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Traduzido daqui.
por Roberta Gregoli
"Repórter: Tenho uma pergunta para o Robert e uma para a Scarlett. Primeiro, Robert, em Homem de Ferro 1 e 2, Tony Stark começa como uma personagem egoísta, mas aprende a lutar em equipe. Então como você abordou esse papel, levando em consideração essa maturidade como ser humano quando se trata da personagem Tony Stark, e você aprendeu alguma coisa nos três filmes?
E para a Scarlett, para entrar em forma para a Viúva Negra você teve que fazer algo diferente em relação à sua dieta, tipo, você teve que comer algum tipo específico de comida ou qualquer coisa assim?
Scarlett [para Robert]: Por que para você fazem uma pergunta existencial super interessante e para mim vem a pergunta da "comida de passarinho"?
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O respeito dado a você se você é homem na indústria de entretenimento e o respeito dado a você se você é mulher na indústria de entretenimento: tudo perfeitamente resumido na pergunta idiota do repórter."
Traduzido daqui.
28 de maio de 2012
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cinema,
humor,
padrões duplos,
Roberta
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por Mazu
De qualquer forma, essa brincadeira com o Ryan Gosling e a busca frenética pela cantada perfeita traz algumas coisas à tona. A primeira é que o cortejo parece ser unicamente obrigação do macho, o que é uma bobagem, né? Socialmente imposta e uma super bobagem. Isso, às vezes, é massa para as meninas porque quando você toma a iniciativa, você já quase tem o elemento surpresa a seu favor. Outra coisa, será que existe mesmo receita do que dizer quando você está a fim de alguém? Esse negócio de negs, cartolas e enfim, será que rola mesmo tanta vantagem e tanto resultado? Estou me referindo aqui a livros como Mistery Method e todos os similares. Na boa, as idéias chegam mesmo à misoginia. Eu queria ter estômago para esses livros, ia ser legal colocar uma crítica no blog, mas me dá uma tristeza profunda, quem sabe outra subvertida não tenta. Sob meu ponto de vista, esses livros com receitas mágicas servem para tirar dinheiro de gente só e de coração partido por aí, o que é super golpe baixo. Além disso, as ditas obras costumam, tristemente, tratar mulher como coisa, além de querer quantificar as conquistas, o que, de verdade, é patético, patético. Ou seja, disseminam um discurso machista e ensinam qualquer um com solidão ou coração partido a maltratar e odiar as mulheres.
por Mazu
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| Ei, gata! Quando você fala, eu escuto a revolução (Aí sim, as mina pira...) |
Eu vejo muito em programas de TV e nos blogs da vida os meninos desenvolvendo teorias do que dizer para as meninas, sendo que a maioria delas é bem horrível, algumas horríveis e absurdas e outras horríveis e engraçadas.
Para contrabalancear e deixar a companheirada feliz, resolvi trazer algumas fotinhas do Feminist Ryan Gosling, um tumblr, já mencionado no nosso blog pela Rô, que tem como objetivo popularizar teorias feministas por flashcards que, na verdade, não tem nada a ver com o ator na vida real.
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| Ei, gata. Para mim, é difícil conceber a teoria de Beauvoir sobre a genialidade feminina perdida quando estou perto de você |
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| Ei, gata! Vamos fazer uma análise retórica do seu quarto. |
De qualquer forma, essa brincadeira com o Ryan Gosling e a busca frenética pela cantada perfeita traz algumas coisas à tona. A primeira é que o cortejo parece ser unicamente obrigação do macho, o que é uma bobagem, né? Socialmente imposta e uma super bobagem. Isso, às vezes, é massa para as meninas porque quando você toma a iniciativa, você já quase tem o elemento surpresa a seu favor. Outra coisa, será que existe mesmo receita do que dizer quando você está a fim de alguém? Esse negócio de negs, cartolas e enfim, será que rola mesmo tanta vantagem e tanto resultado? Estou me referindo aqui a livros como Mistery Method e todos os similares. Na boa, as idéias chegam mesmo à misoginia. Eu queria ter estômago para esses livros, ia ser legal colocar uma crítica no blog, mas me dá uma tristeza profunda, quem sabe outra subvertida não tenta. Sob meu ponto de vista, esses livros com receitas mágicas servem para tirar dinheiro de gente só e de coração partido por aí, o que é super golpe baixo. Além disso, as ditas obras costumam, tristemente, tratar mulher como coisa, além de querer quantificar as conquistas, o que, de verdade, é patético, patético. Ou seja, disseminam um discurso machista e ensinam qualquer um com solidão ou coração partido a maltratar e odiar as mulheres.
