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por Barbara Falleiros
À medida que o corpo feminino se transforma durante a gravidez, muda também o modo de concebê-lo. Ao mesmo tempo, para a mulher, a gravidez é um momento de redefinição da identidade. Confesso que gostaria de ter estudado psicologia e que às vezes me vejo coletando dados para minha psicologia de boteco. É por isso que sempre sorrio quando uma amiga - agora mãe - fala em nome do bebê ao invés de falar em nome de si mesma: "o neném te manda um beijo!" Manda nada (rs)! Mas eu acho singelo. Você tem uma pessoa dentro de você, pelo menos durante um certo tempo aquela pessoa É você...
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| "Fala de bebê" ofende a minha inteligência |
Se por um lado acho inofensivo a própria mãe falar (de leve) em nome do bebê, fico perplexa diante da infantilização da mulher e de todo o uso exagerado de diminutivos ao se dirigir a uma grávida. A menos que você seja português, qual a justificativa pra dizer: "Ai, que gravidinha linda, olha essa barriguinha, você está comendo direitinho?" Já é irritante quando falam com bebês como se fossem imbecis, tratar dessa forma uma pessoa adulta é impor-lhe a redução de sua identidade e individualidade.
Mas deixemos essas análises para os mais competentes e voltemos ao corpo. Existem dois aspectos da forma como se lida com este novo corpo transformado que considero desconcertantes. Ambas dizem respeito à intimidade da mulher, ou à falta dela... Nós falamos um pouco no post da semana passada e nos comentários que ele suscitou que o corpo da mulher grávida é quase que santificado, "receptáculo da vida" em concepções de fundo religioso, transforma-se em um corpo dessexualizado (pois já está cumprindo sua função reprodutiva). Assim, privado da dimensão sexual que é situada, para nós, no âmbito da intimidade, o corpo grávido de repente se torna um corpo público.
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| Sim, estou grávida. Não, você não pode tocar minha barriga! |
"Que linda, posso passar a mão na sua barriga?" - diz o(a) desconhecido(a). Talvez eu esteja exagerando e eu mesma seja um bom objeto de estudo para minha psicologia de boteco, mas se estas são formas de aproximação "carinhosas", eu me pergunto, quem é que quer carinho de desconhecido? As implicações são outras, é verdade, mas em termos de atitude não vejo muita diferença entre pedir pra tocar uma pessoa que você não conhece e pedir pra ver seu pé...
Tem até aquelas que levantam a bandeira: "Barriga de grávida não é corrimão!" Caso perdido, a barriga aumenta e a grávida vai perdendo pouco a pouco sua privacidade... "Você está se cuidando?", "O bebê foi planejado?" Mas o que é que o outro tem a ver com isso? E sobretudo, como é que ele se acha no direito de perguntar?
O segundo aspecto que mais me desconcerta na relação - dos outros - com o corpo da mulher grávida é a forma como ele é tratado na "volta à sexualidade" no pós-parto (visto que a sexualidade supostamente não existe durante a gravidez...). A Tággidi falou uma vez da moda crescente de cirurgias íntimas, busca pela adequação a determinado "modelo estético" de vagina. Isso já é absurdo e triste o suficiente, porém é possível ir além. Sinto arrepios quando ouço a expressão "ponto do marido", que (pelo que entendi) consiste em praticar a episiotomia costurando a vagina mais apertada para "dar ao marido a sensação de penetrar uma virgem". E que isso cause dores à mulher, não preciso nem dizer. (Já posso ir embora desse mundo? Não quero mais ficar aqui, não!)
O negócio é que, no senso comum, por aí, a grávida logo passa de santa à baranga. Se ninguém ousou criticar seu corpo diretamente durante a gravidez, os ataques ressurgem quando se espera que a mulher volte à ativa. Numa concepção absolutamente machista das relações sexuais, na qual o corpo da mulher existe para satisfazer o homem e a satisfação do homem consiste basicamente na penetração da mulher, ei-la então como objeto imprestável, desqualificada, "flácida", "alargada", "estragada". Para coroar, muitas vezes é isso o que motiva a preferência por cirurgias cesarianas. Seguem algumas pérolas encontradas em uma discussão sobre a "flacidez da vagina após o parto normal":
"Minha namorada teve dois filhos. Cesárea. Minhas mulheres só fazem cesárea. Parto normal, nem pensar!!!!!!!! Mulher fica molhada, super larga, terrível!!!!!"
