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A querida Valéria Guimarães me mandou um ótimo texto que faz algo parecido, mas, para mim, melhor ainda, porque não só inverte a equação, mas a reformula com a própria premissa. Explico: este discurso de 'dicas de segurança para mulheres' tem um fundamento muito simples, o de que os homens têm um instinto sexual incontrolável. A própria ideia de roupa 'provocante' é sintoma disso: certos tipos de roupa provocam algo que é difícil - ou não pode - ser contido, não é isso?
Aliás, várias outras falácias do machismo são baseadas nesse mito. Ou você já viu alguma pesquisa que prove que os homens têm, de fato, maior desejo sexual que as mulheres? Os homens ficam nessa posição de boçais que, vítimas da própria natureza animalesca, não podem fazer nada contra ela, o que, em última instância, significa que não podem se responsabilizar pelos seus impulsos.
Já deu pra ver onde isso dá, né? Estupro? É culpa da mulher que usou uma saia que fez o cara 'perder a cabeça'. Também nessa premissa se baseia todo aquele discurso que as mulheres são seres sensatos e morais que precisam 'civilizar' os homens. Aquela história de que homem só sossega quando encontra uma mulher séria, sabe? Que o homem 'tomou jeito' depois que conheceu a fulana (= mulher séria).
O texto explora essa premissa - já que homens são trogloditas em potencial, vamos inverter o discurso e limitar a liberdade deles, não a das mulheres. Como não encontrei uma versão em português, fiz uma livre tradução de partes do texto:
Em resposta à alegação de que homens são incapazes de controlar seus impulsos de estuprar mulheres usando roupas curtas, agentes dos diversos órgão de segurança lançaram uma solicitação para que os mesmos utilizem vendas nos olhos quando transitarem em lugares onde possam encontrar mulheres usando decote ou saia curta.
"Há anos ouvimos que os homens não conseguem reagir ao ver uma mulher usando, por exemplo, roupa de ginástica, e que, no entendimento deles, ver as curvas do corpo de uma mulher é um convite ao sexo, quer ela queira ou não", disse um policial. "Se isso é verdade, então não temos escolha. Queremos que as mulheres estejam seguras e, se aparentemente não há maneira de alguns homens controlarem seu comportamento ao se depararem com um decote, então todos os homens terão que cobrir seus olhos ao ir para a academia, frequentar bares ou discotecas ou mesmo ir à praia." [...]
Os homens expressaram preocupação, dizendo que essas medidas podem impedir que alguns deles executem tarefas quotidianas, como ir à escola, trabalhar e participar de eventos sociais.
Em resposta, os líderes religiosos disseram "entender que isso talvez seja um inconveniente para alguns", mas que "essas pequenas dificuldades não são nada quando comparadas ao horror que uma agressão sexual causa à vítima". "Na verdade", disse o líder da organização, "qualquer limitação à liberdade dos homens é melhor que o risco que corremos de alguns deles agredirem alguém. É uma questão de bom senso."
"Sabemos que nem todos os homens são estupradores, e que alguns homens provavelmente são confiáveis para apresentar programas de TV de forma segura", disse o diretor da Televisions Within Borders, um grupo de profissionais que promove o bem-estar dxs apresentadores de TV. "Entretanto, sabemos que alguns homens não são dignos de tal confiança. E por que correr esse risco? Há muitas mulheres qualificadas que podem fazem o mesmo trabalho." [...]
Os que apoiam o movimento alegam que não houve um único caso de abuso sexual de crianças por parte de técnicos de futebol desde que todos os técnicos das equipes de futebol universitário norte-americanos foram substituídas por mulheres, após o escândalo sexual na universidade Penn State no ano passado.
por Roberta Gregoli
Uma maneira muito eficaz de se detectar padrões duplos (o famoso 'dois pesos, duas medidas') é aplicar o padrão em questão ao sexo oposto e, se soar estranho, a injustiça é explicitada. Este post mostra como seria ridículo aplicar os mesmo 'conselhos' dados às mulheres aos homens para evitar agressão sexual.
