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por Mazu
Uma vez, um colega com que trabalhei há algum
tempo atrás me perguntou: "Por que quase não existem grandes nomes
femininos na literatura?". Logicamente, refutei e citei os dois ou três
nomes que me surgiram de pronto na cabeça, mas ele continuou dizendo que eram
realmente poucas se comparadas com o grande número de homens. Eu era bem verde
naquela época, estava no primeiro ano do curso de Letras e, diante da
realidade, respondi: sei lá, talvez seja porque as mulheres são mães, e ser mãe
é um negócio que exige muito, né?
Depois disso, na universidade, levei o assunto a
um amigo querido e super estudioso de literatura que me disse: acho que não tem
a ver, a Cecília (Meireles) teve filhos e era incrível como poeta e como mãe.
Pelo menos, é o que dizem.
Com o Coletivo Feminista e um breve período de
militância estudantil, percebi que a questão era outra. E, ontem, lendo uma
matéria maravilhosa da Nina Rahe, na Bravo!, decidi retomar essa questão. Antes
disso, preciso dizer que a matéria em questão, "Mulheres ainda são minoria
na arte?", está imperdível. A Carta da Redação que é tipo um editorial
também está bem legal, pelo menos, a parte que a Nina escreveu, a parte do
Editor-Chefe, o "machista involuntário", está meio besta. Mas vale
demais a leitura.
Vou começar pela conclusão, afinal, estamos aqui
para subverter. As mulheres ainda são minoria na arte (e em vários outros
espaços) porque o patriarcado nos mantém "na cozinha". Entre aspas
porque não é necessariamente na cozinha, mas nos lugares em que nos é permitido
existir, numa sociedade super patriarcal. De maneira, às vezes, velada, às
vezes, escancarada, o patriarcado vai nos dizendo os lugares que, como
mulheres, podemos ocupar ou não. A Bárbara escreveu um post bem legal sobre o
espaço urbano, sobre ocupar espaço de maneira física, e sempre falamos dos
espaços de liderança nas questões sociais, mas, pela data de hoje e seu
significado, compensa retomar a discussão.
Existem várias maneiras de manter uma mulher na
cozinha, na matéria da Nina, por exemplo, ela mostra como determinadas obras
são depreciadas financeiramente e artisticamente, depois que se descobre que a
artista era mulher, e também como as mulheres não participavam de determinados
movimentos artísticos por questões sociais, por exemplo, não participavam de
discussões sobre os rumos da arte, porque isso foi feito em bares à noite, no
século XIX. No século XVI, as retratistas mulheres não puderam pintar nus
femininos porque isso não era socialmente aceito e assim vai.
Sob meu ponto de vista, uma das maneiras mais
eficazes de nos manter "na cozinha" é a maternidade. Existe todo um
mito sobre a maternidade envolver sacrifício e ser um trabalho de tempo
integral que é muito eficaz na manutenção da ordem patriarcal. Se os filhos
estão em primeiro lugar, todo o resto segue em segundo. E, nesse todo resto,
está toda a vida de uma mãe que vai passar a ser mãe e só.
Por favor, eu tenho amigas queridas que decidiram
ser mães e estão felizes com isso. De verdade, não questiono a opção, questiono
só esse mito do sacrifício. Penso que se vivêssemos em uma sociedade mais
igual, o sacrifício de criar um filho não seria tão grande, seria dividido entre
os envolvidos. E mães poderiam ser outra coisa além de mães.
Aqui em Brasília, tem uma propaganda de uma academia
que me irrita a vida inteira! Ela mostra pessoas saradíssimas que não tinham
tempo de malhar, mas agora têm porque a academia é 24 h de certo. Mas a questão
é, na foto dos homens, colocam a profissão, nas fotos das mulheres, só colocam que ela é mãe
e de quantos filhos. Sério, será que elas não são nada além disso?
Um monte de gente vai dizer, minha mãe é
uma ótima profissional, ok, mas pode ter certeza que ela abriu mãe de
uma porção de coisas para ser mãe e, talvez, ela nem seja a profissional que gostaria de ser, enquanto a maioria dos
pais, dificilmente, mudam os planos por conta da paternidade. Que fique claro que este post trata da questão de maneira geral, este ou aquele caso isolado não tem como analisar.
Também vai ter quem diga "existem mães que
abandonam seus filhos, existem pais que criam filhos sozinhos". Claro que
existem! Só que, na minha vida, conheci apenas um. Em contrapartida, o número de
mulheres que criam filhos sozinhas ou com uma participação inexpressiva dos
pais é bem maior. E quando um pai vai embora ou trabalha demais ou vive sua
vida, ele escuta um "você devia dar mais atenção pros seus filhos"
ou, no caso de abandono, um "canalha", no máximo. Já as mulheres que
abandonam filhos são a própria personificação do capeta, né? Onde já se viu? Só
para constar, não acho que ninguém deve deixar os filhos, mas quem sou eu ou
quem somos nós para julgar?
Estou com 31 e sou casada há um ano e meio, a
pressão familiar sobre filhos vira e mexe aparece. Eu sobrevivo, ignoro, sigo a
vida. Mas ser ou não ser mãe é, para a minha existência, uma das questões mais
complicadas. Eu até queria ser, mas eu também queria passar em um concurso
público, escrever uma estória e ter a minha vida, militar e tals. A impressão
que a sociedade em que vivo me dá é que se eu decidir ser mãe, todo o resto
vai ficar de lado. Outra impressão que essa mesma sociedade me dá é que se eu
não for mãe ou não for mãe como se julga adequado, sou uma pessoa ruim e
egoísta. Vai vendo o dilema.
A decisão para qual me inclino, cada vez mais, é
de não ser. Talvez se eu vivesse em uma sociedade em que ser mãe significasse o
mesmo que ser pai, eu seria. Talvez se eu vivesse em uma sociedade em que
casais em união homoafetiva tivessem o mesmo direito de ser mãe/pai que eu
tenho, eu seria. No mais, me desanima muito pensar na possibilidade.
Bom, é isso. Feliz dia das mães ou feliz dia do
sacrifício para as compas que optaram por isso. Talvez, o post tenha ficado um
pouco pessoal demais. Mas penso que essa questão da maternidade transcende
mesmo o pessoal e o social. Talvez a gente devesse mesmo homenagear as mães e
pensar no que elas são, no que gostariam de ser, além de mães.
12 de maio de 2013
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patriarcado
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por Thaís Bueno
Desde que comecei a contribuir para este blog, venho pensando em dedicar um post à minha experiência pessoal do nascimento do Pedro, meu filho. Quem acompanha este blog sabe que alguns posts já se dedicaram às questões e aos (vários) problemas relacionados à forma como a maternidade se dá no Brasil. Aqui e aqui, você teve a oportunidade de encontrar informações valiosas e ótimas reflexões sobre as consequências de um sistema que, obviamente, por questões econômicas, privilegia o parto por cesariana nos hospitais, e o resultado negativo que isso tem para mães e bebês.
Pois bem, minha experiência começou quando eu descobri que estava grávida e que em nove meses teria o Pedro. Apesar de a gravidez não ter sido planejada, eu não cheguei a pensar em aborto (não porque eu fosse contra o aborto - muito pelo contrário -, e sim porque sou a favor da vida). Depois daquela sensação “uau, eu não esperava por isso”, veio a sensação “então, vamos ver o melhor jeito de passar por essa gravidez, para mim, para o bebê e para o pai”.
A partir daí, foi um longo e maravilhoso processo, de nove meses, em que o aprendizado sobre muitas coisas foi bem mais relevante do que enjoos e outros detalhes. Entre as coisas que eu aprendi na prática e que eu gostaria de compartilhar, estas foram as mais valiosas:
1. A gravidez também é do pai da criança, em todos os sentidos e em todos os momentos. Obviamente, muita gente já sabe disso e vive repetindo que o homem deve participar do processo (ou “ajudar”, que é um termo que eu abomino). Mas, na prática, pela divisão de tarefas que temos em nossa sociedade, é muito fácil desistirmos de incluir o pai no processo, quando, por exemplo, você precisa ir a uma consulta pré-natal e o pai não pode ir porque precisa trabalhar. Situações como essa são só o começo de toda uma sequência de dificuldades. E, na outra ponta, está o parto em si, momento do qual, em boa parte dos casos, o pai não participa ativamente. E isso pode acontecer porque ele não tem vontade de participar, porque não “tem estômago” (ou melhor, foi ensinado a não ter) ou, simplesmente, porque o hospital não permite que ele entre na sala de parto (sim, é absurdo, mas acontece). Isso quando o hospital não cobra uma taxa para que o pai esteja presente no nascimento da própria criança.
Nos dias de hoje, nos grandes centros (infelizmente, cidades menores ainda carecem de grupos de parto alternativo), temos opções maravilhosas para o parto, que não só colocam o pai como parte ativa no processo, mas tiram de campo a figura do médico como aquele que vai determinar o curso da experiência. Nesse caso, a intervenção do obstetra é desnecessária, a menos que uma complicação ocorra. Mas, se tudo corre bem, o parto é, exclusivamente, do bebê, da mãe e do pai. E ponto final. Tirar de qualquer uma dessas três pessoas o direito de participar ativamente do processo é uma violência.
