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Cara Carla Bruni, feminismo pra quê?

por Barbara Falleiros

Na semana passada, falei sobre o debate na França a respeito do casamento civil entre adultos do mesmo sexo e da falta de clareza, quando não da explícita má-fé dos setores mais conservadores da sociedade. Comentei especialmente o preconceito demonstrado por certos políticos do partido direitista do ex-presidente Sarkozy. Pois agora foi a vez da ex-primeira-dama-herdeira-modelo-cantora Carla Bruni, de volta à mídia para promover seu novo disco, dar a sua opinião sobre o assunto. Em entrevista à Vogue, ela se disse favorável ao casamento para todos: "Não vejo nada instável ou pervertido em famílias homoparentais". Ponto pra ela! Mas na sequência da entrevista, a princesa boêmia deixou escapar uma prova de que sua existência na Villa Montmorency (espécie de condomínio fechado, reduto dos ricaços em Paris) é muito distante daquela das mulheres do mundo real.

"Humm... Acho que me expressei mal."
Na minha geração - disse ela - a gente não precisa ser feminista. As pioneiras abriram o caminho. Eu não sou nem um pouco militante feminista. Por outro lado, eu sou burguesa. Eu gosto da vida em família, de fazer a mesma coisa todos os dias.
Foi o bastante para suscitar uma enxurrada de mensagens no Twitter (#ChereCarlaBruni) explicando porque nossa geração precisa sim ser feminista. Dias depois, Carla Bruni se explicou, disse que não era bem aquilo, que ela só tinha escolhido de se engajar em outras causas (a educação, a luta contra a Aids)... Mas, no fundo, o que mais me impressiona na sua fala é como se coloca a oposição entre a vida regrada de família (burguesa, como ela diz) e o militantismo feminista hoje, tudo isso após a defesa das famílias homoparentais. Quer dizer, a imagem de "abertura" com relação à configuração dos lares é traída por esta visão da família tradicional que é a sua, em que o pai é o grande homem de poder (presidente! Quer mais o quê?) e a mulher não pode ser feminista porque é, acima de tudo, discreta, com uma carreira menos importante que a do marido, assumindo a função maternal e cuja existência se coloca no campo da sensibilidade (arte, música).

Corpo contido, sorriso forçado, olhar baixo.
Para mim, o casal Sarkozy é um dos mais emblemáticos do velho "cada qual em seu lugar" nas relações. Este homem irrascível, baixinho e poderoso, e esta mulher longilínea e bela, que se apaga atrás dele como que para ressaltar ainda mais seu poder. É sempre impressionante retraçar a trajetória de Carla Bruni. A imagem que ela exibia antes era a da sensibilidade poética associada à liberdade sexual: uma longa lista de relacionamentos incluindo, entre outros, Mick Jagger, Eric Clapton, um editor francês e em seguida um filósofo, filho deste editor... E é curioso vê-la exaltar a rotina quando, anos atrás, declarava que a monogamia era entediante e a poliandria preferível! Que contraste com essa Carla Bruni-Sarkozy, primeira-dama e mãe modelo, que amamentou sua bebezinha (a amamentação não é assim tão comum na França), tirando do ombro do pai a responsabilidade do cuidado do bebê: "[Por não ter que preparar a mamadeira] Você não tem que levantar à noite. Mesmo assim, por solidariedade, eu abro um olho!" - declarou na época Sarkozy.

Por mais que ela tente se justificar, as declarações de Carla são um reflexo dessa sua vida em conformidade com os valores de sua classe e de seu meio. O que não reflete em nada os problemas cotidianos das mulheres de sua geração, tampouco da nossa. Por isso, vale a ocasião de lembrar mais uma vez porque precisamos, ainda hoje, do feminismo. Seguem alguns dos twitts em resposta:

Enquanto me perguntarem se eu sou a assistente do senador [ela é senadora], a geração seguinte precisará do feminismo.
Minha geração precisa do feminismo para que a chupeta não seja mais o cimento do casal, como dizem as revistas de merda. [em resposta à uma matéria da revista Elle que falava da felação como "um agrado que resolve os desacordos"]
80% das tarefas domésticas executadas pelas mulheres.

Precisarei do feminismo enquanto me disserem: "Coloca um decote" quando me vestir para uma entrevista de emprego.

Precisaremos do feminismo enquanto os homens que paparicam seus filhos forem vistos como perversos ou homossexuais.

Enquanto se disser que um cara "come" e que uma mulher "é comida", precisaremos do feminismo.

Minha geração precisará do feminismo enquanto o Carrefour fizer sua propaganda de compras online só com mulheres.
75000 mulheres adultas estupradas por ano na França são suficientes para me convencer de que minha geração precisa do feminismo.

Pergunte às mulheres que pegam ônibus no Cairo se a nossa geração precisa do feminismo!

Certamente precisamos de mais feministas do que de Carlas Bruni!

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Por que não há mais mulheres comediantes no Brasil

por Roberta Gregoli


A guerreira Dani Calabresa

Curti os comentários de um dos meus textos anteriores, sobre humor e escatologia. Talvez meu ponto principal não tenha ficado muito claro: não que eu ache que "falar merda" seja intrinsicamente bom, mas que precisamos de mais mulheres falando merda. Em outras palavras, argumentei contra um moralismo que obrigada as mulheres a se conformarem a estereótipos de delicadeza, timidez e contenção.

Em geral, a divisão entre o que é 'apropriado' falar na intimidade e publicamente não é só pessoal mas também cultural, e pode ser bastante repressora, principalmente para as mulheres. Basta ver aqui o depoimento da Dani Calabresa sobre mulheres fazendo comédia. Ela diz:

Eu acho que a sociedade permite que os homens sejam loucos e engraçados desde sempre. Então é bonito um menino falar palavrão, é bonito um menino arrotar, soltar pum. A menina que faz isso é louca. A mulher tem medo de se expor ao ridículo. Eu sempre fui mais moleca, eu era gorda, louca, queria fazer os outros rir. Para mim era normal, mas a mulherada quer passar maquiagem, quer ficar bonita. Hoje eu sou mais vaidosa do que há muito tempo atrás. Na TV as pessoas me produzem, gente, me penteiam, eu não sabia fazer nada disso.

