Mostrando postagens com marcador padrões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador padrões. Mostrar todas as postagens
0

Por que gostamos tanto de ver lésbicas no cinema?



por Larissa

Flores Raras, de Bruno Barreto, estreou nesta sexta-feira, 16, em 150 cinemas do Brasil. O filme, exibido anteriormente na abertura do festival de Gramado, ficou em 1º lugar de público no festival de cinema de São Francisco e em 2º lugar em Berlim. Não é à toa que a obra era ansiosamente aguardada pelas lésbicas do país.


Trata-se da história de amor, entre duas mulheres notáveis: Lota de Macedo Soares, a idealizadora e responsável pela construção do Aterro do Flamengo; e Elisabeth Bishop, renomada poetisa estadunidense, ganhadora, dentre outros, do Prêmio Pulitzer de 1956, com a obra Norte e Sul, escrita no período em que estava no Brasil.

Veja o trailer do filme: 


Antes da divulgação do trailer, havia receios a respeito da representação das personagens que iríamos encontrar. Não é raro, no cinema, que figuras célebres reconhecidamente homossexuais tenham essa parte de sua identidade disfarçada, ou apresentada apenas como um mero detalhe, como se viver a homossexualidade abertamente em uma cultura heteronormativa fosse algo banal na vida das pessoas. Os exemplos são muitos, não cabe aqui uma lista.

Em Flores raras, as cenas são claras. As duas se amam, se beijam, trocam carícias ternas e picantes. É mesmo possível reconhecer uma representação de afetividade convincente entre duas lésbicas. Glória Pires encena uma Lota decidida e autoritária, poço de segurança que se desfaz. Em uma certa crítica do filme, a atriz foi acusada, por essa atuação corajosa, de fazer uma caricatura forçada de masculinidade. Não há artificialidade nisso, não é uma caricatura. Nem todas as mulheres (ainda bem) seguem os padrões rígidos de feminilidade impostos pela cultura sexista heteronormativa. Isso não é caricatural, é a diversidade das formas de se ser pessoa humana.

Apesar de Bruno Barreto negar que o filme seja sobre homossexualidade, mas sim sobre perdas, o tema está lá com a própria vivência homossexual dessas mulheres históricas. É louvável que haja esse e outros temas. Já Glória Pires, em entrevista no festival de Gramado, comenta a importância da questão no filme em nosso momento político de avanços e reações apavoradas dos grupos conservadores em relação aos direitos homossexuais. Vale lembrar que o projeto do filme, iniciado há 17 anos com a compra dos direitos autorais do livro por Lucy Barreto, lidou com dificuldades em conseguir patrocínio pelo receio que muitas instituições têm de vincular suas marcas à homossexualidade.

E voltamos à pergunta título: Por que gostamos de ver lésbicas no cinema?
Gostamos de ver lésbicas no cinema, na televisão, nos livros porque gostamos de nos sentir representadas. Gostamos de reconhecer nossos conflitos, alegrias, anseios. As histórias contadas são formas de representação da realidade. Elas podem confirmar nossas crenças, reforçar ou questionar padrões, trazer reflexões sob outras perspectivas. O fato de só haver representações de amor heterossexuais acessíveis ao público em geral e principalmente aos adolescentes é uma violência através do silenciamento. 

Lembro que na minha adolescência não vi NADA que contemplasse outras formas de amor. As “lésbicas” que vi na televisão foram em produções pornográficas feitas para homens heterossexuais. Não é de se surpreender que esse tipo de material fosse mais acessível - depois da meia-noite na TV a cabo - que uma representação de afetividade autêntica entre duas mulheres. Ou seja, tudo bem que existissem lésbicas, mas para satisfação de desejos masculinos. Mas enfim, isso era final da década de 90. As coisas vão mudando, ainda que gays e lésbicas apareçam apenas de vez em quando, ainda como algo excepcional no grande circuito das narrativas cinematográficas ou literárias. Essa excepcionalidade não garante a quebra dos padrões, mas essa ínfima existência é um respiro em meio ao mar de produções que confirmam estereótipos heterossexuais de como ser mulher e de como ser homem.  O sucesso de Flores raras é sinal de novos tempos.

Veja:

11

Poesia e pensamentos soltos


por Mazu



Eu não sou um homem

(Harold Norse, EUA, 1916-2009)
Eu não sou um homem, não consigo ganhar a vida, comprar coisas novas pra minha família.


Eu tenho espinhas e um pau pequeno.
Eu não sou um homem. Eu não gosto de futebol, boxe e carros.


Eu gosto de expressar meus sentimentos. Eu até gosto de colocar meu braço sobre os ombros de meus amigos.

Eu não sou um homem. Eu não vou jogar o papel que me foi atribuído – o papel criado pela Madison Avenue, pela Revista Playboy, Hollywood e por Oliver Cromwell.


Televisão não dita meu comportamento.
Eu não sou um homem. Uma vez quando atirei num esquilo eu jurei que nunca mais mataria de novo. Desisti da carne. Ver sangue me deixa doente.


Eu gosto de flores.
Eu não sou um homem. Fui preso por resistir ao recrutamento. Eu não brigo quando homens de verdade me batem e me chamam de bicha. Eu não gosto de violência.

Eu não sou um homem. Eu nunca estuprei uma mulher. Eu não odeio os negros.


