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Como vemos, é todo o contrário da prática corrente, altamente medicalizada, reflexo de um modo muito característico de conceber a saúde e a sociedade. Hoje, no parto em hospitais, segue-se cada vez mais a cadência: privilegia-se a cesariana, ou se não é cesariana é episiotomia sem autorização, prende-se a parturiente em posição ginecológica e que ela grite mais baixo, oras! Por fim, depressa, um sorriso rápido para a foto e lá se vai o bebê embora... Num mundo em que só o que importa é o que é rentável, como o momento do parto escaparia aos moldes de uma linha de produção? Como reivindicar a vivência de uma experiência humana quando o que se quer do sujeito é a passividade anestesiada?
Essas práticas médicas influenciam e alimentam uma visão desnaturalizada do parto, um parto anotado na agenda: dizem que foi impressionante o número de cesarianas marcadas para o dia 12/12/12. Não duvido. Que importa se o bebê ainda não está pronto para nascer, desde que nasça numa data "combinandinha"? O mundo não acabou. Seguimos vivemos numa distopia.
Ao contrário do trabalho das doulas que auxiliam a mulher a "tomar posse" do próprio corpo, a violência obstétrica acontece justamente quando há uma apropriação do corpo da mulher e do processo do parto pelos profissionais da medicina, que passam a considerar todos os partos como patológicos e toda parturiente como uma paciente (ou seja, como aquela que sofre a ação): daí praticarem-se atos médicos e farmacológicos de forma rotineira, impedindo a mulher de participar ativamente do parto. O desrespeito e a desconsideração da parturiente podem tomar formas violentas e agressivas: comentários irônicos acerca do comportamento da grávida, broncas por causa de gritos ou choros, respostas evasivas a perguntas sobre o procedimento, rompimento da bolsa sem consentimento, toques vaginais frequentes, compressão do abdomen no momento das cólicas, episiotomia e raspagem do útero sem anestesia, impedimento de estar acompanhada por uma pessoa de confiança, caminhada e movimentos proibidos, impedimento de contato imediato com o recém-nascido, etc.
por Barbara Falleiros
"Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer"
Michel Odent (obstetra francês)
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| Racismo de cada dia: "Não quisemos ofender" |
Depois de informarem as mães sobre como e quando alisarem os "cabelos crespos ou rebeldes" de suas filhas para deixá-las "mais bonitas", a maternidade paulistana Santa Joana acaba de proibir a entrada de doulas no centro obstétrico. Como fizera dias antes no caso da mensagem racista, o hospital se defendeu evocando nobres intenções: não se trata de proibir as doulas, mas de restringir a presença na sala de parto a apenas um acompanhante, com o intuito de minimizar os riscos de infecção hospitalar. Em outras palavras, a parturiente tem a liberdade de escolher quem vai acompanhá-la: a doula ou o marido. O que pedir mais?
Poder-se-ia pedir à maternidade, por exemplo, que fornecesse os índices comparados de infecções em partos humanizados com doulas e em cesárias eletivas, assim como os índices de internações na UTI de mães e bebês nascidos por cesariana versus parto natural...
Conversei com a doula Thatiane Menéndez do Blog Espaço Abertto, que citou a frase que abre este post e que me explicou a importância das doulas nas práticas de parto humanizado:
Conversei com a doula Thatiane Menéndez do Blog Espaço Abertto, que citou a frase que abre este post e que me explicou a importância das doulas nas práticas de parto humanizado:
No pré-natal, a doula orienta, informa, acolhe e ajuda a mulher a se preparar para o parto. Em um parto humanizado, a mulher é sujeito ativo do processo, tomando as decisões em conjunto com a equipe. Para isso, ela deve conhecer e entender seu corpo e o processo do parto, precisa estar verdadeiramente empoderada e consciente, especialmente no Brasil, onde temos que lutar pelo simples e óbvio direito de caminhar durante o trabalho de parto.A doula ajuda a mulher neste processo de empoderamento. Durante o trabalho de parto, ela oferece apoio físico e emocional, ajudando-a a lidar com a dor. Seu trabalho continua no acompanhamento pós-parto, ajudando a mulher a lidar com a nova fase, com a descoberta da maternidade, com a amamentação e os cuidados com o bebê.De toda a equipe multiprofissional, a doula é quem mais tem contato com a gestante e que acaba criando com ela um vínculo maior, o que só traz benefícios durante o parto. A questão da proibição das doulas é incoerente, primeiro porque ela é uma profissional da saúde capacitada para este atendimento e não uma acompanhante, como o pai ou outros familiares. Segundo, o argumento do risco de infecções não tem embasamento científico e perde todo o sentido quando se permite a entrada de profissionais para filmagem e fotografia. Diversos estudos demonstram que a presença da doula pode reduzir em 50% as taxas de cesarianas (que no Brasil chegam a 80% no sistema privado de saúde, quando a OMS recomenda apenas 15%), 25% a duração do trabalho de parto, 60% os pedidos de analgesia, 30% o uso de analgesia, 40% o uso de forceps e 40% o uso de ocitocina (Klaus et Kennel, 1993)
Como vemos, é todo o contrário da prática corrente, altamente medicalizada, reflexo de um modo muito característico de conceber a saúde e a sociedade. Hoje, no parto em hospitais, segue-se cada vez mais a cadência: privilegia-se a cesariana, ou se não é cesariana é episiotomia sem autorização, prende-se a parturiente em posição ginecológica e que ela grite mais baixo, oras! Por fim, depressa, um sorriso rápido para a foto e lá se vai o bebê embora... Num mundo em que só o que importa é o que é rentável, como o momento do parto escaparia aos moldes de uma linha de produção? Como reivindicar a vivência de uma experiência humana quando o que se quer do sujeito é a passividade anestesiada?
