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por Mazu
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| Página "Não Aguento Quando" no Facebook. |
Há dois dias, minha cunhada publicou um vídeo no Orkut
(sim, no Orkut!) em que um metaleiro destilava muito julgamento sobre o que ele
chamou de pirirockers (deve significar algo como piriguetes do roquenrol). Não
conheço o cara, mas ele fez questão de dizer que estava lá criticando a
hipocrisia das meninas que usam roupa curta, mas são roqueiras, e ficam
criticando as meninas que usam roupa curta e escutam funk. Provavelmente, a
hipocrisia que ele detectou existe. Se realmente há alguém que usa roupa curta
criticando alguém que usa roupa curta, sim, há hipocrisia. Mas essa não é a
questão. Ainda que ele tenha se explicado e dito literalmente "as pessoas
podem fazer o que quiser e ser feliz, não tenho nada com isso", o vídeo
é machista, não parece, assim de parecer logo de cara, mas é. Muito
provavelmente, essa não foi a intenção do autor e, muito provavelmente, vários
de nós (si, jo también) destilamos machismo de quando em vez, sem nos darmos
conta. E por que, meu Deus, por quê? Porque a ideologia do patriarcado é tão
embebida, incutida nos nossos costumes que pode passar despercebida.
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| Femstagram no Facebook |
Um exercício interessante, inclusive para xs
companheirxs recém chegadxs no movimento, é se escutar falando. Loucura, né?
Mas, é isso mesmo. Na grande maioria das vezes, quando uma afirmação só serve
para homens ou mulheres, essa afirmação está lá com seus 90% de chance de ser
sexista. Vou usar como exemplo o vídeo que minha cunhas postou. Não é
semanticamente possível dizer "os pirirockers", certo? Quero dizer,
não rola tirar sentido da expressão, assim sem um contexto mais específico.
Rola dizer "maria-palheta", um termo usado para groupies, e fazer sentido,
mas não rola dizer "joão-palheta" e fazer sentido, novamente, sem um
contexto que nos ampare. Não quero comprar briga com os compas da linguística,
então já adianto, com contexto e interação tudo pode na linguagem. Mas, vamos
supor, ainda que um contexto específico nos permitisse tirar sentido dessas
expressões, eles não seriam exatamente iguais, não carregariam o mesmo pacote
de sentidos, porque estamos em uma sociedade com esse e aquele discurso
anterior, ou seja, esse e aquele preconceito já estabelecido. Vide o cara
"galinha" e a mina "galinha", que trazem significados bem
diferentes empregados aqui e lá.
Alguém poderia dizer: tem coisa que só homem
faz, tem coisa que só mulher faz. A resposta mais simples para isso, além de
"oi, século XXI?" é que essas coisas só de homem ou só de mulher têm
que ter explicações muito biológicas mesmo, muito provavelmente envolvendo o
uso direto da genitália. Do contrário, a gente pode detectar sexismo novamente.
A Rô trouxe uma discussão legal sobre isso, quando tratou dos brinquedos demeninas e meninos.
Esses atos falhos nossos acontecem para o bem e
para o mal, o tempo todo. Dia desses, um amigo publicou no facebook:
"fulana de tal (que fez x e y): uma mulher para entrar na lista de
mulheres que fizeram diferença na humanidade". Sério, lendo isso, a gente
não fica com aquela impressão de que quase não existiu mulher para fazer
diferença? Pois é.
E não rola só com mulheres, dizer que os homens
são todos canalhas é tão sexista quanto dizer que as mulheres são todas
interesseiras. Toda discriminação ou papel já estabelecido, sem explicação
biológica (eu ia dizer racional, mas não seria suficiente), para um gênero
implica sexismo. Dizer que é dever do homem pagar as contas é sexista também. E
assim vai.
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| Créditos: Femstagram no Facebook |
Todo mundo escorrega, não rola dizer que não. Se
em determinado momento da vida, alguém pisa no calo e a gente vai falar mal ou
discutir, uh, como rola preconceito. Eu tenho irmã, eu sei como é. Deus me
livre daquela máxima "Não sou machista, nem feminista, sou humanista"
porque, sério, isso é um uso super errado de todos, todos, todos os termos da sentença!
Machismo não é o contrário de feminismo, nem os humanistas têm nada que ver com
a bagaça toda. Mas o ideal, para evitar os escorregas sexistas nossos de cada
dia, era a gente usar "pessoa" ou "gente" nas afirmações
para evitar, né? Tipo "tem gente interesseira" não "tem mulher
interesseira". E, aí, se me for permitido um adendo fora do escopo do blog
e do post, melhor mesmo seria tentar ser positivo e não ficar de mimimi por aí
e dizer que "tem gente legal no mundo", sei lá, talvez isso ajude na
tarefa complicada de gostarmos uns dos outros.
