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Circulando! Sexismo e movimento no espaço urbano

por Barbara Falleiros

Todo dia, voltando da "Grande Biblioteca", eu atravesso dois ou três becos. Modo de dizer, já que são becos modernos, passagens entre prédios recentes, quadrados e envidraçados, em contraste com a arquitetura dos cartões postais de Paris. Ruelas desertas que são tomadas à noite por uma luz lúgubre e esverdeada. Seria um ambiente de história em quadrinhos se não fosse - tenho que confessar - a total ausência de perigo. E é justamente esta falta de perigo real que me faz indagar: por que, mesmo sabendo que não corro risco algum, todo dia aperto o passo, busco segurança nos moradores dos prédios que vejo a preparar o jantar, e penso que "qualquer coisa eu grito com toda a força"? Qualquer coisa o quê? Por que este medo?


Porque a rua, especialmente à noite, é um espaço proibido para a mulher. Não foi essa a lição que quiseram dar aqueles estupradores assassinos indianos no último dia 16 de dezembro? Não foi o que o advogado desses homens afirmou, que "o casal de namorados era o maior responsável pela agressão, pois não deveria estar circulando pelas ruas à noite"?

O pessoal do mimimi provavelmente vai replicar que, em cidades violentas como São Paulo ou Rio, o espaço público é terra de ninguém onde todos se sentem ameaçados. Homens são vítimas de assalto e sequestro, não são? Ao reagirem a uma abordagem, podem ser agredidos ou até morrer, não podem? Não se trata, porém, do mesmo tipo de violência. Causas socioeconômicas explicam a criminalidade urbana e seus desdobramentos. Já a violação da integridade física, moral e sexual da qual mulheres e homossexuais são vítimas, no espaço público, são manifestações explícitas da violência de gênero. Um outro funcionamento.

Quando no mês de dezembro, em São Paulo, o estudante André Baliera foi agredido por dois brutamontes homofóbicos, o que eles disserem para se defender?

Ele mexeu com as pessoas erradas, no lugar errado, no momento errado. E foi agredido. Aprende, nunca mais mexe com ninguém na vida.
Foi agredido, apanhou. Apanhou de besta. Se tivesse seguido o caminho dele não teria apanhado.

Nessas falas, fica evidente como as relações de poder e de gênero condicionam a circulação de pessoas no espaço urbano. Grupos vulneráveis como mulheres, homossexuais e travestis, sobre os quais recai fortemente a violência de gênero, têm restringidos assim os limites de sua circulação. É interessante ver como a declaração dos brutamontes corrobora as conclusões de um geógrafo francês, autor de um relatório sobre a circulação das mulheres na cidade, assim como as constatações da porta-voz de um grande grupo feminista francês:

As mulheres apenas atravessam o espaço urbano, elas não estacionam.
Constatamos que as mulheres andam menos na rua sem ter algo específico para fazer, e que se locomovem rapidamente de um lugar a outro.

Estudos feministas de geografia começaram a mostrar, a partir dos anos 70, que a própria forma de organização das cidades é sexista, que ela "reforça a ordem heteronormativa compulsória" e que seu "planejamento não desenvolveu outras formas de desenvolvimento urbano que não estivessem subordinadas às tradicionais perspectivas da divisão sexual dos espaços, baseada na pretensa naturalidade entre sexo, gênero e desejo" (cito um artigo muito interessante publicado em 2010 na Revista de Psicologia da Unesp, "Espaço urbano, poder e gênero: uma análise da vivência travesti", ao qual voltarei mais abaixo).

Assim, as relações espaciais se constróem com base nas dicotomias entre interior e exterior, entre estaticidade e movimento. Fora do ambiente "protegido" do espaço privado (protegido em termos, pois neste há o risco de violência doméstica), uma mulher sozinha é sempre vulnerável, como um homossexual é vulnerável na madrugada paulistana. A Roberta mostrou recentemente como a responsabilidade de se proteger das agressões  recai sobre a mulher, cabe a ela ser "prudente", "não andar onde não deve", "voltar para casa cedo", "vestir-se adequadamente". Foi o que os brutamontes disseram, não? Que o agredido estava onde não devia? É interessante que tenham mandado a vítima "circular", isto é, ocupar como se espera um espaço que só pode ser atravessado, rapidamente, de cabeça baixa. Eles, os brutamontes, que tentaram esconder a motivação homofóbica da agressão, nem desconfiavam que ao pronunciarem essas palavras tinham acabado de revelá-la.

A oposição entre estaticidade e movimento me faz pensar nas prostitutas, mulheres e transsexuais cuja presença no espaço público é, ao contrário, estática. Paradas, "fazendo ponto". Mas esta estaticidade não lhes confere a mesma liberdade masculina de ocupação dos espaços. Esta presença estática e noturna é atrelada à violência e à exclusão, a uma vulnerabilidade ainda maior. Um indício: minha busca inocente no Google de uma imagem de "travesti no ponto" (soube depois que havia um bug na safe search) resultou em uma série de corpos ensanguentados... no meio da rua ou na sarjeta, no meio desse espaço público que, antes, não puderam ocupar plenamente. No artigo que citei acima, o autor e a autora explicam como os territórios de atuação de cada travesti são definidos:

Elege-se um local de grande tráfico de veículos, onde a passagem de famílias não seja comum, em geral, zonas comerciais e de serviços pesados. Esse tipo de local é considerado discreto porque durante a noite só frequenta a área quem está disposto a participar das relações que ali se estabelecem, em geral homens.

Logo, trata-se de uma estaticidade às margens do espaço. Chamada de "tempo de batalha", a delimitação do território, hierarquizada, é determinada pelas relações de poder e violência assim como pela beleza: o grau de "feminilidade" da transsexual conta na manutenção do ponto. A conclusão d@s autores é a de que estes territórios conferem às travestis, paradoxalmente, uma possibilidade de existência:

Um território que se faz da separação / conexão entre eu e outro, entre centro e margem em constante movimento, possibilitando a seres abjetos, impróprios e interditados à vivência socioespacial, sob a égide da heteronormatividade, criar resistências e existir através de seus territórios.