Aliás, o vídeo do qual este depoimento foi tirado me chocou tanto que resolvi analisá-lo em detalhe. Veja na íntegra:


0m01s

Dani Calabresa é apresentada como pizza nos seguintes termos: "O motoboy já entregou a nossa pizza?" Justo, podem dizer, já que esse é o nome artístico dela. Mas será que a mesma piada se aplicaria a um comediante homem chamado, sei lá, João Melancia? "O fruteiro já entregou nossa melancia?" Me cheira a padrão duplo.

1m

A segunda piada machista é do desagradabilíssimo Marcelo Mansfield, sobre as vezes em que "comeu calabresa". Duas piadas machistas em menos de 1 minuto e meio.

1m23s

Eu AMO quando ela responde no mesmo nível e diz que não faz "nenhum personagem tão bem como o Mansfield se faz de homem... Quase engana". Vale a pena ver o vídeo só por esse fora e pela expressão no rosto dele.

2m33s

Danilo Gentili, já citado aqui por sua piada racista, insinua que ela dormiu com alguém da MTV para manter o emprego. Ela não se submete e responde de novo à altura e com convicção, entrando na brincadeira e, por consequência, ridicularizando a fala dele.

3m23s

Ela desafia Mansfield de novo, esfregando o currículo na virilha. Referências a vagina são sempre tabu e achei ótimo ela usá-la contra o misógino de plantão.

5m20s

A câmera dá um close up longo nas pernas dela. Alguma dúvida de que isso nunca aconteceria com um humorista homem?

5m30s

Referência a quando a humorista era "gordinha". Sem comentários.

7m08s

Mansfield faz uma piada inteligentíssima #not sobre a "dicção" dela, subentende-se voz aguda, ou seja, de mulher. Ela, como sempre, responde na lata: "Você tem que ligar o aparelho auditivo". Muito menos criativo e perspicaz, Mansfield responde "haha, como você é engraçada, Dani". Coitado.

7m33s

Danilo Gentili pergunta se a Playboy nunca a procurou. Claro, porque mulher não pode só ter talento, tem que "mostrar o talento" na mente mesquinha dele.

7m55s

A partir desse momento a questão do gênero relacionada ao humor entrar em cena aberta e diretamente e Gentili diz que Dani é a melhor humorista mulher do Brasil.

8m11s

Mansfield mina a afirmação de Gentili, dizendo um "é" irônico. De novo, ela responde rápida e certeira: "Quer meu posto, né?" Ele responde dizendo que não é tão masculino. Ahn? O assunto não era a melhor humorista mulher? Melhor dar a ela o título de melhor humorista, ponto. Os dois homens humoristas desse programa, pelo menos, ficam léguas na retaguarda em comparação à rapidez, ousadia e inteligência dela.

8m30s

Gentili pergunta por que não há tantas mulheres humoristas no Brasil e Dani Calabresa dá o depoimento transcrito acima.

9m25s

Mansfield insinua que ela não é talentosa, por isso precisa se maquiar. Mais uma piada machista, sem contar o bullying.

9m32s

Gentili pergunta se foi o casamento que a deixou mais vaidosa e ela, para mim infelizmente, diz que sim.

10m27s

Mais uma piada abertamente machista: Gentili diz que amarrou uma vassoura no microfone para ela fazer stand-up. Inaceitável.

11m22s

Gentili insinua que ela se prostituiu para ganhar a vida. Inaceitável e tosco.

13m20s

Gentili pergunta quando ela terá um bebê. Por que as pessoas se sentem no direito de tal invasão da privacidade alheia quando se trata de ter filhos? E alguém imagina a mesma pergunta sendo feita a um homem na mesma situação? #padrãoduplo

13m30s

Roger, da banda, passa uma cantada. Pessoas, se liguem: cantada não é elogio, é desrespeito. Ela reage, deixando o cantador sem graça #yes

14m12s

Gentili diz que, na época (quando ela era gorda, entende-se), a única maneira de dar no couro para ela era "entrar no coro". Inaceitável.

16m17s

Márcio Ribeiro, outro comediante convidado, a assedia sexualmente, no que é, para mim, o momento mais chocante do programa. Passar a mão na perna de maneira indesejada é assédio sexual. E fica claro pela expressão e reação dela que a ação é indesejada e não consensual.

18m32s

Ela faz piada sobre o pênis do marido, sinalizando a própria vida sexual. "É como andar de banana boat todo o dia!" Como é bom ter mulheres fazendo piadas sobre sexo de maneira não leviana.

Contagem final


Em menos de 21 minutos, uma artista consagrada tem que passar por:

  • 11 piadas machistas
  • 7 ocorrências de bullying
  • 1 take voyeurístico do seu corpo
  • 1 ocorrência de assédio sexual
Tudo em rede nacional.

E ainda perguntam por que não há mais mulheres comediantes no Brasil.


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Veja que lixo

por Roberta Gregoli

Pura estupidez ou algo mais?
Eu tinha planejado continuar falando de humor, mas é claro que o texto homofóbico da Veja não poderia passar batido neste botequim.

O texto teve imensa repercussão nas redes sociais, gerando memes como a figura acima, a trend #vejaquelixo no Twitter, um protesto virtual no Facebook que já conta com mais de 4 mil participantes e até uma paródia envolvendo Hitler. Não vou falar sobre o texto em si porque acho que os principais problemas, inclusive os de ordem lógica, já foram muito bem abordados aquiaqui.

Faço minhas as palavras do deputado Jean Wyllis quando diz que "[o]s argumentos de Guzzo contra o casamento igualitário seriam uma confissão pública de estupidez se não fosse uma peça de má fé e desonestidade intelectual a serviço do reacionarismo da revista Veja". É esta desonestidade intelectual que me interessa, da qual o texto da Veja é sintoma e reforço. 