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| Cena do filme "O Sentido da Vida", do grupo Monty Python: "É menino ou menina?" "Acho que é um pouco cedo para começar a impor papéis à criança, não?" |
2. A gravidez e o parto em si são experiências valiosíssimas para aprendermos e termos mais consciência de nosso corpo. E esse aprendizado vem tanto nas leituras que você faz durante a gravidez (sim, é importantíssimo ler e se informar de tudo o que vai acontecer com você e o bebê) quanto na prática e na experiência do parto. Por exemplo, você aprende que nenhum corpo gera algo que ele não seja capaz de comportar – ou seja, aquela velha desculpa de que “o bebê é grande demais para que a mãe tenha um parto normal” é, em boa parte dos casos, pura balela, e não pode nem deve justificar uma cesárea violenta.
Você aprende, também, que o corpo não é só uma máquina separada da mente e comandada por ela. O corpo é muito mais complexo que isso, tem memória e subjetividade, e tudo isso aflora no momento do parto (se isso for permitido à gestante, claro). A experiência do parto normal é, para a gestante, literalmente, a possibilidade de se abrir ao mundo e assumir todas as qualidades que ela tem e que ficam guardadas devido a códigos de moral e de comportamento que nossa cultura nos impõe. Se você tem consciência disso, passa a entender a dor e o grito de forma totalmente diferente como são normalmente entendidos: dor e grito não significam sofrimento, e sim partes do processo, com suas respectivas funções. A dor e o grito nos conectam a uma dimensão do nosso ser que por muito tempo é reprimida e negligenciada, que foge aos padrões aceitos por nossa sociedade, e justamente por isso dor e grito são tão evitados em uma sala de parto convencional. Por isso, no ambiente de um hospital convencional, a mulher não deve sentir dor e também não deve gritar – pelo contrário, ela deve passar por tudo aquilo quieta, deitada, submissa às ordens de uma equipe de médicos e enfermeiras que, supostamente, sabem mais sobre seu corpo do que ela mesma. Mais uma violência.
3. A educação e a forma como as informações circulam em nosso país não ajudam, mas é importantíssimo estar ciente de tudo que determina a forma como o sistema de saúde se estrutura e o porquê de tantas cesarianas acontecerem em nosso país. Mães e pais devem ler e se informar a respeito dessas questões, e não apenas se basear naquilo que o médico diz durante as consultas. Muita gente sabe e já cansou de ouvir em programas de TV que o Brasil tem, todo ano, um número elevadíssimo de cesáreas desnecessárias sendo realizadas em seus hospitais. O que esses jornais não falam é que uma cesárea é muito, mas muito mais lucrativa para o hospital do que um parto normal. Eu não sou administradora hospitalar, mas sei que uma cesárea é um procedimento agendado, ou seja, o processo é muito mais rápido do que um parto normal, que pode (e atenção aqui para o "pode") levar horas e horas. Isso sem falar em todos os procedimentos médicos, ultraviolentos, todo o equipamento e todos os produtos farmacêuticos utilizados em uma cesárea e que, portanto, geram dinheiro para muita gente. Já o parto normal, além de mais longo, geralmente não exige intervenção médica, e por isso o lucro do hospital é menor.
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| Pesquisa realizada na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP [1] |
Nesse sentido, é necessário que mãe e pai se informem não apenas para ficarem cientes do processo e para garantirem um nascimento saudável e humanizado, mas como postura política mesmo. Em nossa sociedade, tudo o que não gera lucro pode ser considerado algo politicamente subversivo. E não falo de ONGs, pois sabemos que ONGs (ou a grande maioria delas) geram, sim, lucro. Falo de práticas saudáveis não apenas durante a gravidez, mas durante toda a vida da criança (a alimentação e a educação infantil são outros capítulos da mesma história, que igualmente podem ser entendidos e praticados de forma crítica e política).
Durante minha gravidez, o pai do Pedro e eu tivemos duas opções para o parto: por um plano de saúde privado, em minha cidade natal, onde toda a família mora e poderia ajudar no processo pós-parto; ou em um centro de saúde localizado dentro da universidade onde eu estudava, em Campinas, e que contava com uma equipe de parto humanizado e apoio fisioterápico e psicológico, que me seria oferecido pelo SUS.
Obviamente, a segunda opção me oferecia muito mais vantagens, mas a sigla SUS assusta muita gente (e eu mesma via o SUS como um cenário pós-apocalíptico). E a dúvida ia ficando cada vez maior, sem que conseguíssemos tomar uma decisão. Até que, em uma conversa com uma grande amiga, ela me falou: “Thaís, se você escolher o plano de saúde particular, o parto vai acabar em cesárea”. Depois disso, não tive mais dúvidas: fiz todo o pré-natal pelo SUS, longe da família, contando com o pai durante o parto, que foi natural e sem intervenção médica. Foi uma experiência maravilhosa e determinante para quem eu sou hoje (e também para o Pedro e para o pai dele).
Ou seja, meu conselho é: se está em dúvida, não tenha medo de colocar um grupo de parto humanizado na sua lista de opções para o nascimento de seu filho, ainda que o grupo signifique um parto pelo SUS. Informe-se, leia (hoje em dia há muita informação sobre parto humanizado em grupos na internet) e procure ser críticx, politicamente falando. Porque o que é politicamente bom para toda a sociedade também vai ser para seu bebê.
E para finalizar: a amiga sobre a qual escrevi e que foi tão importante para nós é hoje
madrinha do meu filho. Escrevo este post em agradecimento a ela.
OBS.: As atividades do Grupo de Parto Alternativo, do qual participei durante minha gravidez, acontecem no Caism - Centro de Apoio Integrado à Saude da Mulher), localizado dentro da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas.
[1] BARALDI, Ana Cynthia Paulin; DAUD, Zaira Prado; ALMEIDA, Ana Maria; GOMES, Flávia Azevedo; NAKANO, Ana Márcia. Gravidez na adolescência: estudo comparativo de usuárias das maternidades públicas e privadas. Disponível aqui. Acesso em: 11 mar. 2013.
11 de março de 2013
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violência
1
Como vemos, é todo o contrário da prática corrente, altamente medicalizada, reflexo de um modo muito característico de conceber a saúde e a sociedade. Hoje, no parto em hospitais, segue-se cada vez mais a cadência: privilegia-se a cesariana, ou se não é cesariana é episiotomia sem autorização, prende-se a parturiente em posição ginecológica e que ela grite mais baixo, oras! Por fim, depressa, um sorriso rápido para a foto e lá se vai o bebê embora... Num mundo em que só o que importa é o que é rentável, como o momento do parto escaparia aos moldes de uma linha de produção? Como reivindicar a vivência de uma experiência humana quando o que se quer do sujeito é a passividade anestesiada?
Essas práticas médicas influenciam e alimentam uma visão desnaturalizada do parto, um parto anotado na agenda: dizem que foi impressionante o número de cesarianas marcadas para o dia 12/12/12. Não duvido. Que importa se o bebê ainda não está pronto para nascer, desde que nasça numa data "combinandinha"? O mundo não acabou. Seguimos vivemos numa distopia.
Ao contrário do trabalho das doulas que auxiliam a mulher a "tomar posse" do próprio corpo, a violência obstétrica acontece justamente quando há uma apropriação do corpo da mulher e do processo do parto pelos profissionais da medicina, que passam a considerar todos os partos como patológicos e toda parturiente como uma paciente (ou seja, como aquela que sofre a ação): daí praticarem-se atos médicos e farmacológicos de forma rotineira, impedindo a mulher de participar ativamente do parto. O desrespeito e a desconsideração da parturiente podem tomar formas violentas e agressivas: comentários irônicos acerca do comportamento da grávida, broncas por causa de gritos ou choros, respostas evasivas a perguntas sobre o procedimento, rompimento da bolsa sem consentimento, toques vaginais frequentes, compressão do abdomen no momento das cólicas, episiotomia e raspagem do útero sem anestesia, impedimento de estar acompanhada por uma pessoa de confiança, caminhada e movimentos proibidos, impedimento de contato imediato com o recém-nascido, etc.
por Barbara Falleiros
"Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer"
Michel Odent (obstetra francês)
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| Racismo de cada dia: "Não quisemos ofender" |
Depois de informarem as mães sobre como e quando alisarem os "cabelos crespos ou rebeldes" de suas filhas para deixá-las "mais bonitas", a maternidade paulistana Santa Joana acaba de proibir a entrada de doulas no centro obstétrico. Como fizera dias antes no caso da mensagem racista, o hospital se defendeu evocando nobres intenções: não se trata de proibir as doulas, mas de restringir a presença na sala de parto a apenas um acompanhante, com o intuito de minimizar os riscos de infecção hospitalar. Em outras palavras, a parturiente tem a liberdade de escolher quem vai acompanhá-la: a doula ou o marido. O que pedir mais?
Poder-se-ia pedir à maternidade, por exemplo, que fornecesse os índices comparados de infecções em partos humanizados com doulas e em cesárias eletivas, assim como os índices de internações na UTI de mães e bebês nascidos por cesariana versus parto natural...
