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por Mazu


por Mazu
Nesses seis anos de Lei Maria da Penha, existiram alguns casos em que a lei foi aplicada para resguardar a segurança de homens. Houve sobre isso debates e comentários mil, na mesma época, inclusive, em que se estava tentando estabelecer a constitucionalidade da lei, já que ela diferencia homens e mulheres, o que estava sendo interpretado por alguns como inconstitucional. Bom, direito é uma disciplina que me encanta muito, mas não sou especialista, logo não vou me meter a dar uma opinião. Eu trouxe esse assunto antigo à tona para falar um pouco da violência doméstica contra os homens. Acho que a primeira vez que lei foi aplicada para proteger um homem foi em 2008 em Cuiabá, salvo engano.
O caso foi o seguinte: um homem conseguiu a aplicação da lei para se defender de sua mulher que o estava agredindo: bateu nele, quebrou seu carro e tals. Não tenho detalhes do caso, na verdade, ninguém pode ter. Ele fez a denúncia e pela característica repetitiva das agressões pediu as medidas protetivas. Existe muita especialista que não curte esse negócio da lei se aplicar aos homens, mas me pareceu que o juiz foi super lúcido. Ele apontou que foi bem melhor que ele tomasse essa atitude do que tivesse buscado vingança pessoal e cometido alguma violência contra a mulher. Disse também que o número de casos de violência contra o homem é bem menor (o que também é mostrado pelo mapa da violência), mas que os homens não denunciam por vergonha e preferem tomar as próprias atitudes ou ficar quietos. Ou seja, os homens quando são agredidos, ou agridem de volta ou se calam.

E isso me lembrou uma amiga, assistente social em Campinas-SP, que me contou de um caso de um homem que tomava inúmeras surras da mulher e não fazia nada, quando minha amiga falou com ele, ele disse que morria de vergonha de fazer qualquer coisa porque onde já se viu apanhar de mulher? Lembrei também um episódio de Law and Order - Special Victims Unit (Episódio 10, temporada 3, "Ridicule") em que a vítima de estupro era um homem, e as estupradoras, três mulheres. Na série, o cara tenta denunciar e ninguém, além da nossa querida Detetive Benson, leva o cara a sério.
É fato que quando existe violência sexual contra mulheres ou homens, o agressor costuma ser do sexo masculino. Agora, se levarmos em conta que no Brasil, só com uma lei de 2009, que o homem passou a ser considerado também vítima de estupro, se houvesse ou existisse um caso como o do seriado, será que o cara denunciaria? E se denunciasse, será que alguém escutaria?
É possível o homem ser vítima e a mulher agressora. Os meninos não assumem isso ou qualquer outra vulnerabilidade porque simplesmente não foram criados e educados para isso. Aliás, na maioria, foram educados para morrer de vergonha dessas coisas, fingirem que elas não existem. E isso é raiz de várias coisas né? E não é bom para os caras não. Não mesmo. Nem para a gente também.

Eu sei e todo mundo sabe que a violência doméstica tem como vítima preferida a mulher, os números são incrivelmente maiores. Eu só queria mesmo tentar mostrar como uma sociedade machista pode ser hostil por inúmeros motivos aos homens também. Pensa só, um homem agredido pela parceira fica quieto por vergonha, uma mulher agredida pelo parceiro fica quieta por medo. Meu, não seria, sei lá, mágico viver em um mundo em que o machismo não existisse de ninguém para ninguém? E que violência e/ou tolerância à violência não fossem justificadas por bobagem nenhuma?
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por Mazu

por Mazu
Um dos objetivos do nosso blog é divulgar um pouco da teoria feminista, buscando desmistificar a fama de loucas queimadoras de sutiã e destruidora de lares que cerca ainda os militantes do movimento feminista.

Hoje vou falar um pouco do trabalho de mestrado de uma companheira do Coletivo Feminista da Unicamp, a Maira Abreu. Estivemos juntas no início da formação do coletivo e dividimos vários momentos e debates acalorados e produtivos. A dissertação de mestrado da Maira fala sobre o feminismo dentro da militância de esquerda e é muito interessante.
Para começar ela traz algumas definições básicas do que é feminismo (eu gosto sempre de lembrar que feminismo não é o oposto de machismo) e um pouco da história do movimento no mundo e depois começa a tratar do Brasil e do papel das mulheres durante a militância na época da ditadura.
