5
por Mazu
Bom, não tenho mais vergonha de dizer: eu acredito em Deus. Já apanhei muito na academia e na militância por isso, mas é bem mais forte que eu. Tentar me declarar atéia sempre me fez sentir como se estivesse mentindo. Ainda assim, acreditar em Deus e ser feminista pode ser um pouco conflitante, também assumo isso. Isso porque os grandes livros (bíblia, alcorão) que embasam algumas das religiões dominantes são bem machistas (de verdade, não quero ofender ninguém com isso). Os grandes profetas, líderes religiosos, na maioria: homens. As mulheres que, em determinada época, manifestaram sua espiritualidade ou cultuaram o feminino são conhecidas historicamente como bruxas. Obviamente, muita coisa vem mudando, existem grupos religiosos que discutem essas questões da religiosidade e dos direitos da mulher, como o Católicas pelo direito de decidir, e o CFêmea também já abordou a questão. Ainda assim, a maioria das religiões tem uma visão muito esquisita da mulher e da sexualidade feminina e da sexualidade no geral. Por exemplo, acredito que Jesus existiu e que foi um cara massa, mas que Maria, sua mãe, não era virgem não e que isso não tem a menor importância. Acredito que Maria Magdalena, a amiga de Jesus, foi uma personagem muito mais importante do que se conta e que podia ter sido sim, namorada de Jesus, sua companheira na vida sexual e de militância, sem problemas. Na boa, isso faz muito mais sentido do que a história "oficial" que nos é contada.
O espiritismo me deu muito conforto por um tempo porque em sua literatura o que consta é que o espírito não tem sexo e que reencarnamos ora homem, ora mulher, de acordo com o nosso aprendizado/prova/missão na terra. Isso é bem libertador e revolucionário, especialmente, se a gente pensar que se um dia Jesus voltar, seu espírito pode vir num corpo de mulher (talvez isso já tenha acontecido e ninguém tenha lhe dado voz). E as falas e os livros do Chico Xavier também sempre me trouxeram essa visão igualitária e certa paz de espírito. Antes que alguém diga que estou advogando pelo espiritismo vou logo soltar: na prática, nas casas espíritas (as que frequentei pelo menos) não é assim não. As pessoas, no nosso mundinho e na nossa época, ainda usam da sua religião para justificar seus preconceitos. Nunca frequentei nenhuma casa religiosa que recebesse bem os homossexuais ou que não me pedisse resignação com determinadas injustiças relacionadas a preconceitos sociais de gênero ou sexualidade. E sabe aquele desconforto que eu sinto quando minto que não acredito em Deus? Pois é, o desconforto em dizer que Deus compactua com qualquer tipo de preconceito é o mesmo.

por MazuBom, não tenho mais vergonha de dizer: eu acredito em Deus. Já apanhei muito na academia e na militância por isso, mas é bem mais forte que eu. Tentar me declarar atéia sempre me fez sentir como se estivesse mentindo. Ainda assim, acreditar em Deus e ser feminista pode ser um pouco conflitante, também assumo isso. Isso porque os grandes livros (bíblia, alcorão) que embasam algumas das religiões dominantes são bem machistas (de verdade, não quero ofender ninguém com isso). Os grandes profetas, líderes religiosos, na maioria: homens. As mulheres que, em determinada época, manifestaram sua espiritualidade ou cultuaram o feminino são conhecidas historicamente como bruxas. Obviamente, muita coisa vem mudando, existem grupos religiosos que discutem essas questões da religiosidade e dos direitos da mulher, como o Católicas pelo direito de decidir, e o CFêmea também já abordou a questão. Ainda assim, a maioria das religiões tem uma visão muito esquisita da mulher e da sexualidade feminina e da sexualidade no geral. Por exemplo, acredito que Jesus existiu e que foi um cara massa, mas que Maria, sua mãe, não era virgem não e que isso não tem a menor importância. Acredito que Maria Magdalena, a amiga de Jesus, foi uma personagem muito mais importante do que se conta e que podia ter sido sim, namorada de Jesus, sua companheira na vida sexual e de militância, sem problemas. Na boa, isso faz muito mais sentido do que a história "oficial" que nos é contada.
