas têm vagina: o drama das crianças transgênero

por Barbara Falleiros

"Não, sai, sai daqui! Você não pode brincar com a gente! Você não vai brincar, você é ruivo!" 

Do alto de seu metro e dez, mãos na cintura, a garotinha lança um olhar de desprezo por trás dos óculos de acrílico cor-de-rosa. Mundo em miniatura, o parquinho é, com a escola, o lugar do primeiro estágio de crueldade e discriminação.

A este olhar de desprezo sucede aquele de profunda tristeza da mãe, confessando à meia-voz seu sentimento de impotência. Sinto um nó na garganta quando me lembro destes dois olhares. O que deve fazer um adulto para proteger sua criança de qualquer tipo de preconceito e humiliação?

Little Miss Sunshine - A família dança junto!
Niels Pickert me inspira um grande respeito. Este pai, ao se mudar com sua família de Berlim para uma cidade menor no sul da Alemanha, ofereceu todo o apoio para que seu filho de 5 anos não se sentisse ridicularizado no novo ambiente, no novo jardim da infância. O garotinho gosta de usar vestidos. O pai vestiu saias para acompanhá-lo.

Niels Pickert e seu filho combatendo os estereótipos de gênero
"Sim, eu sou um daqueles pais que tentam criar seus filhos de maneira igual. Eu não sou um daqueles pais acadêmicos que divagam sobre a igualdade de gênero durante seus estudos e, depois, assim que a criança está em casa, se volta para o seu papel convencional: ele está se realizando na carreira professional enquanto sua mulher cuida do resto." (a reportagem em português, aqui)

Niels Pickert é feminista. Imagino aqui todos os machistas e masculinistas de plantão, exultantes e odiosos, pensando terem encontrado o exemplo perfeito do macho sem colhões, literalmente de saia, aviadando-se com seu filho ao invés de mostrar-lhe o que é ser homem! Estes nunca enxergarão o exemplo deste pai promovendo a tolerância, o carinho, o respeito e a aceitação.

Mas o que significa um menininho de vestido? Ou de fantasia de princesa, ou efeminado? Trata-se de uma fase? Quando crescer, ele vai ser homossexual, transsexual?

Pode ser. Como pode muito bem não ser. Como explica a médica americana Diane Ehrensaft, "algumas crianças exploram o gênero oposto e voltam. Outras, ao expressarem um desejo temporário de ser do outro sexo, podem estar apenas manifestando que são homossexuais. Mas muitas das que conheci expressavam claramente que se sentiam como sendo do gênero oposto." (fonte)

Muitas pessoas não sabem que existe uma diferença entre identidade de gênero e orientação sexual. Tenho a impressão de que parte do preconceito resulta da confusão entre estes conceitos. A identidade de gênero diz respeito ao gênero com o qual a pessoa se identifica. No caso de um(a) transsexual, a pessoa sente que sua identidade - aquilo que ela é - não corresponde ao sexo biológico. Já a orientação sexual diz respeito aos gêneros pelos quais a pessoa sente atração física, romântica, emocional. Grosso modo, de um lado está o que você é, de outro com quem você deseja se envolver.

 

Nem sempre. O drama na vida de crianças transgênero é que, apesar de possuíram um órgão genital masculino ou feminino, toda sua existência aponta para o gênero oposto, como se tivessem nascido em um corpo errado: "De todas as coisas horríveis que poderiam ter acontecido comigo, por que isso?" E a única chance dessas crianças conseguirem enfrentar as dificuldades deste desacordo entre mente e corpo é com o apoio da família.

Riley e a entrevistadora Barbara Walters
Um excelente documentário de 2007, My secret self, conta de maneira direta e extremamente comovente a história de três famílias com crianças transgênero. Quando Richard - hoje, após sua transição, uma garotinha chamada Riley - tinha 2 anos e meio, sua mãe encontrou-o na banheira tentando manejar um cortador de unhas com o intuito de cortar seu pênis. Aos 6 anos, Richard disse-lhe: "Mamãe, eu gostaria de não existir. (...) Se eu morresse, você ficaria triste, mas se eu nunca existisse, você nem saberia." 

No site da Fundação Transkids Purple Rainbow, lemos: "Tentar ensinar uma criança transgênero a ser o oposto do que ela é [equivale a ensinar-lhe] como a sociedade espera que ela se comporte com base em sua genitália. Dizer a uma criança: 'Você é um menino, você tem pênis' (ou o oposto, para uma criança de sexo biológico feminino) só reforça os sentimentos de desconforto. Este 'ódio do corpo' muitas vezes leva a transtornos alimentares, automutilação e suicídio."

"Sinto pena dos pais que não conseguem fazer isso pelo seu filho, (...) expor seus sentimentos e dizer 'eu te amo, não importa se você é gay, lésbica ou transgênero'. Em que isso importa? É seu filho!", diz a mãe de Jess.

O que deve fazer um adulto para proteger sua criança do preconceito e da discriminação? Aceitá-la.






