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Dicas das tias feministas - Quando devo fazer sexo?

por Mazu



Quando se é menina e se faz sexo, existe o risco de ser julgada como galinha, piranha e outros adjetivos do tipo. Quando você não faz, você corre o risco de ser chamada de mal-comida, forever alone, e assim vai.

Por sua vez quando você é menino e você não faz sexo, você pode ser julgado como forever alone, viadinho, gay (como se os companheiros gays não fizessem sexo, vai vendo...) e assim vai. Quando você faz e não conta para ninguém, tem o mesmo efeito.


Tendo em vista esse dilema, titias, hoje, vão dizer quando se deve e como se deve fazer sexo. (ui, essas titias são tão sabidas!)

Quando se deve fazer sexo? Quando você quiser.

Você deve fazer por pressão do namorado? Não.

Você deve fazer por pressão dos amigos? Não.


Você deve fazer por medo de perder o namorado, emprego ou qualquer coisa? Não.

Mais uma vez, quando fazer? Quando quiser.

Quando não se deve fazer? Quando você não quiser.

Você deve deixar de fazer por medo de ser chamada de nomes ou "pegar fama"? Não.

Você deve deixar de fazer porque sua opção sexual não é "padrão"? Não.

Você deve deixar de fazer por pressão religiosa, familiar ou social? Não.


Quando deixar de fazer? Quando não quiser.

E como fazer? Com respeito, com segurança (vistam a toquinha) e com consentimento.

E lembre-se, se alguém fizer chantagem ou forçar de qualquer maneira uma relação sexual com você ou com alguém que você conheça, é crime. 190!

Então é isso, amiguinhos, até a próxima!


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Uma boa companhia não vale o sacrifício da sua vida sexual

por Tággidi Ribeiro

Parece perfeito
Li há alguns anos, em uma dessas revistas femininas que traz histórias de sofrimento e superação, um relato que me tocou profundamente. Era a história de uma mulher que havia encontrado seu amor. Ela e seu homem eram apaixonados um pelo outro, tinham uma convivência excelente, desejavam-se muito e eram ótimos amantes. Resolveram casar.

Tudo deu certo até o terceiro mês do casamento. A partir daí, o marido começou a distanciar-se sexualmente da esposa, até deixar de fazer sexo com ela. Continuou sendo um ótimo marido: carinhoso, gentil, compreensivo - uma ótima companhia. Nunca mais, contudo, quis de sua mulher algo além de amizade e companheirismo.

Essa esposa tentou de tudo: de jogos de sedução a conversas e brigas. Não teve de seu marido nada além de evasivas típicas: 'não há problema algum. Amo você', 'estou apenas cansado. A gente tenta depois'. O homem era sempre gentil, paciente, mesmo quando ela enlouquecia.

E ela enlouqueceu. Privada da satisfação do seu desejo sexual (a masturbação não era o suficiente) e incapaz de trair ou abandonar o marido especial que tinha, essa mulher entrou em depressão. Quase morreu. E iria morrer de culpa: ela não era boa o suficiente para aquele homem maravilhoso. Ela não conseguia deixar de querer sentir-se sexualmente desejável, ela não conseguia abrir mão do sexo a dois. Mas ela sabia, ela tinha certeza de que o que seu marido lhe proporcionava era muito mais importante do que alguns momentos de prazer algumas vezes por semana.

Essa mulher seguiu um caminho conhecido dos depressivos: terapia e remédios. Melhorou, decidiu se separar. Nessa da separação ela descobriu que o marido-anjo teve/tinha vários casos. Ele a fazia pensar que sexo não era importante, que ele não sentia falta, que ela não deveria sentir, que não era um problema casamento sem sexo. Mas ele a enganava.

Lembro que depois de ler essa história fiquei pensando sobre a vulnerabilidade de uma mulher (da gente), tão acostumada à obediência, ao sacrifício da própria felicidade em favor do outro, em nome do casamento, da estabilidade, da casa, da família - tudo isso que compõe uma espécie de ética feminina. Se o marido adoece, a mulher está lá para cuidar; se os filhos adoecem, ela está lá; se são os pais, idem. Quantos homens, contudo, vemos que cuidem de suas mulheres, filhos e pais em situações extremas e mesmo nas mais cotidianas? E quantos maridos continuariam casados - sem trair - com uma mulher que se recusa a fazer sexo com eles?