A querida Valéria Guimarães me mandou um ótimo texto que faz algo parecido, mas, para mim, melhor ainda, porque não só inverte a equação, mas a reformula com a própria premissa. Explico: este discurso de 'dicas de segurança para mulheres' tem um fundamento muito simples, o de que os homens têm um instinto sexual incontrolável. A própria ideia de roupa 'provocante' é sintoma disso: certos tipos de roupa provocam algo que é difícil - ou não pode - ser contido, não é isso?Aliás, várias outras falácias do machismo são baseadas nesse mito. Ou você já viu alguma pesquisa que prove que os homens têm, de fato, maior desejo sexual que as mulheres? Os homens ficam nessa posição de boçais que, vítimas da própria natureza animalesca, não podem fazer nada contra ela, o que, em última instância, significa que não podem se responsabilizar pelos seus impulsos.
Já deu pra ver onde isso dá, né? Estupro? É culpa da mulher que usou uma saia que fez o cara 'perder a cabeça'. Também nessa premissa se baseia todo aquele discurso que as mulheres são seres sensatos e morais que precisam 'civilizar' os homens. Aquela história de que homem só sossega quando encontra uma mulher séria, sabe? Que o homem 'tomou jeito' depois que conheceu a fulana (= mulher séria).
O texto explora essa premissa - já que homens são trogloditas em potencial, vamos inverter o discurso e limitar a liberdade deles, não a das mulheres. Como não encontrei uma versão em português, fiz uma livre tradução de partes do texto:
E se respondêssemos à agressão sexual limitando a liberdade dos homens da mesma forma que limitamos a liberdade das mulheres?
Solicitação para que homens usem vendas ao sair em público
Em resposta à alegação de que homens são incapazes de controlar seus impulsos de estuprar mulheres usando roupas curtas, agentes dos diversos órgão de segurança lançaram uma solicitação para que os mesmos utilizem vendas nos olhos quando transitarem em lugares onde possam encontrar mulheres usando decote ou saia curta."Há anos ouvimos que os homens não conseguem reagir ao ver uma mulher usando, por exemplo, roupa de ginástica, e que, no entendimento deles, ver as curvas do corpo de uma mulher é um convite ao sexo, quer ela queira ou não", disse um policial. "Se isso é verdade, então não temos escolha. Queremos que as mulheres estejam seguras e, se aparentemente não há maneira de alguns homens controlarem seu comportamento ao se depararem com um decote, então todos os homens terão que cobrir seus olhos ao ir para a academia, frequentar bares ou discotecas ou mesmo ir à praia." [...]
Seria sensato deixar homens saírem sozinhos à noite?
Preocupados com os estudos recentes que mostram que, em média, 6% dos homens são perpretadores de agressão sexual durante o curso de suas vidas [...], líderes religiosos locais fizeram um apelo para que pais proíbam seus filhos homens de saírem à noite, a menos que estejam acompanhados da mãe, irmã ou uma amiga de confiança.Os homens expressaram preocupação, dizendo que essas medidas podem impedir que alguns deles executem tarefas quotidianas, como ir à escola, trabalhar e participar de eventos sociais.
Em resposta, os líderes religiosos disseram "entender que isso talvez seja um inconveniente para alguns", mas que "essas pequenas dificuldades não são nada quando comparadas ao horror que uma agressão sexual causa à vítima". "Na verdade", disse o líder da organização, "qualquer limitação à liberdade dos homens é melhor que o risco que corremos de alguns deles agredirem alguém. É uma questão de bom senso."
É hora de admitir que alguns empregos são simplesmente muito perigosos para os homens?
As recentes acusações que Jimmy Savile estuprou centenas de crianças enquanto trabalhava como apresentador de TV para a BBC gerou diversos pedidos da sociedade civil, requisitando que se evite contratar homens para cargos semelhantes.![]() |
| Jimmy Savile |
Os que apoiam o movimento alegam que não houve um único caso de abuso sexual de crianças por parte de técnicos de futebol desde que todos os técnicos das equipes de futebol universitário norte-americanos foram substituídas por mulheres, após o escândalo sexual na universidade Penn State no ano passado.