Primeiro porque o colunista que escreveu o texto não é um repórter pouco experiente e ingênuo, como pode a princípio parecer pelo tom retrógrado e desinformado de seu texto. Segundo a própria revista:
A história de José Roberto Guzzo, que assina suas colunas com as iniciais J.R., confunde-se com a de VEJA. De 1976 a 1991, por quinze anos, portanto, Guzzo foi diretor de redação da revista. Há seis meses ele voltou como colunista e agora, com sua análise rigorosa e fundamentalmente bem escrita, passa a revezar com Pompeu na última página [...].
Veja
, 05/08/2008 na edição 497

Para os que dizem que não devemos comentar para não dar mais visibilidade ao caso (isso quando não lançam mão de uma ideia distorcida de liberdade de expressão, que, em outro momento, eu chamei de liberdade de opressão), é bom explicitar a abrangência do artigo. A revista Veja é a mais lida do Brasil com uma tiragem de 1.203.766 exemplares, sendo 923.219 assinaturas. Não comentar, neste caso, é deixar que a posição da revista, que chega na casa de quase 1 milhão de pessoas semanalmente, passe como perspectiva única e inquestionável. Precisamos fazer muito, muito barulho.

E barulho virtual é barulho que se ouve. Para provar o papel das mídias alternativas definindo os rumos do Brasil, nada melhor do que o exemplo de José Serra. A compra do apoio, desvelado e sem apologias, da grande mídia não foi o suficiente para convencer os eleitores, e Serra terminou a eleição para a prefeitura de São Paulo tendo a si mesmo como pior adversário. Com um índice de rejeição de 30% em junho, o número chegou a 52% em final de outubro, tornando sua eleição matematicamente inviável, independente do adversário.

Serra da Veja
O papel das mídias alternativas foi fundamental neste processo, seja divulgando a publicação do livro A Privataria Tucana, totalmente boicotado pela grande mídia, seja mostrando, através do uso do humor, Serra sob uma luz menos amistosa:

Serra das redes sociais
#Serraloko
É normal e mesmo positivo que existam canais de tendência conservadora, afinal, vozes plurais são necessárias numa democracia. O problema é que na mídia tradicional brasileira o espaço é desproporcionalmente ocupado para uma única voz. Veja, por exemplo, este 'debate'. Os 'debatedores' incluem o próprio J. R. Guzzo e Reinaldo Azevedo, o mesmo que defende, em seu blog ("um dos mais acessados do Brasil"), o pastor Silas Malafaia com títulos tragicômicos como "O combate à homofobia não pode ser 'catolicofóbico', 'evangelicofóbico', 'diferentofóbico'. Ou: Movimento gay quer passar de beneficiário da liberdade de expressão à condição de censor?".

Coloco a palavra debate entre aspas porque, como não há pessoas com opiniões divergentes, ela não se aplica. Mesmo fisicamente, os 3 'debatedores' e o moderador se assemelham: são todos homens, brancos, de meia-idade para cima. Em vez de 'debate' deveriam usar 'bate papo' ou 'troca de figurinhas'.

Veja redefinindo a palavra 'debate', que passa a
significar 'tapinhas nas costas entre compadres'
Eu já defendi em outra ocasião que esse discurso perversamente distorcido, imposto com uma linguagem agressiva, e, em última instância, ignorante, como o exemplificado pela Veja são legados da ditadura militar brasileira, pois se trata de um discurso de legitimação de uma tradição que tem na sua base a quebra dos direitos humanos.
Se o paralelo parece tênue, basta acessar o acervo da revista para achar a capa de 13/08/1969 (ao lado). A revista rotula de terroristas os grupos de oposição à ditadura militar. Os ataques ferozes e por vezes infundados a figuras como Lula da Silva e Dilma Rousseff são, então, muito mais que incidentes isolados, efeitos de uma tendência política histórica.

Como o texto de Guzzo muito bem ilustra, essa tendência é violentamente reacionária e se sustenta mantendo os leitores da revista ignorantes (já que muitas vezes as reportagens se baseiam no senso comum e não trazem nenhum indício de opiniões diversas) e preconceituosos (já que legitimam discursos de ódio). Trata-se de uma mídia sustentada, enfim, pela desinformação.

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Mulheres, humor e escatologia

por Roberta Gregoli

Adoro peidar

Gosto muito de comédia stand-up. Como toda a forma de comédia, estão presentes comentários políticos, sociais e culturais, mas no stand-up, diferente de filmes e esquetes, esses comentários são feitos de maneira totalmente direta e imediata. 

O problema é a ideologia que está por trás dos comentários. A Má já falou sobre comédia stand-up e concordo: muito do que tenho visto no Brasil é de virar o estômago, humor reacionário em seu estado mais puro. Reflexo de uma mentalidade reacionária (mas o Serra perdeu a eleição e talvez assinou o óbito de sua carreira política, o que significa que ainda há esperança!). 

Já defendi que não existe humor inofensivo, mas isso não significa que comédia só possa ser usada para banalizar e naturalizar preconceitos e discursos de ódio.

Margaret Cho e fã alucinada
Ontem fui a um show de comédia stand-up da coreana-americana Margaret Cho, em Londres. Como conheço a maioria dos seus shows, sei que ela tem a boca suja, mas ontem estava particularmente suja. E achei ótimo. Precisamos de mais mulheres falando de assuntos ainda hoje tidos como tabu: menstruação, menopausa, masturbação e sexo, muito sexo. Enquanto santa e puta forem categorias mutuamente excludentes, precisamos de mulheres fazendo piada sobre a própria vida sexual, sobre boquete, sexo anal; enquanto houver a ideia de orientação sexual como algo rígido, com a heterossexualidade como norma, precisamos de mulheres falando sobre sexo com homens e com mulheres.

Precisamos também de mulheres falando sobre o aborto. E aqui alguns podem se chocar. Mas ora, se piada de estupro é "só brincadeirinha", por que de aborto não pode? #padrãoduplo

A Sarah Silverman é outra comediante norte-americana, também de minoria étnica (judia) e gerou polêmica com este post no Twitter, em abril deste ano:


Ela escreveu e eu traduzo: fui ali fazer um aborto rápido caso a lei seja revogada ("R v W" é uma referência ao caso Roe contra Wade, que levou à descriminalização do aborto em âmbito nacional, em 1973).

