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Tudo ao mesmo tempo neste post

por Tággidi Ribeiro


Aconteceu tanta coisa e eu quero falar sobre tantas outras que este post vai ser um apanhado geral de notícias das semanas passadas e pensamentos avulsos. Vou falar por tópicos, que fica mais fácil pra todo mundo, né?

1. Racismo (e machismo, claro): a ministra italiana de origem congolesa Cecile Kyenge foi comparada a um orangotango pelo vice-presidente do Senado italiano, Roberto Calderoli, no dia 13 de julho deste ano. Uma semana depois, um manifestante jogou bananas em direção a ela. Vereadores retiraram-se em protesto à presença dela em uma reunião da qual legitimamente participava. O líder de seu partido, Roberto Maroni, recusou-se a defendê-la. Fico pensando no antagonismo dessas forças: branco e negro, Europa e África, homem e mulher - e no quanto é necessário caminhar, tão distantes ainda estamos, em direção à concordância. Penso no Congo, onde nasceu Cecile, o pior país do mundo para as mulheres. Penso na Itália e na vergonha que deveria sentir de si mesma, por permitir tal desrespeito à própria ideia de humanidade.

2. Exploração sexual e patriarcado: a Itália continua na minha cabeça, por causa de Berlusconi. Condenado a sete anos de prisão por prostituição de menores, em junho deste ano, o ex-premiê italiano era grande amigo de Muammar Gaddafi, ex-ditador líbio assassinado durante a 'primavera' de seu país. Gaddafi tinha dezenas de escravas sexuais. Ao longo de seus quarenta anos de poder, estuprou milhares de mulheres, muitas delas ainda adolescentes, que simplesmente 'arrancava' da casa dos pais. Penso em Dominique Strauss-Kahn, que se livrou de ser preso por estupro e hoje enfrenta processo por 'proxenetismo', e me pergunto: quanto do sexo podre - da exploração sexual de mulheres, adolescentes e crianças - não será financiado pelo dinheiro dos homens que mandam no mundo?

3. No mundo: no Japão, a cúpula da Federação nacional de judô renunciou depois que seu diretor admitiu ter abusado sexualmente de uma atleta. Outras acusações envolviam abuso e violência durante os treinos e ainda uma condenação por estupro. Na China, Tang Hui, uma mãe que denunciou os homens que estupraram e obrigaram sua filha de onze anos a se prostituir tornou-se símbolo da luta contra a opressão das mulheres. Tang Hui foi condenada a 18 meses de trabalhos forçados, mas os chineses ficaram do seu lado e ela foi solta. No fundo do meu sentimento, essas vitórias me parecem derrotas, mas não desanimo.

4. E não deixo de desanimar, porque essa espiral louca da história nos coloca mais uma vez diante da desrazão, não travestida de razão desta vez. De repente, parece que a loucura do mundo quer se reafirmar no poder puro e simples, na submissão dos corpos, no ódio mesquinho ao diferente e no aniquilamento como solução. Rússia, Itália e Brasil não se podem dizer países não-esclarecidos - muito menos, no entanto, lúcidos. Enquanto a Rússia assina leis homofóbicas e a Itália se mostra fraca na reação ao racismo e à xenofobia, o Brasil dá cada vez mais lugar à voz religiosa não do amor, mas da mentira: a bancada religiosa insiste em dizer que a lei que prioriza o atendimento a vítimas de estupro abre brechas para o aborto.

5. Por essas e outras é que a performance em que dois artistas quebraram estátuas e simularam atos sexuais com elas durante a JMJ me pareceu legítima. O corpo da estátua não é um corpo digno de pena, nem tampouco o corpo de instituições, sejam elas religiosas ou laicas, que massacram o corpo-carne das pessoas. Aproveito para lembrar Amarildo, que é só mais um dos tantos corpos que se desintegram, vítimas dessas instituições.  



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A ausência de roteiristas mulheres e negrxs e o perigo da história única

Por Thaís Bueno

Que o Brasil é um país onde se assiste a muita televisão, não é novidade. Segundo uma pesquisa Ibope de 2012 (quadro abaixo), o brasileiro assiste à TV por uma média de 5 horas e meia por dia. Obviamente, trata-se de uma média, que pode ser jogada para mais ou para menos dependendo de inúmeras variáveis: idade, classe social, gênero. É interessante notar, no entanto, que no meio desse mar de números e estatísticas (que parecem não dizer muita coisa), há um dado interessante: cada vez mais a TV por assinatura cresce em termos de audiência, roubando uma fatia do bolo que antes era servido às grandes redes de canais abertos.



