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Primeiro, em competições esportivas deste nível fica claro o quão defasada é a essencialização da feminilidade. Todo esse papo de que as mulheres são 'naturalmente' mais fracas e frágeis. Neste texto o autor defende que o conceito de força também é cultural, já que os homens são, desde pequenos, muito mais estimulados nesse sentido que as mulheres. Ele também apresenta os vários componentes do conceito genérico força e usa dados do exército norte-americano para mostrar como isso é relativo, inclusive que 10% das mulheres têm mais capacidade de levantar peso do que os 10% dos homens de menor desempenho. Por fim, ele diz que, comparado com outras espécies próximas de nós, homens e mulheres têm relativamente pouca diferença de tamanho. Orangotangos e gorilas machos, por exemplo, têm mais menos o dobro de tamanho das fêmeas. Os seja, ideias de fraqueza e delicadeza também são culturalmente construídas e reforçadas.
Veja, por exemplo, esta reportagem sobre a judoca Suelen Altheman. A força de Suelen é algo tão ameaçador que a jornalista não se contém em mobilizar todos, todos os estereótipos para defender o que parece ser a tese central da matéria: Suelen é feminina (= mulher). Afinal, ela é vaidosa, é casada, faz dieta e... .... ... gosta de cozinhar. Uma baita injustiça com a Suelen que, em vez de ser celebrada por ser extremamente competente, forte e promissora, vira praticamente uma Amélia. E coitado do marido, que é "obrigado a seguir as regras alimentícias da mulher".
Mas isso é só o começo. Pelo menos o artigo é celebratório, ainda que de forma totalmente distorcida. O pior foi o caso de Zoe Smith, halterofilista britânica, que recebeu um monte de críticas machistas no Twitter por "não ser muito feminina".
O que você quer que façamos? Vamos parar de levantar peso, alterar a nossa dieta para nos livrar completamente de nossos músculos "viris" e nos tornarmos donas de casa na esperança de que um dia você nos olhe de uma forma mais favorável e nós possamos realmente ter uma chance com você?! Porque você é claramente o tipo mais gentil e mais atraente de homem que enfeita a Terra com a sua presença.
Ah, mas espera, você não é. Isso pode ser chocante para você, mas nós realmente preferimentos ser atraentes para pessoas que não têm mente fechada e são ignorantes. Loucura, hã? Nós, como qualquer mulher com um pingo de auto-confiança, preferimos homens confiantes o suficiente neles mesmos para não se sentirem menos homens pelo fato de que nós não somos fracas e frágeis."
Como o nome de um blog que eu adoro, Suelen e Zoe são mulheres que honram o rolê. E os incomodados que se mudem... de planeta.
por Roberta Gregoli
Mulheres no esporte geram um monte de discussões interessantes e com as Olimpíadas elas entram no holofote. Aproveitemos!
Mulheres no esporte geram um monte de discussões interessantes e com as Olimpíadas elas entram no holofote. Aproveitemos!
Primeiro, em competições esportivas deste nível fica claro o quão defasada é a essencialização da feminilidade. Todo esse papo de que as mulheres são 'naturalmente' mais fracas e frágeis. Neste texto o autor defende que o conceito de força também é cultural, já que os homens são, desde pequenos, muito mais estimulados nesse sentido que as mulheres. Ele também apresenta os vários componentes do conceito genérico força e usa dados do exército norte-americano para mostrar como isso é relativo, inclusive que 10% das mulheres têm mais capacidade de levantar peso do que os 10% dos homens de menor desempenho. Por fim, ele diz que, comparado com outras espécies próximas de nós, homens e mulheres têm relativamente pouca diferença de tamanho. Orangotangos e gorilas machos, por exemplo, têm mais menos o dobro de tamanho das fêmeas. Os seja, ideias de fraqueza e delicadeza também são culturalmente construídas e reforçadas.Veja, por exemplo, esta reportagem sobre a judoca Suelen Altheman. A força de Suelen é algo tão ameaçador que a jornalista não se contém em mobilizar todos, todos os estereótipos para defender o que parece ser a tese central da matéria: Suelen é feminina (= mulher). Afinal, ela é vaidosa, é casada, faz dieta e... .... ... gosta de cozinhar. Uma baita injustiça com a Suelen que, em vez de ser celebrada por ser extremamente competente, forte e promissora, vira praticamente uma Amélia. E coitado do marido, que é "obrigado a seguir as regras alimentícias da mulher".
Mas isso é só o começo. Pelo menos o artigo é celebratório, ainda que de forma totalmente distorcida. O pior foi o caso de Zoe Smith, halterofilista britânica, que recebeu um monte de críticas machistas no Twitter por "não ser muito feminina".
