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Circulando! Sexismo e movimento no espaço urbano

por Barbara Falleiros

Todo dia, voltando da "Grande Biblioteca", eu atravesso dois ou três becos. Modo de dizer, já que são becos modernos, passagens entre prédios recentes, quadrados e envidraçados, em contraste com a arquitetura dos cartões postais de Paris. Ruelas desertas que são tomadas à noite por uma luz lúgubre e esverdeada. Seria um ambiente de história em quadrinhos se não fosse - tenho que confessar - a total ausência de perigo. E é justamente esta falta de perigo real que me faz indagar: por que, mesmo sabendo que não corro risco algum, todo dia aperto o passo, busco segurança nos moradores dos prédios que vejo a preparar o jantar, e penso que "qualquer coisa eu grito com toda a força"? Qualquer coisa o quê? Por que este medo?


Porque a rua, especialmente à noite, é um espaço proibido para a mulher. Não foi essa a lição que quiseram dar aqueles estupradores assassinos indianos no último dia 16 de dezembro? Não foi o que o advogado desses homens afirmou, que "o casal de namorados era o maior responsável pela agressão, pois não deveria estar circulando pelas ruas à noite"?

O pessoal do mimimi provavelmente vai replicar que, em cidades violentas como São Paulo ou Rio, o espaço público é terra de ninguém onde todos se sentem ameaçados. Homens são vítimas de assalto e sequestro, não são? Ao reagirem a uma abordagem, podem ser agredidos ou até morrer, não podem? Não se trata, porém, do mesmo tipo de violência. Causas socioeconômicas explicam a criminalidade urbana e seus desdobramentos. Já a violação da integridade física, moral e sexual da qual mulheres e homossexuais são vítimas, no espaço público, são manifestações explícitas da violência de gênero. Um outro funcionamento.

Quando no mês de dezembro, em São Paulo, o estudante André Baliera foi agredido por dois brutamontes homofóbicos, o que eles disserem para se defender?

Ele mexeu com as pessoas erradas, no lugar errado, no momento errado. E foi agredido. Aprende, nunca mais mexe com ninguém na vida.
Foi agredido, apanhou. Apanhou de besta. Se tivesse seguido o caminho dele não teria apanhado.

Nessas falas, fica evidente como as relações de poder e de gênero condicionam a circulação de pessoas no espaço urbano. Grupos vulneráveis como mulheres, homossexuais e travestis, sobre os quais recai fortemente a violência de gênero, têm restringidos assim os limites de sua circulação. É interessante ver como a declaração dos brutamontes corrobora as conclusões de um geógrafo francês, autor de um relatório sobre a circulação das mulheres na cidade, assim como as constatações da porta-voz de um grande grupo feminista francês:

As mulheres apenas atravessam o espaço urbano, elas não estacionam.
Constatamos que as mulheres andam menos na rua sem ter algo específico para fazer, e que se locomovem rapidamente de um lugar a outro.

Estudos feministas de geografia começaram a mostrar, a partir dos anos 70, que a própria forma de organização das cidades é sexista, que ela "reforça a ordem heteronormativa compulsória" e que seu "planejamento não desenvolveu outras formas de desenvolvimento urbano que não estivessem subordinadas às tradicionais perspectivas da divisão sexual dos espaços, baseada na pretensa naturalidade entre sexo, gênero e desejo" (cito um artigo muito interessante publicado em 2010 na Revista de Psicologia da Unesp, "Espaço urbano, poder e gênero: uma análise da vivência travesti", ao qual voltarei mais abaixo).

Assim, as relações espaciais se constróem com base nas dicotomias entre interior e exterior, entre estaticidade e movimento. Fora do ambiente "protegido" do espaço privado (protegido em termos, pois neste há o risco de violência doméstica), uma mulher sozinha é sempre vulnerável, como um homossexual é vulnerável na madrugada paulistana. A Roberta mostrou recentemente como a responsabilidade de se proteger das agressões  recai sobre a mulher, cabe a ela ser "prudente", "não andar onde não deve", "voltar para casa cedo", "vestir-se adequadamente". Foi o que os brutamontes disseram, não? Que o agredido estava onde não devia? É interessante que tenham mandado a vítima "circular", isto é, ocupar como se espera um espaço que só pode ser atravessado, rapidamente, de cabeça baixa. Eles, os brutamontes, que tentaram esconder a motivação homofóbica da agressão, nem desconfiavam que ao pronunciarem essas palavras tinham acabado de revelá-la.

A oposição entre estaticidade e movimento me faz pensar nas prostitutas, mulheres e transsexuais cuja presença no espaço público é, ao contrário, estática. Paradas, "fazendo ponto". Mas esta estaticidade não lhes confere a mesma liberdade masculina de ocupação dos espaços. Esta presença estática e noturna é atrelada à violência e à exclusão, a uma vulnerabilidade ainda maior. Um indício: minha busca inocente no Google de uma imagem de "travesti no ponto" (soube depois que havia um bug na safe search) resultou em uma série de corpos ensanguentados... no meio da rua ou na sarjeta, no meio desse espaço público que, antes, não puderam ocupar plenamente. No artigo que citei acima, o autor e a autora explicam como os territórios de atuação de cada travesti são definidos:

Elege-se um local de grande tráfico de veículos, onde a passagem de famílias não seja comum, em geral, zonas comerciais e de serviços pesados. Esse tipo de local é considerado discreto porque durante a noite só frequenta a área quem está disposto a participar das relações que ali se estabelecem, em geral homens.