Essas práticas médicas influenciam e alimentam uma visão desnaturalizada do parto, um parto anotado na agenda: dizem que foi impressionante o número de cesarianas marcadas para o dia 12/12/12. Não duvido. Que importa se o bebê ainda não está pronto para nascer, desde que nasça numa data "combinandinha"? O mundo não acabou. Seguimos vivemos numa distopia.
Ao contrário do trabalho das doulas que auxiliam a mulher a "tomar posse" do próprio corpo, a violência obstétrica acontece justamente quando há uma apropriação do corpo da mulher e do processo do parto pelos profissionais da medicina, que passam a considerar todos os partos como patológicos e toda parturiente como uma paciente (ou seja, como aquela que sofre a ação): daí praticarem-se atos médicos e farmacológicos de forma rotineira, impedindo a mulher de participar ativamente do parto. O desrespeito e a desconsideração da parturiente podem tomar formas violentas e agressivas: comentários irônicos acerca do comportamento da grávida, broncas por causa de gritos ou choros, respostas evasivas a perguntas sobre o procedimento, rompimento da bolsa sem consentimento, toques vaginais frequentes, compressão do abdomen no momento das cólicas, episiotomia e raspagem do útero sem anestesia, impedimento de estar acompanhada por uma pessoa de confiança, caminhada e movimentos proibidos, impedimento de contato imediato com o recém-nascido, etc.
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| No Brasil, 52% dos bebês nascem por cesariana. A OMS recomenda uma porcentagem de 15% |
No nosso vizinho Uruguai, a Anistia Internacional produziu um vídeo de conscientização e protesto contra a violência obstétrica, com imagens fortes, que falam por si mesmas. Não é à toa que o primeiro comentário sobre o vídeo, no Youtube, contesta a veracidade das práticas mostradas: "Como pode ser assim? Estão exagerando!" (como a gente ouve tanto!). Mas não... No Brasil, por iniciativa dos blogs Parto no Brasil e Cientista que virou mãe, produziu-se um documentário comovente com depoimentos de mães que sofreram violência obstétrica.
Fico chateada em terminar meus posts sobre gravidez e maternidade com este vídeo. Mas é mais uma prova de que a gente aqui no Blog não é um bando de "neuróticas", a violência contra as mulheres assume as formas mais diversas e mais cruéis, e ela atinge cotidianamente sua irmã, sua amiga, sua esposa, sua filha. Felizmente, existe quem luta pelo fim dessas práticas e pelo direito de dar à luz e de nascer sem violência. Como disse a Thati Menéndez, "a questão vai muito além da luta por dignidade e respeito no parto e nascimento, é uma questão ideológica e o início de um mundo melhor. Pois como vamos ter um mundo sem violência e com mais amor e respeito se nosso primeiro contato com este mundo é muitas vezes violento e frio?" Mudar o mundo, mudar as relações, desde o primeiro segundo.
Fico chateada em terminar meus posts sobre gravidez e maternidade com este vídeo. Mas é mais uma prova de que a gente aqui no Blog não é um bando de "neuróticas", a violência contra as mulheres assume as formas mais diversas e mais cruéis, e ela atinge cotidianamente sua irmã, sua amiga, sua esposa, sua filha. Felizmente, existe quem luta pelo fim dessas práticas e pelo direito de dar à luz e de nascer sem violência. Como disse a Thati Menéndez, "a questão vai muito além da luta por dignidade e respeito no parto e nascimento, é uma questão ideológica e o início de um mundo melhor. Pois como vamos ter um mundo sem violência e com mais amor e respeito se nosso primeiro contato com este mundo é muitas vezes violento e frio?" Mudar o mundo, mudar as relações, desde o primeiro segundo.
3 de fevereiro de 2013
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O que pouco se sabe, mesmo nos EUA, é que boa parte da população latina do país é constituída por cidadãos norte-americanos, cujos antepassados moram ali há mais de um século (o Tratado de Guadalupe-Hidalgo anexou aos EUA todo o norte do México e transformou milhares de mexicanos em cidadãos norte-americanos do dia para a noite). Com isso, cresceu, nessa região próxima à fronteira, uma cultura riquíssima e fascinante, híbrida e mestiça – uma cultura chicana. As chicanas, portanto, são cidadãs estadunidenses que carregam o estigma de serem multiculturais, porque têm ascendência latino-americana, porque falam duas ou mais línguas, porque seus corpos têm traços indígenas, porque são social e politicamente exploradas. São habitantes de um não-lugar: a fronteira.
“Como mestiza, eu não tenho país, minha terra natal me despejou; no entanto, todos os países são meus porque eu sou a irmã ou a amante em potencial de todas as mulheres. (Como uma lésbica não tenho raça, meu próprio povo me rejeita; mas sou de todas as raças porque a queer em mim existe em todas as raças.) Sou sem cultura porque, como uma feminista, desafio as crenças culturais/religiosas coletivas de origem masculina dos indo-hispânicos e anglos; entretanto, tenho cultura porque estou participando da criação de uma outra cultura, uma nova história para explicar o mundo e a nossa participação nele, um novo sistema de valores com imagens e símbolos que nos conectam um/a ao/à outro/a e ao planeta. Soy un amasamiento, sou um ato de juntar e unir que não apenas produz uma criatura tanto da luz como da escuridão, mas também uma criatura que questiona as definições de luz e de escuro e dá-lhes novos significados.”
