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Sexismo de cada dia


Enviado por Sílvia T.

Trabalhei em um dos maiores escritórios do país, em minha área de atuação do Direito. Por questões exclusivamente pessoais resolvi deixar o escritório e trabalhar no interior.

No interior, comecei a advogar em um escritório familiar, onde fui muito bem recebida e me sinto absolutamente respeitada. No entanto, por se tratar de uma cidade pequena, e em razão da tradição de meu chefe, antigo e respeitado advogado, "volta e meia" senhores distintos, e figurões políticos locais (interior...) estão sempre aparecendo para um "café". 

Sempre sou apresentada nestas ocasiões e para meu horror estes senhores sempre soltam aquele "bonita e inteligente", ou então "essa moça vai casar logo", ou ainda "mas vocês precisavam mesmo de uma moça dessas, chega de tanto homem por aqui". 

Se estou de bom humor sorrio sem graça, se estou meio "atravessada" já vou logo dizendo "sou casada" ou então "menos, meu senhor", o que deixa o pobre coitado do meu chefe roxo... O engraçado é que ando toda encapotada, sóbria (sou advogada, oras), e sou de pouca conversa, então eles têm mesmo que ser muito abusados pra vir com gracinha.

Eu fico me perguntando que imagem os homens têm das mulheres em geral pra falarem algo do tipo "bonita e inteligente" ao ouvirem uma mulher formulando uma frase completa e conexa, e lhes explicando algo sobre política, economia e direito... Me pergunto se enquanto estamos explicando a problemática, o bocó está pensando em como uma mulher pode pensar e ser bonita? Então é auto-excludente, a mulher é bonita ou é inteligente? LOGO, A MULHER SÓ SERVE PARA ENFEITAR? Tudo o que vier a mais é lucro, será extraordinário?

Eu me pergunto isso quase todos os dias, quando ouço essa idiotice, pois acreditem, meninas, estou cagando pra beleza, quanto à inteligência (minha vaidade, confesso), me esforço muito, não sou besta.

E até papagaio fala, fazer o quê.

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Recesso


Queridxs,

Como ninguém é de ferro - nem estas feministas duras na queda que vos falam - encerramos o ano por aqui.


O ano de nascimento do blog se encerra com muita satisfação e felicidade da nossa parte. Obrigada a todxs xs seguidoras que leram nossas postagens, divulgaram, curtiram e nos apoiaram. Agradecemos por todos os insights, comentários queridos e de crítica que nos fizeram continuar escrevendo e reelaborando alguns pontos.

Voltamos na semana do dia 7 de janeiro com mais textos provocativos, revoltados e controversos!

Desejamos a todxs um felicíssimo Natal e um Ano Novo cheio de renovações... e menos machismo!

Um grande abraço,
Bárbara, Maíra, Roberta e Tággidi


PS: O email continua funcionando, por isso não deixem de mandar mais 'causos' para o Sexismo de cada dia!

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Barbie engenheira e Barbie cientista

por Barbara Falleiros

Barbie professora e sua aluninha
E chegou o momento mágico do Natal! Nas últimas semanas, Mattel e companhia concentraram seus esforços no bombardeamento de pais e crianças com lançamentos como... a "Barbie Professora do Jardim de Infância" (sim, sim). Ora, como a Roberta comentou esta semana, ao oferecermos às crianças brinquedos que não reforcem os velhos estereótipos de gênero (carrinho para menino, boneca para menina, e só), não apenas ajudamos a criar adultos menos sexistas, como incentivamos essas crianças a desenvolverem novas habilidades. Com isso, proporcionamo-lhes outras possibilidades de identificação que podem contribuir, mais tarde, para combater a divisão sexual do trabalho e das profissões. Não basta que cada criança possa ser o que quiser quando crescer, é preciso ensinar às meninas que também é legal querer ser engenheira e cientista.

Assisti esses dias a um vídeo publicitário de um brinquedo chamado GoldieBlox, um jogo de construção desenvolvido por uma engenheira de Stanford que, surpresa com a quantidade ínfima de mulheres na sua turma, decidiu fundar uma companhia de brinquedos para encorajar as meninas a se interessarem por engenharia. Para ela, não era suficiente pintar um jogo de construção de cor-de-rosa (como fazem muitas marcas de brinquedo). Suas pesquisas mostraram que meninas tendiam a gostar mais de ler, por isso ela associou o jogo de construção a uma série de livros.


Incentivar as mulheres a seguirem carreiras científicas... Muitos dos que acompanham as Subvertidas devem se lembrar de um vídeo produzido pela União Europeia com esta finalidade. Caricatura grotesca e sexista da "mulher cientista", o vídeo mostrava mulheres fatais em salto agulha, num fundo rosa, alternando instrumentos de laboratório e maquiagem.


Em resposta, a European Science Foundation lançou um concurso de vídeos: Science, it's your thing. O vídeo vencedor mostra como, em razão da presença massiva de homens nas áreas científicas (nota: há apenas 14% de mulheres na presidência das universidades europeias), as pesquisas acabam seguindo involuntariamente (ou não...) uma perspectiva masculina. É assim que os manequins de crash-test são baseados em corpos masculinos, os cintos de segurança dos carros não são adaptados para grávidas, 4/5 dos medicamentos retirados da venda num determinado período, nos Estados Unidos, traziam mais risco para a saúde das mulheres do que para a dos homens, que a compreensão da dor vem de estudos feitos unicamente em ratos machos... E se as mulheres não conseguem conquistar seu lugar na ciência, não é por falta de capacidade: estatísticas comprovam que sua presença em empresas e laboratórios aumenta a produtividade, a performance e o número de patentes registradas.