Pensei muito também sobre o quanto nós mulheres estamos acostumadas a deixar em segundo (terceiro, quarto) plano o sexo nas nossas vidas. Ensinam meninas a menosprezar o desejo sexual, a reprimi-lo e meninos a superestimá-lo e saciá-lo. Bem, alguma coisa só pode dar errado assim.

Sabendo que a falta de desejo sexual em geral sinaliza problemas; que a falta de satisfação sexual está na raiz de vários problemas e doenças; que não existem substitutos para o sexo, assim como não existem substitutos para o sono, não pude deixar de chegar a esta conclusão: mulheres, uma boa companhia não vale o sacrifício da sua felicidade sexual.

Felizes?

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Algumas diferenças sutis, outras nem tanto


por Mazu

Este final de semana, li alguns textos da TPM Edição de aniversário de setembro de 2012. Cara, foi uma leitura muito prazerosa e interessante. E foi inesperado também  porque eu nunca curti o slogan "Trip para mulheres" deles, mas enfim. A entrevista com a psicanalista Regina Navarro Lins sobre sexualidade, exclusividade e traição está muito legal, assim como a matéria que me fez comprar a revista "Sim, mulher adora sexo (fica com isso)".

Essa matéria trouxe vários depoimentos de mulheres diferentes (empresária, cineasta, blogueira e atriz) sobre o que é gostar de sexo para elas (quantidade, variedade, qualidade), e suas histórias dentro dessa vivência com a própria sexualidade. Os depoimentos estão bem interessantes e, dentre eles, está o da autora do Cem Homens, sobre a origem do seu blog: o plano era ir para cama com cem caras até o fim de um determinado ano e relatar no site. Não preciso dizer que ela recebeu reações super negativas, inclusive de amigos. Não preciso dizer também que se ela fosse homem, seria diferente.

A matéria mostra ainda como, apesar do que chamaram de liberação sexual feminina (eu tenho lá minhas dúvidas), o fato de a mulher gostar de sexo ainda é uma coisa super tabu. Sim, a gente bem sabe. De qualquer forma, uma generalização é evidente e comum para todas as mulheres que assumem publicamente gostar de sexo, o tal do slut-shaming. Ou seja, todas são taxadas de piranhas, biscates, piriguetes ou qualquer que seja o termo mais usado do momento.

Kristen, maior vítima de slut-shaming da atualidade
Aí, com meus botões, fiquei pensando que isso tem várias desdobramentos, inclusive os que justificam que algumas mulheres evitem de assumir do que gostam ou não. Esses desdobramentos tem sua origem em preconceitos e estereótipos estabelecidos pela sociedade machista e patriarcal: tem a mulher para casar, a mulher diferente dessa que serve para alugar, a mulher diferente de outra maneira que se rouba e violenta em guerras e ocasiões parecidas, e assim vai. Acho que posso generalizar dizendo que se trata do mito da mulher patrimônio (do homem, claro).

Para se livrar desse estigma e ter uma vida sexual digna, a gente precisa se desfazer desses preconceitos que pairam sobre o gostar de sexo. Isso porque, nesse tipo de sociedade que vê a mulher como alguma espécie de patrimônio, a única mulher (dos tipos de mulheres possíveis) capaz de gostar de sexo é a que não presta. Por mais grosseiro e medieval que isso pareça, essa mentalidade ainda está presente, não está escancarada e super visível, mas, meu Deus, como é presente.

É preciso ficar claro que gostar de sexo não significa não ter padrões ou vontade própria. Quero dizer, uma pessoa que gosta de sexo não necessariamente vai fazer sexo a todo o momento com qualquer outra pessoa. É aquela velha história, por exemplo, uma menina ou um cara que transou com várias amigas ou amigos meus não é obrigad@ a ficar comigo porque já pegou todo mundo da minha turma. Todo mundo tem poder de escolha e deve ter a vontade respeitada. Uai.

Chega de slut-shaming,
chega de culpar a vítima pelo estupro
Parece uma afirmação boba e meio óbvia, mas as pessoas (incluo os meninos nessa também porque rola com eles, e muito) que admitem seu apreço por variedade são mais suscetíveis à violência, inclusive a psicológica. Imagine alguém dizendo a um menino: 'não vai pegar não sei quem, por quê? Virou gay?' e para uma menina: 'ficou com todo mundo e não vai ficar comigo?' Claro que os meninos, ainda que colocados em situações desconfortáveis, são vistos como heróis quando admitem gostar de sexo com várias garotas (porque se for com garotos, o papo já é outro). As meninas quando assumem esse comportamento, perdem simbolicamente o respeito, o valor nessa nossa sociedade de mascus. Ainda que os resultados do slut-shaming sejam diferentes para homens e mulheres, todas as ocorrências são formas de violentar as pessoas, de certa forma.