O espiritismo me deu muito conforto por um tempo porque em sua literatura o que consta é que o espírito não tem sexo e que reencarnamos ora homem, ora mulher, de acordo com o nosso aprendizado/prova/missão na terra. Isso é bem libertador e revolucionário, especialmente, se a gente pensar que se um dia Jesus voltar, seu espírito pode vir num corpo de mulher (talvez isso já tenha acontecido e ninguém tenha lhe dado voz). E as falas e os livros do Chico Xavier também sempre me trouxeram essa visão igualitária e certa paz de espírito. Antes que alguém diga que estou advogando pelo espiritismo vou logo soltar: na prática, nas casas espíritas (as que frequentei pelo menos) não é assim não. As pessoas, no nosso mundinho e na nossa época, ainda usam da sua religião para justificar seus preconceitos. Nunca frequentei nenhuma casa religiosa que recebesse bem os homossexuais ou que não me pedisse resignação com determinadas injustiças relacionadas a preconceitos sociais de gênero ou sexualidade. E sabe aquele desconforto que eu sinto quando minto que não acredito em Deus? Pois é, o desconforto em dizer que Deus compactua com qualquer tipo de preconceito é o mesmo.
Uma pergunta ainda me persegue: preciso abrir mão de Deus pra ser feminista? Preciso abrir mão da minha sexualidade para acreditar em Deus? Por que cargas d'água essas coisas teriam de ser opostas? Por que a mulher, em algumas religiões, é associada ao diabo? Por que a homossexualidade ou a sexualidade feminina muitas vezes são vistas como coisas das trevas? Da mesma forma, por que as religiões de origem africana ou indígena recebem esse mesmo tipo de rótulo? Sério mesmo, se considerarmos bem a nossa história até agora, eu diria que o mal tem se servido muito bem do homem heterossexual branco, que vem liderando um mundo cheio de desigualdade e atrocidades.
Ainda tenho muito para dizer e escrever sobre religiosidade e sexualidade, religiosidade e resignação, religiosidade e militância política. A Júlia já escreveu sobre sexualidade e foi muito legal. No geral, preciso deixar claro que nada justifica intolerância em nenhum âmbito da existência humana. E se Deus existe como eu sinto que existe, preconceitos e injustiças não são criações dele não.
Vou terminar esse post com um vídeo do Chico Xavier sobre sexualidade, gravado nos anos 70 (pasmem!!). E vou dizer mais, o Chico era um cara massa também, massa tipo Jesus, e se ele era homossexual, não tem problema. Nem ele, nem Jesus, nem as Marias e nem ninguém precisa ser assexuado para ser um bom espírito. Sexo e sexualidade, sim, são criações de Deus.
18 de maio de 2012
Categorias
feminismo,
Mazu,
religião,
sexualidade
5
O projeto tem como principal objetivo discutir sexualidade fora das normas culturais conservadoras, desvencilhando-se de preconceitos comuns que persistem na maioria das abordagens sobre o assunto, como a vergonha e o moralismo. O primeiro episódio, por exemplo, apresenta depoimentos de artistas, pesquisadores e ativistas sobre o que eles entendem como sexo, mostrando que sexo se manifesta de diversas formas na sociedade: entre héteros, gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros; na masturbação, na política, na religião e por aí vai.
Não vou nem entrar no mérito daquele famoso clichê: homens que transam com muitas mulheres são garanhões, mulheres que transam com muitos homens são vagabundas. Mas a questão da homossexualidade, por exemplo. O olhar sobre o homossexual como um doente, anormal e sexualmente pervertido é um preconceito consolidado no século XIX por sexólogos e psiquiatras que tentavam desvendar e explicar o que era o homossexual.
por Júlia Neves
Sexo é certamente uma das palavras mais temidas e constrangedoras da sociedade moderna. Embora seja natural, ainda que todo mundo faça, todo mundo pense, todo mundo precise, falar de sexo continua a ser um dos maiores tabus para a maior parte das pessoas. No nosso mundinho, sexo bom (e moralmente correto) é aquele contido na caixinha da tríade casamento-reprodução-heterossexual. É pensando na limitação e opressão desta norma que ativistas políticos de São Francisco, Berlim, Barcelona e São Paulo criaram o projeto [SSEX BBOX] sexuality out of the box (sexualidade fora da caixinha), uma série de documentários na internet sobre diversas formas de sexualidade, da perspectiva de diferentes lugares do mundo.