Eu não fico emotivo quando agitam a bandeira. Eu não acho que deveria amar a América ou deixá-la. Eu acho que eu deveria rir dela.
Eu não sou um homem. Eu nunca tive gonorréia.
Eu não sou um homem. Playboy não é minha revista favorita.
Eu não sou um homem. Eu choro quando estou triste.
Eu não sou um homem. Eu não me sinto superior às mulheres.
Eu não sou um homem. Eu não uso suspensórios.
Eu não sou um homem. Eu escrevo poesia.
Eu não sou um homem. Eu medito sobre paz e amor.
Eu não sou um homem. Eu não quero te destruir.


São Francisco, 1972
(tradução de Jeff Vasques)
 
Lendo esta belíssima tradução feita pelo nosso compa Jeff, me peguei pensando em todo estereótipo que envolve o masculino.

A gente fala muito no blog do que é ser mulher em uma sociedade machista, mas o estereótipo do homem com H maiúsculo também não deve ser bolinho não. 

Obviamente, as mulheres sofrem mais discriminação e violência, mas, na real, ninguém é livre e ninguém pode ser. O machismo oprime a todos nós. 

Não ia ser massa, a gente em uma sociedade que respeitasse o que se tem de "masculino" e o que se tem de "feminino" em cada um? Ninguém é unidimensional, e isso que é o bonito da humanidade, né? Imagina o dia que a gente aceitar? Que lindeza que vai ser...

22

O caso de Fallon Fox

por Mazu


Fallon Fox
Esta semana, resolvi fazer entrevistas por esse mundão a fora. Tudo porque resolvi falar de um assunto que anda me fazendo pensar e coçar o cabeção há alguns dias. Fallon Fox!

Fallon Fox é uma lutadora de MMA que passou pela cirurgia de mudança de sexo. Lá por meados de abril, ela recebeu autorização para lutar num campeonato feminino na Flórida. Isso causou altos bafafás e teve até lutador do UFC suspenso por destilar preconceito em vídeo.

Antes e depois de Fallon Fox
O motivo de tanto barulho é o mesmo que me deixou cheia de dúvidas e me dividiu. Mesmo que algumas pessoas tenham a opinião de que a diferença de força física entre homens e mulheres é socialmente construída, ainda tem muita gente que afirma que a parada é biológica mesmo. Eu, com o pouco de experiência que tenho em treino, posso afirmar que nunca fui páreo para homens do meu peso, até alguns menores e mais novos costumavam me derrubar com certa facilidade. Será social, comigo? Logo eu toda feminista e tals? Não sei.

Mas por que estou falando de diferença entre homens e mulheres, se a Fallon não é homem, agora ela é mulher, certo? Legalmente e biologicamente. Então, ela perdeu a chamada "força masculina"? Sua composição física é igual a das outras lutadoras? Seria ela menos ou mais forte que algumas lutadoras que se entopem de hormônio masculino? Aqui, dá para ler a opinião de várias lutadoras diferentes.


Ronda Rousey, a primeira mulher campeã do UFC e atleta de artes marciais desde a infância, acha que Fox teria uma vantagem por ter passado a puberdade como homem, período em que teria adquirido a densidade óssea de um homem.

Como a gente pode ver, é complicado. Agora ela é uma mulher e tem os direitos que todas nós temos. Mas, vamos supor que eu fosse uma lutadora, eu não sei se me sentiria confortável e respeitada em enfrentá-la. Estou sendo super sincera aqui. E por essa divisão, confusão e tals, que fui pedir ajuda aos amigos de várias áreas, falei com militantes, médicos, treinadores e abaixo, trago algumas das respostas que recebi.

Sobre a composição física e densidade óssea:


Na verdade, se a pessoa tem o cromossomo Y e testículos ela tem produção de testosterona e conversão de testosterona em um derivado mais ativo. Isso faz com que tenha mais musculatura, maior estatura, mais densidade óssea do que mulheres. Isso faz com que homens e mulheres tenham constituição diferente, o que fica bem mais nítido depois da puberdade.

De fato, se alguém remove os testículos antes da puberdade terá musculatura e estatura mais próximas do "feminino", porque a maior parte da produção e utilização da testosterona se dá da puberdade em diante. Ou seja, ainda que ela tome hormônios feminizantes hoje, ela ainda tem "vantagens" do homem quando se fala em força física.
- Médica Pediatra

A densidade óssea vem da contração muscular e do balanço positivo de nitrogênio que é muito mais intenso em um sujeito que produz testosterona. O fato de ela ter feito a cirurgia não tira essa densidade óssea já existente.
- Médico Ortopedista

Sobre as diferenças entre uma lutadora que passou pela cirurgia de mudança de sexo e uma lutadora que se droga:


Ela (transexual) seria muito mais fraca que uma lutadora que se droga, pois o uso de anabolizantes faz que sua testosterona e DHT se elevem, no mínimo, 10 vezes mais que o fisiológico de um homem. Conheço fisiculturistas em que esse valor passou das 100 vezes mais. Além da testosterona, o uso de anabolizantes esteroides eleva outros tipos de hormônios. O uso apenas de testo não é o segredo.
- Médico Ortopedista