30 de janeiro de 2013
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por Mazu
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| Página "Não Aguento Quando" no Facebook. |
Há dois dias, minha cunhada publicou um vídeo no Orkut
(sim, no Orkut!) em que um metaleiro destilava muito julgamento sobre o que ele
chamou de pirirockers (deve significar algo como piriguetes do roquenrol). Não
conheço o cara, mas ele fez questão de dizer que estava lá criticando a
hipocrisia das meninas que usam roupa curta, mas são roqueiras, e ficam
criticando as meninas que usam roupa curta e escutam funk. Provavelmente, a
hipocrisia que ele detectou existe. Se realmente há alguém que usa roupa curta
criticando alguém que usa roupa curta, sim, há hipocrisia. Mas essa não é a
questão. Ainda que ele tenha se explicado e dito literalmente "as pessoas
podem fazer o que quiser e ser feliz, não tenho nada com isso", o vídeo
é machista, não parece, assim de parecer logo de cara, mas é. Muito
provavelmente, essa não foi a intenção do autor e, muito provavelmente, vários
de nós (si, jo también) destilamos machismo de quando em vez, sem nos darmos
conta. E por que, meu Deus, por quê? Porque a ideologia do patriarcado é tão
embebida, incutida nos nossos costumes que pode passar despercebida.
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| Femstagram no Facebook |
Um exercício interessante, inclusive para xs
companheirxs recém chegadxs no movimento, é se escutar falando. Loucura, né?
Mas, é isso mesmo. Na grande maioria das vezes, quando uma afirmação só serve
para homens ou mulheres, essa afirmação está lá com seus 90% de chance de ser
sexista. Vou usar como exemplo o vídeo que minha cunhas postou. Não é
semanticamente possível dizer "os pirirockers", certo? Quero dizer,
não rola tirar sentido da expressão, assim sem um contexto mais específico.
Rola dizer "maria-palheta", um termo usado para groupies, e fazer sentido,
mas não rola dizer "joão-palheta" e fazer sentido, novamente, sem um
contexto que nos ampare. Não quero comprar briga com os compas da linguística,
então já adianto, com contexto e interação tudo pode na linguagem. Mas, vamos
supor, ainda que um contexto específico nos permitisse tirar sentido dessas
expressões, eles não seriam exatamente iguais, não carregariam o mesmo pacote
de sentidos, porque estamos em uma sociedade com esse e aquele discurso
anterior, ou seja, esse e aquele preconceito já estabelecido. Vide o cara
"galinha" e a mina "galinha", que trazem significados bem
diferentes empregados aqui e lá.
Alguém poderia dizer: tem coisa que só homem
faz, tem coisa que só mulher faz. A resposta mais simples para isso, além de
"oi, século XXI?" é que essas coisas só de homem ou só de mulher têm
que ter explicações muito biológicas mesmo, muito provavelmente envolvendo o
uso direto da genitália. Do contrário, a gente pode detectar sexismo novamente.
A Rô trouxe uma discussão legal sobre isso, quando tratou dos brinquedos demeninas e meninos.
Esses atos falhos nossos acontecem para o bem e
para o mal, o tempo todo. Dia desses, um amigo publicou no facebook:
"fulana de tal (que fez x e y): uma mulher para entrar na lista de
mulheres que fizeram diferença na humanidade". Sério, lendo isso, a gente
não fica com aquela impressão de que quase não existiu mulher para fazer
diferença? Pois é.
E não rola só com mulheres, dizer que os homens
são todos canalhas é tão sexista quanto dizer que as mulheres são todas
interesseiras. Toda discriminação ou papel já estabelecido, sem explicação
biológica (eu ia dizer racional, mas não seria suficiente), para um gênero
implica sexismo. Dizer que é dever do homem pagar as contas é sexista também. E
assim vai.
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| Créditos: Femstagram no Facebook |
Todo mundo escorrega, não rola dizer que não. Se
em determinado momento da vida, alguém pisa no calo e a gente vai falar mal ou
discutir, uh, como rola preconceito. Eu tenho irmã, eu sei como é. Deus me
livre daquela máxima "Não sou machista, nem feminista, sou humanista"
porque, sério, isso é um uso super errado de todos, todos, todos os termos da sentença!
Machismo não é o contrário de feminismo, nem os humanistas têm nada que ver com
a bagaça toda. Mas o ideal, para evitar os escorregas sexistas nossos de cada
dia, era a gente usar "pessoa" ou "gente" nas afirmações
para evitar, né? Tipo "tem gente interesseira" não "tem mulher
interesseira". E, aí, se me for permitido um adendo fora do escopo do blog
e do post, melhor mesmo seria tentar ser positivo e não ficar de mimimi por aí
e dizer que "tem gente legal no mundo", sei lá, talvez isso ajude na
tarefa complicada de gostarmos uns dos outros.