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| Não Aguento Quando novamente |
Voltando, a dica das tias de hoje, que serve pra
tia também, é: quando a gente for criticar alguém, para evitar cairmos em
qualquer armadilha linguística do preconceito, vamos tentar trocar o
"x" por "pessoa". Assim, ó: na frase "tinha que ser
X", sendo x = mulher, gay, preto, nordestino, gordo, se a gente não puder
trocar x por "pessoa" e conseguir sentido, que liguemos o alerta do
preconceito, porque há, talvez não seja evidente, mas há.
28 de janeiro de 2013
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O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos.
por Roberta Gregoli
O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos.
Eu nem sou daquelxs que menosprezam o cinema popular brasileiro: muito pelo contrário, sou entusiasta. Admiro seu poder de alcance e seu potencial transgressor, e acho que desdenhar o cinema popular generica e acriticamente é uma das facetas do elitismo tupiniquim.
Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.
Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.
E o pilar sobre o qual De pernas para o ar 2 se sustenta é o mais fundamental e caro ao patriarcado: a divisão sexual do trabalho. Alice (Ingrid Guimarães) é uma workaholic inveterada que se desdobra para manter casa, filho e casamento. O enredo do filme gira em torno dos malabarismos de Alice para "dar conta" (como dito repetidas vezes ao longo do filme) de suas responsabilidades, à custa de sua saúde e bem-estar.
Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.
Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.
A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?
Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.
E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo
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| É raro no cinema um quadro composto somente por mulheres, ainda mais em posição de poder |
Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.
Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.
A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?
Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo
Mas numa coisa o filme acerta: quando questionada como dá conta, a mulher maravilha Vitória é rápida em responder que "é fácil, querida, eu não tenho marido". Ter um cônjuge masculino em casa representa um aumento de 2 horas de trabalho por semana para as mulheres.
Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.
Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.
Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.
Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.
16 de janeiro de 2013
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4
E chegou o momento mágico do Natal! Nas últimas semanas, Mattel e companhia concentraram seus esforços no bombardeamento de pais e crianças com lançamentos como... a "Barbie Professora do Jardim de Infância" (sim, sim). Ora, como a Roberta comentou esta semana, ao oferecermos às crianças brinquedos que não reforcem os velhos estereótipos de gênero (carrinho para menino, boneca para menina, e só), não apenas ajudamos a criar adultos menos sexistas, como incentivamos essas crianças a desenvolverem novas habilidades. Com isso, proporcionamo-lhes outras possibilidades de identificação que podem contribuir, mais tarde, para combater a divisão sexual do trabalho e das profissões. Não basta que cada criança possa ser o que quiser quando crescer, é preciso ensinar às meninas que também é legal querer ser engenheira e cientista.
por Barbara Falleiros
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| Barbie professora e sua aluninha |
Assisti esses dias a um vídeo publicitário de um brinquedo chamado GoldieBlox, um jogo de construção desenvolvido por uma engenheira de Stanford que, surpresa com a quantidade ínfima de mulheres na sua turma, decidiu fundar uma companhia de brinquedos para encorajar as meninas a se interessarem por engenharia. Para ela, não era suficiente pintar um jogo de construção de cor-de-rosa (como fazem muitas marcas de brinquedo). Suas pesquisas mostraram que meninas tendiam a gostar mais de ler, por isso ela associou o jogo de construção a uma série de livros.
Incentivar as mulheres a seguirem carreiras científicas... Muitos dos que acompanham as Subvertidas devem se lembrar de um vídeo produzido pela União Europeia com esta finalidade. Caricatura grotesca e sexista da "mulher cientista", o vídeo mostrava mulheres fatais em salto agulha, num fundo rosa, alternando instrumentos de laboratório e maquiagem.
Em resposta, a European Science Foundation lançou um concurso de vídeos: Science, it's your thing. O vídeo vencedor mostra como, em razão da presença massiva de homens nas áreas científicas (nota: há apenas 14% de mulheres na presidência das universidades europeias), as pesquisas acabam seguindo involuntariamente (ou não...) uma perspectiva masculina. É assim que os manequins de crash-test são baseados em corpos masculinos, os cintos de segurança dos carros não são adaptados para grávidas, 4/5 dos medicamentos retirados da venda num determinado período, nos Estados Unidos, traziam mais risco para a saúde das mulheres do que para a dos homens, que a compreensão da dor vem de estudos feitos unicamente em ratos machos... E se as mulheres não conseguem conquistar seu lugar na ciência, não é por falta de capacidade: estatísticas comprovam que sua presença em empresas e laboratórios aumenta a produtividade, a performance e o número de patentes registradas.
Já num registro cômico, jovens pesquisadoras britânicas realizaram uma paródia do vídeo da União Europeia. O contraste entre o ambiente real de trabalho (um verdadeiro laboratório) e a caricatura da cientista sexy mostra o quão ridícula e absurda é a imagem veiculada pelo vídeo oficial. E as cientistas tiveram a ótima ideia de convidar seus colegas homens para aparecerem dançando, como elas, de forma sexy/constrangedora. É quando o ridículo, exposto pelo padrão duplo, atinge seu máximo... Divirtam-se!