Reproduzo aqui a resposta que ela deu em seu blog, na tradução do Coletivo de Mulheres PUC-Rio (acesse o texto original em inglês aqui):
"Uma ofensa óbvia quando falamos de levantamento de peso feminino é 'como é pouco feminino, garotas não devem ser fortes e ter músculos, isso é errado'. E talvez estejam certos... na era vitoriana. Imaginar que as pessoas ainda pensam assim é ridículo, estamos em 2012! Isso pode soar como uma generalização, mas a maioria das pessoas que pensam assim parecem chauvinistas, caras cabeça-dura que se sentem fracos pelo fato de que nós, três garotas pequenas e muito femininas, somos mais fortes do que eles. Simples assim. Eu discuti com um cara que disse que "nós provavelmente somos todas lésbicas e nos parecemos com homens", apenas para explicar o fato de que sua opinião não é válida porque ele é um idiota. Ele veio com a resposta original que eu deveria voltar para a cozinha. Eu ri.
Como a Hannah disse anteriormente, nós não levantamos pesos para parecermos gostosas, especialmente para agradar homens assim. O que os faz pensar que nós ao menos QUEREMOS que nos achem atraentes? Se você achar, muito obrigada, estamos lisonjeadas. Mas se não, por que você realmente precisa dizer isso e o que faz você pensar que nós, pessoalmente, nos importamos se você nos acha atraentes?O que você quer que façamos? Vamos parar de levantar peso, alterar a nossa dieta para nos livrar completamente de nossos músculos "viris" e nos tornarmos donas de casa na esperança de que um dia você nos olhe de uma forma mais favorável e nós possamos realmente ter uma chance com você?! Porque você é claramente o tipo mais gentil e mais atraente de homem que enfeita a Terra com a sua presença.
Ah, mas espera, você não é. Isso pode ser chocante para você, mas nós realmente preferimentos ser atraentes para pessoas que não têm mente fechada e são ignorantes. Loucura, hã? Nós, como qualquer mulher com um pingo de auto-confiança, preferimos homens confiantes o suficiente neles mesmos para não se sentirem menos homens pelo fato de que nós não somos fracas e frágeis."Como o nome de um blog que eu adoro, Suelen e Zoe são mulheres que honram o rolê. E os incomodados que se mudem... de planeta.
8 de agosto de 2012
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por Mazu
A conversa com ela me fez botar reparo em duas coisas: como eu nunca tinha notado que taxista era uma profissão masculina (!!!) e como a gente (mulheres) é contra a gente mesmo.
por Mazu
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| Aline Moraes fez uma taxista na novela O Astro |
A gente já mencionou aqui de diversas formas que as coisas na sociedade se repetem meio que mecanicamente, a gente faz algo porque alguém fazia antes e assim velhos preconceitos e discriminações se apresentam em comportamentos e fenômenos que nos parecem "normais" porque, afinal de contas, não os conhecemos ou vimos de outro jeito.
Estou eu chegando à minha cidade natal para uma visita familiar e decido, no aeroporto, pegar um táxi. E olha só. A taxista era mulher! Nunca em todos esses anos nesta indústria vital, isso tinha acontecido antes.
Aproveitei o momento e manifestei meu espanto ao que ela respondeu de forma muito simpática: sério? Em Araçatuba, somos oito mulheres taxistas.
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| Elaine Cristina, em 2007, em um teste com cinco homens tirou a maior nota. |
Não sei bem dizer se isso é bom ou ruim porque não faço ideia de quantos taxistas existem em Araçatuba, mas deve ser pouco, de qualquer forma, me fez pensar.
Contei para ela sobre nosso blog (espero que ela nos encontre e leia o texto sobre ela) e fui despejando alguns números e perguntas para ela. Primeiramente, ela ficou bem espantada com alguns números, depois, me contou que teve dois incidentes de preconceito por ser mulher que foram claros e explícitos em oito anos. (Isso eu acho que deve ser pouco). Num dos causos que ele me contou, depois de o cara descer do táxi porque “onde já se viu uma mulher dirigir táxi quando deveria estar em casa, cuidando do lar”, ela me disse: sei lá, o cara deve ser árabe, né? Falei para ela que, infelizmente, não era "privilégio" árabe o tal comportamento.