Sobre a participação de Fallon nos eventos


Difícil dar opinião. Depende de o que pensamos que seja o objetivo do esporte. Se for vencer uma disputa equilibrada, não concordaria com a participação dela em esportes femininos porque ela tem uma vantagem indiscutível. Por outro lado, se o objetivo do esporte for o de promover integração, educação etc etc etc, a discussão muda completamente.
- Médica Pediatra 

Difícil, heim? No entanto, acho que talvez estejamos caminhando rumo à diminuição das diferenças de capacidades físicas de homens e mulheres. Nas olimpíadas de Londres, não teve uma chinesa que nadou tão rápido que empatou ou ficou pouco atrás do Ryan Lochte? E não é necessário que sejamos desafiadas para que possamos 'incrementar' nossa força física? Se uma mulher trans tem reconhecido seu direito de usar seu nome de mulher, se quer reconhecida como mulher, não deveria mesmo lutar com mulheres?
- Blogueira Feminista

Fallon Fox
Chris Cyborg, que foi pega no doping depois de nocautear uma adversária em alguns segundos

Ronda Rousey, atual campeã mundial da categoria peso galo do UFC
 
Do que li e ouvi por aí, tirei que uma lutadora que passou pela cirurgia de mudança de sexo, especialmente as que foram homens na puberdade, teriam alguma vantagem sobre uma mulher cisgênero. Agora, a Fallon já perdeu lutas, logo, essa vantagem não deve ser insuperável. A meu ver, desleal mesmo é a competição com quem se droga, seja a pessoa cisgênero ou transgênero.

Fico triste porque queria vir aqui com uma solução pronta e emblemática, uma bandeira. Mas também não posso ser hipócrita. A gente tem mais é que debater, se informar e ler, a informação costuma ser o caminho mais seguro para o respeito.

De qualquer forma, a Comissão Atlética, na Flórida, parece ter tomado sua decisão, e as meninas da luta têm que se adaptar a ela. E talvez isso seja bom, como disse a nossa amiga blogueira, quando existe desafio, a gente sempre se supera.

1

Você é gordx e a culpa é sua

por Barbara Falleiros

Quantidade de açúcar nas bebidas industrializadas
Nas cidades, as crianças de hoje não brincam na rua (perigosa demais, inadaptada) e passam a maior parte de seu tempo livre na frente do computador ou da televisão. Para os adultos, sair caminhando a pé ou de bicicleta são práticas que lutam para serem reabilitadas e assim, entre comodidade, segurança e falta de alternativas, não são poucos os que entram no carro até para ir à padaria. Tudo nos empurra para uma vida sedentária. A rotina pesada de trabalho e a falta de tempo encorajam o consumo de alimentos processados. Comida rápida, engolida por robôs eficientes. Se há um lugar em que a depressão me invade sem qualquer possibilidade de resistência são as praças de alimentação dos shoppings. Da luz pálida ao sorriso dos atendentes, tudo é irreal no templo do consumismo. Refrigerante no lugar de água, refrigerante na mamadeira, porções de porcariada cada vez maiores. "Amo muito tudo isso" - martelam na sua cabeça. Como de costume, os mais pobres são os primeiros a serem atingidos. Parece que no Brasil tomate agora é caviar. Crise passageira, que seja, mas frutas e legumes são artigos de luxo. Produtos orgânicos, então, é coisa de gente muito fina. E quem não pode ter sua própria horta (viva a horta urbana!) que encha o bucho de batatinha chips, bolacha recheada, coca-cola, miojo e salsicha. Desde pequenininhx.

No Brasil, um levantamento realizado em 2008/2009 mostrou que 50% dos homens e 48% das mulheres se encontram com excesso de peso, sendo que 12,5% dos homens e 16,9% das mulheres apresentam obesidadeUma em cada três crianças brasileiras de 5 a 9 anos está acima do peso recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Há um excelente documentário, Muito além do peso (assistam! é longo, mas vale a pena), que mostra as relações nefastas entre a publicidade de alimentos destinados às crianças e a obesidade infantil. Porém... no início deste ano o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), vetou a lei que tentava proibir a propaganda de alimentos infantis não saudáveis na televisão. Vetou. Anotaram?

Tudo isso para chegar a uma conclusão lógica e evidente: gordos e gordas, a culpa é de vocês. Não é lobby não, que história é essa? Não tem epidemia nenhuma e isso de predisposição genética é balela. Você é gordx porque quer! Mas pode não ser, você pode ser feliz em outro corpo comprando revista, remédio, produto. Mas ser gordo e feliz, isso é impossível.

...A gordofobia é para mim uma das mais grotescas formas de discriminação, e olha que a concorrência é rude. Nega a responsabilidade do nosso vender-comprar-vender way of life, dos padrões ditados por ele, culpabiliza a pessoa que sofre. Não levem a mal a comparação, que para mim é pertinente: ninguém jamais diria a uma pessoa com câncer "Nossa, você poderia dar um jeito nessa careca para ficar mais bonita! Você deveria fazer alguma coisa, se cuidar, ter mais força de vontade". Mas a/o obesa/o é sempre culpabilizado, mesmo quando se trata de um problema de saúde. Porque gordx é relaxadx, né? É culpa dele/a ser feio/a, largado/a, não se cuidar.

Vale lembrar

Gord@ é doente. Ou não.