Conversei com a doula Thatiane Menéndez do Blog Espaço Abertto, que citou a frase que abre este post e que me explicou a importância das doulas nas práticas de parto humanizado:
Conversei com a doula Thatiane Menéndez do Blog Espaço Abertto, que citou a frase que abre este post e que me explicou a importância das doulas nas práticas de parto humanizado:
No pré-natal, a doula orienta, informa, acolhe e ajuda a mulher a se preparar para o parto. Em um parto humanizado, a mulher é sujeito ativo do processo, tomando as decisões em conjunto com a equipe. Para isso, ela deve conhecer e entender seu corpo e o processo do parto, precisa estar verdadeiramente empoderada e consciente, especialmente no Brasil, onde temos que lutar pelo simples e óbvio direito de caminhar durante o trabalho de parto.A doula ajuda a mulher neste processo de empoderamento. Durante o trabalho de parto, ela oferece apoio físico e emocional, ajudando-a a lidar com a dor. Seu trabalho continua no acompanhamento pós-parto, ajudando a mulher a lidar com a nova fase, com a descoberta da maternidade, com a amamentação e os cuidados com o bebê.De toda a equipe multiprofissional, a doula é quem mais tem contato com a gestante e que acaba criando com ela um vínculo maior, o que só traz benefícios durante o parto. A questão da proibição das doulas é incoerente, primeiro porque ela é uma profissional da saúde capacitada para este atendimento e não uma acompanhante, como o pai ou outros familiares. Segundo, o argumento do risco de infecções não tem embasamento científico e perde todo o sentido quando se permite a entrada de profissionais para filmagem e fotografia. Diversos estudos demonstram que a presença da doula pode reduzir em 50% as taxas de cesarianas (que no Brasil chegam a 80% no sistema privado de saúde, quando a OMS recomenda apenas 15%), 25% a duração do trabalho de parto, 60% os pedidos de analgesia, 30% o uso de analgesia, 40% o uso de forceps e 40% o uso de ocitocina (Klaus et Kennel, 1993)
Como vemos, é todo o contrário da prática corrente, altamente medicalizada, reflexo de um modo muito característico de conceber a saúde e a sociedade. Hoje, no parto em hospitais, segue-se cada vez mais a cadência: privilegia-se a cesariana, ou se não é cesariana é episiotomia sem autorização, prende-se a parturiente em posição ginecológica e que ela grite mais baixo, oras! Por fim, depressa, um sorriso rápido para a foto e lá se vai o bebê embora... Num mundo em que só o que importa é o que é rentável, como o momento do parto escaparia aos moldes de uma linha de produção? Como reivindicar a vivência de uma experiência humana quando o que se quer do sujeito é a passividade anestesiada?
Essas práticas médicas influenciam e alimentam uma visão desnaturalizada do parto, um parto anotado na agenda: dizem que foi impressionante o número de cesarianas marcadas para o dia 12/12/12. Não duvido. Que importa se o bebê ainda não está pronto para nascer, desde que nasça numa data "combinandinha"? O mundo não acabou. Seguimos vivemos numa distopia.
Ao contrário do trabalho das doulas que auxiliam a mulher a "tomar posse" do próprio corpo, a violência obstétrica acontece justamente quando há uma apropriação do corpo da mulher e do processo do parto pelos profissionais da medicina, que passam a considerar todos os partos como patológicos e toda parturiente como uma paciente (ou seja, como aquela que sofre a ação): daí praticarem-se atos médicos e farmacológicos de forma rotineira, impedindo a mulher de participar ativamente do parto. O desrespeito e a desconsideração da parturiente podem tomar formas violentas e agressivas: comentários irônicos acerca do comportamento da grávida, broncas por causa de gritos ou choros, respostas evasivas a perguntas sobre o procedimento, rompimento da bolsa sem consentimento, toques vaginais frequentes, compressão do abdomen no momento das cólicas, episiotomia e raspagem do útero sem anestesia, impedimento de estar acompanhada por uma pessoa de confiança, caminhada e movimentos proibidos, impedimento de contato imediato com o recém-nascido, etc.
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| No Brasil, 52% dos bebês nascem por cesariana. A OMS recomenda uma porcentagem de 15% |
No nosso vizinho Uruguai, a Anistia Internacional produziu um vídeo de conscientização e protesto contra a violência obstétrica, com imagens fortes, que falam por si mesmas. Não é à toa que o primeiro comentário sobre o vídeo, no Youtube, contesta a veracidade das práticas mostradas: "Como pode ser assim? Estão exagerando!" (como a gente ouve tanto!). Mas não... No Brasil, por iniciativa dos blogs Parto no Brasil e Cientista que virou mãe, produziu-se um documentário comovente com depoimentos de mães que sofreram violência obstétrica.
Fico chateada em terminar meus posts sobre gravidez e maternidade com este vídeo. Mas é mais uma prova de que a gente aqui no Blog não é um bando de "neuróticas", a violência contra as mulheres assume as formas mais diversas e mais cruéis, e ela atinge cotidianamente sua irmã, sua amiga, sua esposa, sua filha. Felizmente, existe quem luta pelo fim dessas práticas e pelo direito de dar à luz e de nascer sem violência. Como disse a Thati Menéndez, "a questão vai muito além da luta por dignidade e respeito no parto e nascimento, é uma questão ideológica e o início de um mundo melhor. Pois como vamos ter um mundo sem violência e com mais amor e respeito se nosso primeiro contato com este mundo é muitas vezes violento e frio?" Mudar o mundo, mudar as relações, desde o primeiro segundo.
Fico chateada em terminar meus posts sobre gravidez e maternidade com este vídeo. Mas é mais uma prova de que a gente aqui no Blog não é um bando de "neuróticas", a violência contra as mulheres assume as formas mais diversas e mais cruéis, e ela atinge cotidianamente sua irmã, sua amiga, sua esposa, sua filha. Felizmente, existe quem luta pelo fim dessas práticas e pelo direito de dar à luz e de nascer sem violência. Como disse a Thati Menéndez, "a questão vai muito além da luta por dignidade e respeito no parto e nascimento, é uma questão ideológica e o início de um mundo melhor. Pois como vamos ter um mundo sem violência e com mais amor e respeito se nosso primeiro contato com este mundo é muitas vezes violento e frio?" Mudar o mundo, mudar as relações, desde o primeiro segundo.
3 de fevereiro de 2013
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por Barbara Falleiros
Ao longo desses anos passados na universidade francesa, sempre me surpreendeu a ausência de crianças circulando no meio universitário. Não, não falo de superdotados, mas dos filhos dos estudantes. No Brasil, durante a graduação, via pelo campus estudantes grávidas e seus bebês (os amigos da Unicamp talvez se lembrarão do episódio de uma pequena que fez xixi em plena sala de aula...). Eu mesma cresci tomando o leite do bandejão da USP. Em Paris, as pouquíssimas estudantes grávidas que encontrei estavam, em geral, terminando o doutorado. Nunca vi um único bebê nos locais da faculdade. Procurei estatísticas sobre as estudantes-mães por aqui e não encontrei, sei apenas que existem na cidade três creches universitárias com capacidade conjunta para 100 crianças.
Pode-se até dizer que isso é bom, que os longos estudos, a maternidade numa fase mais madura e a prioridade dada à carreira são indícios de uma sociedade "desenvolvida". O que eu desconfio é que o fato de o aborto ser legalizado contribua para que as estudantes se tornem mães mais tarde, fazendo da maternidade uma escolha altamente planejada. Mas de qualquer maneira, a impressão que tenho é de que, no meio acadêmico, nunca há hora propícia para se ter um bebê. Do ponto de vista profissional, a maternidade é sempre um demérito, uma fraqueza. Falo deste meio porque é nele que estou inserida, mas sei que a situação não difere em outros ambientes profissionais.
Às vezes as pessoas que têm uma ideia estereotipada das reivindicações feministas pensam que feminista é aquela que "odeia homem", "não quer ter filhos" e milita pela "destruição da família". As coisas não são tão simples. A escolha da maternidade é individual, o que importa para todos é o direito da mulher de não ser reduzida à sua função reprodutora. Pois é esta redução que motiva a discriminação profissional das grávidas: espera-se de uma mãe que esta seja sua função primordial e que esta tarefa a ocupe integralmente. O que, claro, atrapalha a atividade profissional. Então é filho ou trabalho, as duas coisas não! - este é o leitmotiv. E volta aquela velha história de padrão duplo: este tipo de clivagem não diz respeito ao homem, que normalmente não conhece um efeito direto de comprometimento da carreira com a chegada de um filho. Porque para uma empresa preocupada com o desempenho de seu funcionário, por exemplo, que o homem tenha filhos ou não importa menos, já que a responsabilidade do cuidado das crianças recai majoritariamente sobre a mãe. Na cabeça do chefe, quem é que vai faltar no trabalho quando a criança estiver doente?
É interessante perceber como funciona o círculo vicioso: para começar, o salário de uma mulher já é 30% inferior ao de um homem. Quando ela tem filhos, sua carreia é geralmente freada, enquanto que a do homem segue seu ritmo de evolução. No interior da família, isso contribui para colocar o trabalho do homem em primeira ordem de importância, mantendo-o no papel de provedor e relegando à mulher a responsabilidade principal no cuidado dos filhos. Por sua vez, ao assumir esta responsabilidade, a mulher é levada a colocar a carreira em segundo plano. Esclareço que não tenho particularmente nada contra famílias em que um trabalha "fora" e outro "dentro", em que um se investe mais no trabalho e outro menos, o problema é que estes não costumam ser modos de vida escolhidos livremente; este tipo de configuração, induzido por inúmeros fatores como os que foram citados, podem implicar um jogo de poder no interior da família, colocando uma das partes (a mulher) numa posição frágil. É o mais comum.