Essa suscetibilidade a algum tipo de violência justifica que algumas mulheres não assumam ou se proíbam de curtir o sexo. Isso é super complicado porque faz com muita gente viva culpada ou infeliz.

Na verdade, sexo é muito pessoal e individual, por mais maluco que possa parecer. As pessoas que gostam pouco ou nada não são loucas, nem mal-amadas, nem necessariamente traumatizadas. As que gostam muito não são necessariamente viciadas em sexo. As que são viciadas não são necessariamente pessoas ruins. As que gostam com vários parceiros ou parceiras não merecem desrespeito. Assim como as que curtem um parceiro só não são ultrapassadas, nem românticas, bobas ou idealistas. Não rola julgar, é mega pessoal. Como eu vou saber o que é o comportamento admissível para a outra pessoa quando se trata de algo tão pessoal? Como uma única medida, um único peso de estigma social poderia dar conta da infinidade de tipos de pessoas que existe e cada comportamento sexual respectivo e relacionado? 

Como cada um tem um comportamento sexual seu, o ideal é se encontrar e se respeitar e buscar parcerias na mesma sintonia. Do contrário, muita gente se machuca de tudo quanto é jeito. Alguém consegue pensar em coisa pior do que fazer sexo, fazer sexo assim ou assado, ou ainda, não fazer simplesmente para agradar outra pessoa?

Voltando a matéria da TPM, acho que o ponto (muito válido) da matéria é que existem mulheres que gostam de sexo e tudo bem. O mundo não vai acabar, o chão não vai se abrir, nem nada. É uma iniciativa bacana de divulgação porque nós, entre nós meninas, sabemos disso há muito tempo, mas isso ainda assusta alguns caras. Já vi caras considerados inteligentes e revolucionários se assustarem quando uma menina demonstra um comportamento sexual mais livre ou mais parecido com o deles.

Durante a faculdade fiz dois grandes amigos e, em um determinado dia, estávamos os três trocando histórias enquanto a gente lanchava na cozinha da nossa antiga república. Eles falaram sobre algumas aventuras, e eu também. Só que ninguém esperava, né? Afinal, sou uma menina. Depois de me ouvir, um deles olhou para mim muito assustado e disse: olha só, você é pior que eu. E eu respondi: pior não, sou igual. E ele fez uma cara de quem sentiu uma ficha bem grande cair, e a gente riu.


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A luta das meninas e as meninas da luta



por Mazu

Eu me apaixonei por Kung Fu e Sanshou durante meu namoro com meu companheiro, ele praticava e gostava muito e, um dia, me levou para conhecer. O Kung Fu é uma arte milenar e linda, requer muito mais concentração e inteligência do que as pessoas julgam. O nível de autoconhecimento e autocontrole dos praticantes sérios é visível e admirável.

Apesar de toda a admiração, não tive nem tempo, nem oportunidade ainda de praticar o Kung Fu (em especial o Choy lay fut, o estilo que tive contato, é bom dizer porque são muitos estilos). Mas conhecer o Sanshou, o boxe chinês que compartilha alguns dos fundamentos, me fez muito bem. Em tudo, desde entender e concatenar mais os movimentos físicos, ganhar mais coordenação e mais cárdio até perceber que eu vivia guardando muita raiva no coração. E, de verdade, é do coração que vem a força.

Nessa onda de praticar, eu comecei a assistir lutas e acompanhar os treinos, me interessar mesmo. Ultimamente, o maridão anda treinando com uma equipe de MMA aqui de Brasília, e eu acabei indo assistir ao Shooto Brasil 34, e convivendo mesmo com a galera fã e praticante do Mixed Martial Arts, que como o nome diz, é uma mistura de várias modalidades de artes marciais, as mais "pedidas" são o Muay Thai, o jiu-jítsu e o Wrestling, mas não para por aí não.