Primeiramente, há pessoas que sofrem de obesidade e que estão, de fato, doentes. Se estão doentes, deveriam ser cuidadas por profissionais respeitosos. Aí está a primeira dificuldade. Quem já se esqueceu da conduta irresponsável e antiética do médico de Salvador que receitou "cadealina", ou cadeados na porta da geladeira, para uma paciente com problemas no fígado, que desejava emagrecer? A quem a/o obesa/o pode recorrer quando é estigmatizada/o pelo próprio profissional de saúde, que repassa ao paciente toda a responsabilidade por sua doença? A pessoa obesa tem todos seus passos controlados por uma patrulha desconhecida: se come demais e se continua sedentária, todos dizem "bem feito", se come de menos e tenta se exercitar, é "ridícula".

A discriminação no olhar. Projeto Wait Watchers da fotógrafa Haley Morris-Cafiero
Segundo ponto: por que é que pessoas doentes deveriam se sentir feias? Na verdade, escrevo este texto pensando em um post que vi outro dia, a respeito de um fotógrafo que retratou mulheres obesas. Como toda forma de expressão artística, a fotografia tem uma finalidade estética, e é aí que a coisa complica. Como é que o cara ousa criar beleza com modelos obesas? Não pode! E a desculpa muito sabida que encontraram para recusar toda beleza fora do padrão é... a saúde! Porque apreciar ou mesmo conceber que um/a obeso/a possa ser belo/a significa incentivá-lo na sua doença, lógico. E fiquem sabendo que isso é imoral. Ah, discriminação disfarçada de politicamente correto! A reação das pessoas é tão imediata que a autora do post em questão foi obrigada a fazer um adendo:

"*UPDATE: Nós do Hypeness não incentivamos a obesidade pois ela é uma doença e não é saudável. Os aplausos aqui foram para a atitude inovadora do fotógrafo de quebrar paradigmas e retratar uma realidade que existe, mesmo que a mídia e a sociedade deteste admiti-lo."

Espero que aqui no blog não precisemos desse adendo. E que a beleza dessas imagens possa ser apreciada sem hipocrisia.





Mas é sempre preciso lembrar que existem pessoas que são gordas e que não estão doentes. Porque a família é gorda, porque gosta de comer, porque com o passar do tempo o corpo foi acumulando mais "substância", porque é assim e ponto. Tem gente que é mais alta, tem gente mais baixa, forte, fraca, pouco importa! O inaceitável é que a/o gorda/o seja bombardeada/o pela "boa intenção" de conhecidos e desconhecidos que são como felicianos em pele de presidente da CDHC. Reproduzo aqui o trecho de um post da Lola que, ela mesma uma mulher gorda, pode falar da sua própria experiência:

Toda vez que falo sobre aceitação do corpo aqui no blog, vem um batalhão dizer que só é gorda quem quer. Ou seja, já associam gordura com falta de caráter, ou, pelo menos, falta de determinação. O fato de 99% das dietas falharem (a pessoa até perde quilos mas acaba recuperando tudo e mais um pouco depois) não mostra o óbvio – que dietas o funcionam. Mostra que as gordas é que não funcionam porque são umas desleixadas. Elas simplesmente não fazem o esforço. Esforço que, pra muita gente, equivale a viver pra isso. Eu fiz reeducação alimentar uns quatro anos atrás, durante quase um ano, e até gostei. Cheguei a perder oito quilos. Mas eu vivia pra aquilo. Não havia um só momento que eu não pensava em comida, em quilos, em calorias, em ginástica.

E alguém vai ter a coragem de me dizer que isso é libertador? Contra essa história de que se deve acabar com a autoestima da pessoa gorda para não "incentivá-la" a continuar cultivando esse "terrível defeito físico e de caráter", ela diz:

Mas aprenda o quê, may I ask? Que ela é gorda? Juro que ela já tinha se dado conta. Que ela é horrível por ser gorda [quer dizer, que a pessoa é tida como horrível por ser gorda]? Vai por mim: ela sabe disso desde criancinha. Que precisa emagrecer? Ela passou a vida toda tentando. Gente, a verdade é uma só: se ofender gordas fizesse que perdêssemos peso, não haveria uma só gorda no mundo. Todas nós já fomos insultadas. Todas nós já tentamos emagrecer, e a maioria vai tentar até morrer.
Então é isso. Para terminar contra os bullyings, fica o vídeo e o discurso dessa jornalista americana, em resposta à carta "bem intencionada" de um homem preocupado com o exemplo que ela, gorda, passava para seu público :



"Você não está me dizendo nada que eu não saiba [sobre a minha aparência], mas você não me conhece e não sabe nada sobre mim. Eu sou muito mais do que um número na balança."

Entendeu?
 


1

A ausência de roteiristas mulheres e negrxs e o perigo da história única

Por Thaís Bueno

Que o Brasil é um país onde se assiste a muita televisão, não é novidade. Segundo uma pesquisa Ibope de 2012 (quadro abaixo), o brasileiro assiste à TV por uma média de 5 horas e meia por dia. Obviamente, trata-se de uma média, que pode ser jogada para mais ou para menos dependendo de inúmeras variáveis: idade, classe social, gênero. É interessante notar, no entanto, que no meio desse mar de números e estatísticas (que parecem não dizer muita coisa), há um dado interessante: cada vez mais a TV por assinatura cresce em termos de audiência, roubando uma fatia do bolo que antes era servido às grandes redes de canais abertos.