23 de dezembro de 2012
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9
por Mazu
Faz algum tempo já que venho notando que o slutshaming é uma prática corriqueira entre adolescentes. Não só entre os adolescentes, é verdade, mas nas redes sociais em especial, a prática entre os adolescentes me assusta e preocupa bastante. Posso ser boba, mas eu sempre esperei mais das novas gerações. Estou pensando que a gente devia criar uma página no FB e um twitter chamado “Dicas das titias feministas” que nem tem as Dicas do He-man, só que feminista coisa que o He-man não é, enfim, a gente pode ir amadurecendo a ideia.
A gente poderia começar tratando do que aconteceu com a Kristen Stewart e a Karina Veiga, já que esses dois casos deixaram a prática do slutshaming bem evidente entre jovens.
Muita coisa me assustou nessas duas histórias, mas o que me deixou com dor de cabeça foi a quantidade de jovens mulheres que começaram a atacar as duas meninas por meio das internets (no caso da Stewart rolou até camiseta e tals). Isso me preocupa porque se a gente não for por nós mesmas, quem vai ser? Os caras é que não. Ok, existe homem feminista, mas não é como se eles dessem em árvores, especialmente porque, no caso deles, o processo de empatia deve ser mais complicado. Agora, com as meninas, era para ser mais natural, eu imagino. Aí eu leio plaquinhas sobre piriguetes e outros rótulos no Facebook e fico achando que, pelo jeito, estou imaginando errado.
Então, titia Mazu vai estrear As dicas das tias feministas e contar um segredinho: esses mitos românticos de pureza e delicadeza das princesas só existem para deixar as mulheres obedientes. Assim como a educação diferenciada que se dá aos meninos e meninas. Tudo isso tem como objetivo a nossa submissão. Não a nossa felicidade.
por Mazu
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| Sim, porque só as mães diriam isso. Aff. |
A gente poderia começar tratando do que aconteceu com a Kristen Stewart e a Karina Veiga, já que esses dois casos deixaram a prática do slutshaming bem evidente entre jovens.
Para quem mora em Marte e não sabe do que estou falando, a atriz norte-americana da saga Crepúsculo, Kristen Stewart, traiu seu namorado (Robert Pattinson) e foi crucificada loucamente na mídia e redes sociais. Como se isso fosse problema de mais alguém além de eles dois. No final, os dois continuam juntos e, pelos rumores, terão um bebê. Um final nada parecido e absolutamente horroroso teve a história da estudante brasileira, Karina Veiga, que dizem que traiu o namorado porque ninguém sabe mesmo (no caso da Stewart rolou uma fotos e tals), mas o que a gente sabe mesmo é que o namorado divulgou fotos e vídeos íntimos do casal, usando a conta dela do Facebook. Ah, a vingança! ¬¬
Muita coisa me assustou nessas duas histórias, mas o que me deixou com dor de cabeça foi a quantidade de jovens mulheres que começaram a atacar as duas meninas por meio das internets (no caso da Stewart rolou até camiseta e tals). Isso me preocupa porque se a gente não for por nós mesmas, quem vai ser? Os caras é que não. Ok, existe homem feminista, mas não é como se eles dessem em árvores, especialmente porque, no caso deles, o processo de empatia deve ser mais complicado. Agora, com as meninas, era para ser mais natural, eu imagino. Aí eu leio plaquinhas sobre piriguetes e outros rótulos no Facebook e fico achando que, pelo jeito, estou imaginando errado.
Alguma companheira poderia dizer que era mais importante falar do comportamento machista do namorado envolvido na história da Karina Veiga, por exemplo, do que das meninas machistas, já que as meninas são mais vítimas de uma educação machista do que outra coisa. É fato, e a gente já tratou disso aqui e aqui. É lógico que eu não quero crucificar as meninas que têm comportamentos machistas, mas acho que o movimento tem que pensar em formas de abordar e tratar disso, porque é um grande problema.
No caso do machismo do namorado traído, sinceramente, me dá uma preguiça depressiva comentar sobre o tipo de ser humano que ele é. Para começar quem sou eu, o que eu sei, não é mesmo? A única coisa que sei sobre ele é essa atitude gigantescamente escrota. Com base nisso unicamente, o que dá pra dizer é que ele é um gigantesco imbecil, mas, vai saber se ele já não salvou uns filhotinhos de gato de algum incêndio e tals. O que para mim não significaria nada, mas para algumas meninas adolescentes parece que significa muito. O que me leva ao centro dessa discussão, que são os príncipes encantados contemporâneos.
Porque a questão está justamente nesses mitos imbecilississimos que derivam da literatura romântica e do mito do par perfeito. Só para constar, o romantismo não é, em si, um problema. Ia ser hipócrita da minha parte criticar o romantismo. O problema é quando a gente passa a justificar determinados atos de violência, como é o slutshaming, usando o amor e o romantismo.
