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O que pouco se sabe, mesmo nos EUA, é que boa parte da população latina do país é constituída por cidadãos norte-americanos, cujos antepassados moram ali há mais de um século (o Tratado de Guadalupe-Hidalgo anexou aos EUA todo o norte do México e transformou milhares de mexicanos em cidadãos norte-americanos do dia para a noite). Com isso, cresceu, nessa região próxima à fronteira, uma cultura riquíssima e fascinante, híbrida e mestiça – uma cultura chicana. As chicanas, portanto, são cidadãs estadunidenses que carregam o estigma de serem multiculturais, porque têm ascendência latino-americana, porque falam duas ou mais línguas, porque seus corpos têm traços indígenas, porque são social e politicamente exploradas. São habitantes de um não-lugar: a fronteira.
“Como mestiza, eu não tenho país, minha terra natal me despejou; no entanto, todos os países são meus porque eu sou a irmã ou a amante em potencial de todas as mulheres. (Como uma lésbica não tenho raça, meu próprio povo me rejeita; mas sou de todas as raças porque a queer em mim existe em todas as raças.) Sou sem cultura porque, como uma feminista, desafio as crenças culturais/religiosas coletivas de origem masculina dos indo-hispânicos e anglos; entretanto, tenho cultura porque estou participando da criação de uma outra cultura, uma nova história para explicar o mundo e a nossa participação nele, um novo sistema de valores com imagens e símbolos que nos conectam um/a ao/à outro/a e ao planeta. Soy un amasamiento, sou um ato de juntar e unir que não apenas produz uma criatura tanto da luz como da escuridão, mas também uma criatura que questiona as definições de luz e de escuro e dá-lhes novos significados.”
Resumindo, o belo trabalho de Anzaldúa é justamente desconstruir dualidades como homem x mulher e machismo x feminismo, mostrando que qualquer desses pares são compostos de identidades complexas, mestiças, heterogêneas. A velha e tradicional receita de identidade (uma nacionalidade + uma religião + um gênero + uma cultura) já não é mais um modelo, e suas fendas e falhas ficam evidentes no processo interminável de constituição das identidades da mulher chicana. A consciência declaradamente subalterna e nomádica dessa new mestiza permite que ela seja, ao mesmo tempo, uma e várias (tanto em termos de gênero quanto de sexualidade) e que ela vá além das dualidades tradicionais para subverter patriarcalismo, exploração sexual, linguística, religiosa, política e econômica. E, nesses interstícios de todas essas categorias de identidade, ela encontra seu espaço, seu tempo e sua casa. Habitando a ferida aberta na fronteira, ela abre espaços para novas possibilidades e transpõe os limites de tudo o que, na história tradicional escrita pelos homens, se acredita ser uno, completo e natural.
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[1] Todos os trechos em itálico foram retirados de ANZALDÚA, GLORIA. Borderlands/La Frontera – The New Mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.
Um prazer enorme ter aqui o primeiro Guest Post do blog, com uma participação mais que especial: Thaís Bueno, especialista e tradutora desta fascinante pensadora que é Gloria Anzaldúa.
“Quando ouvi pela primeira vez duas mulheres, uma porto-riquenha e outra cubana, dizendo “nosotras”, fiquei chocada. As chicanas usam “nosotros” para se referir tanto a homens quanto a mulheres. O plural masculino roubou nosso ser feminino. A linguagem é um discurso masculino.”[1]
Pensar o feminismo, não como um bloco único e homogêneo, mas como uma prática subversiva de desconstrução de diversos sistemas de opressão (entre eles os relacionados a classe social e etnia), que têm sido construídos política e ideologicamente há séculos - essa é a principal ideia que me vem à cabeça quando penso em Gloria Anzaldúa e quando me questiono sobre o que aprendi com minha pesquisa sobre essa autora.
Quando se trata da fronteira entre México e Estados Unidos, as imagens mais recorrentes geralmente incluem grupos mexicanos, cucarachas, wetbacks, desesperados, arriscando-se de forma irracional para conseguirem viver de forma ilegal na “terra das oportunidades”: a América (aliás, esse é um termo que me incomoda, afinal, não somos todos americanos?).