Uma existência resistente, "apesar de"... Embora a prostituição e a discriminação das travestis sejam problemas específicos, não se pode mais ignorar, no estabelecimento de políticas públicas de segurança, por exemplo, a forma como a heteronormatividade norteia os modos de ocupação urbanos e seus fluxos de circulação. Dizer para um gay circular, para uma mulher não sair sozinha, deixar morrer na sarjeta uma travesti em "área de risco", facetas do violento sexismo que domina o espaço geográfico urbano.

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Coisas que escutamos por aí, parte 1

por Mazu


Este post terá uma vibe de descontração. Sabe como é, às vezes, cansa. Já dissemos, a feminista cansada já disse. Tem muito troll no mundo, e a vida é muito curta e bela.

Escutamos algumas barbaridades, sempre de vez em quando, por sermos mulheres e/ou feministass, e, em vista disso, resolvi comentar determinados "argumentos".

Sei que não é sempre que estamos na pegada de comprar briga, sei que rola um sentimento de "não compensa", mas a nossa sociedade é muito boa em mascarar preconceitos e discriminação, a gente vive em uma era que somos levados a acreditar, pela mídia, pelos costumes e até pelo sistema de ensino, que todo mundo pode ter o mesmo acesso a tudo. Bom, isso é mentira, e esse é o motivo pelo qual, quando escutamos isso ou aquilo, devemos discutir. O que não nos impede de nos divertir também, certo? ;)

Então, é isso, compas. Não esmoreçamos e vamos à Lista de Merdas Coisas que Escutamos por Aí, versão 1:


1. "Pode ser feminista, mas não precisa ser tão radical!"


Resposta rápida: radical é tanto machismo em pleno século XXI, eu sou até moderada, fofx!

Quem tiver com tempo, pode recitar, com a mão no peito em postura de hino nacional, estes tweets maravilhoosos da Carina Prates (vi no feminista cansada).


2. "Não sou machista, nem feminista, todo mundo é igual!"


Esse é um discurso "munitinhu", fofo, que parece inofensivo, mas não é! E precisa ser combatido, muito! Na real, a pessoa está dizendo: a sociedade está boa assim para mim, não me perturbem! As pessoas que acham que todo mundo é igual costumam ocupar um lugar muito confortável na vida, repare bem.

Já que todo mundo é igual, por que as instituições, organizações, entidades, empresas e países são, na maioria, liderados por homens brancos, que não são de longe a maioria (no sentido numérico) no mundo?



3. "Vocês ficam falando alto de sexo e sexualidade feminina, mulher tem que se preservar, que coisa mais vulgar..."


Esta requer elegância, sabe? Aquela elegância de cavalo em desfile de sete de setembro. Vou usar uma figura para explicar bem, desenhar mesmo, como nos sentimos:


Como Rick Astley, não estamos nem aí ("you've been rick rolled!")

Sério, se a gente não pode falar da nossa sexualidade, quem pode? Os homens?


4. a) "Mulher de roupa curta na rua quer o quê?" e  b) "Depois acontece alguma coisa vai fazer o quê?"


a) É difícil responder por que uma mulher pode querer qualquer coisa, mas o importante mesmo é: ninguém tem nada a ver com isso. Não dá para o sujeito ser tão egocêntrico a ponto de achar que toda roupa curta é para ele, muito menos achar que nos interessa a sua opinião sobre nossa aparência ou roupa. Se você for convidado e se interessar, venha, se você for perguntado, responda, no mais, guarde suas opiniões e mãos para você, ok?

b) denunciar e por o estuprador na cadeia.

Chessus, abandonemos o mito do homem estuprador em potencial que não consegue se segurar, de uma vez por todas. A escolha de roupa é nossa, respeito é obrigação e é direito de todxs!


Campanha de carnaval, que serve pro resto do ano também

5. "O feminismo é coisa do passado, hoje, isso não é mais necessário." 


Para esta, dá para aplicar quase que a mesma resposta da 2, e é bom lembrar que, por exemplo, no Brasil, as mulheres votam só há 76 anos. A primeira senadora foi eleita em, pasmem, 1990, e a primeira ministra data de 1988. Vai vendo. Não rola dizer que o meio do caminho, aliás, o começo do caminho é o fim do caminho, saca? Ainda temos um tantão para percorrer até a isonomia, e o grande problema de parar antes disso, no meio ou começo do caminho, é que esses são lugares muito propícios ao retrocesso. Logo, sigamos.


Por anna-grrrl.tumblr.com

6. "Os caras que são feministas são umas mulherzinhas"


Isso, para a gente, é elogio. Eles são legais, mas não são tão legais assim. ;) Brincs. 

A gente vive em um mundo que ser "mulherzinha" pode ter o significado de frágil ou medroso - não aguento, nem entendo, mas... E "homem" em frases como "seja homem" pode significar corajoso. Se a gente for usar os termos dessa forma, eu diria que homens feministas são muito mais "homens" que aqueles que preferem seguir o fluxo da maioria, o que não requer nem coragem, nem esforço algum.

A Márcia Tiburi escreveu um texto muito, muito, bom sobre o lugar da "mulherzinha" e quem realmente anda ocupando esse lugar.


7. "Os caras que defendem licença-paternidade querem ficar 30 dias de folga, coçando o saco."


Parabéns para você que acha que o papel do pai, na criação do filho, é coçar o saco ou que acha que cuidar de um recém-nascido é o mesmo que folga. Espero que as pessoas que acreditam nisso nunca tenham filhos, do contrário, só lamento.

É isso, por enquanto, afinal de contas, nós bem sabemos que outras listas virão e que esta não está completa.


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Nascer sem violência

por Barbara Falleiros

"Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer"
Michel Odent (obstetra francês) 

Racismo de cada dia:
"Não quisemos ofender"
Depois de informarem as mães sobre como e quando alisarem os "cabelos crespos ou rebeldes" de suas filhas para deixá-las "mais bonitas", a maternidade paulistana Santa Joana acaba de proibir a entrada de doulas no centro obstétrico. Como fizera dias antes no caso da mensagem racista, o hospital se defendeu evocando nobres intenções: não se trata de proibir as doulas, mas de restringir a presença na sala de parto a apenas um acompanhante, com o intuito de minimizar os riscos de infecção hospitalar. Em outras palavras, a parturiente tem a liberdade de escolher quem vai acompanhá-la: a doula ou o marido. O que pedir mais?