Pelo menos é isso que eu percebo nas adolescentes que realizam a inquisição das piriguetes. O que se fala, por exemplo, da Kristen: como ela foi trair o cara que é o Edward, um vampiro vegetariano e tudo mais. Como ela pode fazer isso? No caso da Veiga, então, pô coitado do namorado, estava com o coração partido, logo, tudo bem, porque no amor e na guerra vale tudo. Ruim é quem parte os corações por aí. Como ela não quis ser a princesinha de um cara só. Como?
Pelo menos é isso que eu percebo nas adolescentes que realizam a inquisição das piriguetes. O que se fala, por exemplo, da Kristen: como ela foi trair o cara que é o Edward, um vampiro vegetariano e tudo mais. Como ela pode fazer isso? No caso da Veiga, então, pô coitado do namorado, estava com o coração partido, logo, tudo bem, porque no amor e na guerra vale tudo. Ruim é quem parte os corações por aí. Como ela não quis ser a princesinha de um cara só. Como?
O que me perturba muito é que algumas pessoas expressam esse tipo de opinião descrita acima e ninguém estranha, nenhum alerta de insanidade toca. Você lê um comentário com um conteúdo desse tipo e vai dormir à noite de boa, sério? Então, por amor, vale humilhar, vale bater, vale matar?! Alerta vermelho cereja intenso, gente! Grave isso, muito grave.
Não sei por qual motivo, razão ou circunstância determinados mitos (tipo que por amor se mata ou se morre) seguem sendo propagados. Junto com uma educação sexista de que a gente ainda não conseguiu se livrar, isso cria um grande problema, a propagação de uma sociedade sexista e machista. Porque o que eu percebo, entre algumas meninas mais novas, é que elas genuinamente acreditam que se elas forem princesas, encontrarão seus príncipes. E o pior, serão felizes para sempre. Aí toda e qualquer pessoa que fuja disso, que se comporte de outra forma, alguém que ameace esse imaginário de qualquer maneira é uma pessoa má, uma vadia, uma piranha e tals. É, no feminino mesmo, porque os meninos quando não são príncipes estão sendo homens e, então, tudo bem. #NOT
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| Dicas das tias feministas |
Um relacionamento para ser feliz e durar não depende do que é considerado um bom comportamento. Um relacionamento não pode depender de um elemento seu apenas, já que os relacionamentos têm pelo menos dois ou mais indivíduos. O relacionamento para ser bom e dar certo não vai prender ninguém a nenhuma espécie de estereótipo. Vai se basear em respeito pelas pessoas, não em respeito pelo orgulho masculino, por exemplo.
O ponto é se alguém quiser esperar pelo seu príncipe ou princesa encantada, beleza. Quem quiser outra coisa, beleza. Só não pode usar determinadas expectativas ou frustrações decorrentes para fazer bullying em quem pensa ou se comporta de outra forma. Sacou?
O ponto é se alguém quiser esperar pelo seu príncipe ou princesa encantada, beleza. Quem quiser outra coisa, beleza. Só não pode usar determinadas expectativas ou frustrações decorrentes para fazer bullying em quem pensa ou se comporta de outra forma. Sacou?
Então, é isso minha gente, até a próxima.
4 de dezembro de 2012
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9
Curti os comentários de um dos meus textos anteriores, sobre humor e escatologia. Talvez meu ponto principal não tenha ficado muito claro: não que eu ache que "falar merda" seja intrinsicamente bom, mas que precisamos de mais mulheres falando merda. Em outras palavras, argumentei contra um moralismo que obrigada as mulheres a se conformarem a estereótipos de delicadeza, timidez e contenção.
Em geral, a divisão entre o que é 'apropriado' falar na intimidade e publicamente não é só pessoal mas também cultural, e pode ser bastante repressora, principalmente para as mulheres. Basta ver aqui o depoimento da Dani Calabresa sobre mulheres fazendo comédia. Ela diz:
Aliás, o vídeo do qual este depoimento foi tirado me chocou tanto que resolvi analisá-lo em detalhe. Veja na íntegra:
Curti os comentários de um dos meus textos anteriores, sobre humor e escatologia. Talvez meu ponto principal não tenha ficado muito claro: não que eu ache que "falar merda" seja intrinsicamente bom, mas que precisamos de mais mulheres falando merda. Em outras palavras, argumentei contra um moralismo que obrigada as mulheres a se conformarem a estereótipos de delicadeza, timidez e contenção.