Logo, trata-se de uma estaticidade às margens do espaço. Chamada de "tempo de batalha", a delimitação do território, hierarquizada, é determinada pelas relações de poder e violência assim como pela beleza: o grau de "feminilidade" da transsexual conta na manutenção do ponto. A conclusão d@s autores é a de que estes territórios conferem às travestis, paradoxalmente, uma possibilidade de existência:

Um território que se faz da separação / conexão entre eu e outro, entre centro e margem em constante movimento, possibilitando a seres abjetos, impróprios e interditados à vivência socioespacial, sob a égide da heteronormatividade, criar resistências e existir através de seus territórios.

Uma existência resistente, "apesar de"... Embora a prostituição e a discriminação das travestis sejam problemas específicos, não se pode mais ignorar, no estabelecimento de políticas públicas de segurança, por exemplo, a forma como a heteronormatividade norteia os modos de ocupação urbanos e seus fluxos de circulação. Dizer para um gay circular, para uma mulher não sair sozinha, deixar morrer na sarjeta uma travesti em "área de risco", facetas do violento sexismo que domina o espaço geográfico urbano.

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Os filósofos iluministas e a mulher - a contribuição de Adília Maia Gaspar

por Tággidi Ribeiro

Não só as religiões trataram de produzir discursos que, digamos assim, 'esquentassem a chapa' das mulheres. Desde nos dividir entre santas e putas e nos culpar por sermos estupradas a nos obrigar a pagar (com nossos corpos) dívidas de outros homens da casa - as religiões complicaram e muito as nossas vidas. As tais não são, contudo, as únicas culpadas (para usar vocábulo apropriado) por termos sido massacradas* ao longo da história. Não só os religiosos, mas também alguns (muitos) filósofos fizeram o favor de tentar justificar o tratamento vilipendioso dado às mulheres.

No livro A Representação das Mulheres no Discurso dos Filósofos: Hume, Rousseau, Kant e Condorcet, a portuguesa Adília Maia Gaspar reúne textos desses quatro filósofos iluministas sobre a mulher. Que ninguém pense em relativizar historicamente o pensamento desses homens (brincando sério): são todos contemporâneos e ainda assim têm visões distintas acerca do valor da mulher na construção da sociedade e como ser humano. O chato, na verdade, é saber que as ideias mais machistas foram as que mais ganharam adesão, sendo publicizadas pelos grandes meios e repetidas à exaustão pelos ogros de hoje.

Kant
"Mulher tem que ser bonita" - agora o povo do boteco vai poder falar de boca cheia que quem disse isso foi Kant. Bem, ele não disse exatamente dessa forma - ele separou os gêneros em belo e nobre. A mulher (o belo sexo), segundo Kant, é naturalmente mais bela que o homem e pouco capaz de pensar. O homem (o sexo nobre) é naturalmente mais dado à filosofia que a mulher, e nem de longe tão belo. Para que os pares não parecessem muito díspares, Kant recomendava à mulher ganhar algum verniz intelectual; ao homem, recomendava que estivesse limpo e arrumadinho.

Rousseau
"Lugar de mulher é na cozinha" - Rousseau dizia que as mulheres tinham uma tendência natural a obedecer. Se elas eram mais fracas fisicamente, isso era sinal de que deviam ser submetidas aos homens (interessante o filósofo que questiona o direito da força dizendo isso, não?). Já que as mulheres tinham nascido dóceis e fracas, Rousseau achava que elas deviam ser ensinadas a serem boazinhas, agradáveis e a cuidarem da casa.

Hume e Condorcet, contemporâneos mais esclarecidos desses dois outros famigerados filósofos das luzes, atribuíram à pressão social o fraco desejo sexual e o recato, à época considerados naturais nas mulheres (Hume) e pretenderam que o direito à educação e ao voto fossem garantidos igualmente a homens e mulheres (Condorcet). Este chega a defender uma ideia completamente absurda para os homens do século XVIII e que ainda hoje não é aceita por todo mundo: a de que mulheres também são capazes de fazer-se cientistas e filósofas. Para prová-la, refere professoras de medicina e filósofas do século XVII, estigmatizadas e posteriormente proibidas de frequentar as universidades.

Condorcet
Verdadeiramente revolucionárias em sua época, as palavras de Hume e Condorcet foram escarnecidas e providencialmente esquecidas. Ainda bem que mulheres conscientes como a Adília Maia Gaspar perceberam a importância fazer esse trabalho de rememoração, buscando na história do pensamento masculino a história da mulher. Como povos conquistados, nós mulheres precisamos ler as entrelinhas da história do conquistador para construir a nossa história. Precisamos, sobretudo, contestar a narrativa do conquistador.



*Falar em massacre de gênero não é exagero: nos proibiram a educação, fomos varridas da vida política, submeteram-nos ao confinamento doméstico, reprimiram nosso desejo mas repetidamente nos violentaram, e, quando quisemos nos revoltar, nos mataram.

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Vencemos o quê, cara pálida?

por Mazu


Como é que é??

Este post vai ter um tom de desabafo, mas espero que a companheirada me perdoe. Estou aqui lembrando de quando a Bárbara teve uma semana super legal, só que não. Esse foi o meu final de semana massa, só que ao contrário. Fui chamada de feminista exagerada, extremista e acusada de ser incapaz de escutar a opinião alheia. Vai vendo. Justo eu que, na real, sempre me achei uma feminista de moderada a leve. Isso porque eu não entro em todas as discussões e dou até um sorriso amarelo quando meu chefe faz suas observações sexistas. Não me julguem, preciso pagar as contas.

Sei que tem uma das blogueiras famosas que se autodenomina “feminista cansada”, não sei bem se ela está cansada pelos mesmos motivos que eu, mas, cara, como cansa.