Quando se trata da fronteira entre México e Estados Unidos, as imagens mais recorrentes geralmente incluem grupos mexicanos, cucarachas, wetbacks, desesperados, arriscando-se de forma irracional para conseguirem viver de forma ilegal na “terra das oportunidades”: a América (aliás, esse é um termo que me incomoda, afinal, não somos todos americanos?).
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| A fronteira política: à esquerda, San Diego (EUA); à direita, Tijuana (México) |
“The US-Mexican border es una herida abierta where the Third World grates against the first and bleeds.”[2]
Lendo o texto de Anzaldúa, percebemos que o feminismo, ou a prática feminista, não vem sozinhos, como um pacote fechado que se “compra”, apesar do que muitas pessoas pensam. Hoje, padrões estereotipados do que seja o feminismo (e de como seria uma feminista) reproduzem, com a 'ajuda' da mídia, a ideia de que, para ser feminista, você precisa necessariamente rasgar sutiãs e declarar ódio aos homens. Minha sugestão: leia Borderlands/La Frontera – The New Mestiza (disponível na íntegra para download aqui).
Ao ler Borderlands..., você percebe, logo pelo título, qual era a proposta de Anzaldúa: mostrar, de forma escancarada, que toda divisa, toda fronteira, todo limite, todo corte é também uma abertura, uma fenda para novos espaços, novas discussões e articulações. Assim, a barra entre “Borderlands” e “La Frontera” que lemos no título do livro não é uma marca de divisão e isolamento, que produz dicotomia e oposição, mas um movimento sinuoso de articulação e problematização, que produz um discurso híbrido, ou alien, como ela própria escreveu.
Ao ler Borderlands..., você percebe, logo pelo título, qual era a proposta de Anzaldúa: mostrar, de forma escancarada, que toda divisa, toda fronteira, todo limite, todo corte é também uma abertura, uma fenda para novos espaços, novas discussões e articulações. Assim, a barra entre “Borderlands” e “La Frontera” que lemos no título do livro não é uma marca de divisão e isolamento, que produz dicotomia e oposição, mas um movimento sinuoso de articulação e problematização, que produz um discurso híbrido, ou alien, como ela própria escreveu.
“...não é suficiente se posicionar na margem oposta do rio, gritando questionamentos, desafiando convenções patriarcais, brancas. Um ponto de vista contrário nos prende em um duelo entre opressor e oprimido; fechados/as em um combate mortal, como polícia e bandido, ambos são reduzidos a um denominador comum de violência.
[O contraposicionamento] não é um meio de vida. A uma determinada altura, no nosso caminho rumo a uma nova consciência, teremos que deixar a margem oposta, com o corte entre os dois combatentes mortais cicatrizado de alguma forma, a fim de que estejamos nas duas margens ao mesmo tempo e, ao mesmo tempo, enxergar tudo com olhos de serpente e de águia.”
E é exatamente essa a proposta que você encontrará em todo o livro, marcada na própria materialidade do texto: em Borderlands..., para apresentar seu feminismo chicano e propor a figura na new mestiza, Anzaldúa recorre a diversos gêneros textuais (testemunho, narrativas populares, ditos, texto histórico, diário, poesia) e idiomas (inglês, espanhol e nahuatl – língua indígena falada no império asteca, na era pré-colombiana). Tudo costurado em um constante movimento de code-switching (alternância de idiomas em uma mesma frase – o que nunca foi novidade para qualquer falante que viva em região de fronteira).
“El anglo com cara de inocente nos arrancó la lengua. Línguas selvagens não podem ser domadas. Elas apenas podem ser arrancadas.”
A chicana que Anzaldúa nos mostra é, portanto, uma mulher que sofre por ser a minoria em diversos sistemas de opressão. Se o homem chicano sofre em termos de etnia e classe, a mulher encontra-se em uma situação ainda pior: ela é minoria em termos de etnia, classe, gênero e, em muitos casos sexualidade. E é nessa intersecção de discursos minoritários que Anzaldúa, ela própria chicana, mulher e lésbica, faz sua crítica não só à cultura branca anglo-saxã, imperialista e exploradora, mas à cultura mexicana de seus descendentes, conservadora, patriarcal e religiosa.