Sexo é certamente uma das palavras mais temidas e constrangedoras da sociedade moderna. Embora seja natural, ainda que todo mundo faça, todo mundo pense, todo mundo precise, falar de sexo continua a ser um dos maiores tabus para a maior parte das pessoas. No nosso mundinho, sexo bom (e moralmente correto) é aquele contido na caixinha da tríade casamento-reprodução-heterossexual. É pensando na limitação e opressão desta norma que ativistas políticos de São Francisco, Berlim, Barcelona e São Paulo criaram o projeto [SSEX BBOX] sexuality out of the box (sexualidade fora da caixinha), uma série de documentários na internet sobre diversas formas de sexualidade, da perspectiva de diferentes lugares do mundo.
O projeto tem como principal objetivo discutir sexualidade fora das normas culturais conservadoras, desvencilhando-se de preconceitos comuns que persistem na maioria das abordagens sobre o assunto, como a vergonha e o moralismo. O primeiro episódio, por exemplo, apresenta depoimentos de artistas, pesquisadores e ativistas sobre o que eles entendem como sexo, mostrando que sexo se manifesta de diversas formas na sociedade: entre héteros, gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros; na masturbação, na política, na religião e por aí vai.
O meu preferido até agora é o segundo episódio, que discute sexualidade na infância. Um dos pontos mais enfatizados pelos entrevistados é exatamente a ilusão de que crianças estão alheias ao sexo porque são inocentes. A opinião dos especialistas é unânime: melhor ensinar uma criança que é normal sentir desejo sexual do que ensiná-las a ter vergonha. Em vez de ensiná-las que masturbação é pecado, faz mais sentido explicar que faz parte do conhecimento do corpo.
Outras questões abordadas pelos mini-documentários são as relações entre política, religião e sexualidade, mostrando como todos nós somos culturalmente moldados pelos discursos que legitimam sexo somente para a reprodução e após o casamento, é claro. Obviamente temos mais opções e liberdades que outras gerações, mas a questão de sexualidade ainda é tabu em diversos aspectos, pois os discursos que prevaleciam no século XIX, já dizia Foucault, ainda pairam o nosso dia-a-dia.
Não vou nem entrar no mérito daquele famoso clichê: homens que transam com muitas mulheres são garanhões, mulheres que transam com muitos homens são vagabundas. Mas a questão da homossexualidade, por exemplo. O olhar sobre o homossexual como um doente, anormal e sexualmente pervertido é um preconceito consolidado no século XIX por sexólogos e psiquiatras que tentavam desvendar e explicar o que era o homossexual.
Por mais absurdo que isso nos pareça nos dias de hoje, esta forma de ver a homossexualidade – como uma aberração – tornou-se tão naturalizada que é frequentemente reproduzida através de comentários que, teoricamente, seriam pró-homossexualidade. Quem nunca escutou a frase: “Não tenho nada contra gays, mas que não se beijem na minha frente”? Este é um comentário homofóbico sim, pois o motivo de estas pessoas não quererem ver homossexuais se beijando é o preconceito de que a homossexualidade é anormal e, de certa forma, errada.
O [SSEX BBOX] é um projeto extremamente politizado que busca, de fato, quebrar preconceitos e tabus que circulam entre nós. Os documentários mostram que é possível viabilizar diferentes formas de pensar a sexualidade através da educação sexual, ressaltando que há inúmeras maneiras de entender, expressar, praticar e desejar sexo. Os depoimentos dos vídeos são inteligentes, acessíveis e levantam debates importantes sobre o assunto. Até agora, a equipe já produziu quatro episódios, que podem ser encontrados no vimeo, e produzirão mais dez entre janeiro e novembro de 2012. O quinto estreia dia 4 de junho em São Francisco. Esperemos ansiosamente.
---
Júlia Neves nasceu em Brasília e, desde 2008, vive na Alemanha. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, atualmente é doutoranda em Literatura e Cultura Inglesas na Humboldt-Universität zu Berlin. Desde o mestrado, também cursado em Berlim, ela se dedica a pesquisas sobre representações de homossexualidade e de Londres nas obras dos escritores britânicos Sarah Waters e Alan Hollinghurst. Suas principais áreas de interesse são literatura, línguas, séries de televisão, cinema, teorias pós-colonial, queer, de gênero e feminista.