Poder-se-ia pedir à maternidade, por exemplo, que fornecesse os índices comparados de infecções em partos humanizados com doulas e em cesárias eletivas, assim como os índices de internações na UTI de mães e bebês nascidos por cesariana versus parto natural...

Conversei com a doula Thatiane Menéndez do Blog Espaço Abertto, que citou a frase que abre este post e que me explicou a importância das doulas nas práticas de parto humanizado:

No pré-natal, a doula orienta, informa, acolhe e ajuda a mulher a se preparar para o parto. Em um parto humanizado, a mulher é sujeito ativo do processo, tomando as decisões em conjunto com a equipe. Para isso, ela deve conhecer e entender seu corpo e o processo do parto, precisa estar verdadeiramente empoderada e consciente, especialmente no Brasil, onde temos que lutar pelo simples e óbvio direito de caminhar durante o trabalho de parto.

A doula ajuda a mulher neste processo de empoderamento. Durante o trabalho de parto, ela oferece apoio físico e emocional, ajudando-a a lidar com a dor. Seu trabalho continua no acompanhamento pós-parto, ajudando a mulher a lidar com a nova fase, com a descoberta da maternidade, com a amamentação e os cuidados com o bebê.

De toda a equipe multiprofissional, a doula é quem mais tem contato com a gestante e que acaba criando com ela um vínculo maior, o que só traz benefícios durante o parto. A questão da proibição das doulas é incoerente, primeiro porque ela é uma profissional da saúde capacitada para este atendimento e não uma acompanhante, como o pai ou outros familiares. Segundo, o argumento do risco de infecções não tem embasamento científico e perde todo o sentido quando se permite a entrada de profissionais para filmagem e fotografia. Diversos estudos demonstram que a presença da doula pode reduzir em 50% as taxas de cesarianas (que no Brasil chegam a 80% no sistema privado de saúde, quando a OMS recomenda apenas 15%), 25% a duração do trabalho de parto, 60% os pedidos de analgesia, 30% o uso de analgesia, 40% o uso de forceps e 40% o uso de ocitocina (Klaus et Kennel, 1993)

Como vemos, é todo o contrário da prática corrente, altamente medicalizada, reflexo de um modo muito característico de conceber a saúde e a sociedade. Hoje, no parto em hospitais, segue-se cada vez mais a cadência: privilegia-se a cesariana, ou se não é cesariana é episiotomia sem autorização, prende-se a parturiente em posição ginecológica e que ela grite mais baixo, oras! Por fim, depressa, um sorriso rápido para a foto e lá se vai o bebê embora... Num mundo em que só o que importa é o que é rentável, como o momento do parto escaparia aos moldes de uma linha de produção? Como reivindicar a vivência de uma experiência humana quando o que se quer do sujeito é a passividade anestesiada?
 
Essas práticas médicas influenciam e alimentam uma visão desnaturalizada do parto, um parto anotado na agenda: dizem que foi impressionante o número de cesarianas marcadas para o dia 12/12/12. Não duvido. Que importa se o bebê ainda não está pronto para nascer, desde que nasça numa data "combinandinha"? O mundo não acabou. Seguimos vivemos numa distopia.

Ao contrário do trabalho das doulas que auxiliam a mulher a "tomar posse" do próprio corpo, a violência obstétrica acontece justamente quando há uma apropriação do corpo da mulher e do processo do parto pelos profissionais da medicina, que passam a considerar todos os partos como patológicos e toda parturiente como uma paciente (ou seja, como aquela que sofre a ação): daí praticarem-se atos médicos e farmacológicos de forma rotineira, impedindo a mulher de participar ativamente do parto. O desrespeito e a desconsideração da parturiente podem tomar formas violentas e agressivas: comentários irônicos acerca do comportamento da grávida, broncas por causa de gritos ou choros, respostas evasivas a perguntas sobre o procedimento, rompimento da bolsa sem consentimento, toques vaginais frequentes, compressão do abdomen no momento das cólicas, episiotomia e raspagem do útero sem anestesia, impedimento de estar acompanhada por uma pessoa de confiança, caminhada e movimentos proibidos, impedimento de contato imediato com o recém-nascido, etc.

No Brasil, 52% dos bebês nascem por cesariana. A OMS recomenda uma porcentagem de 15%
No nosso vizinho Uruguai, a Anistia Internacional produziu um vídeo de conscientização e protesto contra a violência obstétrica, com imagens fortes, que falam por si mesmas. Não é à toa que o primeiro comentário sobre o vídeo, no Youtube, contesta a veracidade das práticas mostradas: "Como pode ser assim? Estão exagerando!" (como a gente ouve tanto!). Mas não... No Brasil, por iniciativa dos blogs Parto no Brasil e Cientista que virou mãe, produziu-se um documentário comovente com depoimentos de mães que sofreram violência obstétrica.




Fico chateada em terminar meus posts sobre gravidez e maternidade com este vídeo. Mas é mais uma prova de que a gente aqui no Blog não é um bando de "neuróticas", a violência contra as mulheres assume as formas mais diversas e mais cruéis, e ela atinge cotidianamente sua irmã, sua amiga, sua esposa, sua filha. Felizmente, existe quem luta pelo fim dessas práticas e pelo direito de dar à luz e de nascer sem violência. Como disse a Thati Menéndez, "a questão vai muito além da luta por dignidade e respeito no parto e nascimento, é uma questão ideológica e o início de um mundo melhor. Pois como vamos ter um mundo sem violência e com mais amor e respeito se nosso primeiro contato com este mundo é muitas vezes violento e frio?" Mudar o mundo, mudar as relações, desde o primeiro segundo.

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O seu carro, a sua casa e a sua mulher


Há um ano, mudei para o Distrito Federal. Aqui, tudo é muito diferente, muita coisa choca, muita coisa assusta, para o bem e para o mal. Uma das coisas que mais me assusta, para o mal, no DF, são os casos de violência contra a mulher: são quase 15 ocorrências por dia. Em março de 2012, o DF era o líder de denúncias no ranking, seguido pelo Espírito Santo e Pará. 