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| Só em Ciudad Juarez (México), 1.100 mulheres já foram dadas como desaparecidas desde 1993 |
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| A fronteira se estende de uma costa a outra no continente americano, chegando até o mar: "The sea cannot be fenced / El mar does not stop at borders", escreveu Anzaldúa |
Resumindo, o belo trabalho de Anzaldúa é justamente desconstruir dualidades como homem x mulher e machismo x feminismo, mostrando que qualquer desses pares são compostos de identidades complexas, mestiças, heterogêneas. A velha e tradicional receita de identidade (uma nacionalidade + uma religião + um gênero + uma cultura) já não é mais um modelo, e suas fendas e falhas ficam evidentes no processo interminável de constituição das identidades da mulher chicana. A consciência declaradamente subalterna e nomádica dessa new mestiza permite que ela seja, ao mesmo tempo, uma e várias (tanto em termos de gênero quanto de sexualidade) e que ela vá além das dualidades tradicionais para subverter patriarcalismo, exploração sexual, linguística, religiosa, política e econômica. E, nesses interstícios de todas essas categorias de identidade, ela encontra seu espaço, seu tempo e sua casa. Habitando a ferida aberta na fronteira, ela abre espaços para novas possibilidades e transpõe os limites de tudo o que, na história tradicional escrita pelos homens, se acredita ser uno, completo e natural.
This is her homethis thin edge of
barbwire.[3]
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[2] “A fronteira entre os Estados Unidos e o México é uma ferida aberta, na qual o terceiro mundo entra em atrito com o primeiro e sangra.”
[3] “Esta é a casa dela / esta sutil borda / de arame farpado.”
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Thaís Bueno é graduada em Letras e mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, cursa o doutorado, também em Linguística Aplicada, pesquisando as relações entre tradução e a obra da feminista chicana Gloria Anzaldúa e traduzindo o livro mais conhecido da autora: Borderlands/La Frontera - The New Mestiza. Mãe, feminista e latino-americana apaixonada. Trabalha como tradutora, revisora e escrevinhadora na Escrevedoria.
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Thaís Bueno é graduada em Letras e mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, cursa o doutorado, também em Linguística Aplicada, pesquisando as relações entre tradução e a obra da feminista chicana Gloria Anzaldúa e traduzindo o livro mais conhecido da autora: Borderlands/La Frontera - The New Mestiza. Mãe, feminista e latino-americana apaixonada. Trabalha como tradutora, revisora e escrevinhadora na Escrevedoria.
1 de fevereiro de 2013
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2
por Tággidi Ribeiro
Esse é apenas o meu segundo post da série sobre a entrevista da Catherine Hakim na Veja, mas sinceramente, gente, eu tou com uma preguiça dessa mulher que deus me livre. Então, não comentarei frase por frase como no post passado, ok?
Beleza e carreira - “Aristóteles já dizia que a beleza é melhor do que qualquer carta de apresentação. As vantagens de uma boa aparência podem ser percebidas desde a infância. Pesquisas revelam que 75% das crianças que se encaixam nos padrões de beleza aceitos universalmente, como um rosto simétrico, são julgadas como corretas e cativantes, enquanto só 25% das que não têm essas características são vistas dessa forma. Presume-se que os belos são mais competentes -- e eles são tratados como tal. Atratividade e beleza são fundamentais para a ascensão profissional das mulheres nas sociedades modernas.”
1. Aristóteles é o filófoso que amassou o barro da sociedade moderna (ou os modernos o juntaram a seu barro), mas não é por isso que precisamos lhe dar razão. Assim como não precisamos dar razão sempre à ciência, que vemos tantas vezes contradizer-se. Agora, direi três nomes para contradizer a última frase dessa fala: Hillary Clinton, Angela Merkel e Dilma Roussef. É o bastante.
As feias que me perdoem - “Beleza extrema é algo raro, um item de luxo. Nem todo mundo nasce Elizabeth Taylor. Quem não tirou a sorte grande deve aprimorar o seu poder de atração. Na França, é comum o conceito de Belle Laide, a mulher feia que se torna atraente graças à forma como se apresenta à sociedade e ao seu estilo. Christine Lagarde, a diretora do Fundo Monetário Internacional, o FMI, é um exemplo de mulher que não ostenta a beleza clássica, mas é extremamente atraente. Tem personalidade, carisma, charme e boas maneiras. Se você não é bonito, por favor, vá à luta. Cultive um belo corpo, aprenda a dançar, desenvolva habilidades. E distribua sorrisos. Como Marilyn Monroe sempre soube, o mundo sorri de volta para quem sabe sorrir. O sorriso é um sinal universal de acolhimento, aceitação e contentamento em relação aos demais. Torna a todos mais atraentes.”
