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ou O caso do pé-dofilo por Hadassa M. M. Vieira
Ontem estava em uma das unidades da Caixa aguardando para ser atendida quando um senhor se senta ao meu lado e começa a puxar papo. Educadamente, mas sem prestar muita atenção, fui conversando com ele sobre banalidades... a chuva, o trânsito, etc.
Eis que, do nada, ele olha pra mim e começa:
- Sabe como é, todo mundo tem suas manias... a minha é pé! Adoro um pé. Eu tava reparando que seu pé é super delicado, pé pequeno...
- Ahan
- Quanto você calça?
- 33
- Nossa, que pé pequenininho... Tira o sapato pra eu ver?
- ...
Olhei com cara de "WTF"
- Deixa eu ver?
- Moço, eu vou ser gentil e vou lhe explicar porque não vou te mostrar meu pé. O senhor não pode chegar para uma estranha e assediar a pessoa dessa forma! Isso é abusivo, invasivo e desrespeitoso! Dá um tempo né?!
Segundo ele, não tinha nada de mais pedir pra ver meu pé...
Fala sério? Você não pode ir ao banco sem ter q aturar merda!
Seguindo a lógica do momento, ninguém mandou eu ir ao banco de sapatilha, acho que eu "pedi" por isso... :S
17 de janeiro de 2013
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sexismo de cada dia
5
O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos.
por Roberta Gregoli
O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos.
Eu nem sou daquelxs que menosprezam o cinema popular brasileiro: muito pelo contrário, sou entusiasta. Admiro seu poder de alcance e seu potencial transgressor, e acho que desdenhar o cinema popular generica e acriticamente é uma das facetas do elitismo tupiniquim.
Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.
Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.
E o pilar sobre o qual De pernas para o ar 2 se sustenta é o mais fundamental e caro ao patriarcado: a divisão sexual do trabalho. Alice (Ingrid Guimarães) é uma workaholic inveterada que se desdobra para manter casa, filho e casamento. O enredo do filme gira em torno dos malabarismos de Alice para "dar conta" (como dito repetidas vezes ao longo do filme) de suas responsabilidades, à custa de sua saúde e bem-estar.
Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.
Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.
A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?
Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.
E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo
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| É raro no cinema um quadro composto somente por mulheres, ainda mais em posição de poder |
Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.
Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.
A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?
Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo
Mas numa coisa o filme acerta: quando questionada como dá conta, a mulher maravilha Vitória é rápida em responder que "é fácil, querida, eu não tenho marido". Ter um cônjuge masculino em casa representa um aumento de 2 horas de trabalho por semana para as mulheres.
Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.
Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.
Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.
Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.
16 de janeiro de 2013
Categorias
cinema,
divisão do trabalho,
humor,
padrões duplos,
Roberta
6
por Barbara Falleiros
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| Grávida e flores: apogeu da feminilidade? |
Gostaria de começar o ano com uma série de posts sobre um assunto ao qual demos pouco espaço em 2012. Discutimos a descriminalização do aborto e o direito da mulher de decidir sobre a reprodução, mas não falamos de gravidez, do tratamento reservado às mulheres grávidas no cotidiano, da discriminação no trabalho, da violência obstétrica e das questões em torno do aleitamento materno. Visto que muitas amigas Subvertidas estão grávidas ou com filhos pequenos neste momento, aproveito a boa ocasião para abrir a discussão.
À primeira vista, pode parecer estranho criticar o tratamento reservado no dia-a-dia às mulheres grávidas, quando sabemos que, numa situação em que a gravidez é desejada e que a grávida "vive um momento mágico", como se diz, ela costuma ser paparicada. Em situação ideal, todo mundo fica contente e tudo vai bem. De repente, a grávida se vê tendo suas vontades satisfeitas, as pessoas interessam-se por ela, são gentis, fazem elogios. Em situação ideal, uma grávida é uma mulher feliz. E, em breve, quando se tornar mãe, será uma mulher realizada. Ou não?
Para começar, é preciso pensar na origem dessa "plenitude", desse sentimento de realização feminina que se espera da gravidez. Viria ele da própria essência feminina? Existe isso? Ora, as pensadoras feministas que refletiram sobre a questão descobriram que esta idealização da gravidez e da maternidade acabava colaborando para fazer da função materna a principal - senão única - condição feminina possível. E assim, ajudava a manter a mulher presa a um único destino.
