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V
VII
e dar a vida, se necessário.
enquanto os dois disparam juntos
contra o inimigo.
nem terá medo de se descobrir ante a magia da paixão
em uma praça cheia de multidões.
Poderá gritar - te amo -
ou colocar placas no alto dos edifícios
proclamando seu direito de sentir
o mais lindo e humano dos sentimentos.
X
nem das fraldas do filho,
será como um vento fresco
levando consigo, entre nuvens de sonho e de passado,
as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram separados
como seres de distintas estaturas.
me dará ar, espaço,
alimento para crescer e ser melhor,
como uma Revolução
que faz de cada dia
o começo de uma nova vitória.
aquelas que eu podia ter sido;
as mulheres primorosas,
modelo de virtudes,
contra elas
odeio suas ameaças em meu corpo
me inspiram;
às escondidas do marido
o pudor da nudez, por baixo da passada e engomada
roupa íntima.
levantam um dedo acusador
e, às vezes, cedo a seus olhares de reprimenda
e gostaria de ter a aceitação universal,
ser a “boa menina”, a “mulher decente”
a impecável Gioconda,
tirar dez em conduta
com o partido, o estado, as amizades,
minha família, meus filhos e todos os demais seres
que, abundantes, povoam este nosso mundo.
Nesta contradição invisível
entre o que deveria ter sido e o que é
travei numerosas batalhas mortais,
batalhas inúteis delas contra mim
- elas contra mim que sou eu mesma -
Com a “psique dolorida” despenteio-me
transgredindo ancestrais programações
desgarrando-me das mulheres internas
que, desde a infância, torcem o rosto para mim
pois não me encaixo no molde perfeito de seus sonhos,
pois me atrevo a ser esta louca falível, terna e vulnerável
que se apaixona feito puta triste
por causas justas, homens bonitos e palavras brincalhonas
pois, já adulta, atrevi-me a viver a infância proibida,
e fiz amor sobre escrivaninhas em horários comerciais
e rompi laços invioláveis e me atrevi a desfrutar
o corpo são e sinuoso com que os genes
de todos os meus ancestrais me dotaram.
Porém, nos poços escuros em que me afundo;
nas manhãs em que, ao entreabrir os olhos,
sinto as lágrimas fazerem força
apesar da felicidade
que finalmente conquistei
rompendo estratos e camadas de rocha terciária
e quaternária,
vejo minhas outras mulheres sentadas no vestíbulo
fitando-me com olhos doídos
e me culpe pela felicidade.
contra esta mulher
feita
plena
esta mulher de peitos em peito
e largos quadris
que, por minha mãe e contra ela,
eu gosto de ser.
Gioconda
Belli (Nicarágua, 1948) é uma das poetas nicaraguenses mais conhecidas dentro e fora de seu país.
Ainda jovem se integrou às fileiras da Frente Sandinista de Libertação Nacional
(FSLN) na luta pela derrubada do governo ditatorial de Somoza. Foi correio
clandestino, transportou armas, viajou pela Europa e América recolhendo
recursos e divulgando a luta sandinista. E, claro, no meio de tudo isso,
escrevia suas poesias. Com o triunfo da Revolução Nicaraguense, em 1979, ocupou
vários cargos dentro do governo revolucionário. Com a posterior burocratização
do partido no poder, Gioconda se afasta da FSLN e passa a criticar duramente
seu “endireitamento”.
De início, a poesia de Belli, produzida
no contexto da revolução nicaraguense, coloca grande ênfase na união dos
nicaragüenses contra a tirania de Somoza, tratando o amor de um casal como metáfora da unidade sociopolítica e de gênero em oposição a tirania. Esse
amor era "arma contra a opressão… o desejo dionisíaco que vence a morte, o
desespero". Belli apresentava, então, a mulher como a entidade destinada
principalmente a dar amor, associada com o sentimental e com o passivo. Ela era
a natureza e a paisagem nicaragüenses, a terra que esperava ser possuída pelo amante-guerrilheiro
(ativo, forte e que domina o espaço público), dicotomia de gênero própria do
universo patriarcal.