E sabe por que cansa tanto? Porque a gente se pega tendo a mesma discussão várias vezes, de diversas formas, com várias pessoas e, às vezes, com as mesmas. Esse feriado que passou, tive que repetir umas cinco vezes que feminismo não é o contrário de machismo, que a culpa da tripla jornada de trabalho não é das sufragistas (sim, eu escutei essa barbaridade de uma mulher jovem e bem resolvida), que a Carminha (a da novela) não merecia apanhar e que se a gente andasse de burca, o índice de violência contra a mulher não diminuiria nem no Distrito Federal e nem na China. Eu estaria feliz se tivesse mudado alguma coisa em alguém, mas parece que só fiquei mesmo com a fama de feminista chata e nada razoável.

De qualquer forma, serviu para refletir sobre algumas coisas. E uma matéria de revista me ajudou muito nisso. A Época de outubro de 2012 traz a seguinte matéria de capa: “A Mulher venceu a guerra dos sexos: elas estudam mais, são mais valorizadas no trabalho e já nem querem saber de namorar para não atrapalhar a carreira. Os homens que se cuidem...”.  Parece exagero, mas aí mora a origem de todo o mal: andam vendendo um imaginário de que a mulher já alcançou o máximo que poderia alcançar na nossa sociedade e que os homens estão ameaçados. Meu Deus, que bobagem!

Essa sensação de que já estamos com todos os direitos conquistados faz o feminismo parecer obsoleto e ridículo. E isso é um tiro no pé de todo mundo, inclusive dos homens. Já dissemos milhares de vezes no blog, a independência das meninas é a independência dos meninos. Ninguém precisa proteger ou sustentar uma mulher, hoje em dia, e isso tira peso de responsabilidade dos dois lados.

Sobre a tripla jornada de trabalho, a gente não trabalha mais porque a gente quer. Esta é a ideologia mais reacionária do planeta: a de que as minorias fazem ou deixam de fazer as coisas porque querem, já que hoje somos todos iguais. (Ai, faça-me o favor, vamos estudar história, né?) O que aconteceu é que as mulheres ganharam espaço no mercado de trabalho, mas ainda convivemos com a ideologia patriarcal de que a casa e os filhos são mais nossos que dos caras. O que não tem nada, absolutamente nada, a ver com as sufragistas. (Pelamor!) Tem a ver com a ideologia dominante do patriarcado. E se essa ideologia ainda exerce pressão sobre nós, mulheres, deixa eu te contar, moça, o feminismo ainda tem muito motivo para existir.

Um dos objetivos do blog é mostrar que as feministas não são loucas raivosas, e estou, hoje, tendo dificuldade com isso, já que estou cansada (como acabei de explicar) e com raiva, e a matéria da Época só não está pior porque acabou em cinco páginas.

A matéria começa falando de uma novela dos anos 1980 que está sendo readaptada. Indiferente, não foi boa antes, não vai ser boa agora. O ponto mais ou menos válido do início da matéria é que como alguma coisa mudou na sociedade em 20 anos, a readaptação meio que reflete isso. Por exemplo, uma das personagens era uma mulher mais livre sexualmente e, nos anos 1980, sua liberdade sexual foi censurada, hoje em dia, ela se sente mais enturmada socialmente. Uau.

A partir daí, a matéria começa a descrever como ocupamos o mercado de trabalho, como somos protegidas por algumas leis e como somos maioria nas Universidades. E segue dessa forma, duas páginas e meio de alegria, mostrando todas as nossas conquistas que, durante o texto, foram chamadas de “cataclismos sociais”, juro, na página 72:

“O mais provável que é que estejamos olhando para mudanças permanentes, como as provocadas por cataclismos sociais como o voto feminino ou a Segunda Guerra Mundial, que exigiu a presença feminina nas fábricas.”
Excelente escolha lexical da jornalista!

Depois de toda essa alegria, alguma coisa aconteceu com quem estava escrevendo a matéria, eu penso que um troço chamado “pesquisa” tenha acontecido com ela, e ela começou a apresentar os dados de que já falamos no blog algumas vezes. Ocupamos o mercado de trabalho, mas ainda ganhamos menos, somos menos promovidas, vivemos mais estressadas porque existe a pressão de ser bem sucedida no trabalho, mas existe a pressão de ser mãe e esposa para ser feliz. No cenário político, a participação ainda é pequena e tals. A matéria diz até uma coisa que gostei muito de ler sobre o fato de estarmos sobrecarregadas com essas pressões todas: “ou as empresas se adaptam ou as mulheres terão de rever seu papel em um dos dois lugares” (casa ou escritório). Ainda que isso possa soar como outra forma de pressão do tipo "pense bem no que você quer ser", é libertador, de certa forma, pensar que não precisamos ser tudo. Ainda que ser uma boa profissional e uma boa mãe de família seja comum, hoje em dia, é massacrante. E a gente tem direito de escolher, ou uma coisa ou outra.

Aviso para a Época: esta propagando foi retirada pelo Conar por ser machista e racista,
não é um sinal de vitória para mulher nenhuma.
De repente, a matéria ficou legal apontando como no Brasil, as mulheres ainda são mais apegadas a tradição patriarcal. Aqui, ter marido e filhos é prova de sucesso para mulher. É fato. E é inesquecível quando a seguinte situação acontece com você. Você estuda e se vira e tem suas coisas e escuta: você é casada? Tem filhos? Responde que não e percebe aquele olhar de desprezo na sua direção. Quem nunca?
Grifei Teló e Du Loren,
na lista de "sinais" de vitórias

Bom, a matéria estava indo super bem falando que, hoje, a mudança depende menos das leis e mais de comportamentos que precisam ser alterados, até o último parágrafo em que trouxe uma frase do Silvio de Abreu (Who?): “a mulheres já garantiram o espaço e estão por cima. O homem é que passou a reivindicar o seu lugar.” Meu Deus. Não. Como a matéria trouxe tantas pesquisas e pesquisadoras legais e opta por terminar com essa frase de um sujeito que não tem tradição nenhuma na pesquisa sobre gênero? Só porque ele escreveu uma novela chamada “Guerra dos sexos”?