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Quem fui, quem me tornei - Como envelhecer mulher


por Barbara Falleiros

Nossas mães sabiam envelhecer... elas aceitavam bravamente e ingenuamente os cabelos brancos e as rugas; elas substituíam a beleza pelo espírito, a juventude pela graça, a galanteria pelo bom humor, o amor pela amizade.” (Alexandre Dumas filho, Un père prodigue, 1859)

O último post da Tággidi (este mesmo) levantou a questão do envelhecimento e da nossa construção de um lugar no mundo. Que perspectiva angustiante é esta diante da qual se veem tantas mulheres que, privadas então da capacidade de dar a luz e de provocar o desejo no outro, têm sua identidade esvaziada à medida em que as rugas aumentam. Quem ser quando não se é mais “mãe” e “mulher” (quero dizer, quando esta identificação não mais se produz)?

François Villon, grande poeta francês do final da Idade Média, desenvolve o tema da decrepitude na Balada da Bela Armeira, ecoando os lamentos de todas “estas pobres mulheres que estão velhas”. A bela armeira relembra seus amores passados e chora a perda da sua beleza à qual homem nenhum anteriormente resistira. O sentimento de decadência é a tal ponto intenso que conduz à tentação do suicídio. Não há possibilidade de existência na suposta ausência de um poder de sedução.

Ah, velhice, vil, traiçoeira,
Por que tão cedo já me abate?
O que me impede, a mão certeira,
Que de um só golpe eu me mate?

Segue, com extrema força, a imagem desta velha que se observa, nua, e lamenta profundamente o seu estado: “Quelle fus, quelle devenue!” – “Quem fui, quem me tornei!

Quando à nudez sou recolhida
E me vejo tão transformada,
Pobre, seca, magra, encolhida,
 A Bela Armeira, ilustração de Joseph Hémard, Paris, 1921
De fúria fico transtornada.

(...)
Fronte em ruga, cabelos gris,
Sobrancelhas baixas, destintos
Olhos de outro mirar feliz
Que venceram os mais distintos;
Nariz curvo, de belo extinto,
E as orelhas murchas, pendentes;
Rosto frouxo, morto, retinto,
Queixo em pregas, lábios cadentes.

Eis que a beleza humana afunda!
Braços curtos, mãos contraídas,
E espáduas viram corcundas.
Mamas, como? Estão retraídas;
O recanto? Fiu! Quanto às coxas...
Coxas não, coxinhas cozidas
Mosqueadas como salsichas.

Apesar da descrição (tragi)cômica das velhas pernas, manchadas e pintadinhas como linguiças, a constatação é dura: “les vieilles n’ont ne cours në estre / ne que monnoye qu’on descrye” – isto é, as velhas perdem todo seu valor, como moedas retiradas de circulação.

Mas a memória da juventude de cada uma das pobres mulheres que escutam os lamentos da bela armeira parece acalmar sua fúria inicial e conduzir à resignação: “ainsi en prent à maint et maintes” – o tempo, inexorável, não poupa ninguém, destruindo tanto homens quanto mulheres.

A dependência do olhar do outro (do homem) na construção da identidade feminina contrapõe-se então, no final do poema, à imagem de uma pequena comunidade de mulheres, agachadas em torno do fogo.

O bom tempo, assim, lamentemos,
Entre nós, tão pobres velhotas,
E em roda, agachadas fiquemos,
Empilhadas como pelotas,
Junto a esse fogo de gravetos,
Aqui aceso e logo extinto.
Onde os encantos tão facetos?
É o fado a todos indistinto. [1]

Desta imagem de precariedade ressai uma profunda melancolia, característica da época – a Idade Média que se termina – e da poética de Villon. Mas ao pensarmos nessas mulheres juntas, não seria este um caminho possível na busca de um sentido na vida daquelas que, ao envelhecerem, são confrontadas à solidão? Substituir o amor pela amizade?

Projeto arquitetônico da Casa das Baba yagas
Penso, na verdade, no projeto de uma comunidade de senhoras em Montreuil, na periferia de Paris, a Maison des Babayagas, do nome da velha bruxa do folclore eslavo. O projeto – utopista e militante – dessas senhoras feministas é manter uma casa autogerida, com atividades esportivas e terapêuticas, uma casa solidária, preservando a identidade de cada moradora, uma prática cidadã, com abertura à vida política, social e cultural, e uma prática ecológica, com uma gestão rigorosa da água, da energia e do lixo. Depois de 17 anos lutando por este projeto, a militante Thérèse Clerc espera que a casa, que acolherá 21 idosas, além de contar com 4 alojamentos para mais jovens e uma Universidade dos saberes dos velhos no andar térreo, seja inaugurada ainda este ano.

Como envelhecer? Ajudar-se na luta contra a dependência, cultivar a autonomia, estabelecer laços e trabalhar por um ideal. Eis uma primeira resposta.

Thérèse Clerc, idealizadora do projeto da Casa das Baba yagas
Para que a velhice não seja uma irrisória paródia de nossa existência anterior, só há uma solução: continuar a perseguir fins que deem sentido à nossa vida.
(Simone de Beauvoir, A Velhice, 1970)


[1] François Villon, Poesia, trad. Sebastião Uchoa Leite, EDUSP, 2000.