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| Ei, gata. A fetichização pós-feminista da maternidade está profundamente enraizada no classismo, mas ainda acho que faríamos lindos bebês. |
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| Ei, gata. Sim significa sim. |
Falar com uma pessoa do sexo oposto sobre seus desejos não devia ser tão complicado. A dica que deixo pros amigos que querem "aprender" a falar com mulher é que não existe um tipo só de mulher. Existem várias personalidades que vão gostar de escutar isso ou aquilo, e mais um monte que vão dizer assim ou assado. Com sorte, a gente encontra quem gosta de ouvir / dizer o mesmo que a gente. Na prática, nem sempre é tão perfeito assim, mas nada justifica nenhum ato (verbal ou não) de violência ou desrespeito. Nem a solidão. Na boa, ficar sozinho numa sociedade como a nossa não devia ser um problema.
Parece até que sexo é uma espécie de tesouro que as mulheres devem guardar e proteger, e que cabe aos caras conquistar. A Rô quando mencionou o abismo que separa os gêneros num post anterior estava coberta de razão, a gente está sempre querendo ganhar um do outro. Quando é bem mais massa um com outro e um no outro e por aí vai...
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Dizem as más línguas que feministas não têm senso de humor, que são raivosas. Primeiro pergunto, quem não ficaria pelo menos chatead@ ao constatar a realidade: salário 30% menor, violência contra as mulheres que só aumenta, menos de 9% de representação no congresso e menos de 14% no senado, 34% dos cargos de chefia apesar de sermos a maioria (57%) nas universidades e assim por diante. É de rir à toa.
por Roberta Gregoli
Dizem as más línguas que feministas não têm senso de humor, que são raivosas. Primeiro pergunto, quem não ficaria pelo menos chatead@ ao constatar a realidade: salário 30% menor, violência contra as mulheres que só aumenta, menos de 9% de representação no congresso e menos de 14% no senado, 34% dos cargos de chefia apesar de sermos a maioria (57%) nas universidades e assim por diante. É de rir à toa.
Mas normalmente quando dizem que não temos senso de humor é pelo fato de não ficarmos caladas quando ouvimos piadas desrespeitosas. Aí sempre tem sempre um@ que responde dizendo que é só uma piada, que não tem nada demais. Tenho estudado humor e me sinto à vontade para afirmar categoricamente: não existe humor inofensivo. Ou se está transgredindo, ou reforçando o status quo.
Pensando nisso, decidi fazer um breve catálogo das categorias de piadas sexistas que tenho visto na rede para um exame mais de perto:
Pensando nisso, decidi fazer um breve catálogo das categorias de piadas sexistas que tenho visto na rede para um exame mais de perto:
1) Piadas que afirmam o comportamento "natural" das mulheres
Que as mulheres gastam o dinheiro dos maridos, falam demais, são vaidosas, superficiais e fúteis, etc.
O intuito dessas piadas é, pura e simplesmente, ridicularizar comportamentos tidos como femininos, ou seja, ridicularizar as mulheres. Essa categoria, apesar de parecer light, justifica atitudes paternalistas de menosprezo e desqualificação ao reforçar estereótipos que estão longe de ser verdade para muitas, senão a maioria de nós.
O intuito dessas piadas é, pura e simplesmente, ridicularizar comportamentos tidos como femininos, ou seja, ridicularizar as mulheres. Essa categoria, apesar de parecer light, justifica atitudes paternalistas de menosprezo e desqualificação ao reforçar estereótipos que estão longe de ser verdade para muitas, senão a maioria de nós.
Quem divulga estas piadas não são só homens, é claro. Como diria uma colega, você sabe que está numa luta difícil quando metade do seu time está contra você. Mulheres muitas vezes promovem esse tipo de humor sem muita reflexão. A piada ao lado, por exemplo, foi compartilhada por uma mulher que sei que sustenta a casa, inclusive o marido, há décadas. Qual a graça em se autodenegrir, sendo que o que é afirmado nem é verdade?
2) Piadas que reforçam o comportamento "adequado" das mulheres
As piadas desta categoria normalmente ridicularizam mulheres que desviam do comportamento considerado adequado (leia-se conservador), normalmente com relação à sexualidade.