Porém,
Belli também já incluía em seus versos elementos inovadores da representação feminina,
fissuras no discurso patriarcal que evidenciavam a negociação que a escritora fazia
entre o tradicional e o novo. Com a
vitória da revolução nicaraguense, essas fissuras vão aos poucos crescendo
e uma nova identidade feminina vai se assumindo como voz dominante em sua poética, ainda que com recaídas
próprias das tensões com o velho discurso. Belli realiza uma corajosa autocrítica
do eu-feminino, reconhece o excessivo idealismo com que encarava as relações
amorosas, passa a questionar abertamente a submissão da mulher e a defender que esta possa estabelecer seus próprios limites, suas
próprias regras, o que realmente quer ou não quer no amor.
Vista
em sua totalidade, a poesia de Belli é um fantástico registro da trajetória do eu-feminino, com seus conflitos e contradições de identidade até uma consciência
feminista. Um retrato bastante genuíno das latinoamericanas-lutadoras do século
XX e começo do XXI, com seus acertos e também com sua incansável negociação com
a opressão tradicional de nossa cultura machista e patriarcal.
Jeff
Vasques
NOVA TESE
FEMINISTA
(Gioconda
Belli, tradução de Jeff Vasques)
Como te dizer
homem
que não te necessito?
Não posso cantar a liberação
feminina
se não te canto
e te convido a descobrir
liberações comigo.
Não me agrada a gente que se
engana
dizendo que o amor não é
necessário
-"tenha medo, eu tremo"
Há tanto novo que aprender,
formosos homens da caverna a
resgatar,
novas maneiras de amar que ainda
não inventamos.
Em nome próprio declaro
que gosto de me saber mulher
frente a um homem que se sabe
homem,
que sei de ciência certa
que o amor
é melhor que as multi-vitaminas,
que o casal humano
é o princípio inevitável da vida,
que por isso não quero jamais
liberar-me do homem;
o amo
com todas suas debilidades
e gosto de compartilhar sua
teimosia
todo este amplo mundo
onde ambos somos imprescindíveis.
Não quero que me acusem de mulher
tradicional
mas podem me acusar
tantas como quantas vezes queiram
de mulher.
REGRAS DO
JOGO PARA OS HOMENS QUE QUEIRAM MULHERES MULHERES
(Gioconda
Belli, tradução de Silvio Diogo)
I
O homem que me amar
deverá saber abrir as cortinas da
pele,
encontrar a profundidade de meus
olhos
e conhecer o que se aninha em
mim,
a andorinha transparente da
ternura.
II
O homem que me amar
não desejará possuir-me como uma
mercadoria,
nem me exibir como troféu de
caça,
saberá estar a meu lado
com o mesmo amor
com o qual estarei ao lado seu.
III
O amor do homem que me amar
será forte como as árvores de
ceibo,
protetor e seguro como elas,
puro como uma manhã de dezembro.
IV
O homem que me amar
não duvidará de meu sorriso
nem temerá a abundância de meu cabelo,
respeitará a tristeza, o silêncio
e com carícias tocará meu ventre
como violão
para que brotem música e alegria
do fundo de meu corpo.V
O homem que me amar
poderá encontrar em mim
a rede onde descansar
do pesado fardo de suas
preocupações,
a amiga com quem compartilhar
seus íntimos segredos,
o lago onde flutuar
sem medo de que a âncora do
compromisso
o impeça de voar quando queira
ser pássaro.
de vir a ser pássaro.
VI
O homem que me amar
fará poesia com sua vida,
fará poesia com sua vida,
construindo cada dia
com o olhar posto no futuro.