Veja bem, não se trata aqui de uma crítica à gravidez nem à vontade de ser mãe! Trata-se simplesmente da percepção de fenômenos culturais e de discursos socialmente construídos. Argumentos biológicos que procuram explicar o instinto materno e o amor materno como tendências naturais e inatas existem: dizem que a ocitocina, um hormônio que provoca as contrações do parto e a saída do leite, tem efeitos no cérebro que colaboram para a criação do vínculo entre a mãe e o bebê. Mas eu não seria capaz de ir mais longe com argumentos químicos, biológicos ou genéticos (se alguém souber mais sobre isso, por favor comente abaixo). Por outro lado, não me parece possível analisar o comportamento humano sem ter em mente que somos seres sociais, históricos e culturais. Por isso, reluto em acreditar que a mulher esteja programada para ser mãe, amar seu filho e dedicar-se a ele, assim como um pai não nasce "geneticamente programado" para ser incapaz de trocar fraldas ou de levantar à noite... Em resumo:
Ao contrário do Brás Cubas pessimista que "não teve filhos, não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria", a constituição de uma família é um valor importante na nossa sociedade. Li um artigo interessante sobre as representações do corpo grávido na mídia, em que a autora ressaltava a "dimensão simbólica das imagens do corpo e da gravidez como parte da construção moderna da identidade feminina". O que no fundo é um mecanismo de aprisionamento (quando a mulher tem que ser mãe, deve ser mãe, só é feliz se for mãe, só é mulher se for mãe), passa a ser representado, ao contrário, como a "afirmação de uma liberdade de escolha e de autorrealização". A autora do artigo dá o exemplo da apresentadora Angélica, grávida do primeiro filho em 2005, dizendo: "Agora a gente vive o filme da vida real. E seremos felizes para sempre!" Sério, quer mais comercial de margarina do que isso?
Mas, na prática, onde é que está o problema? A maternidade sendo vista como uma habilidade intrínseca à mulher, isto contribui, por exemplo, para a divisão desigual das tarefas dentro de casa (o bebê fica majoritariamente sob a responsabilidade da mãe). Outro exemplo: uma mãe de primeira viagem sofre uma imensa pressão social porque se espera dela, logo de cara, a perfeição na execução de tarefas maternas. Imagina o stress! Ao mesmo tempo em que todo mundo resolve palpitar - e tratar a neomãe como incompetente - esta mãe está tentando provar pra si mesma e para os outros que é capaz. Quantas mães em depressão pós-parto são estigmatizadas e se culpam por não conseguirem atingir essa "plenitude", por estarem profundamente tristes quando deveriam estar vivendo "o momento mais feliz de suas vidas"? Quem já passou pela experiência de ter um bebê pequeno sob sua total responsabilidade, full-time, sabe que o cansaço e o esgotamento podem ser torturantes, o que, somado à exigência de felicidade e de plenitude, faz da mãe uma bomba relógio prestes a explodir. Quanto sofrimento e quanto cansaço não seriam evitados se essa busca irrealista da perfeição maternal fosse esquecida!
Eu costumava ler um blog engraçadinho chamado "Mauvaises mères" ("Péssimas mães"), em que um trio de jovens mães francesas contavam de forma bem-humorada o quotidiano de mães... reais! Claro que elas não eram péssimas mães, mas o título do blog fala por si só: confessar que sua vida não gira em torno do bebê, que na realidade o bebê não torna sua existência absolutamente perfeita e feliz, faz mesmo de você uma "mãe indigna" (título de outro blog)? Na verdade, ao longo dos posts, elas acabavam convencendo o leitor do contrário, de que é possível ser uma ótima mãe conservando seus interesses, suas ambições profissionais, guardando um pouco de sua velha identidade de antes da maternidade.
Em um post sobre sua própria gravidez, uma das autoras conta como foi chocante descobrir que os nove meses maravilhosos eram na verdade um mito:
"Ah! A gravidez, um dos mais belos períodos da minha vida! - Minha mãe me criara em torno deste mito da maternidade. E bem, era chegada a minha vez de estar grávida, eu iria enfim viver este momento de graça. Uma certa sabedoria tomaria conta de mim. Por que afinal, a gravidez não é o melhor momento para se lembrar do que é essencial? Mas meu pai me contou que não tinha sido nada daquilo, que minha mãe ficara de cama a partir do quinto mês. Teriam mentido para mim?