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| Exemplo clássico de reforço de padrão duplo |
Comportamentos "adequados" são, claro, comportamentos opressores: tentativas de controlar o que as mulheres vestem, falam, quantos parceiros têm e assim por diante.
Ao sobrepor a categoria 1 à categoria 2, notamos algo curioso. Se nos conformamos aos estereótipos de gênero, somos ridicularizadas, se quebramos com eles... somos ridicularizadas. Em outras palavras, não há lugar de respeito possível para as mulheres dentro da nossa sociedade atual.
3) Piadas que banalizam a violência contra as mulheres
A crônica do Veríssimo comentada num post anterior entra nesta categoria e é aqui que as coisas podem ficar bem feias. Um dos piores exemplos que vi nos últimos tempos foi este.
O que todas essas categorias fazem, e a categoria 3 faz mais nitidamente, é naturalizar o desrespeito através da ridicularização. E o desrespeito simbólico é o primeiro passo para a violência real.
Recentemente, com a Marcha das Vadias, muito se têm falado sobre a prática cruel e onipresente de se culpar as vítimas: a sociedade ensina "não seja estuprada" e não "não estupre". Todas essas piadas, e em especial a desta categoria, são exemplos de como o estupro e a violência contra as mulheres, ao serem banalizados são, por consequência, ensinados, pois naturalizam a violência de gênero. Por "naturalizar" entenda-se tornar algo normal e aceitável, afinal é essa a premissa para se achar algo engraçado.
Não se cale
A acusação de não ter senso de humor é um mecanismo de silenciamento, por isso não se deixe intimidar. E digo mais, esse tipo de piada deveria, sim, ser tabu e isso nada tem a ver com liberdade de expressão ou censura (já discuti isso aqui e aqui). Fazer uma piada sobre o Holocausto para um alemão é inaceitável. Isso porque os alemães encararam de frente os crimes cometidos no passado e os levam a sério. Da mesma forma, piadas sobre a violência contra as mulheres deveriam ser tabu -- afinal, foram mais de 90 mil vítimas nas últimas três décadas, colocando o Brasil como o sétimo país que mais mata mulheres no mundo.
Ridicularizar as mulheres por se conformarem ou não ao senso comum, banalizar o estupro e a violência não têm graça nenhuma e devemos denunciar. Existe um mecanismo governamental para registrar cybercrimes: basta acessar http://denuncia.pf.gov.br/ (discriminação entra como Crimes de Ódio). Leva menos de um minuto para fazer uma denúncia anônima, por isso não deixem de reguistrar qualquer site que passe dos limites.
Por fim, para esclarecer, feministas não só têm senso de humor como são engraçadas: veja o ativismo inteligente e lúdico das Guerrilla Girls, o já citado Feminist Ryan Rosling e comediantes de primeiro escalão como Margaret Cho (este vídeo é demais) e Kristen Wiig, só para citar alguns exemplos.
A dica, então, é compartilhar humor do bem, humor que é, de verdade, transgressor por desestabilizar os papeis de gênero -- diferente dos que reforçam comportamentos opressores sob o pretexto perverso do politicamente incorreto.
A dica, então, é compartilhar humor do bem, humor que é, de verdade, transgressor por desestabilizar os papeis de gênero -- diferente dos que reforçam comportamentos opressores sob o pretexto perverso do politicamente incorreto.
24 de maio de 2012
Categorias
humor,
padrões duplos,
Roberta
4
É a questão do ovo e da galinha, realmente. No entanto, vindo de uma base acadêmica dos estudos culturais, defendo que a arte representa sim a vida. Mas é a vida que imita a arte. Tenho forte convicção de que é a mídia (e nesta incluo tudo, música, literatura, artes plásticas, imprensa, publicidade, etc.) que dissemina discursos e, sendo assim, estereótipos e preconceitos também. Para nós dos estudos culturais, a representação de classe social, etnia, gênero e sexualidade na indústria cultural é fundamental para o entendimento de qualquer sociedade, pois parte-se do princípio de que nós, seres humanos, somos esponjas e absorvemos todo o tempo aquilo que vemos, escutamos e aprendemos em nossa volta.
O depoimento de Newsom é a base para o enredo do documentário. Ela, que já foi atriz e hoje é diretora de cinema, conta sobre seus conflitos, dificuldades e desafios como mulher, principalmente sobre a pressão de ser constantemente julgada por sua beleza e não pelo seu intelecto. Eu, particularmente, achei esta base um tanto dramática. Embora entenda a problemática da aparência física, achei a fala dela muito emocional; um discurso com questões verdadeiras e comum a muitas mulheres, porém um tanto vitimizado.