Sob protestos indignados dos conservadores, talvez principalmente por isso, o comentário é sensacional pois enfatiza o perigo iminente de se perder um direito conquistado pelas mulheres norte-americanas há quase 4 décadas. A graça da piada é que Silverman nem estava grávida, ela disse depois que só estava inchada por ter comido um burrito. 

Meninas passam bilhetes,
meninos 'passam' gases
Precisamos também de mulheres falando sobre temas escatológicos, o chamado 'humor de banheiro'. E a Margaret Cho é ótima nisso, ela fala sobre mijar nas calças, cagar nas calças, peidar. Independente de achar graça nesse tipo de humor ou não, acho importante que piadas assim estejam sendo feitas por mulheres. Porque homens falam abertamente sobre todas essas coisas, fazem piadas, enquanto nós somos educadas para, na melhor das hipóteses, usar eufemismos. E mais do que falar, nós precisamos rir dessas experiências porque o riso naturaliza. E não há nada mais natural do que nossas necessidades fisiológicas. É como se a nossa própria experiência corpórea em seu nível mais concreto nos fosse negada. Ou pelo menos nos fosse negado falar sobre ela, que é a mesma coisa. 

Ainda sobre mulheres e escatologia, me lembro que ano passado houve uma cena do filme Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011) que foi particularmente criticada:


quem não goste, mas eu adoro esse filme. Primeiro porque a comédia é um campo majoritariamente masculino e um filme escrito por uma mulher e estrelado só por mulheres é uma raridade. Segundo porque não acho o filme clichê, muito pelo contrário. A cena acima, que infelizmente está cortada neste clip, termina com a noiva se aliviando na rua, usando o vestido de noiva. Um belo comentário sobre a instituição do casamento. E o enredo em torno da rivalidade entre as madrinhas de casamento termina em solidariedade feminina, o que é raro em Hollywood justamente pelo potencial subversivo que isso guarda.

Ando pensando muito nas comediantes mulheres no Brasil, mas acho que esse é assunto para um outro post, mesmo porque ainda não consegui chegar a nenhuma conclusão clara. O maravilhoso humor desbocado da Dercy Gonçalves é certamente transgressor, mas não sei o suficiente sobre a nova geração... Talvez a Ingrid Guimarães e a Heloísa Périssé se aproximem mais desse tipo de humor subversivo com relação ao papel da mulher. Comentários?


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Capital Erótico my ass 2 - continuação


por Tággidi Ribeiro

Esse é apenas o meu segundo post da série sobre a entrevista da Catherine Hakim na Veja, mas sinceramente, gente, eu tou com uma preguiça dessa mulher que deus me livre. Então, não comentarei frase por frase como no post passado, ok?
Beleza e carreira - “Aristóteles já dizia que a beleza é melhor do que qualquer carta de apresentação. As vantagens de uma boa aparência podem ser percebidas desde a infância. Pesquisas revelam que 75% das crianças que se encaixam nos padrões de beleza aceitos universalmente, como um rosto simétrico, são julgadas como corretas e cativantes, enquanto só 25% das que não têm essas características são vistas dessa forma. Presume-se que os belos são mais competentes -- e eles são tratados como tal. Atratividade e beleza são fundamentais para a ascensão profissional das mulheres nas sociedades modernas.”
1. Aristóteles é o filófoso que amassou o barro da sociedade moderna (ou os modernos o juntaram a seu barro), mas não é por isso que precisamos lhe dar razão. Assim como não precisamos dar razão sempre à ciência, que vemos tantas vezes contradizer-se. Agora, direi três nomes para contradizer a última frase dessa fala: Hillary Clinton, Angela Merkel e Dilma Roussef. É o bastante.

As feias que me perdoem - “Beleza extrema é algo raro, um item de luxo. Nem todo mundo nasce Elizabeth Taylor. Quem não tirou a sorte grande deve aprimorar o seu poder de atração. Na França, é comum o conceito de Belle Laide, a mulher feia que se torna atraente graças à forma como se apresenta à sociedade e ao seu estilo. Christine Lagarde, a diretora do Fundo Monetário Internacional, o FMI, é um exemplo de mulher que não ostenta a beleza clássica, mas é extremamente atraente. Tem personalidade, carisma, charme e boas maneiras. Se você não é bonito, por favor, vá à luta. Cultive um belo corpo, aprenda a dançar, desenvolva habilidades. E distribua sorrisos. Como Marilyn Monroe sempre soube, o mundo sorri de volta para quem sabe sorrir. O sorriso é um sinal universal de acolhimento, aceitação e contentamento em relação aos demais. Torna a todos mais atraentes.”
 2. 'As feias que me perdoem, mas eu me embananei toda na hora de defender minhas teorias sobre como é necessário ser belo', deveria ter dito Catherine Hakim. Carisma, personalidade, charme e boas maneiras, saber dançar e sorrir não são atributos do belo, quer dizer, não são próprios do belo, qualquer que seja ele. Todos nós conhecemos gente bonita e antipática/ feia e simpática, assim como conhecemos gente bonita e simpática/ feia e antipática. Geralmente preferimos pessoas (bonitas ou feias) simpáticas (que saibam dançar ou não), porque é melhor conviver com elas. Ainda assim, o sucesso profissional dessas pessoas dependerá de outros fatores, inclusive de ordem cultural. Nós brasileiros costumamos ser bem simpáticos, dizem, e, realmente, aqui a simpatia muitas vezes supera a necessidade de compromisso ou competência. Que eu saiba, na França, compromisso e competência são bem mais importantes que simpatia. Não é, Christine Lagarde, oitava mulher mais poderosa do mundo?  

Pensem.
Qué dizê, gente, o que a Catherine Hakim faz basicamente é tentar nos convencer de que mulheres poderosíssimas como Christine Lagarde devem seu status a sua beleza, carisma e charme e não a sua competência e trajetória. Deem uma olhada na lista das 100 mulheres mais poderosas do mundo, da Forbes, e nesse documentário e tirem suas próprias conclusões.

O próximo post, ainda sobre Hakim, vai ser tenso. Aguardem.  