Segundo pesquisa realizada pela Agência Nacional de Telecomunicações, em 2011, a TV paga atingiu, no Brasil, um crescimento de mais de 21,7%, chegando a quase 12 milhões de domicílios. Seria interessante pensar nos fatores que ocasionaram esse crescimento, mas, agora, penso em outra questão: quais seriam as consequências desse crescimento processo de recepção de conteúdos pelos telespectadores brasileiros, considerando o espaço e os papéis das mulheres nos programas exibidos nos canais fechados? Como muita gente sabe, as séries estadunidenses, ou sitcoms, predominam na programação de boa parte desses canais fechados no Brasil, e estão cada vez mais populares entre os brasileiros. 

Seria interessante, então pensar: como é representada a imagem da mulher nesses seriados? Será que a mulher brasileira (ou as mulheres brasileiras) pode se identificar com os modelos femininos propostos por essas séries? 

Felizmente, há muitos estudos interessantes feitos sobre o alcance desses programas de TV no Brasil e os padrões que eles disseminam. Segundo um desses estudos (BEZERRA, 2008), mesmo nos casos em que tais seriados se dedicam a contar histórias de mulheres (nessa categoria, o famoso Sex and the City é o que primeiro me vem à mente) e suas conquistas no momento atual de avanço das lutas feministas, essas conquistas se restringem a questões da esfera privada, não representando uma grande mudança no âmbito público: 

 ...podemos ver a representação, feita através do discurso da personagem-narradora, de uma mulher que, sim, está num momento histórico decorrente de duras conquistas, um momento em que pode expressar o que pensa sobre variados tópicos, como: sexo, trabalho, amizades, espiritualidade e casamento. No entanto, podemos concluir que essa sua atuação ainda se restringe à esfera privada, em que suas preocupações, anseios, ações e relações não estão representadas como tendo impacto no âmbito social/público, esfera que historicamente vem sendo reservada aos homens.

Seriado Sex and the City: questões femininas podem ser interessantes, mas se restringem à esfera privada

É curioso pensar nessas análises dos seriados de TV levando em consideração quem é que escreve e produz esses programas. De acordo com o WGAW 2013 TV Staffing Brief, um estudo feito pelo The Writers Guild of America (sindicato que representa os escritores do setor cinematográfico e televisivo dos Estados Unidos), o grupo de profissionais que escrevem os programas de TV produzidos lá (e assistidos aqui) é constituído, predominantemente, por homens brancos. Muito pouco espaço é concedido a mulheres ou a mulheres ou homens negros no processo de produção do conteúdo que é exibido pelos canais de TV: nas temporadas 2011-2012, dos 1.722 roteiristas envolvidos na produção desses programas, apenas 519 (ou 30,5%) eram mulheres, e só 269 eram negrxs. 

Além desses números, o sindicato apresentou, no estudo, uma lista de séries de TV que não incluíram roteiristas mulheres ou negrxs em suas equipes de produção: 

:: Lista de programas de TV que não incluíram roteiristas mulheres na produção (temporada 2011-2012): 

America’s Funniest Home Videos 
Big Time Rush 
Californication 
Comedy Bang! Bang! 
Dancing With The Stars 
Eagleheart 
Enlightened (Creator Mike White wrote all the episodes) 
Futurama 
Geniuses 
Gurland On Gurland 
The Insider 
Kickin’ It 
Locke & Key 
Magic City 
Psych 
Teen Wolf 
Veep 
Workaholics I 
Workaholics II 

:: Lista de programas de TV que não incluíram roteiristas negrxs na produção (temporada 2011-2012): 

America’s Funniest Home Videos 
Anger Management 
Are You Smarter Than A Fifth Grader 
Baby Daddy 
Best Friends Forever 
Big Time Rush 
Blue Mountain 
State Boss 
Breaking Bad 
Californication 
The Client List 
Comedy Bang! Bang! 
Dancing With The Stars 
Eastbound and Down 
Enlightened (Creator Mike White wrote all the episodes) 
The Firm 
Free Agents 
Futurama 
Game of Thrones 
Geniuses 
A Gifted Man 
Glee 
Good Luck, Charlie 
Gossip Girl 
Gurland On Gurland 
Happily Divorced 
Hart of Dixie 
Homeland 
How To Be A Gentleman 
The Insider 
Jane By Design 
Kickin’ It 
Lab Rats 
Last Man Standing 
The League Longmire 
Make It Or Break It 
Man Up 
Mike and Molly 
Napoleon Dynamite 
Once Upon A Time 
One Tree Hill 
The Protector 
Ray Donovan 
Revenge 
State of Georgia 
Stevie TV 
Two And A Half Men 
Veep 
Web Therapy 
Weeds 
Workaholics I 
Workaholics II 

É frustrante notar que as listas são enormes. E, mais frustrante ainda, perceber que, entre esses programas, há alguns direcionados ao público infantil ou infanto-juvenil, como Futurama e Big Time Rush.