Conversando com a Maira lá por 2004, ela na iniciação científica ainda, ela me contou da dificuldade que tinha de afirmar que existia machismo dentro dos movimentos de esquerda. Era como se os revolucionários fossem sagrados e perfeitos, e toda vez que ela tentava mostrar isso entrava em conflito com alguém. Enfim, fico feliz que ela tenha conseguido. E mais, concordo com ela, machismo não é necessariamente "privilégio" dos movimentos de direita ou mais tradicionais da sociedade. Convivi com militantes a vida toda e existe muito machismo dentro da militância de esquerda, pode ser velado, pode ser disfarçado (como é um pouco toda discriminação e preconceito na sociedade atual), mas existe sim. Está lá.
A dissertação da Maira, por sua vez, está aqui. Boa leitura e bora debater sobre isso. ;)
A dissertação da Maira, por sua vez, está aqui. Boa leitura e bora debater sobre isso. ;)
9 de julho de 2012
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por Mazu
Na boa, gente, namore ou não, dê muito, pouco ou não dê, não deixe que ninguém te julgue por isso, respeito é bom, todo mundo gosta e é lei na República Federativa desse nosso Brazilzão, que tem uma mulé como chefe de Estado, diga-se de passagem. Transcrevi um texto massa da Tiburi aqui para a gente, fica minha homenagem às namoradas e não namoradas:
por Mazu
12/06/2012
Véi, na boa. Odeio dia dos namorados. Antes que alguém me julgue pela falta ou presença de sexo e amor na minha vida, já adianto: considero-me uma pessoa amada pelos amigos, maridão, irmãos e tals. Então o fato de eu odiar o dia dos namorados não tem a ver com meus relacionamentos. Não gosto por vários motivos: para começar, existe uma pressão para não ser sozinho que eu não entendo (aprecio solidão e acho necessária até quando se está em um relacionamento); para terminar, a pressão é bem maior para as mulheres (só pra variar). Além disso, tem a questão comercial, odeio que o capitalismo consumista me diga que eu tenho dia certo para trepar, que bosta!
Esta fatídica terça-feira dos namorados, li de tudo por aí sobre isso. No Twitter, uma amiga querida disse que é melhor ser solteira do que ser como as namoradas chifrudas. Um colega disse que ia ter uma porção de mulher pensando "me coma, por favor, me coma". Enfim, tuítes machistas aqui e acolá e a gente bem sabe.
No mundo de hoje que sei lá por que as pessoas temem a solidão, parece que as mulheres são as que mais temem, ainda. Eu sei, eu sei, isso é tão século XIX que dá tristeza. Fora que se a gente for levar em conta os padrões da sociedade patriarcal, ser sozinha é uma puta bom negócio, casar para quê? Para ser a empregada doméstica de alguém? Casar, nessa sociedade, é um bom negócio para o homem que vai ter alguém para cuidar dele, já que ninguém o ensina a se cuidar sozinho (nas questões domésticas). Obviamente, estou me referindo a casais heterossexuais, deve rolar mais paridade nos casais homossexuais (eu imagino). Dessa diferença de funções no matrimônio, a gente volta para aquela questão de como são educados os meninos e as meninas. De qualquer maneira, ainda que tenhamos nos afastado um pouco disso hoje, a sociedade ainda vende relacionamento, casamento como um fim, um objetivo de vida, faz o mesmo com a maternidade também. Sem querer ofender, nem casamento, nem relacionamento, nem maternidade significam felicidade ou satisfação de maneira direta, como fins em si mesmos. E isso é bem pior quando se é mulher, porque, aparentemente, a responsabilidade é bem mais nossa. Enfim, nenhuma mulher é menos mulher ou vale mais ou menos porque não namora ou porque namora demais, porque é mãe ou porque não quer ser. Eu fico achando que isso está ficando claro, aí chegam essas malditas datas comemorativas e mostram que estamos na idade média ainda.