Mês 1 à 3
Quero vomitar. Tenho frio o tempo todo. Estou cansada, quero dormir, meus seios dóem. Estou distraída. Brigo com todo mundo, choro em filme água-com-açúcar. Choro todo o tempo. No metrô, ninguém me cede o lugar, embora seja o momento mais difícil da gravidez. Sexo: só o que eu digo é que quero vomitar.
Mês 4
Eu não entro nas minhas roupas, meu sutiã me corta a pele, a alergia do creme antiestrias faz meu corpo inteiro coçar. No metrô, ninguém me cede o lugar. Sexo: bloqueio.
Mês 5 e 6
Faço xixi o tempo todo. Ninguém me cede o lugar no metrô. Sexo: eca!
Mês 7 à 9
Um monte de ecografias. O verão chegou enfim, e com ele a licença maternidade. Eu sonhara em passar as tardes no parque, lendo, sentada na grama. Andando igual a um pinguim, demoro tanto tempo no trajeto que, ao chegar, estou com vontade de fazer xixi. Sexo: me dou conta de que também não poderemos fazer amor após o parto. É hora de tirar o atraso. Mas o ato é bem mais acrobático do que glamour, é como transar com uma bola de futebol entre vocês.
É oficial. Minha mãe mentiu pra mim. A gravidez não é a fase mais bonita da vida."
Ao contrário do que o "mito da beatitude da gravidez" induz a pensar, reclamar dos incômodos físicos e psicológicos deste período não significa "não querer o bebê", "não amá-lo", "não estar ansiosa pela sua chegada". Para não cair nessa armadilha e em toda a frustração que ela gera, é preciso ter consciência de que o que se exige de irreal da supermãe não tem absolutamente nada a ver com fazer o melhor para o bebê nem com o que fará ambos felizes. A Roberta disse algo legal em um post sobre mulheres e humor escatológico: "Nós precisamos rir dessas experiências porque o riso naturaliza. E não há nada mais natural do que nossas necessidades fisiológicas. É como se nossa própria experiência corpórea em seu nível mais concreto nos fosse negada." Acho que isso serve também para a gravidez. Grávidas poderosas com gazes, hemorroida e incontinência: menos idealização e mais humor, menos frustração e mais liberdade!
... continua na próxima semana.
Para começar, é preciso pensar na origem dessa "plenitude", desse sentimento de realização feminina que se espera da gravidez. Viria ele da própria essência feminina? Existe isso? Ora, as pensadoras feministas que refletiram sobre a questão descobriram que esta idealização da gravidez e da maternidade acabava colaborando para fazer da função materna a principal - senão única - condição feminina possível. E assim, ajudava a manter a mulher presa a um único destino.
Veja bem, não se trata aqui de uma crítica à gravidez nem à vontade de ser mãe! Trata-se simplesmente da percepção de fenômenos culturais e de discursos socialmente construídos. Argumentos biológicos que procuram explicar o instinto materno e o amor materno como tendências naturais e inatas existem: dizem que a ocitocina, um hormônio que provoca as contrações do parto e a saída do leite, tem efeitos no cérebro que colaboram para a criação do vínculo entre a mãe e o bebê. Mas eu não seria capaz de ir mais longe com argumentos químicos, biológicos ou genéticos (se alguém souber mais sobre isso, por favor comente abaixo). Por outro lado, não me parece possível analisar o comportamento humano sem ter em mente que somos seres sociais, históricos e culturais. Por isso, reluto em acreditar que a mulher esteja programada para ser mãe, amar seu filho e dedicar-se a ele, assim como um pai não nasce "geneticamente programado" para ser incapaz de trocar fraldas ou de levantar à noite... Em resumo:
"A capacidade de dar à luz é algo biológico; a necessidade de convertê-lo no papel primordial da mulher é cultural." (fonte)
Ao contrário do Brás Cubas pessimista que "não teve filhos, não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria", a constituição de uma família é um valor importante na nossa sociedade. Li um artigo interessante sobre as representações do corpo grávido na mídia, em que a autora ressaltava a "dimensão simbólica das imagens do corpo e da gravidez como parte da construção moderna da identidade feminina". O que no fundo é um mecanismo de aprisionamento (quando a mulher tem que ser mãe, deve ser mãe, só é feliz se for mãe, só é mulher se for mãe), passa a ser representado, ao contrário, como a "afirmação de uma liberdade de escolha e de autorrealização". A autora do artigo dá o exemplo da apresentadora Angélica, grávida do primeiro filho em 2005, dizendo: "Agora a gente vive o filme da vida real. E seremos felizes para sempre!" Sério, quer mais comercial de margarina do que isso?