Não há como negar que o período da gravidez pode exigir certas adaptações, dependendo da profissão exercida, e que a mulher precisa passar por uma recuperação física e emocional no pós-parto. Mas este período é transitório. E a mulher voltaria em melhores condições se tivesse, em casa, a ajuda de seu companheiro. Afinal, o filho não é do pai também? É correto que ele fique apenas uma semana com o recém-nascido? O projeto de lei 879/11 prevê a ampliação da licença paternidade de cinco para trinta dias para que ambos os pais possam cuidar do bebê e se adequar à nova rotina:
Com uma ressalva ao texto citado: na minha opinião não se trata de auxílio, pois auxílio é o que se oferece a alguém que se encontra na incapacidade de exercer uma tarefa que lhe cabe. Auxílio é favor: "Deixa que eu faço pra você". É um pouco como dizer do marido que ele "ajuda" nas tarefas domésticas... Trata-se, ao contrário, de dar ao pai a possibilidade e o direito de assumir o que é de sua responsabilidade. Quando há um pai e uma mãe (ou dois responsáveis), a tarefa de cuidado de um filho deveria ser dividida de forma igualitária. A mãe, menos sobrecarregada, veria possivelmente uma diminuição do impacto negativo da maternidade sobre seu trabalho.
Voltando à questão da discriminação profissional da mulher grávida. Lembro da história de uma amiga que, prestes a receber uma função de importância numa grande multinacional de cosméticos, anunciou aos superiores sua gravidez. Sua chefe respondeu: "Mas você sabe, você não precisa ir em frente com isso, há sempre a opção do aborto! E pense bem, uma oportunidade como esta não se repete!" Como eu disse acima, ou filho ou trabalho, a mulher acaba sofrendo a pressão para escolher entre um e outro...
Mas há outras formas mais ou menos sutis de assédio moral e discriminação, como a perda de promoções ou mesmo a não contratação de mulheres que se aproximam do prazo de validade, ameaças ("Ah, mas você tem certeza de que não fazer uma encomenda para a cegonha, não é? Por que veja bem, para nós não vale a pena investir em alguém que não se mostrará 100% comprometido com a nossa empresa"); desvalorização de mulheres que já têm filhos servindo-se da desculpa de que seu foco não está na empresa; horários para a amamentação não respeitados ou dificultados; avaliações de desempenho negativas e atribuição de funções inferiores na volta da licença-maternidade; recusa de benefícios e oportunidades; ou ainda a discriminação por parte dos próprios colegas, que encaram as adaptações das condições de trabalho da funcionária grávida como privilégios ilegítimos ou que pensam que a licença maternidade é o equivalente a férias.
Uma empresa pode e deve ser processada por qualquer discriminação desse tipo. E à mulher grávida cabe conhecer seus direitos, listados nesta página do governo. Por outro lado, algumas empresas mais espertinhas seguem o caminho contrário e adotam políticas de melhoria das condições de trabalho das grávidas-mães, como pausa alimentação para as grávidas, berçário no local, facilitando a retomada do trabalho após a licença maternidade, licença de seis meses, bônus e ajudas de custo, horários flexíveis, salas de amamentação. Claro que para as empresas há vantagens, como o abatimento de impostos. Mas é bem possível que algumas tenham se dado conta de que funcionário contente é funcionário engajado e que tenham percebido, ao respeitarem o trabalho das funcionárias, que a "igualdade de gênero aumenta a produtividade", como mostrado no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2012.
Deixo a pergunta para as nossas leitoras: quem aí sofreu discriminação e quem tem outros exemplos de políticas corporativas positivas? (Não me deixem falando sozinha! rs) Na semana que vem, meu último post desta série sobre maternidade com um assunto doloroso mas importante: a violência obstétrica.
Às vezes as pessoas que têm uma ideia estereotipada das reivindicações feministas pensam que feminista é aquela que "odeia homem", "não quer ter filhos" e milita pela "destruição da família". As coisas não são tão simples. A escolha da maternidade é individual, o que importa para todos é o direito da mulher de não ser reduzida à sua função reprodutora. Pois é esta redução que motiva a discriminação profissional das grávidas: espera-se de uma mãe que esta seja sua função primordial e que esta tarefa a ocupe integralmente. O que, claro, atrapalha a atividade profissional. Então é filho ou trabalho, as duas coisas não! - este é o leitmotiv. E volta aquela velha história de padrão duplo: este tipo de clivagem não diz respeito ao homem, que normalmente não conhece um efeito direto de comprometimento da carreira com a chegada de um filho. Porque para uma empresa preocupada com o desempenho de seu funcionário, por exemplo, que o homem tenha filhos ou não importa menos, já que a responsabilidade do cuidado das crianças recai majoritariamente sobre a mãe. Na cabeça do chefe, quem é que vai faltar no trabalho quando a criança estiver doente?
É interessante perceber como funciona o círculo vicioso: para começar, o salário de uma mulher já é 30% inferior ao de um homem. Quando ela tem filhos, sua carreia é geralmente freada, enquanto que a do homem segue seu ritmo de evolução. No interior da família, isso contribui para colocar o trabalho do homem em primeira ordem de importância, mantendo-o no papel de provedor e relegando à mulher a responsabilidade principal no cuidado dos filhos. Por sua vez, ao assumir esta responsabilidade, a mulher é levada a colocar a carreira em segundo plano. Esclareço que não tenho particularmente nada contra famílias em que um trabalha "fora" e outro "dentro", em que um se investe mais no trabalho e outro menos, o problema é que estes não costumam ser modos de vida escolhidos livremente; este tipo de configuração, induzido por inúmeros fatores como os que foram citados, podem implicar um jogo de poder no interior da família, colocando uma das partes (a mulher) numa posição frágil. É o mais comum.
Não há como negar que o período da gravidez pode exigir certas adaptações, dependendo da profissão exercida, e que a mulher precisa passar por uma recuperação física e emocional no pós-parto. Mas este período é transitório. E a mulher voltaria em melhores condições se tivesse, em casa, a ajuda de seu companheiro. Afinal, o filho não é do pai também? É correto que ele fique apenas uma semana com o recém-nascido? O projeto de lei 879/11 prevê a ampliação da licença paternidade de cinco para trinta dias para que ambos os pais possam cuidar do bebê e se adequar à nova rotina:
“A ausência paterna sobrecarrega a mãe, que se encontra no delicado período puerperal, cuja duração é de 30 a 45 dias após o parto, muitas vezes em pós-operatório, com limitações físicas e carências psíquicas, e que necessita ser auxiliada nos cuidados imediatos do bebê”
Com uma ressalva ao texto citado: na minha opinião não se trata de auxílio, pois auxílio é o que se oferece a alguém que se encontra na incapacidade de exercer uma tarefa que lhe cabe. Auxílio é favor: "Deixa que eu faço pra você". É um pouco como dizer do marido que ele "ajuda" nas tarefas domésticas... Trata-se, ao contrário, de dar ao pai a possibilidade e o direito de assumir o que é de sua responsabilidade. Quando há um pai e uma mãe (ou dois responsáveis), a tarefa de cuidado de um filho deveria ser dividida de forma igualitária. A mãe, menos sobrecarregada, veria possivelmente uma diminuição do impacto negativo da maternidade sobre seu trabalho.
Voltando à questão da discriminação profissional da mulher grávida. Lembro da história de uma amiga que, prestes a receber uma função de importância numa grande multinacional de cosméticos, anunciou aos superiores sua gravidez. Sua chefe respondeu: "Mas você sabe, você não precisa ir em frente com isso, há sempre a opção do aborto! E pense bem, uma oportunidade como esta não se repete!" Como eu disse acima, ou filho ou trabalho, a mulher acaba sofrendo a pressão para escolher entre um e outro...
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| Discriminada no trabalho e com um computador do século passado! (brincadeirinha) |
Uma empresa pode e deve ser processada por qualquer discriminação desse tipo. E à mulher grávida cabe conhecer seus direitos, listados nesta página do governo. Por outro lado, algumas empresas mais espertinhas seguem o caminho contrário e adotam políticas de melhoria das condições de trabalho das grávidas-mães, como pausa alimentação para as grávidas, berçário no local, facilitando a retomada do trabalho após a licença maternidade, licença de seis meses, bônus e ajudas de custo, horários flexíveis, salas de amamentação. Claro que para as empresas há vantagens, como o abatimento de impostos. Mas é bem possível que algumas tenham se dado conta de que funcionário contente é funcionário engajado e que tenham percebido, ao respeitarem o trabalho das funcionárias, que a "igualdade de gênero aumenta a produtividade", como mostrado no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2012.
Deixo a pergunta para as nossas leitoras: quem aí sofreu discriminação e quem tem outros exemplos de políticas corporativas positivas? (Não me deixem falando sozinha! rs) Na semana que vem, meu último post desta série sobre maternidade com um assunto doloroso mas importante: a violência obstétrica.