VII
Acima de todas as coisas,
o homem que me amar
deverá amar o povo
não como uma palavra abstrata
tirada da manga,
mas como algo real, concreto,
a quem render homenagem com açõese dar a vida, se necessário.
VIII
O homem que me amar
reconhecerá meu rosto na trincheira
joelhos no chão me amaráreconhecerá meu rosto na trincheira
enquanto os dois disparam juntos
contra o inimigo.
IX
O amor de meu homem
não conhecerá o temor da entrega,nem terá medo de se descobrir ante a magia da paixão
em uma praça cheia de multidões.
Poderá gritar - te amo -
ou colocar placas no alto dos edifícios
proclamando seu direito de sentir
o mais lindo e humano dos sentimentos.
X
O amor de meu homem
não fugirá das cozinhas,nem das fraldas do filho,
será como um vento fresco
levando consigo, entre nuvens de sonho e de passado,
as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram separados
como seres de distintas estaturas.
XI
O amor de meu homem
não desejará rotular ou etiquetar,me dará ar, espaço,
alimento para crescer e ser melhor,
como uma Revolução
que faz de cada dia
o começo de uma nova vitória.
NÃO ME ARREPENDO DE NADA
(Gioconda
Belli, tradução base de Silvio Diogo, versão de Jeff Vasques)
Daqui,
da mulher que sou,
às
vezes me entrego a contemplaraquelas que eu podia ter sido;
as mulheres primorosas,
modelo de virtudes,
trabalhadoras
boas esposas
que
minha mãe desejou para mim.
Não
sei por quê
passei
minha vida inteira me rebelandocontra elas
odeio suas ameaças em meu corpo
a
culpa que suas vidas impecáveis
por
um estranho feitiço,me inspiram;
revolto-me
contra seus bons ofícios,
os
prantos noturnos sob o travesseiro,às escondidas do marido
o pudor da nudez, por baixo da passada e engomada
roupa íntima.
Estas
mulheres, no entanto,
olham-me
do interior de seus espelhos,levantam um dedo acusador
e, às vezes, cedo a seus olhares de reprimenda
e gostaria de ter a aceitação universal,
ser a “boa menina”, a “mulher decente”
a impecável Gioconda,
tirar dez em conduta
com o partido, o estado, as amizades,
minha família, meus filhos e todos os demais seres
que, abundantes, povoam este nosso mundo.
Nesta contradição invisível
entre o que deveria ter sido e o que é
travei numerosas batalhas mortais,
batalhas inúteis delas contra mim
- elas contra mim que sou eu mesma -
Com a “psique dolorida” despenteio-me
transgredindo ancestrais programações
desgarrando-me das mulheres internas
que, desde a infância, torcem o rosto para mim
pois não me encaixo no molde perfeito de seus sonhos,
pois me atrevo a ser esta louca falível, terna e vulnerável
que se apaixona feito puta triste
por causas justas, homens bonitos e palavras brincalhonas
pois, já adulta, atrevi-me a viver a infância proibida,
e fiz amor sobre escrivaninhas em horários comerciais
e rompi laços invioláveis e me atrevi a desfrutar
o corpo são e sinuoso com que os genes
de todos os meus ancestrais me dotaram.
Não
culpo ninguém. Melhor, agradeço a eles pelos dons.
Não
me arrependo de nada, como disse Edith Piaf.Porém, nos poços escuros em que me afundo;
nas manhãs em que, ao entreabrir os olhos,
sinto as lágrimas fazerem força
apesar da felicidade
que finalmente conquistei
rompendo estratos e camadas de rocha terciária
e quaternária,
vejo minhas outras mulheres sentadas no vestíbulo
fitando-me com olhos doídos
e me culpe pela felicidade.
Irracionais
boas meninas
rodeiam-me
e desfilam suas canções infantis contra mim;contra esta mulher
feita
plena
esta mulher de peitos em peito
e largos quadris
que, por minha mãe e contra ela,
eu gosto de ser.