---
Júlia Neves nasceu em Brasília e, desde 2008, vive na Alemanha. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, atualmente é doutoranda em Literatura e Cultura Inglesas na Humboldt-Universität zu Berlin. Desde o mestrado, também cursado em Berlim, ela se dedica a pesquisas sobre representações de homossexualidade e de Londres nas obras dos escritores britânicos Sarah Waters e Alan Hollinghurst. Suas principais áreas de interesse são literatura, línguas, séries de televisão, cinema, teorias pós-colonial, queer, de gênero e feminista.
16 de maio de 2012
Categorias
ativismo político,
cinema,
Guest Post,
homossexualidade,
sexo,
sexualidade
9
Pois é, mas são diversos os casos que mostram que a liberdade de expressão é mobilizada para escamotear a revolta de uma porção da população que nunca teve que se haver com os limites dos seus privilégios. Um caso exemplar é o do comediante Marcelo Tas, que, apesar de fazer um programa que critica deus e todo o mundo, não aceitou ser criticado e - pasmem - ameaçou processar uma blogueira. Seletiva essa tal liberdade de expressão.
O mesmo se aplica aos tchuchucos Danilo Gentili e Rafael Bastos. Como diz este ótimo texto, o politicamente incorreto que os dois "comediantes" tanto proclamam beira o fascismo.
Danilo Gentili pede desculpas pela piada antissemita, mas o caso da piada racista é arquivado, e até onde eu sei não houve retratação pública. Contra negros pode, contra judeus (de Higienópolis) não pode.
É isso que em inglês é conhecido como padrões duplos (double standards), isto é, quando uma regra ou código de conduta é aplicado de maneira inconsistente dependendo dos atores sociais envolvidos. O conceito de padrões duplos é, aliás, muito útil nos estudos de gênero:
por Roberta Gregoli
Já falei um pouco das brigas que tenho comprado por não ficar quieta quando ouço piadas preconceituosas. Daí quem contou a piada normalmente lança mão da carta curinga da liberdade de expressão. Engraçado mesmo é que a esses defensores ferrenhos da liberdade de expressão não ocorre que - surpresa - o direito não é só deles. Eles têm o direito de falar o que quiserem (menos incitar o ódio, que é, sim, crime) assim como os outros têm o direito de reclamar, registrar denúncias se for o caso de preconceito, etc. Não parece óbvio?
Não posso mais falar o que quiser sem ser criticado
|
Discurso de ódio não é
liberdade de expressão |
Numa distorção perversa, a liberdade de expressão, tão cara à democracia, é usada para defender opressores e atacar progressistas.
O mesmo se aplica aos tchuchucos Danilo Gentili e Rafael Bastos. Como diz este ótimo texto, o politicamente incorreto que os dois "comediantes" tanto proclamam beira o fascismo.
Padrões duplos
Rafael Bastos foi demitido, não pela piada do estupro, mas pela piada contra Wanessa Camargo. Por quê? Porque o marido dela é amigo da galera do CQC. Veja mais detalhes neste brilhante post. Piada contra mulheres pode, contra a esposa de amigo (poderoso) não pode.Danilo Gentili pede desculpas pela piada antissemita, mas o caso da piada racista é arquivado, e até onde eu sei não houve retratação pública. Contra negros pode, contra judeus (de Higienópolis) não pode.
É isso que em inglês é conhecido como padrões duplos (double standards), isto é, quando uma regra ou código de conduta é aplicado de maneira inconsistente dependendo dos atores sociais envolvidos. O conceito de padrões duplos é, aliás, muito útil nos estudos de gênero:
![]() |
| Uma época eu achei que era uma vadia, mas então me dei conta que só estava agindo como um homem |
Muitas vezes o conceito de padrões duplos é usado impropriamente: "ah, se tem camiseta '100% negro', por que não '100% branco'"? Isso não é um padrão duplo, é babaquice. É como se indignar por não ter um acompanhamento para o seu caviar enquanto o vizinho morre de fome. Como já falei um pouco aqui, não é preciso afirmar identidades privilegiadas simplesmente porque o mundo já é feito por e para elas. Apesar de toda a vitimização dos "pobres" "comediantes" em questão, insistir em afirmar essas identidades é uma maneira perversa de afirmar a opressão.
