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por Tággidi Ribeiro
1) Vamos combinar, gente, que a Marieta Severo está MUITO mais jovem, bonita e desejável que o Chico Buarque (nas fotos, ao menos). No entanto, é ele que tem 'fama de galã'. Ela é a mulher que 'esculpe o próprio tempo'. Lemos nas entrelinhas: ele é desejável; ela tem de lidar com a idade. Chico Buarque e Marieta Severo devem ter a mesma idade, ali perto dos 70. Ele namora uma 'menina' de 28 anos; ela é casada com um homem que parece mais velho. Muita gente naturaliza isso: 'mulheres mais novas procuram homens mais velhos; homens querem sempre mulheres mais novas'. Eu só não dou o meu mindinho pra dizer que isso é cultural porque meu mindinho é muito precioso. Mas aposto que, vendo nas novelas, nos filmes, nas propagandas homens mais velhos com mulheres mais novas, muitos de nós passamos a crer que é assim, sempre foi e sempre será. Só que não. O que acontece é que pares românticos como Antonio Fagundes e Camila Pitanga, José Mayer e Taís Araújo vão ensinando às meninas e mulheres quais homens podem ser seus parceiros; e um Tarcísio Meira com quase 80 anos fazendo o garanhão e ficando com Ângela Vieira, Glória Pires e Camila Pitanga (!) numa mesma produção ensinam até quando um homem pode ser sexualmente desejável. O mesmo tratamento a mídia não dá às mulheres com mais de 60 anos. Por isso, os homens em geral não as veem como possíveis parceiras sexuais ou afetivas. E, no geral, pensamos que elas já passaram da idade de serem sexualmente desejáveis.
por Tággidi Ribeiro
Em fevereiro deste ano, 2 revistas do grupo Abril estamparam fotos de capa lindas de 2 personalidades conhecidas e respeitadíssimas do meio artístico. Marieta Severo foi capa da LOLA Magazine. Chico Buarque foi capa da ALFA Homem. Chico e Marieta foram casados durante uns 30 anos e há mais ou menos 20 estão separados.
Acho que as imagens falam por si só, mas não custa chamar a atenção para algumas 'coisas':
1) Vamos combinar, gente, que a Marieta Severo está MUITO mais jovem, bonita e desejável que o Chico Buarque (nas fotos, ao menos). No entanto, é ele que tem 'fama de galã'. Ela é a mulher que 'esculpe o próprio tempo'. Lemos nas entrelinhas: ele é desejável; ela tem de lidar com a idade. Chico Buarque e Marieta Severo devem ter a mesma idade, ali perto dos 70. Ele namora uma 'menina' de 28 anos; ela é casada com um homem que parece mais velho. Muita gente naturaliza isso: 'mulheres mais novas procuram homens mais velhos; homens querem sempre mulheres mais novas'. Eu só não dou o meu mindinho pra dizer que isso é cultural porque meu mindinho é muito precioso. Mas aposto que, vendo nas novelas, nos filmes, nas propagandas homens mais velhos com mulheres mais novas, muitos de nós passamos a crer que é assim, sempre foi e sempre será. Só que não. O que acontece é que pares românticos como Antonio Fagundes e Camila Pitanga, José Mayer e Taís Araújo vão ensinando às meninas e mulheres quais homens podem ser seus parceiros; e um Tarcísio Meira com quase 80 anos fazendo o garanhão e ficando com Ângela Vieira, Glória Pires e Camila Pitanga (!) numa mesma produção ensinam até quando um homem pode ser sexualmente desejável. O mesmo tratamento a mídia não dá às mulheres com mais de 60 anos. Por isso, os homens em geral não as veem como possíveis parceiras sexuais ou afetivas. E, no geral, pensamos que elas já passaram da idade de serem sexualmente desejáveis.
2) Também acho interessante os nomes das revistas e as formas de se venderem. LOLA, para as mulheres, me remete a uma Lolita que cresceu - lembra o tempo. A revista se diz 'instigante, irreverente, inovadora', feita para 'uma mulher que não tem tempo a perder' (bingo!). E quem é que tem? ALFA, para os homens, remete a poder. 'Inteligência; atitude; elegância; boa vida' têm/querem os homens, segundo a revista. E quem disse que as mulheres não querem? Que diferença no trato, não?