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| Não Aguento Quando novamente |
Voltando, a dica das tias de hoje, que serve pra
tia também, é: quando a gente for criticar alguém, para evitar cairmos em
qualquer armadilha linguística do preconceito, vamos tentar trocar o
"x" por "pessoa". Assim, ó: na frase "tinha que ser
X", sendo x = mulher, gay, preto, nordestino, gordo, se a gente não puder
trocar x por "pessoa" e conseguir sentido, que liguemos o alerta do
preconceito, porque há, talvez não seja evidente, mas há.
28 de janeiro de 2013
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7
por Barbara Falleiros
Ao longo desses anos passados na universidade francesa, sempre me surpreendeu a ausência de crianças circulando no meio universitário. Não, não falo de superdotados, mas dos filhos dos estudantes. No Brasil, durante a graduação, via pelo campus estudantes grávidas e seus bebês (os amigos da Unicamp talvez se lembrarão do episódio de uma pequena que fez xixi em plena sala de aula...). Eu mesma cresci tomando o leite do bandejão da USP. Em Paris, as pouquíssimas estudantes grávidas que encontrei estavam, em geral, terminando o doutorado. Nunca vi um único bebê nos locais da faculdade. Procurei estatísticas sobre as estudantes-mães por aqui e não encontrei, sei apenas que existem na cidade três creches universitárias com capacidade conjunta para 100 crianças.
Pode-se até dizer que isso é bom, que os longos estudos, a maternidade numa fase mais madura e a prioridade dada à carreira são indícios de uma sociedade "desenvolvida". O que eu desconfio é que o fato de o aborto ser legalizado contribua para que as estudantes se tornem mães mais tarde, fazendo da maternidade uma escolha altamente planejada. Mas de qualquer maneira, a impressão que tenho é de que, no meio acadêmico, nunca há hora propícia para se ter um bebê. Do ponto de vista profissional, a maternidade é sempre um demérito, uma fraqueza. Falo deste meio porque é nele que estou inserida, mas sei que a situação não difere em outros ambientes profissionais.
Às vezes as pessoas que têm uma ideia estereotipada das reivindicações feministas pensam que feminista é aquela que "odeia homem", "não quer ter filhos" e milita pela "destruição da família". As coisas não são tão simples. A escolha da maternidade é individual, o que importa para todos é o direito da mulher de não ser reduzida à sua função reprodutora. Pois é esta redução que motiva a discriminação profissional das grávidas: espera-se de uma mãe que esta seja sua função primordial e que esta tarefa a ocupe integralmente. O que, claro, atrapalha a atividade profissional. Então é filho ou trabalho, as duas coisas não! - este é o leitmotiv. E volta aquela velha história de padrão duplo: este tipo de clivagem não diz respeito ao homem, que normalmente não conhece um efeito direto de comprometimento da carreira com a chegada de um filho. Porque para uma empresa preocupada com o desempenho de seu funcionário, por exemplo, que o homem tenha filhos ou não importa menos, já que a responsabilidade do cuidado das crianças recai majoritariamente sobre a mãe. Na cabeça do chefe, quem é que vai faltar no trabalho quando a criança estiver doente?
É interessante perceber como funciona o círculo vicioso: para começar, o salário de uma mulher já é 30% inferior ao de um homem. Quando ela tem filhos, sua carreia é geralmente freada, enquanto que a do homem segue seu ritmo de evolução. No interior da família, isso contribui para colocar o trabalho do homem em primeira ordem de importância, mantendo-o no papel de provedor e relegando à mulher a responsabilidade principal no cuidado dos filhos. Por sua vez, ao assumir esta responsabilidade, a mulher é levada a colocar a carreira em segundo plano. Esclareço que não tenho particularmente nada contra famílias em que um trabalha "fora" e outro "dentro", em que um se investe mais no trabalho e outro menos, o problema é que estes não costumam ser modos de vida escolhidos livremente; este tipo de configuração, induzido por inúmeros fatores como os que foram citados, podem implicar um jogo de poder no interior da família, colocando uma das partes (a mulher) numa posição frágil. É o mais comum.