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Capital Erótico my ass

por Tággidi Ribeiro

Gente, eu resolvi fazer uma série de posts comentando as falas da Caherine Hakim, autora de um livro chamado Capital Erótico na Veja (aquela revista séria que a gente já conhece). A Catherine Hakim é uma socióloga 'feminista' que supervaloriza a beleza e incentiva as mulheres a usá-la como forma de 'subir na vida' - a beleza funcionaria como 'capital erótico' da mulher. É, pois é. Prepare-se para a picaretagem que muita gente tomou como pensamento polêmico e renovador do feminismo. E antes ou depois, leia isso aqui e aqui.

“Inteligência e beleza são duas habilidades necessárias para o sucesso e muito semelhantes entre si: metade é hereditária, metade é resultado de investimentos de tempo e esforço. Não existe diferença moral entre a aparência e a inteligência. Acho justo que os mais belos ganhem mais. É frequente presumir que quaisquer benefícios concedidos a pessoas atraentes são desmerecidos e injustos. Quando se fala em sucesso, ninguém duvida do mérito dos inteligentes nem questiona a exclusão dos ignorantes. Por que não recompensar também quem se destaca pela aparência, sendo ela natural ou conquistada?” 
Inteligência e beleza - Catherine Hakim fala de beleza e inteligência como se fossem conceitos estabelecidos e permanentes. Ela ignora a possível existência de diversos tipos de inteligência (verbal, matemática, corporal, musical etc.) e as diversas formas da beleza, que muda (e muito) tanto no tempo quanto no espaço. Veja aqui.

Beleza e inteligência são habilidades - Pode ser um problema de tradução o uso da palavra ‘habilidade’ na definição tanto de beleza quanto de inteligência, mas pode ser também uma forma de tentar enganar as pessoas. Relacionamos facilmente a palavra habilidade ao que pode ser manipulado e melhorado. Daí a aceitarmos o paralelo desonesto entre beleza e inteligência é um pulo. 

Beleza e inteligência são necessárias para o sucesso – Nem uma nem outra o são. Existe muita gente estúpida que obtém sucesso por ter oportunidades melhores na vida. E beleza só é necessária para o sucesso na carreira de modelo (e, mesmo nessa carreira, ser apenas lindo não é o suficiente – tente não ser fotogênico pra ver o que acontece...).
Beleza e inteligência são metade hereditárias, metade resultado de investimentos de tempo e esforçoFala sério. De onde essa mulher tirou isso? É obviamente necessário exercitar o cérebro ou o corpo – ou as inteligências lógico-verbais/corporais-cinestésicas se estagnam. Mas o quanto cada pessoa deverá empenhar de si para alcançar níveis de excelência em suas atividades, aí, meu bem, não dá para dizer. Quanto à beleza, bem, não é uma atividade, né? Não é habilidade e nem capacidade e nem dá para comparar nesses termos com a inteligência. Mas dá para dizer que tem gente que se esforça muito pouco ou nada pra ser lindo e tem gente que faz 50 plásticas e nunca vai ser a Monalisa. Ou seja, essa história de metade/metade é pura balela.
Não existe diferença moral entre a inteligência e a aparência – Não. Porque só dá pra imputar moralidade aos usos de cada uma. Não há moralidade na inteligência nem na beleza em si. E que discordem de mim os filósofos.

Acho justo que os mais belos ganhem mais. É frequente presumir que quaisquer benefícios concedidos a pessoas atraentes são desmerecidos e injustos – Toda profissão, praticamente, possui piso e teto de salário. Pagar menos que o piso é ilegal, pagar mais não é ilegal, mas pode ser desastroso para as contas da empresa. Pagar mais a pessoas bonitas quando essa beleza traz retorno efetivo à empresa é justo. Pagar mais em qualquer situação, ou seja, mesmo quando os bonitos não influenciam nos ganhos da empresa, só me parece uma ação financeiramente estúpida.  
Quando se fala em sucesso, ninguém duvida do mérito dos inteligentes nem questiona a exclusão dos ignorantes - Ah, tá, é tudo simples nessa vida. A inteligência (qualquer que seja ela) é sempre reconhecida. Não há equívocos. A ignorância também é reconhecida e os ignorantes são logo postos de lado. O mundo é equilibrado, né?

Por que não recompensar também quem se destaca pela aparência, sendo ela natural ou conquistada? – Ai, pois, né? Tadinho desse pessoal bonito (ou que se esforça pra ser bonito), que não vê o seu valor reconhecido na nossa sociedade...

Ninguém presta atenção em mim

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Romney e seus fichários cheios de mulheres

por Roberta Gregoli

Ninguém deixa Baby numa pasta
No segundo debate presidencial dos EUA no dia 16, Mitt Romney disse uma frase que lhe atormentará pelo resto da campanha e, oxalá, lhe custará a eleição:

I went on a number of women's groups and said: "Can you help us find folks," and they brought us whole binders full of women.

Abordei vários grupos de mulheres e disse: "Vocês podem nos ajudar a encontrar pessoas [para ocupar o gabinete]?" e eles me trouxeram fichários cheios de mulheres. (minha tradução)
A frase tornou-se viral ainda durante o debate, com direito a memes como a acima, uma infinidade de twítes inteligentes sob a hashtag #binderfullofwomen e até uma página no Facebook que já conta com mais de 330 mil membros.

Mas a fala de Romney não é um caso isolado, uma gafe impensada. Trata-se de um sintoma, mais uma manifestação do consistente ataque aos direitos já conquistados pelas mulheres norte-americanas, que passou a ser chamado, em inglês, de War on Women. E para os que acham que a expressão é exagerada, basta olhar para os acontecimentos dos últimos meses.

Planejamento familiar

Apesar de não articular claramente onde faria o corte orçamentário que permitiria aumentar o orçamento de defesa em US$ 2 trilhões, um dos únicos cortes declarados por Romney seria para o programa de planejamento familiar chamado Planned Parenthood, que os republicanos entendem encorajar o aborto. Educação sexual e a promoção de métodos contraceptivos, ambos extremamente importantes para o planejamento de vida das mulheres, estariam, então, certamente comprometidos.