Como se pode imaginar, uma das consequências de termos apenas roteiristas homens e brancos escrevendo os programas televisivos aos quais assistimos é a homogeneização das histórias que esses programas contam e que, obviamente, não representam a mulher brasileira. No entanto, é preciso fazer uma ressalva: um roteirista ou escritor branco pode, sim, apresentar um retrato interessante e complexo da atual situação feminina ou mesmo da cultura negra. Como escreveu Alyssa Rosenberg, esse seria o caso dos seriados Enlightened (que apresenta questões interessantes sobre o universo feminino) e Breaking Bad (que inclui em sua trama histórias interessantes de personagens negrxs). Mas isso não justifica que tais histórias sobre mulheres ou negrxs sejam sempre contadas por homens brancos. Obviamente, como bem mostrou a escritora nigeriana Chimamanda Adichie em sua palestra no TED (ver vídeo abaixo), ouvir nossa história ser contada por outros pode ser interessante e enriquecedor, mas é também importantíssimo termos o espaço para podermos contá-las por nós mesmos.





Referência bibliográfica:

BEZERRA, Fábio Alexandre Silva. Sex and the City e a representação da imagem feminina. Anais do CELSUL 2008. Disponível em: http://celsul.org.br/Encontros/08/sex_and_the_city.pdf. Acesso em: 01 abr. 2013.

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Se a vida fosse um video game...

por Roberta Gregoli


Do site Um dia ainda viro cartunista

...ser homem branco heterossexual de classe AB seria o nível fácil.

A metáfora é de Rachel Saklr. Em contrapartida, ser mulher, negra/indígena de classe D seria a dificuldade máxima.

É claro que é possível ganhar o jogo nos níveis de dificuldade mais elevados: tem gente que é mesmo boa de jogo, há quem tem sorte, há xs que têm inteligência e esforço acima da média. Agora, não dá para medir o todo por essas exceções e sair por aí dizendo que não existe sexismo no Brasil porque temos uma Presidenta ou que não existe racismo porque tenho um amigo negro que faz faculdade pública.

É preciso ter clareza que o jogo é diferente e, enquanto essas pessoas devem, sim, ser celebradas por suas conquistas excepcionais, não deixa de ser muito injusto culpabilizar quem não chega lá. 

O contrário também é verdadeiro: nem todo o homem branco cissexual de classe alta vai ganhar no jogo da vida, mas não dá para ficar chorando as cotas derramadas porque o jogo agora ficou um cadinho mais difícil.


Cotas raciais e de gênero são polêmicas porque alguns simplesmente não conseguem - ou não querem - enxergar a bruta vantagem que têm sobre xs outrxs - vantagem que vem das oportunidades de berço, e até muito antes do nascimento:

Breve história do privilégio

Em outras palavras imagens, se a vida fosse uma corrida, ela seria assim:

E a reação que enfrentamos quotidianamente
por apontar essa bruta injustiça é mesmo essa

As metáforas são várias, mas a do video game é particularmente pertinente porque o mundo dos games é sabidamente sexista. A começar pela representação das mulheres nos jogos, de Lara Croft a qualquer coadjuvante boazuda.



Na vida real, Anita Sarkeesian, do excelente Feminist Frequency, lançou um projeto para analisar a representação das mulheres nos video games e acabou sendo vítima de uma campanha de ódio massiva, que incluia até um jogo interativo em que jogadores eram encorajados a beat the bitch out (espancar a vadia).