Resumindo, o belo trabalho de Anzaldúa é justamente desconstruir dualidades como homem x mulher e machismo x feminismo, mostrando que qualquer desses pares são compostos de identidades complexas, mestiças, heterogêneas. A velha e tradicional receita de identidade (uma nacionalidade + uma religião + um gênero + uma cultura) já não é mais um modelo, e suas fendas e falhas ficam evidentes no processo interminável de constituição das identidades da mulher chicana. A consciência declaradamente subalterna e nomádica dessa new mestiza permite que ela seja, ao mesmo tempo, uma e várias (tanto em termos de gênero quanto de sexualidade) e que ela vá além das dualidades tradicionais para subverter patriarcalismo, exploração sexual, linguística, religiosa, política e econômica. E, nesses interstícios de todas essas categorias de identidade, ela encontra seu espaço, seu tempo e sua casa. Habitando a ferida aberta na fronteira, ela abre espaços para novas possibilidades e transpõe os limites de tudo o que, na história tradicional escrita pelos homens, se acredita ser uno, completo e natural.
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[1] Todos os trechos em itálico foram retirados de ANZALDÚA, GLORIA. Borderlands/La Frontera – The New Mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.
Um prazer enorme ter aqui o primeiro Guest Post do blog, com uma participação mais que especial: Thaís Bueno, especialista e tradutora desta fascinante pensadora que é Gloria Anzaldúa.
“Quando ouvi pela primeira vez duas mulheres, uma porto-riquenha e outra cubana, dizendo “nosotras”, fiquei chocada. As chicanas usam “nosotros” para se referir tanto a homens quanto a mulheres. O plural masculino roubou nosso ser feminino. A linguagem é um discurso masculino.”[1]
Pensar o feminismo, não como um bloco único e homogêneo, mas como uma prática subversiva de desconstrução de diversos sistemas de opressão (entre eles os relacionados a classe social e etnia), que têm sido construídos política e ideologicamente há séculos - essa é a principal ideia que me vem à cabeça quando penso em Gloria Anzaldúa e quando me questiono sobre o que aprendi com minha pesquisa sobre essa autora.
Quando se trata da fronteira entre México e Estados Unidos, as imagens mais recorrentes geralmente incluem grupos mexicanos, cucarachas, wetbacks, desesperados, arriscando-se de forma irracional para conseguirem viver de forma ilegal na “terra das oportunidades”: a América (aliás, esse é um termo que me incomoda, afinal, não somos todos americanos?).
Quando se trata da fronteira entre México e Estados Unidos, as imagens mais recorrentes geralmente incluem grupos mexicanos, cucarachas, wetbacks, desesperados, arriscando-se de forma irracional para conseguirem viver de forma ilegal na “terra das oportunidades”: a América (aliás, esse é um termo que me incomoda, afinal, não somos todos americanos?).
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| A fronteira política: à esquerda, San Diego (EUA); à direita, Tijuana (México) |
“The US-Mexican border es una herida abierta where the Third World grates against the first and bleeds.”[2]
Lendo o texto de Anzaldúa, percebemos que o feminismo, ou a prática feminista, não vem sozinhos, como um pacote fechado que se “compra”, apesar do que muitas pessoas pensam. Hoje, padrões estereotipados do que seja o feminismo (e de como seria uma feminista) reproduzem, com a 'ajuda' da mídia, a ideia de que, para ser feminista, você precisa necessariamente rasgar sutiãs e declarar ódio aos homens. Minha sugestão: leia Borderlands/La Frontera – The New Mestiza (disponível na íntegra para download aqui).
Ao ler Borderlands..., você percebe, logo pelo título, qual era a proposta de Anzaldúa: mostrar, de forma escancarada, que toda divisa, toda fronteira, todo limite, todo corte é também uma abertura, uma fenda para novos espaços, novas discussões e articulações. Assim, a barra entre “Borderlands” e “La Frontera” que lemos no título do livro não é uma marca de divisão e isolamento, que produz dicotomia e oposição, mas um movimento sinuoso de articulação e problematização, que produz um discurso híbrido, ou alien, como ela própria escreveu.
Ao ler Borderlands..., você percebe, logo pelo título, qual era a proposta de Anzaldúa: mostrar, de forma escancarada, que toda divisa, toda fronteira, todo limite, todo corte é também uma abertura, uma fenda para novos espaços, novas discussões e articulações. Assim, a barra entre “Borderlands” e “La Frontera” que lemos no título do livro não é uma marca de divisão e isolamento, que produz dicotomia e oposição, mas um movimento sinuoso de articulação e problematização, que produz um discurso híbrido, ou alien, como ela própria escreveu.
“...não é suficiente se posicionar na margem oposta do rio, gritando questionamentos, desafiando convenções patriarcais, brancas. Um ponto de vista contrário nos prende em um duelo entre opressor e oprimido; fechados/as em um combate mortal, como polícia e bandido, ambos são reduzidos a um denominador comum de violência.
[O contraposicionamento] não é um meio de vida. A uma determinada altura, no nosso caminho rumo a uma nova consciência, teremos que deixar a margem oposta, com o corte entre os dois combatentes mortais cicatrizado de alguma forma, a fim de que estejamos nas duas margens ao mesmo tempo e, ao mesmo tempo, enxergar tudo com olhos de serpente e de águia.”
E é exatamente essa a proposta que você encontrará em todo o livro, marcada na própria materialidade do texto: em Borderlands..., para apresentar seu feminismo chicano e propor a figura na new mestiza, Anzaldúa recorre a diversos gêneros textuais (testemunho, narrativas populares, ditos, texto histórico, diário, poesia) e idiomas (inglês, espanhol e nahuatl – língua indígena falada no império asteca, na era pré-colombiana). Tudo costurado em um constante movimento de code-switching (alternância de idiomas em uma mesma frase – o que nunca foi novidade para qualquer falante que viva em região de fronteira).
“El anglo com cara de inocente nos arrancó la lengua. Línguas selvagens não podem ser domadas. Elas apenas podem ser arrancadas.”