Estupro de leve


O útero de acordo com os republicanos
Em agosto, o também republicano Todd Akin, membro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, falou em "estupro legítimo" (como se houvesse estupro de brincadeirinha) e, desafiando qualquer estudo científico e o mais básico senso comum, disse que "se o estupro for legítimo, o corpo feminino tem meios de bloquear [a gravidez]". Pulou a sexta série, coitado. Romney-Ryan rapidamente tentaram se dissociar do comentário, mas não é assim tão simples, já que a fala de Akin foi uma tentativa torpe de explicar por que o aborto nos casos de estupro deveria ser condenado, a mesma posição defendida pelo candidato à Vice-Presidência, Paul Ryan.

Aborto

Apesar de terem negado nas últimas semanas, há razões para se suspeitar que, caso eleito, Romney tentará revogar o direito ao abortamento legal, em vigor em nível federal nos Estados Unidos desde 1973. (Curiosidade: 4 anos antes do divórcio ser legalizado no Brasil... A nossa luta ainda é longa.) O mais amedrontador é que, como Presidente, Romney estará duas nomeações da Suprema Corte mais perto de conseguir, de fato, reverter a lei.

Um futuro de volta ao passado

A fala completa de Romney no debate está aqui e é possível verificar o tom totalmente paternalista e a linha de raciocínio toda equivocada. Como assim não existem mulheres qualificadas? Mais plausível que os assessores não sejam qualificados - ou vivam no século passado. E daí temos a pérola de que os grupos de mulheres enviaram "fichários cheios de mulheres". A palavra binder pode ser traduzida como pasta, fichário, arquivo ou catálogo, dependendo do contexto. Fico imaginando como são esses fichários: fotos e resumos, eu arrisco, talvez não muito diferente das revistas de moda.


A frase em inglês soa igualmente bizarra e cheia de implicações: o candidato então não conhecia nenhuma mulher que pudesse chamar para trabalhar com ele? Talvez não muito surpreendente numa religião que tem a poligamia (masculina, claro) em sua raiz, praticada até hoje, ilegalmente, no Utah. Entendemos, então, o quão distante Romney está das lideranças políticas e sociais femininas, de travar um diálogo para entender as necessidades específicas dessa comunidade. Para que ouvir a voz dessas mulheres? Pega aí o catálogo, vamos vem o que tem.

Em resumo, uma vitória de Romney-Ryan seria um enorme passo em direção ao passado. E aqui deixo com vocês Sandra Fluke, ativista feminista que foi proibida de participar de um debate republicano sobre o aborto no começo do ano, em seu discurso na Convenção Nacional Democrata. Infelizmente o vídeo não tem legendas, mas vale a pena gastar o inglês para ouvir este discurso lúcido e inspirador.

Sobre os dois futuros para as mulheres nos Estados Unidos: 
"Um desses futuros é uma relíquia ofensiva e obsoleta do nosso passado"

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Quem dá mais?

por Barbara Falleiros

Catarina Migliorini não é a primeira a tentar vender sua virgindade pela internet. Casos como o dela têm se tornado corriqueiros nos últimos anos (já se trocou a virgindade por um iPhone 4 e até por ingresso pro show do Justin Bieber)... Mas a história desta jovem catarinense tem uma particularidade: para promover seu leilão, ela teve de passar por uma seleção e todo o processo está sendo organizado e filmado por um documentarista australiano. Para evitar problemas legais, o ato será consumado (ou consumido) durante um voo da Austrália para os Estados Unidos. Beijos não estão no contrato. O produtor também escolheu um outro jovem virgem do sexo masculino (oh, belo exemplo de paridade!) e os lances podem ser dados pelo site Virgin's wanted.


Os argumentos de Catarina para participar do "projeto" são triviais: conhecer novos lugares, ganhar dinheiro para uso pessoal - e se sobrar, para alguma causa social -, continuar os estudos. Em 2008, uma estudante americana conhecida como Natalie Dylan, recém-graduada em Women's studies, associou-se a um famoso bordel de Nevada e colocou sua virgindade à venda com o objetivo de financiar sua pós-graduação. Diz-se que os lances ultrapassaram os 3 milhões de dólares. Diz-se também que tudo não passou de um embuste publicitário. Vai saber se não é também o caso de Catarina e deste "documentário"... Mas, na verdade, isso pouco importa aqui, o que me interessa são os discursos que se constróem a respeito da "transação". Na época em que se tornou famosa,  Natalie Dylan reivindicou-se feminista e afirmou, ao explicar suas escolhas:

"Quando aprendi isso, tornou-se evidente para mim que a virgindade idealizada é apenas uma ferramenta para manter as mulheres em seu lugar. Mas então percebi outra coisa: se a virgindade é considerada tão valiosa, o que me impede de beneficiar do que é meu? E o valor da minha castidade está num nível em que os homens não podem competir comigo. Decidi virar o jogo e transformar minha virgindade em algo que me permitisse ganhar, dos homens, poder e oportunidade. Tomei a antiga noção de que a virgindade de uma mulher não tem preço e usei-a como veículo do capitalismo. (...) Para mim, valorizar a virgindade como algo sagrado é simplesmente inconcebível. Mas valorizar a virgindade monetariamente,  eis uma concepção que eu poderia adotar. Eu não vejo a venda de sexo como algo errado ou imoral (...)" [desculpem-me pela tradução precária, aqui está o depoimento completo]

Mas fazer do corpo uma mercadoria e do ato sexual uma "prestação de serviços" pode conferir efetivamente algum poder às mulheres? Ao ser tomada como produto, objetificada, negociada, a mulher não continua ocupando uma posição de subjugação ao domínio sexual do homem? Reclamar o controle do próprio corpo e da própria sexualidade num contexto que reforça a ideologia patriarcal e suas relações de poder, não é continuar a gritar a liberdade de dentro de uma gaiola?

De acordo com Carole Pateman, em seu livro O Contrato sexual (1988),

"Quando os corpos das mulheres são vendidos como mercadorias no mercado capitalista, (...) a lei do direito sexual masculino é afirmada publicamente, e os homens ganham reconhecimento público como proprietários sexuais das mulheres, isto é o que há de errado com a prostituição."