Segundo pesquisa realizada pela Agência Nacional de Telecomunicações, em 2011, a TV paga atingiu, no Brasil, um crescimento de mais de 21,7%, chegando a quase 12 milhões de domicílios. Seria interessante pensar nos fatores que ocasionaram esse crescimento, mas, agora, penso em outra questão: quais seriam as consequências desse crescimento processo de recepção de conteúdos pelos telespectadores brasileiros, considerando o espaço e os papéis das mulheres nos programas exibidos nos canais fechados? Como muita gente sabe, as séries estadunidenses, ou sitcoms, predominam na programação de boa parte desses canais fechados no Brasil, e estão cada vez mais populares entre os brasileiros. 

Seria interessante, então pensar: como é representada a imagem da mulher nesses seriados? Será que a mulher brasileira (ou as mulheres brasileiras) pode se identificar com os modelos femininos propostos por essas séries? 

Felizmente, há muitos estudos interessantes feitos sobre o alcance desses programas de TV no Brasil e os padrões que eles disseminam. Segundo um desses estudos (BEZERRA, 2008), mesmo nos casos em que tais seriados se dedicam a contar histórias de mulheres (nessa categoria, o famoso Sex and the City é o que primeiro me vem à mente) e suas conquistas no momento atual de avanço das lutas feministas, essas conquistas se restringem a questões da esfera privada, não representando uma grande mudança no âmbito público: 

 ...podemos ver a representação, feita através do discurso da personagem-narradora, de uma mulher que, sim, está num momento histórico decorrente de duras conquistas, um momento em que pode expressar o que pensa sobre variados tópicos, como: sexo, trabalho, amizades, espiritualidade e casamento. No entanto, podemos concluir que essa sua atuação ainda se restringe à esfera privada, em que suas preocupações, anseios, ações e relações não estão representadas como tendo impacto no âmbito social/público, esfera que historicamente vem sendo reservada aos homens.

Seriado Sex and the City: questões femininas podem ser interessantes, mas se restringem à esfera privada

É curioso pensar nessas análises dos seriados de TV levando em consideração quem é que escreve e produz esses programas. De acordo com o WGAW 2013 TV Staffing Brief, um estudo feito pelo The Writers Guild of America (sindicato que representa os escritores do setor cinematográfico e televisivo dos Estados Unidos), o grupo de profissionais que escrevem os programas de TV produzidos lá (e assistidos aqui) é constituído, predominantemente, por homens brancos. Muito pouco espaço é concedido a mulheres ou a mulheres ou homens negros no processo de produção do conteúdo que é exibido pelos canais de TV: nas temporadas 2011-2012, dos 1.722 roteiristas envolvidos na produção desses programas, apenas 519 (ou 30,5%) eram mulheres, e só 269 eram negrxs. 

Além desses números, o sindicato apresentou, no estudo, uma lista de séries de TV que não incluíram roteiristas mulheres ou negrxs em suas equipes de produção: 

:: Lista de programas de TV que não incluíram roteiristas mulheres na produção (temporada 2011-2012): 

America’s Funniest Home Videos 
Big Time Rush 
Californication 
Comedy Bang! Bang! 
Dancing With The Stars 
Eagleheart 
Enlightened (Creator Mike White wrote all the episodes) 
Futurama 
Geniuses 
Gurland On Gurland 
The Insider 
Kickin’ It 
Locke & Key 
Magic City 
Psych 
Teen Wolf 
Veep 
Workaholics I 
Workaholics II 

:: Lista de programas de TV que não incluíram roteiristas negrxs na produção (temporada 2011-2012): 

America’s Funniest Home Videos 
Anger Management 
Are You Smarter Than A Fifth Grader 
Baby Daddy 
Best Friends Forever 
Big Time Rush 
Blue Mountain 
State Boss 
Breaking Bad 
Californication 
The Client List 
Comedy Bang! Bang! 
Dancing With The Stars 
Eastbound and Down 
Enlightened (Creator Mike White wrote all the episodes) 
The Firm 
Free Agents 
Futurama 
Game of Thrones 
Geniuses 
A Gifted Man 
Glee 
Good Luck, Charlie 
Gossip Girl 
Gurland On Gurland 
Happily Divorced 
Hart of Dixie 
Homeland 
How To Be A Gentleman 
The Insider 
Jane By Design 
Kickin’ It 
Lab Rats 
Last Man Standing 
The League Longmire 
Make It Or Break It 
Man Up 
Mike and Molly 
Napoleon Dynamite 
Once Upon A Time 
One Tree Hill 
The Protector 
Ray Donovan 
Revenge 
State of Georgia 
Stevie TV 
Two And A Half Men 
Veep 
Web Therapy 
Weeds 
Workaholics I 
Workaholics II 

É frustrante notar que as listas são enormes. E, mais frustrante ainda, perceber que, entre esses programas, há alguns direcionados ao público infantil ou infanto-juvenil, como Futurama e Big Time Rush.