Não há como negar que o período da gravidez pode exigir certas adaptações, dependendo da profissão exercida, e que a mulher precisa passar por uma recuperação física e emocional no pós-parto. Mas este período é transitório. E a mulher voltaria em melhores condições se tivesse, em casa, a ajuda de seu companheiro. Afinal, o filho não é do pai também? É correto que ele fique apenas uma semana com o recém-nascido? O projeto de lei 879/11 prevê a ampliação da licença paternidade de cinco para trinta dias para que ambos os pais possam cuidar do bebê e se adequar à nova rotina:
Com uma ressalva ao texto citado: na minha opinião não se trata de auxílio, pois auxílio é o que se oferece a alguém que se encontra na incapacidade de exercer uma tarefa que lhe cabe. Auxílio é favor: "Deixa que eu faço pra você". É um pouco como dizer do marido que ele "ajuda" nas tarefas domésticas... Trata-se, ao contrário, de dar ao pai a possibilidade e o direito de assumir o que é de sua responsabilidade. Quando há um pai e uma mãe (ou dois responsáveis), a tarefa de cuidado de um filho deveria ser dividida de forma igualitária. A mãe, menos sobrecarregada, veria possivelmente uma diminuição do impacto negativo da maternidade sobre seu trabalho.
Voltando à questão da discriminação profissional da mulher grávida. Lembro da história de uma amiga que, prestes a receber uma função de importância numa grande multinacional de cosméticos, anunciou aos superiores sua gravidez. Sua chefe respondeu: "Mas você sabe, você não precisa ir em frente com isso, há sempre a opção do aborto! E pense bem, uma oportunidade como esta não se repete!" Como eu disse acima, ou filho ou trabalho, a mulher acaba sofrendo a pressão para escolher entre um e outro...
Mas há outras formas mais ou menos sutis de assédio moral e discriminação, como a perda de promoções ou mesmo a não contratação de mulheres que se aproximam do prazo de validade, ameaças ("Ah, mas você tem certeza de que não fazer uma encomenda para a cegonha, não é? Por que veja bem, para nós não vale a pena investir em alguém que não se mostrará 100% comprometido com a nossa empresa"); desvalorização de mulheres que já têm filhos servindo-se da desculpa de que seu foco não está na empresa; horários para a amamentação não respeitados ou dificultados; avaliações de desempenho negativas e atribuição de funções inferiores na volta da licença-maternidade; recusa de benefícios e oportunidades; ou ainda a discriminação por parte dos próprios colegas, que encaram as adaptações das condições de trabalho da funcionária grávida como privilégios ilegítimos ou que pensam que a licença maternidade é o equivalente a férias.
Uma empresa pode e deve ser processada por qualquer discriminação desse tipo. E à mulher grávida cabe conhecer seus direitos, listados nesta página do governo. Por outro lado, algumas empresas mais espertinhas seguem o caminho contrário e adotam políticas de melhoria das condições de trabalho das grávidas-mães, como pausa alimentação para as grávidas, berçário no local, facilitando a retomada do trabalho após a licença maternidade, licença de seis meses, bônus e ajudas de custo, horários flexíveis, salas de amamentação. Claro que para as empresas há vantagens, como o abatimento de impostos. Mas é bem possível que algumas tenham se dado conta de que funcionário contente é funcionário engajado e que tenham percebido, ao respeitarem o trabalho das funcionárias, que a "igualdade de gênero aumenta a produtividade", como mostrado no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2012.
Deixo a pergunta para as nossas leitoras: quem aí sofreu discriminação e quem tem outros exemplos de políticas corporativas positivas? (Não me deixem falando sozinha! rs) Na semana que vem, meu último post desta série sobre maternidade com um assunto doloroso mas importante: a violência obstétrica.
Às vezes as pessoas que têm uma ideia estereotipada das reivindicações feministas pensam que feminista é aquela que "odeia homem", "não quer ter filhos" e milita pela "destruição da família". As coisas não são tão simples. A escolha da maternidade é individual, o que importa para todos é o direito da mulher de não ser reduzida à sua função reprodutora. Pois é esta redução que motiva a discriminação profissional das grávidas: espera-se de uma mãe que esta seja sua função primordial e que esta tarefa a ocupe integralmente. O que, claro, atrapalha a atividade profissional. Então é filho ou trabalho, as duas coisas não! - este é o leitmotiv. E volta aquela velha história de padrão duplo: este tipo de clivagem não diz respeito ao homem, que normalmente não conhece um efeito direto de comprometimento da carreira com a chegada de um filho. Porque para uma empresa preocupada com o desempenho de seu funcionário, por exemplo, que o homem tenha filhos ou não importa menos, já que a responsabilidade do cuidado das crianças recai majoritariamente sobre a mãe. Na cabeça do chefe, quem é que vai faltar no trabalho quando a criança estiver doente?