Minhas perguntas acima não eram retóricas. Não sei mesmo o que pensar sobre isso... O problema da prostituição é de uma complexidade ímpar e suscita debates com uma infinidade de argumentos contrários, mesmo se falarmos apenas da chamada "prostituição de livre escolha" (que se opõe à "prostituição forçada"). Talvez possamos retomar essa questão em uma próxima ocasião. Por hoje, gostaria apenas de abrir o debate e comentar as regras do leilão que me chamaram a atenção, no tal site Virgin's wanted... Nas regras para os compradores, o vocabulário utilizado faz do ato em questão uma transação mercantil como qualquer outra: vende-se "a virgindade de um homem e de uma mulher" e objetiva-se "proporcionar uma experiência de compra agradável". Mas certas nuances mostram bem como funciona a objetificação de que falei acima. Rapidamente, percebe-se que não se trata de modo algum da contratação de um serviço sexual, mas da dominação e posse de uma pessoa: do direito à virgindade do vendedor ("to buy the right to the seller's virginity"), passa-se à compra da pessoa, d@ virgem ("purchasing the virgin"; "buy the virgin").

Uma última observação: alguém poderia contra-argumentar dizendo que não há aí qualquer problema de gênero, que homem e mulher estão em pé de igualdade, visto que os participantes são um garoto e uma garota. Mas a virgindade de um homem não se prova. E a de uma mulher, se tira. Vale notar, então, a enorme diferença na demanda. Quem são os compradores e que produto preferem? Até a noite de sábado, o jovem Alexander tinha recebido sete lances chegando a USD$ 1,300, sendo que quatro tinham sido feitos por homens (embora estes nem sejam elegíveis, visto que as regras definem claramente o ato sexual, neste caso, como a penetração do pênis na vagina). Os treze lances que recebeu Catarina, por outro lado, já alcançaram USD$ 160,000... Como negar, então, que o que motiva estes consumidores é a dominação machista?

De um produto a outro: a camiseta sai por 20 dólares


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Femen Brazil e os perigos da incoerência


por Barbara Falleiros

"Sei que não vou ficar nessa posição de organizadora do Femen para sempre. Eu quero ter meu marido, minha família, minha carreira..."

É assim que Sara Winter responde à pergunta de Marília Gabriela sobre como imagina seu futuro: deixando o ativismo direto para cumprir um papel convencional no núcleo familiar. É bem verdade que ela espera continuar trabalhando nos bastidores da organização. Ou então, gostaria de ser correspondente em áreas de conflito, já que "gosta de tiros, essas coisas"! ...E você, o que gostaria de ser quando crescer?

Nascido na Ucrânia, o grupo Femen tem conseguido grande destaque na mídia por conta de suas ações diretas, nas quais as integrantes manifestam com os seios à mostra, usando coroas de flores na cabeça e carregando cartazes com mensagens de protesto. A nudez é reivindicada como forma de provocação e como afirmação do controle sobre o próprio corpo, mas também como estratégia para que as ativistas sejam ouvidas - ou, ao menos, vistas...

E porque loira pelada de fato dá ibope, eis que Sara Winter, primeira integrante e porta-voz do recém-fundado Femen Brazil, passa a aparecer aqui e ali na televisão, no jornal, dando entrevistas. E a gente vê, com aquela dor no coração, que as "neofeministas" saíram no Fantástico e na Veja. Dor no coração porque é difícil enxergar a mensagem, o discurso da representante brasileira é raso, confuso, imaturo. E, num caso como este, a falta de clareza é uma porta aberta a deturpações de todo tipo.

Então o pessoal, que já vai ficando desconfiado, começa a cavar na internet o passado da tal Sara Winter. À cruz de ferro que ela tem tatuada no peito - junto à qual está o desenho de uma cereja, "para deixar mais feminino", segundo ela - soma-se o seu envolvimento com grupos e bandas skinheads, o seu pseudônimo que coincide com o nome de uma nazista inglesa, sua antiga admiração por Plínio Salgado, suas críticas à nudez das meninas da Marcha das Vadias... A interessada ora desmente, ora joga a carta do "erro de juventude", "as pessoas têm o direito de mudar de opinião". Claro que sim! Mas então é preciso ser capaz de elaborar e adotar um posicionamento ideológico coerente.

Os que já têm uma preferência pelas teorias da conspiração passam a desconfiar do movimento como um todo, da suposta xenofobia das ucranianas e de seu anti-islamismo exacerbado. Não sei ainda o que dizer sobre isso. De início, não consegui ver Sara como uma neonazista sagaz disfarçada de neofeminista para distorcer as reinvidicações históricas. Para mim, ela estava mais para uma garota perdida, deslumbrada com a causa da vez. Só não podemos esquecer que os perdidos também são potencialmente perigosos.

O processo de recrutamento do Femen Brazil é, diga-se de passagem, muito duvidoso. Grupo hierarquizado, liderança, processo seletivo com foto de topless e ritual de iniciação. O fato de Sara referir-se às integrantes como soldados ("Nós somos soldados, lutadoras" - na entrevista à Marília Gabriela) é um indício ainda maior do tipo de ideologia que parece orientar sua luta. Depois das críticas por ter qualificado o movimento de apolítico, o que é uma contradição em termos, o Femen Brazil passou a definir-se como apartidário. Mas as imprecisões permanecem, na página Facebook do grupo, onde lemos: “O Femen Brazil busca combater formas de tratamento desigual independente do sistema ou posicionamento político envolvido”. 

Marília Gabriela e a pele de pêssego de Sara Winter
Concordo com a Lola, de pouco adianta crucificar uma jovem de 20 anos. Mas o fato é que as inconsistências são flagrantes e que, mesmo se formos muito condescendentes, é no mínimo um profundo desrespeito aos combates feministas cavar um espaço na mídia sem ter grande coisa a dizer, ou pior, pra dizer bobagem. Está certo que este tipo de mídia consegue por si mesma estragar qualquer discussão – e é este seu objetivo. Você escuta a Marília Gabriela dizer que Sara não fez feio na Ucrânia porque também é linda e que tem uma pele ótima, e a primeira reação é procurar uma janela por onde se jogar. E quando Sara elogia a genética ucraniana que faz homens e mulheres “tão lindos que dá até raiva”, você se diz que, meu deus, no fim das contas a ideologia ariana está bem ali.