27 de janeiro de 2013
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por Barbara Falleiros
À medida que o corpo feminino se transforma durante a gravidez, muda também o modo de concebê-lo. Ao mesmo tempo, para a mulher, a gravidez é um momento de redefinição da identidade. Confesso que gostaria de ter estudado psicologia e que às vezes me vejo coletando dados para minha psicologia de boteco. É por isso que sempre sorrio quando uma amiga - agora mãe - fala em nome do bebê ao invés de falar em nome de si mesma: "o neném te manda um beijo!" Manda nada (rs)! Mas eu acho singelo. Você tem uma pessoa dentro de você, pelo menos durante um certo tempo aquela pessoa É você...
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| "Fala de bebê" ofende a minha inteligência |
Se por um lado acho inofensivo a própria mãe falar (de leve) em nome do bebê, fico perplexa diante da infantilização da mulher e de todo o uso exagerado de diminutivos ao se dirigir a uma grávida. A menos que você seja português, qual a justificativa pra dizer: "Ai, que gravidinha linda, olha essa barriguinha, você está comendo direitinho?" Já é irritante quando falam com bebês como se fossem imbecis, tratar dessa forma uma pessoa adulta é impor-lhe a redução de sua identidade e individualidade.
Mas deixemos essas análises para os mais competentes e voltemos ao corpo. Existem dois aspectos da forma como se lida com este novo corpo transformado que considero desconcertantes. Ambas dizem respeito à intimidade da mulher, ou à falta dela... Nós falamos um pouco no post da semana passada e nos comentários que ele suscitou que o corpo da mulher grávida é quase que santificado, "receptáculo da vida" em concepções de fundo religioso, transforma-se em um corpo dessexualizado (pois já está cumprindo sua função reprodutiva). Assim, privado da dimensão sexual que é situada, para nós, no âmbito da intimidade, o corpo grávido de repente se torna um corpo público.
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| Sim, estou grávida. Não, você não pode tocar minha barriga! |
"Que linda, posso passar a mão na sua barriga?" - diz o(a) desconhecido(a). Talvez eu esteja exagerando e eu mesma seja um bom objeto de estudo para minha psicologia de boteco, mas se estas são formas de aproximação "carinhosas", eu me pergunto, quem é que quer carinho de desconhecido? As implicações são outras, é verdade, mas em termos de atitude não vejo muita diferença entre pedir pra tocar uma pessoa que você não conhece e pedir pra ver seu pé...
Tem até aquelas que levantam a bandeira: "Barriga de grávida não é corrimão!" Caso perdido, a barriga aumenta e a grávida vai perdendo pouco a pouco sua privacidade... "Você está se cuidando?", "O bebê foi planejado?" Mas o que é que o outro tem a ver com isso? E sobretudo, como é que ele se acha no direito de perguntar?
O segundo aspecto que mais me desconcerta na relação - dos outros - com o corpo da mulher grávida é a forma como ele é tratado na "volta à sexualidade" no pós-parto (visto que a sexualidade supostamente não existe durante a gravidez...). A Tággidi falou uma vez da moda crescente de cirurgias íntimas, busca pela adequação a determinado "modelo estético" de vagina. Isso já é absurdo e triste o suficiente, porém é possível ir além. Sinto arrepios quando ouço a expressão "ponto do marido", que (pelo que entendi) consiste em praticar a episiotomia costurando a vagina mais apertada para "dar ao marido a sensação de penetrar uma virgem". E que isso cause dores à mulher, não preciso nem dizer. (Já posso ir embora desse mundo? Não quero mais ficar aqui, não!)
O negócio é que, no senso comum, por aí, a grávida logo passa de santa à baranga. Se ninguém ousou criticar seu corpo diretamente durante a gravidez, os ataques ressurgem quando se espera que a mulher volte à ativa. Numa concepção absolutamente machista das relações sexuais, na qual o corpo da mulher existe para satisfazer o homem e a satisfação do homem consiste basicamente na penetração da mulher, ei-la então como objeto imprestável, desqualificada, "flácida", "alargada", "estragada". Para coroar, muitas vezes é isso o que motiva a preferência por cirurgias cesarianas. Seguem algumas pérolas encontradas em uma discussão sobre a "flacidez da vagina após o parto normal":
"Minha namorada teve dois filhos. Cesárea. Minhas mulheres só fazem cesárea. Parto normal, nem pensar!!!!!!!! Mulher fica molhada, super larga, terrível!!!!!"
"[A vagina] Não volta ao normal sem algum procedimento estético após o parto normal! Sou casada, tenho 2 filhos ambos de parto normal. No primeiro parto não senti diferença, mas no segundo... Nossa, estou gigante, já fui traída por conta disso... Sabe, é até um desabafo. Ainda assim, com tudo isso, meu esposo não assume essa minha deformidade. (...) Dizem que o parto normal destrói casamentos (...). Ouvi dizer que a sensação é de fazer sexo com um copo americano quando antes do parto a sensação era de um anel."
"Sou ginecologista e há anos venho dizendo que após um parto normal de
crianca grande ou dois de criança de uns 3 kg, a mulher fica com a
vagina bem flácida e logo indico a correção cirúrgica. Só que o pós-operatório é muito doloroso. Devido a isso acho cesariana muito melhor,
pois os maridos normalmente não reclamam por pena da parceira, mas
depois que conserto eles ADORAM!"
Deformidade e conserto. Sexo é o que "segura" o homem no casamento e casamento é um compromisso do qual um homem sempre busca escapar... Sexo é o prazer do homem. Penetração e ponto. Exemplos de relações frágeis porque norteadas por concepções machistas. Exemplo de como decisões médicas importantes podem ser guiadas por uma postura machista que contraria as recomendações da Organização Mundial da Saúde (esta condena a "epidemia de cesáreas").
Não estou contestando a realidade das mudanças corporais no pós-parto, contesto a visão do corpo feminino como objeto de um prazer primário masculino. Essas alterações corporais devem ser levadas a sério, mas jamais motivadas por uma espécie de "mito pornográfico da virgenzinha" ao qual a mulher deva se conformar. Eu não sei como é no Brasil, mas na França há uma prática de reembolso, pelo sistema público de saúde, de sessões de fisioterapia para a reeducação do períneo após o parto normal. Parece importante, para os franceses, que a mulher possa retomar rapidamente uma sexualidade agradável. E é. Agradável tanto para ela quanto para o parceiro, repare na nuance... Mas não é só isso, a preocupação é centrada na saúde feminina, na prevenção de complicações como incontinência urinária ou até prolapso genital, com a perda de sustentação dos órgãos. Bem diferente das preocupações geradas pelo temor da "fuga do marido descontente"...
20 de janeiro de 2013
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por Barbara Falleiros
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| Grávida e flores: apogeu da feminilidade? |
Gostaria de começar o ano com uma série de posts sobre um assunto ao qual demos pouco espaço em 2012. Discutimos a descriminalização do aborto e o direito da mulher de decidir sobre a reprodução, mas não falamos de gravidez, do tratamento reservado às mulheres grávidas no cotidiano, da discriminação no trabalho, da violência obstétrica e das questões em torno do aleitamento materno. Visto que muitas amigas Subvertidas estão grávidas ou com filhos pequenos neste momento, aproveito a boa ocasião para abrir a discussão.
À primeira vista, pode parecer estranho criticar o tratamento reservado no dia-a-dia às mulheres grávidas, quando sabemos que, numa situação em que a gravidez é desejada e que a grávida "vive um momento mágico", como se diz, ela costuma ser paparicada. Em situação ideal, todo mundo fica contente e tudo vai bem. De repente, a grávida se vê tendo suas vontades satisfeitas, as pessoas interessam-se por ela, são gentis, fazem elogios. Em situação ideal, uma grávida é uma mulher feliz. E, em breve, quando se tornar mãe, será uma mulher realizada. Ou não?
Para começar, é preciso pensar na origem dessa "plenitude", desse sentimento de realização feminina que se espera da gravidez. Viria ele da própria essência feminina? Existe isso? Ora, as pensadoras feministas que refletiram sobre a questão descobriram que esta idealização da gravidez e da maternidade acabava colaborando para fazer da função materna a principal - senão única - condição feminina possível. E assim, ajudava a manter a mulher presa a um único destino.
Veja bem, não se trata aqui de uma crítica à gravidez nem à vontade de ser mãe! Trata-se simplesmente da percepção de fenômenos culturais e de discursos socialmente construídos. Argumentos biológicos que procuram explicar o instinto materno e o amor materno como tendências naturais e inatas existem: dizem que a ocitocina, um hormônio que provoca as contrações do parto e a saída do leite, tem efeitos no cérebro que colaboram para a criação do vínculo entre a mãe e o bebê. Mas eu não seria capaz de ir mais longe com argumentos químicos, biológicos ou genéticos (se alguém souber mais sobre isso, por favor comente abaixo). Por outro lado, não me parece possível analisar o comportamento humano sem ter em mente que somos seres sociais, históricos e culturais. Por isso, reluto em acreditar que a mulher esteja programada para ser mãe, amar seu filho e dedicar-se a ele, assim como um pai não nasce "geneticamente programado" para ser incapaz de trocar fraldas ou de levantar à noite... Em resumo:
Ao contrário do Brás Cubas pessimista que "não teve filhos, não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria", a constituição de uma família é um valor importante na nossa sociedade. Li um artigo interessante sobre as representações do corpo grávido na mídia, em que a autora ressaltava a "dimensão simbólica das imagens do corpo e da gravidez como parte da construção moderna da identidade feminina". O que no fundo é um mecanismo de aprisionamento (quando a mulher tem que ser mãe, deve ser mãe, só é feliz se for mãe, só é mulher se for mãe), passa a ser representado, ao contrário, como a "afirmação de uma liberdade de escolha e de autorrealização". A autora do artigo dá o exemplo da apresentadora Angélica, grávida do primeiro filho em 2005, dizendo: "Agora a gente vive o filme da vida real. E seremos felizes para sempre!" Sério, quer mais comercial de margarina do que isso?