Tanto esforço e tempo que a gente passa dizendo que “você não está sendo oprimido quando uma minoria exige direitos que você sempre teve”. Tanto tempo mostrando números absurdos de violência e para quê? Para uma grande revista de grande circulação vir com essa conversa de que já ganhamos, está tudo dominado, os homens que se cuidem? Sério como assim alguém acha que “Ai se eu te pego” do Michel Teló e a propaganda racista e preconceituosa da Du Loren são sinais de que já alcançamos nosso lugar ao sol? Como não ficar brava, como ser razoável? Alguém me ajude com isso.

Que canseira e que desânimo. Para começar, não existe guerra dos sexos ou, pelo menos, não deveria existir, já que ter direitos iguais é legal para todo mundo porque ninguém tem mais responsabilidade do que ninguém. Em segundo lugar, esse tipo de matéria e de ideias que ela propaga só serve para deixar os homens na defensiva, e isso não ajuda o movimento. Aliás, não ajuda ninguém.



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Feminista aos 30


por Roberta Gregoli

Desde que comecei este blog e, mesmo antes disso, quando comecei a me identificar mais forte e abertamente com o feminismo, várixs conhecidxs, em graus variados de boa intencionalidade, me questionaram. Me perguntaram se feminismo não era o contrário de machismo, e por isso igualmente radical; me perguntaram se não era melhor ver as pessoas simplesmente como pessoas, sem rótulos como mulheres, negros, etc (a resposta para estas perguntas estão aqui); e sempre tem um ou outro que faz piada, fica desconfortável ou ri quando eu digo que sou feminista. 

Isso não me incomoda, mas me levou a um outro tipo de auto-questionamento: por que agora? Afinal de contas, eu sempre fui mulher e a sociedade não mudou muito nos 30 anos em que estive neste mundo. 

Acho que existem alguns fatores pessoais, outros mais gerais. Pessoalmente, tenho estudado gênero há alguns anos e, quanto mais 'treinamento' se tem, mais se enxerga o machismo. É a velha história do fusca verde. Você compra um achando que não tem igual, mas a partir daquele momento começa a ver fuscas verdes em todo o lugar. A conscientização é um processo muito forte e é um dos principais objetivos deste blog. 

Mas mesmo quem nunca estudou gênero pode se identificar com as ideias feministas, sobretudo quando o sexismo bate na porta - e ele certamente bate na nossa porta aos 30.

Aos 30 anos algumas pressões sociais começam a pesar mais forte: você começa a se questionar sobre a sua carreira e, como mulher, percebe que é mais difícil chegar ao topo. Na escola e na faculdade você provavelmente se destacou - não faltam evidências de que as mulheres em geral vão melhor na escola e formam a maioria dxs ingressantes, e concluintes, na universidade -, mas, de repente, se vê ganhando menos que a maioria dos seus colegas homens. É como se, até o final dos estudos nos dissessem que podemos chegar lá, e, por nós mesmas nos damos conta de que, na verdade, não. Essa barreira invisível, porém amplamente verificada no mundo todo, é chamada teto de vidro (minha tradução de glass ceiling, já que o conceito não está ainda popularizado no Brasil). O teto de vidro não se resume a um fator isolado, mas sim a uma combinação de fatores, mensuráveis ou não, que impedem as mulheres de chegar ao topo, independente do grau de escolaridade e qualificação profissional.

E evidências da existência do teto de vidro não faltam: lacuna salarial de quase 30% no Brasil, menos de 4% de mulheres CEOs nas 500 maiores empresas dos Estados Unidos, 18% de mulheres nos cargos mais alto das universidades europeias (e apenas 9% de reitoras, apesar de 59% dxs graduandxs serem mulheres), discriminação de gênero e raça em processos seletivos (que pode ser consciente, do tipo "pede-se boa aparência", que é outro jeito de dizer "brancx", ou inconsciente, e aqui entram processos de identificação em que o chefe, muito provavelmente homem e branco, tem mais chances de se enxergar naquele "jovem promissor" do que numa jovem tão promissora, e talvez tão ou mais qualificada).

Para as que ainda não se decidiram, os 30 é também a época em que provavelmente mais nos questionamos se queremos ou não ter filhos - e enfatizo estas palavras porque está claro que no Brasil ainda persiste a infeliz ideia da maternidade compulsória. Aí entram questões como o equilíbrio entre vida pessoal e carreira e o desafio de se passar da jornada dupla para a jornada tripla de trabalho.


Aos 30 anos, começamos a sentir os primeiros sinais do envelhecimento e, num contexto em o valor das mulheres é medido exclusivamente pela aparência, trata-se de um processo desafiador. Não importa a competência, o sucesso, a inteligência, o talento... que o diga Hillary Clinton, Adele, Dilma Rousseff.

Enfim, acho que os 30 é quando começamos a ficar fartas - tirando as que foram mais espertas mais cedo. É quando cansamos de ver que os chefes dão mais atenção, e valor, ao que um homem fala do que ao que você fala, mesmo você sabendo que suas ideias têm mais substância; quando cansamos de trabalhar o dobro para ter o mesmo reconhecimento; quando estamos sábias o suficiente para entender que cantadas não são elogios e sim mais uma forma de abuso verbal; quando entendemos que a impossibilidade de amizade entre homens e mulheres é um mito baseado na ideia de que mulheres não podem ser mais do que objetos sexuais; quando nos damos conta de a competição feminina é uma grande balela com o objetivo de nos manter desunidas.

É por isso que sou feminista. E é por isso que agora, mais do nunca: porque, para mim, o feminismo me ajuda a entender, melhor do que nunca, o mundo e a minha circunscrição nele.