11 de julho de 2013
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Como sabe qualquer economista, crises são também oportunidades. Para os que já têm o capital, claro, não para os que estão na extremidade inferior da escala.
No contexto de gênero, proclamar uma grande crise é uma forma de se manter no poder, negando o próprio privilégio, negando a legitimidade da demanda do outro por poder e, consequentemente, reforçando e reinventando mecanismos de dominação.
Isso não quer dizer que os homens não sejam oprimidos pelo patriarcado, mas, bom, para desmantelar o patriarcado nós já temos o feminismo...
Referência:
por Roberta Gregoli
Hoje estou lutando com um capítulo da tese, então, infelizmente, não vou conseguir travar outra luta vã com um texto aqui no blog. Mas, para não passar batido, aproveito da minha pesquisa uma citação que vem bem a calhar tendo em vista os recentes comentários de nossos novos fãs masculinistas.
Como a proeminente Tania Modleski já dizia há mais de uma década, esses comentários:
Como a proeminente Tania Modleski já dizia há mais de uma década, esses comentários:
[...] confirmam minha própria convicção de que, por mais que a subjetividade masculina esteja "em crise", como muitas feministas otimistas [e homens que se sentem lesados] agora declaram, temos que considerar até que ponto o poder masculino não é, na verdade, consolidado através de ciclos de crise e resolução, por meio dos quais os homens, em última instância, lidam com a ameaça do poder das mulheres incorporando-o.
Como sabe qualquer economista, crises são também oportunidades. Para os que já têm o capital, claro, não para os que estão na extremidade inferior da escala.
No contexto de gênero, proclamar uma grande crise é uma forma de se manter no poder, negando o próprio privilégio, negando a legitimidade da demanda do outro por poder e, consequentemente, reforçando e reinventando mecanismos de dominação.
Isso não quer dizer que os homens não sejam oprimidos pelo patriarcado, mas, bom, para desmantelar o patriarcado nós já temos o feminismo...
![]() |
| É nisso que dá tentar reinventar a roda |
Referência:
Modleski, Tania. Feminism Without Women: Culture and Criticism in a "Postfeminist" Age. New York and London: Routledge, 1991. Minha tradução.
17 de abril de 2013
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teoria feminista
1
por Roberta Gregoli
Naomi Wolf é feminista, autora de sete livros, três dos quais foram traduzidos para o português: além do famoso O mito da beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres, também Fogo com fogo e Promiscuidades: A luta secreta para ser mulher. A entrevista para o WOW se concentra no seu livro mais recente, Vagina.
O título já reivindica uma palavra ainda considerada tabu, pelo menos em língua inglesa, e, ao mesmo tempo em que é ousado, é também uma ótima estratégia de marketing. O subtítulo, "A New Biography", faz alusão a uma parte biográfica polêmica, na qual Wolf descreve os problemas de saúde decorrentes da compressão de um nervo pélvico, que resultou na falta de sensação sexual e - o que para ela foi o momento eureka - na perda do que ela chama de 'estados positivos de consciência', ou seja, num estado de depressão. A partir dessa descoberta pessoal da conexão entre cérebro e vagina, o livro se propõe a investigá-la a fundo, fazendo um levantamento de estudos e entrevistas com médicos e cientistas.
O título já reivindica uma palavra ainda considerada tabu, pelo menos em língua inglesa, e, ao mesmo tempo em que é ousado, é também uma ótima estratégia de marketing. O subtítulo, "A New Biography", faz alusão a uma parte biográfica polêmica, na qual Wolf descreve os problemas de saúde decorrentes da compressão de um nervo pélvico, que resultou na falta de sensação sexual e - o que para ela foi o momento eureka - na perda do que ela chama de 'estados positivos de consciência', ou seja, num estado de depressão. A partir dessa descoberta pessoal da conexão entre cérebro e vagina, o livro se propõe a investigá-la a fundo, fazendo um levantamento de estudos e entrevistas com médicos e cientistas.