Conversa vem e vai, ela me disse que na verdade tinha desistido da carreira de policial por conta do marido e que, agora, o relacionamento acabou e ela ficou sem a carreira que tanto queria (para ser policial militar existe um limite de 30 anos no ato da inscrição para o concurso, e ela tem mais). Aparentemente, o ex-marido achava um grande problema sua mulher ser policial e ela levou de boa e desistiu. De toda forma, disse que não se sentia magoada nem por isso, nem pelos clientes que manifestaram o machismo, ela mesma não gostava de mulher em determinadas profissões e me confessou que nunca tinha ido a uma ginecologista do sexo feminino. Mas que achava lindo de ver as caminhoneiras. Eu ri, o papo estava bom, mas chegamos à casa dos meus pais e tive que descer.
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| Eleusa, com 1, 50 e 50 Kg, dirige a maior carreta do mercado. |
A conversa com ela me fez botar reparo em duas coisas: como eu nunca tinha notado que taxista era uma profissão masculina (!!!) e como a gente (mulheres) é contra a gente mesmo.
Isso de ser contra a gente mesmo vai desde concordar com o parceiro ou progenitor sobre a profissão, passa pelo achar normal que tal profissão seja masculina e vai até não confiar em nós mesmas em determinadas profissões.
Sério, meninas, se nós não somos por nós, quem vai ser?
Sério, meninas, se nós não somos por nós, quem vai ser?
6 de agosto de 2012
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por Barbara Falleiros
“Você é muita linda, moça. Posso te oferecer uma bebida?”
“Você é muita linda, moça. Posso te oferecer uma bebida?”
Não, obrigada.
“Me dá seu telefone?”
“Uma bebida juntos, ou o quê?”
Não, obrigada.
“Na minha casa, claro, não em um café. Ou no hotel, na cama, você sabe...”
Você não está entendendo? Eu não quero!
“Mas se você dá tesão, é normal...”
“Piranha!”
Lançado na semana passada na Bélgica, o documentário Femme de la rue, trabalho de conclusão de curso de uma jovem estudante de audiovisual, Sofie Peeters, mostra as injúrias cotidianas sofridas por ela e tantas outras mulheres num bairro desfavorecido de Bruxelas.
“Você quer mesmo que eu diga? São coisas do tipo: Se eu pudesse eu te enfiava no… É tão vulgar que eu não ouso repetir a frase. (…) Este é meu cotidiano ao voltar pra casa. Eu me visto normalmente, eu acho. Apenas as palavras já são suficientes para exercer dominação sobre uma pessoa. Em todo caso, isso me faz mal.” – diz uma vizinha de Sophie, minutos antes de se mudar do bairro.
Sofie assinala a primeira reação de culpa face à agressão: “Eu acho que esta é a primeira pergunta que você se faz: Eu é que sou muito provocante? São as minhas roupas? É algo que eu fiz?” A velha e clássica culpabilização da vítima.
As moças entrevistadas compartilham suas estratégias: não olhar nos olhos dos homens, mudar de trajeto, evitar certas ruas, não usar shorts, preferir a bicicleta ao transporte público, usar fones de ouvido. Animais acuados, liberdade cercada.
Sofie entrevista dois grupos de homens cujo lazer preferido é, ao que parece, mexer com as mulheres na rua. Ela pergunta o que precisaria que fazer para não ser mais insultada. Respostas e justificativas:
Os mais jovens veem o assédio como um simples passatempo, uma forma de extravasar sua energia sexual enquanto esperam pela moça "para casar". A única forma de uma mulher se esquivar das cantadas e insultos é colocar-se sob a tutela de um outro homem: de acordo com os jovens, Sofie deveria dizer que é casada, nem que para isso deva andar com uma aliança falsa. Não se mexe com a propriedade dos ‘irmão’, né?
Para os mais velhos, as cantadas são na realidade - pasmem - um incentivo à autoestima da moça. “Ao invés de querer nos dar bronca, você deveria nos dizer: Obrigada por fazer com que eu me sinta mulher!” Mas como se esquivar das abordagens, ainda que tão "bem intencionadas"? Solução proposta pelo entrevistado: ele se oferece para seguir Sofie e protegê-la. “E eu, como mulher, não há nada que eu possa fazer eu mesma?” - pergunta ela. Resposta: “Tudo o que você tem a fazer é ficar calada”. E os homens da mesa explodem de rir.