A chicana que Anzaldúa nos mostra é, portanto, uma mulher que sofre por ser a minoria em diversos sistemas de opressão. Se o homem chicano sofre em termos de etnia e classe, a mulher encontra-se em uma situação ainda pior: ela é minoria em termos de etnia, classe, gênero e, em muitos casos sexualidade. E é nessa intersecção de discursos minoritários que Anzaldúa, ela própria chicana, mulher e lésbica, faz sua crítica não só à cultura branca anglo-saxã, imperialista e exploradora, mas à cultura mexicana de seus descendentes, conservadora, patriarcal e religiosa.
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| Só em Ciudad Juarez (México), 1.100 mulheres já foram dadas como desaparecidas desde 1993 |
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| A fronteira se estende de uma costa a outra no continente americano, chegando até o mar: "The sea cannot be fenced / El mar does not stop at borders", escreveu Anzaldúa |
Resumindo, o belo trabalho de Anzaldúa é justamente desconstruir dualidades como homem x mulher e machismo x feminismo, mostrando que qualquer desses pares são compostos de identidades complexas, mestiças, heterogêneas. A velha e tradicional receita de identidade (uma nacionalidade + uma religião + um gênero + uma cultura) já não é mais um modelo, e suas fendas e falhas ficam evidentes no processo interminável de constituição das identidades da mulher chicana. A consciência declaradamente subalterna e nomádica dessa new mestiza permite que ela seja, ao mesmo tempo, uma e várias (tanto em termos de gênero quanto de sexualidade) e que ela vá além das dualidades tradicionais para subverter patriarcalismo, exploração sexual, linguística, religiosa, política e econômica. E, nesses interstícios de todas essas categorias de identidade, ela encontra seu espaço, seu tempo e sua casa. Habitando a ferida aberta na fronteira, ela abre espaços para novas possibilidades e transpõe os limites de tudo o que, na história tradicional escrita pelos homens, se acredita ser uno, completo e natural.
This is her homethis thin edge of
barbwire.[3]
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[2] “A fronteira entre os Estados Unidos e o México é uma ferida aberta, na qual o terceiro mundo entra em atrito com o primeiro e sangra.”
[3] “Esta é a casa dela / esta sutil borda / de arame farpado.”
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Thaís Bueno é graduada em Letras e mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, cursa o doutorado, também em Linguística Aplicada, pesquisando as relações entre tradução e a obra da feminista chicana Gloria Anzaldúa e traduzindo o livro mais conhecido da autora: Borderlands/La Frontera - The New Mestiza. Mãe, feminista e latino-americana apaixonada. Trabalha como tradutora, revisora e escrevinhadora na Escrevedoria.
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Thaís Bueno é graduada em Letras e mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, cursa o doutorado, também em Linguística Aplicada, pesquisando as relações entre tradução e a obra da feminista chicana Gloria Anzaldúa e traduzindo o livro mais conhecido da autora: Borderlands/La Frontera - The New Mestiza. Mãe, feminista e latino-americana apaixonada. Trabalha como tradutora, revisora e escrevinhadora na Escrevedoria.
1 de fevereiro de 2013
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literatura,
teoria feminista
4
A querida Valéria Guimarães me mandou um ótimo texto que faz algo parecido, mas, para mim, melhor ainda, porque não só inverte a equação, mas a reformula com a própria premissa. Explico: este discurso de 'dicas de segurança para mulheres' tem um fundamento muito simples, o de que os homens têm um instinto sexual incontrolável. A própria ideia de roupa 'provocante' é sintoma disso: certos tipos de roupa provocam algo que é difícil - ou não pode - ser contido, não é isso?
Aliás, várias outras falácias do machismo são baseadas nesse mito. Ou você já viu alguma pesquisa que prove que os homens têm, de fato, maior desejo sexual que as mulheres? Os homens ficam nessa posição de boçais que, vítimas da própria natureza animalesca, não podem fazer nada contra ela, o que, em última instância, significa que não podem se responsabilizar pelos seus impulsos.
Já deu pra ver onde isso dá, né? Estupro? É culpa da mulher que usou uma saia que fez o cara 'perder a cabeça'. Também nessa premissa se baseia todo aquele discurso que as mulheres são seres sensatos e morais que precisam 'civilizar' os homens. Aquela história de que homem só sossega quando encontra uma mulher séria, sabe? Que o homem 'tomou jeito' depois que conheceu a fulana (= mulher séria).
O texto explora essa premissa - já que homens são trogloditas em potencial, vamos inverter o discurso e limitar a liberdade deles, não a das mulheres. Como não encontrei uma versão em português, fiz uma livre tradução de partes do texto:
Em resposta à alegação de que homens são incapazes de controlar seus impulsos de estuprar mulheres usando roupas curtas, agentes dos diversos órgão de segurança lançaram uma solicitação para que os mesmos utilizem vendas nos olhos quando transitarem em lugares onde possam encontrar mulheres usando decote ou saia curta.
"Há anos ouvimos que os homens não conseguem reagir ao ver uma mulher usando, por exemplo, roupa de ginástica, e que, no entendimento deles, ver as curvas do corpo de uma mulher é um convite ao sexo, quer ela queira ou não", disse um policial. "Se isso é verdade, então não temos escolha. Queremos que as mulheres estejam seguras e, se aparentemente não há maneira de alguns homens controlarem seu comportamento ao se depararem com um decote, então todos os homens terão que cobrir seus olhos ao ir para a academia, frequentar bares ou discotecas ou mesmo ir à praia." [...]
Os homens expressaram preocupação, dizendo que essas medidas podem impedir que alguns deles executem tarefas quotidianas, como ir à escola, trabalhar e participar de eventos sociais.
Em resposta, os líderes religiosos disseram "entender que isso talvez seja um inconveniente para alguns", mas que "essas pequenas dificuldades não são nada quando comparadas ao horror que uma agressão sexual causa à vítima". "Na verdade", disse o líder da organização, "qualquer limitação à liberdade dos homens é melhor que o risco que corremos de alguns deles agredirem alguém. É uma questão de bom senso."