Feliz em demonstrar o que
"bater como uma menina" significa


Bom, aí, neste convívio, comecei a notar algumas coisas. Primeiro, refiri-me ao julgamento das pessoas ali em cima porque existe muito mau julgamento e pré-julgamento no mundo, e com as artes marciais não seria diferente. Existem vários preconceitos relacionados a esse tipo de esporte, e eles não dizem respeito apenas às mulheres praticantes de artes marciais.

Na verdade, o julgamento das pessoas com relação às artes marciais é super preconceituoso também com relação aos homens, existe um estereótipo, na maioria das vezes, falso, do marombado burro e violento que é mais ligado aos meninos do jiu-jítsu e Muai Thay, mas acaba não deixando ninguém de fora. Agora, quando você acompanha os praticantes sérios do esporte, você percebe que as coisas são bem diferentes, eu, pessoalmente, acabei por conhecer muita gente legal e sábia. É, pois é, pois é, pois é.

Mas este blog é feminista e a minha elegia acaba aqui. E eu começo a pancadaria perguntando: se a imagem é ruim para os caras, imagina para as meninas? 

Cris uma vez colocou para dormir um jornalista
que disse que mulheres são mais fracas que homens
Acho que vale ressaltar que características que são consideradas masculinas, tipo força, porte físico, habilidade para luta, são consideradas masculinas por imposição social. A gente falou disso em outras ocasiões aqui no blog. Logo, as meninas mais fortes e mais centradas não são necessariamente lésbicas. Vale dizer também que, por sua vez, nem todas as lésbicas possuem essas que são consideradas as características masculinas. Força física, a falta ou excesso, a percentagem de musculatura de um corpo nada tem a ver com sexualidade e, de acordo com pesquisas recentes, nem com sexo. Eu me sinto boba afirmando o óbvio, mas a gente ouve cada comentário quando as meninas estão lutando, que olha...


Gina Carano e as marcas da guerra

É verdade, as meninas têm ocupado seu espaço nas artes marciais (vide as medalhistas olímpicas) e, durante o pouco tempo que pratiquei, nunca senti nenhuma diferenciação ou discriminação na academia que frequentei. Agora, o MMA insiste em manter as mulheres nuas segurando placas nos seus eventos, e não consigo entender o porquê. Que sentido faz um evento ter mais garotas de biquíni do que lutadoras, se estamos falando de um evento de luta e não de um desfile de roupas de banho?

Mischa Tate, beleza padrão de ring girl,
mas prefere descer a porrada
Assistir ao Shooto Brasil 34 me deixou louca da vida. Uma luta, dentre as onze do evento, foi feminina e, na minha opinião, a mais legal. No resto do evento, meninas com bundas gigantescas de fora mostravam em que round a luta estava porque né? Contar até três é phoda. A gente precisava mesmo de ajuda. E se eu começar a falar dos eventos do UFC, não vai ter espaço né? Porque lá, mulher lutadora nem existir, existe. Existem as belas esposas, as belas ring-girls e uma juíza, porque os juízes são escolhidos e designados pela Associação Atlética Norte Americana e não pelos grandes empresários do evento. Não vou mentir, assisto, mas ô evento machista do baralho.
Participação femina no Shooto 34: 1 lutadora...


...três ring-girls
Vasculhando as internets por aí, encontrei este documentário rapidíssimo sobre Meninas do MMA, vale pelo depoimento da atleta, falando sobre ser mãe, mulher e lutadora, sobre o que é patrocínio para ela. É divertidíssimo também o depoimento da dançarina que dizia que não conseguia "nem olhar" para a luta de tão violento que era. É engraçado, o que 'violento' significa para cada um. Durante o Shooto, eu não pisquei na luta da Claudinha Gadelha (foto acima), que foi tão daora! Em compensação, cada vez que passava uma daquelas meninas de bunda de fora e subiam os comentários do público, eu tinha vontade de não ver e nem ouvir e, talvez, morrer ou matar alguém.


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Meninos têm pênis, meninas têm vagina: o drama das crianças transgênero

por Barbara Falleiros

"Não, sai, sai daqui! Você não pode brincar com a gente! Você não vai brincar, você é ruivo!" 

Do alto de seu metro e dez, mãos na cintura, a garotinha lança um olhar de desprezo por trás dos óculos de acrílico cor-de-rosa. Mundo em miniatura, o parquinho é, com a escola, o lugar do primeiro estágio de crueldade e discriminação.