Na entrevista, Wolf defende que o tema da libertação sexual feminina está longe de esgotado, tendo que vista que, apesar das quatro décadas desde a revolução sexual, apenas 30% das mulheres (a referência é a mulheres estadunidenses) chegam ao orgasmo e cerca de 30% vivem em estado de baixa libido. A hipótese, interessantíssima, é que mulheres sexualmente satisfeitas são mais difíceis de serem subjugadas, e o estupro como arma de guerra comprova a hipótese pelo reverso.
O uso de estudos com base na biologia pode ser potencialmente problemático se ignorar a biologia e a medicina enquanto conjuntos de práticas e discursos construídos na cultura e moldados por ela, ou seja, se forem tomados como universais e imutáveis. O debate entre natureza e cultura é amplo e argumentos puramente biológicos correm o risco de essencializar 'o feminino'. Como uma pessoa da plateia levantou na hora das perguntas, ao focar na vagina, ficam excluídas, por exemplo, as mulheres transgênero. Wolf se saiu bem dizendo que não encontrou material científico suficiente sobre mulheres transgênero para elaborar sobre o tema, mas não endereçou o problema fundamental de reduzir a experiência feminina à vagina.
Sem ter lido Vagina para poder opinar com propriedade (quem tiver lido fique à vontade para comentar abaixo), a ideia de subverter o discurso médico tradicional, mais afeito à patologização das mulheres, e substituí-lo por novos discursos afirmando o prazer feminino - esse tópico sobre o qual nenhuma 'boa moça' deve falar - é sempre bem-vinda. Num presente em que o slut-shaming continua vivo e ativo, salutamos trabalhos na direção de substituir as narrativas de vergonha e doença associadas ao sexo por narrativas positivas de prazer, reforçando a associação entre sexo e libertação feminina.
14 de março de 2013
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teoria feminista
7
É por essas e por outras que a gente tem que se manifestar na forma de escrever, de falar, e ocupar nosso espaço no mundo simbólico também. Dizer “homem” e “mulher” já não dá mais conta da nossa realidade hoje, e isso também se aplica a tratar o homem como eterna maioria. E é por isso que a leitura desta entrevista é muito significativa e importante para quem anda buscando entender melhor essas novas tentativas de marcas de gênero e a razão do debate. A Yadira descreve bem e rapidamente o funcionamento da linguagem enquanto espelho e propagadora de uma determinada ordem social, passando pelos mitos religiosos, culturais e científicos, ou seja, indo de Eva, passando pela Amneris, chegando às histéricas do Freud. Imperdível.
por Mazu
O título deste post é uma frase
proferida por Yadira Calvo, uma das maiores escritoras da Costa Rica e América
Latina, em uma entrevista concedida no dia 13 de fevereiro deste ano. Yadira recebeu, em 2012, o prêmio Mágon, o mais importante prêmio cultural da Costa
Rica. Somam-se a esse grande feito: anos de docência nas melhores universidades
de seu país e mais de onze obras publicadas e aclamadas.
Do alto desse currículo, essa autora,
cientista da linguagem e feminista falou sobre a importância da linguagem na
manutenção da ordem social ou, preferencialmente, no desmantelamento dessa
ordem.
De vez em quando, a gente recebe
esse ou aquele comentário sobre o uso de marcas de gênero que expressem
diversidade, desde o básico “os (as)”, o “@” e, mais recente e abrangente “x”.
Algumas pessoas parecem pensar que marcar a diversidade de gênero nos nomes é
uma perda de tempo porque, em português, o plural masculino tem essa função. Já
outras parecem acreditar que essas questões de linguagem não são dignas de
tanta preocupação ou debate, que a simples alteração na forma de marcar o
gênero na língua não resolveria os problemas de desigualdade e discriminação. Obviamente,
não se trata de uma solução mágica e de efeito imediato. Contudo, também não se
trata de uma solução tão paliativa assim. A reivindicação ou tentativa de
buscar uma marca de gênero que expresse a diversidade é muito válida e tem,
sim, razão de ser.