14 de maio de 2012
Categorias
fascismo,
liberdade de expressão,
opressão,
padrões duplos,
Roberta
1
O diretor D. W. Griffith lançou, em 1915, o filme O nascimento de uma nação, que gerou diversos protestos devido ao seu conteúdo racista. Até hoje esse fato é mencionado. Quando cito a frase do Millôr acima, me respondem que ele estava sendo irônico. A reação é sempre de minimizar, negar, descreditar. A questão, então, é por que temos tanta dificuldade em encarar que artistas, ainda que brilhantes, sejam - para usar um eufemismo - figuras controversas?
Na época da disputa entre França e Estados Unidos sobre a extradição do Roman Polanski, li um artigo muito interessante que dizia que:
Soa familiar?
É simples: opiniões distintas coexistindo e sendo discutidas respeitosamente é democrático. Tentar impor opiniões com hostilidade, sem conteúdo ou lógica, é autoritário.
Consenso absoluto só é alcançado através do autoritarismo. O dissenso está no cerne da democracia. Importante é discordar sem gerar ódio, alimentar preconceitos e respeitando sensibilidades.
O que me parece muito grave é a perversidade de distorções como essa e outras parecidas: uma palavra tão carregada quanto censura é usada contra os que levantaram a discussão sobre racismo na obra de Monteiro Lobato (registrando um pedido para análise do Conselho Nacional da Educação, ou seja, um procedimento totalmente democrático).
E não se esqueçam dos que juram que as cotas raciais vêm introduzir o racismo no Brasil. Vamos negar todas as estatísticas que provam a total predominância da discriminação e voltar a celebrar o mito da democracia racial. Se isso não é perverso, me diga o que é.
É nessas horas que acho que ainda nem começamos a questionar as consequências da ditadura no Brasil. Ainda nos enrolamos com conceitos fundamentais como censura, liberdade de expressão, resistência, dissenso, respeito - todos fundamentais para o exercício pleno da democracia.
A hostilidade imediata dos que respondem a qualquer resistência, seja ela de feministas, representantes do movimento negro, etc, mostra que ainda hoje faltam espaços para a discussão de ideias e sobram tentativas de impor o "bom senso" (que na maioria das vezes é outro nome para o senso comum preconceituoso) de maneira autoritária e virulenta.
por Roberta Gregoli
Tenho comprado muita briga por não ficar quieta quando ouço piadas machistas e sexistas. A última foi com relação a uma crônica do Luís Fernando Veríssimo, que termina com o marido dizendo que vai dar uma surra na esposa. Eu disse para a pessoa que postou a piada que banalizar a violência doméstica não tinha graça, pelo menos não para as 7,2 milhões de mulheres que já foram agredidas no Brasil.
Outra pessoa entrou na discussão e, indignadíssima, disse que mais grave que a violência contra as mulheres era a minha falta de bom senso. Essa afirmação, em si, já é obviamente perversa. Ainda assim, pedi que o cidadão me iluminasse. Notei então que o argumento dele se baseava em dois pontos: 1) que o Veríssimo era magnífico e 2) em insultos pessoais, ex. eu não entendi "nada" e o meu posicionamento (ignorante) era perigoso, quase fascista (!).
Pois bem, podemos subverter o argumento dele por partes:
![]() |
| Violência doméstica é tão engraçado |
![]() |
| A cada 2 minutos, 5 mulheres agredidas |
Pois bem, podemos subverter o argumento dele por partes:
A arte da opressão
O fato de um escritor ser considerado bom - e aqui vale lembrar que nenhum cânone é imparcial - nada tem a ver com seu posicionamento político. Pode espernear, mas o fato é que Monteiro Lobato era racista e Millôr Fernandes, Henfil, Paulo Francis, Jorge Benjor (só para citar alguns nomes) eram abertamente machistas.Causa uma tremenda indignação dizer que as mulheres, em média, são menos inteligentes do que os homens, mas acontece que isso é verdade.
Millôr Fernandes, 'Barbarelas', O Pasquim, n. 27, dez. 1969
O diretor D. W. Griffith lançou, em 1915, o filme O nascimento de uma nação, que gerou diversos protestos devido ao seu conteúdo racista. Até hoje esse fato é mencionado. Quando cito a frase do Millôr acima, me respondem que ele estava sendo irônico. A reação é sempre de minimizar, negar, descreditar. A questão, então, é por que temos tanta dificuldade em encarar que artistas, ainda que brilhantes, sejam - para usar um eufemismo - figuras controversas?