2. 'As feias que me perdoem, mas eu me embananei toda na hora de defender minhas teorias sobre como é necessário ser belo', deveria ter dito Catherine Hakim. Carisma, personalidade, charme e boas maneiras, saber dançar e sorrir não são atributos do belo, quer dizer, não são próprios do belo, qualquer que seja ele. Todos nós conhecemos gente bonita e antipática/ feia e simpática, assim como conhecemos gente bonita e simpática/ feia e antipática. Geralmente preferimos pessoas (bonitas ou feias) simpáticas (que saibam dançar ou não), porque é melhor conviver com elas. Ainda assim, o sucesso profissional dessas pessoas dependerá de outros fatores, inclusive de ordem cultural. Nós brasileiros costumamos ser bem simpáticos, dizem, e, realmente, aqui a simpatia muitas vezes supera a necessidade de compromisso ou competência. Que eu saiba, na França, compromisso e competência são bem mais importantes que simpatia. Não é, Christine Lagarde, oitava mulher mais poderosa do mundo?
Qué dizê, gente, o que a Catherine Hakim faz basicamente é tentar nos convencer de que mulheres poderosíssimas como Christine Lagarde devem seu status a sua beleza, carisma e charme e não a sua competência e trajetória. Deem uma olhada na lista das 100 mulheres mais poderosas do mundo, da Forbes, e nesse documentário e tirem suas próprias conclusões.
O próximo post, ainda sobre Hakim, vai ser tenso. Aguardem.
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| Pensem. |
O próximo post, ainda sobre Hakim, vai ser tenso. Aguardem.
26 de outubro de 2012
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4
por Tággidi Ribeiro
Gente, eu resolvi fazer uma série de posts comentando as falas da Caherine Hakim, autora de um livro chamado Capital Erótico na Veja (aquela revista séria que a gente já conhece). A Catherine Hakim é uma socióloga 'feminista' que supervaloriza a beleza e incentiva as mulheres a usá-la como forma de 'subir na vida' - a beleza funcionaria como 'capital erótico' da mulher. É, pois é. Prepare-se para a picaretagem que muita gente tomou como pensamento polêmico e renovador do feminismo. E antes ou depois, leia isso aqui e aqui.
Inteligência e beleza - Catherine Hakim fala de beleza e inteligência como se fossem conceitos estabelecidos e permanentes. Ela ignora a possível existência de diversos tipos de inteligência (verbal, matemática, corporal, musical etc.) e as diversas formas da beleza, que muda (e muito) tanto no tempo quanto no espaço. Veja aqui.“Inteligência e beleza são duas habilidades necessárias para o sucesso e muito semelhantes entre si: metade é hereditária, metade é resultado de investimentos de tempo e esforço. Não existe diferença moral entre a aparência e a inteligência. Acho justo que os mais belos ganhem mais. É frequente presumir que quaisquer benefícios concedidos a pessoas atraentes são desmerecidos e injustos. Quando se fala em sucesso, ninguém duvida do mérito dos inteligentes nem questiona a exclusão dos ignorantes. Por que não recompensar também quem se destaca pela aparência, sendo ela natural ou conquistada?”
Beleza e inteligência são habilidades - Pode ser um problema de tradução o uso da palavra ‘habilidade’ na definição tanto de beleza quanto de inteligência, mas pode ser também uma forma de tentar enganar as pessoas. Relacionamos facilmente a palavra habilidade ao que pode ser manipulado e melhorado. Daí a aceitarmos o paralelo desonesto entre beleza e inteligência é um pulo.
Beleza e inteligência são necessárias para o sucesso – Nem uma nem outra o são. Existe muita gente estúpida que obtém sucesso por ter oportunidades melhores na vida. E beleza só é necessária para o sucesso na carreira de modelo (e, mesmo nessa carreira, ser apenas lindo não é o suficiente – tente não ser fotogênico pra ver o que acontece...).