A este olhar de desprezo sucede aquele de profunda tristeza da mãe, confessando à meia-voz seu sentimento de impotência. Sinto um nó na garganta quando me lembro destes dois olhares. O que deve fazer um adulto para proteger sua criança de qualquer tipo de preconceito e humiliação?

Little Miss Sunshine - A família dança junto!
Niels Pickert me inspira um grande respeito. Este pai, ao se mudar com sua família de Berlim para uma cidade menor no sul da Alemanha, ofereceu todo o apoio para que seu filho de 5 anos não se sentisse ridicularizado no novo ambiente, no novo jardim da infância. O garotinho gosta de usar vestidos. O pai vestiu saias para acompanhá-lo.

Niels Pickert e seu filho combatendo os estereótipos de gênero
"Sim, eu sou um daqueles pais que tentam criar seus filhos de maneira igual. Eu não sou um daqueles pais acadêmicos que divagam sobre a igualdade de gênero durante seus estudos e, depois, assim que a criança está em casa, se volta para o seu papel convencional: ele está se realizando na carreira professional enquanto sua mulher cuida do resto." (a reportagem em português, aqui)

Niels Pickert é feminista. Imagino aqui todos os machistas e masculinistas de plantão, exultantes e odiosos, pensando terem encontrado o exemplo perfeito do macho sem colhões, literalmente de saia, aviadando-se com seu filho ao invés de mostrar-lhe o que é ser homem! Estes nunca enxergarão o exemplo deste pai promovendo a tolerância, o carinho, o respeito e a aceitação.

Mas o que significa um menininho de vestido? Ou de fantasia de princesa, ou efeminado? Trata-se de uma fase? Quando crescer, ele vai ser homossexual, transsexual?

Pode ser. Como pode muito bem não ser. Como explica a médica americana Diane Ehrensaft, "algumas crianças exploram o gênero oposto e voltam. Outras, ao expressarem um desejo temporário de ser do outro sexo, podem estar apenas manifestando que são homossexuais. Mas muitas das que conheci expressavam claramente que se sentiam como sendo do gênero oposto." (fonte)

Muitas pessoas não sabem que existe uma diferença entre identidade de gênero e orientação sexual. Tenho a impressão de que parte do preconceito resulta da confusão entre estes conceitos. A identidade de gênero diz respeito ao gênero com o qual a pessoa se identifica. No caso de um(a) transsexual, a pessoa sente que sua identidade - aquilo que ela é - não corresponde ao sexo biológico. Já a orientação sexual diz respeito aos gêneros pelos quais a pessoa sente atração física, romântica, emocional. Grosso modo, de um lado está o que você é, de outro com quem você deseja se envolver.

 

Nem sempre. O drama na vida de crianças transgênero é que, apesar de possuíram um órgão genital masculino ou feminino, toda sua existência aponta para o gênero oposto, como se tivessem nascido em um corpo errado: "De todas as coisas horríveis que poderiam ter acontecido comigo, por que isso?" E a única chance dessas crianças conseguirem enfrentar as dificuldades deste desacordo entre mente e corpo é com o apoio da família.

Riley e a entrevistadora Barbara Walters
Um excelente documentário de 2007, My secret self, conta de maneira direta e extremamente comovente a história de três famílias com crianças transgênero. Quando Richard - hoje, após sua transição, uma garotinha chamada Riley - tinha 2 anos e meio, sua mãe encontrou-o na banheira tentando manejar um cortador de unhas com o intuito de cortar seu pênis. Aos 6 anos, Richard disse-lhe: "Mamãe, eu gostaria de não existir. (...) Se eu morresse, você ficaria triste, mas se eu nunca existisse, você nem saberia." 

No site da Fundação Transkids Purple Rainbow, lemos: "Tentar ensinar uma criança transgênero a ser o oposto do que ela é [equivale a ensinar-lhe] como a sociedade espera que ela se comporte com base em sua genitália. Dizer a uma criança: 'Você é um menino, você tem pênis' (ou o oposto, para uma criança de sexo biológico feminino) só reforça os sentimentos de desconforto. Este 'ódio do corpo' muitas vezes leva a transtornos alimentares, automutilação e suicídio."

"Sinto pena dos pais que não conseguem fazer isso pelo seu filho, (...) expor seus sentimentos e dizer 'eu te amo, não importa se você é gay, lésbica ou transgênero'. Em que isso importa? É seu filho!", diz a mãe de Jess.