Mas, na prática, onde é que está o problema? A maternidade sendo vista como uma habilidade intrínseca à mulher, isto contribui, por exemplo, para a divisão desigual das tarefas dentro de casa (o bebê fica majoritariamente sob a responsabilidade da mãe). Outro exemplo: uma mãe de primeira viagem sofre uma imensa pressão social porque se espera dela, logo de cara, a perfeição na execução de tarefas maternas. Imagina o stress! Ao mesmo tempo em que todo mundo resolve palpitar - e tratar a neomãe como incompetente - esta mãe está tentando provar pra si mesma e para os outros que é capaz. Quantas mães em depressão pós-parto são estigmatizadas e se culpam por não conseguirem atingir essa "plenitude", por estarem profundamente tristes quando deveriam estar vivendo "o momento mais feliz de suas vidas"? Quem já passou pela experiência de ter um bebê pequeno sob sua total responsabilidade, full-time, sabe que o cansaço e o esgotamento podem ser torturantes, o que, somado à exigência de felicidade e de plenitude, faz da mãe uma bomba relógio prestes a explodir. Quanto sofrimento e quanto cansaço não seriam evitados se essa busca irrealista da perfeição maternal fosse esquecida!
Eu costumava ler um blog engraçadinho chamado "Mauvaises mères" ("Péssimas mães"), em que um trio de jovens mães francesas contavam de forma bem-humorada o quotidiano de mães... reais! Claro que elas não eram péssimas mães, mas o título do blog fala por si só: confessar que sua vida não gira em torno do bebê, que na realidade o bebê não torna sua existência absolutamente perfeita e feliz, faz mesmo de você uma "mãe indigna" (título de outro blog)? Na verdade, ao longo dos posts, elas acabavam convencendo o leitor do contrário, de que é possível ser uma ótima mãe conservando seus interesses, suas ambições profissionais, guardando um pouco de sua velha identidade de antes da maternidade.Em um post sobre sua própria gravidez, uma das autoras conta como foi chocante descobrir que os nove meses maravilhosos eram na verdade um mito:
"Ah! A gravidez, um dos mais belos períodos da minha vida! - Minha mãe me criara em torno deste mito da maternidade. E bem, era chegada a minha vez de estar grávida, eu iria enfim viver este momento de graça. Uma certa sabedoria tomaria conta de mim. Por que afinal, a gravidez não é o melhor momento para se lembrar do que é essencial? Mas meu pai me contou que não tinha sido nada daquilo, que minha mãe ficara de cama a partir do quinto mês. Teriam mentido para mim?
Mês 1 à 3
Quero vomitar. Tenho frio o tempo todo. Estou cansada, quero dormir, meus seios dóem. Estou distraída. Brigo com todo mundo, choro em filme água-com-açúcar. Choro todo o tempo. No metrô, ninguém me cede o lugar, embora seja o momento mais difícil da gravidez. Sexo: só o que eu digo é que quero vomitar.
Mês 4
Eu não entro nas minhas roupas, meu sutiã me corta a pele, a alergia do creme antiestrias faz meu corpo inteiro coçar. No metrô, ninguém me cede o lugar. Sexo: bloqueio.
Mês 5 e 6
Faço xixi o tempo todo. Ninguém me cede o lugar no metrô. Sexo: eca!