No final da entrevista, Gabi faz aquele jogo rápido, em que se deve responder com a primeira palavra que vem à cabeça:
Corpo de mulher? Sara responde: “Beleza”
Corpo de homem? Ela diz, depois de hesitar:  “Força”
A persistência dos estereóripos sexistas: forte como o papai, bonita como a mamãe!

Preciso dizer mais?
 
Uma última observação apenas. Se enfatizei aqui os deslizes da representante brasileira do movimento, as contradições parecem manifestar-se também do lado ucraniano. A revista Veja publicou uma entrevista com a ativista Inna Shevchenko. É claro que nunca saberemos o que Inna disse de fato, mas o que se lê nas entrelinhas das respostas publicadas é um discurso em conformidade com a ideologia que deveria combater.
«Sempre dizem que o movimento é apenas para mulheres jovens, bonitas e loiras. Como se nenhuma outra garota pudesse participar. Isso é uma visão errada, porque cada mulher que faz topless por algo em que acredita fica bonita »

O que me causa estranhamento nesta resposta é o fato de assumir-se que a legitimidade feminina deva passar pela beleza: através do seu engajamento, até as feias ficam bonitas. O comentário diz respeito à beleza física. Mas porque diabos é necessário que a mulher fique, de uma forma ou de outra, bonita? Por que a beleza é um critério definidor?


Suponhamos que Inna não quisesse dizer isso e que o jornalista da Veja tenha feito uma edição tendenciosa, ou que minha leitura seja equivocada. Mas aí você entra na lojinha virtual do movimento e descobre que elas vendem por 70 dólares quadros carimbados com os seios – seios que procuram “dessexualizar” – e que você pode pedir sua obra “autografada”. Como assim?


"You can order a personal stamp breast activist with an autograph"
Achei estranho. Alguém me explica?

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A Islândia e a crise: a hora das mulheres?


por Barbara Falleiros
 
Quando li, aos 10 anos, a Viagem ao centro da Terra de Júlio Verne, a Islândia tornou-se para mim a terra misteriosa por excelência. Eu a imaginava toda envolta em brumas e fumaça de vulcão. E quando, anos mais tarde, conheci uma garota islandesa de nome impronunciável, grande, forte e loira, com o cabelo dividido em duas tranças - como se tivesse desembarcado momentos antes de um barco viking - esta imagem só foi reforçada.

Minha Islândia imaginária

Senhoras protestam contra a crise econômica

Mais recentemente descobri uma outra Islândia, ancorada na realidade, cuja população soube reagir aos efeitos da crise de 2008, recusando o pagamento da dívida, provocando a prisão de banqueiros, a queda do governo e a redação de uma nova constituição. Os mais entusiastas lembraram que o país teve a primeira democracia do mundo, com o Estado Livre da Islândia (de 930 à 1262) - mas tenho uma leve desconfiança em relação ao anacronismo do conceito... Seja como for, o país é atualmente o segundo no índice de democracia, pouco atrás da Noruega.

Curiosamente, foi numa dessas revistas femininas de cabelereiro - que, na França, vez ou outra se esforçam para discutir problemáticas feministas (e então colocam lado a lado as seções "Emagrecimento" e "A palavra às mulheres") - que li sobre Thóra Arnórsdóttir, candidata às eleições presidenciais na Islândia. Atenção spoiler! As eleições já passaram (30 de junho) e o presidente em exercício foi reeleito para seu quinto mandato.

Mas na imprensa francesa só dava ela!

Carla grávida, Sarkozy e Berlusconi 
Fiquei pensando no contraste. De um lado, na França, tivemos Carla Bruni, já famosa antes de se tornar primeira-dama. Famosa pela sua música, mas também pelo seu corpo e pela lista dos homens com quem se relacionou. Ela passou da esquerda para a direita, deixou a carreira de cantora em ponto morto durante o mandato do marido e, grávida, refugiou-se numa discrição altamente calculada. Do outro lado, Thóra, candidata também famosa em seu país (jornalista televisiva), carismática, inteligente. Lançou sua campanha à presidência já quase prestes a dar a luz, e logo voltou, com um bebê de 15 dias no carrinho ou no colo do marido. Marido este que, diga-se de passagem, cuida dos seis filhos do casal... Em uma matéria sobre a candidata, a revista feminina do jornal francês conservador Le Figaro apostou - o que não nos surpreende - no estereótipo maternal, com o título Thóra, mãe da Islândia, insistindo portanto nesta que se acredita ser a função primordial e inalienável da mulher (parece-me que este estereótipo também foi usado no período da campanha da Dilma, não é?).

 
Thóra durante a campanha, em sua casa, com o marido e o bebê recém-nascido
Mas se a imagem de Thóra encantou sobretudo os meios menos conservadores, é porque esta, ao conciliar um número importante de papéis, parecia encarnar com perfeição um ideal de mulher moderna: mãe, mas com uma carreira sólida, bonita, ativa e inteligente, simples, forte, com opiniões próprias...

Assim como a Islândia enevoada da minha infância, a figura de Thóra revestiu-se de uma fina camada de idealização. Mas para além de Thóra, devemos lembrar que a Islândia foi o primeiro país do mundo a eleger uma mulher presidente da República: Vigdís Finnbogadóttir ocupou este cargo de 1980 à 1996, quando cedeu seu lugar ao atual presidente. Além disso, a Islândia possui atualmente a primeira chefe de governo declaradamente homossexual, a primeira-ministra Johanna Sigurdardóttir. Esta casou-se com sua companheira no primeiro dia de vigência da lei a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo - e, detalhe - lei que teve aprovação unânime no Parlamento. Desde março deste ano, Svana Helen Björnsdóttir preside a Federação das Empresas Islandesas e, last but not least, Agnes Sigurdardóttir tornou-se em abril a primeira bispa mulher da Igreja protestante do país.

A bispa Agnes Sigurdardóttir
A crise parece ter tido como consequência positiva a abertura de portas para mulheres em cargos importantes de comando. "É chegada a hora das mulheres!", teria dito a bispa. Esperamos que sim. E eu continuo a sonhar com esta pequena ilha longínqua.