"[A vagina] Não volta ao normal sem algum procedimento estético após o parto normal! Sou casada, tenho 2 filhos ambos de parto normal. No primeiro parto não senti diferença, mas no segundo... Nossa, estou gigante, já fui traída por conta disso... Sabe, é até um desabafo. Ainda assim, com tudo isso, meu esposo não assume essa minha deformidade. (...) Dizem que o parto normal destrói casamentos (...). Ouvi dizer que a sensação é de fazer sexo com um copo americano quando antes do parto a sensação era de um anel."
"Sou ginecologista e há anos venho dizendo que após um parto normal de
crianca grande ou dois de criança de uns 3 kg, a mulher fica com a
vagina bem flácida e logo indico a correção cirúrgica. Só que o pós-operatório é muito doloroso. Devido a isso acho cesariana muito melhor,
pois os maridos normalmente não reclamam por pena da parceira, mas
depois que conserto eles ADORAM!"
Deformidade e conserto. Sexo é o que "segura" o homem no casamento e casamento é um compromisso do qual um homem sempre busca escapar... Sexo é o prazer do homem. Penetração e ponto. Exemplos de relações frágeis porque norteadas por concepções machistas. Exemplo de como decisões médicas importantes podem ser guiadas por uma postura machista que contraria as recomendações da Organização Mundial da Saúde (esta condena a "epidemia de cesáreas").
Não estou contestando a realidade das mudanças corporais no pós-parto, contesto a visão do corpo feminino como objeto de um prazer primário masculino. Essas alterações corporais devem ser levadas a sério, mas jamais motivadas por uma espécie de "mito pornográfico da virgenzinha" ao qual a mulher deva se conformar. Eu não sei como é no Brasil, mas na França há uma prática de reembolso, pelo sistema público de saúde, de sessões de fisioterapia para a reeducação do períneo após o parto normal. Parece importante, para os franceses, que a mulher possa retomar rapidamente uma sexualidade agradável. E é. Agradável tanto para ela quanto para o parceiro, repare na nuance... Mas não é só isso, a preocupação é centrada na saúde feminina, na prevenção de complicações como incontinência urinária ou até prolapso genital, com a perda de sustentação dos órgãos. Bem diferente das preocupações geradas pelo temor da "fuga do marido descontente"...
20 de janeiro de 2013
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85
Os masculinistas, no entanto, ao melhor estilo old school década de 1950, rejeitam qualquer ideia que se aproxima de igualdade e criticam este momento singular da história, nos seguintes termos: as namoradas não são mais 'capazes' de fazer mingau para seus namorados e isso significa o fim dos relacionamentos. Tudo culpa do feminismo!
Masculinistas são homens que seguem um tal de Nessahan Alita e dizem 'praticar o desapego', o que significa basicamente que eles fogem de se envolver emocionalmente com mulheres, considerando-as 'depósito de porra'. Apenas as novinhas (meninas entre 12 e 18 anos) e superlindas jovens interessam, pois para eles a vida de uma mulher acaba aos 30 anos. Para o homem, começa aos 30 anos.
Bem, depois de comer merda pra poder cagar isso tudo aí, os masculinistas ainda se julgam 'homens honrados'. E tanto que podem chegar a planejar assassinatos, serem cúmplices de chacina e fazerem apologia ao estupro e à morte de mulheres, negros e homossexuais.
por Tággidi Ribeiro
Pensem numa pessoa entediada. Bem, sou eu. Estou entediada neste momento por uma coisa só: porque é necessário falar dos masculinistas, ou seja, dos homens que não amam as mulheres. A Lola Aronovich já falou muito deles. Mas ainda não foi, não é o suficiente - e sabe-se lá quanto será suficiente falar de gente que é ou louca, ou burra.