O DF é muito menos lilás que isso

Na maioria dos casos, a agressão faz parte daquela velha história de "amor": a gata amava o cara, não ama mais ou não tolera mais, então, toma tiro, toma pancada e vai tomando. Outra prática comum é o assalto seguido de estupro, geralmente envolvendo casais e famílias como vítimas. Isso me fez pensar na Marcela Temmer, em outras pessoas e situações nessa vida. Muita coisa mudou, melhorou até, mas as mulheres ainda são vistas como posses do homem. É a conclusão possível, né? Triste.

Li, por indicação de uma amiga, uma notícia antiga sobre a Marie Nzoli e o cotidiano das congolesas, cotidiano este que envolve estupros diversos e variados em sua vida, por tantos motivos. Na verdade, não consigo pensar em coisa mais sem motivo que o estupro. Mentira. A guerra, o genocídio e a briga político-social pelos diamantes, no Congo, são ridiculamente e igualmente coisas sem motivo, mas enfim.

Não rola comparar o Brasil com o Congo, a situação lá é de fazer chorar, vomitar e tudo mais. Aqui, a gente conta com esse e aquele instrumento legal e instituições de defesa, mas ainda assim, determinadas coisas acontecem. Eu disse ali em cima que esses acontecimentos absurdos narrados pela Marie são sem motivo, mas é pela brutalidade né, pelo grotesco do cenário. Na real, o motivo de o estupro servir de arma de guerra; de um cara entrar na casa de outro cara e roubar a casa, o carro e estuprar sua mulher; de o ex matar ou tentar matar a ex; enfim, o motivo é o machismo. É, o machismo é motivo para coisas que vão desde as mais bobas às mais graves. Século XXI, e ainda tem MUITA gente achando que a mulher é posse do homem.

Marie Nzouli e a organização que fundou no Congo

Pessoalmente, acredito que nossas posses têm o poder de nos transformar, para o bem, quando nos trazem responsabilidades. Acredito que relacionamentos nos transformam, para o bem, quando fazem de nós pessoas melhores. É óbvio que isso não acontece sempre. Um exemplo, ou melhor, um desenho. O Lula Molusco tem uma casa de pedra e um clarinete. Vamos supor que ele comece a namorar a Pequena Sereia. Nada, nada disso vai adiantar, se o Lula Molusco continuar sendo o mesmo babaca de sempre, implicando com o Bob Esponja só porque ele é uma esponjinha feliz. Agora, se ele for namorar a Ariel e deixar o Calça Quadrada ser feliz, aí sim faria alguma diferença.

Além dessa questão de posses e relacionamento não mudarem ninguém. O mais importante de tudo é isto: as mulheres não são coisas. Não são comida, não são enfeites, não são objetos. Elas não podem sofrer  violência de qualquer natureza por não querer um homem, por estar sozinha, por não estar de burca ou por estar.

A gente, aqui no blog, é acusada o tempo todo de exagerar e tudo o mais. Já disseram que somos mal resolvidas porque vemos machismo em tudo. Bom, é nosso papel, como feministas, mostrar que o machismo está no ar. E que vai desde escutar assobio na rua até a amiga da prima da vizinha que levou um tiro porque tentou largar um cara. E, se apontar, chamar atenção aos fatos é ser mal resolvida, sim, somos mal resolvidas. E preferimos assim. Sério, se existe alguém em paz com uma sociedade em que estupro pode fazer parte do cotidiano de tantas formas, humildemente, tenho que dizer que ser bem resolvido é uma bosta, a pessoa precisa ter um problema muito sério para ser bem resolvida com a sociedade como está.


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Quando um homem grita "Linda!"

por Tággidi Ribeiro

Esse relato poderia servir pra um dos nossos Sexismos de Cada Dia, mas vou postá-lo aqui. Assim aproveito e já falo umas coisinhas que há tempos venho pensando e sobre as quais outras pessoas têm pensado também - ainda bem!

Fim de ano no ano passado e tod@s nós aproveitamos pra reencontrar amigxs, confraternizar, beber umas cervejas, brincar de colega (rs) secreto e tal. Estava eu indo pra uma dessas confraternizações, andando pela rua apressada, porque estava um tanto atrasada, quando sinto um toque no meu braço e ouço a frase já ouvida por tantas de nós em tantas situações ao longo da vida: "Moça, você é linda". Sem nem pensar retirei meu braço com rapidez e disse um 'obrigada' baixo (sim, eu disse) ao mesmo tempo constrangido e raivoso e segui meu caminho.

A expressão chave aqui, na minha opinião, é 'ao longo da vida'. A gente nasce recebendo elogios à nossa beleza física. Somos crianças e ouvimos prognósticos - 'vai dar trabalho', 'vai ficar linda'. Desde pequenas, o nosso fito, ou melhor, o fito dos outros para nós, é sermos bonitas, antes de tudo: 'vamos colocar essa roupa pra ficar bonita', 'não chora que fica feia'.

Já falamos sobre isso, sobre a valorização absurda da beleza física feminina, aqui no blog. Falamos também sobre o que acontece depois que uma mulher 'perde' essa 'beleza', que hoje em dia significa basicamente engordar ou envelhecer. E também já falamos sobre essa educação perversa que transforma crianças do sexo feminino em bibelôs que o patriarcado chama de princesas - as quais depois ataca como fúteis. Ainda assim, esse 'ao longo da vida' é tão forte que eu - feminista - respondi 'obrigada' a um homem impertinente e desrespeitoso que teve a capacidade de tocar numa desconhecida e dizer sua opinião sobre a aparência dela.

Esse 'obrigada' está entranhado em mim, em nós, porque nos fizeram crer que um elogio à nossa aparência, vindo de qualquer um, é de fato um elogio, quando é, na verdade, a reprodução em discurso do lugar que ainda se acredita deva ser o da mulher até ser mãe - o lugar do enfeite. 'Mulher tem que ser bonita' - ouço um monte de homem, mesmo se considerado feio, dizer; 'mulher feia nem pra zona presta', ouvi ontem dizerem, a respeito da novela Salve Jorge e daquelas prostitutas traficadas, forçadas, todas lindíssimas. Quer mais pra achar que 'linda' não é assim elogio de fato? Homem no geral não fica #chatiado se não tem a beleza elogiada, nem se não tem beleza; também não fica especialmente feliz se é bonito e recebe elogios - o valor de um homem independe da beleza física.