3) Claro que tanto a foto do Chico quanto a da Marieta possuem tratamento de imagem. As revistas não vivem mais sem photoshop, é fato. Mas como eu queria ver a Marieta Severo na foto de capa sem esse tratamento de imagem que a deixa com uma pele que, todo mundo sabe, é de mentira! Como eu queria ver as rugas de uma mulher serem tratadas com o mesmo respeito que as rugas dos homens! Mas não: toda vez que as mulheres aparecem, assim como o Chico Buarque, flácidas, enrugadas, velhas é num contexto desrespeitoso. A beleza da idade, das marcas, pode existir tanto para homens quanto para mulheres. Não só os homens são lindos sem botox, mostrando as marcas do tempo.
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| Beleza com marcas de expressão, olheiras, bigode chinês, poros abertos, flacidez. Sem botox. As mulheres também podem. |
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| Né, Simone? |
8 de junho de 2012
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por Roberta Gregoli
Ontem comemoramos um mês de Subvertidas! Neste um mês já começamos (apenas começamos!) a desmistificar o feminismo, falamos sobre violência, sexo, humor, movimentos sociais e até sobre Deus, entre outros tópicos nesses 19 posts (dêem uma olhada na barra azul ao lado para ver todos).
Agora queria me voltar para uma outra proposta deste blog, que é divulgar a teoria feminista (e, no caso deste post em específico, a história da sexualidade). O conhecimento acadêmico produzido por feministas é fascinante porque oferece um ponto de vista altamente crítico sobre coisas que temos como certas. Por exemplo, o título deste post parece absurdo? Pois bem, o isomorfismo foi tido como fato por mais de 17 séculos.
De acordo com o modelo do sexo único (ou isomorfismo sexual), os órgãos sexuais femininos seriam iguais aos masculinos, mas dentro do corpo (o útero seria um pênis invertido, os ovários seriam testículos e assim por diante). Parece insano? Pois é, mas nomes específicos para os componentes anatômicos femininos (ovários, útero, etc) só surgiram no século XVIII. Não sei para vocês, mas para mim isso coloca as coisas em perspectiva e me faz olhar com suspeita para todos esses estudos que dizem provar diferenças entre os sexos.
O modelo do sexo único é um exemplo clássico da ciência reproduzindo e legitimando posições sociais. Não que todos os anatomistas e cientistas participassem de um complô em massa para dominar as mulheres. Eles simplesmente eram produto de se tempo e não conseguiam enxergar o mundo de outra forma. Em outras palavras, o conhecimento produzido por eles re-produzia as condições sociais em que estavam inseridos.
Isso faz parte de um assunto muito interessante e polêmico: o debate entre natureza e cultura (em inglês, conhecido como nature vs. nurture). Algum@s defendem o papel primordial da natureza (hormônios, genes, seleção natural), outr@s o da cultura e do meio em que as pessoas crescem, e há também a posição mais moderada que defende uma mistura entre os dois.
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| Natureza vs. cultura |
Eu defendo que a cultura tem um papel absolutamente fundamental. É claro que fenômenos naturais existem, mas só conseguimos significá-los através da cultura. É como uma árvore de maçã no meio de uma avenida: ela existe enquanto fato natural, mas foi plantada numa certa época, serve um certo papel dento do planejamento de paisagismo da cidade e, quando olhamos para ela, a associamos ao aquecimento global ou ao pecado original, dependendo da nossa formação - isso tudo é cultura. A mesma lógica se aplica, por exemplo, aos famigerados hormônios: eles existem, claro, mas o papel inscrito a eles - que agora são usados para explicar desde comportamento violento até sexualidade - está aberto para debate.