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Uma cabeça no meio da praça e outras histórias de horror e honra


por Barbara Falleiros

Há alguns dias, na Turquia, uma cabeça humana foi arremessada no meio da praça de um vilarejo da província de Isparta. Pouco tempo antes, uma mulher de 26 anos, já mãe de duas crianças e então grávida de 5 meses, entrara na justiça com um pedido de aborto tardio. Ela revelara que o bebê era fruto de meses de violência e chantagem: seu agressor - um conhecido - aproveitara-se da ausência de seu marido, tirara fotos dela nua e ameaçara enviá-las à sua família, obrigando-a a manter relações sexuais com ele. Ele também ameaçara matar seus filhos. 

Yalvac na Turquia
Chega de violência contra as mulheres
As estatísticas da violência contra as mulheres na Turquia são preocupantes. Cerca de 42% das mulheres maiores de 15 anos (a porcentagem sobe para 47% nas zonas rurais) sofreram em algum momento da vida violência física ou sexual da parte de seu esposo ou companheiro, segundo a ONG Human Rights Watch (dados de 2009). Em 2004, a Anistia Internacional  já publicara um relatório sobre a situação das mulheres vítimas de violência no país, especificamente no âmbito familiar. Estimava-se então que entre um terço e a metade das mulheres turcas sofriam violência física em casa: eram espancadas, violentadas, assassinadas ou levadas a se suicidarem.  Em 2002, dois irmãos de 16 e 23 anos assassinaram a própria irmã, divorciada, porque ela chegava tarde em casa: "Nós lavamos nossa honra e não nos arrependemos de nada". Em 2009, uma jovem de 14 anos foi sequestrada a caminho do supermercado e violentada durante 4 dias. Ela conseguiu escapar. Sua família, porém, considerando que o que acontecera sujara a honra de todos, decidiu matá-la: ela foi estrangulada pelo pai. Em 2010, no sudeste do país, uma jovem de 16 anos, suspeita de "frequentar homens", foi enterrada viva pela sua família. Este tipo de violência familiar, diga-se de passagem, não atinge somente mulheres: há somente 3 dias, um adolescente foi assassinado com 14 tiros pelo pai e pelo tio, que suspeitavam da sua homossexualidade.

 ("A mão que bate também acalma. Um tapa ou dois não é motivo para fugir." - Die Fremde, 2010)
 
A honra. O que implica esta noção e como ela participa dos mecanismos da violência? Ninguém tem dúvidas quanto à extrema complexidade do tema, mas tentarei retomar aqui - bem modestamente - algumas ideias de Pinar Selek, uma socióloga e militante feminista turca (exilada). Estudando a construção da masculinidade na Turquia e o papel do sistema militarista na construção dos gêneros, ela mostrou como o Estado, através do exército, instrumentaliza o termo "honra" associando-o ao patriotismo. "O homem aprende a combater no serviço militar, não somente contra o inimigo, para salvar a honra do Estado, mas também contra todos que ameaçam a sua honra masculina e a de seu pequeno reinado: a família". Com as mudanças sociais, sobretudo com o movimento de liberação das mulheres, "os homens que temem perder seu status, os que se sentem fracos, tentam recuperar sua honra masculina através da violência que aprenderam desde a infância e que sistematizaram no serviço militar. (...) As estatísticas nos dizem que a maior parte das mulheres assassinadas por homens são aquelas que tinham largado estes homens ou estavam prestes a fazê-lo".

Nevin Yildirim, grávida de seu agressor
Mas voltemos a Yalvac e à cabeça exibida em praça pública como símbolo da honra vingada. Se tantos homens no país assassinam as mulheres vítimas de violência, fazendo recair sobre elas a responsabilidade pela desonra, neste caso, com uma facada na barriga, dez tiros (a maior parte nos genitais) e uma cabeça decepada, eis que a vítima se transformou em heroína tarantinesca... A jovem Nevin Yildirim, após assassinar seu agressor Nurettin Gider, disse:

"Aqui está a cabeça daquele que colocou em jogo a minha honra. Agora ninguém mais poderá fazê-lo. Eu lavei minha honra. As pessoas falarão dos meus filhos como os filhos de uma mulher que lavou sua honra."

A dimensão do gesto de Nevin Yildirim só pode ser entendida dentro do contexto dos crimes de honra praticados no país.  É claro que seu ato, tomado objetivamente ou isoladamente, reúne uma série de elementos de horror. Mas  não o vejo como sendo simplesmente um extremo ato de desespero. A honra é uma construção social determinada pelas relações de poder. Ao assassinar seu agressor, Nevin agiu de acordo com o mesmo código de violência, mas ela reverteu, no entanto, esta relação de poder. O inesperado, aqui, não é defesa da honra, mas a defesa da honra feminina da parte de uma mulher agredida.

Nevin Yildirim está atualmente presa. Diz-se que seu caso reacendeu os debates em torno do aborto (autorizado no país até 10 semanas de gravidez). Pelo que li até agora, a justiça ainda não se pronunciou quanto ao seu pedido de aborto fora do período permitido. Vale lembrar que o primeiro-ministro turco Recep Tayip Erdogan considera o aborto um assassinato. Este mesmo primeiro-ministro disse, em 2010, não acreditar na igualdade entre homens e mulheres.

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Misoginia


por Roberta Gregoli

A ignorância inflamada pelo medo é igual a ódio
É muito difícil falar sobre misoginia sem correr o risco de ser interpretada como reprodutora de um discurso de vitimização, mas resolvi escrever mesmo assim por dois motivos: primeiro pela quantidade de amig@s, inclusive pessoas com alto nível de escolarização, que simplesmente não conhecem a palavra. Segundo porque esta semana recebemos nosso primeiro comentário abertamente ofensivo (já devidamente apagado). Até então havíamos recebido alguns comentários de crítica, que mantivemos publicados porque acreditamos no debate aberto desde que construtivo, o que não foi o caso do comentário referido, que era puramente agressivo e sem a possibilidade de qualquer debate.