Em geral, a divisão entre o que é 'apropriado' falar na intimidade e publicamente não é só pessoal mas também cultural, e pode ser bastante repressora, principalmente para as mulheres. Basta ver aqui o depoimento da Dani Calabresa sobre mulheres fazendo comédia. Ela diz:
Eu acho que a sociedade permite que os homens sejam loucos e engraçados desde sempre. Então é bonito um menino falar palavrão, é bonito um menino arrotar, soltar pum. A menina que faz isso é louca. A mulher tem medo de se expor ao ridículo. Eu sempre fui mais moleca, eu era gorda, louca, queria fazer os outros rir. Para mim era normal, mas a mulherada quer passar maquiagem, quer ficar bonita. Hoje eu sou mais vaidosa do que há muito tempo atrás. Na TV as pessoas me produzem, gente, me penteiam, eu não sabia fazer nada disso.
Aliás, o vídeo do qual este depoimento foi tirado me chocou tanto que resolvi analisá-lo em detalhe. Veja na íntegra:
0m01s
Dani Calabresa é apresentada como pizza nos seguintes termos: "O motoboy já entregou a nossa pizza?" Justo, podem dizer, já que esse é o nome artístico dela. Mas será que a mesma piada se aplicaria a um comediante homem chamado, sei lá, João Melancia? "O fruteiro já entregou nossa melancia?" Me cheira a padrão duplo.
1m
A segunda piada machista é do desagradabilíssimo Marcelo Mansfield, sobre as vezes em que "comeu calabresa". Duas piadas machistas em menos de 1 minuto e meio.
1m23s
Eu AMO quando ela responde no mesmo nível e diz que não faz "nenhum personagem tão bem como o Mansfield se faz de homem... Quase engana". Vale a pena ver o vídeo só por esse fora e pela expressão no rosto dele.
2m33s
Danilo Gentili, já citado aqui por sua piada racista, insinua que ela dormiu com alguém da MTV para manter o emprego. Ela não se submete e responde de novo à altura e com convicção, entrando na brincadeira e, por consequência, ridicularizando a fala dele.
3m23s
Ela desafia Mansfield de novo, esfregando o currículo na virilha. Referências a vagina são sempre tabu e achei ótimo ela usá-la contra o misógino de plantão.
5m20s
A câmera dá um close up longo nas pernas dela. Alguma dúvida de que isso nunca aconteceria com um humorista homem?
5m30s
Referência a quando a humorista era "gordinha". Sem comentários.
7m08s
Mansfield faz uma piada inteligentíssima #not sobre a "dicção" dela, subentende-se voz aguda, ou seja, de mulher. Ela, como sempre, responde na lata: "Você tem que ligar o aparelho auditivo". Muito menos criativo e perspicaz, Mansfield responde "haha, como você é engraçada, Dani". Coitado.
7m33s
Danilo Gentili pergunta se a Playboy nunca a procurou. Claro, porque mulher não pode só ter talento, tem que "mostrar o talento" na mente mesquinha dele.
7m55s
A partir desse momento a questão do gênero relacionada ao humor entrar em cena aberta e diretamente e Gentili diz que Dani é a melhor humorista mulher do Brasil.
8m11s
Mansfield mina a afirmação de Gentili, dizendo um "é" irônico. De novo, ela responde rápida e certeira: "Quer meu posto, né?" Ele responde dizendo que não é tão masculino. Ahn? O assunto não era a melhor humorista mulher? Melhor dar a ela o título de melhor humorista, ponto. Os dois homens humoristas desse programa, pelo menos, ficam léguas na retaguarda em comparação à rapidez, ousadia e inteligência dela.
8m30s
Gentili pergunta por que não há tantas mulheres humoristas no Brasil e Dani Calabresa dá o depoimento transcrito acima.
9m25s
Mansfield insinua que ela não é talentosa, por isso precisa se maquiar. Mais uma piada machista, sem contar o bullying.
9m32s
Gentili pergunta se foi o casamento que a deixou mais vaidosa e ela, para mim infelizmente, diz que sim.
10m27s
Mais uma piada abertamente machista: Gentili diz que amarrou uma vassoura no microfone para ela fazer stand-up. Inaceitável.
11m22s
Gentili insinua que ela se prostituiu para ganhar a vida. Inaceitável e tosco.
13m20s
Gentili pergunta quando ela terá um bebê. Por que as pessoas se sentem no direito de tal invasão da privacidade alheia quando se trata de ter filhos? E alguém imagina a mesma pergunta sendo feita a um homem na mesma situação? #padrãoduplo
13m30s
Roger, da banda, passa uma cantada. Pessoas, se liguem: cantada não é elogio, é desrespeito. Ela reage, deixando o cantador sem graça #yes
Em menos de 21 minutos, uma artista consagrada tem que passar por:
E ainda perguntam por que não há mais mulheres comediantes no Brasil.