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| Não, obrigada. |
A autoenunciação do desejo das mulheres e a desconstrução do mito da maternidade
(Publicada na coluna da Marcia Tiburi na Revista Cult)
A maternidade é um mito que necessita de urgente desmontagem crítica. Eis a tarefa que a filosofia feminista deve colocar para si mesma hoje em contextos culturais que não promovem a liberdade de escolha das mulheres, pela qual, a propósito, apenas elas podem lutar.Em tais contextos administrados pela ideologia masculinista, mulheres que abortam ou afirmam não querer ter filhos são vistas como anormais. Do mesmo modo, mães que não ajam segundo certo padrão de maternidade em que a dedicação total à criança é a lei, seja por cansaço ou falta de afinidade com o mundo dos cuidados, são vistas facilmente como perturbadas.Pelo simples fato de desejarem carreira, diversão ou uma simples vida mais livre, muitas mulheres se sentem culpadas, ou desistem de um projeto profissional ou pessoal. Praticam a maternidade como a condenação heteroimposta.Certo é que colocar pessoas em um mundo como o nosso não é uma tarefa para quem não esteja muito bem preparado, mas raramente se pergunta a uma mulher se ela está, pois que não se espera dela que não esteja. Há um dever imposto às mulheres, mas ele é mascarado pelo argumento do “desejo que toda mulher tem de ser mãe”. O termo “mulher” acaba por designar o ser do qual se pressupõe um desejo que será sempre o de ser mãe. O dever reza que seja hábil para a maternidade pelo simples fato de poder parir fisicamente crianças.Na cultura masculinista, “mulher” não é um conceito, mas uma ideia formada de preconceitos. Isso quer dizer que se pressupõe um saber sobre o desejo (o que sente, pensa e quer) o ser heterodeterminado “mulher” antes que ele mesmo se pronuncie sobre algo como “seu próprio desejo”. Nesse sentido, a pergunta “o que quer uma mulher?” não ajuda a sair do mistificatório circuito masculinista que, ao tornar misterioso o desejo feminino, faz parecer que exista um desejo universal da “mulher” (ela mesma um universal), e não desejos individuais e singulares de cada pessoa humana.No processo de mistificação, o sistema masculinista usa um padrão discursivo sempre fundado na ultrapassada ideia de natureza que aos poucos se torna clichê cansativo. Contra a pré-suposta “natureza da mulher” ou a suposta maior proximidade da “mulher” com a “natureza” coloca-se o homem como um ser de cultura e de racionalidade. A mulher fica com a “sensibilidade”, o instinto, a irracionalidade etc.Não quero ser mãeUma mulher enunciar “não quero ser mãe” soa como algo absurdo à moralidade patriarcal desde que a maternidade é vista como função natural, não determinada culturalmente. Segundo o preconceito da “natureza”, uma mulher deve querer ter filhos e não deve pensar nem dizer que não quer. Por trás dessa ideia, vai o subtexto: “mulher” não deve ter opinião, muito menos desconstruir opiniões vigentes. Pois uma mulher que fale negando a natureza, sobretudo da sacrossanta “maternidade”, nega duplamente o estigma dado pelo masculinismo: além de expressar-se, o faz dizendo que não quer ser mãe quando se esperaria dela o contrário, que não se expressasse e se tornasse mãe.A simples negação na segunda potência põe o discurso masculinista em xeque. A frase tem o poder de negar a marcação como mãe (lembremos que a mulher é sempre marcada: como bela, boa, gostosa; ou feia, frígida, mal-amada etc.) por meio da qual uma mulher se tornou escrava da cultura da qual ela não pode participar senão na condição que esta mesma cultura a prioridetermina para ela, manipulando sua consciência, seu corpo, sua ação.Só que o masculinismo é uma retórica prepotente que manipula agilmente suas armas: a “mulher” que se pronuncie contra ele (e basta pronunciar-se) será marcada com heterodeterminações desabonatórias. A “mãe desnaturada” é como o escravo que ousa desobedecer ao patrão e não é interpretado senão como um fujão mal-agradecido.A maternidade como imposição cultural é uma manipulação dos corpos femininos e, como tal, não é ética. É isso que está em jogo quando mulheres são tratadas como “meios” do projeto de vida de outros e não como um fim em si. Somente o autoenunciado do desejo feminino é capaz de libertar as mulheres. Ele é o ato feminista por excelência, a ação discursiva e performativa que faz do feminismo uma ética em que está em jogo a soberania do desejo feminino.A soberania que apavora os moralistas quando se fala em aborto é a mesma que enerva o cafetão. A mãe desnaturada é o nome que o moralismo encontra para sustentar autoritariamente a suposta verdade sobre o desejo das mulheres. Na contramão, a pergunta “o que quer o homem com o desejo das mulheres?” talvez nos ajude a entender melhor os subterrâneos de nossa cultura.