Mas, na prática, onde é que está o problema? A maternidade sendo vista como uma habilidade intrínseca à mulher, isto contribui, por exemplo, para a divisão desigual das tarefas dentro de casa (o bebê fica majoritariamente sob a responsabilidade da mãe). Outro exemplo: uma mãe de primeira viagem sofre uma imensa pressão social porque se espera dela, logo de cara, a perfeição na execução de tarefas maternas. Imagina o stress! Ao mesmo tempo em que todo mundo resolve palpitar - e tratar a neomãe como incompetente - esta mãe está tentando provar pra si mesma e para os outros que é capaz. Quantas mães em depressão pós-parto são estigmatizadas e se culpam por não conseguirem atingir essa "plenitude", por estarem profundamente tristes quando deveriam estar vivendo "o momento mais feliz de suas vidas"? Quem já passou pela experiência de ter um bebê pequeno sob sua total responsabilidade, full-time, sabe que o cansaço e o esgotamento podem ser torturantes, o que, somado à exigência de felicidade e de plenitude, faz da mãe uma bomba relógio prestes a explodir. Quanto sofrimento e quanto cansaço não seriam evitados se essa busca irrealista da perfeição maternal fosse esquecida!
Eu costumava ler um blog engraçadinho chamado "Mauvaises mères" ("Péssimas mães"), em que um trio de jovens mães francesas contavam de forma bem-humorada o quotidiano de mães... reais! Claro que elas não eram péssimas mães, mas o título do blog fala por si só: confessar que sua vida não gira em torno do bebê, que na realidade o bebê não torna sua existência absolutamente perfeita e feliz, faz mesmo de você uma "mãe indigna" (título de outro blog)? Na verdade, ao longo dos posts, elas acabavam convencendo o leitor do contrário, de que é possível ser uma ótima mãe conservando seus interesses, suas ambições profissionais, guardando um pouco de sua velha identidade de antes da maternidade.
Em um post sobre sua própria gravidez, uma das autoras conta como foi chocante descobrir que os nove meses maravilhosos eram na verdade um mito:
"Ah! A gravidez, um dos mais belos períodos da minha vida! - Minha mãe me criara em torno deste mito da maternidade. E bem, era chegada a minha vez de estar grávida, eu iria enfim viver este momento de graça. Uma certa sabedoria tomaria conta de mim. Por que afinal, a gravidez não é o melhor momento para se lembrar do que é essencial? Mas meu pai me contou que não tinha sido nada daquilo, que minha mãe ficara de cama a partir do quinto mês. Teriam mentido para mim?
Mês 1 à 3
Quero vomitar. Tenho frio o tempo todo. Estou cansada, quero dormir, meus seios dóem. Estou distraída. Brigo com todo mundo, choro em filme água-com-açúcar. Choro todo o tempo. No metrô, ninguém me cede o lugar, embora seja o momento mais difícil da gravidez. Sexo: só o que eu digo é que quero vomitar.
Mês 4
Eu não entro nas minhas roupas, meu sutiã me corta a pele, a alergia do creme antiestrias faz meu corpo inteiro coçar. No metrô, ninguém me cede o lugar. Sexo: bloqueio.
Mês 5 e 6
Faço xixi o tempo todo. Ninguém me cede o lugar no metrô. Sexo: eca!
Mês 7 à 9
Um monte de ecografias. O verão chegou enfim, e com ele a licença maternidade. Eu sonhara em passar as tardes no parque, lendo, sentada na grama. Andando igual a um pinguim, demoro tanto tempo no trajeto que, ao chegar, estou com vontade de fazer xixi. Sexo: me dou conta de que também não poderemos fazer amor após o parto. É hora de tirar o atraso. Mas o ato é bem mais acrobático do que glamour, é como transar com uma bola de futebol entre vocês.
É oficial. Minha mãe mentiu pra mim. A gravidez não é a fase mais bonita da vida."
Ao contrário do que o "mito da beatitude da gravidez" induz a pensar, reclamar dos incômodos físicos e psicológicos deste período não significa "não querer o bebê", "não amá-lo", "não estar ansiosa pela sua chegada". Para não cair nessa armadilha e em toda a frustração que ela gera, é preciso ter consciência de que o que se exige de irreal da supermãe não tem absolutamente nada a ver com fazer o melhor para o bebê nem com o que fará ambos felizes. A Roberta disse algo legal em um post sobre mulheres e humor escatológico: "Nós precisamos rir dessas experiências porque o riso naturaliza. E não há nada mais natural do que nossas necessidades fisiológicas. É como se nossa própria experiência corpórea em seu nível mais concreto nos fosse negada." Acho que isso serve também para a gravidez. Grávidas poderosas com gazes, hemorroida e incontinência: menos idealização e mais humor, menos frustração e mais liberdade!
... continua na próxima semana.
Para começar, é preciso pensar na origem dessa "plenitude", desse sentimento de realização feminina que se espera da gravidez. Viria ele da própria essência feminina? Existe isso? Ora, as pensadoras feministas que refletiram sobre a questão descobriram que esta idealização da gravidez e da maternidade acabava colaborando para fazer da função materna a principal - senão única - condição feminina possível. E assim, ajudava a manter a mulher presa a um único destino.
Veja bem, não se trata aqui de uma crítica à gravidez nem à vontade de ser mãe! Trata-se simplesmente da percepção de fenômenos culturais e de discursos socialmente construídos. Argumentos biológicos que procuram explicar o instinto materno e o amor materno como tendências naturais e inatas existem: dizem que a ocitocina, um hormônio que provoca as contrações do parto e a saída do leite, tem efeitos no cérebro que colaboram para a criação do vínculo entre a mãe e o bebê. Mas eu não seria capaz de ir mais longe com argumentos químicos, biológicos ou genéticos (se alguém souber mais sobre isso, por favor comente abaixo). Por outro lado, não me parece possível analisar o comportamento humano sem ter em mente que somos seres sociais, históricos e culturais. Por isso, reluto em acreditar que a mulher esteja programada para ser mãe, amar seu filho e dedicar-se a ele, assim como um pai não nasce "geneticamente programado" para ser incapaz de trocar fraldas ou de levantar à noite... Em resumo:
"A capacidade de dar à luz é algo biológico; a necessidade de convertê-lo no papel primordial da mulher é cultural." (fonte)
Ao contrário do Brás Cubas pessimista que "não teve filhos, não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria", a constituição de uma família é um valor importante na nossa sociedade. Li um artigo interessante sobre as representações do corpo grávido na mídia, em que a autora ressaltava a "dimensão simbólica das imagens do corpo e da gravidez como parte da construção moderna da identidade feminina". O que no fundo é um mecanismo de aprisionamento (quando a mulher tem que ser mãe, deve ser mãe, só é feliz se for mãe, só é mulher se for mãe), passa a ser representado, ao contrário, como a "afirmação de uma liberdade de escolha e de autorrealização". A autora do artigo dá o exemplo da apresentadora Angélica, grávida do primeiro filho em 2005, dizendo: "Agora a gente vive o filme da vida real. E seremos felizes para sempre!" Sério, quer mais comercial de margarina do que isso?
Mas, na prática, onde é que está o problema? A maternidade sendo vista como uma habilidade intrínseca à mulher, isto contribui, por exemplo, para a divisão desigual das tarefas dentro de casa (o bebê fica majoritariamente sob a responsabilidade da mãe). Outro exemplo: uma mãe de primeira viagem sofre uma imensa pressão social porque se espera dela, logo de cara, a perfeição na execução de tarefas maternas. Imagina o stress! Ao mesmo tempo em que todo mundo resolve palpitar - e tratar a neomãe como incompetente - esta mãe está tentando provar pra si mesma e para os outros que é capaz. Quantas mães em depressão pós-parto são estigmatizadas e se culpam por não conseguirem atingir essa "plenitude", por estarem profundamente tristes quando deveriam estar vivendo "o momento mais feliz de suas vidas"? Quem já passou pela experiência de ter um bebê pequeno sob sua total responsabilidade, full-time, sabe que o cansaço e o esgotamento podem ser torturantes, o que, somado à exigência de felicidade e de plenitude, faz da mãe uma bomba relógio prestes a explodir. Quanto sofrimento e quanto cansaço não seriam evitados se essa busca irrealista da perfeição maternal fosse esquecida!