Porque os masculinistas não são outra coisa: são loucos ou burros. Provavelmente as duas coisas, como diria o Chaves. Não posso dizer que sejam simplesmente imaturos, pois que têm na maioria das vezes mais de vinte e poucos anos - perdoamos sempre os arroubos da adolescência, mas a homens adultos e vacinados só podemos deplorar a falta de capacidade intelectual ou a pura desrazão. #fazeroquê
Masculinistas são homens que dizem que vivemos numa sociedade 'bucetista', que lambe o salto das mulheres, como se realmente nós, mulheres, comandássemos o mundo. Se você (homem ou mulher) acha que nós mulheres comandamos o mundo, olhem para as taxas de estupro reportado na Inglaterra - país de primeiro mundo, longe de ser tão machista quanto o Brasil - e ponham a mão na consciência. Olhem para o dinheiro e para o poder - que estão na mão de quem?
Olhem para o islã... Embora o problema não seja, fundamentalmente e sem trocadilho, o islã. O problema são todas as nações e religiões deste planeta insistindo que as mulheres não somos iguais, com nossas dores, alegrias, desejos e história. Nosso mundo, mesmo sabendo de tanto, não consegue admitir o básico: pertencemos a uma mesma espécie, não há porque sermos consideradas inferiores e tratadas como tal por nossos companheiros.
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| meme genial da Maíra Lacerda. |
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| mais um meme da Maíra! |
Masculinistas são homens que seguem um tal de Nessahan Alita e dizem 'praticar o desapego', o que significa basicamente que eles fogem de se envolver emocionalmente com mulheres, considerando-as 'depósito de porra'. Apenas as novinhas (meninas entre 12 e 18 anos) e superlindas jovens interessam, pois para eles a vida de uma mulher acaba aos 30 anos. Para o homem, começa aos 30 anos.
Bem, depois de comer merda pra poder cagar isso tudo aí, os masculinistas ainda se julgam 'homens honrados'. E tanto que podem chegar a planejar assassinatos, serem cúmplices de chacina e fazerem apologia ao estupro e à morte de mulheres, negros e homossexuais.
Você não sabia que os masculinistas existiam? Bem, agora você sabe. Uma única página no facebook reúne mais de 20.000 desses descerebrados misóginos - que reclamam da falta de mingau...
ps: denuncie páginas preconceituosas, sempre.
ps: denuncie páginas preconceituosas, sempre.
18 de janeiro de 2013
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Tággidi
0
ou O caso do pé-dofilo por Hadassa M. M. Vieira
Ontem estava em uma das unidades da Caixa aguardando para ser atendida quando um senhor se senta ao meu lado e começa a puxar papo. Educadamente, mas sem prestar muita atenção, fui conversando com ele sobre banalidades... a chuva, o trânsito, etc.
Eis que, do nada, ele olha pra mim e começa:
- Sabe como é, todo mundo tem suas manias... a minha é pé! Adoro um pé. Eu tava reparando que seu pé é super delicado, pé pequeno...
- Ahan
- Quanto você calça?
- 33
- Nossa, que pé pequenininho... Tira o sapato pra eu ver?
- ...
Olhei com cara de "WTF"
- Deixa eu ver?
- Moço, eu vou ser gentil e vou lhe explicar porque não vou te mostrar meu pé. O senhor não pode chegar para uma estranha e assediar a pessoa dessa forma! Isso é abusivo, invasivo e desrespeitoso! Dá um tempo né?!
Segundo ele, não tinha nada de mais pedir pra ver meu pé...
Fala sério? Você não pode ir ao banco sem ter q aturar merda!
Seguindo a lógica do momento, ninguém mandou eu ir ao banco de sapatilha, acho que eu "pedi" por isso... :S
17 de janeiro de 2013
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sexismo de cada dia
5
O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos.
por Roberta Gregoli
O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos.
Eu nem sou daquelxs que menosprezam o cinema popular brasileiro: muito pelo contrário, sou entusiasta. Admiro seu poder de alcance e seu potencial transgressor, e acho que desdenhar o cinema popular generica e acriticamente é uma das facetas do elitismo tupiniquim.
Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.
Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.