O problema é que no senso comum a ciência tem status de verdade absoluta, algumas vezes sem um olhar crítico sobre as circunstâncias de sua produção. Qualquer pesquisador@ sabe - e a teoria feminista tem isso muito claro - que o conhecimento científico é bem menos conclusivo e muito mais parcial do que parece. Veja o exemplo de um caso muito recente de um professor da London School of Economics que concluiu que mulheres negras são menos atraentes do que mulheres de outras etnias. É claro que a conclusão é uma balela - basicamente, beleza é uma construção social e, mesmo que fosse verdade que a maioria dos entrevistados achou mulheres negras menos atraentes, isso teria mais a ver com um padrão de beleza racista, que nada tem de objetivo (vejam análises detalhadas das falhas metodológicas do estudo aqui e aqui). Mas é uma balela sustentada por dados (manipulados, conscientemente ou não) e nomes complicados que, não fosse pelas feministas e por integrantes do movimento negro que fizeram um justificado escarcéu, talvez passasse como verdade. O caso gerou muita revolta e o professor - que é um defensor, surpresa, do politicamente incorreto - quase foi demitido. Quase. É pena.
O estudo foi chamado de 'pseudociência'... mas e se olhássemos com o mesmo grau de escrutínio para outros tantos estudos que dizem provar que o hormônio X causa o comportamento Y, que mulheres têm menos senso de direção, que homens vão melhor em matemática, que o cérebro feminino funciona assim e o masculino assado? Ou que as mulheres querem amor e os homens querem sexo? Isso sem falar no famoso instinto maternal (que para mim é cultura maternal), no "instinto" do homem de trair, etc. Como já discutido aqui, as diferenças entre mulheres e homens são abismais. Mas será que são naturais?
Como outras feministas, acredito que existem mais diferenças entre indivíduos de um mesmo sexo do que entre homens e mulheres no geral.
Espero que não interpretem o meu argumento como se eu fosse "contra" a ciência. Isso seria reducionista. O que estou propondo é pensar criticamente as condições da produção do conhecimento científico, questionando as premissas ideológicas e políticas de determinado estudo, contrastando um estudo com outros e assim por diante (veja aqui um exemplo que desconstrói 6 mitos sobre as diferenças entre os sexos). E, mesmo sendo comprovado que exista uma diferença X entre homens e mulheres, até que ponto essa diferença é natural e não cultural?
E se questionássemos a premissa-base de toda esta discussão: se, em vez de dois sexos, na verdade existissem, pelo menos, cinco sexos?
Mas isso é assunto para o próximo post.
6 de junho de 2012
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3
por Roberta Gregoli
É claro que essas prescrições de gênero não afetam somente as mulheres. Vejam este dos príncipes:
por Roberta Gregoli
Vocês já devem ter visto esse tipo de meme das princesas da Disney circulando pela internet. Achei tão interessante que decidi compilar as melhores frases de diferentes versões e traduzir para o português:
É claro que essas prescrições de gênero não afetam somente as mulheres. Vejam este dos príncipes:
Mesmo vendo desde quão cedo esses valores são inculcados em nós, ainda temos que aguentar pessoas que culpam as mulheres pela vaidade e pela competição feminina.
A conclusão é que os ideais de gênero, além de ensinados desde muito cedo, são inalcançáveis. Para ambos os sexos. Mas às mulheres são negados qualquer agência e talento próprio e somos incentivadas a abrir mão de qualquer sonho ou vocação, e a passar por cima de qualquer abuso para ficar com um homem.
Precisamos de novas histórias.
2
por Roberta Gregoli
Seguindo a dica da Pró-Reitora da Universidade de Oxford, Dra. Sally Mapstone (a única mulher entre os seis Pró-Reitores da Universidade), assisti a um vídeo inspirador de Sheryl Sandberg. Sandberg é diretora de operações do Facebook (a revista Época, num artigo particularmente machista, chama de "babá" de Mark Zuckerberg, como se a única posição concebível para uma mulher objetivamente extremamente competente fosse numa ocupação tipicamente feminina).
No vídeo abaixo, inititulado Por que há tão poucas mulheres líderes?, Sandberg articula algumas máximas interessantes, dicas para as mulheres continuarem - e se destacarem - no mercado de trabalho: sente-se à mesa, faça do seu parceiro um parceiro de verdade e não saia antes de sair.