Ainda mais perturbador - se é que isso é possível - que essa demonstração abertamente misógina em grande escala foi que os perpetradores constantamente se referiam a essa campanha de assédio e abuso como um jogo. - Anita Sarkeesian
Se a vida é um video game, misóginos são heróis. Era o que faltava. Mas antes fosse só no mundo dos games. O caso recente de dois jogadores de futebol americano que estupraram uma garota de 16 anos em Steubenville (que, apesar do nome, é uma cidade real nos Estados Unidos) resultou em condenação, coisa rara - vide o revoltante caso da banda New Hit em solo nacional. Apesar de terem sido julgados e condenados, o tom da mídia foi de comoção por 'essas jovens estrelas do esporte' que tiveram seu futuro 'arruinado':

Uma paródia de 2011 precede o caso e é assustadoramente parecida 
na sua abordagem distorcida do retrato dos criminosos.
Obrigada à Marylin Lima pela indicação dos links

Não é à toa que vítimas de abuso sexual são geralmente reticentes a vir a público: na cultura do estupro - que são todas as culturas -, é preciso muita consciência para se empoderar. Seja na realidade virtual ou na visceral, infelizmente, não é raro que criminosos sejam tidos como heróis e as vítimas compadeçam. O final feliz fica por conta de Anita Sarkeesian, que, apesar de todo o bullying, assédio e ódio, manteve sua campanha e conseguiu angariar um valor 25 vezes maior do que havia pleiteado inicialmente para o seu projeto. Mesmo no nível difícil, Sarkeesian chegou lá.


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Diga-me, como é ser homem?

por Thaís Bueno 


Você também acredita que o "normal" existe?


Eu gostaria de começar este post com uma pergunta: você se lembra de qual foi a última notícia que leu sobre casos de sexismo, racismo ou homofobia? Lembra-se de quando isso ocorreu e de qual foi o desfecho da história? 

Todxs nós sabemos que episódios vergonhosos de desrespeito à dignidade de grupos sociais minoritários acontecem frequentemente, tanto no Brasil quanto em outros países, e pipocam na mídia a todo o momento. Quase todos os dias ficamos sabendo de algum crime relacionado a homofobia, racismo, desrespeito aos direitos das mulheres... E também não é raro emergir, em certos momentos, ondas de discursos de ódio contra homossexuais, negros, mulheres e outras categorias sociais minoritárias, principalmente nas redes sociais, ambiente onde muita gente acha que tem liberdade total para escrever o que pensa.


Redes sociais: revelando preconceitos since 1997


Pois bem. Nesse cenário todo, o que me surpreende é que, mesmo em uma época na qual essas questões sociais são frequentemente debatidas, tais crimes ainda ocorram. Fala-se muito sobre o feminismo, sobre questões de gênero, raça, etnia, homossexualidade. Acompanhamos, também na mídia, debates, análises, considerações – e muitas delas realmente críticas e bem intencionadas – em defesa dos grupos minoritários. As informações estão aí, para qualquer um que queira se instruir, e já ficou mais do que claro que posturas preconceituosas e discursos de ódio têm sido cada vez menos tolerados. Ainda assim, essas posturas continuam aparecendo e os discursos continuam sendo feitos. Por quê?

É óbvio que, se determinado tipo de crime ou abuso está sendo noticiado e discutido, isso é algo bom. É sinal de que estamos numa sociedade democrática (embora eu ache que, às vezes, esse “democrática” precisa de algumas aspas), e que os crimes e abusos estão aparecendo – diferentemente de algumas décadas atrás, quando sexismo, racismo e homofobia aconteciam de forma mais velada e aceita. No entanto, suspeito que há, ainda, um pequeno fator no meio disso tudo ao qual a gente não dá atenção: em muitos casos, essas minorias são tratadas como problema. 




Um exemplo disso é o discurso segundo o qual o feminismo veio para solucionar "problemas" das mulheres. E isso é um sinal de algo ainda mais preocupante: a categoria "homem" raramente é questionada ou debatida. Quantas vezes você já viu alguém perguntar como é ser homem na sociedade brasileira? Obviamente, o status da mulher e a forma como ela é tratada no nosso país é algo frequentemente debatido, assim como ocorre com negros e homossexuais. Questionamentos sobre como “como é ser negro em uma sociedade racista” ou “como é ser homossexual em uma sociedade homofóbica” são bastante comuns. Mas, curiosamente, nunca vi alguém perguntar coisas do tipo “como é para você ser branco?” ou “como você se sente sendo heterossexual?”. E então, como é ser homem?

Pensando nessas questões, acredito que, muitas vezes, a forma como a mídia e nós mesmxs tratamos essas questões de ordem social e política acaba por fossilizar os grupos minoritários como se eles fossem espécies em análise, em algum laboratório, esperando pelas considerações de um pesquisador. E, no caso do feminismo, mesmo com a intenção de defendê-lo, acabamos tratando-o o como aquilo que precisa ser debatido, analisado, discutido. Ora, mulheres, gays e negros não são problemas, gente, e não devem ser pensados assim. Da mesma forma, as categorias “homem”, “branco” e “heterossexual” também não são rótulos neutros e podem (e devem) ser questionados e debatidos.