14m12s
Gentili diz que, na época (quando ela era gorda, entende-se), a única maneira de dar no couro para ela era "entrar no coro". Inaceitável.16m17s
Márcio Ribeiro, outro comediante convidado, a assedia sexualmente, no que é, para mim, o momento mais chocante do programa. Passar a mão na perna de maneira indesejada é assédio sexual. E fica claro pela expressão e reação dela que a ação é indesejada e não consensual.18m32s
Ela faz piada sobre o pênis do marido, sinalizando a própria vida sexual. "É como andar de banana boat todo o dia!" Como é bom ter mulheres fazendo piadas sobre sexo de maneira não leviana.Contagem final
Em menos de 21 minutos, uma artista consagrada tem que passar por:
- 11 piadas machistas
- 7 ocorrências de bullying
- 1 take voyeurístico do seu corpo
- 1 ocorrência de assédio sexual
E ainda perguntam por que não há mais mulheres comediantes no Brasil.
28 de novembro de 2012
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humor,
mídia,
padrões duplos,
Roberta
11
Gosto muito de comédia stand-up. Como toda a forma de comédia, estão presentes comentários políticos, sociais e culturais, mas no stand-up, diferente de filmes e esquetes, esses comentários são feitos de maneira totalmente direta e imediata.
Há quem não goste, mas eu adoro esse filme. Primeiro porque a comédia é um campo majoritariamente masculino e um filme escrito por uma mulher e estrelado só por mulheres é uma raridade. Segundo porque não acho o filme clichê, muito pelo contrário. A cena acima, que infelizmente está cortada neste clip, termina com a noiva se aliviando na rua, usando o vestido de noiva. Um belo comentário sobre a instituição do casamento. E o enredo em torno da rivalidade entre as madrinhas de casamento termina em solidariedade feminina, o que é raro em Hollywood justamente pelo potencial subversivo que isso guarda.
por Roberta Gregoli
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| Adoro peidar |
Gosto muito de comédia stand-up. Como toda a forma de comédia, estão presentes comentários políticos, sociais e culturais, mas no stand-up, diferente de filmes e esquetes, esses comentários são feitos de maneira totalmente direta e imediata.
O problema é a ideologia que está por trás dos comentários. A Má já falou sobre comédia stand-up e concordo: muito do que tenho visto no Brasil é de virar o estômago, humor reacionário em seu estado mais puro. Reflexo de uma mentalidade reacionária (mas o Serra perdeu a eleição e talvez assinou o óbito de sua carreira política, o que significa que ainda há esperança!).
Já defendi que não existe humor inofensivo, mas isso não significa que comédia só possa ser usada para banalizar e naturalizar preconceitos e discursos de ódio.
| Margaret Cho e fã alucinada |
Ontem fui a um show de comédia stand-up da coreana-americana Margaret Cho, em Londres. Como conheço a maioria dos seus shows, sei que ela tem a boca suja, mas ontem estava particularmente suja. E achei ótimo. Precisamos de mais mulheres falando de assuntos ainda hoje tidos como tabu: menstruação, menopausa, masturbação e sexo, muito sexo. Enquanto santa e puta forem categorias mutuamente excludentes, precisamos de mulheres fazendo piada sobre a própria vida sexual, sobre boquete, sexo anal; enquanto houver a ideia de orientação sexual como algo rígido, com a heterossexualidade como norma, precisamos de mulheres falando sobre sexo com homens e com mulheres.
Precisamos também de mulheres falando sobre o aborto. E aqui alguns podem se chocar. Mas ora, se piada de estupro é "só brincadeirinha", por que de aborto não pode? #padrãoduplo
A Sarah Silverman é outra comediante norte-americana, também de minoria étnica (judia) e gerou polêmica com este post no Twitter, em abril deste ano:
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Ela escreveu e eu traduzo: fui ali fazer um aborto rápido caso a lei seja revogada ("R v W" é uma referência ao caso Roe contra Wade, que levou à descriminalização do aborto em âmbito nacional, em 1973).
Sob protestos indignados dos conservadores, talvez principalmente por isso, o comentário é sensacional pois enfatiza o perigo iminente de se perder um direito conquistado pelas mulheres norte-americanas há quase 4 décadas. A graça da piada é que Silverman nem estava grávida, ela disse depois que só estava inchada por ter comido um burrito.
Sob protestos indignados dos conservadores, talvez principalmente por isso, o comentário é sensacional pois enfatiza o perigo iminente de se perder um direito conquistado pelas mulheres norte-americanas há quase 4 décadas. A graça da piada é que Silverman nem estava grávida, ela disse depois que só estava inchada por ter comido um burrito.
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| Meninas passam bilhetes, meninos 'passam' gases |
Precisamos também de mulheres falando sobre temas escatológicos, o chamado 'humor de banheiro'. E a Margaret Cho é ótima nisso, ela fala sobre mijar nas calças, cagar nas calças, peidar. Independente de achar graça nesse tipo de humor ou não, acho importante que piadas assim estejam sendo feitas por mulheres. Porque homens falam abertamente sobre todas essas coisas, fazem piadas, enquanto nós somos educadas para, na melhor das hipóteses, usar eufemismos. E mais do que falar, nós precisamos rir dessas experiências porque o riso naturaliza. E não há nada mais natural do que nossas necessidades fisiológicas. É como se a nossa própria experiência corpórea em seu nível mais concreto nos fosse negada. Ou pelo menos nos fosse negado falar sobre ela, que é a mesma coisa.