Como se pode imaginar, uma das consequências de termos apenas roteiristas homens e brancos escrevendo os programas televisivos aos quais assistimos é a homogeneização das histórias que esses programas contam e que, obviamente, não representam a mulher brasileira. No entanto, é preciso fazer uma ressalva: um roteirista ou escritor branco pode, sim, apresentar um retrato interessante e complexo da atual situação feminina ou mesmo da cultura negra. Como escreveu Alyssa Rosenberg, esse seria o caso dos seriados Enlightened (que apresenta questões interessantes sobre o universo feminino) e Breaking Bad (que inclui em sua trama histórias interessantes de personagens negrxs). Mas isso não justifica que tais histórias sobre mulheres ou negrxs sejam sempre contadas por homens brancos. Obviamente, como bem mostrou a escritora nigeriana Chimamanda Adichie em sua palestra no TED (ver vídeo abaixo), ouvir nossa história ser contada por outros pode ser interessante e enriquecedor, mas é também importantíssimo termos o espaço para podermos contá-las por nós mesmos.





Referência bibliográfica:

BEZERRA, Fábio Alexandre Silva. Sex and the City e a representação da imagem feminina. Anais do CELSUL 2008. Disponível em: http://celsul.org.br/Encontros/08/sex_and_the_city.pdf. Acesso em: 01 abr. 2013.

1

Diga-me, como é ser homem?

por Thaís Bueno 


Você também acredita que o "normal" existe?


Eu gostaria de começar este post com uma pergunta: você se lembra de qual foi a última notícia que leu sobre casos de sexismo, racismo ou homofobia? Lembra-se de quando isso ocorreu e de qual foi o desfecho da história? 

Todxs nós sabemos que episódios vergonhosos de desrespeito à dignidade de grupos sociais minoritários acontecem frequentemente, tanto no Brasil quanto em outros países, e pipocam na mídia a todo o momento. Quase todos os dias ficamos sabendo de algum crime relacionado a homofobia, racismo, desrespeito aos direitos das mulheres... E também não é raro emergir, em certos momentos, ondas de discursos de ódio contra homossexuais, negros, mulheres e outras categorias sociais minoritárias, principalmente nas redes sociais, ambiente onde muita gente acha que tem liberdade total para escrever o que pensa.


Redes sociais: revelando preconceitos since 1997


Pois bem. Nesse cenário todo, o que me surpreende é que, mesmo em uma época na qual essas questões sociais são frequentemente debatidas, tais crimes ainda ocorram. Fala-se muito sobre o feminismo, sobre questões de gênero, raça, etnia, homossexualidade. Acompanhamos, também na mídia, debates, análises, considerações – e muitas delas realmente críticas e bem intencionadas – em defesa dos grupos minoritários. As informações estão aí, para qualquer um que queira se instruir, e já ficou mais do que claro que posturas preconceituosas e discursos de ódio têm sido cada vez menos tolerados. Ainda assim, essas posturas continuam aparecendo e os discursos continuam sendo feitos. Por quê?

É óbvio que, se determinado tipo de crime ou abuso está sendo noticiado e discutido, isso é algo bom. É sinal de que estamos numa sociedade democrática (embora eu ache que, às vezes, esse “democrática” precisa de algumas aspas), e que os crimes e abusos estão aparecendo – diferentemente de algumas décadas atrás, quando sexismo, racismo e homofobia aconteciam de forma mais velada e aceita. No entanto, suspeito que há, ainda, um pequeno fator no meio disso tudo ao qual a gente não dá atenção: em muitos casos, essas minorias são tratadas como problema. 




Um exemplo disso é o discurso segundo o qual o feminismo veio para solucionar "problemas" das mulheres. E isso é um sinal de algo ainda mais preocupante: a categoria "homem" raramente é questionada ou debatida. Quantas vezes você já viu alguém perguntar como é ser homem na sociedade brasileira? Obviamente, o status da mulher e a forma como ela é tratada no nosso país é algo frequentemente debatido, assim como ocorre com negros e homossexuais. Questionamentos sobre como “como é ser negro em uma sociedade racista” ou “como é ser homossexual em uma sociedade homofóbica” são bastante comuns. Mas, curiosamente, nunca vi alguém perguntar coisas do tipo “como é para você ser branco?” ou “como você se sente sendo heterossexual?”. E então, como é ser homem?

Pensando nessas questões, acredito que, muitas vezes, a forma como a mídia e nós mesmxs tratamos essas questões de ordem social e política acaba por fossilizar os grupos minoritários como se eles fossem espécies em análise, em algum laboratório, esperando pelas considerações de um pesquisador. E, no caso do feminismo, mesmo com a intenção de defendê-lo, acabamos tratando-o o como aquilo que precisa ser debatido, analisado, discutido. Ora, mulheres, gays e negros não são problemas, gente, e não devem ser pensados assim. Da mesma forma, as categorias “homem”, “branco” e “heterossexual” também não são rótulos neutros e podem (e devem) ser questionados e debatidos.

Se o status de certas categorias de identidade não é questionado ou debatido, isso acontece por uma razão muito simples: essas categorias são hegemônicas e construídas por mecanismos ideológicos há séculos. Cabe a nós, portanto, questionar esses mecanismos. Eles é que merecem nossa atenção e nossa análise. Esses processos é que precisam ser solucionados.

"Ninguém nasce mulher"... E ninguém nasce homem tampouco



4

Amor a toda prova: ensinando o que é ser homem

por Tággidi Ribeiro


Assisti esses dias ao filme Amor a toda prova, que pensei fosse uma comediazinha romântica inocente. Nada. É mais uma dessas produções machistas em que as mulheres são todas loucas e os homens se dividem nos estereótipos de 'banana', 'babaca' e 'o cara'. O cara é aquele tipo David Beckham, que se veste muito bem, é rico e elegante, absolutamente educado e bonito. O Beckham do filme, de nome Jacob Palmer e interpretado pelo Ryan Gosling (as mina pira), é ainda espirituoso e tem estratégias infalíveis pra levar uma mulher pra cama. Obviamente, Gosling/Jacob Palmer é o macho alfa do filme: as mulheres nunca tomam a iniciativa - ele escolhe quem vai pegar. E elas todas caem na dele. E quem não?