Não conheço nenhum documentário que discuta isso na mídia brasileira. Seria um prato cheio, olhar de perto como as novelas representam gênero e sexualidade, por exemplo. As novelas, banalizadas por muitos, são uma das maiores fontes de cultura popular no Brasil. Muita gente diz que não vê, que acha uma bobagem, mas todo mundo conhece a história, os personagens, as intrigas. E as mulheres geralmente representam os mesmos papeis: são ou vilãs ou mocinhas; na maior parte das vezes são lindas e gostosas (padrão nacional) e fazem de tudo para ficar com o príncipe encantado. Quando bem-sucedidas, são geralmente de mau caráter ou então Virgens Marias.
por Júlia Neves
Andando por um mercado de rua aqui em Berlim, me deparei com uma roupinha de bebê que dizia "got my looks from my mom and the brain from my dad" (tenho o físico da minha mãe e o cérebro do meu pai). Na hora, já reclamei com um amigo que me acompanhava no passeio: "é sempre assim, a beleza é feminina, a inteligência, masculina. Depois não sabem de onde vem estes preconceitos grotescos. É a vida imitando a arte". Ao escutar isso, meu amigo ficou aguçado e quase instantaneamente disse: "Que isso! É a arte que imita a vida!"
Andando por um mercado de rua aqui em Berlim, me deparei com uma roupinha de bebê que dizia "got my looks from my mom and the brain from my dad" (tenho o físico da minha mãe e o cérebro do meu pai). Na hora, já reclamei com um amigo que me acompanhava no passeio: "é sempre assim, a beleza é feminina, a inteligência, masculina. Depois não sabem de onde vem estes preconceitos grotescos. É a vida imitando a arte". Ao escutar isso, meu amigo ficou aguçado e quase instantaneamente disse: "Que isso! É a arte que imita a vida!"
É a questão do ovo e da galinha, realmente. No entanto, vindo de uma base acadêmica dos estudos culturais, defendo que a arte representa sim a vida. Mas é a vida que imita a arte. Tenho forte convicção de que é a mídia (e nesta incluo tudo, música, literatura, artes plásticas, imprensa, publicidade, etc.) que dissemina discursos e, sendo assim, estereótipos e preconceitos também. Para nós dos estudos culturais, a representação de classe social, etnia, gênero e sexualidade na indústria cultural é fundamental para o entendimento de qualquer sociedade, pois parte-se do princípio de que nós, seres humanos, somos esponjas e absorvemos todo o tempo aquilo que vemos, escutamos e aprendemos em nossa volta.
O problema é quando se cria um produto cultural de acordo com a repetição de estereótipos e preconceitos de todos os tipos, enfatizando um discurso já estabelecido e deixando pouco espaço para novas representações culturais. O documentário da diretora Jennifer Siebel Newsom, Miss Representation (com legendas em português), critica exatamente este modelo de representação de mulheres e meninas na mídia norte-americana. Em seu filme, Newsom questiona a excessiva objetificação e sexualização de mulheres na televisão, em filmes, na imprensa e em propagandas com depoimentos de mulheres importantes para a política e cultura americanas, como a ex-secretária de Estado Condoleezza Rice, a atriz Geena Davis e a comediante Margaret Cho.
O depoimento de Newsom é a base para o enredo do documentário. Ela, que já foi atriz e hoje é diretora de cinema, conta sobre seus conflitos, dificuldades e desafios como mulher, principalmente sobre a pressão de ser constantemente julgada por sua beleza e não pelo seu intelecto. Eu, particularmente, achei esta base um tanto dramática. Embora entenda a problemática da aparência física, achei a fala dela muito emocional; um discurso com questões verdadeiras e comum a muitas mulheres, porém um tanto vitimizado.