Todos estes homens entrevistados, que se exprimem no vídeo em francês, são de origem muçulmana magrebina. O ponto é delicado. Como esboçar uma denúncia sem assumir posições racistas? Como criticar uma prática que parece ser cultural sem estigmatizar um grupo? E ainda, como diz Sofie, como continuar acreditando em uma sociedade multicultural? Uma das mulheres entrevistadas se pergunta se este tipo de assédio é um reflexo da cultura ou se ele não seria, antes, um sinal do estado de degradação desta cultura. Um outro entrevistado, de origem magrebina, coloca o problema do choque cultural:
“[No passado, eu e meus amigos buzinávamos e convidávamos a moça a entrar no carro]. Quando a pessoa se recusava a subir ou a responder – porque, claro, você não assobia pra uma pessoa na rua, você assobia pra um cachorro, pra um animal – então imediatamente a xingávamos: ‘Puta suja!’, ‘racista!’. (...) Nós não falamos de sexualidade com nossos pais, é tabu. E não podemos falar muito com as meninas do bairro, porque trata-se da irmã de um amigo ou da filha de alguém da família. E você não pode nem olhá-la, porque ela é toda coberta. (...) Mas nas propagandas, as mulheres estão nuas. Como você vai explicar a estes jovens que é preciso respeitar as mulheres se tudo o que eles veem são mulheres nuas? No Ocidente, pra mim, há emancipação, mas a mulher continua sendo um objeto de desejo do homem.”
As reações ao documentário de Sophie Peeters não tardaram. A municipalidade de Bruxelas estuda punir os insultos e aplicar multas já a partir do mês de setembro.
Aqui, o documetário Femme de la rue, em uma reportagem de tv (com legendas em inglês):
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por Tággidi Ribeiro
por Tággidi Ribeiro
Ouço amiúde por aí que somos uma sociedade sexualizada demais e que deveríamos pensar em coisas mais importantes. Toda vez que me deparo com esse tipo de discurso, penso: sexo está na ordem do ócio, do que se faz no ócio e tem como objetivo primeiro e fundamental o prazer e, portanto, a felicidade. Que poderia haver de mais importante? E pra quem diz que somos sexualizados demais, pergunto: a gente mais trabalha ou mais faz sexo?
No geral, definitivamente, trabalhamos muito mais que fazemos sexo. Aliás, trabalhamos MUITO mais. Fazer sexo, mesmo para casais, vem depois de trabalhar, administrar a casa (ou seja, trabalhar), descansar (para poder trabalhar) e ter alguma vida social (amigos e família). Ocorre que sexo, assim como comida, é uma necessidade cotidiana. Não é porque julgamos que sexo seja errado, feio ou sujo ou que existam "coisas mais importantes" que nosso corpo deixa de sentir a falta do ato. Podemos soterrar nosso desejo sob camadas de moralismo, religião, psicologia chinfrim, mas ele fica ali como hemorragia interna. O desejo sexual pede a saciedade mesmo para aqueles que sentem menos desejo (assim como a inteligência, o desejo pode ser mais ou menos presente).
Esse desejo, naturalmente existente em nós, também é excitado todo o tempo. A televisão, a internet, o cinema - as diversas mídias - falam de sexo o tempo todo, nos provocam com a imagem de corpos atraentes. Sexo vende (porque é o que queremos). Mas não compramos sexo. Compramos a promessa de satisfação sexual, a qual só pode vir numa embalagem bonita. As mídias reduziram nossos sentidos a um só: a visão. Julgamos que a realização sexual só pode se dar de forma plena em uma determinada forma. Assim, produz-se a infelicidade. E a infelicidade é eficiente.
No fim das contas, sexo na mídia só vende como vende porque somos sexualmente infelizes. Enquanto queremos ser ou ter o corpo que nos dizem que é belo e desejável e nos desgostamos com os corpos possíveis, não menos belos, mas outros, com seu cheiro, toque, movimento, é que ficamos vulneráveis à publicidade que diz que tal carro ou perfume nos vai dar aquela mulher; que a cirurgia ou o hidratante nos vai fazer ser aquela mulher; e como o carro ou a cirurgia não trazem junto essa mulher, compramos a revista em que ela está.
Assim é que a sociedade contemporânea tornou-se a sociedade da punheta: trabalhando muito e pagando a ilusão da possibilidade de satisfação sexual criada pelo apelo visual de corpos jovens e belos. Tanto homens quanto mulheres perdem nessa jogada, sem dúvida.
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por Roberta Gregoli
Notícia ruim e boa ao mesmo tempo foi a expulsão da atleta grega que escreveu tweets racistas. Lição para nós, que ainda nos atrapalhamos com o conceito de liberdade de expressão: tolerância zero e medidas severas contra manifestações racistas e sexistas. E avisem que a desculpa 'foi só de brincadeirinha' já não cola mais.
por Roberta Gregoli
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| As sufragistas protestam em Londres |
Não estou muito por dentro dos jogos das Olimpíadas, mas o que tenho acompanhado nos bastidores tem sido muito interessante. Antes mesmo dos jogos começarem, boas notícias: pela primeira vez na história, todas as delegações têm atletas mulheres - e mulheres que estão fazendo bonito. A má notícia é que a propaganda machista continua, no Brasil e no mundo.