É interessante perceber como funciona o círculo vicioso: para começar, o salário de uma mulher já é 30% inferior ao de um homem. Quando ela tem filhos, sua carreia é geralmente freada, enquanto que a do homem segue seu ritmo de evolução. No interior da família, isso contribui para colocar o trabalho do homem em primeira ordem de importância, mantendo-o no papel de provedor e relegando à mulher a responsabilidade principal no cuidado dos filhos. Por sua vez, ao assumir esta responsabilidade, a mulher é levada a colocar a carreira em segundo plano. Esclareço que não tenho particularmente nada contra famílias em que um trabalha "fora" e outro "dentro", em que um se investe mais no trabalho e outro menos, o problema é que estes não costumam ser modos de vida escolhidos livremente; este tipo de configuração, induzido por inúmeros fatores como os que foram citados, podem implicar um jogo de poder no interior da família, colocando uma das partes (a mulher) numa posição frágil. É o mais comum.
Não há como negar que o período da gravidez pode exigir certas adaptações, dependendo da profissão exercida, e que a mulher precisa passar por uma recuperação física e emocional no pós-parto. Mas este período é transitório. E a mulher voltaria em melhores condições se tivesse, em casa, a ajuda de seu companheiro. Afinal, o filho não é do pai também? É correto que ele fique apenas uma semana com o recém-nascido? O projeto de lei 879/11 prevê a ampliação da licença paternidade de cinco para trinta dias para que ambos os pais possam cuidar do bebê e se adequar à nova rotina:
“A ausência paterna sobrecarrega a mãe, que se encontra no delicado período puerperal, cuja duração é de 30 a 45 dias após o parto, muitas vezes em pós-operatório, com limitações físicas e carências psíquicas, e que necessita ser auxiliada nos cuidados imediatos do bebê”
Com uma ressalva ao texto citado: na minha opinião não se trata de auxílio, pois auxílio é o que se oferece a alguém que se encontra na incapacidade de exercer uma tarefa que lhe cabe. Auxílio é favor: "Deixa que eu faço pra você". É um pouco como dizer do marido que ele "ajuda" nas tarefas domésticas... Trata-se, ao contrário, de dar ao pai a possibilidade e o direito de assumir o que é de sua responsabilidade. Quando há um pai e uma mãe (ou dois responsáveis), a tarefa de cuidado de um filho deveria ser dividida de forma igualitária. A mãe, menos sobrecarregada, veria possivelmente uma diminuição do impacto negativo da maternidade sobre seu trabalho.
Voltando à questão da discriminação profissional da mulher grávida. Lembro da história de uma amiga que, prestes a receber uma função de importância numa grande multinacional de cosméticos, anunciou aos superiores sua gravidez. Sua chefe respondeu: "Mas você sabe, você não precisa ir em frente com isso, há sempre a opção do aborto! E pense bem, uma oportunidade como esta não se repete!" Como eu disse acima, ou filho ou trabalho, a mulher acaba sofrendo a pressão para escolher entre um e outro...
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| Discriminada no trabalho e com um computador do século passado! (brincadeirinha) |
Uma empresa pode e deve ser processada por qualquer discriminação desse tipo. E à mulher grávida cabe conhecer seus direitos, listados nesta página do governo. Por outro lado, algumas empresas mais espertinhas seguem o caminho contrário e adotam políticas de melhoria das condições de trabalho das grávidas-mães, como pausa alimentação para as grávidas, berçário no local, facilitando a retomada do trabalho após a licença maternidade, licença de seis meses, bônus e ajudas de custo, horários flexíveis, salas de amamentação. Claro que para as empresas há vantagens, como o abatimento de impostos. Mas é bem possível que algumas tenham se dado conta de que funcionário contente é funcionário engajado e que tenham percebido, ao respeitarem o trabalho das funcionárias, que a "igualdade de gênero aumenta a produtividade", como mostrado no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2012.
Deixo a pergunta para as nossas leitoras: quem aí sofreu discriminação e quem tem outros exemplos de políticas corporativas positivas? (Não me deixem falando sozinha! rs) Na semana que vem, meu último post desta série sobre maternidade com um assunto doloroso mas importante: a violência obstétrica.