Curios@? Assista ao vídeo na íntegra que vale muito a pena. Ela cita números e histórias que elucidam de maneira brilhante por quê, apesar do senso comum dizer que as mulheres avançaram no mercado de trabalho, na verdade ainda estamos empacadas como uma pequena minoria.
(Para ver o vídeo com legendas, clique aqui e selecione Portuguese, Brazilian no canto inferior esquerdo do vídeo.)
Eu gosto particularmente do estudo que usa a história de Heidi Roizen. Baseado no estudo, deixo o meu desafio: se pergunte quais associações vêm a sua cabeça quando você pensa numa "mulher ambiciosa" e o que vêm a sua cabeça quando pensa num "homem ambicioso". Se as associações forem diferentes, surpresa, você está corroborando uma visão sexista.
3 de junho de 2012
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4
por Júlia Neves
Uma de nossas leitoras postou uma matéria interessante na nossa página do Facebook sobre um assunto que já estava na minha lista de assuntos para o Subvertidas. Trata-se de uma pré-escola sueca, a Egalia, que tem tentado eliminar a distinção dos gêneros masculino e feminino ao evitar que as crianças utilizem os pronomes "ele" e "ela", por exemplo.
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| A pré-escola Egalia, na Suécia, onde meninos e meninas usam as mesmas cores para designar igualdade de gênero |
A metodologia desta escola, ao meu ver, é um tanto extremista. O principal problema é tentar ensinar às crianças de que "somos todos iguais". Não, não somos. Somos diferentes. Existem sim diferenças entre mulheres e homens. Uma delas é exatamente o mito disseminado ao longo da história de que mulheres são inferiores aos homens. Seria realmente o ideal, ensinar às crianças que há igualdade entre os gêneros. Mas não há, pois as mulheres, junto com todas as minorias, foram excluídas historica, politica e socialmente de diversas formas.
Acho que o mais importante dentro de uma educação que tem como objetivo uma igualdade de direitos entre gêneros é ressaltar que não devemos ficar presos a papeis sociais que já foram rigidamente estabelecidos. Atividades que misturam brincadeiras supostamente de meninos e de meninas, por exemplo, já incentivam o aprendizado de que não há funções estritamente masculinas ou femininas.
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| Boneca também é coisa de menino |
Li um artigo de duas pesquisadoras (Isabel de Oliveira e Silva e Iza Rodrigues da Luz) sobre a diferenciação de gênero na pré-escola. Neste trabalho, elas analisam mais especificamente a educação de meninos dentro de pré-escolas em Belo Horizonte. Um dos pontos abordados pelas autoras é exatamente esta separação de tarefas destinadas a meninas e meninos desde o início da educação escolar.
Elas entrevistaram professoras sobre as brincadeiras realizadas dentro de sala de aula e perguntam se elas tentam incentivar atividades que quebrem com estereótipos de papeis femininos e masculinos: as educadoras dizem tentar mudar estes papeis, mas confessam que têm dificuldades em criar novas culturas de gênero. Sendo assim, estimulam as meninas a cozinharem para os meninos e estes a olharem as meninas na cozinha.
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| O que é mesmo que as meninas não conseguem fazer? |
Outro aspecto importante do artigo de Silva e da Luz é também a falta de cuidado com meninos na pré-escola. Parte-se do pressuposto de que garotos conseguem cuidar de si desde cedo e, portanto, professoras tendem a dar menos atenção a eles em forma de carinho, afeto e proteção, por exemplo. As pesquisadoras associam este comportamento na educação dos meninos ao próprio modelo que as professoras têm do que é "ser homem" e "ser mulher" e acabam perpetuando o que já está consolidado.
Não concordo com uma metodologia tão extremista como a da escola sueca, pois acredito que haja um choque de realidades entre a inexistência de gênero dentro da escola e a diferença entre gêneros fora dela. No entanto, acho que deve haver maior atenção dos cursos de pedagogia e das próprias educadoras (e, claro, educadores) na abordagem de atividades dentro de sala que quebrem o papel de princesa para as meninas e de herois para os meninos.
1 de junho de 2012
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