![]() |
Isso porque a linguagem, nas
palavras da Yadira, é a roda de transmissão da cultura. Como a cultura é
sexista, a linguagem tem esse tom. A gente pode considerar a língua um
patrimônio e defendê-la, mas não no que nos apaga ou diminui. A defesa da
língua como patrimônio sagrado, rígido e imutável além de ser muito
preconceituosa, é muito falha porque faz parecer que a língua está acima do
falante, como se o falante tivesse que obedecer à língua e à gramática, quando,
na verdade, o caminho real é quase oposto. Essas relações são bem mais
complexas e fluidas do que a simples hierarquia dos fatores.
A gente já falou várias vezes
aqui como o feminino pode ser empregado para desvalorizar e diminuir, num
determinado discurso. Isso não é à toa, a história como é contada, grande parte
da literatura e a maioria das religiões estabeleceram bem o lugar da mulher na
nossa cultura, e, obviamente, isso está marcado na linguagem. Em mandarim, por
exemplo, o ideograma de “bem”, “bom”, usado para responder ao cumprimento “tudo
bem?”, é o ideograma de casa com o ideograma de mulher dentro, ou seja, mulher
quietinha dentro de casa, tudo bem.
Para a gente romper com esse lugar
social que nos deram e que foi historicamente construído e legitimado, a gente
tem que romper em todas as instâncias. Por isso, pode parecer picuinha implicar
com tratamento no masculino quando existem mulheres no grupo, mas não é não.
Ainda que os imortais das Academias de Letras (que são, sem nenhuma surpresa, a
maioria homens) se irritem porque a regra é que o masculino inclua a todos, a
gente bem sabe que isso é reflexo de uma sociedade sexista que, em realidade,
nos exclui. E não só nós, mulheres, como qualquer homem que não queira ocupar
um determinado papel dito de homem e, por isso, acaba recebendo esse ou aquele
rótulo e perdendo o título de homem.
![]() |
| Não Aguento Quando |
Por outro lado, homens, quando
incluídos em uma expressão coletiva de tratamento no feminino, têm como reação
mais provável a irritação e o sentimento de ofensa, ou seja, a manifestação do
feminino na língua, quando não é apagada, é pejorativa. A Yadira fala de como
esse tom pejorativo vem da Grécia Antiga e do que Aristóteles chamava de “homem
incompleto” (as mulheres), de como os homossexuais passivos eram menosprezados
por ocupar um lugar que seria o da mulher no coito. Essa explicação me ajudou
muito porque eu nunca entendi bem esse negócio de chamar homossexual de
“mulherzinha”, já que gênero é gênero e opção sexual é opção sexual. E aí você
se depara com uma possível razão que data de milhares de anos atrás, vinda de
uma sociedade que, ok, tem seus méritos, mas era misógina, xenófoba e bélica.
![]() |
| Créditos: Femstagram |
Considerando a relação entre
língua e contexto social não rola dizer que uma palavra é só uma palavra, que
uma piada é só uma piada, que uma expressão é só uma expressão. Os termos e
expressões que empregamos quando falamos e escrevemos nos posicionam muito,
socialmente e ideologicamente. As pessoas que chamam um acampamento do MST de
“invasão” e as pessoas que chamam de “ocupação” já estão posicionadas no debate
a partir do emprego termo. Só com uma palavra a gente já sabe onde as pessoas
estão e, às vezes, de onde elas vêm.