Mas o relato não acabou no caminho que segui, pois logo ouvi gritarem meu nome. Olhei para trás e um grande amigo me chamava. E em sua roda de amigos estava o homem que instantes antes havia tocado e 'elogiado' uma desconhecida. Seu constrangimento não podia ser maior. Como assim, então, ele estava sendo apresentado para a mulher que pouco antes chamou de 'linda'?! Mas, vejam bem, como eu disse, seu constrangimento era grande, não sua felicidade. E não porque eu lhe tratasse mal - ele estava na mesa com um meu amigo, eu não o confrontaria nessa situação. Ademais, eu falava muito apressadamente com meu amigo, que estava apressada, afinal de contas. Enfim, fui embora logo, dando um tchau geral e propositadamente reparando no meu entusiasta, agora mais murcho que alface em fim de churrasco. Não perguntou a meu amigo quem eu era, não pediu meu telefone.

www.facebook.com/pages/Homem-Feminista-de-Verdade
Aquele homem não tinha me elogiado, nem me cantado. Aquele homem tinha usado seu direito de me encher o saco, de tocar em mim sem jamais ter me visto (!) dado pela nossa sociedadezinha machista. Só isso. Por isso, em tantas discussões com esse meu amigo, eu rebati o argumento repetido por ele (e por quase todos os outros homens) de que 'parar de olhar e falar com mulheres na rua é o fim da cantada'. Bem, se a cantada é só a sua expressão babaca sobre o corpo de uma mulher, então que seja o fim. Agora, se a cantada é aquilo que tem o objetivo de chamar a atenção de uma mulher - pra que aconteça a conversa, o beijo e por aí vai, então agir como adulto maduro e feminista faz bem. Aqui vai a receita: olhe para a mulher de seu agrado sem fazer dela um pedaço de carne, veja se ela retribui esse olhar e fale com ela. O resto é mimimi de quem não se preocupa com o outro - nós, mulheres, que, quem dera, ouvíssemos de abuso verbal só 'você é linda' ao longo da vida.


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Os 'bonzinhos' também estupram

por Roberta Gregoli

Dolce & Gabbana glamourizando o estupro por gangue

Na cultura do estupro, como o nome já diz, praticamente toda a cultura funciona para sancionar o estupro e culpar xs sobreviventes. E aqui entram a banalização do estupro através de piadas, a mídia tradicional e mesmo o judiciário, que sistematicamente inocenta estupradores:


Em cima: Estupradores - Denunciados - Levados a julgamento - Presos
Embaixo: Acusados falsamente
Fonte: http://theenlivenproject.com/the-truth-about-false-accusation/

Então não é de surpreender que o mercado de bens de consumo corrobore com este paradigma, cobrindo de glamour o que, no final das contas, não passa de violência de gênero (veja a figura de abertura do post).

A Victoria's Secret entrou na dança com uma coleção de calcinhas da linha Pink, sua marca voltada para o público adolescente, que traziam a estampadas expressões como Unwrap me (Me abra) e Sure thing (Coisa certa). Apesar de não promover o estupro de maneira óbvia e direta - só mesmo uma aberração chamada Lobo da Insanidade para ser capaz disso - esse tipo de produto naturaliza, de maneira sedutora, os mitos envolvidos na manutenção da cultura de estupro.

A sociedade civil interveio (ainda bem que temos o feminismo!) com uma resposta absolutamente inusitada, bem-humorada e inteligente: criou um site falso com uma linha chamada Love Consent trazendo estampas anti-estupro. Se a linha da Victoria's Secret confundia a noção de consentimento com uma calcinha que dizia Yes, no, maybe (Sim, não, talvez), a Love Consent deixa claro: No means no (Não quer dizer não).

Victoria's Secret e ativismo feminista: de 'Coisa certa' para 'Peça permissão antes'
porque "nenhuma vagina é 'uma coisa certa'"

Como a cultura de estupro está em todo o lugar, cito também uma situação diária. Esses dias eu, conversando com um amigo (branco, escolarizado, de classe média), dizia que, uma vez que a garota (ou garoto) tenha dito não, insistir leva a uma zona ambígua que pode ser qualificada como estupro. Como disse a Lola, pensamos em estupro como uma coisa que acontece num beco escuro, envolvendo um desconhecido e muita violência. Mas não. Estupro é qualquer ato que envolva o não consentimento de uma das partes.

A cada 12 segundos, uma mulher é estuprada no Brasil. E em 84% dos casos julgados o crime é cometido por um conhecido. Este número envolve principalmente familiares, que é um caso diferente do que estou tratando aqui: o chamado date rape, para o qual não há estatísticas confiáveis que eu conheça no Brasil, é o estupro que ocorre durante um encontro ou uma 'ficada', e que é muito pouco denunciado, justamente porque o conceito ainda não está articulado na cultura popular. Mas o date rape acontece obviamente entre pessoas que se conhecem e frequentam os mesmos ciclos sociais, por isso é também chamado de acquaintance rape (estupro por um conhecido). Veja um depoimento aqui.

Vivemos numa sociedade machista (surpresa) que faz com que as mulheres acreditem que a culpa de... bom, praticamente tudo, é delas. Daí uma garota e um cara estão ficando, ele começa com umas carícias mais quentes e a garota pede para parar. O cara força a barra, seja com um pouco de violência (tenta enfiar a mão embaixo da calcinha dela ou a segura mais forte, o que pode ser confundido com a famigerada 'pegada' - que por acaso não seria mais um mecanismo da cultura do estupro??) ou com um papinho de amante latino do tipo "relaxa, gata", "não tem problema", "não é nada de mais"... E a garota vai cedendo. 

Quando contei ao meu amigo que isso também é uma forma de violência, ele se surpreendeu: "mas, no fundo, ela queria". E me disse ainda que a nossa sociedade é muito repressora e não deixa a mulher se expressar sexualmente, por isso o cara tem que insistir. Eu detesto este "no fundo ela queria" - como um cara pode ter a arrogância de achar que sabe, melhor do que a própria mulher, o que ela quer? Quando se trata de consentimento, ao contrário do que meu amigo e a Victoria's Secret acreditam, não existe "no fundo": é o que a garota diz e ponto.