"Sabemos que nem todos os homens são estupradores, e que alguns homens provavelmente são confiáveis para apresentar programas de TV de forma segura", disse o diretor da Televisions Within Borders, um grupo de profissionais que promove o bem-estar dxs apresentadores de TV. "Entretanto, sabemos que alguns homens não são dignos de tal confiança. E por que correr esse risco? Há muitas mulheres qualificadas que podem fazem o mesmo trabalho." [...]
Os que apoiam o movimento alegam que não houve um único caso de abuso sexual de crianças por parte de técnicos de futebol desde que todos os técnicos das equipes de futebol universitário norte-americanos foram substituídas por mulheres, após o escândalo sexual na universidade Penn State no ano passado.
por Roberta Gregoli
Uma maneira muito eficaz de se detectar padrões duplos (o famoso 'dois pesos, duas medidas') é aplicar o padrão em questão ao sexo oposto e, se soar estranho, a injustiça é explicitada. Este post mostra como seria ridículo aplicar os mesmo 'conselhos' dados às mulheres aos homens para evitar agressão sexual.
A querida Valéria Guimarães me mandou um ótimo texto que faz algo parecido, mas, para mim, melhor ainda, porque não só inverte a equação, mas a reformula com a própria premissa. Explico: este discurso de 'dicas de segurança para mulheres' tem um fundamento muito simples, o de que os homens têm um instinto sexual incontrolável. A própria ideia de roupa 'provocante' é sintoma disso: certos tipos de roupa provocam algo que é difícil - ou não pode - ser contido, não é isso?Aliás, várias outras falácias do machismo são baseadas nesse mito. Ou você já viu alguma pesquisa que prove que os homens têm, de fato, maior desejo sexual que as mulheres? Os homens ficam nessa posição de boçais que, vítimas da própria natureza animalesca, não podem fazer nada contra ela, o que, em última instância, significa que não podem se responsabilizar pelos seus impulsos.
Já deu pra ver onde isso dá, né? Estupro? É culpa da mulher que usou uma saia que fez o cara 'perder a cabeça'. Também nessa premissa se baseia todo aquele discurso que as mulheres são seres sensatos e morais que precisam 'civilizar' os homens. Aquela história de que homem só sossega quando encontra uma mulher séria, sabe? Que o homem 'tomou jeito' depois que conheceu a fulana (= mulher séria).
O texto explora essa premissa - já que homens são trogloditas em potencial, vamos inverter o discurso e limitar a liberdade deles, não a das mulheres. Como não encontrei uma versão em português, fiz uma livre tradução de partes do texto:
E se respondêssemos à agressão sexual limitando a liberdade dos homens da mesma forma que limitamos a liberdade das mulheres?
Solicitação para que homens usem vendas ao sair em público
Em resposta à alegação de que homens são incapazes de controlar seus impulsos de estuprar mulheres usando roupas curtas, agentes dos diversos órgão de segurança lançaram uma solicitação para que os mesmos utilizem vendas nos olhos quando transitarem em lugares onde possam encontrar mulheres usando decote ou saia curta."Há anos ouvimos que os homens não conseguem reagir ao ver uma mulher usando, por exemplo, roupa de ginástica, e que, no entendimento deles, ver as curvas do corpo de uma mulher é um convite ao sexo, quer ela queira ou não", disse um policial. "Se isso é verdade, então não temos escolha. Queremos que as mulheres estejam seguras e, se aparentemente não há maneira de alguns homens controlarem seu comportamento ao se depararem com um decote, então todos os homens terão que cobrir seus olhos ao ir para a academia, frequentar bares ou discotecas ou mesmo ir à praia." [...]
Seria sensato deixar homens saírem sozinhos à noite?
Preocupados com os estudos recentes que mostram que, em média, 6% dos homens são perpretadores de agressão sexual durante o curso de suas vidas [...], líderes religiosos locais fizeram um apelo para que pais proíbam seus filhos homens de saírem à noite, a menos que estejam acompanhados da mãe, irmã ou uma amiga de confiança.Os homens expressaram preocupação, dizendo que essas medidas podem impedir que alguns deles executem tarefas quotidianas, como ir à escola, trabalhar e participar de eventos sociais.
Em resposta, os líderes religiosos disseram "entender que isso talvez seja um inconveniente para alguns", mas que "essas pequenas dificuldades não são nada quando comparadas ao horror que uma agressão sexual causa à vítima". "Na verdade", disse o líder da organização, "qualquer limitação à liberdade dos homens é melhor que o risco que corremos de alguns deles agredirem alguém. É uma questão de bom senso."
É hora de admitir que alguns empregos são simplesmente muito perigosos para os homens?
As recentes acusações que Jimmy Savile estuprou centenas de crianças enquanto trabalhava como apresentador de TV para a BBC gerou diversos pedidos da sociedade civil, requisitando que se evite contratar homens para cargos semelhantes.![]() |
| Jimmy Savile |
Os que apoiam o movimento alegam que não houve um único caso de abuso sexual de crianças por parte de técnicos de futebol desde que todos os técnicos das equipes de futebol universitário norte-americanos foram substituídas por mulheres, após o escândalo sexual na universidade Penn State no ano passado.