O que deve fazer um adulto para proteger sua criança do preconceito e da discriminação? Aceitá-la.






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Religiosidade e feminismo


por Mazu
 
Bom, não tenho mais vergonha de dizer: eu acredito em Deus. Já apanhei muito na academia e na militância por isso, mas é bem mais forte que eu. Tentar me declarar atéia sempre me fez sentir como se estivesse mentindo. Ainda assim, acreditar em Deus e ser feminista pode ser um pouco conflitante, também assumo isso. Isso porque os grandes livros (bíblia, alcorão) que embasam algumas das religiões dominantes são bem machistas (de verdade, não quero ofender ninguém com isso). Os grandes profetas, líderes religiosos, na maioria: homens. As mulheres que, em determinada época, manifestaram sua espiritualidade ou cultuaram o feminino são conhecidas historicamente como bruxas. Obviamente, muita coisa vem mudando, existem grupos religiosos que discutem essas questões da religiosidade e dos direitos da mulher, como o Católicas pelo direito de decidir, e o CFêmea também já abordou a questão. Ainda assim, a maioria das religiões tem uma visão muito esquisita da mulher e da sexualidade feminina e da sexualidade no geral. Por exemplo, acredito que Jesus existiu e que foi um cara massa, mas que Maria, sua mãe, não era virgem não e que isso não tem a menor importância. Acredito que Maria Magdalena, a amiga de Jesus, foi uma personagem muito mais importante do que se conta e que podia ter sido sim, namorada de Jesus, sua companheira na vida sexual e de militância, sem problemas. Na boa, isso faz muito mais sentido do que a história "oficial" que nos é contada.

O espiritismo me deu muito conforto por um tempo porque em sua literatura o que consta é que o espírito não tem sexo e que reencarnamos ora homem, ora mulher, de acordo com o nosso aprendizado/prova/missão na terra. Isso é bem libertador e revolucionário, especialmente, se a gente pensar que se um dia Jesus voltar, seu espírito pode vir num corpo de mulher (talvez isso já tenha acontecido e ninguém tenha lhe dado voz). E as falas e os livros do Chico Xavier também sempre me trouxeram essa visão igualitária e certa paz de espírito. Antes que alguém diga que estou advogando pelo espiritismo vou logo soltar: na prática, nas casas espíritas (as que frequentei pelo menos) não é assim não. As pessoas, no nosso mundinho e na nossa época, ainda usam da sua religião para justificar seus preconceitos. Nunca frequentei nenhuma casa religiosa que recebesse bem os homossexuais ou que não me pedisse resignação com determinadas injustiças relacionadas a preconceitos sociais de gênero ou sexualidade. E sabe aquele desconforto que eu sinto quando minto que não acredito em Deus? Pois é, o desconforto em dizer que Deus compactua com qualquer tipo de preconceito é o mesmo.

Uma pergunta ainda me persegue: preciso abrir mão de Deus pra ser feminista? Preciso abrir mão da minha sexualidade para acreditar em Deus? Por que cargas d'água essas coisas teriam de ser opostas? Por que a mulher, em algumas religiões, é associada ao diabo? Por que a homossexualidade ou a sexualidade feminina muitas vezes são vistas como coisas das trevas? Da mesma forma, por que as religiões de origem africana ou indígena recebem esse mesmo tipo de rótulo? Sério mesmo, se considerarmos bem a nossa história até agora, eu diria que o mal tem se servido muito bem do homem heterossexual branco, que vem liderando um mundo cheio de desigualdade e atrocidades.

Ainda tenho muito para dizer e escrever sobre religiosidade e sexualidade, religiosidade e resignação, religiosidade e militância política. A Júlia já escreveu sobre sexualidade e foi muito legal. No geral, preciso deixar claro que nada justifica intolerância em nenhum âmbito da existência humana. E se Deus existe como eu sinto que existe, preconceitos e injustiças não são criações dele não.

Vou terminar esse post com um vídeo do Chico Xavier sobre sexualidade, gravado nos anos 70 (pasmem!!). E vou dizer mais, o Chico era um cara massa também, massa tipo Jesus, e se ele era homossexual, não tem problema. Nem ele, nem Jesus, nem as Marias e nem ninguém precisa ser assexuado para ser um bom espírito. Sexo e sexualidade, sim, são criações de Deus. 