É por essas e por outras que a gente tem que se manifestar na forma de escrever, de falar, e ocupar nosso espaço no mundo simbólico também. Dizer “homem” e “mulher” já não dá mais conta da nossa realidade hoje, e isso também se aplica a tratar o homem como eterna maioria. E é por isso que a leitura desta entrevista é muito significativa e importante para quem anda buscando entender melhor essas novas tentativas de marcas de gênero e a razão do debate. A Yadira descreve bem e rapidamente o funcionamento da linguagem enquanto espelho e propagadora de uma determinada ordem social, passando pelos mitos religiosos, culturais e científicos, ou seja, indo de Eva, passando pela Amneris, chegando às histéricas do Freud. Imperdível.
22 de fevereiro de 2013
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teoria feminista
5
Obviamente, essa "mexicana nativa", se é que se pode falar assim, foi extremamente influente nos planos de conquista orquestrados por Cortéz, planos esses que terminaram em um dos maiores genocídios de que se tem notícia. E é muito interessante pensar que, muitos anos após a conquista do México, durante o processo de independência e de formação do imaginário nacional do país (uma nova ordem patriarcal e religiosa), a figura de Malinche reapareceu, passando a representar a mulher traidora e vil, que se entregou (linguística, cultural, militar e sexualmente) ao inimigo, e assim entregou ao invasor todo o México. Ao contrário da imagem da Virgem de Guadalupe, a virgem mestiça que representaria a face “santa” da cultura mexicana, Malinche carregaria a imagem de puta (e não deixa de ser engraçado e irônico que, em uma cidade do Texas, EUA, exista um bairro em que as ruas Guadalupe e Malinche se cruzam). “Hijo de La Malinche”, “malinchista”, “à La Chingada” são todas expressões pejorativas (que aqui no Brasil têm correspondentes como "filho da puta" e "para a puta que o pariu") que remetem à figura da índia e são bastante usadas no México.
Pensando em toda essa história e também que a História que conhecemos é sempre contada segundo uma ideologia, não me surpreende que La Malinche tenha se transformado em palavrão na boca dos mexicanos. Ela foi uma mulher dotada de um poder extraordinário, dado o contexto político. Como intérprete de Cortéz, ela estava na posição singular de decidir o que ambas as partes do conflito iriam saber e o que seria mantido em segredo. Ela não apenas estava passando informações de uma língua para outra, mas tinha o poder de decidir se mudaria ou não o curso da história, a cada frase. Uma mulher como ela, com tamanho poder, não poderia ser admirada, nem respeitada. Ela teria que ser rebaixada e ridicularizada, tanto naquele momento específico, quanto em todo o desenrolar da história do México.
por Thaís Bueno
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| La Malinche, de Rosario Marquardt, 1992 |
Se existisse um hall of fame para tradutorxs, com certeza no topo da lista de homenageadxs estaria uma índia, que, não bastasse ter sido a tradutora do original, foi também amante dele.
Trata-se de La Malinche, como é mais conhecida (mas também foi chamada de Malinalli e Malintzin na tribo onde cresceu). La Malinche foi uma princesa de origens asteca e maia, nascida no final do século XV, na região onde hoje fica o México, e ainda criança foi vendida como escrava, por seu padrasto, a um comerciante local. Em seguida, com a invasão do México pelos espanhóis, La Malinche foi parar nas mãos de Hernan Cortéz, espanhol que foi figura central no episódio da conquista do México.
Ao perceber que Malinche se virava muito bem com idiomas, os espanhóis a recrutaram como intérprete de Cortéz. A partir de então, ela passou a traduzir, para o invasor, não apenas as palavras do imperador asteca Montezuma, mas tudo o que os astecas discutiam a respeito da chegada dos espanhóis.