30 de janeiro de 2013
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estupro,
humor,
padrões duplos,
Roberta
3
por Mazu
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| Página "Não Aguento Quando" no Facebook. |
Há dois dias, minha cunhada publicou um vídeo no Orkut
(sim, no Orkut!) em que um metaleiro destilava muito julgamento sobre o que ele
chamou de pirirockers (deve significar algo como piriguetes do roquenrol). Não
conheço o cara, mas ele fez questão de dizer que estava lá criticando a
hipocrisia das meninas que usam roupa curta, mas são roqueiras, e ficam
criticando as meninas que usam roupa curta e escutam funk. Provavelmente, a
hipocrisia que ele detectou existe. Se realmente há alguém que usa roupa curta
criticando alguém que usa roupa curta, sim, há hipocrisia. Mas essa não é a
questão. Ainda que ele tenha se explicado e dito literalmente "as pessoas
podem fazer o que quiser e ser feliz, não tenho nada com isso", o vídeo
é machista, não parece, assim de parecer logo de cara, mas é. Muito
provavelmente, essa não foi a intenção do autor e, muito provavelmente, vários
de nós (si, jo también) destilamos machismo de quando em vez, sem nos darmos
conta. E por que, meu Deus, por quê? Porque a ideologia do patriarcado é tão
embebida, incutida nos nossos costumes que pode passar despercebida.
![]() |
| Femstagram no Facebook |
Um exercício interessante, inclusive para xs
companheirxs recém chegadxs no movimento, é se escutar falando. Loucura, né?
Mas, é isso mesmo. Na grande maioria das vezes, quando uma afirmação só serve
para homens ou mulheres, essa afirmação está lá com seus 90% de chance de ser
sexista. Vou usar como exemplo o vídeo que minha cunhas postou. Não é
semanticamente possível dizer "os pirirockers", certo? Quero dizer,
não rola tirar sentido da expressão, assim sem um contexto mais específico.
Rola dizer "maria-palheta", um termo usado para groupies, e fazer sentido,
mas não rola dizer "joão-palheta" e fazer sentido, novamente, sem um
contexto que nos ampare. Não quero comprar briga com os compas da linguística,
então já adianto, com contexto e interação tudo pode na linguagem. Mas, vamos
supor, ainda que um contexto específico nos permitisse tirar sentido dessas
expressões, eles não seriam exatamente iguais, não carregariam o mesmo pacote
de sentidos, porque estamos em uma sociedade com esse e aquele discurso
anterior, ou seja, esse e aquele preconceito já estabelecido. Vide o cara
"galinha" e a mina "galinha", que trazem significados bem
diferentes empregados aqui e lá.
Alguém poderia dizer: tem coisa que só homem
faz, tem coisa que só mulher faz. A resposta mais simples para isso, além de
"oi, século XXI?" é que essas coisas só de homem ou só de mulher têm
que ter explicações muito biológicas mesmo, muito provavelmente envolvendo o
uso direto da genitália. Do contrário, a gente pode detectar sexismo novamente.
A Rô trouxe uma discussão legal sobre isso, quando tratou dos brinquedos demeninas e meninos.
Esses atos falhos nossos acontecem para o bem e
para o mal, o tempo todo. Dia desses, um amigo publicou no facebook:
"fulana de tal (que fez x e y): uma mulher para entrar na lista de
mulheres que fizeram diferença na humanidade". Sério, lendo isso, a gente
não fica com aquela impressão de que quase não existiu mulher para fazer
diferença? Pois é.
E não rola só com mulheres, dizer que os homens
são todos canalhas é tão sexista quanto dizer que as mulheres são todas
interesseiras. Toda discriminação ou papel já estabelecido, sem explicação
biológica (eu ia dizer racional, mas não seria suficiente), para um gênero
implica sexismo. Dizer que é dever do homem pagar as contas é sexista também. E
assim vai.
![]() |
| Créditos: Femstagram no Facebook |
Todo mundo escorrega, não rola dizer que não. Se
em determinado momento da vida, alguém pisa no calo e a gente vai falar mal ou
discutir, uh, como rola preconceito. Eu tenho irmã, eu sei como é. Deus me
livre daquela máxima "Não sou machista, nem feminista, sou humanista"
porque, sério, isso é um uso super errado de todos, todos, todos os termos da sentença!
Machismo não é o contrário de feminismo, nem os humanistas têm nada que ver com
a bagaça toda. Mas o ideal, para evitar os escorregas sexistas nossos de cada
dia, era a gente usar "pessoa" ou "gente" nas afirmações
para evitar, né? Tipo "tem gente interesseira" não "tem mulher
interesseira". E, aí, se me for permitido um adendo fora do escopo do blog
e do post, melhor mesmo seria tentar ser positivo e não ficar de mimimi por aí
e dizer que "tem gente legal no mundo", sei lá, talvez isso ajude na
tarefa complicada de gostarmos uns dos outros.
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| Não Aguento Quando novamente |
Voltando, a dica das tias de hoje, que serve pra
tia também, é: quando a gente for criticar alguém, para evitar cairmos em
qualquer armadilha linguística do preconceito, vamos tentar trocar o
"x" por "pessoa". Assim, ó: na frase "tinha que ser
X", sendo x = mulher, gay, preto, nordestino, gordo, se a gente não puder
trocar x por "pessoa" e conseguir sentido, que liguemos o alerta do
preconceito, porque há, talvez não seja evidente, mas há.
28 de janeiro de 2013
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por Barbara Falleiros
Ao longo desses anos passados na universidade francesa, sempre me surpreendeu a ausência de crianças circulando no meio universitário. Não, não falo de superdotados, mas dos filhos dos estudantes. No Brasil, durante a graduação, via pelo campus estudantes grávidas e seus bebês (os amigos da Unicamp talvez se lembrarão do episódio de uma pequena que fez xixi em plena sala de aula...). Eu mesma cresci tomando o leite do bandejão da USP. Em Paris, as pouquíssimas estudantes grávidas que encontrei estavam, em geral, terminando o doutorado. Nunca vi um único bebê nos locais da faculdade. Procurei estatísticas sobre as estudantes-mães por aqui e não encontrei, sei apenas que existem na cidade três creches universitárias com capacidade conjunta para 100 crianças.