E o pilar sobre o qual De pernas para o ar 2 se sustenta é o mais fundamental e caro ao patriarcado: a divisão sexual do trabalho. Alice (Ingrid Guimarães) é uma workaholic inveterada que se desdobra para manter casa, filho e casamento. O enredo do filme gira em torno dos malabarismos de Alice para "dar conta" (como dito repetidas vezes ao longo do filme) de suas responsabilidades, à custa de sua saúde e bem-estar.
Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.
Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.
A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?
Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.
E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo
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| É raro no cinema um quadro composto somente por mulheres, ainda mais em posição de poder |
Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.
Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.
A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?
Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo
Mas numa coisa o filme acerta: quando questionada como dá conta, a mulher maravilha Vitória é rápida em responder que "é fácil, querida, eu não tenho marido". Ter um cônjuge masculino em casa representa um aumento de 2 horas de trabalho por semana para as mulheres.
Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.
Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.
Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.
Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.
16 de janeiro de 2013
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Roberta
6
por Barbara Falleiros
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| Grávida e flores: apogeu da feminilidade? |
Gostaria de começar o ano com uma série de posts sobre um assunto ao qual demos pouco espaço em 2012. Discutimos a descriminalização do aborto e o direito da mulher de decidir sobre a reprodução, mas não falamos de gravidez, do tratamento reservado às mulheres grávidas no cotidiano, da discriminação no trabalho, da violência obstétrica e das questões em torno do aleitamento materno. Visto que muitas amigas Subvertidas estão grávidas ou com filhos pequenos neste momento, aproveito a boa ocasião para abrir a discussão.
À primeira vista, pode parecer estranho criticar o tratamento reservado no dia-a-dia às mulheres grávidas, quando sabemos que, numa situação em que a gravidez é desejada e que a grávida "vive um momento mágico", como se diz, ela costuma ser paparicada. Em situação ideal, todo mundo fica contente e tudo vai bem. De repente, a grávida se vê tendo suas vontades satisfeitas, as pessoas interessam-se por ela, são gentis, fazem elogios. Em situação ideal, uma grávida é uma mulher feliz. E, em breve, quando se tornar mãe, será uma mulher realizada. Ou não?
Para começar, é preciso pensar na origem dessa "plenitude", desse sentimento de realização feminina que se espera da gravidez. Viria ele da própria essência feminina? Existe isso? Ora, as pensadoras feministas que refletiram sobre a questão descobriram que esta idealização da gravidez e da maternidade acabava colaborando para fazer da função materna a principal - senão única - condição feminina possível. E assim, ajudava a manter a mulher presa a um único destino.
Veja bem, não se trata aqui de uma crítica à gravidez nem à vontade de ser mãe! Trata-se simplesmente da percepção de fenômenos culturais e de discursos socialmente construídos. Argumentos biológicos que procuram explicar o instinto materno e o amor materno como tendências naturais e inatas existem: dizem que a ocitocina, um hormônio que provoca as contrações do parto e a saída do leite, tem efeitos no cérebro que colaboram para a criação do vínculo entre a mãe e o bebê. Mas eu não seria capaz de ir mais longe com argumentos químicos, biológicos ou genéticos (se alguém souber mais sobre isso, por favor comente abaixo). Por outro lado, não me parece possível analisar o comportamento humano sem ter em mente que somos seres sociais, históricos e culturais. Por isso, reluto em acreditar que a mulher esteja programada para ser mãe, amar seu filho e dedicar-se a ele, assim como um pai não nasce "geneticamente programado" para ser incapaz de trocar fraldas ou de levantar à noite... Em resumo:
Ao contrário do Brás Cubas pessimista que "não teve filhos, não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria", a constituição de uma família é um valor importante na nossa sociedade. Li um artigo interessante sobre as representações do corpo grávido na mídia, em que a autora ressaltava a "dimensão simbólica das imagens do corpo e da gravidez como parte da construção moderna da identidade feminina". O que no fundo é um mecanismo de aprisionamento (quando a mulher tem que ser mãe, deve ser mãe, só é feliz se for mãe, só é mulher se for mãe), passa a ser representado, ao contrário, como a "afirmação de uma liberdade de escolha e de autorrealização". A autora do artigo dá o exemplo da apresentadora Angélica, grávida do primeiro filho em 2005, dizendo: "Agora a gente vive o filme da vida real. E seremos felizes para sempre!" Sério, quer mais comercial de margarina do que isso?