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Guest Post: Do sexo viemos e é para lá que voltaremos


por Júlia Neves

Sexo é certamente uma das palavras mais temidas e constrangedoras da sociedade moderna. Embora seja natural, ainda que todo mundo faça, todo mundo pense, todo mundo precise, falar de sexo continua a ser um dos maiores tabus para a maior parte das pessoas. No nosso mundinho, sexo bom (e moralmente correto) é aquele contido na caixinha da tríade casamento-reprodução-heterossexual. É pensando na limitação e opressão desta norma que ativistas políticos de São Francisco, Berlim, Barcelona e São Paulo criaram o projeto [SSEX BBOX] sexuality out of the box (sexualidade fora da caixinha), uma série de documentários na internet sobre diversas formas de sexualidade, da perspectiva de diferentes lugares do mundo.

O projeto tem como principal objetivo discutir sexualidade fora das normas culturais conservadoras, desvencilhando-se de preconceitos comuns que persistem na maioria das abordagens sobre o assunto, como a vergonha e o moralismo. O primeiro episódio, por exemplo, apresenta depoimentos de artistas, pesquisadores e ativistas sobre o que eles entendem como sexo, mostrando que sexo se manifesta de diversas formas na sociedade: entre héteros, gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros; na masturbação, na política, na religião e por aí vai.

O meu preferido até agora é o segundo episódio, que discute sexualidade na infância. Um dos pontos mais enfatizados pelos entrevistados é exatamente a ilusão de que crianças estão alheias ao sexo porque são inocentes. A opinião dos especialistas é unânime: melhor ensinar uma criança que é normal sentir desejo sexual do que ensiná-las a ter vergonha. Em vez de ensiná-las que masturbação é pecado, faz mais sentido explicar que faz parte do conhecimento do corpo.

Outras questões abordadas pelos mini-documentários são as relações entre política, religião e sexualidade, mostrando como todos nós somos culturalmente moldados pelos discursos que legitimam sexo somente para a reprodução e após o casamento, é claro. Obviamente temos mais opções e liberdades que outras gerações, mas a questão de sexualidade ainda é tabu em diversos aspectos, pois os discursos que prevaleciam no século XIX, já dizia Foucault, ainda pairam o nosso dia-a-dia. 

Não vou nem entrar no mérito daquele famoso clichê: homens que transam com muitas mulheres são garanhões, mulheres que transam com muitos homens são vagabundas. Mas a questão da homossexualidade, por exemplo. O olhar sobre o homossexual como um doente, anormal e sexualmente pervertido é um preconceito consolidado no século XIX por sexólogos e psiquiatras que tentavam desvendar e explicar o que era o homossexual.

Por mais absurdo que isso nos pareça nos dias de hoje, esta forma de ver a homossexualidade – como uma aberração – tornou-se tão naturalizada que é frequentemente reproduzida através de comentários que, teoricamente, seriam pró-homossexualidade. Quem nunca escutou a frase: “Não tenho nada contra gays, mas que não se beijem na minha frente”? Este é um comentário homofóbico sim, pois o motivo de estas pessoas não quererem ver homossexuais se beijando é o preconceito de que a homossexualidade é anormal e, de certa forma, errada.

O [SSEX BBOX] é um projeto extremamente politizado que busca, de fato, quebrar preconceitos e tabus que circulam entre nós. Os documentários mostram que é possível viabilizar diferentes formas de pensar a sexualidade através da educação sexual, ressaltando que há inúmeras maneiras de entender, expressar, praticar e desejar sexo. Os depoimentos dos vídeos são inteligentes, acessíveis e levantam debates importantes sobre o assunto. Até agora, a equipe já produziu quatro episódios, que podem ser encontrados no vimeo, e produzirão mais dez entre janeiro e novembro de 2012. O quinto estreia dia 4 de junho em São Francisco. Esperemos ansiosamente.   

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Júlia Neves nasceu em Brasília e, desde 2008, vive na Alemanha. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, atualmente é doutoranda em Literatura e Cultura Inglesas na Humboldt-Universität zu Berlin. Desde o mestrado, também cursado em Berlim, ela se dedica a pesquisas sobre representações de homossexualidade e de Londres nas obras dos escritores britânicos Sarah Waters e Alan Hollinghurst. Suas principais áreas de interesse são literatura, línguas, séries de televisão, cinema, teorias pós-colonial, queer, de gênero e feminista.