Na época da disputa entre França e Estados Unidos sobre a extradição do Roman Polanski, li um artigo muito interessante que dizia que:
Na França, os artistas e intelectuais são deuses seculares, tratados com deferência em qualquer circunstância, tenham lá cometido roubos (Jean Genet), feito panfletagem antissemita (Louis-Ferdinand Céline) e estrangulado a mulher (Louis Althusser).Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo, 10/10/2009
Soa familiar?
Democracia e/ou Autoritarismo
Não entendi direito por que o moço da história do Veríssimo me chamou de fascista (ele não conseguiu articular direito o argumento), mas o curioso foi que, ao tentar me silenciar sem muita coerência, ele fez justamente o que condenava.É simples: opiniões distintas coexistindo e sendo discutidas respeitosamente é democrático. Tentar impor opiniões com hostilidade, sem conteúdo ou lógica, é autoritário.
Consenso absoluto só é alcançado através do autoritarismo. O dissenso está no cerne da democracia. Importante é discordar sem gerar ódio, alimentar preconceitos e respeitando sensibilidades.
O que me parece muito grave é a perversidade de distorções como essa e outras parecidas: uma palavra tão carregada quanto censura é usada contra os que levantaram a discussão sobre racismo na obra de Monteiro Lobato (registrando um pedido para análise do Conselho Nacional da Educação, ou seja, um procedimento totalmente democrático).
E não se esqueçam dos que juram que as cotas raciais vêm introduzir o racismo no Brasil. Vamos negar todas as estatísticas que provam a total predominância da discriminação e voltar a celebrar o mito da democracia racial. Se isso não é perverso, me diga o que é.
É nessas horas que acho que ainda nem começamos a questionar as consequências da ditadura no Brasil. Ainda nos enrolamos com conceitos fundamentais como censura, liberdade de expressão, resistência, dissenso, respeito - todos fundamentais para o exercício pleno da democracia.
A hostilidade imediata dos que respondem a qualquer resistência, seja ela de feministas, representantes do movimento negro, etc, mostra que ainda hoje faltam espaços para a discussão de ideias e sobram tentativas de impor o "bom senso" (que na maioria das vezes é outro nome para o senso comum preconceituoso) de maneira autoritária e virulenta.
12 de maio de 2012
Categorias
arte,
autoritarismo,
cânone,
ditadura,
fascismo,
humor,
liberdade de expressão,
opressão,
Roberta
8
Para os homens, isso significaria licença paternidade decente (5 dias serve para quê?), se libertar do fardo do papel de provedor, poder gostar e fazer coisas tipicamente tidas como femininas (roupas, comédias românticas, ter vaidade, etc), poder escolher trabalhar em casa, e assim por diante.
É claro que o poder da cultura é tão forte e profundo que, mesmo sem querer, todxs estão sujeitxs a reproduzir ideias opressoras. É por isso que não basta não querer ser machista - é preciso estar continuamente pensando gênero de maneira crítica.
Por isso, proponho: Subverta-se!
por Roberta Gregoli
Ano passado participei de um simpósio na London School of Economics sobre masculinidade e guerra. Depois de uma das apresentações, alguém da plateia questionou por que era normal vermos cidadãos reivindicando direitos de imigrantes ou ocidentais defendendo a Palestina, por exemplo, mas muito difícil vermos homens feministas. Isso me fez pensar.
Primeiro, vamos deixar claro, ainda que não tão visíveis, existem sim, homens feministas. Acho também que não é assim tão comum ver um apoio forte a causas alheias. Quanto maior a tensão e as diferenças sociais, mais difícil a identificação com uma causa. Num país racista, por exemplo, é menos comum que brancos defendam o direito dos não-brancos.
Ano passado participei de um simpósio na London School of Economics sobre masculinidade e guerra. Depois de uma das apresentações, alguém da plateia questionou por que era normal vermos cidadãos reivindicando direitos de imigrantes ou ocidentais defendendo a Palestina, por exemplo, mas muito difícil vermos homens feministas. Isso me fez pensar.
Primeiro, vamos deixar claro, ainda que não tão visíveis, existem sim, homens feministas. Acho também que não é assim tão comum ver um apoio forte a causas alheias. Quanto maior a tensão e as diferenças sociais, mais difícil a identificação com uma causa. Num país racista, por exemplo, é menos comum que brancos defendam o direito dos não-brancos.