Mas, na prática, onde é que está o problema? A maternidade sendo vista como uma habilidade intrínseca à mulher, isto contribui, por exemplo, para a divisão desigual das tarefas dentro de casa (o bebê fica majoritariamente sob a responsabilidade da mãe). Outro exemplo: uma mãe de primeira viagem sofre uma imensa pressão social porque se espera dela, logo de cara, a perfeição na execução de tarefas maternas. Imagina o stress! Ao mesmo tempo em que todo mundo resolve palpitar - e tratar a neomãe como incompetente - esta mãe está tentando provar pra si mesma e para os outros que é capaz. Quantas mães em depressão pós-parto são estigmatizadas e se culpam por não conseguirem atingir essa "plenitude", por estarem profundamente tristes quando deveriam estar vivendo "o momento mais feliz de suas vidas"? Quem já passou pela experiência de ter um bebê pequeno sob sua total responsabilidade, full-time, sabe que o cansaço e o esgotamento podem ser torturantes, o que, somado à exigência de felicidade e de plenitude, faz da mãe uma bomba relógio prestes a explodir. Quanto sofrimento e quanto cansaço não seriam evitados se essa busca irrealista da perfeição maternal fosse esquecida!
Eu costumava ler um blog engraçadinho chamado "Mauvaises mères" ("Péssimas mães"), em que um trio de jovens mães francesas contavam de forma bem-humorada o quotidiano de mães... reais! Claro que elas não eram péssimas mães, mas o título do blog fala por si só: confessar que sua vida não gira em torno do bebê, que na realidade o bebê não torna sua existência absolutamente perfeita e feliz, faz mesmo de você uma "mãe indigna" (título de outro blog)? Na verdade, ao longo dos posts, elas acabavam convencendo o leitor do contrário, de que é possível ser uma ótima mãe conservando seus interesses, suas ambições profissionais, guardando um pouco de sua velha identidade de antes da maternidade.
Em um post sobre sua própria gravidez, uma das autoras conta como foi chocante descobrir que os nove meses maravilhosos eram na verdade um mito:
"Ah! A gravidez, um dos mais belos períodos da minha vida! - Minha mãe me criara em torno deste mito da maternidade. E bem, era chegada a minha vez de estar grávida, eu iria enfim viver este momento de graça. Uma certa sabedoria tomaria conta de mim. Por que afinal, a gravidez não é o melhor momento para se lembrar do que é essencial? Mas meu pai me contou que não tinha sido nada daquilo, que minha mãe ficara de cama a partir do quinto mês. Teriam mentido para mim?
Mês 1 à 3
Quero vomitar. Tenho frio o tempo todo. Estou cansada, quero dormir, meus seios dóem. Estou distraída. Brigo com todo mundo, choro em filme água-com-açúcar. Choro todo o tempo. No metrô, ninguém me cede o lugar, embora seja o momento mais difícil da gravidez. Sexo: só o que eu digo é que quero vomitar.
Mês 4
Eu não entro nas minhas roupas, meu sutiã me corta a pele, a alergia do creme antiestrias faz meu corpo inteiro coçar. No metrô, ninguém me cede o lugar. Sexo: bloqueio.
Mês 5 e 6
Faço xixi o tempo todo. Ninguém me cede o lugar no metrô. Sexo: eca!
Mês 7 à 9
Um monte de ecografias. O verão chegou enfim, e com ele a licença maternidade. Eu sonhara em passar as tardes no parque, lendo, sentada na grama. Andando igual a um pinguim, demoro tanto tempo no trajeto que, ao chegar, estou com vontade de fazer xixi. Sexo: me dou conta de que também não poderemos fazer amor após o parto. É hora de tirar o atraso. Mas o ato é bem mais acrobático do que glamour, é como transar com uma bola de futebol entre vocês.