Se o status de certas categorias de identidade não é questionado ou debatido, isso acontece por uma razão muito simples: essas categorias são hegemônicas e construídas por mecanismos ideológicos há séculos. Cabe a nós, portanto, questionar esses mecanismos. Eles é que merecem nossa atenção e nossa análise. Esses processos é que precisam ser solucionados.

"Ninguém nasce mulher"... E ninguém nasce homem tampouco



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Tio Oscar é racista, sexista e gosta de ostentar

por Tággidi Ribeiro




O Oscar é a festa máxima do cinema. Máxima porque sabemos que nela estarão os filmes mais bem produzidos, mais caros, mais vistos e/ou comentados. Alguns desse filmes se tornam clássicos, outros são esquecidos, assim como seus atores, atrizes, roteiristas, diretores, diretoras etc. 

Halle Berry - Oscar em 2002
Opa, eu disse diretoras? Sorry. My bad. Em 85 anos de festa (para quem?), apenas quatro mulheres foram indicadas ao prêmio de melhor direção e apenas uma delas o venceu: Kathryn Bigelow, em 2010(!). A essa altura, sendo leitor(a) deste blog, você já deve estar se perguntando: e negrxs? Apenas um(!), John Singleton - em 1991, foi indicado a melhor diretor e não ganhou. Atores e atrizes negros em papéis principais? Apenas quatro atores e uma(!) atriz. Outras oito estatuetas para indicados a atuações coadjuvantes, só. Gays? Filmes sim, mas não pessoas. A diversidade para por aqui. Por isso, o discurso de Jodie Foster no Globo de Ouro deste ano foi tão emocionante. 

Sabendo desse contexto não fica difícil entender porque um cara como Seth MacFarlane tem lugar como apresentador nesse evento falsamente chiquérrimo. Me contem: existe algo mais brega, mais fora de moda, mais sem graça que piada racista e sexista? É sério: pagar rios de dinheiro pra deixar as pessoas constrangidas, pra ninguém se divertir de verdade, é o cúmulo da cafonice. 

E o mundo inteiro parou pra rir amarelo com MacFarlane fazendo piada sobre o enredo de Django Livre ser como a relação entre Chris Brown e Rihanna; envolvendo o nome de Quvenzhané Wallis, indicada ao Oscar de melhor atriz com 9 anos(!), numa 'brincadeira' sobre George Clooney gostar de mulheres mais novas - pausa: 1) convenhamos, ele jamais faria isso se a atriz fosse branca; 2) o site de 'humor' The Onion chamou a mesma criança de algo pior que vadia, depois se desculpou (desculpas my ass, tem que meter processo. Como alguém tem coragem de pensar em insultar uma menina de 9 anos na noite mais importante de sua vida ou em qualquer outra ocasião? Novamente, isso não aconteceria se ela fosse branca). 

Vilão da Lazy Town
MacFarlane (que tem uma cara de personagem de Lazy Town, não?) insistiu no seu conceito de humor: latinos? São bonitos e pouco importa o que falam; mulheres? São loucas obsessivas. 'Por isso vou brincar que eu iria brincar que a gente já viu os peitos de um monte de atrizes mas eu não vou brincar de verdade porque eu sei que elas não vão gostar' (quão adolescente isso soa para vocês?). Aliás, na 'canção' feita pelo... comediante, era muito engraçado ver peitos de atrizes inclusive em filmes nos quais suas personagens eram estupradas. Quanto cultura do estupro isso soa para vocês?

Empatia zero. Felizmente, MacFarlane está sendo apontado como o pior apresentador da história do Oscar. Menos pelo racismo e pelo sexismo e mais por satirizar a morte de Lincoln, um dos grandes heróis estadunidenses. Ainda bem que esse tipo de cara ajuda bastante na hora de se enterrar.

Helen Hunt
Por fim, eu que acabei dando tanta atenção ao Oscar por causa desse babaca que a Academia contratou provavelmente para mostrar quem manda - homens brancos -, mais uma vez achei a festa cafona por outro motivo: a ostentação. Não consigo deixar de perceber como imorais os ternos e vestidos caríssimos, as limousines, as joias (colares de 2,5 milhões de dólares!). Como alguém pode dizer que essas celebridades todas são superlegais e generosas se têm coragem de participar disso? Se o amor ao dinheiro e ao luxo é um dos principais motores do mal que há no mundo?