Pode-se até dizer que isso é bom, que os longos estudos, a maternidade numa fase mais madura e a prioridade dada à carreira são indícios de uma sociedade "desenvolvida". O que eu desconfio é que o fato de o aborto ser legalizado contribua para que as estudantes se tornem mães mais tarde, fazendo da maternidade uma escolha altamente planejada. Mas de qualquer maneira, a impressão que tenho é de que, no meio acadêmico, nunca há hora propícia para se ter um bebê. Do ponto de vista profissional, a maternidade é sempre um demérito, uma fraqueza. Falo deste meio porque é nele que estou inserida, mas sei que a situação não difere em outros ambientes profissionais.
Às vezes as pessoas que têm uma ideia estereotipada das reivindicações feministas pensam que feminista é aquela que "odeia homem", "não quer ter filhos" e milita pela "destruição da família". As coisas não são tão simples. A escolha da maternidade é individual, o que importa para todos é o direito da mulher de não ser reduzida à sua função reprodutora. Pois é esta redução que motiva a discriminação profissional das grávidas: espera-se de uma mãe que esta seja sua função primordial e que esta tarefa a ocupe integralmente. O que, claro, atrapalha a atividade profissional. Então é filho ou trabalho, as duas coisas não! - este é o leitmotiv. E volta aquela velha história de padrão duplo: este tipo de clivagem não diz respeito ao homem, que normalmente não conhece um efeito direto de comprometimento da carreira com a chegada de um filho. Porque para uma empresa preocupada com o desempenho de seu funcionário, por exemplo, que o homem tenha filhos ou não importa menos, já que a responsabilidade do cuidado das crianças recai majoritariamente sobre a mãe. Na cabeça do chefe, quem é que vai faltar no trabalho quando a criança estiver doente?
É interessante perceber como funciona o círculo vicioso: para começar, o salário de uma mulher já é 30% inferior ao de um homem. Quando ela tem filhos, sua carreia é geralmente freada, enquanto que a do homem segue seu ritmo de evolução. No interior da família, isso contribui para colocar o trabalho do homem em primeira ordem de importância, mantendo-o no papel de provedor e relegando à mulher a responsabilidade principal no cuidado dos filhos. Por sua vez, ao assumir esta responsabilidade, a mulher é levada a colocar a carreira em segundo plano. Esclareço que não tenho particularmente nada contra famílias em que um trabalha "fora" e outro "dentro", em que um se investe mais no trabalho e outro menos, o problema é que estes não costumam ser modos de vida escolhidos livremente; este tipo de configuração, induzido por inúmeros fatores como os que foram citados, podem implicar um jogo de poder no interior da família, colocando uma das partes (a mulher) numa posição frágil. É o mais comum.
Não há como negar que o período da gravidez pode exigir certas adaptações, dependendo da profissão exercida, e que a mulher precisa passar por uma recuperação física e emocional no pós-parto. Mas este período é transitório. E a mulher voltaria em melhores condições se tivesse, em casa, a ajuda de seu companheiro. Afinal, o filho não é do pai também? É correto que ele fique apenas uma semana com o recém-nascido? O projeto de lei 879/11 prevê a ampliação da licença paternidade de cinco para trinta dias para que ambos os pais possam cuidar do bebê e se adequar à nova rotina:
Com uma ressalva ao texto citado: na minha opinião não se trata de auxílio, pois auxílio é o que se oferece a alguém que se encontra na incapacidade de exercer uma tarefa que lhe cabe. Auxílio é favor: "Deixa que eu faço pra você". É um pouco como dizer do marido que ele "ajuda" nas tarefas domésticas... Trata-se, ao contrário, de dar ao pai a possibilidade e o direito de assumir o que é de sua responsabilidade. Quando há um pai e uma mãe (ou dois responsáveis), a tarefa de cuidado de um filho deveria ser dividida de forma igualitária. A mãe, menos sobrecarregada, veria possivelmente uma diminuição do impacto negativo da maternidade sobre seu trabalho.
Voltando à questão da discriminação profissional da mulher grávida. Lembro da história de uma amiga que, prestes a receber uma função de importância numa grande multinacional de cosméticos, anunciou aos superiores sua gravidez. Sua chefe respondeu: "Mas você sabe, você não precisa ir em frente com isso, há sempre a opção do aborto! E pense bem, uma oportunidade como esta não se repete!" Como eu disse acima, ou filho ou trabalho, a mulher acaba sofrendo a pressão para escolher entre um e outro...
Mas há outras formas mais ou menos sutis de assédio moral e discriminação, como a perda de promoções ou mesmo a não contratação de mulheres que se aproximam do prazo de validade, ameaças ("Ah, mas você tem certeza de que não fazer uma encomenda para a cegonha, não é? Por que veja bem, para nós não vale a pena investir em alguém que não se mostrará 100% comprometido com a nossa empresa"); desvalorização de mulheres que já têm filhos servindo-se da desculpa de que seu foco não está na empresa; horários para a amamentação não respeitados ou dificultados; avaliações de desempenho negativas e atribuição de funções inferiores na volta da licença-maternidade; recusa de benefícios e oportunidades; ou ainda a discriminação por parte dos próprios colegas, que encaram as adaptações das condições de trabalho da funcionária grávida como privilégios ilegítimos ou que pensam que a licença maternidade é o equivalente a férias.
Uma empresa pode e deve ser processada por qualquer discriminação desse tipo. E à mulher grávida cabe conhecer seus direitos, listados nesta página do governo. Por outro lado, algumas empresas mais espertinhas seguem o caminho contrário e adotam políticas de melhoria das condições de trabalho das grávidas-mães, como pausa alimentação para as grávidas, berçário no local, facilitando a retomada do trabalho após a licença maternidade, licença de seis meses, bônus e ajudas de custo, horários flexíveis, salas de amamentação. Claro que para as empresas há vantagens, como o abatimento de impostos. Mas é bem possível que algumas tenham se dado conta de que funcionário contente é funcionário engajado e que tenham percebido, ao respeitarem o trabalho das funcionárias, que a "igualdade de gênero aumenta a produtividade", como mostrado no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2012.