Mês 7 à 9
Um monte de ecografias. O verão chegou enfim, e com ele a licença maternidade. Eu sonhara em passar as tardes no parque, lendo, sentada na grama. Andando igual a um pinguim, demoro tanto tempo no trajeto que, ao chegar, estou com vontade de fazer xixi. Sexo: me dou conta de que também não poderemos fazer amor após o parto. É hora de tirar o atraso. Mas o ato é bem mais acrobático do que glamour, é como transar com uma bola de futebol entre vocês.
É oficial. Minha mãe mentiu pra mim. A gravidez não é a fase mais bonita da vida."
Ao contrário do que o "mito da beatitude da gravidez" induz a pensar, reclamar dos incômodos físicos e psicológicos deste período não significa "não querer o bebê", "não amá-lo", "não estar ansiosa pela sua chegada". Para não cair nessa armadilha e em toda a frustração que ela gera, é preciso ter consciência de que o que se exige de irreal da supermãe não tem absolutamente nada a ver com fazer o melhor para o bebê nem com o que fará ambos felizes. A Roberta disse algo legal em um post sobre mulheres e humor escatológico: "Nós precisamos rir dessas experiências porque o riso naturaliza. E não há nada mais natural do que nossas necessidades fisiológicas. É como se nossa própria experiência corpórea em seu nível mais concreto nos fosse negada." Acho que isso serve também para a gravidez. Grávidas poderosas com gazes, hemorroida e incontinência: menos idealização e mais humor, menos frustração e mais liberdade!
... continua na próxima semana.
13 de janeiro de 2013
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maternidade,
saúde,
sexo
6
por Tággidi Ribeiro
Esse relato poderia servir pra um dos nossos Sexismos de Cada Dia, mas vou postá-lo aqui. Assim aproveito e já falo umas coisinhas que há tempos venho pensando e sobre as quais outras pessoas têm pensado também - ainda bem!
Esse relato poderia servir pra um dos nossos Sexismos de Cada Dia, mas vou postá-lo aqui. Assim aproveito e já falo umas coisinhas que há tempos venho pensando e sobre as quais outras pessoas têm pensado também - ainda bem!
Fim de ano no ano passado e tod@s nós aproveitamos pra reencontrar amigxs, confraternizar, beber umas cervejas, brincar de colega (rs) secreto e tal. Estava eu indo pra uma dessas confraternizações, andando pela rua apressada, porque estava um tanto atrasada, quando sinto um toque no meu braço e ouço a frase já ouvida por tantas de nós em tantas situações ao longo da vida: "Moça, você é linda". Sem nem pensar retirei meu braço com rapidez e disse um 'obrigada' baixo (sim, eu disse) ao mesmo tempo constrangido e raivoso e segui meu caminho.
A expressão chave aqui, na minha opinião, é 'ao longo da vida'. A gente nasce recebendo elogios à nossa beleza física. Somos crianças e ouvimos prognósticos - 'vai dar trabalho', 'vai ficar linda'. Desde pequenas, o nosso fito, ou melhor, o fito dos outros para nós, é sermos bonitas, antes de tudo: 'vamos colocar essa roupa pra ficar bonita', 'não chora que fica feia'.
Já falamos sobre isso, sobre a valorização absurda da beleza física feminina, aqui no blog. Falamos também sobre o que acontece depois que uma mulher 'perde' essa 'beleza', que hoje em dia significa basicamente engordar ou envelhecer. E também já falamos sobre essa educação perversa que transforma crianças do sexo feminino em bibelôs que o patriarcado chama de princesas - as quais depois ataca como fúteis. Ainda assim, esse 'ao longo da vida' é tão forte que eu - feminista - respondi 'obrigada' a um homem impertinente e desrespeitoso que teve a capacidade de tocar numa desconhecida e dizer sua opinião sobre a aparência dela.
Esse 'obrigada' está entranhado em mim, em nós, porque nos fizeram crer que um elogio à nossa aparência, vindo de qualquer um, é de fato um elogio, quando é, na verdade, a reprodução em discurso do lugar que ainda se acredita deva ser o da mulher até ser mãe - o lugar do enfeite. 'Mulher tem que ser bonita' - ouço um monte de homem, mesmo se considerado feio, dizer; 'mulher feia nem pra zona presta', ouvi ontem dizerem, a respeito da novela Salve Jorge e daquelas prostitutas traficadas, forçadas, todas lindíssimas. Quer mais pra achar que 'linda' não é assim elogio de fato? Homem no geral não fica #chatiado se não tem a beleza elogiada, nem se não tem beleza; também não fica especialmente feliz se é bonito e recebe elogios - o valor de um homem independe da beleza física.