Ainda sobre mulheres e escatologia, me lembro que ano passado houve uma cena do filme Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011) que foi particularmente criticada:
Há quem não goste, mas eu adoro esse filme. Primeiro porque a comédia é um campo majoritariamente masculino e um filme escrito por uma mulher e estrelado só por mulheres é uma raridade. Segundo porque não acho o filme clichê, muito pelo contrário. A cena acima, que infelizmente está cortada neste clip, termina com a noiva se aliviando na rua, usando o vestido de noiva. Um belo comentário sobre a instituição do casamento. E o enredo em torno da rivalidade entre as madrinhas de casamento termina em solidariedade feminina, o que é raro em Hollywood justamente pelo potencial subversivo que isso guarda.
Ando pensando muito nas comediantes mulheres no Brasil, mas acho que esse é assunto para um outro post, mesmo porque ainda não consegui chegar a nenhuma conclusão clara. O maravilhoso humor desbocado da Dercy Gonçalves é certamente transgressor, mas não sei o suficiente sobre a nova geração... Talvez a Ingrid Guimarães e a Heloísa Périssé se aproximem mais desse tipo de humor subversivo com relação ao papel da mulher. Comentários?
31 de outubro de 2012
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4
por Mazu
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| Como é que é?? |
Este post vai ter um tom de
desabafo, mas espero que a companheirada me perdoe. Estou aqui lembrando de
quando a Bárbara teve uma semana super legal, só que não. Esse foi o meu final
de semana massa, só que ao contrário. Fui chamada de feminista exagerada,
extremista e acusada de ser incapaz de escutar a opinião alheia. Vai vendo. Justo
eu que, na real, sempre me achei uma feminista de moderada a leve. Isso porque
eu não entro em todas as discussões e dou até um sorriso amarelo quando meu
chefe faz suas observações sexistas. Não me julguem, preciso pagar as contas.
Sei que tem uma das blogueiras
famosas que se autodenomina “feminista cansada”, não sei bem se ela está
cansada pelos mesmos motivos que eu, mas, cara, como cansa.
E sabe por que cansa tanto?
Porque a gente se pega tendo a mesma discussão várias vezes, de diversas
formas, com várias pessoas e, às vezes, com as mesmas. Esse feriado que passou,
tive que repetir umas cinco vezes que feminismo não é o contrário de machismo,
que a culpa da tripla jornada de trabalho não é das sufragistas (sim, eu
escutei essa barbaridade de uma mulher jovem e bem resolvida), que a Carminha
(a da novela) não merecia apanhar e que se a gente andasse de burca, o índice
de violência contra a mulher não diminuiria nem no Distrito Federal e nem na
China. Eu estaria feliz se tivesse mudado alguma coisa em alguém, mas parece
que só fiquei mesmo com a fama de feminista chata e nada razoável.
De qualquer forma, serviu para
refletir sobre algumas coisas. E uma matéria de revista me ajudou muito nisso. A
Época de outubro de 2012 traz a
seguinte matéria de capa: “A Mulher venceu a guerra dos sexos: elas estudam
mais, são mais valorizadas no trabalho e já nem querem saber de namorar para
não atrapalhar a carreira. Os homens que se cuidem...”. Parece exagero, mas aí mora a origem de todo
o mal: andam vendendo um imaginário de que a mulher já alcançou o máximo que
poderia alcançar na nossa sociedade e que os homens estão ameaçados. Meu Deus,
que bobagem!
Essa sensação de que já estamos
com todos os direitos conquistados faz o feminismo parecer obsoleto e ridículo.
E isso é um tiro no pé de todo mundo, inclusive dos homens. Já dissemos
milhares de vezes no blog, a independência das meninas é a independência dos
meninos. Ninguém precisa proteger ou sustentar uma mulher, hoje em dia, e isso
tira peso de responsabilidade dos dois lados.
Sobre a tripla jornada de
trabalho, a gente não trabalha mais porque a gente quer. Esta é a ideologia
mais reacionária do planeta: a de que as minorias fazem ou deixam de fazer as
coisas porque querem, já que hoje somos todos iguais. (Ai, faça-me o favor,
vamos estudar história, né?) O que aconteceu é que as mulheres ganharam espaço
no mercado de trabalho, mas ainda convivemos com a ideologia patriarcal de que
a casa e os filhos são mais nossos que dos caras. O que não tem nada,
absolutamente nada, a ver com as sufragistas. (Pelamor!) Tem a ver com a
ideologia dominante do patriarcado. E se essa ideologia ainda exerce pressão
sobre nós, mulheres, deixa eu te contar, moça, o feminismo ainda tem muito
motivo para existir.