Mesmo assim, recomendo o documentário pelas entrevistas e pela discussão da representação midiática de mulheres que é sempre extremamente sexualizada e focada na aparência: as mulheres devem ser bonitas para que os homens possam admirá-las. Mas quando uma mulher mostra intelecto, ela é ridicularizada e alvo de piadas, é a escrota do pedaço. É o que acontece com a Hilary Clinton, com a própria Condoleezza Rice e, no Brasil, com a presidenta Dilma Rousseff. Quantas vezes não ouvi piadas que ridicularizam a presidenta por ela ser mulher: "é mal comida", "sapata", "divorciada" e por aí vai. Ou então que ela não manda, é a secretária do ex-presidente Lula; assim como Hilary Clinton só entrou na política por conta de seu marido:
O documentário de Newsom critica este tipo de misrepresentation (má representação) que circula de diversos modos na indústria cultural, em qualquer lugar do mundo, seja nos Estados Unidos, na Alemanha ou no Brasil. Na mídia, encontramos predominantemente imagens de mulheres sensuais, frágeis, em busca de um marido/provedor e, quando elas são intelectuais ou poderosas, geralmente esta imagem é passada de forma negativa. Por conta disso, há uma falta enorme de imagens de liderança feminina na mídia, já que esta posição acaba sendo ridicularizada, como mostra a foto acima.
Em alguns de seus posts aqui no Subvertidas, a Roberta comentou sobre os comentários infelizes de celebridades brasileiras relacionados ao estupro e ao abuso de mulheres. Por mais que várias pessoas acreditem que o humor politicamente incorreto é inofensivo, estas representações preconceituosas de mulheres, negros, homossexuais e pobres consolidam-se e, pior ainda, tornam-se naturalizadas no nosso dia-a-dia, reforçando mesmo os piores estereótipos.
Não conheço nenhum documentário que discuta isso na mídia brasileira. Seria um prato cheio, olhar de perto como as novelas representam gênero e sexualidade, por exemplo. As novelas, banalizadas por muitos, são uma das maiores fontes de cultura popular no Brasil. Muita gente diz que não vê, que acha uma bobagem, mas todo mundo conhece a história, os personagens, as intrigas. E as mulheres geralmente representam os mesmos papeis: são ou vilãs ou mocinhas; na maior parte das vezes são lindas e gostosas (padrão nacional) e fazem de tudo para ficar com o príncipe encantado. Quando bem-sucedidas, são geralmente de mau caráter ou então Virgens Marias.
O meio termo é raridade, pois não há espaço para mulheres que não se encaixam nesses padrões e, muito menos, para a representação de outros modelos de feminilidade que não estejam limitados a tais categorias. Esses discursos proliferam-se com tanta naturalidade que nós mesmos reproduzimos vários dos comportamentos representados na telinha. E é aí que passamos a achar normal uma roupa de bebê atribuir beleza à mãe e a inteligência ao pai.
22 de maio de 2012
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4
por Tággidi Ribeiro
Há relativamente pouco tempo, eu comecei a olhar de forma muito diferente para as mulheres. Eu havia desde sempre sido um tanto quanto antipática a elas, ao passo que me dava muito bem com os homens, minhas companhias preferidas em todas as ocasiões. Havia, na minha trajetória, feito boas amigas, mas poucas. Havia conhecido mulheres em minha opinião interessantes, mas poucas. Tinha, no geral, pouco apreço pelo meu próprio gênero, que eu julgava dedicado em demasia à conquista da beleza e do casamento, invejoso, dado a picuinhas.
Que haja mulheres que se encaixem nesse estereótipo não é de estranhar. Como não é de estranhar que homens se encaixem no estereótipo cerveja, futebol e mulher (que, aliás, não define o que são, mas seus interesses comezinhos, e os reduz a seres desprovidos de subjetividade, logo, pouco humanos). O fato era que eu aceitava conviver com o estereótipo masculino e rejeitava o feminino, em relação ao qual me sentia completamente deslocada.
A questão vinha de criança. Filha mais velha, tendo um irmão menor, vi a hierarquia etária ser subjugada à hierarquia de gênero. Na minha memória, esse subjugo representou a primeira contradição do mundo adulto. O discurso de autoridade era muito forte: 'respeite os mais velhos' - e eu tendia a ser obediente. Mas quando esse discurso, com o qual eu havia concordado porque me parecera justo, deu lugar àquele da constituição de gênero (embora mais novo, meu irmão tinha mais liberdade que eu por ser meninO), eu protestei.
Sei que a contradição aqui parece ser a minha. Afinal, tal experienciamento do machismo tão cedo poderia ter facilmente me levado ao enfrentamento desse status quo e à rivalização com o sexo oposto, arbitrariamente posto acima do meu. O enfrentamento se deu de fato: contestava, sempre, desobedecia. Mas em vez de tomar os homens como “inimigos”, tomei as mulheres.