26 de junho de 2012
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O ocidente deplorou a morte de Amina Filali, de apenas 16 anos. Para quem não sabe da história, a adolescente marroquina cometeu suicídio por ter sido obrigada a casar com seu estuprador (o nome dele não foi divulgado). No Marrocos é previsto em lei que homens deixem de cumprir pena pelo crime de estupro casando-se com suas vítimas. O estuprador de Amina achou por bem, então, casar-se com ela, em vez de ser condenado a até vinte anos de prisão. A família da moça concordou. Ela não. Infelizmente, Amina não era dona do seu corpo, nem de sua vontade.
Durante cinco meses de casamento, Amina foi constantemente agredida verbal e fisicamente, e repetidamente estuprada. Tentou voltar para a família, que não a recebeu. Sem saída para o inferno que seria sua vida, a adolescente tomou veneno de rato. Amina morreu no meio da rua – quando soube que ela havia ingerido o veneno, seu “marido” a arrastou pelos cabelos em via pública.
O ocidente, como dito antes, deplorou a morte da adolescente Amina Filali, em março deste ano. A comunidade internacional se mobilizou pela revogação da lei que obriga mulheres estupradas a casarem-se com os homens que as estupraram – o que ainda não aconteceu. Mesmo aqui no Brasil, onde em geral as vítimas de estupro enfrentam a desconfiança da opinião pública, Amina despertou compaixão.
Sei que muita gente deve ter falado ou pensado sobre a condição das mulheres orientais – sobre o quanto elas ainda sofrem com a falta de liberdade. Contudo, o pano de fundo da situação das mulheres orientais não difere do nosso e o fato do ocidente ter olhado com respeito para essa morte não o torna menos responsável por ela. Nós também matamos Amina Filali.
Nós matamos Amina Filali porque ainda julgamos que uma mulher só tem valor se for sexualmente pouco ativa. Para os marroquinos, a questão é simples: se a mulher praticou sexo antes do casamento, consentido ou não, ela nada mais vale. Por isso a lei faculta ao estuprador (com quem a mulher não consentiu sexo) casar-se com sua vítima – só ele pode redimi-la e ampará-la, já que nenhum outro homem quereria para si uma mulher que já foi de outro. Mais flexíveis que os orientais, permitimos às moças certa liberdade sexual: ter alguns parceiros/namorados antes do casamento é considerado normal. Ter muitos parceiros, não. Mulheres de muitos parceiros são preteridas para o casamento, sabemos muito bem disso. Então ficamos assim: no oriente, uma mulher de valor deve ter apenas um único homem em sua vida; no ocidente, uma mulher de valor deve ter, no máximo, cinco homens. Lembro a todos que, até os anos 1960, a valoração da mulher a leste e a oeste era dada pela mesma marca de um só parceiro sexual para a vida toda. E pergunto: quando vamos chegar à conclusão incrível de que essa distinção ridícula não faz sentido?
Por não ter resposta, reafirmo: nós também matamos Amina Filali. Enquanto medirmos o valor de uma mulher por quantos parceiros ela teve ao longo de sua vida, continuaremos matando e estuprando mulheres. Enquanto as mulheres não forem donas de seu corpo e sua vontade, continuaremos. Enquanto não assumirmos que as mulheres são seres humanos e não propriedades, continuaremos estuprando e matando Amina Filali.
por Tággidi Ribeiro
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| Mulher carrega foto de Amina Filali em protesto |
O ocidente deplorou a morte de Amina Filali, de apenas 16 anos. Para quem não sabe da história, a adolescente marroquina cometeu suicídio por ter sido obrigada a casar com seu estuprador (o nome dele não foi divulgado). No Marrocos é previsto em lei que homens deixem de cumprir pena pelo crime de estupro casando-se com suas vítimas. O estuprador de Amina achou por bem, então, casar-se com ela, em vez de ser condenado a até vinte anos de prisão. A família da moça concordou. Ela não. Infelizmente, Amina não era dona do seu corpo, nem de sua vontade.
Durante cinco meses de casamento, Amina foi constantemente agredida verbal e fisicamente, e repetidamente estuprada. Tentou voltar para a família, que não a recebeu. Sem saída para o inferno que seria sua vida, a adolescente tomou veneno de rato. Amina morreu no meio da rua – quando soube que ela havia ingerido o veneno, seu “marido” a arrastou pelos cabelos em via pública.