Um dos objetivos do blog é
mostrar que as feministas não são loucas raivosas, e estou, hoje, tendo
dificuldade com isso, já que estou cansada (como acabei de explicar) e com
raiva, e a matéria da Época só não
está pior porque acabou em cinco páginas.
A matéria começa falando de uma
novela dos anos 1980 que está sendo readaptada. Indiferente, não foi boa antes,
não vai ser boa agora. O ponto mais ou menos válido do início da matéria é que
como alguma coisa mudou na sociedade em 20 anos, a readaptação meio que reflete
isso. Por exemplo, uma das personagens era uma mulher mais livre sexualmente e,
nos anos 1980, sua liberdade sexual foi censurada, hoje em dia, ela se sente
mais enturmada socialmente. Uau.
A partir daí, a matéria começa a
descrever como ocupamos o mercado de trabalho, como somos protegidas por
algumas leis e como somos maioria nas Universidades. E segue dessa forma, duas
páginas e meio de alegria, mostrando todas as nossas conquistas que, durante o
texto, foram chamadas de “cataclismos sociais”, juro, na página 72:
“O mais provável que é que estejamos olhando para mudanças permanentes, como as provocadas por cataclismos sociais como o voto feminino ou a Segunda Guerra Mundial, que exigiu a presença feminina nas fábricas.”
Excelente escolha lexical da
jornalista!
Depois de toda essa alegria,
alguma coisa aconteceu com quem estava escrevendo a matéria, eu penso que um
troço chamado “pesquisa” tenha acontecido com ela, e ela começou a apresentar
os dados de que já falamos no blog algumas vezes. Ocupamos o mercado de
trabalho, mas ainda ganhamos menos, somos menos promovidas, vivemos mais
estressadas porque existe a pressão de ser bem sucedida no trabalho, mas existe
a pressão de ser mãe e esposa para ser feliz. No cenário político, a
participação ainda é pequena e tals. A matéria diz até uma coisa que gostei
muito de ler sobre o fato de estarmos sobrecarregadas com essas pressões todas:
“ou as empresas se adaptam ou as mulheres terão de rever seu papel em um dos
dois lugares” (casa ou escritório). Ainda que isso possa soar como outra forma
de pressão do tipo "pense bem no que você quer ser", é libertador, de certa forma,
pensar que não precisamos ser tudo. Ainda que ser uma boa profissional e uma
boa mãe de família seja comum, hoje em dia, é massacrante. E a gente tem direito
de escolher, ou uma coisa ou outra.
| Aviso para a Época: esta propagando foi retirada pelo Conar por ser machista e racista, não é um sinal de vitória para mulher nenhuma. |
De repente, a matéria ficou legal
apontando como no Brasil, as mulheres ainda são mais apegadas a tradição
patriarcal. Aqui, ter marido e filhos é prova de sucesso para mulher. É fato. E
é inesquecível quando a seguinte situação acontece com você. Você estuda e se
vira e tem suas coisas e escuta: você é casada? Tem filhos? Responde que não e
percebe aquele olhar de desprezo na sua direção. Quem nunca?
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| Grifei Teló e Du Loren, na lista de "sinais" de vitórias |
Bom, a matéria estava indo super
bem falando que, hoje, a mudança depende menos das leis e mais de comportamentos
que precisam ser alterados, até o último parágrafo em que trouxe uma frase do
Silvio de Abreu (Who?): “a mulheres já garantiram o espaço e estão por cima. O
homem é que passou a reivindicar o seu lugar.” Meu Deus. Não. Como a matéria
trouxe tantas pesquisas e pesquisadoras legais e opta por terminar com essa
frase de um sujeito que não tem tradição nenhuma na pesquisa sobre gênero? Só
porque ele escreveu uma novela chamada “Guerra dos sexos”?
Tanto esforço e tempo que a gente
passa dizendo que “você não está sendo oprimido quando uma minoria exige
direitos que você sempre teve”. Tanto tempo mostrando números absurdos de
violência e para quê? Para uma grande revista de grande circulação vir com essa
conversa de que já ganhamos, está tudo dominado, os homens que se cuidem? Sério
como assim alguém acha que “Ai se eu te pego” do Michel Teló e a propaganda
racista e preconceituosa da Du Loren são sinais de que já alcançamos nosso
lugar ao sol? Como não ficar brava, como ser razoável? Alguém me ajude com
isso.
Que canseira e que desânimo. Para
começar, não existe guerra dos sexos ou, pelo menos, não deveria existir, já que
ter direitos iguais é legal para todo mundo porque ninguém tem mais
responsabilidade do que ninguém. Em segundo lugar, esse tipo de matéria e de
ideias que ela propaga só serve para deixar os homens na defensiva, e isso não
ajuda o movimento. Aliás, não ajuda ninguém.
15 de outubro de 2012
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