Beleza e inteligência são necessárias para o sucesso – Nem uma nem outra o são. Existe muita gente estúpida que obtém sucesso por ter oportunidades melhores na vida. E beleza só é necessária para o sucesso na carreira de modelo (e, mesmo nessa carreira, ser apenas lindo não é o suficiente – tente não ser fotogênico pra ver o que acontece...).
Beleza e inteligência são metade hereditárias, metade resultado de investimentos de tempo e esforço – Fala sério. De onde essa mulher tirou isso? É obviamente necessário exercitar o cérebro ou o corpo – ou as inteligências lógico-verbais/corporais-cinestésicas se estagnam. Mas o quanto cada pessoa deverá empenhar de si para alcançar níveis de excelência em suas atividades, aí, meu bem, não dá para dizer. Quanto à beleza, bem, não é uma atividade, né? Não é habilidade e nem capacidade e nem dá para comparar nesses termos com a inteligência. Mas dá para dizer que tem gente que se esforça muito pouco ou nada pra ser lindo e tem gente que faz 50 plásticas e nunca vai ser a Monalisa. Ou seja, essa história de metade/metade é pura balela.
Não existe diferença moral entre a inteligência e a aparência – Não. Porque só dá pra imputar moralidade aos usos de cada uma. Não há moralidade na inteligência nem na beleza em si. E que discordem de mim os filósofos.
Acho justo que os mais belos ganhem mais. É frequente presumir que quaisquer benefícios concedidos a pessoas atraentes são desmerecidos e injustos – Toda profissão, praticamente, possui piso e teto de salário. Pagar menos que o piso é ilegal, pagar mais não é ilegal, mas pode ser desastroso para as contas da empresa. Pagar mais a pessoas bonitas quando essa beleza traz retorno efetivo à empresa é justo. Pagar mais em qualquer situação, ou seja, mesmo quando os bonitos não influenciam nos ganhos da empresa, só me parece uma ação financeiramente estúpida.
Quando se fala em sucesso, ninguém duvida do mérito dos inteligentes nem questiona a exclusão dos ignorantes - Ah, tá, é tudo simples nessa vida. A inteligência (qualquer que seja ela) é sempre reconhecida. Não há equívocos. A ignorância também é reconhecida e os ignorantes são logo postos de lado. O mundo é equilibrado, né?
Por que não recompensar também quem se destaca pela aparência, sendo ela natural ou conquistada? – Ai, pois, né? Tadinho desse pessoal bonito (ou que se esforça pra ser bonito), que não vê o seu valor reconhecido na nossa sociedade...
Por que não recompensar também quem se destaca pela aparência, sendo ela natural ou conquistada? – Ai, pois, né? Tadinho desse pessoal bonito (ou que se esforça pra ser bonito), que não vê o seu valor reconhecido na nossa sociedade...
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| Ninguém presta atenção em mim |
19 de outubro de 2012
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0
por Mazu

por Mazu
Um dos objetivos do nosso blog é divulgar um pouco da teoria feminista, buscando desmistificar a fama de loucas queimadoras de sutiã e destruidora de lares que cerca ainda os militantes do movimento feminista.

Hoje vou falar um pouco do trabalho de mestrado de uma companheira do Coletivo Feminista da Unicamp, a Maira Abreu. Estivemos juntas no início da formação do coletivo e dividimos vários momentos e debates acalorados e produtivos. A dissertação de mestrado da Maira fala sobre o feminismo dentro da militância de esquerda e é muito interessante.
Para começar ela traz algumas definições básicas do que é feminismo (eu gosto sempre de lembrar que feminismo não é o oposto de machismo) e um pouco da história do movimento no mundo e depois começa a tratar do Brasil e do papel das mulheres durante a militância na época da ditadura.
Conversando com a Maira lá por 2004, ela na iniciação científica ainda, ela me contou da dificuldade que tinha de afirmar que existia machismo dentro dos movimentos de esquerda. Era como se os revolucionários fossem sagrados e perfeitos, e toda vez que ela tentava mostrar isso entrava em conflito com alguém. Enfim, fico feliz que ela tenha conseguido. E mais, concordo com ela, machismo não é necessariamente "privilégio" dos movimentos de direita ou mais tradicionais da sociedade. Convivi com militantes a vida toda e existe muito machismo dentro da militância de esquerda, pode ser velado, pode ser disfarçado (como é um pouco toda discriminação e preconceito na sociedade atual), mas existe sim. Está lá.