Helen Hunt quase se safou dessa, aparecendo com um vestido de US$ 200,00. Seu colar, contudo, valia US$ 700.000. Fazer propaganda, incitar o desejo no público não é menos danoso ao mundo e portanto não menos desculpável.

Estamos no século XXI, 2013. Edição encerrada. Tio Oscar, tão velhinho, precisa rever muitos conceitos.  


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Dicas das tias feministas - eu sou machista, tia?

por Mazu


Página "Não Aguento Quando" no Facebook.
Há dois dias, minha cunhada publicou um vídeo no Orkut (sim, no Orkut!) em que um metaleiro destilava muito julgamento sobre o que ele chamou de pirirockers (deve significar algo como piriguetes do roquenrol). Não conheço o cara, mas ele fez questão de dizer que estava lá criticando a hipocrisia das meninas que usam roupa curta, mas são roqueiras, e ficam criticando as meninas que usam roupa curta e escutam funk. Provavelmente, a hipocrisia que ele detectou existe. Se realmente há alguém que usa roupa curta criticando alguém que usa roupa curta, sim, há hipocrisia. Mas essa não é a questão. Ainda que ele tenha se explicado e dito literalmente "as pessoas podem fazer o que quiser e ser feliz, não tenho nada com isso", o vídeo é machista, não parece, assim de parecer logo de cara, mas é. Muito provavelmente, essa não foi a intenção do autor e, muito provavelmente, vários de nós (si, jo también) destilamos machismo de quando em vez, sem nos darmos conta. E por que, meu Deus, por quê? Porque a ideologia do patriarcado é tão embebida, incutida nos nossos costumes que pode passar despercebida.

Femstagram no Facebook
Um exercício interessante, inclusive para xs companheirxs recém chegadxs no movimento, é se escutar falando. Loucura, né? Mas, é isso mesmo. Na grande maioria das vezes, quando uma afirmação só serve para homens ou mulheres, essa afirmação está lá com seus 90% de chance de ser sexista. Vou usar como exemplo o vídeo que minha cunhas postou. Não é semanticamente possível dizer "os pirirockers", certo? Quero dizer, não rola tirar sentido da expressão, assim sem um contexto mais específico. Rola dizer "maria-palheta", um termo usado para groupies, e fazer sentido, mas não rola dizer "joão-palheta" e fazer sentido, novamente, sem um contexto que nos ampare. Não quero comprar briga com os compas da linguística, então já adianto, com contexto e interação tudo pode na linguagem. Mas, vamos supor, ainda que um contexto específico nos permitisse tirar sentido dessas expressões, eles não seriam exatamente iguais, não carregariam o mesmo pacote de sentidos, porque estamos em uma sociedade com esse e aquele discurso anterior, ou seja, esse e aquele preconceito já estabelecido. Vide o cara "galinha" e a mina "galinha", que trazem significados bem diferentes empregados aqui e lá.

Alguém poderia dizer: tem coisa que só homem faz, tem coisa que só mulher faz. A resposta mais simples para isso, além de "oi, século XXI?" é que essas coisas só de homem ou só de mulher têm que ter explicações muito biológicas mesmo, muito provavelmente envolvendo o uso direto da genitália. Do contrário, a gente pode detectar sexismo novamente. A Rô trouxe uma discussão legal sobre isso, quando tratou dos brinquedos demeninas e meninos.

Esses atos falhos nossos acontecem para o bem e para o mal, o tempo todo. Dia desses, um amigo publicou no facebook: "fulana de tal (que fez x e y): uma mulher para entrar na lista de mulheres que fizeram diferença na humanidade". Sério, lendo isso, a gente não fica com aquela impressão de que quase não existiu mulher para fazer diferença? Pois é.

E não rola só com mulheres, dizer que os homens são todos canalhas é tão sexista quanto dizer que as mulheres são todas interesseiras. Toda discriminação ou papel já estabelecido, sem explicação biológica (eu ia dizer racional, mas não seria suficiente), para um gênero implica sexismo. Dizer que é dever do homem pagar as contas é sexista também. E assim vai.