O abismo que nos separa
Isso leva imediatamente ao cerne da questão. A divisão entre os sexos é uma das mais profundas que experienciamos. Desde antes do nascimento (com os pais correndo para saber o sexo do bebê aos 3 meses de gestação), já somos divididos entre mulheres e homens. A partir daí essa divisão só é reforçada: roupas, cores, brinquedos, comportamentos e sentimentos ensinados como apropriados, profissões, salários, papéis na família.
A diferença social construída entre mulheres e homens é abismal e, mais importante, tida como natural. Para o feminismo, a natureza tem um papel bastante limitado nessa equação. Há discussões interessantíssimas sobre como o gênero - e mesmo o sexo - são constructos sociais e históricos.
A diferença social construída entre mulheres e homens é abismal e, mais importante, tida como natural. Para o feminismo, a natureza tem um papel bastante limitado nessa equação. Há discussões interessantíssimas sobre como o gênero - e mesmo o sexo - são constructos sociais e históricos.
À ideia de que mulheres e homens são naturalmente diametralmente diferentes, somamos que o feminismo é muitas vezes reduzido à ideia de competição. Na velha novela da guerra entre os sexos, as feministas querem "ser homens" ou "dominar os homens". Dentro dessa lógica babaca, homens feministas estariam aceitando e defendendo a dominação feminina. Ignorância brutal. O que nós, feministas, queremos é outra coisa.
Uma versão extrema dessa lógica são os grupos "masculinistas" (que nada mais são que grupos de ódio). O primeiro problema é que esses grupos pressupõem que a igualdade já existe, o que não é verdade. Não é preciso defender os direitos daqueles que já têm seus direitos assegurados e isso vale também para o dia do orgulho hétero, da consciência branca, etc. O mundo é feito por e para homens brancos heterossexuais. Qualquer afirmação dessas identidades privilegiadas é um desrespeito às minorias que lutam por um mínimo de justiça e equidade.
Uma versão extrema dessa lógica são os grupos "masculinistas" (que nada mais são que grupos de ódio). O primeiro problema é que esses grupos pressupõem que a igualdade já existe, o que não é verdade. Não é preciso defender os direitos daqueles que já têm seus direitos assegurados e isso vale também para o dia do orgulho hétero, da consciência branca, etc. O mundo é feito por e para homens brancos heterossexuais. Qualquer afirmação dessas identidades privilegiadas é um desrespeito às minorias que lutam por um mínimo de justiça e equidade.
Como os homens se beneficiam com o feminismo
O "masculinismo" ignora que o feminismo, ao subverter as categorias de gênero, liberta também os homens para ocuparem outros papéis sociais, e demanda que instituições criem políticas e ações mais igualitárias para os dois sexos.
Para os homens, isso significaria licença paternidade decente (5 dias serve para quê?), se libertar do fardo do papel de provedor, poder gostar e fazer coisas tipicamente tidas como femininas (roupas, comédias românticas, ter vaidade, etc), poder escolher trabalhar em casa, e assim por diante.
Nenhum homem vive isolado. Direitos iguais significam mais respeito e oportunidades para as mulheres que os homens amam: esposas, companheiras, mães, filhas, amigas, familiares. Como é criar uma filha sabendo que, por mais oportunidades de estudos que possamos oferecer, ela ganhará 30% menos que um homem? E que estará muito mais propensa a sofrer violência física de seu companheiro?
Ou criar um filho sabendo que ele pode ser agredido e expulso da escola por dançar balé e que terá 4 vezes mais chances de morrer durante a juventude?
Ou criar um filho sabendo que ele pode ser agredido e expulso da escola por dançar balé e que terá 4 vezes mais chances de morrer durante a juventude?
Não é verdade que os homens não querem mudar.
É verdade que muitos homens têm medo de mudar.
É verdade que uma infinidade de homens sequer
começaram a entender como o patriarcado os impede
de conhecerem a si mesmos, de estarem em contato
com os seus sentimentos, de amarem.
bell hooks, The Will to Change: Men, Masculinity and Love, p. xvii (minha tradução)
É claro que o poder da cultura é tão forte e profundo que, mesmo sem querer, todxs estão sujeitxs a reproduzir ideias opressoras. É por isso que não basta não querer ser machista - é preciso estar continuamente pensando gênero de maneira crítica.
Por isso, proponho: Subverta-se!
10 de maio de 2012
Categorias
desmistificando,
feminismo,
homens,
masculinismo,
Roberta