O ocidente, como dito antes, deplorou a morte da adolescente Amina Filali, em março deste ano. A comunidade internacional se mobilizou pela revogação da lei que obriga mulheres estupradas a casarem-se com os homens que as estupraram – o que ainda não aconteceu. Mesmo aqui no Brasil, onde em geral as vítimas de estupro enfrentam a desconfiança da opinião pública, Amina despertou compaixão.
Sei que muita gente deve ter falado ou pensado sobre a condição das mulheres orientais – sobre o quanto elas ainda sofrem com a falta de liberdade. Contudo, o pano de fundo da situação das mulheres orientais não difere do nosso e o fato do ocidente ter olhado com respeito para essa morte não o torna menos responsável por ela. Nós também matamos Amina Filali.
Nós matamos Amina Filali porque ainda julgamos que uma mulher só tem valor se for sexualmente pouco ativa. Para os marroquinos, a questão é simples: se a mulher praticou sexo antes do casamento, consentido ou não, ela nada mais vale. Por isso a lei faculta ao estuprador (com quem a mulher não consentiu sexo) casar-se com sua vítima – só ele pode redimi-la e ampará-la, já que nenhum outro homem quereria para si uma mulher que já foi de outro. Mais flexíveis que os orientais, permitimos às moças certa liberdade sexual: ter alguns parceiros/namorados antes do casamento é considerado normal. Ter muitos parceiros, não. Mulheres de muitos parceiros são preteridas para o casamento, sabemos muito bem disso. Então ficamos assim: no oriente, uma mulher de valor deve ter apenas um único homem em sua vida; no ocidente, uma mulher de valor deve ter, no máximo, cinco homens. Lembro a todos que, até os anos 1960, a valoração da mulher a leste e a oeste era dada pela mesma marca de um só parceiro sexual para a vida toda. E pergunto: quando vamos chegar à conclusão incrível de que essa distinção ridícula não faz sentido?
Por não ter resposta, reafirmo: nós também matamos Amina Filali. Enquanto medirmos o valor de uma mulher por quantos parceiros ela teve ao longo de sua vida, continuaremos matando e estuprando mulheres. Enquanto as mulheres não forem donas de seu corpo e sua vontade, continuaremos. Enquanto não assumirmos que as mulheres são seres humanos e não propriedades, continuaremos estuprando e matando Amina Filali.
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| Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente |
4
por Tággidi Ribeiro
Há relativamente pouco tempo, eu comecei a olhar de forma muito diferente para as mulheres. Eu havia desde sempre sido um tanto quanto antipática a elas, ao passo que me dava muito bem com os homens, minhas companhias preferidas em todas as ocasiões. Havia, na minha trajetória, feito boas amigas, mas poucas. Havia conhecido mulheres em minha opinião interessantes, mas poucas. Tinha, no geral, pouco apreço pelo meu próprio gênero, que eu julgava dedicado em demasia à conquista da beleza e do casamento, invejoso, dado a picuinhas.
Que haja mulheres que se encaixem nesse estereótipo não é de estranhar. Como não é de estranhar que homens se encaixem no estereótipo cerveja, futebol e mulher (que, aliás, não define o que são, mas seus interesses comezinhos, e os reduz a seres desprovidos de subjetividade, logo, pouco humanos). O fato era que eu aceitava conviver com o estereótipo masculino e rejeitava o feminino, em relação ao qual me sentia completamente deslocada.
A questão vinha de criança. Filha mais velha, tendo um irmão menor, vi a hierarquia etária ser subjugada à hierarquia de gênero. Na minha memória, esse subjugo representou a primeira contradição do mundo adulto. O discurso de autoridade era muito forte: 'respeite os mais velhos' - e eu tendia a ser obediente. Mas quando esse discurso, com o qual eu havia concordado porque me parecera justo, deu lugar àquele da constituição de gênero (embora mais novo, meu irmão tinha mais liberdade que eu por ser meninO), eu protestei.
Sei que a contradição aqui parece ser a minha. Afinal, tal experienciamento do machismo tão cedo poderia ter facilmente me levado ao enfrentamento desse status quo e à rivalização com o sexo oposto, arbitrariamente posto acima do meu. O enfrentamento se deu de fato: contestava, sempre, desobedecia. Mas em vez de tomar os homens como “inimigos”, tomei as mulheres.