É oficial. Minha mãe mentiu pra mim. A gravidez não é a fase mais bonita da vida."
Ao contrário do que o "mito da beatitude da gravidez" induz a pensar, reclamar dos incômodos físicos e psicológicos deste período não significa "não querer o bebê", "não amá-lo", "não estar ansiosa pela sua chegada". Para não cair nessa armadilha e em toda a frustração que ela gera, é preciso ter consciência de que o que se exige de irreal da supermãe não tem absolutamente nada a ver com fazer o melhor para o bebê nem com o que fará ambos felizes. A Roberta disse algo legal em um post sobre mulheres e humor escatológico: "Nós precisamos rir dessas experiências porque o riso naturaliza. E não há nada mais natural do que nossas necessidades fisiológicas. É como se nossa própria experiência corpórea em seu nível mais concreto nos fosse negada." Acho que isso serve também para a gravidez. Grávidas poderosas com gazes, hemorroida e incontinência: menos idealização e mais humor, menos frustração e mais liberdade!
... continua na próxima semana.
Para começar, é preciso pensar na origem dessa "plenitude", desse sentimento de realização feminina que se espera da gravidez. Viria ele da própria essência feminina? Existe isso? Ora, as pensadoras feministas que refletiram sobre a questão descobriram que esta idealização da gravidez e da maternidade acabava colaborando para fazer da função materna a principal - senão única - condição feminina possível. E assim, ajudava a manter a mulher presa a um único destino.
Veja bem, não se trata aqui de uma crítica à gravidez nem à vontade de ser mãe! Trata-se simplesmente da percepção de fenômenos culturais e de discursos socialmente construídos. Argumentos biológicos que procuram explicar o instinto materno e o amor materno como tendências naturais e inatas existem: dizem que a ocitocina, um hormônio que provoca as contrações do parto e a saída do leite, tem efeitos no cérebro que colaboram para a criação do vínculo entre a mãe e o bebê. Mas eu não seria capaz de ir mais longe com argumentos químicos, biológicos ou genéticos (se alguém souber mais sobre isso, por favor comente abaixo). Por outro lado, não me parece possível analisar o comportamento humano sem ter em mente que somos seres sociais, históricos e culturais. Por isso, reluto em acreditar que a mulher esteja programada para ser mãe, amar seu filho e dedicar-se a ele, assim como um pai não nasce "geneticamente programado" para ser incapaz de trocar fraldas ou de levantar à noite... Em resumo:
"A capacidade de dar à luz é algo biológico; a necessidade de convertê-lo no papel primordial da mulher é cultural." (fonte)
Ao contrário do Brás Cubas pessimista que "não teve filhos, não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria", a constituição de uma família é um valor importante na nossa sociedade. Li um artigo interessante sobre as representações do corpo grávido na mídia, em que a autora ressaltava a "dimensão simbólica das imagens do corpo e da gravidez como parte da construção moderna da identidade feminina". O que no fundo é um mecanismo de aprisionamento (quando a mulher tem que ser mãe, deve ser mãe, só é feliz se for mãe, só é mulher se for mãe), passa a ser representado, ao contrário, como a "afirmação de uma liberdade de escolha e de autorrealização". A autora do artigo dá o exemplo da apresentadora Angélica, grávida do primeiro filho em 2005, dizendo: "Agora a gente vive o filme da vida real. E seremos felizes para sempre!" Sério, quer mais comercial de margarina do que isso?
Mas, na prática, onde é que está o problema? A maternidade sendo vista como uma habilidade intrínseca à mulher, isto contribui, por exemplo, para a divisão desigual das tarefas dentro de casa (o bebê fica majoritariamente sob a responsabilidade da mãe). Outro exemplo: uma mãe de primeira viagem sofre uma imensa pressão social porque se espera dela, logo de cara, a perfeição na execução de tarefas maternas. Imagina o stress! Ao mesmo tempo em que todo mundo resolve palpitar - e tratar a neomãe como incompetente - esta mãe está tentando provar pra si mesma e para os outros que é capaz. Quantas mães em depressão pós-parto são estigmatizadas e se culpam por não conseguirem atingir essa "plenitude", por estarem profundamente tristes quando deveriam estar vivendo "o momento mais feliz de suas vidas"? Quem já passou pela experiência de ter um bebê pequeno sob sua total responsabilidade, full-time, sabe que o cansaço e o esgotamento podem ser torturantes, o que, somado à exigência de felicidade e de plenitude, faz da mãe uma bomba relógio prestes a explodir. Quanto sofrimento e quanto cansaço não seriam evitados se essa busca irrealista da perfeição maternal fosse esquecida!