Vamos, então, acertar nossos termos: misoginia é o ódio às mulheres. Simples assim. Dependendo da sua formação, pode parecer estranho que alguém possa simplesmente odiar mulheres, assim, de maneira genérica e sem mais. Eu mesma não entendo crimes de ódio, me parece uma coisa absolutamente alienígena. Mas, infelizmente, isso não quer dizer que eles não existam. Veja, por exemplo, os mascus sanctos e suas ameaças macabras e violentas

E há um claro componente de ódio nos casos de violência contra as mulheres, para além do machismo, que, por ser uma teoria de inferioridade, é o que permite que um homem se sinta no direito de agredir uma mulher, como se ela fosse de sua posse. Já escrevi sobre "humor" machista e, das categorias que criei, a terceira tem um claro elemento de misoginia também. Veja a ilustração dada pela imagem ao lado.

Gosto muito da figura no começo deste post porque ela contém os elementos básicos do ódio: o medo e a ignorância. Acredito de verdade que o medo seja o principal combustível para qualquer manifestação de ódio. Os motivos do medo podem ser os mais diversos: questões pessoais (os mascus que se dizem mal amados), sentimento de ameaça por ter os privilégios questionados e até medos inconscientes que eu deixo para Freud explicar.

O fato é que houve um estudo fascinante feito na Universidade de Georgia relacionando homofobia e desejo homossexual. Traduzo aqui o resumo:

Está a homofobia relacionada com excitação homossexual?
 Henry E. Adams, Lester W. Wright, Jr., and Bethany A. Lohr
Universidade da Georgia, EUA

@s autor@s investigaram o papel da excitação homossexual em homens exclusivamente heterossexuais que admitiram afeto negativo com relação a indivíduos homossexuais. Os participantes consistiram de dois grupos: um de homens homofóbicos (n = 35) e um de homens não-homofóbicos (n = 29), divididos com base no resultado apresentado por eles no Índice de Homofobia (W. W. Hudson & W. A. Ricketts, 1980). Ambos os grupos foram então expostos a estímulos eróticos de conteúdo sexual explícito através de vídeos heterossexuais, homossexuais masculinos e lésbicos, e a circunferência peniana dos sujeitos foi monitorada. Eles também completaram o Questionário de Agressividade (A. H. Buss & M. Perry, 1992). Ambos os grupos apresentaram aumento na circunferência peniana em resposta aos vídeos heterossexuais e homossexuais femininos. Apenas os homens homofóbicos apresentaram ereção em resposta ao estímulo homossexual masculino. Os grupos não divergiram em relação à agressividade. A homofobia está aparentemente associada à excitação homossexual, a qual o indivíduo homofóbico nega ou não está ciente.

Não é preciso dizer mais nada. Só fica a pergunta: e os misóginos, têm medo de que?

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História da Maria da Penha - Sobre a coragem e a força


por Mazu

Com esse negócio de agressor ter de pagar benefício previdenciário da mulher agredida, o que foi - além de super legal - uma iniciativa conjunto do Ministério da Previdência e da Secretaria de Políticas para Mulheres, a Sra. Maria da Penha esteve muito por aqui (na Esplanada) esses dias. E nesse agito todo eu fiquei sabendo muita coisa sobre ela que eu não sabia, vou dividir com vocês, um pouco da história dela que está na Wikipédia, por sinal:

Maria da Penha Maia Fernandes (Fortaleza, Ceará, 1945) é uma biofarmacêutica brasileira que lutou para que seu agressor viesse a ser condenado. Com 67 anos e três filhas, hoje ela é líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres, vítima emblemática da violência doméstica.
Em 7 de agosto de 2006, foi sancionada pelo presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva a Lei Maria da Penha, na qual há aumento no rigor das punições às agressões contra a mulher, quando ocorridas no ambiente doméstico ou familiar.
Em 1983, seu marido, o professor colombiano Marco Antonio Heredia Viveros, tentou matá-la duas vezes. Na primeira vez atirou simulando um assalto, e na segunda tentou eletrocutá-la. Por conta das agressões sofridas, Penha ficou paraplégica. Nove anos depois, seu agressor foi condenado a oito anos de prisão. Por meio de recursos jurídicos, ficou preso por dois anos. Solto em 2002, hoje está livre.
O episódio chegou à Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e foi considerado, pela primeira vez na história, um crime de violência doméstica. Hoje, Penha é coordenadora de estudos da Associação de Estudos, Pesquisas e Publicações da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência (APAVV), no Ceará. Ela esteve presente à cerimônia da sanção da lei brasileira que leva seu nome, junto aos demais ministros e representantes do movimento feminista.
A nova lei reconhece a gravidade dos casos de violência doméstica e retira dos juizados especiais criminais (que julgam crimes de menor potencial ofensivo) a competência para julgá-los. Em artigo publicado em 2003, a advogada Carmem Campos apontava os vários déficits desta prática jurídica, que, na maioria dos casos, gerava arquivamento massivo dos processos, insatisfação das vítimas e banalização da violência doméstica.

Cartilha explica os direitos previdenciários
das mulheres vítimas de violência
É uma história phoda né? Eu realmente não consigo usar outro termo. Na semana passada, em que a lei Maria da Penha fez seis anos, muito eventos aconteceram, muitos números foram publicados. Um desses eventos foi o lançamento da Cartilha do INSS sobre a violência doméstica e seu impacto no sistema previdenciário. Durante a solenidade do lançamento, um grupo de teatro formado por policiais civis aqui do DF apresentaram uma peça sobre violência doméstica  “Bye bye Baby e outras mulheres”, dirigida por Lívia Fernandez, que retrata a história da relação conflituosa do casal Baby e Arlindo. Ela tenta manter o casamento mesmo sofrendo ameaças e ofensas do marido (Roberto Homem). As colegas que foram ao evento e assistiram à peça disseram que a angústia no rosto da Maria da Penha durante a apresentação era visível. Não é para menos.