Consigo compreender o porquê: eram as mulheres que me instavam, pois que responsáveis por minha educação, a ser como elas. Aprender a cuidar da casa, ter bons modos, preservar a sexualidade foram todos ensinamentos femininos. Eram ensinamentos limitadores, me restringiam ao espaço da casa e esse era o espaço que não me interessava, não só ele, pelo menos. Eu queria mais era saber do mundo.
Bem, o mundo aconteceu comigo. Com o passar do mundo, como disse, comecei a olhar as mulheres de outra forma. Fui sabendo, conhecendo a História e histórias que, achei, fossem só minhas: histórias de abuso, de desrespeito - de violência em suas várias formas. Eu, que logo no início da adolescência me condoí com as desigualdades sociais, compreendi e rejeitei o preconceito contra negros e homossexuais, que deplorei a desproteção das crianças – eu não enxergava meu próprio rabo.
O espelho e a reflexão me reconciliaram com meu gênero. Pude compreender a minha pregressa condição de ‘antipática’ ao mesmo tempo em que entendia a mesma condição nas outras mulheres – é sempre mais fácil subjugar iguais se os fazemos julgar que não o são. Pude compreender as mulheres da minha infância e suas agruras, que eu ignorava.
Interessante é que só depois de me livrar da culpa, da ideia de ser uma mulher indigna e suja (detalhe cruel e, agora sei, comum às vítimas: era eu quem carregava a mancha pelos abusos sofridos, ainda criança e pré-adolescente, não os meus agressores), pude perceber melhor o desespero do meu gênero: o de receber de volta o silêncio que permite a violência.
Daí, o que precisei fazer foi quebrar o meu próprio silêncio.
Há relativamente pouco tempo, eu comecei a olhar de forma muito diferente para as mulheres. Eu havia desde sempre sido um tanto quanto antipática a elas, ao passo que me dava muito bem com os homens, minhas companhias preferidas em todas as ocasiões. Havia, na minha trajetória, feito boas amigas, mas poucas. Havia conhecido mulheres em minha opinião interessantes, mas poucas. Tinha, no geral, pouco apreço pelo meu próprio gênero, que eu julgava dedicado em demasia à conquista da beleza e do casamento, invejoso, dado a picuinhas.
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| Competição feminina como mecanismo de manutenção do patriarcado |
A questão vinha de criança. Filha mais velha, tendo um irmão menor, vi a hierarquia etária ser subjugada à hierarquia de gênero. Na minha memória, esse subjugo representou a primeira contradição do mundo adulto. O discurso de autoridade era muito forte: 'respeite os mais velhos' - e eu tendia a ser obediente. Mas quando esse discurso, com o qual eu havia concordado porque me parecera justo, deu lugar àquele da constituição de gênero (embora mais novo, meu irmão tinha mais liberdade que eu por ser meninO), eu protestei.
Sei que a contradição aqui parece ser a minha. Afinal, tal experienciamento do machismo tão cedo poderia ter facilmente me levado ao enfrentamento desse status quo e à rivalização com o sexo oposto, arbitrariamente posto acima do meu. O enfrentamento se deu de fato: contestava, sempre, desobedecia. Mas em vez de tomar os homens como “inimigos”, tomei as mulheres.
Consigo compreender o porquê: eram as mulheres que me instavam, pois que responsáveis por minha educação, a ser como elas. Aprender a cuidar da casa, ter bons modos, preservar a sexualidade foram todos ensinamentos femininos. Eram ensinamentos limitadores, me restringiam ao espaço da casa e esse era o espaço que não me interessava, não só ele, pelo menos. Eu queria mais era saber do mundo.
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“Isso é o que eu vestia quando
eu ‘Estava
pedindo...’”
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O espelho e a reflexão me reconciliaram com meu gênero. Pude compreender a minha pregressa condição de ‘antipática’ ao mesmo tempo em que entendia a mesma condição nas outras mulheres – é sempre mais fácil subjugar iguais se os fazemos julgar que não o são. Pude compreender as mulheres da minha infância e suas agruras, que eu ignorava.
Interessante é que só depois de me livrar da culpa, da ideia de ser uma mulher indigna e suja (detalhe cruel e, agora sei, comum às vítimas: era eu quem carregava a mancha pelos abusos sofridos, ainda criança e pré-adolescente, não os meus agressores), pude perceber melhor o desespero do meu gênero: o de receber de volta o silêncio que permite a violência.
Daí, o que precisei fazer foi quebrar o meu próprio silêncio.
20 de maio de 2012
Categorias
machismo,
solidariedade feminina,
Tággidi


