Eu costumava ler um blog engraçadinho chamado "Mauvaises mères" ("Péssimas mães"), em que um trio de jovens mães francesas contavam de forma bem-humorada o quotidiano de mães... reais! Claro que elas não eram péssimas mães, mas o título do blog fala por si só: confessar que sua vida não gira em torno do bebê, que na realidade o bebê não torna sua existência absolutamente perfeita e feliz, faz mesmo de você uma "mãe indigna" (título de outro blog)? Na verdade, ao longo dos posts, elas acabavam convencendo o leitor do contrário, de que é possível ser uma ótima mãe conservando seus interesses, suas ambições profissionais, guardando um pouco de sua velha identidade de antes da maternidade.Em um post sobre sua própria gravidez, uma das autoras conta como foi chocante descobrir que os nove meses maravilhosos eram na verdade um mito:
"Ah! A gravidez, um dos mais belos períodos da minha vida! - Minha mãe me criara em torno deste mito da maternidade. E bem, era chegada a minha vez de estar grávida, eu iria enfim viver este momento de graça. Uma certa sabedoria tomaria conta de mim. Por que afinal, a gravidez não é o melhor momento para se lembrar do que é essencial? Mas meu pai me contou que não tinha sido nada daquilo, que minha mãe ficara de cama a partir do quinto mês. Teriam mentido para mim?
Mês 1 à 3
Quero vomitar. Tenho frio o tempo todo. Estou cansada, quero dormir, meus seios dóem. Estou distraída. Brigo com todo mundo, choro em filme água-com-açúcar. Choro todo o tempo. No metrô, ninguém me cede o lugar, embora seja o momento mais difícil da gravidez. Sexo: só o que eu digo é que quero vomitar.
Mês 4
Eu não entro nas minhas roupas, meu sutiã me corta a pele, a alergia do creme antiestrias faz meu corpo inteiro coçar. No metrô, ninguém me cede o lugar. Sexo: bloqueio.
Mês 5 e 6
Faço xixi o tempo todo. Ninguém me cede o lugar no metrô. Sexo: eca!
Mês 7 à 9
Um monte de ecografias. O verão chegou enfim, e com ele a licença maternidade. Eu sonhara em passar as tardes no parque, lendo, sentada na grama. Andando igual a um pinguim, demoro tanto tempo no trajeto que, ao chegar, estou com vontade de fazer xixi. Sexo: me dou conta de que também não poderemos fazer amor após o parto. É hora de tirar o atraso. Mas o ato é bem mais acrobático do que glamour, é como transar com uma bola de futebol entre vocês.
É oficial. Minha mãe mentiu pra mim. A gravidez não é a fase mais bonita da vida."
Ao contrário do que o "mito da beatitude da gravidez" induz a pensar, reclamar dos incômodos físicos e psicológicos deste período não significa "não querer o bebê", "não amá-lo", "não estar ansiosa pela sua chegada". Para não cair nessa armadilha e em toda a frustração que ela gera, é preciso ter consciência de que o que se exige de irreal da supermãe não tem absolutamente nada a ver com fazer o melhor para o bebê nem com o que fará ambos felizes. A Roberta disse algo legal em um post sobre mulheres e humor escatológico: "Nós precisamos rir dessas experiências porque o riso naturaliza. E não há nada mais natural do que nossas necessidades fisiológicas. É como se nossa própria experiência corpórea em seu nível mais concreto nos fosse negada." Acho que isso serve também para a gravidez. Grávidas poderosas com gazes, hemorroida e incontinência: menos idealização e mais humor, menos frustração e mais liberdade!
... continua na próxima semana.
13 de janeiro de 2013
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A loucura consumista do natal está aqui e, com ela, o reforço dos estereótipos de gênero através o marketing sexista. Particularmente trágico, para mim, são os estereótipos de gênero reforçados por brinquedos infantis, que por sinal abundam já que, afinal, trata-se de uma das maiores e mais lucrativas fatias de mercado.
(Já adianto que um mundo em que brinquedos desafiam os estereótipos de gênero e propões novas possibilidades existe e é na Suécia. Veja aqui como seria esse mundo distante.)
Como diria a Riley, num tom compreensivelmente inconformado, meninos querem super-heróis e meninas também querem super-heróis, mas os fabricantes de brinquedo iludem as meninas para que comprem brinquedos cor-de-rosa:
E em toda a sua sabedoria, Riley hesita: "meninas querem brinquedos cor-de-rosa e meninos... meninos não querem brinquedos cor-de-rosa." Mesmo tão pequena, Riley já entendeu que tabu maior do que meninas querendo super-heróis, ou carros, ou espadas, são meninos querendo "coisas cor-de-rosa".
É claro que estão aí xs que insistem que as diferenças na escolha de brinquedos são inatas. Claro, porque é muito mais lógico que os seres humanos tenham desenvolvido mecanismos biológicos especificamente selecionados para fazer com que um menino goste mais de caminhões que de castelos cor-de-rosa do que considerar que a diferença entre os sexos, em geral, é dada e reforçada desde o nascimento.
Este excelente artigo discute pesquisas científicas sobre o assunto e conclui que:
Um episódio recente que aconteceu na minha família ilustra bem como tais comportamentos normativos são constantemente vigiados, reforçados - ou seja, como eles não têm nada de natural - e como qualquer desvio mínimo pode resultar em choque e punição. Meu sobrinho queria uma boneca de natal. Queria. Ontem ele me explicou por que mudou de ideia, depois de uma conversa com o pai: "Tia, eu sou menino, eu tenho pipi. A plincesa Popstar tem peleleca." Apesar de estar há somente 3 anos neste mundo, ele já entendeu o conceito de cisgênero, segundo o qual o sexo biológico e o gênero confluem (ter pipi = gênero masculino, que na nossa sociedade não inclui gostar de bonecas).
Sem entrar no mérito do valor educativo da boneca Barbie, qual o problema em um menino querer uma boneca? Para o senso comum, muitos. Quando contei para uma amiga que queria comprar um bonequinha para ele, a reação foi: "Melhor não, vai que ele vira gay. Daí vão te culpar."
Nem vou discutir a homofobia na premissa de que "virar gay" é algo ruim, algo pelo qual alguém deva ser culpadx. Para além da homofobia, esse tipo de fala revela que o senso comum ainda não se tocou que orientação sexual, assim como o sexo biológico, não tem nada a ver com identidade de gênero. Que o diga o Laerte, que é transgênero e 'heterossexual' (cada vez mais me dou conta da limitação do paradigma hétero-homossexual. Ele se aplica a pessoas transgênero? E axs transsexuais? Como rotular um homem que nasceu mulher e é casado com uma mulher?).
Identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico são três coisas distintas e há uma série de combinações possíveis entre os três.
Ainda assim, querer uma boneca não tem necessariamente a ver com identidade de gênero. Por que bonecas não podem fazer parte do universo masculino? Brinquedos têm a função social de preparar as crianças para a vida adulta. Bonecas têm a ver com a esfera doméstica, com filhxs, e certamente precisamos de mais maridos e pais presentes, que de fato dividam o trabalho doméstico e o cuidado com xs filhxs.
Deixo aqui, então, um guia de presentes não-sexistas para este natal, pois acredito que muito mais nocivo do que o medo infundado de criar um filho homossexual - como se isso fosse pior do que criar um filho machista - é impor nossos dramas às crianças.
E, pior, perpetuá-los por mais uma geração, que terá de abrir mão de parte de sua experimentação, criatividade e imaginação pelo medo dxs adultxs de tudo aquilo que difere de seus preconceitos - por medo do que é natural.
por Roberta Gregoli
(Já adianto que um mundo em que brinquedos desafiam os estereótipos de gênero e propões novas possibilidades existe e é na Suécia. Veja aqui como seria esse mundo distante.)
Como diria a Riley, num tom compreensivelmente inconformado, meninos querem super-heróis e meninas também querem super-heróis, mas os fabricantes de brinquedo iludem as meninas para que comprem brinquedos cor-de-rosa:
E em toda a sua sabedoria, Riley hesita: "meninas querem brinquedos cor-de-rosa e meninos... meninos não querem brinquedos cor-de-rosa." Mesmo tão pequena, Riley já entendeu que tabu maior do que meninas querendo super-heróis, ou carros, ou espadas, são meninos querendo "coisas cor-de-rosa".
É claro que estão aí xs que insistem que as diferenças na escolha de brinquedos são inatas. Claro, porque é muito mais lógico que os seres humanos tenham desenvolvido mecanismos biológicos especificamente selecionados para fazer com que um menino goste mais de caminhões que de castelos cor-de-rosa do que considerar que a diferença entre os sexos, em geral, é dada e reforçada desde o nascimento.