Já falamos sobre isso, sobre a valorização absurda da beleza física feminina, aqui no blog. Falamos também sobre o que acontece depois que uma mulher 'perde' essa 'beleza', que hoje em dia significa basicamente engordar ou envelhecer. E também já falamos sobre essa educação perversa que transforma crianças do sexo feminino em bibelôs que o patriarcado chama de princesas - as quais depois ataca como fúteis. Ainda assim, esse 'ao longo da vida' é tão forte que eu - feminista - respondi 'obrigada' a um homem impertinente e desrespeitoso que teve a capacidade de tocar numa desconhecida e dizer sua opinião sobre a aparência dela.
Esse 'obrigada' está entranhado em mim, em nós, porque nos fizeram crer que um elogio à nossa aparência, vindo de qualquer um, é de fato um elogio, quando é, na verdade, a reprodução em discurso do lugar que ainda se acredita deva ser o da mulher até ser mãe - o lugar do enfeite. 'Mulher tem que ser bonita' - ouço um monte de homem, mesmo se considerado feio, dizer; 'mulher feia nem pra zona presta', ouvi ontem dizerem, a respeito da novela Salve Jorge e daquelas prostitutas traficadas, forçadas, todas lindíssimas. Quer mais pra achar que 'linda' não é assim elogio de fato? Homem no geral não fica #chatiado se não tem a beleza elogiada, nem se não tem beleza; também não fica especialmente feliz se é bonito e recebe elogios - o valor de um homem independe da beleza física.
Mas o relato não acabou no caminho que segui, pois logo ouvi gritarem meu nome. Olhei para trás e um grande amigo me chamava. E em sua roda de amigos estava o homem que instantes antes havia tocado e 'elogiado' uma desconhecida. Seu constrangimento não podia ser maior. Como assim, então, ele estava sendo apresentado para a mulher que pouco antes chamou de 'linda'?! Mas, vejam bem, como eu disse, seu constrangimento era grande, não sua felicidade. E não porque eu lhe tratasse mal - ele estava na mesa com um meu amigo, eu não o confrontaria nessa situação. Ademais, eu falava muito apressadamente com meu amigo, que estava apressada, afinal de contas. Enfim, fui embora logo, dando um tchau geral e propositadamente reparando no meu entusiasta, agora mais murcho que alface em fim de churrasco. Não perguntou a meu amigo quem eu era, não pediu meu telefone.
Aquele homem não tinha me elogiado, nem me cantado. Aquele homem tinha usado seu direito de me encher o saco, de tocar em mim sem jamais ter me visto (!) dado pela nossa sociedadezinha machista. Só isso. Por isso, em tantas discussões com esse meu amigo, eu rebati o argumento repetido por ele (e por quase todos os outros homens) de que 'parar de olhar e falar com mulheres na rua é o fim da cantada'. Bem, se a cantada é só a sua expressão babaca sobre o corpo de uma mulher, então que seja o fim. Agora, se a cantada é aquilo que tem o objetivo de chamar a atenção de uma mulher - pra que aconteça a conversa, o beijo e por aí vai, então agir como adulto maduro e feminista faz bem. Aqui vai a receita: olhe para a mulher de seu agrado sem fazer dela um pedaço de carne, veja se ela retribui esse olhar e fale com ela. O resto é mimimi de quem não se preocupa com o outro - nós, mulheres, que, quem dera, ouvíssemos de abuso verbal só 'você é linda' ao longo da vida.
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11 de janeiro de 2013
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Tággidi,
violência
3
Na cultura do estupro, como o nome já diz, praticamente toda a cultura funciona para sancionar o estupro e culpar xs sobreviventes. E aqui entram a banalização do estupro através de piadas, a mídia tradicional e mesmo o judiciário, que sistematicamente inocenta estupradores:
Então não é de surpreender que o mercado de bens de consumo corrobore com este paradigma, cobrindo de glamour o que, no final das contas, não passa de violência de gênero (veja a figura de abertura do post).