Consigo compreender o porquê: eram as mulheres que me instavam, pois que responsáveis por minha educação, a ser como elas. Aprender a cuidar da casa, ter bons modos, preservar a sexualidade foram todos ensinamentos femininos. Eram ensinamentos limitadores, me restringiam ao espaço da casa e esse era o espaço que não me interessava, não só ele, pelo menos. Eu queria mais era saber do mundo.
Bem, o mundo aconteceu comigo. Com o passar do mundo, como disse, comecei a olhar as mulheres de outra forma. Fui sabendo, conhecendo a História e histórias que, achei, fossem só minhas: histórias de abuso, de desrespeito - de violência em suas várias formas. Eu, que logo no início da adolescência me condoí com as desigualdades sociais, compreendi e rejeitei o preconceito contra negros e homossexuais, que deplorei a desproteção das crianças – eu não enxergava meu próprio rabo.
O espelho e a reflexão me reconciliaram com meu gênero. Pude compreender a minha pregressa condição de ‘antipática’ ao mesmo tempo em que entendia a mesma condição nas outras mulheres – é sempre mais fácil subjugar iguais se os fazemos julgar que não o são. Pude compreender as mulheres da minha infância e suas agruras, que eu ignorava.
Interessante é que só depois de me livrar da culpa, da ideia de ser uma mulher indigna e suja (detalhe cruel e, agora sei, comum às vítimas: era eu quem carregava a mancha pelos abusos sofridos, ainda criança e pré-adolescente, não os meus agressores), pude perceber melhor o desespero do meu gênero: o de receber de volta o silêncio que permite a violência.
Daí, o que precisei fazer foi quebrar o meu próprio silêncio.
Há relativamente pouco tempo, eu comecei a olhar de forma muito diferente para as mulheres. Eu havia desde sempre sido um tanto quanto antipática a elas, ao passo que me dava muito bem com os homens, minhas companhias preferidas em todas as ocasiões. Havia, na minha trajetória, feito boas amigas, mas poucas. Havia conhecido mulheres em minha opinião interessantes, mas poucas. Tinha, no geral, pouco apreço pelo meu próprio gênero, que eu julgava dedicado em demasia à conquista da beleza e do casamento, invejoso, dado a picuinhas.
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| Competição feminina como mecanismo de manutenção do patriarcado |
A questão vinha de criança. Filha mais velha, tendo um irmão menor, vi a hierarquia etária ser subjugada à hierarquia de gênero. Na minha memória, esse subjugo representou a primeira contradição do mundo adulto. O discurso de autoridade era muito forte: 'respeite os mais velhos' - e eu tendia a ser obediente. Mas quando esse discurso, com o qual eu havia concordado porque me parecera justo, deu lugar àquele da constituição de gênero (embora mais novo, meu irmão tinha mais liberdade que eu por ser meninO), eu protestei.
Sei que a contradição aqui parece ser a minha. Afinal, tal experienciamento do machismo tão cedo poderia ter facilmente me levado ao enfrentamento desse status quo e à rivalização com o sexo oposto, arbitrariamente posto acima do meu. O enfrentamento se deu de fato: contestava, sempre, desobedecia. Mas em vez de tomar os homens como “inimigos”, tomei as mulheres.
Consigo compreender o porquê: eram as mulheres que me instavam, pois que responsáveis por minha educação, a ser como elas. Aprender a cuidar da casa, ter bons modos, preservar a sexualidade foram todos ensinamentos femininos. Eram ensinamentos limitadores, me restringiam ao espaço da casa e esse era o espaço que não me interessava, não só ele, pelo menos. Eu queria mais era saber do mundo.
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“Isso é o que eu vestia quando
eu ‘Estava
pedindo...’”
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O espelho e a reflexão me reconciliaram com meu gênero. Pude compreender a minha pregressa condição de ‘antipática’ ao mesmo tempo em que entendia a mesma condição nas outras mulheres – é sempre mais fácil subjugar iguais se os fazemos julgar que não o são. Pude compreender as mulheres da minha infância e suas agruras, que eu ignorava.
Interessante é que só depois de me livrar da culpa, da ideia de ser uma mulher indigna e suja (detalhe cruel e, agora sei, comum às vítimas: era eu quem carregava a mancha pelos abusos sofridos, ainda criança e pré-adolescente, não os meus agressores), pude perceber melhor o desespero do meu gênero: o de receber de volta o silêncio que permite a violência.
Daí, o que precisei fazer foi quebrar o meu próprio silêncio.
20 de maio de 2012
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