Já num registro cômico, jovens pesquisadoras britânicas realizaram uma paródia do vídeo da União Europeia. O contraste entre o ambiente real de trabalho (um verdadeiro laboratório) e a caricatura da cientista sexy mostra o quão ridícula e absurda é a imagem veiculada pelo vídeo oficial. E as cientistas tiveram a ótima ideia de convidar seus colegas homens para aparecerem dançando, como elas, de forma sexy/constrangedora. É quando o ridículo, exposto pelo padrão duplo, atinge seu máximo... Divirtam-se!




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Amor a toda prova: ensinando o que é ser homem

por Tággidi Ribeiro


Assisti esses dias ao filme Amor a toda prova, que pensei fosse uma comediazinha romântica inocente. Nada. É mais uma dessas produções machistas em que as mulheres são todas loucas e os homens se dividem nos estereótipos de 'banana', 'babaca' e 'o cara'. O cara é aquele tipo David Beckham, que se veste muito bem, é rico e elegante, absolutamente educado e bonito. O Beckham do filme, de nome Jacob Palmer e interpretado pelo Ryan Gosling (as mina pira), é ainda espirituoso e tem estratégias infalíveis pra levar uma mulher pra cama. Obviamente, Gosling/Jacob Palmer é o macho alfa do filme: as mulheres nunca tomam a iniciativa - ele escolhe quem vai pegar. E elas todas caem na dele. E quem não?

Bem, eu apostaria que mulheres que não gostem do tipo macho alfa arrogante de tanta confiança na testosterona rejeitem esse cara; que mulheres que não estejam a fim de transar no dia específico JP igualmente o façam; e que mulher, enfim, que não se sente à vontade pra transar com um cara que provavelmente não vai ligar depois rejeita Jacob Palmer. De outro lado, mulheres que gostem do tipo macho alfa, que estejam com vontade de transar e que estejam confortáveis com o fato de que provavelmente Jacob Palmer se materializará apenas uma noite irão efetivamente pra casa dele ouvir Dirty Dancing.


Nada de errado com essas mulheres - dizer sim ou não é uma prerrogativa, afinal, o corpo delas é delas. Suas ações ou reações, em todo caso, visam à satisfação própria ou do eventual parceiro ou ao menos não chegam a causar dano. Mas os homens sintetizados na figura de Jacob Palmer são claramente um problema. Não por quererem sexo - tem problema nenhum querer, inclusive com várias mulheres, ao mesmo tempo ou não. O problema é a essência desse querer e as práticas que derivam daí.

Esse homem crê, pois trata-se de crença e não mais, que nasceu para dominar, que esse é seu estar e ser no mundo. A mulher é inferior a ele, deve necessariamente sê-lo, de modo que qualquer tipo de relação em que ela esteja a seu lado como igual ou a ele seja superior é impensável. Esse homem não usa a mulher para fazer sexo, usa do sexo para reafirmar seu poder sobre a mulher - não importa o quão gentil ele seja, ele menospreza a parceira com quem dorme: por ser mulher, de antemão; por ter dito 'sim' e, portanto, ser 'fácil', 'vadia', 'puta' etc. No limite, homens como Jacob Palmer não fazem sexo, masturbam-se com uma mulher, já que o sexo, aqui, é elemento de afirmação de (uma ideia de) masculinidade, de heterossexualidade. Então, temos que: 1) nada há de mais importante para um (esse) homem que ser homem (senso comum = heterossexual, superior, poderoso); 2) essa forma do masculino não admite outra forma do feminino que não a da inferioridade e da submissão - sem a existência desta, a forma masculina se extingue; 3) o sexo é usado pra manutenção dessas formas, não objetiva o prazer.

Amor a toda prova é exemplar nesse sentido. Jacob Palmer faz um discurso sobre a perda da masculinidade a Cal (Steve Carell) quando o conhece e sabe que este foi traído e abandonado pela mulher; zomba dele por ter transado apenas com a esposa em toda a vida; deprecia eventuais gestos 'femininos' (como usar canudo para tomar drink). A partir daí, todo o esforço de Cal, auxiliado por Jacob, objetiva a recuperação de sua 'masculinidade' através da 'conquista' do sexo oposto.

Claro que tudo feito com uma boa dose de charme e carisma dos atores, além de algum humor, dá impressão de ser ok. Tudo dá certo no final. Cal recupera sua masculinidade, quer dizer, sua mulher. E Jacob Palmer acaba se apaixonando por, obviamente, uma mulher que recusa suas investidas e com quem não transa na primeira noite... Prova de que mesmo os grandes cafajestes se redimem quanto encontram uma mulher de valor, né?

Não.



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Sexismo de cada dia

Enviado por Fernanda

Trabalho numa empresa multinacional de grande porte e constantemente mencionam o fato de eu ser mulher. Meu ex-chefe, por exemplo, já me disse: "Ah, por você ser mulher, até que você cresceu rápido na empresa. Sobre a questão salarial, é assim mesmo."

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