Bem, eu apostaria que mulheres que não gostem do tipo macho alfa arrogante de tanta confiança na testosterona rejeitem esse cara; que mulheres que não estejam a fim de transar no dia específico JP igualmente o façam; e que mulher, enfim, que não se sente à vontade pra transar com um cara que provavelmente não vai ligar depois rejeita Jacob Palmer. De outro lado, mulheres que gostem do tipo macho alfa, que estejam com vontade de transar e que estejam confortáveis com o fato de que provavelmente Jacob Palmer se materializará apenas uma noite irão efetivamente pra casa dele ouvir Dirty Dancing.


Nada de errado com essas mulheres - dizer sim ou não é uma prerrogativa, afinal, o corpo delas é delas. Suas ações ou reações, em todo caso, visam à satisfação própria ou do eventual parceiro ou ao menos não chegam a causar dano. Mas os homens sintetizados na figura de Jacob Palmer são claramente um problema. Não por quererem sexo - tem problema nenhum querer, inclusive com várias mulheres, ao mesmo tempo ou não. O problema é a essência desse querer e as práticas que derivam daí.

Esse homem crê, pois trata-se de crença e não mais, que nasceu para dominar, que esse é seu estar e ser no mundo. A mulher é inferior a ele, deve necessariamente sê-lo, de modo que qualquer tipo de relação em que ela esteja a seu lado como igual ou a ele seja superior é impensável. Esse homem não usa a mulher para fazer sexo, usa do sexo para reafirmar seu poder sobre a mulher - não importa o quão gentil ele seja, ele menospreza a parceira com quem dorme: por ser mulher, de antemão; por ter dito 'sim' e, portanto, ser 'fácil', 'vadia', 'puta' etc. No limite, homens como Jacob Palmer não fazem sexo, masturbam-se com uma mulher, já que o sexo, aqui, é elemento de afirmação de (uma ideia de) masculinidade, de heterossexualidade. Então, temos que: 1) nada há de mais importante para um (esse) homem que ser homem (senso comum = heterossexual, superior, poderoso); 2) essa forma do masculino não admite outra forma do feminino que não a da inferioridade e da submissão - sem a existência desta, a forma masculina se extingue; 3) o sexo é usado pra manutenção dessas formas, não objetiva o prazer.

Amor a toda prova é exemplar nesse sentido. Jacob Palmer faz um discurso sobre a perda da masculinidade a Cal (Steve Carell) quando o conhece e sabe que este foi traído e abandonado pela mulher; zomba dele por ter transado apenas com a esposa em toda a vida; deprecia eventuais gestos 'femininos' (como usar canudo para tomar drink). A partir daí, todo o esforço de Cal, auxiliado por Jacob, objetiva a recuperação de sua 'masculinidade' através da 'conquista' do sexo oposto.

Claro que tudo feito com uma boa dose de charme e carisma dos atores, além de algum humor, dá impressão de ser ok. Tudo dá certo no final. Cal recupera sua masculinidade, quer dizer, sua mulher. E Jacob Palmer acaba se apaixonando por, obviamente, uma mulher que recusa suas investidas e com quem não transa na primeira noite... Prova de que mesmo os grandes cafajestes se redimem quanto encontram uma mulher de valor, né?

Não.



1

A sobriedade subversiva da jovem Chanel

por Barbara Falleiros

Hoje o blog está um luxo! Seguindo os conselhos das nossas leitoras superdotadas e os passos da Tággidi e da Mazu, que ressaltaram a importância de se reconhecer às mulheres seu papel na História e nas artes, hoje vamos falar de... moda! É isso mesmo. O universo hostil da feminista caminhoneira peluda ficou para trás. Subvertidas, vistam seus Louboutins na nossa marcha contra as discriminações! E de quem mais poderíamos falar senão da embaixadora da elegância parisiense, Coco Chanel?

A besta
Bem, na verdade, há quase 30 anos o nome por trás da marca é o de Karl Lagerfeld que, agora falando sério, é uma besta. Suas declarações são sempre "polêmicas", isto é, preconceituosas, machistas, gordofóbicas. Primeiro disse que a Adele era gorda demais, depois encheu-a de presentes para se desculpar; afirmou ser contra o casamento gay e a adoção, porque lésbicas com crianças até vai, mas não tem muita fé na relação entre homens e filhos; disse que a "anorexia não tem nada a ver com a moda e sim com pessoas com problemas familiares"; que na França o problema mesmo é a obesidade, já que só há "1% de meninas anoréxicas contra 30% de mulheres acima do peso"; por fim, disse que Coco Chanel não era feminista porque nunca fora feia o suficiente para isso. Quanto senso de humor! [Not]. E você tinha a ilusão de que não existiam homossexuais machistas?