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| Site do Globo Esporte anuncia "cardápio variado": #nojo |
Abertura
Vi a abertura ao vivo. Fiz questão, por morar na Inglaterra e ter acompanhado todos os papos e os mistérios (que, diga-se de passagem, nem se comparam ao frisson que se passa no Brasil, com 4 anos de antecipação). Quando disseram que iam colocar ovelhas no palco, não botei fé. E realmente achei o espetáculo chocho, bem ao estilo inglês: bem executado, mas sem emoção. Mas achei a cerimônia muito interessante por uma série de motivos, e pela repercussão.
Este ótimo artigo sobre o feito de Danny Boyle (para quem não se lembra, o diretor de Trainspotting e Quem quer ser um milionário?) para mim é conclusivo: a cerimônia foi um poema celebratório apaixonado para o país que Boyle gostaria que existisse - uma Grã-Bretanha multicultural, tolerante, gay-friendly e que tem como princípio o Estado do bem estar social. Isso explica o beijo lésbico, a presença das minorias étnicas em praticamente todos os quadros, a homenagem ao NHS (o equivalente ao SUS no Brasil, motivo de orgulho para os britânicos em comparação aos Estados Unidos, por exemplo, onde saúde custa e caro).
Boyle já tinha me ganhado no começo, quando entraram as sufragistas. O direito ao voto foi conquistado pelas mulheres na Grã-Bretanha em 1918, fato que o comentador da Globo citou. Na minha opinião, seria uma oportunidade para fazer o elo com o Brasil e citar o movimento nativo, já que aqui muitas pessoas sequer conhecem a palavra 'sufragista' ou sabem que o sufrágio feminino foi conquistado em 1932 num movimento encabeçado por Bertha Lutz. Mas acho que esperar algo parecido da Globo é um pouco de delírio da minha parte.
Ideal x real
Aplausos para Danny Boyle, então, que conseguiu até mesmo que uma rainha carrancuda participasse de um vídeo bem humorado. E é aí que eu queria chegar - a realidade versus o ideal.
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| Olha todos estes países que costumavam ser meus |
Apesar de achar que, para muitos países no mundo, o tributo ao NHS não fez sentido algum, trata-se, na verdade, de um ponto político nevrálgico. Este ano houve uma reestruturação enorme por parte do governo conservador, resultando no que, muitos acreditam, será a deterioração do sistema de saúde público inglês. Além disso, tendo em vista a rendição de toda a Europa ao sistema bancário, colocando a seguridade social - e todos os ganhos conquistados no continente no último século em termos de políticas públicas promovendo a igualdade social - em segundo (terceiro, quarto...) plano, saúde de graça é, sem dúvida, algo digno de celebração.
Além disso, para um país que se pretende escolarizado e multicultural, a confusão com as bandeiras da Coreia do Norte e Sul foi vexatório.
Outro dado de realidade para a utopia boyleana: apesar de ser, de fato, um país multi-étnico, a Grã-Bretanha é insistentemente segregatória e racista. Prova veio como reação à própria cerimônia de abertura: veja aqui um artigo extremamente racista publicado no Daily Mail, o tabloide mais popular do país. Traduzo aqui parte do texto:
Outro dado de realidade para a utopia boyleana: apesar de ser, de fato, um país multi-étnico, a Grã-Bretanha é insistentemente segregatória e racista. Prova veio como reação à própria cerimônia de abertura: veja aqui um artigo extremamente racista publicado no Daily Mail, o tabloide mais popular do país. Traduzo aqui parte do texto:
Era para ser uma representação da vida moderna na Inglaterra, mas seria difícil para os organizadores encontrarem uma mãe branca escolarizada de meia-idade e um pai negro morando juntos com uma família feliz dessa maneira [...] A pauta da igualdade multicultural foi tão encenada que foi doloroso assistir.
O artigo depois foi alterado, excluindo esta parte, e mais tarde retirado do ar. No Brasil chamariam de censura, lá é bom senso - que faltou ao colunista na hora de escrever.
Diversidade racial e sexual, feministas, saúde de graça de qualidade e uma rainha bem humorada: a Inglaterra de Danny Boyle é muito mais interessante do que a Inglaterra de fato.
Diversidade racial e sexual, feministas, saúde de graça de qualidade e uma rainha bem humorada: a Inglaterra de Danny Boyle é muito mais interessante do que a Inglaterra de fato.
1 de agosto de 2012
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