27 de janeiro de 2013
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Todos nós conhecemos a seguinte história: uma mulher se casa jovem, tem filhos, o marido é um mulherengo, o casamento se esgota, mas continuam vivendo juntos até morrer, experimentando graus variados de sofrimento, raiva, até mesmo ódio, cansaço, no mínimo tédio e alguns momentos de conciliação que no fim das contas servem para a manutenção do inferno.
por Tággidi Ribeiro
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| Nunca é tarde para desistir de um casamento infeliz |
Isso é da época em que o casamento era indissolúvel, do 'o que deus uniu o homem não separa', de mulheres que ousassem separar-se do marido serem consideradas putas e virarem párias sociais. Hoje em dia, a coisa é um pouco diferente: tanto o homem quanto a mulher podem pôr fim a um casamento infeliz e mulheres separadas são bem menos estigmatizadas. Ainda assim, casais arrastam relações perniciosas por anos até decidirem-se pela separação.
A questão é que a mentalidade - e as leis - mudaram há pouco tempo. Daí termos um contingente cada vez maior de homens e mulheres divorciados somente depois de vinte ou trinta anos de casamento. Como a protagonista da história que vou contar agora, de desfecho tão diferente dessas que todos nós conhecemos.
Ela é uma mulher de fibra, lutadora, trabalhadora e batalhadora desde sempre mas, como costuma acontecer, uniu-se a um homem que, além de não reconhecer suas qualidades, a rebaixava. Era, além disso, perdulário, adúltero e tirano: gastava as economias da família, assediava amigas e parentes da mulher, fechava negócios sem consultá-la, usando o dinheiro dela. Quando ela relembra esses fatos, diz que poderia possuir patrimônio três ou quatro vezes maior do que o que tem hoje, construído na labuta diária e na administração sensata dos ganhos.
Ela ficou com esse homem durante 37 anos e é tanto tempo, é tanta vida que a maioria de nós pensaria ser impossível ou inútil tentar se desligar de todo esse passado. Mas ela enfrentou toda a sua história e resolveu separar-se do marido. O filho já estava criado e tinha escolhido seu caminho. Mulheres separadas já não eram mais mal vistas como quando se casou. Ela era financeiramente independente. Não havia motivo algum para manter a relação sofrida e conflituosa.
Ela começou tudo de novo - aos quase 60 anos: solteira, morando sozinha. Trabalhando sempre, viu que tinha tempo para si. Começou a dançar. Tomou gosto. Conheceu a paquera. Começou a namorar. E pela primeira vez, em toda sua vida, sentiu prazer no sexo. Sentiu tesão de verdade. O marido dizia que ela era 'ruim de cama' e justificava dessa forma a traição. Ela descobriu que ele é que não era lá muito bom.
Nem tudo foram flores: ela viveu outra relação abusiva mas da qual, gato escaldado, logo se libertou. E assim vai, libertando-se, e é assim que eu a vejo, como um grande exemplo para todas as mulheres (e homens também) de liberdade, de renovação, de força, de que a felicidade é possível agora, a qualquer momento.
Ela hoje namora, está apaixonada, é sexualmente realizada, mas não quer casar. Ela gosta de viajar - tomou gosto pela Europa, por Paris, que conheceu depois dos 60 anos. Ela trabalha. Ela é uma mulher bonita, vaidosa sem exageros, ativa e inteligente. Orgulha-se de seu filho e ele dela. A vida vale - mais - a pena.
ps: pra quem acha que a vida da mulher acaba depois dos trinta anos.
ps2: para as mulheres que perderam a autoestima em casamentos infelizes, sendo continuamente inferiorizadas por seus maridos - essa é uma história real.
A questão é que a mentalidade - e as leis - mudaram há pouco tempo. Daí termos um contingente cada vez maior de homens e mulheres divorciados somente depois de vinte ou trinta anos de casamento. Como a protagonista da história que vou contar agora, de desfecho tão diferente dessas que todos nós conhecemos.
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| Nunca é tarde para sair de uma relação abusiva |
Ela é uma mulher de fibra, lutadora, trabalhadora e batalhadora desde sempre mas, como costuma acontecer, uniu-se a um homem que, além de não reconhecer suas qualidades, a rebaixava. Era, além disso, perdulário, adúltero e tirano: gastava as economias da família, assediava amigas e parentes da mulher, fechava negócios sem consultá-la, usando o dinheiro dela. Quando ela relembra esses fatos, diz que poderia possuir patrimônio três ou quatro vezes maior do que o que tem hoje, construído na labuta diária e na administração sensata dos ganhos.