Se Coco Chanel se achava feia ou não, eu não sei. Sei que jamais se considerou feminista, e que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Chanel preferia a feminilidade, como se estes também fossem termos excludentes, ideia errônea que persiste ainda hoje. No entanto, Chanel é um belo exemplo de como as mudanças sociais acontecem aos tropeços, entre avanços e retrocessos, muitas vezes sem que seus atores tenham plena consciência de seu papel. Pois aquela que até o fim da vida foi chamada de Mademoiselle Chanel (senhorita), aquela que, como mulher, não obteve a legitimidade social por meio do casamento, sempre aspirou à liberdade e à independência. Suas criações refletiram estes anseios, com a aparição de silhuetas andróginas, magras, de uma estética esportiva, masculino-feminina.

O preto, cor do luto, atingiu com ela o ápice do chique. Chanel buscou a sobriedade dos hábitos das freiras, as linhas harmoniosas da abadia cisterciense onde passou sua infância, no orfanato.

A moda antes de Chanel: as "anquinhas"de 1880
"Mangas bufantes, rendas, bordados, frufrus, chapéus carregados como cestas de frutas: antes de Chanel, a moda arreia, deforma, comprime, ignora o movimento e a meteorologia.  Além de seus chapéus de linhas sóbrias, Chanel impôs à moda uma sobriedade inspirada nas vestimentas masculinas, de um rigor quase militar. O século XIX e seus exageros vestimentários herdados do Segundo Império foram mortos e enterrados por uma certa Chanel. Esta já desenhava a moda que seria necessária ao mundo e à classe dominante, então prestes a renunciar à ostentação, num país em plena guerra [Primeira Guerra Mundial]. Gabrielle Chanel inventou um conforto que anunciava a mulher moderna, em movimento, esportiva, livre. " (fonte)

Chanel encurtou as saias até o joelho, eliminou o espartilho, a cintura marcada. Nos anos vinte, foi uma das primeiras a usar cabelo curto.  Ela buscou no vestuário masculino as calças, que a lei francesa - desde 1799 e até hoje!! - proíbe as mulheres de vestirem. Ao longo de sua carreira, em um período que conheceu duas Grandes Guerras e duas reconstruções, ela introduziu o jersey, o tweed, os botões de uniforme, os cardigãs, as bijuterias.

"Devolvi ao corpo das mulheres sua liberdade; este corpo suava debaixo de 'roupas de parada' (desfile), de rendas, espartilhos, roupas de baixo, forros"

Contudo, no final da sua vida, Chanel reagiu de forma conservadora face à uma sociedade na qual já não se encaixava. Na sua famosa entrevista de 1969, começa contando uma cena que presenciara há alguns dias, na rua, entre um homem e uma mulher. O contexto não é claro, mas ela diz: "Pensei comigo: 'Se ela não se calar vai receber um bom tapa'. E ela o levou!"; "Mas ela mereceu".

Chanel jovem: de calças e blusa marinheiro
Pouco mais adiante, faz duras críticas às calças, que ela mesma introduzira na moda! 

Posso conceber perfeitamente que se use calças no campo, é o que há de mais útil, não passamos frio (...). Para começar, fui eu quem as inventei há quase vinte anos. Eu as inventei por pudor, porque na minha opinião andar por aí de roupa de banho é o equivalente a estar nua. Então, quando nós tomamos banho de mar e queremos continuar na praia, não é difícil vestir uma calça; uma saia não fica bonito, um roupão é horrendo, em conclusão, uma calça é ótimo. Mas entre isso e fazer disso uma moda... O fato de haver 70% das senhoras de calças em um jantar é muito triste. Calças ficam bem em pessoas muito jovens, mas em mulheres de uma certa idade, é como se tentassem rejuvenescer. E eu não conheço nada mais envelhecedor do que tentar rejuvenescer. Acho a coisa mais besta que pode acontecer com uma mulher. Dizer 'Se eu colocar uma calça parecerei mais jovem do que com uma saia' é de uma idiotice tremenda! Enfim, esta é uma época estranha... As mulheres parecem que estão se transformando, não sei, em outro sexo. Mas não sei como isso pode acontecer, porque colocar uma calça não muda seu rosto... (...) Eles [outros estilistas] fazem calças, eu tive que fazer calças, ninguém gosta mais de saias, gostam de calças...
Tive de brigar durante dois anos com todos os estilistas por causa desses vestidos curtos. Eu os acho indecentes! Eu não sou desta época, sabe? Para mostrar seus joelhos é preciso que eles sejam muito bonitos. É uma articulação. É como se ficássemos mostrando assim o cotovelo pra frente. É horrível! (...) E eu acho que quando a gente mostra tudo, depois não se tem mais vontade de nada...
Surpreendentemente moderna nos anos vinte, de um feminismo prático, ativo, a velha Chanel, embora lúcida na sua crítica à "eterna juventude" feminina, perde-se em declarações machistas, conservadoras. A dualidade de sua personalidade parece refletir sua marca: dois Cs entrelaçados, um virado para o futuro, outro olhando para o passado. Preto e branco. Já com mais de 80 anos e um tanto amargurada, Chanel se vê presa a um tempo intermediário e parece preferir aquelas mulheres contidas da década de cinquenta... Mas o caminho que antes ajudara a trilhar conduzira muito além. Para Chanel, era demais. O tempo agora era o do amor livre, das flores nos cabelos, das minissaias e dos jeans boca-de-sino. Da deselegância livre, fluida e colorida.