Ele está certo quanto à sociedade repressora, mas a repressão não é que ela está louquinha para transar com ele mas tem que parecer uma boa moça para que ele queira casar com ela (além de arrogante, esta lógica é de outro século, não?). A repressão funciona a partir do momento que a garota não tem assertividade para dizer: NÃO, EU NÃO QUERO TRANSAR COM VOCÊ. PONTO.

Ou seja, o ceder é que é a repressão da sociedade em funcionamento. A cultura do estupro nos cria para defender estupradores ao repetir sem cessar que a culpa é das mulheres.


Que estamos em débito com o cara porque ele pagou pelo jantar, porque demos "falsa esperança", porque fomos até a casa dele... Algumas ficam "com dó" porque o cara está insistindo e, ah, ele é tão bonzinho...

Se eu fosse super-heroína e pudesse escolher um único superpoder, queria ser capaz de empoderar as mulheres. Fazer com que magicamente nos libertássemos dessas culpas construídas para nos tornarem dóceis e sexualmente disponíveis para os homens.

Então, que fique claro: Não é não

Garotos, se e a gata disse 'não' uma vez, que seja o suficiente. Senão, você é um estuprador em potencial #pensenisso

Não forcem a barra. 'Forçar a barra', como a própria expressão sugere, é uma violência, o que te qualifica como agressor. Se ela estiver a fim, ela vai te procurar e vocês vão transar quando e se ela quiser de verdade.

Garotas, empoderem-se. Leiam este excelente post da tia Mazu. E, mesmo que você esteja pelada na frente de um cara e mude de ideia, diga NÃO. Seu corpo, suas regras. Sempre.



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Humor masoquista

por Roberta Gregoli

Essa semana ouvi mais de uma vez afirmações muito parecidas: piada de gordo feita por gordo não tem problema, piada de gordo feita por magro, sim. Por extensão, o mesmo se aplicaria a piadas que têm como alvo minorias étnicas e históricas (negrxs, judeus, mulheres).

Resolvi testar essa tese com este vídeo da Fernanda Young, que ironiza a Marcha das Vadias:


O fato da Fernanda Young ser mulher legitima a piada ou a faz mais engraçada? Se fosse um homem, reclamaríamos, mas por ser mulher tudo bem, certo? Errado. A 'piada' ter sido feita por uma mulher, para mim, faz do quadro ainda mais triste. Por que alguém gozaria do próprio grupo, minando a legitimidade de uma forma de protesto? 

Nesse caso específico, acho que existe um forte elemento de classe embutido na 'piada' de Young. É possível que ela brinque que quer ser encoxada no ônibus simplesmente porque ela não tem de pegar ônibus. É nessas horas que eu admiro a lucidez da Presidenta Dilma Rousseff quando diz que é mais difícil ser uma mulher comum do que presidenta da República porque a mulher do povo sofre mais violência e desigualdade salarial. Ou seja, é fácil para a Fernanda Young - que está com a barriga cheia, não sofre violência doméstica ou assédio de rua, reduzir a Marcha das Vadias a uma demanda por sexo caliente. É possível ter fantasias eróticas que envolvam violência física quando não se é vítima de violência de fato, quando se está empoderada o suficiente, no caso, com um emprego de reconhecimento financeiro e social. É fácil rir do assédio no transporte público quando se está dirigindo carro com o vidro fechado e insulfilm.

Enfim, como diria a sabedoria popular, pimenta nos olhos dos outros é refresco. Rir do ardume, então, é sadismo. Mas se, por um lado, em relação à classe social, Young está rindo da tragédia dos outros, por outro está rindo da própria miséria porque, apesar desse tipo de violência não fazer parte de seu cotidiano, ela, como mulher, também está sujeita a ser assediada, agredida, estuprada. Vai que o carro dela quebra.

Sobre humor e subversão, a melhor epítome que já vi está no essencial documentário O Riso dos Outros: "O humor que mais gosto é o que não ri da vítima, mas do carrasco". Veja aqui a partir da marca 43'35'' - mas vale a pena ver o documentário todo:


No humor, sempre se está escolhendo um lado: ou se ri da vítima ou do algoz.

E, quando se ri da vítima, não interessa se quem está rindo é a própria vítima ou o carrasco. Assim como no caso do humor machista de Fernanda Young, as piadas racistas de Danilo Gentili não seriam menos graves ou mais aceitáveis se fossem feitas por um negro.

É claro que existem piadas e piadas. Uma piada sobre minorias feitas por representantes dessa minoria  não é, necessariamente, preconceituosa. Ela pode ser autocrítica, empoderadora, subversora. Um exemplo sobre o mesmo tópico, a sexualidade feminina, é o da Margaret Cho, com uma piada mais ou menos assim (vocês podem ver a versão original aqui):

Um de meus primeiros empregos como comediante stand-up foi num cruzeiro lésbico. No barco, eu transei com uma mulher pela primeira vez. Daí veio todo o drama, será que sou gaaaay, sou héeetero? Então me toquei que só sou safada [I'm just slutty]. Cadê a minha parada? E o orgulho de ser vadia [slut pride]?
Diferente de Young, que, querendo afirmar seu gosto sexual acaba por justificar a violência de gênero, Cho afirma as mulheres como sexualmente ativas de uma maneira totalmente subversora, sobretudo por desafiar não somente a heteronormatividade como também o paradigma que divide a sexualidade feminina (e, por que não, humana) entre hétero e homossexual.

Interessante também o fato do show ser de 2000, ou seja, Cho antecipa a existência de uma marcha das vadias (em inglês, chamada Slut Walk) em mais de uma década, ainda que a Marcha das Vadias tenha reivindicações para além da liberdade sexual feminina, envolvendo questões como violência e ocupação do espaço público. Taí, então, um bom exemplo de humor inteligente, subversivo e pioneiro.

O humor que goza do carrasco, ou seja, desafiador do status quo e do senso comum preconceituoso é claramente mais complexo, exige mais esforço e sutileza. Existem também as piadas auto-depreciativas e sardônicas, que, quando feitas de maneira inteligente podem ser interessantes, mas a linha entre o reforço da opressão e o rir de si mesmo de maneira saudável é bastante tênue, ainda mais quando o assunto são minorias.