Uma das coisas mais notáveis na peça, contudo, é o final: depois de encenar as agressões sofridas por uma mulher, a peça termina de um jeito muito peculiar. Os atores interrompem a peça e chamam alguém da platéia para fazer o papel da agredida e dar um final para a história.

Por que isso é tão digno de nota? Perceba, um dos grandes problemas na aplicação da lei (o que gerou até uma modificação nos requisitos de queixa e denúncia recentemente) é o fato de as mulheres desistirem de prosseguir com a queixa. É super fácil dizer o que é o certo e o que deve ser feito quando não é com você. Mas, o que você faria, até onde iria nossa coragem se o problema fosse real, acontecesse conosco. Dizer que denunciaria, que bateria de volta, que terminaria o relacionamento, todo mundo diz, dizer é super fácil.

Tenho uma colega de trabalho, com a mesma idade que eu, 30, mesma formação, mesmo estilo, tatuada, contemporânea, leitora de livros legais, "ouvidora" de música massa. Essa colega teve uns problemas no relacionamento e resolveu pedir um tempo pro cara. Acordou com o então marido com uma faca na garganta dela, no meio da madrugada. Essa moça quase que não denuncia, mas denunciou. Dia desses me contou que de cansaço, desânimo, tristeza desistiu da queixa e manteve só as medidas protetivas.

Depois dessa história e tantas outras que a gente ouve, eu fiz as contas, muitas mulheres são e foram agredidas, mas a gente tem poucas Marias da Penha por aí.

O quanto de coragem ela precisou e de onde a coragem veio para ela? Queria prestar essa homenagem porque essa coragem da Maria Penha mudou tanta coisa para as mulheres agredidas no Brasil e acho que posso dizer que teve repercussão internacional.

Por outro lado, quando a coragem falta, o quanto nossos direitos ficam estagnados e são esquecidos.

O presidente do INSS, Mauro Hauschild, o ministro da Previdência, Garibaldi Alves Filho, a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, a fundadora do Instituto Maria da Penha, Maria da Penha Maia Fernandes, a vice-presidente do Instituto Maria da Penha, Regina Célia Almeida Silva Barbosa e o procurador do INSS, Alessandro Stefanutto. Foto: Nicolas Gomes

Lênin, em 1901, escreveu uma coisa muito legal sobre ideologia e espontaneidade. Ele disse que tudo que não servia a ideologia socialista, servia à ideologia burguesa e que esperar um despertar espontâneo do proletariado era problemático porque isso significava permitir a subordinação, a escravização dos operários pela burguesia. Dando um passo bem largo na analogia, a gente pode aplicar isso para o machismo e toda forma de opressão. Na nossa sociedade não fazer nada, não dizer nada sobre o machismo é trabalhar em favor dele. Uma mulher oprimida, ou qualquer oprimid@, tem uma dificuldade bem maior e óbvia de se colocar, se defender. A gente também não pode contar que os opressores tenham crises súbitas de consciência.

E é por essas e por outras que a coragem das mulheres que reagem e reagiram deve ser celebrada e servir de exemplo.


Então é isso, companheirada, coragem! Quando a gente fica quieta ou finge que não vê a gente perde muito no regresso, no esquecimento, nesse machismo contemporâneo maquiado que se alimenta do nosso silêncio.

5

Gostosa, piranha, suja


por Barbara Falleiros

“Você é muita linda, moça. Posso te oferecer uma bebida?” 
Não, obrigada.
“Me dá seu telefone?”
“Uma bebida juntos, ou o quê?”
Não, obrigada.
“Na minha casa, claro, não em um café. Ou no hotel, na cama, você sabe...”
Você não está entendendo? Eu não quero!
“Mas se você dá tesão, é normal...”
“Piranha!”

Lançado na semana passada na Bélgica, o documentário Femme de la rue, trabalho de conclusão de curso de uma jovem estudante de audiovisual, Sofie Peeters, mostra as injúrias cotidianas sofridas por ela e tantas outras mulheres num bairro desfavorecido de Bruxelas.

“Você quer mesmo que eu diga? São coisas do tipo: Se eu pudesse eu te enfiava no… É tão vulgar que eu não ouso repetir a frase. (…) Este é meu cotidiano ao voltar pra casa. Eu me visto normalmente, eu acho.  Apenas as palavras já são suficientes para exercer dominação sobre uma pessoa. Em todo caso, isso me faz mal.” – diz uma vizinha de Sophie, minutos antes de se mudar do bairro.

Sofie assinala a primeira reação de culpa face à agressão: “Eu acho que esta é a primeira pergunta que você se faz: Eu é que sou muito provocante? São as minhas roupas? É algo que eu fiz?” A velha e clássica culpabilização da vítima.

As moças entrevistadas compartilham suas estratégias: não olhar nos olhos dos homens, mudar de trajeto, evitar certas ruas, não usar shorts, preferir a bicicleta ao transporte público, usar fones de ouvido. Animais acuados, liberdade cercada.

Sofie entrevista dois grupos de homens cujo lazer preferido é, ao que parece, mexer com as mulheres na rua. Ela pergunta o que precisaria que fazer para não ser mais insultada. Respostas e justificativas:

Os mais jovens veem o assédio como um simples passatempo, uma forma de extravasar sua energia sexual enquanto esperam pela moça "para casar". A única forma de uma mulher se esquivar das cantadas e insultos é colocar-se sob a tutela de um outro homem: de acordo com os jovens, Sofie deveria dizer que é casada, nem que para isso deva andar com uma aliança falsa. Não se mexe com a propriedade dos ‘irmão’, né?