A dissertação da Maira, por sua vez, está aqui. Boa leitura e bora debater sobre isso. ;)
A dissertação da Maira, por sua vez, está aqui. Boa leitura e bora debater sobre isso. ;)
9 de julho de 2012
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por Roberta Gregoli
por Roberta Gregoli
Como já começamos a discutir no meu post anterior e no da Júlia, a teoria feminista é interessante e libertadora. Hoje queria apresentar brevemente a teoria de uma acadêmica chamada Anne Fausto-Sterling, professora da Brown University nos EUA. Fausto-Sterling escreveu em 1993 um artigo intitulado "Os Cinco Sexos", causando muito frisson ao afirmar que em vez de dois (mulher e homem) existem, na verdade, pelo menos cinco sexos.
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| Edinanci Silva |
No artigo, Fausto-Sterling usa a palavra intersexo como termo genérico para se referir a indivíduos que misturam características femininas e masculinas, e afirma que essas pessoas podem constituir até 4% de todos os nascimentos naturais. Na atualização de 2000, "Os Cinco Sexos, Revisitado", ela admite que o número deve ser menor, em torno de 1,7%. Ainda assim, considerando que o mundo tem em torno de 7 bilhões de pessoas, isso representa mais ou menos 119 milhões de pessoas que divergem do que ela chama de dimorfismo ideal, seja devido aos hormônios, genes ou anatomia. No Brasil, tivemos um caso famoso na judoca Edinanci Silva.
Esses indivíduos quase sempre passam pela chamada cirurgia de designação sexual e é aí que as coisas ficam ainda mais interessantes. Cabe @ médic@ definir o sexo do bebê. Ou seja, na discussão cultura x natureza, ponto para a cultura. Mesmo o sexo, que normalmente serve como base para o que é biológico ou natural (dizem que sexo é biológico e gênero é cultural), está aberto a apropriações da cultura. Volto então ao meu argumento anterior de que tudo é cultura, nada é natureza.
A outra consequência óbvia do artigo de Fausto-Sterling é nos obrigar a questionar as categorias de sexo. Dividimos tudo em dois: pesquisas apontam como o corpo masculino e feminino operam diferentemente. E se, em vez de dois, dividíssemos os estudos em cinco? E se largássemos mão de dividir? Com certeza acharíamos padrões antes impensados. Afinal, como eu já coloquei antes, muit@s defendem que há mais diferenças entre pessoas do mesmo sexo do que entre um sexo e outro.
Desconstruir gênero é papel do feminismo porque liberta. Transexuais e intersexos são extremamente relevantes para esta discussão porque ajudam a desconstruir a ideia de sexo como algo natural, biológico, "normal". E o normal aprisiona ou exclui indivíduos que não estão em conformidade.
É claro que esse tipo de desconstrução não deve desqualificar a luta por direitos iguais, que se baseia obviamente na diferença entre os sexos. Negar as diferenças entre homens e mulheres não é produtivo quando se demanda salários iguais, por exemplo. Mas acho que uma coisa não exclui a outra e é possível desconstruir o binarismo de gênero - e de sexo - sem negar a luta das mulheres.
17 de junho de 2012
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desmistificando,
Roberta,
teoria feminista
0
por Roberta Gregoli
Ontem comemoramos um mês de Subvertidas! Neste um mês já começamos (apenas começamos!) a desmistificar o feminismo, falamos sobre violência, sexo, humor, movimentos sociais e até sobre Deus, entre outros tópicos nesses 19 posts (dêem uma olhada na barra azul ao lado para ver todos).
Agora queria me voltar para uma outra proposta deste blog, que é divulgar a teoria feminista (e, no caso deste post em específico, a história da sexualidade). O conhecimento acadêmico produzido por feministas é fascinante porque oferece um ponto de vista altamente crítico sobre coisas que temos como certas. Por exemplo, o título deste post parece absurdo? Pois bem, o isomorfismo foi tido como fato por mais de 17 séculos.
De acordo com o modelo do sexo único (ou isomorfismo sexual), os órgãos sexuais femininos seriam iguais aos masculinos, mas dentro do corpo (o útero seria um pênis invertido, os ovários seriam testículos e assim por diante). Parece insano? Pois é, mas nomes específicos para os componentes anatômicos femininos (ovários, útero, etc) só surgiram no século XVIII. Não sei para vocês, mas para mim isso coloca as coisas em perspectiva e me faz olhar com suspeita para todos esses estudos que dizem provar diferenças entre os sexos.