O humor que ri da vítima, como O Riso dos Outros defende, é o humor que gera o riso fácil porque reflete preconceitos e estereótipos já consolidados. É o humor que vomita de volta para a sociedade o que ela tem de pior. E, apesar dos comediantes toscos se sentirem lesados na sua liberdade de expressão (como se esse fosse um direito só deles), o nível de tolerância com esse tipo de humor é grande numa sociedade em que a educação ainda é largamente acrítica (ou simplesmente de má qualidade) e a grande mídia emburrece.

Como pode atestar qualquer mulher que tenha um mínimo de consciência e já tenha sido encoxada num ônibus, a piada da Young não é inofensiva. Ao naturalizar esse tipo de comportamento dizendo que isso é normal (pior, que é o que as mulheres querem), Young está participando na legitimação desse tipo de violência. Legitimando de maneira particularmente contundente e nociva porque, como mulher, ela supostamente teria maior autoridade para dizer "o que as mulheres querem".

Em resumo: uma piada nunca é inofensiva e sempre se está escolhendo um lado. A diferença entre o carrasco que ri da vítima e a vítima que faz piada sobre a própria condição é que, no segundo caso, o humor, além de perverso, é masoquista.

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Bater em homossexuais é legítima defesa dos machos

por Tággidi Ribeiro

Estamos todos ainda chocados com a agressão ao estudante de direito André Baliera. Na segunda-feira, 03 de dezembro, Baliera voltava pra casa quando ouviu xingamentos de dois rapazes parados num sinal. Revidou, xingou também. Apanhou muito. Os agressores estão presos, vão ser julgados por tentativa de homicídio e pelo crime de homofobia (sim, aqui em São Paulo, pode-se ser julgado por tal). Esperamos que sejam condenados pelos dois, dado que a agressão só parou porque a polícia foi acionada e que, enquanto batiam, os agressores gritavam "Viado tem que tomar porrada". O próprio André Baliera colocou a mais tocante questão subjacente à violência sofrida: "Por que a minha existência provoca uma fúria tão desumana?"

Pois é, por quê? Por que a orientação sexual de alguém provoca fúria? Suponhamos que sua igreja diga que é contra a natureza, suponhamos que seu pai ou amigos digam que é uma 'safadeza' - ainda assim, por que chegar à agressão física? Nem a verbal é justificável, obviamente, mas agressão física pressupõe um gasto enorme de energia. Pressupõe, sobretudo, um sentimento de ódio tão arrebatador que não se contenta com a já terrível humilhação e o amedrontamento, mas visa à eliminação, à destruição do outro. Com qual outro não podemos conviver e precisamos destruir?

André.
A minha moral, que muita gente diz que é cristã, só responde a essa pergunta de uma forma: não posso conviver com o outro que não convive comigo, preciso destruir quem quer me destruir. Basicamente, estou falando de legítima defesa - posso matar alguém para resguardar minha própria vida. Se o outro não me quer destruir, se convive comigo, então eu sigo pacificamente. (Parêntese rápido: segundo a moral cristã, eu deveria oferecer a outra face - é isso, né?)

Enfim, pergunto: Bruno Portieri e Diego Mosca, os agressores de André, agiram em legítima defesa? Sim, agiram sim. E não parem de ler aqui. Explico: a existência de André Baliera, simbolicamente, atenta contra a existência de Diego e Rodrigo. André Balieri simboliza um mundo novo, não mais dominado pelo machos viris; simboliza a conquista gradual da igualdade (ou pelo menos a redução da desigualdade) e a igualdade não se dá sem a distribuição do poder.

Sim, os machos viris estão perdendo poder e isso os assusta. E eu sei que o que eu estou falando vai soar para muitos como: 'está vendo, aí está a prova do que pretendem os gays e as feministas. Querem instaurar uma ditadura gay e feminazi'. Ninguém quer ditadura. Fato é, no entanto, que os machos estão perdendo poder e isso os assusta. Julgam que essa perda de poder é sua aniquiliação e por isso reagem de forma tão virulenta.

Mas é justamente essa virulência que nos diz que essa divisão de poder deve acontecer, é urgente que aconteça. Pois que o poder de um grupo sobre outro não é justificável se causa tantos danos - e o poder dos machos já causou e causa ainda muitos. Quero apelar aqui para a lógica heteronormativa dos homens, que sempre se consideraram mais racionais que as mulheres e os homossexuais: é defensável um poder que concentra direitos, impinge a violência, cerceia os corpos? É defensável um poder que produz tanta infelicidade no mundo? Não é imperativo ir contra ele, já que todo ser humano deseja ser livre?

A despeito da resposta masculina: o poder de Diego Mosca e Bruno Portieri é indefensável. E estamos todxs contra ele. Todxs em busca de liberdade.


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Apanhando igual mulher: quando a vítima é o homem

por Barbara Falleiros

Não digo que toda mulher gosta de apanhar. 
Só as normais. As neuróticas reagem.
Nelson Rodrigues, macho reaça.

Na semana passada, escrevi sobre os mecanismos da violência doméstica e familiar com base em uma cartilha do Ministério Público de São Paulo. Esta cartilha foi especificamente elaborada para mulheres vítimas de violência. Deste modo, falei a respeito de relacionamentos heterossexuais abusivos em que o homem (companheiro, ex-marido, namorado) apresenta-se como agressor. Recebi então uma crítica evocando as violências, sobretudo psicológicas, perpetradas por mulheres de  comportamento agressivo, que se aproveitam da facilidade de adotar um discurso de vitimização para exercer sobre o parceiro um terror psicológico. Caso verídico, garantia meu interlocutor, e bastante recorrente. Não que eu duvide,  mas há quem identificará neste discurso elementos do masculinismo, movimento contra um suposto sexismo antimasculino. E, de fato, uma das bandeiras do masculinismo é o combate ao que ele vê como um favorecimento legal das mulheres (com a Lei Maria da Penha, por exemplo), além do combate à minimização e à ridicularização da violência contra os homens.