Para os mais velhos, as cantadas são na realidade - pasmem - um incentivo à autoestima da moça. “Ao invés de querer nos dar bronca, você deveria nos dizer: Obrigada por fazer com que eu me sinta mulher!” Mas como se esquivar das abordagens, ainda que tão "bem intencionadas"? Solução proposta pelo entrevistado: ele se oferece para seguir Sofie e protegê-la. “E eu, como mulher, não há nada que eu possa fazer eu mesma?” - pergunta ela. Resposta: “Tudo o que você tem a fazer é ficar calada”. E os homens da mesa explodem de rir.

Todos estes homens entrevistados, que se exprimem no vídeo em francês, são de origem muçulmana magrebina. O ponto é delicado. Como esboçar uma denúncia sem assumir posições racistas? Como criticar uma prática que parece ser cultural sem estigmatizar um grupo? E ainda, como diz Sofie, como continuar acreditando em uma sociedade multicultural? Uma das mulheres entrevistadas se pergunta se este tipo de assédio é um reflexo da cultura ou se ele não seria, antes, um sinal do estado de degradação desta cultura. Um outro entrevistado, de origem magrebina, coloca o problema do choque cultural:

“[No passado, eu e meus amigos buzinávamos e convidávamos a moça a entrar no carro]. Quando a pessoa se recusava a subir ou a responder – porque, claro, você não assobia pra uma pessoa na rua, você assobia pra um cachorro, pra um animal – então imediatamente a xingávamos: ‘Puta suja!’, ‘racista!’. (...) Nós não falamos de sexualidade com nossos pais, é tabu. E não podemos falar muito com as meninas do bairro, porque trata-se da irmã de um amigo ou da filha de alguém da família. E você não pode nem olhá-la, porque ela é toda coberta. (...) Mas nas propagandas, as mulheres estão nuas. Como você vai explicar a estes jovens que é preciso respeitar as mulheres se tudo o que eles veem são mulheres nuas? No Ocidente, pra mim, há emancipação, mas a mulher continua sendo um objeto de desejo do homem.”


As reações ao documentário de Sophie Peeters não tardaram. A municipalidade de Bruxelas estuda punir os insultos e aplicar multas já a partir do mês de setembro.

Aqui, o documetário Femme de la rue, em uma reportagem de tv (com legendas em inglês):

3

Que educação dar a seu filho?


por Tággidi Ribeiro


Esse post não diz como vocês (homens e mulheres) devem educar seus filhos. Mas certamente apontará como não educar.  

Para começar, quero me dirigir às mulheres (homens, continuem a leitura, vocês são a contrapartida das lembranças que se sucederão). Pergunto: mulheres, quando vocês sofreram as primeiras investidas masculinas? Quando foram desrespeitadas - tiveram seus corpos invadidos de alguma forma - pela primeira vez?

Eu me lembro de que na infância eu já era assediada por seres do sexo masculino. Eles eram tão criança quanto eu e, por isso, durante grande parte da minha vida, atribuí o comportamento agressivo dos meninos nessa fase específica da vida como coisa de criança, de gente que ainda não aprendeu a se comportar.

Hoje vejo o erro desse ângulo de visão. Na verdade, aqueles meninos já haviam aprendido a se comportar e o que faziam era fruto de seu aprendizado de como tratar uma menina. E o que eles faziam? Bem, me lembro de diversas situações, todas análogas às do mundo adulto. De estar num clube, por exemplo, e me passarem a mão - não um fdp pedófilo, mas uma criança da minha idade (6, 7 anos). Lembro-me de que muitas vezes eu e minhas colegas tivemos nossas saias levantadas, quando os meninos não davam um jeitinho de espiar nossas calcinhas. Lembro-me de ser chamada de gostosa por um menino da minha turma que me olhava como, descobri depois, um ator de filme pornô chinfrim olhava pra mulher que ele ia comer - e nós tínhamos só dez anos. 


Ainda aos dez, cansada de ser assediada por esse mesmo colega e completamente sozinha nisso porque diziam os adultos que se ele fazia era porque eu dava corda, porque eu não me dava ao respeito (hein?), resolvi pegar ele de porrada. Passei uma aula inteira mandando bilhetes em que dizia que ia acabar com ele e um amiguinho dele era quem respondia, dizendo que era o outro quem ia acabar comigo. Eu o esperei no fim da aula e ele tinha tanto medo que não fez nada. Eu o chacoalhava pelos braços e gritava: "Você ainda vai fazer isso comigo?" Ele não conseguia responder porque, acredito, jamais imaginou que uma menina pudesse se comportar daquela forma. 

Enfim, como eu dizia, erramos ao querer encerrar esse tipo de falta de respeito na infância, na "falta de educação" que consideramos normal nessa etapa da vida. Também não podemos julgar que tal comportamento é natural, sendo expressão da sexualidade infantil. Com o tempo descobri, acompanhando o crescimento de meninos muito próximos a mim, que eles são ensinados a desrespeitar as meninas - nas rodinhas masculinas, homens em formação ouvem seus exemplos (pais, tios, vizinhos) falarem das mulheres como corpos a serem devassados, importando ou não sua vontade (como espiar, como encarar, como roçar, como forçar). Ora, aprendemos sobretudo por imitação. Penso que a TV ou a internet sejam influências menos relevantes que as falas não censuradas dos heróis de nossa infância.

Lembro-me de que um menino bem próximo, de "dentro de casa", um dia enfiou a mão no meio das minhas pernas, rindo, na frente de todo mundo, e eu gritei com todas as minhas forças. Tínhamos seis anos. O que EU ouvi dos adultos em volta?

- Deixa de escândalo.



 Não é "bonitinho".