A Victoria's Secret entrou na dança com uma coleção de calcinhas da linha Pink, sua marca voltada para o público adolescente, que traziam a estampadas expressões como Unwrap me (Me abra) e Sure thing (Coisa certa). Apesar de não promover o estupro de maneira óbvia e direta - só mesmo uma aberração chamada Lobo da Insanidade para ser capaz disso - esse tipo de produto naturaliza, de maneira sedutora, os mitos envolvidos na manutenção da cultura de estupro.
A sociedade civil interveio (ainda bem que temos o feminismo!) com uma resposta absolutamente inusitada, bem-humorada e inteligente: criou um site falso com uma linha chamada Love Consent trazendo estampas anti-estupro. Se a linha da Victoria's Secret confundia a noção de consentimento com uma calcinha que dizia Yes, no, maybe (Sim, não, talvez), a Love Consent deixa claro: No means no (Não quer dizer não).
Como a cultura de estupro está em todo o lugar, cito também uma situação diária. Esses dias eu, conversando com um amigo (branco, escolarizado, de classe média), dizia que, uma vez que a garota (ou garoto) tenha dito não, insistir leva a uma zona ambígua que pode ser qualificada como estupro. Como disse a Lola, pensamos em estupro como uma coisa que acontece num beco escuro, envolvendo um desconhecido e muita violência. Mas não. Estupro é qualquer ato que envolva o não consentimento de uma das partes.
Vivemos numa sociedade machista (surpresa) que faz com que as mulheres acreditem que a culpa de... bom, praticamente tudo, é delas. Daí uma garota e um cara estão ficando, ele começa com umas carícias mais quentes e a garota pede para parar. O cara força a barra, seja com um pouco de violência (tenta enfiar a mão embaixo da calcinha dela ou a segura mais forte, o que pode ser confundido com a famigerada 'pegada' - que por acaso não seria mais um mecanismo da cultura do estupro??) ou com um papinho de amante latino do tipo "relaxa, gata", "não tem problema", "não é nada de mais"... E a garota vai cedendo.
Se eu fosse super-heroína e pudesse escolher um único superpoder, queria ser capaz de empoderar as mulheres. Fazer com que magicamente nos libertássemos dessas culpas construídas para nos tornarem dóceis e sexualmente disponíveis para os homens.
por Roberta Gregoli
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| Dolce & Gabbana glamourizando o estupro por gangue |
Na cultura do estupro, como o nome já diz, praticamente toda a cultura funciona para sancionar o estupro e culpar xs sobreviventes. E aqui entram a banalização do estupro através de piadas, a mídia tradicional e mesmo o judiciário, que sistematicamente inocenta estupradores:
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| Em cima: Estupradores - Denunciados - Levados a julgamento - Presos Embaixo: Acusados falsamente Fonte: http://theenlivenproject.com/the-truth-about-false-accusation/ |
Então não é de surpreender que o mercado de bens de consumo corrobore com este paradigma, cobrindo de glamour o que, no final das contas, não passa de violência de gênero (veja a figura de abertura do post).
A Victoria's Secret entrou na dança com uma coleção de calcinhas da linha Pink, sua marca voltada para o público adolescente, que traziam a estampadas expressões como Unwrap me (Me abra) e Sure thing (Coisa certa). Apesar de não promover o estupro de maneira óbvia e direta - só mesmo uma aberração chamada Lobo da Insanidade para ser capaz disso - esse tipo de produto naturaliza, de maneira sedutora, os mitos envolvidos na manutenção da cultura de estupro.
A sociedade civil interveio (ainda bem que temos o feminismo!) com uma resposta absolutamente inusitada, bem-humorada e inteligente: criou um site falso com uma linha chamada Love Consent trazendo estampas anti-estupro. Se a linha da Victoria's Secret confundia a noção de consentimento com uma calcinha que dizia Yes, no, maybe (Sim, não, talvez), a Love Consent deixa claro: No means no (Não quer dizer não).