Os masculinistas gostam muito de citar um artigo que saiu na mídia em 2008, com base em estatísticas de um estudo realizado na Unifesp, artigo este que recebeu o título apelativo de "Mulheres agridem mais do que os homens". É só pesquisar no Google para ver que este texto é citado em tudo quanto é página masculinista. Porém, as estatísticas provêm do Primeiro Levantamento Nacional sobre Padrões de Consumo de Álcool no Brasil, que resultou em uma tese de doutorado, defendida em 2009, a ser lida aqui. Ora, os dados da Violência entre Parceiros Íntimos (VPI) analisados pelo autor foram baseados em questionários respondidos por 631 homens e 814 mulheres que perpetraram ou sofreram violência, e são relacionados ao consumo de álcool. As questões diferenciavam a violência leve (empurrar, sacudir, dar tapas, atirar objetos) e a violência grave (dar chutes, mordidas, atirar objetos sobre, queimar, escaldar, agredir sexualmente, ameaçar ou tentar atingir com faca ou arma de fogo). Segundo o autor:

  • O grau de violência nas agressões contra as mulheres tende a ser maior
"Embora algumas evidências apontem para o fato de que as agressões de mulheres contra seus companheiros sejam tão ou mais prevalentes do que as agressões sofridas por elas (Schaefer et al., 1998; Straus,1995; Straus & Gelles, 1990), as mulheres sofrem mais lesões e necessitam de cuidados médicos mais frequentemente do que os homens (Browne, 1993; Morse, 1995; Tjaden & Thoennes, 1998; Stets & Straus, 1990)." (p. 11-12)

  • Em suas respostas, os homens podem ter omitido ou minimizado a violência cometida, enquanto que as mulheres tendem a omitir a violência sofrida
"Surpreendentemente, as mulheres reportaram uma porcentagem maior de episódios de perpetração de violência leve ou grave do que os homens (apesar de que os homens são geralmente mais violentos do que as mulheres). Isto pode resultar do fato de os homens parecerem deixar de relatar a perpetração da violência com mais frequência do que as mulheres (Caetano, Schaefer, Field & Nelson, 2002). Por outro lado, as mulheres podem ter medo de estigmatização, represália e outros resultados negativos caso revelarem experiências de vitimização, o que pode ter contribuído para sua omissão (Miller, Wilsnack & Cunradi, 2000). Em nosso estudo, naqueles que envolveram unicamente a vitimização, a porcentagem de mulheres é maior do que de homens." (p. 91-92, tradução nossa)

Ou seja, mesmo o autor é cauteloso ao apresentar seus dados e confirma, de toda forma, que as mulheres são mais frequentemente vítimas de violência doméstica.

  • A Lei Maria da Penha e os homens agredidos
Como eu disse mais acima, os masculinistas costumam ver na Lei Maria da Penha a prova da desigualdade entre homens e mulheres e das "vantagens" conseguidas pelas mulheres em termos jurídicos. Porém, há poucos dias, houve um certo alarde em torno da aplicação desta lei em um caso de violência doméstica envolvendo um pai e seu filho agressor. Ué, como é que funciona isso? Vou resumir uma boa explicação que pode ser encontrada aqui. É o seguinte: o artigo 129 do Código Penal trata da lesão corporal, seja qual for o sexo do agressor e da vítima. Porém, em 2004, acrescentou-se o 9º parágrafo que diz respeito a situações de violência doméstica, levando em conta as "especificidades que caracterizam [esta violência] praticada contra a mulher". Esta política especial é necessária porque, historicamente, a vítima mulher se encontra em uma situação de vulnerabilidade particular: "observa-se a persistência de algumas características desta situação de violência, tais como relação de dependência econômica e emocional entre agressor e agredida, naturalização e banalização do conflito, despreparo de profissionais atuantes na área de atendimento às vítimas (desestimulando denúncias)".

A gente repete toda semana e vai continuar repetindo: é para os processos históricos que temos que olhar, só eles dão plena significação aos acontecimentos individuais. 

Mas voltando aos homens agredidos. O meu interlocutor falava de uma refinada violência psicológica da parte da agressora mulher. Talvez seja isso: as mulheres [ah, essas bruxas diabólicas! ... Não resisti. Mas não é verdade que, historicamente, as mulheres sejam vistas como manipuladoras e perversas?] talvez elas batam menos só porque são capazes de atordoar mais! Escolha sua arma, não é?


Agora falando sério: é claro que existem homens vítimas de violência doméstica e que esta violência deve nos preocupar. Já me arrependo do sarcasmo das minhas últimas linhas porque, vejam só, minha atitude é um exemplo de comportamento execrável face à violência: eu ironizei o potencial feminino de agredir e o potencial masculino de ser agredido. Tiro no pé. Mas, na verdade, o problema está colocado em termos errados. Não é briguinha de quem sofre mais. E aproveitando para uma ressalva, eu diria que tampouco é uma questão de sexo físico, biológico, ou coisa do tipo: a violência pode acontecer em qualquer uma das variadas configurações possíveis de uma relação conjugal. O que existem são construções de papéis sociais e modos de relacionamento que encorajam ou provocam a vitimização feminina (para estatísticas da violência contra as mulheres, ver por exemplo aqui). Porém, quando sofre violência física ou psicológica por parte da sua companheira, frequentemente o homem também acaba sendo uma vítima do machismo. Por quê? Porque, para o machismo, homem que é homem não leva desaforo. Como bem disse meu interlocutor, o homem que sofre é visto como frouxo. Onde já se viu sofrer por mulher? Onde já se viu apanhar de mulher? Ou, como li por aí, no submundo da internet: "Homem que apanha da mulher não tem que procurar a justiça, tem que procurar onde se vende vergonha na cara". E é assim que, por vergonha, o agredido esconde a situação, reluta em compartilhar seu sofrimento com amigos e família, com medo de ser julgado, nem sequer sonha em buscar respaldo jurídico.

Se nós criticamos a identificação da mulher como sexo frágil, recusamos igualmente a do homem como sexo forte. Reconhecer o homem na sua força e na sua fragilidade é reconhecê-lo como igual. Ainda que historicamente as tendências se desenhem de forma mais polarizada no caso da violência doméstica, não interessa de modo algum ao feminismo colar na mulher a etiqueta de coitadinha e no homem a de vilão. Muito pelo contrário. A violência, de onde quer que venha, precisa ser combatida. Reconhecer o sofrimento masculino, saber que o homem pode ser levado a sofrer, que pode ser ofendido, insultado, agredido e violentado e que a lei deve protegê-lo, tudo isso faz parte da luta pela igualdade.