Créditos: Femstagram no Facebook
Todo mundo escorrega, não rola dizer que não. Se em determinado momento da vida, alguém pisa no calo e a gente vai falar mal ou discutir, uh, como rola preconceito. Eu tenho irmã, eu sei como é. Deus me livre daquela máxima "Não sou machista, nem feminista, sou humanista" porque, sério, isso é um uso super errado de todos, todos, todos os termos da sentença! Machismo não é o contrário de feminismo, nem os humanistas têm nada que ver com a bagaça toda. Mas o ideal, para evitar os escorregas sexistas nossos de cada dia, era a gente usar "pessoa" ou "gente" nas afirmações para evitar, né? Tipo "tem gente interesseira" não "tem mulher interesseira". E, aí, se me for permitido um adendo fora do escopo do blog e do post, melhor mesmo seria tentar ser positivo e não ficar de mimimi por aí e dizer que "tem gente legal no mundo", sei lá, talvez isso ajude na tarefa complicada de gostarmos uns dos outros.

Não Aguento Quando novamente
Voltando, a dica das tias de hoje, que serve pra tia também, é: quando a gente for criticar alguém, para evitar cairmos em qualquer armadilha linguística do preconceito, vamos tentar trocar o "x" por "pessoa". Assim, ó: na frase "tinha que ser X", sendo x = mulher, gay, preto, nordestino, gordo, se a gente não puder trocar x por "pessoa" e conseguir sentido, que liguemos o alerta do preconceito, porque há, talvez não seja evidente, mas há.


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Vencemos o quê, cara pálida?

por Mazu


Como é que é??

Este post vai ter um tom de desabafo, mas espero que a companheirada me perdoe. Estou aqui lembrando de quando a Bárbara teve uma semana super legal, só que não. Esse foi o meu final de semana massa, só que ao contrário. Fui chamada de feminista exagerada, extremista e acusada de ser incapaz de escutar a opinião alheia. Vai vendo. Justo eu que, na real, sempre me achei uma feminista de moderada a leve. Isso porque eu não entro em todas as discussões e dou até um sorriso amarelo quando meu chefe faz suas observações sexistas. Não me julguem, preciso pagar as contas.

Sei que tem uma das blogueiras famosas que se autodenomina “feminista cansada”, não sei bem se ela está cansada pelos mesmos motivos que eu, mas, cara, como cansa.

E sabe por que cansa tanto? Porque a gente se pega tendo a mesma discussão várias vezes, de diversas formas, com várias pessoas e, às vezes, com as mesmas. Esse feriado que passou, tive que repetir umas cinco vezes que feminismo não é o contrário de machismo, que a culpa da tripla jornada de trabalho não é das sufragistas (sim, eu escutei essa barbaridade de uma mulher jovem e bem resolvida), que a Carminha (a da novela) não merecia apanhar e que se a gente andasse de burca, o índice de violência contra a mulher não diminuiria nem no Distrito Federal e nem na China. Eu estaria feliz se tivesse mudado alguma coisa em alguém, mas parece que só fiquei mesmo com a fama de feminista chata e nada razoável.

De qualquer forma, serviu para refletir sobre algumas coisas. E uma matéria de revista me ajudou muito nisso. A Época de outubro de 2012 traz a seguinte matéria de capa: “A Mulher venceu a guerra dos sexos: elas estudam mais, são mais valorizadas no trabalho e já nem querem saber de namorar para não atrapalhar a carreira. Os homens que se cuidem...”.  Parece exagero, mas aí mora a origem de todo o mal: andam vendendo um imaginário de que a mulher já alcançou o máximo que poderia alcançar na nossa sociedade e que os homens estão ameaçados. Meu Deus, que bobagem!

Essa sensação de que já estamos com todos os direitos conquistados faz o feminismo parecer obsoleto e ridículo. E isso é um tiro no pé de todo mundo, inclusive dos homens. Já dissemos milhares de vezes no blog, a independência das meninas é a independência dos meninos. Ninguém precisa proteger ou sustentar uma mulher, hoje em dia, e isso tira peso de responsabilidade dos dois lados.

Sobre a tripla jornada de trabalho, a gente não trabalha mais porque a gente quer. Esta é a ideologia mais reacionária do planeta: a de que as minorias fazem ou deixam de fazer as coisas porque querem, já que hoje somos todos iguais. (Ai, faça-me o favor, vamos estudar história, né?) O que aconteceu é que as mulheres ganharam espaço no mercado de trabalho, mas ainda convivemos com a ideologia patriarcal de que a casa e os filhos são mais nossos que dos caras. O que não tem nada, absolutamente nada, a ver com as sufragistas. (Pelamor!) Tem a ver com a ideologia dominante do patriarcado. E se essa ideologia ainda exerce pressão sobre nós, mulheres, deixa eu te contar, moça, o feminismo ainda tem muito motivo para existir.

Um dos objetivos do blog é mostrar que as feministas não são loucas raivosas, e estou, hoje, tendo dificuldade com isso, já que estou cansada (como acabei de explicar) e com raiva, e a matéria da Época só não está pior porque acabou em cinco páginas.