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| Victoria's Secret e ativismo feminista: de 'Coisa certa' para 'Peça permissão antes' porque "nenhuma vagina é 'uma coisa certa'" |
Como a cultura de estupro está em todo o lugar, cito também uma situação diária. Esses dias eu, conversando com um amigo (branco, escolarizado, de classe média), dizia que, uma vez que a garota (ou garoto) tenha dito não, insistir leva a uma zona ambígua que pode ser qualificada como estupro. Como disse a Lola, pensamos em estupro como uma coisa que acontece num beco escuro, envolvendo um desconhecido e muita violência. Mas não. Estupro é qualquer ato que envolva o não consentimento de uma das partes.
A cada 12 segundos, uma mulher é estuprada no Brasil. E em 84% dos casos julgados o crime é cometido por um conhecido. Este número envolve principalmente familiares, que é um caso diferente do que estou tratando aqui: o chamado date rape, para o qual não há estatísticas confiáveis que eu conheça no Brasil, é o estupro que ocorre durante um encontro ou uma 'ficada', e que é muito pouco denunciado, justamente porque o conceito ainda não está articulado na cultura popular. Mas o date rape acontece obviamente entre pessoas que se conhecem e frequentam os mesmos ciclos sociais, por isso é também chamado de acquaintance rape (estupro por um conhecido). Veja um depoimento aqui.
Vivemos numa sociedade machista (surpresa) que faz com que as mulheres acreditem que a culpa de... bom, praticamente tudo, é delas. Daí uma garota e um cara estão ficando, ele começa com umas carícias mais quentes e a garota pede para parar. O cara força a barra, seja com um pouco de violência (tenta enfiar a mão embaixo da calcinha dela ou a segura mais forte, o que pode ser confundido com a famigerada 'pegada' - que por acaso não seria mais um mecanismo da cultura do estupro??) ou com um papinho de amante latino do tipo "relaxa, gata", "não tem problema", "não é nada de mais"... E a garota vai cedendo.
Quando contei ao meu amigo que isso também é uma forma de violência, ele se surpreendeu: "mas, no fundo, ela queria". E me disse ainda que a nossa sociedade é muito repressora e não deixa a mulher se expressar sexualmente, por isso o cara tem que insistir. Eu detesto este "no fundo ela queria" - como um cara pode ter a arrogância de achar que sabe, melhor do que a própria mulher, o que ela quer? Quando se trata de consentimento, ao contrário do que meu amigo e a Victoria's Secret acreditam, não existe "no fundo": é o que a garota diz e ponto.
Ele está certo quanto à sociedade repressora, mas a repressão não é que ela está louquinha para transar com ele mas tem que parecer uma boa moça para que ele queira casar com ela (além de arrogante, esta lógica é de outro século, não?). A repressão funciona a partir do momento que a garota não tem assertividade para dizer: NÃO, EU NÃO QUERO TRANSAR COM VOCÊ. PONTO.
Ou seja, o ceder é que é a repressão da sociedade em funcionamento. A cultura do estupro nos cria para defender estupradores ao repetir sem cessar que a culpa é das mulheres.
Que estamos em débito com o cara porque ele pagou pelo jantar, porque demos "falsa esperança", porque fomos até a casa dele... Algumas ficam "com dó" porque o cara está insistindo e, ah, ele é tão bonzinho...
Que estamos em débito com o cara porque ele pagou pelo jantar, porque demos "falsa esperança", porque fomos até a casa dele... Algumas ficam "com dó" porque o cara está insistindo e, ah, ele é tão bonzinho...
Se eu fosse super-heroína e pudesse escolher um único superpoder, queria ser capaz de empoderar as mulheres. Fazer com que magicamente nos libertássemos dessas culpas construídas para nos tornarem dóceis e sexualmente disponíveis para os homens.
Então, que fique claro: Não é não.
Garotos, se e a gata disse 'não' uma vez, que seja o suficiente. Senão, você é um estuprador em potencial #pensenisso
Não forcem a barra. 'Forçar a barra', como a própria expressão sugere, é uma violência, o que te qualifica como agressor. Se ela estiver a fim, ela vai te procurar e vocês vão transar quando e se ela quiser de verdade.
Garotas, empoderem-se. Leiam este excelente post da tia Mazu. E, mesmo que você esteja pelada na frente de um cara e mude de ideia, diga NÃO. Seu corpo, suas regras. Sempre.