O modelo do sexo único é um exemplo clássico da ciência reproduzindo e legitimando posições sociais. Não que todos os anatomistas e cientistas participassem de um complô em massa para dominar as mulheres. Eles simplesmente eram produto de se tempo e não conseguiam enxergar o mundo de outra forma. Em outras palavras, o conhecimento produzido por eles re-produzia as condições sociais em que estavam inseridos.
Isso faz parte de um assunto muito interessante e polêmico: o debate entre natureza e cultura (em inglês, conhecido como nature vs. nurture). Algum@s defendem o papel primordial da natureza (hormônios, genes, seleção natural), outr@s o da cultura e do meio em que as pessoas crescem, e há também a posição mais moderada que defende uma mistura entre os dois.
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| Natureza vs. cultura |
Eu defendo que a cultura tem um papel absolutamente fundamental. É claro que fenômenos naturais existem, mas só conseguimos significá-los através da cultura. É como uma árvore de maçã no meio de uma avenida: ela existe enquanto fato natural, mas foi plantada numa certa época, serve um certo papel dento do planejamento de paisagismo da cidade e, quando olhamos para ela, a associamos ao aquecimento global ou ao pecado original, dependendo da nossa formação - isso tudo é cultura. A mesma lógica se aplica, por exemplo, aos famigerados hormônios: eles existem, claro, mas o papel inscrito a eles - que agora são usados para explicar desde comportamento violento até sexualidade - está aberto para debate.
O problema é que no senso comum a ciência tem status de verdade absoluta, algumas vezes sem um olhar crítico sobre as circunstâncias de sua produção. Qualquer pesquisador@ sabe - e a teoria feminista tem isso muito claro - que o conhecimento científico é bem menos conclusivo e muito mais parcial do que parece. Veja o exemplo de um caso muito recente de um professor da London School of Economics que concluiu que mulheres negras são menos atraentes do que mulheres de outras etnias. É claro que a conclusão é uma balela - basicamente, beleza é uma construção social e, mesmo que fosse verdade que a maioria dos entrevistados achou mulheres negras menos atraentes, isso teria mais a ver com um padrão de beleza racista, que nada tem de objetivo (vejam análises detalhadas das falhas metodológicas do estudo aqui e aqui). Mas é uma balela sustentada por dados (manipulados, conscientemente ou não) e nomes complicados que, não fosse pelas feministas e por integrantes do movimento negro que fizeram um justificado escarcéu, talvez passasse como verdade. O caso gerou muita revolta e o professor - que é um defensor, surpresa, do politicamente incorreto - quase foi demitido. Quase. É pena.
O estudo foi chamado de 'pseudociência'... mas e se olhássemos com o mesmo grau de escrutínio para outros tantos estudos que dizem provar que o hormônio X causa o comportamento Y, que mulheres têm menos senso de direção, que homens vão melhor em matemática, que o cérebro feminino funciona assim e o masculino assado? Ou que as mulheres querem amor e os homens querem sexo? Isso sem falar no famoso instinto maternal (que para mim é cultura maternal), no "instinto" do homem de trair, etc. Como já discutido aqui, as diferenças entre mulheres e homens são abismais. Mas será que são naturais?
Como outras feministas, acredito que existem mais diferenças entre indivíduos de um mesmo sexo do que entre homens e mulheres no geral.
Espero que não interpretem o meu argumento como se eu fosse "contra" a ciência. Isso seria reducionista. O que estou propondo é pensar criticamente as condições da produção do conhecimento científico, questionando as premissas ideológicas e políticas de determinado estudo, contrastando um estudo com outros e assim por diante (veja aqui um exemplo que desconstrói 6 mitos sobre as diferenças entre os sexos). E, mesmo sendo comprovado que exista uma diferença X entre homens e mulheres, até que ponto essa diferença é natural e não cultural?
E se questionássemos a premissa-base de toda esta discussão: se, em vez de dois sexos, na verdade existissem, pelo menos, cinco sexos?
Mas isso é assunto para o próximo post.
6 de junho de 2012
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