Deixo a pergunta para as nossas leitoras: quem aí sofreu discriminação e quem tem outros exemplos de políticas corporativas positivas? (Não me deixem falando sozinha! rs) Na semana que vem, meu último post desta série sobre maternidade com um assunto doloroso mas importante: a violência obstétrica.
Às vezes as pessoas que têm uma ideia estereotipada das reivindicações feministas pensam que feminista é aquela que "odeia homem", "não quer ter filhos" e milita pela "destruição da família". As coisas não são tão simples. A escolha da maternidade é individual, o que importa para todos é o direito da mulher de não ser reduzida à sua função reprodutora. Pois é esta redução que motiva a discriminação profissional das grávidas: espera-se de uma mãe que esta seja sua função primordial e que esta tarefa a ocupe integralmente. O que, claro, atrapalha a atividade profissional. Então é filho ou trabalho, as duas coisas não! - este é o leitmotiv. E volta aquela velha história de padrão duplo: este tipo de clivagem não diz respeito ao homem, que normalmente não conhece um efeito direto de comprometimento da carreira com a chegada de um filho. Porque para uma empresa preocupada com o desempenho de seu funcionário, por exemplo, que o homem tenha filhos ou não importa menos, já que a responsabilidade do cuidado das crianças recai majoritariamente sobre a mãe. Na cabeça do chefe, quem é que vai faltar no trabalho quando a criança estiver doente?
É interessante perceber como funciona o círculo vicioso: para começar, o salário de uma mulher já é 30% inferior ao de um homem. Quando ela tem filhos, sua carreia é geralmente freada, enquanto que a do homem segue seu ritmo de evolução. No interior da família, isso contribui para colocar o trabalho do homem em primeira ordem de importância, mantendo-o no papel de provedor e relegando à mulher a responsabilidade principal no cuidado dos filhos. Por sua vez, ao assumir esta responsabilidade, a mulher é levada a colocar a carreira em segundo plano. Esclareço que não tenho particularmente nada contra famílias em que um trabalha "fora" e outro "dentro", em que um se investe mais no trabalho e outro menos, o problema é que estes não costumam ser modos de vida escolhidos livremente; este tipo de configuração, induzido por inúmeros fatores como os que foram citados, podem implicar um jogo de poder no interior da família, colocando uma das partes (a mulher) numa posição frágil. É o mais comum.
Não há como negar que o período da gravidez pode exigir certas adaptações, dependendo da profissão exercida, e que a mulher precisa passar por uma recuperação física e emocional no pós-parto. Mas este período é transitório. E a mulher voltaria em melhores condições se tivesse, em casa, a ajuda de seu companheiro. Afinal, o filho não é do pai também? É correto que ele fique apenas uma semana com o recém-nascido? O projeto de lei 879/11 prevê a ampliação da licença paternidade de cinco para trinta dias para que ambos os pais possam cuidar do bebê e se adequar à nova rotina:
“A ausência paterna sobrecarrega a mãe, que se encontra no delicado período puerperal, cuja duração é de 30 a 45 dias após o parto, muitas vezes em pós-operatório, com limitações físicas e carências psíquicas, e que necessita ser auxiliada nos cuidados imediatos do bebê”
Com uma ressalva ao texto citado: na minha opinião não se trata de auxílio, pois auxílio é o que se oferece a alguém que se encontra na incapacidade de exercer uma tarefa que lhe cabe. Auxílio é favor: "Deixa que eu faço pra você". É um pouco como dizer do marido que ele "ajuda" nas tarefas domésticas... Trata-se, ao contrário, de dar ao pai a possibilidade e o direito de assumir o que é de sua responsabilidade. Quando há um pai e uma mãe (ou dois responsáveis), a tarefa de cuidado de um filho deveria ser dividida de forma igualitária. A mãe, menos sobrecarregada, veria possivelmente uma diminuição do impacto negativo da maternidade sobre seu trabalho.
Voltando à questão da discriminação profissional da mulher grávida. Lembro da história de uma amiga que, prestes a receber uma função de importância numa grande multinacional de cosméticos, anunciou aos superiores sua gravidez. Sua chefe respondeu: "Mas você sabe, você não precisa ir em frente com isso, há sempre a opção do aborto! E pense bem, uma oportunidade como esta não se repete!" Como eu disse acima, ou filho ou trabalho, a mulher acaba sofrendo a pressão para escolher entre um e outro...
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| Discriminada no trabalho e com um computador do século passado! (brincadeirinha) |
Uma empresa pode e deve ser processada por qualquer discriminação desse tipo. E à mulher grávida cabe conhecer seus direitos, listados nesta página do governo. Por outro lado, algumas empresas mais espertinhas seguem o caminho contrário e adotam políticas de melhoria das condições de trabalho das grávidas-mães, como pausa alimentação para as grávidas, berçário no local, facilitando a retomada do trabalho após a licença maternidade, licença de seis meses, bônus e ajudas de custo, horários flexíveis, salas de amamentação. Claro que para as empresas há vantagens, como o abatimento de impostos. Mas é bem possível que algumas tenham se dado conta de que funcionário contente é funcionário engajado e que tenham percebido, ao respeitarem o trabalho das funcionárias, que a "igualdade de gênero aumenta a produtividade", como mostrado no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2012.
Deixo a pergunta para as nossas leitoras: quem aí sofreu discriminação e quem tem outros exemplos de políticas corporativas positivas? (Não me deixem falando sozinha! rs) Na semana que vem, meu último post desta série sobre maternidade com um assunto doloroso mas importante: a violência obstétrica.
27 de janeiro de 2013
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Barbara,
divisão do trabalho,
maternidade,
políticas públicas