Eu costumava ler um blog engraçadinho chamado "Mauvaises mères" ("Péssimas mães"), em que um trio de jovens mães francesas contavam de forma bem-humorada o quotidiano de mães... reais! Claro que elas não eram péssimas mães, mas o título do blog fala por si só: confessar que sua vida não gira em torno do bebê, que na realidade o bebê não torna sua existência absolutamente perfeita e feliz, faz mesmo de você uma "mãe indigna" (título de outro blog)? Na verdade, ao longo dos posts, elas acabavam convencendo o leitor do contrário, de que é possível ser uma ótima mãe conservando seus interesses, suas ambições profissionais, guardando um pouco de sua velha identidade de antes da maternidade.Em um post sobre sua própria gravidez, uma das autoras conta como foi chocante descobrir que os nove meses maravilhosos eram na verdade um mito:
"Ah! A gravidez, um dos mais belos períodos da minha vida! - Minha mãe me criara em torno deste mito da maternidade. E bem, era chegada a minha vez de estar grávida, eu iria enfim viver este momento de graça. Uma certa sabedoria tomaria conta de mim. Por que afinal, a gravidez não é o melhor momento para se lembrar do que é essencial? Mas meu pai me contou que não tinha sido nada daquilo, que minha mãe ficara de cama a partir do quinto mês. Teriam mentido para mim?
Mês 1 à 3
Quero vomitar. Tenho frio o tempo todo. Estou cansada, quero dormir, meus seios dóem. Estou distraída. Brigo com todo mundo, choro em filme água-com-açúcar. Choro todo o tempo. No metrô, ninguém me cede o lugar, embora seja o momento mais difícil da gravidez. Sexo: só o que eu digo é que quero vomitar.
Mês 4
Eu não entro nas minhas roupas, meu sutiã me corta a pele, a alergia do creme antiestrias faz meu corpo inteiro coçar. No metrô, ninguém me cede o lugar. Sexo: bloqueio.
Mês 5 e 6
Faço xixi o tempo todo. Ninguém me cede o lugar no metrô. Sexo: eca!
Mês 7 à 9
Um monte de ecografias. O verão chegou enfim, e com ele a licença maternidade. Eu sonhara em passar as tardes no parque, lendo, sentada na grama. Andando igual a um pinguim, demoro tanto tempo no trajeto que, ao chegar, estou com vontade de fazer xixi. Sexo: me dou conta de que também não poderemos fazer amor após o parto. É hora de tirar o atraso. Mas o ato é bem mais acrobático do que glamour, é como transar com uma bola de futebol entre vocês.
É oficial. Minha mãe mentiu pra mim. A gravidez não é a fase mais bonita da vida."
Ao contrário do que o "mito da beatitude da gravidez" induz a pensar, reclamar dos incômodos físicos e psicológicos deste período não significa "não querer o bebê", "não amá-lo", "não estar ansiosa pela sua chegada". Para não cair nessa armadilha e em toda a frustração que ela gera, é preciso ter consciência de que o que se exige de irreal da supermãe não tem absolutamente nada a ver com fazer o melhor para o bebê nem com o que fará ambos felizes. A Roberta disse algo legal em um post sobre mulheres e humor escatológico: "Nós precisamos rir dessas experiências porque o riso naturaliza. E não há nada mais natural do que nossas necessidades fisiológicas. É como se nossa própria experiência corpórea em seu nível mais concreto nos fosse negada." Acho que isso serve também para a gravidez. Grávidas poderosas com gazes, hemorroida e incontinência: menos idealização e mais humor, menos frustração e mais liberdade!
... continua na próxima semana.
13 de janeiro de 2013
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