Obviamente, essa "mexicana nativa", se é que se pode falar assim, foi extremamente influente nos planos de conquista orquestrados por Cortéz, planos esses que terminaram em um dos maiores genocídios de que se tem notícia. E é muito interessante pensar que, muitos anos após a conquista do México, durante o processo de independência e de formação do imaginário nacional do país (uma nova ordem patriarcal e religiosa), a figura de Malinche reapareceu, passando a representar a mulher traidora e vil, que se entregou (linguística, cultural, militar e sexualmente) ao inimigo, e assim entregou ao invasor todo o México. Ao contrário da imagem da Virgem de Guadalupe, a virgem mestiça que representaria a face “santa” da cultura mexicana, Malinche carregaria a imagem de puta (e não deixa de ser engraçado e irônico que, em uma cidade do Texas, EUA, exista um bairro em que as ruas Guadalupe e Malinche se cruzam). “Hijo de La Malinche”, “malinchista”, “à La Chingada” são todas expressões pejorativas (que aqui no Brasil têm correspondentes como "filho da puta" e "para a puta que o pariu") que remetem à figura da índia e são bastante usadas no México.
| Vista do Google Maps da irônica esquina em que a rua Guadalupe e a avenida Malinche se cruzam em Laredo, Texas, EUA |
Pensando em toda essa história e também que a História que conhecemos é sempre contada segundo uma ideologia, não me surpreende que La Malinche tenha se transformado em palavrão na boca dos mexicanos. Ela foi uma mulher dotada de um poder extraordinário, dado o contexto político. Como intérprete de Cortéz, ela estava na posição singular de decidir o que ambas as partes do conflito iriam saber e o que seria mantido em segredo. Ela não apenas estava passando informações de uma língua para outra, mas tinha o poder de decidir se mudaria ou não o curso da história, a cada frase. Uma mulher como ela, com tamanho poder, não poderia ser admirada, nem respeitada. Ela teria que ser rebaixada e ridicularizada, tanto naquele momento específico, quanto em todo o desenrolar da história do México.
Essa questão me faz lembrar um ótimo professor que, certa vez, em sala de aula, contou para a turma uma das inúmeras e péssimas piadas sobre a “loira burra”, que todo mundo conhece. A turma riu. Em seguida, o professor perguntou: “vocês sabem por que riram?” A turma em silêncio. Ele próprio respondeu à pergunta, explicando que, pelo simples fato de a loira ser loira, ou seja, se encaixar no padrão de beleza que o nosso país mais valoriza, ela não pode nem deve ter outras características positivas, como inteligência ou bom humor, pois, caso isso aconteça, seu poder será muito grande e ela poderia ameaçar o status quo.
A história de La Malinche pode nos ensinar muito sobre o porquê de a “loira” sempre ser “burra” em nossas piadas. No entanto, há alguns anos, a figura de La Malinche tem sido resgatada por estudiosas (e isso me torna muito otimista) que passaram a defender para a indígena a imagem da mulher que representa a abertura ao outro e que, em uma situação de poder, o utiliza para transpor limites de gênero e cor, celebrando o hibridismo e a mestiçagem em detrimento de um ideal de pureza.
Norma Alarcón[1], feminista chicana, buscou em Todorov uma boa e nova definição para papel de La Malinche na história mexicana e latino-americana:
Norma Alarcón[1], feminista chicana, buscou em Todorov uma boa e nova definição para papel de La Malinche na história mexicana e latino-americana:
primeiro exemplo e, portanto, símbolo da hibridação de culturas, ela proclama o estado novo mexicano e, mais do que isso, o estado presente de todxs nós, uma vez que, se não somos todxs bilíngues via de regra, somos, inevitavelmente, bi ou triculturais. La Malinche glorifica a mistura em detrimento da pureza, bem como o papel dx intermediárix. Ela não se submete ao outro simplesmente. Ela adota a ideologia do outro para melhor compreender sua própria cultura, conforme se pode ver na eficácia de seu comportamento (mesmo que "compreender" signifique aqui "destruir").
[1] ALARCÓN, Norma. “Traddutora, traditora: a paradigmatic figure of chicana feminism”, in Inderpal Grewal & Caren Kaplan (org.) Scattered hegemonies. Postmodernity and transnational feminist practices. Minneapolis & London: University of Minnesota Press, 1994, p. 43-56.
4 de fevereiro de 2013
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