Ela ficou com esse homem durante 37 anos e é tanto tempo, é tanta vida que a maioria de nós pensaria ser impossível ou inútil tentar se desligar de todo esse passado. Mas ela enfrentou toda a sua história e resolveu separar-se do marido. O filho já estava criado e tinha escolhido seu caminho. Mulheres separadas já não eram mais mal vistas como quando se casou. Ela era financeiramente independente. Não havia motivo algum para manter a relação sofrida e conflituosa.
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| Nunca é tarde para descobrir o amor e o prazer do sexo |
Nem tudo foram flores: ela viveu outra relação abusiva mas da qual, gato escaldado, logo se libertou. E assim vai, libertando-se, e é assim que eu a vejo, como um grande exemplo para todas as mulheres (e homens também) de liberdade, de renovação, de força, de que a felicidade é possível agora, a qualquer momento.
Ela hoje namora, está apaixonada, é sexualmente realizada, mas não quer casar. Ela gosta de viajar - tomou gosto pela Europa, por Paris, que conheceu depois dos 60 anos. Ela trabalha. Ela é uma mulher bonita, vaidosa sem exageros, ativa e inteligente. Orgulha-se de seu filho e ele dela. A vida vale - mais - a pena.
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| Sim, nós podemos! |
ps2: para as mulheres que perderam a autoestima em casamentos infelizes, sendo continuamente inferiorizadas por seus maridos - essa é uma história real.
25 de janeiro de 2013
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velhice
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por Roberta Gregoli
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| Encontro das Subvertidas em janeiro de 2013 (Barbara em espírito e Photoshop) |
Não sei se é a gripe, se é ter acabado de fazer anos ou se é ter voltado para a Inglaterra, mas o post de hoje é fofo. Tome insulina, minha gente, que o negócio tá água com açúcar.
Algo muito poderoso acontece quando as pessoas se juntam. Pode ser algo poderosamente horrível, como quando um bando de caras se juntam para assediar mulheres na rua, mas pode ser maravilhoso também. Não que o nosso blog seja lá tudo isso (ainda nem temos tantos seguidores quanto outros blogs feministas), mas para mim ele é maravilhoso por vários motivos. Primeiro porque me trouxe mais perto dessas mulheres fantásticas e inteligentes. Cada uma do seu jeito traz um ingrediente especial ao blog: o humor incrivelmente sucinto da Mazu, a prosa extraordinária da Barbara, as reflexões filosóficas e por vezes pertinentemente raivosas da Tággidi.
Em segundo lugar, e isso acontece em qualquer fórum feminista (basta ver os relatos no Cantada de rua - conte o seu caso), o nosso blog é uma pequena ilustração da capacidade de empoderamento na coletividade. Me lembro de uma vez ter visto uma charge que agora não consigo encontrar: uma sala com diversas mulheres, todas pensando "Sou a única feminista aqui". A gente quando se cala - o que é fácil de acontecer numa cultura em que 'feminista' continua a significar mal-amada, amargurada, incendiária de sutiã - inevitavelmente se sente isolada e impotente. Ao colocarmos a boca no trombone arrumamos muita briga, mas também encontramos pessoas que pensam parecido e nos dão força. E isso empodera e incentiva a continuar colocando a boca no trombone, que é o primeiro passo para qualquer mudança.
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| Agora conte para todo mundo! |
Por último, uma coisa fascinante que vejo acontecer com o blog é a mudança de fato. A mudança é proporcional ao nosso tamanho, mas ainda assim é, para mim, recompensadora. Além dxs leitorxs e amigxs que entram em contato com denúncias e reflexões, o que mais me impressiona é ver uma mudança de comportamento das pessoas à minha volta. Isso toma uma série de formas, desde a mais básica, que é um grupo se policiar nos comentários sexistas quando estou por perto, até a 'conversão' de fato. Como os silenciamentos, as inversões perversas e o menosprezo à pauta feminista são o padrão, a discussão de certos temas feministas no senso comum continuam num nível muito básico, e vejo alguns conhecidxs começarem a repensar suas posições, provocadxs pelos nossos textos. E, num mundo cheio de masculinistas e trolls, um a menos é muito.
Por isso tudo, meus agradecimentos. A todxs xs nossxs leitores, em especial xs que comentam e compartilham nossos textos, e, muito especialmente, a Barbara, Mazu e Tággidi, minhas queridas há mais de uma década.
Acabo este post por aqui para não elevar a glicemia de ninguém. E ai de quem disser que feminista não pode ser romântica.
23 de janeiro de 2013
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