A matéria começa falando de uma novela dos anos 1980 que está sendo readaptada. Indiferente, não foi boa antes, não vai ser boa agora. O ponto mais ou menos válido do início da matéria é que como alguma coisa mudou na sociedade em 20 anos, a readaptação meio que reflete isso. Por exemplo, uma das personagens era uma mulher mais livre sexualmente e, nos anos 1980, sua liberdade sexual foi censurada, hoje em dia, ela se sente mais enturmada socialmente. Uau.

A partir daí, a matéria começa a descrever como ocupamos o mercado de trabalho, como somos protegidas por algumas leis e como somos maioria nas Universidades. E segue dessa forma, duas páginas e meio de alegria, mostrando todas as nossas conquistas que, durante o texto, foram chamadas de “cataclismos sociais”, juro, na página 72:

“O mais provável que é que estejamos olhando para mudanças permanentes, como as provocadas por cataclismos sociais como o voto feminino ou a Segunda Guerra Mundial, que exigiu a presença feminina nas fábricas.”
Excelente escolha lexical da jornalista!

Depois de toda essa alegria, alguma coisa aconteceu com quem estava escrevendo a matéria, eu penso que um troço chamado “pesquisa” tenha acontecido com ela, e ela começou a apresentar os dados de que já falamos no blog algumas vezes. Ocupamos o mercado de trabalho, mas ainda ganhamos menos, somos menos promovidas, vivemos mais estressadas porque existe a pressão de ser bem sucedida no trabalho, mas existe a pressão de ser mãe e esposa para ser feliz. No cenário político, a participação ainda é pequena e tals. A matéria diz até uma coisa que gostei muito de ler sobre o fato de estarmos sobrecarregadas com essas pressões todas: “ou as empresas se adaptam ou as mulheres terão de rever seu papel em um dos dois lugares” (casa ou escritório). Ainda que isso possa soar como outra forma de pressão do tipo "pense bem no que você quer ser", é libertador, de certa forma, pensar que não precisamos ser tudo. Ainda que ser uma boa profissional e uma boa mãe de família seja comum, hoje em dia, é massacrante. E a gente tem direito de escolher, ou uma coisa ou outra.

Aviso para a Época: esta propagando foi retirada pelo Conar por ser machista e racista,
não é um sinal de vitória para mulher nenhuma.
De repente, a matéria ficou legal apontando como no Brasil, as mulheres ainda são mais apegadas a tradição patriarcal. Aqui, ter marido e filhos é prova de sucesso para mulher. É fato. E é inesquecível quando a seguinte situação acontece com você. Você estuda e se vira e tem suas coisas e escuta: você é casada? Tem filhos? Responde que não e percebe aquele olhar de desprezo na sua direção. Quem nunca?
Grifei Teló e Du Loren,
na lista de "sinais" de vitórias

Bom, a matéria estava indo super bem falando que, hoje, a mudança depende menos das leis e mais de comportamentos que precisam ser alterados, até o último parágrafo em que trouxe uma frase do Silvio de Abreu (Who?): “a mulheres já garantiram o espaço e estão por cima. O homem é que passou a reivindicar o seu lugar.” Meu Deus. Não. Como a matéria trouxe tantas pesquisas e pesquisadoras legais e opta por terminar com essa frase de um sujeito que não tem tradição nenhuma na pesquisa sobre gênero? Só porque ele escreveu uma novela chamada “Guerra dos sexos”?

Tanto esforço e tempo que a gente passa dizendo que “você não está sendo oprimido quando uma minoria exige direitos que você sempre teve”. Tanto tempo mostrando números absurdos de violência e para quê? Para uma grande revista de grande circulação vir com essa conversa de que já ganhamos, está tudo dominado, os homens que se cuidem? Sério como assim alguém acha que “Ai se eu te pego” do Michel Teló e a propaganda racista e preconceituosa da Du Loren são sinais de que já alcançamos nosso lugar ao sol? Como não ficar brava, como ser razoável? Alguém me ajude com isso.

Que canseira e que desânimo. Para começar, não existe guerra dos sexos ou, pelo menos, não deveria existir, já que ter direitos iguais é legal para todo mundo porque ninguém tem mais responsabilidade do que ninguém. Em segundo lugar, esse tipo de matéria e de ideias que ela propaga só serve para deixar os homens na defensiva, e isso não ajuda o movimento. Aliás, não ajuda ninguém.