Este excelente artigo discute pesquisas científicas sobre o assunto e conclui que:
Macacos à parte, é possível que a preferência por certos brinquedos seja resultado da pressão do grupo tanto quanto de diferenças inatas. Mais ou menos na metade da pré-escola, meninas começam a flexibilizar suas preferências e brincar com diversos tipos de brinquedo diferentes enquanto os meninos se tornam mais rígidos com seus brinquedos 'de menino' [...]. Uma explicação lógica para isso seria que meninos pagam um preço mais alto pela diversificação. Ninguém estranha quando uma menina brinca de basquete ou com um carrinho de corrida; pelo contrário, isso talvez seja visto com bons olhos. Mas um menino com uma boneca ainda é, para muitos pais, quase tão alarmante como era nos anos 70. Um estudo clássico da universidade SUNY Binghampton, por exemplo, mostrou que meninos estão duas vezes menos propensos a explorar brinquedos tipicamente femininos quando há outra criança no recinto. [minha tradução]
Um episódio recente que aconteceu na minha família ilustra bem como tais comportamentos normativos são constantemente vigiados, reforçados - ou seja, como eles não têm nada de natural - e como qualquer desvio mínimo pode resultar em choque e punição. Meu sobrinho queria uma boneca de natal. Queria. Ontem ele me explicou por que mudou de ideia, depois de uma conversa com o pai: "Tia, eu sou menino, eu tenho pipi. A plincesa Popstar tem peleleca." Apesar de estar há somente 3 anos neste mundo, ele já entendeu o conceito de cisgênero, segundo o qual o sexo biológico e o gênero confluem (ter pipi = gênero masculino, que na nossa sociedade não inclui gostar de bonecas).
Sem entrar no mérito do valor educativo da boneca Barbie, qual o problema em um menino querer uma boneca? Para o senso comum, muitos. Quando contei para uma amiga que queria comprar um bonequinha para ele, a reação foi: "Melhor não, vai que ele vira gay. Daí vão te culpar."
Nem vou discutir a homofobia na premissa de que "virar gay" é algo ruim, algo pelo qual alguém deva ser culpadx. Para além da homofobia, esse tipo de fala revela que o senso comum ainda não se tocou que orientação sexual, assim como o sexo biológico, não tem nada a ver com identidade de gênero. Que o diga o Laerte, que é transgênero e 'heterossexual' (cada vez mais me dou conta da limitação do paradigma hétero-homossexual. Ele se aplica a pessoas transgênero? E axs transsexuais? Como rotular um homem que nasceu mulher e é casado com uma mulher?).
Identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico são três coisas distintas e há uma série de combinações possíveis entre os três.
Ainda assim, querer uma boneca não tem necessariamente a ver com identidade de gênero. Por que bonecas não podem fazer parte do universo masculino? Brinquedos têm a função social de preparar as crianças para a vida adulta. Bonecas têm a ver com a esfera doméstica, com filhxs, e certamente precisamos de mais maridos e pais presentes, que de fato dividam o trabalho doméstico e o cuidado com xs filhxs.
É nessas horas que admiro ainda mais pais e mães que ousam sair da caixinha e apoiar seus filhos em gostos que desafiam o status quo opressor. Acho triste que, no mundo adulto, um menino usar saia seja um ato tão subversivo que vire manchete mundial. E curto as crianças por se importarem com o que gostam, sem dramas. Como quando o pequeno Sam, de cinco anos, explicou que não gostava dos sapatos que causaram tamanho furor na internet por serem cor-de-rosa, mas porque eram de zebra, seu animal favorito.
Percebemos, então, que todo o drama é criado pelxs adultxs, ansiosxs por reforçarem e reproduzirem esse monte de paranoias. E tudo por simples medo daquilo que desafia suas ideias pré-concebidas a respeito de gênero e sexualidade.
Negamos a nossas filhas o prazer de se imaginarem super-heroínas e aos nossos filhos a possibilidade de experimentar dar carinho e cuidado a um outro ser. Por isso não venham me dizer que Riley, Sam ou o meu sobrinho têm algum distúrbio ou 'confusão de gênero'. Doentes somos nós.
Percebemos, então, que todo o drama é criado pelxs adultxs, ansiosxs por reforçarem e reproduzirem esse monte de paranoias. E tudo por simples medo daquilo que desafia suas ideias pré-concebidas a respeito de gênero e sexualidade.
Negamos a nossas filhas o prazer de se imaginarem super-heroínas e aos nossos filhos a possibilidade de experimentar dar carinho e cuidado a um outro ser. Por isso não venham me dizer que Riley, Sam ou o meu sobrinho têm algum distúrbio ou 'confusão de gênero'. Doentes somos nós.
Deixo aqui, então, um guia de presentes não-sexistas para este natal, pois acredito que muito mais nocivo do que o medo infundado de criar um filho homossexual - como se isso fosse pior do que criar um filho machista - é impor nossos dramas às crianças.
E, pior, perpetuá-los por mais uma geração, que terá de abrir mão de parte de sua experimentação, criatividade e imaginação pelo medo dxs adultxs de tudo aquilo que difere de seus preconceitos - por medo do que é natural.
19 de dezembro de 2012
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Mais recentemente descobri uma outra Islândia, ancorada na realidade, cuja população soube reagir aos efeitos da crise de 2008, recusando o pagamento da dívida, provocando a prisão de banqueiros, a queda do governo e a redação de uma nova constituição. Os mais entusiastas lembraram que o país teve a primeira democracia do mundo, com o Estado Livre da Islândia (de 930 à 1262) - mas tenho uma leve desconfiança em relação ao anacronismo do conceito... Seja como for, o país é atualmente o segundo no índice de democracia, pouco atrás da Noruega.
por Barbara Falleiros
Quando li, aos 10 anos, a Viagem ao centro da Terra de Júlio Verne, a Islândia tornou-se para mim a terra misteriosa por excelência. Eu a imaginava toda envolta em brumas e fumaça de vulcão. E quando, anos mais tarde, conheci uma garota islandesa de nome impronunciável, grande, forte e loira, com o cabelo dividido em duas tranças - como se tivesse desembarcado momentos antes de um barco viking - esta imagem só foi reforçada.
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| Minha Islândia imaginária |
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| Senhoras protestam contra a crise econômica |
Mais recentemente descobri uma outra Islândia, ancorada na realidade, cuja população soube reagir aos efeitos da crise de 2008, recusando o pagamento da dívida, provocando a prisão de banqueiros, a queda do governo e a redação de uma nova constituição. Os mais entusiastas lembraram que o país teve a primeira democracia do mundo, com o Estado Livre da Islândia (de 930 à 1262) - mas tenho uma leve desconfiança em relação ao anacronismo do conceito... Seja como for, o país é atualmente o segundo no índice de democracia, pouco atrás da Noruega.
Curiosamente, foi numa dessas revistas femininas de cabelereiro - que, na França, vez ou outra se esforçam para discutir problemáticas feministas (e então colocam lado a lado as seções "Emagrecimento" e "A palavra às mulheres") - que li sobre Thóra Arnórsdóttir, candidata às eleições presidenciais na Islândia. Atenção spoiler! As eleições já passaram (30 de junho) e o presidente em exercício foi reeleito para seu quinto mandato.
Mas na imprensa francesa só dava ela!
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| Carla grávida, Sarkozy e Berlusconi |
Fiquei pensando no contraste. De um lado, na França, tivemos Carla Bruni, já famosa antes de se tornar primeira-dama. Famosa pela sua música, mas também pelo seu corpo e pela lista dos homens com quem se relacionou. Ela passou da esquerda para a direita, deixou a carreira de cantora em ponto morto durante o mandato do marido e, grávida, refugiou-se numa discrição altamente calculada. Do outro lado, Thóra, candidata também famosa em seu país (jornalista televisiva), carismática, inteligente. Lançou sua campanha à presidência já quase prestes a dar a luz, e logo voltou, com um bebê de 15 dias no carrinho ou no colo do marido. Marido este que, diga-se de passagem, cuida dos seis filhos do casal... Em uma matéria sobre a candidata, a revista feminina do jornal francês conservador Le Figaro apostou - o que não nos surpreende - no estereótipo maternal, com o título Thóra, mãe da Islândia, insistindo portanto nesta que se acredita ser a função primordial e inalienável da mulher (parece-me que este estereótipo também foi usado no período da campanha da Dilma, não é?).
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| Thóra durante a campanha, em sua casa, com o marido e o bebê recém-nascido |
Mas se a imagem de Thóra encantou sobretudo os meios menos conservadores, é porque esta, ao conciliar um número importante de papéis, parecia encarnar com perfeição um ideal de mulher moderna: mãe, mas com uma carreira sólida, bonita, ativa e inteligente, simples, forte, com opiniões próprias...
Assim como a Islândia enevoada da minha infância, a figura de Thóra revestiu-se de uma fina camada de idealização. Mas para além de Thóra, devemos lembrar que a Islândia foi o primeiro país do mundo a eleger uma mulher presidente da República: Vigdís Finnbogadóttir ocupou este cargo de 1980 à 1996, quando cedeu seu lugar ao atual presidente. Além disso, a Islândia possui atualmente a primeira chefe de governo declaradamente homossexual, a primeira-ministra Johanna Sigurdardóttir. Esta casou-se com sua companheira no primeiro dia de vigência da lei a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo - e, detalhe - lei que teve aprovação unânime no Parlamento. Desde março deste ano, Svana Helen Björnsdóttir preside a Federação das Empresas Islandesas e, last but not least, Agnes Sigurdardóttir tornou-se em abril a primeira bispa mulher da Igreja protestante do país.
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| A bispa Agnes Sigurdardóttir |
A crise parece ter tido como consequência positiva a abertura de portas para mulheres em cargos importantes de comando. "É chegada a hora das mulheres!", teria dito a bispa. Esperamos que sim. E eu continuo a sonhar com esta pequena ilha longínqua.
19 de agosto de 2012
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