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A vingança de Quentin Tarantino

por Tággidi Ribeiro




Assisti a Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012), de Quentin Tarantino. Pensei um monte de coisas - durante e depois do filme -, então esse texto é uma tentativa de organizar tudo o que me passou pela cabeça. Como não sou crítica de cinema - apenas amo cinema - peço que me perdoem de antemão o vocabulário não especializado que vou usar. (Ah, se você não viu o filme, não leia esse texto.)

Eu adorei o filme por muitas razões. Em primeiro lugar, sempre gostei da violência dos filmes do Tarantino, muitas vezes trágica, mas quase sempre cômica e por isso palatável. Em Django, essas duas facetas se concertam muito bem, e podemos deplorar a cena em que um escravo é devorado por cães, ou a cena em que uma escrava fugida (Brunhilde, papel de Kerry Washington) é tirada do 'forno' usado para seu castigo e ainda a luta de mandingos. Por outro lado, nos diverte - sim, diverte - a cena em que o próprio Tarantino explode(!), a morte do xerife, a cena da emboscada em que morrem dezenas de homens brancos que querem matar Django (Jamie Foxx) e seu amigo Schultz (Christoph Waltz) e na qual Tarantino tira um sarro homérico da KKK (que ainda estava em formação, diga-se).

O filme opera com a dicotomia opressor/oprimido e não tem muitos escrúpulos ao simplesmente eliminar quem oprime - os escravocratas do sul dos Estados Unidos, caricatos em sua maldade. Obviamente, quem se identifica com o negro oprimido comemora e se sente vingado. Então, só me resta dizer que Django é pura catarse.

...E o Vento Levou
Acho que Tarantino se tornou um especialista nesse movimento catártico: em Bastardos Inglórios (2009), comemoramos um cinema inteiro explodindo e matando nazistas, inclusive Hitler; em À Prova de Morte (2007), comemoramos a caça a um psicopata misógino que mata mulheres por diversão - atenção, são mulheres, só mulheres, que o caçam. E tem Kill Bill, também, né? As escolhas de Tarantino são conscientes e vemos a tela do cinema transformar-se no lugar desses grupos historicamente... f*didos: mulheres, judeus e negros, enquanto a arte se coloca classicamente à disposição, talvez não da ideologia, mas da ideia, da moral (de uma moral). Tarantino trabalha com uma ética da vingança muito clara: é lícito matar quem seja, a qualquer momento e de qualquer maneira, desde que seja o inimigo. Não há misericórdia. E nós, em frente à tela, pensamos: "Mas também pudera! Olha o que o inimigo (branco escravista, nazista, misógino) fez!" Assim, lavamos a alma...

A um Passo da Eternidade
Casablanca
Claro que incomoda o fato de que Schultz, o branco parceiro, tenha mais consciência e sentimento de revolta que Django, o negro protagonista (pra haver mudança é preciso dissidência?). E incomoda também o fato de que o grande vilão, o mais detestável do filme, seja negro: Stephen (Samuel L. Jackson), um escravo doméstico (pra haver manutenção é preciso haver anuência?). Incomoda ainda o fato de que as mulheres sejam praticamente anuladas no filme. Mas, quer saber, dou um mega desconto! Tarantino está há quase duas décadas fazendo filmes com personagens femininas que fogem de estereótipos e dando destaque a atores negros - temos uma mulher negra protagonista em Jackie Brown (1997). Em Bastardos Inglórios vemos um negro e uma branca fazendo par amoroso - é quase impossível assistir a isso na grande tela...

Pergunto: quantas vezes assistimos a um herói negro montado em um cavalo branco resgatando sua donzela? Quantas vezes vimos a clássica cena do beijo ter dois protagonistas negros?

Django Livre




E não foi só a questão ideológica que me pegou em Django Livre (aliás, se houvesse ideologia sem qualidade, eu falaria mal). Gosto das atuações do principal quarteto masculino do filme: Jamie Foxx como Django - ele tem força e melancolia no olhar, o que eu acho fascinante e necessário pra quem tem as costas marcadas pelo chicote e busca a amada; de Christoph Waltz, como o caçador de recompensas libertário e cínico, o alemão Schultz - Christoph já havia 'quebrado tudo' como o coronel Hans Landa, em Bastardos; a atuação de Leonardo DiCaprio é excelente, como o malvado Calvin Candie; e Samuel L. Jackson deveria estar concorrendo ao Oscar, pelamor.

A trilha sonora é ótima. Tarantino sempre cuida muito bem disso. E faz TODO SENTIDO usar rap em algumas cenas de tensão. É como se a existência desse gênero musical se justificasse, sabe? Sem querer ser determinista, mas já sendo: como se somente os negros, tendo vivido a escravidão por tantos séculos, soubessem o que é o peso do mundo.

E pra quem acha que o filme está mal editado ou mal cortado, nas cenas grotescas eu me lembrei direitinho dos filmes de faroeste e dei muita risada. Não é isso o que o Tarantino faz: homenagear o cinema? Mesmo na cena em que Lara Candie, morre, não há erro ou gratuidade: conta-se (não achei a referência, ainda!) que, ao saber que as pessoas ao serem alvejadas não morriam dramaticamente, caindo devagarziiiinho, como em geral acontecia nos westerns, Sérgio Leone (se não me engano) chegou a usar cordas para puxar seus atores no momento em que levassem o tiro, o que criou o mesmo efeito exagerado e obviamente cômico da morte da irmã de Calvin Candie.

Enfim, eu chorei, sorri e saí feliz do cinema, pensando todas essas e mais um monte de coisas. E vocês?




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E lá se vai seu nome de donzela

por Roberta Gregoli


O tópico de hoje é delicado e quero já deixar claro que não tenho a intenção de acusar, criticar nem ofender ninguém por suas escolhas. Mas como a nossa proposta é justamente abordar esse tipo de tema que tem pouco espaço na mídia tradicional, aqui me aventuro eu.

Confesso que, quando vi o slogan ao lado pela primeira vez há alguns anos, não o compreendi em sua completude. O feminismo luta por direitos, por igualdade, equidade - ingenuamente, achei que a humanidade das mulheres só (só?!) era questionada na objetificação de seus corpos.

Entretanto, quanto mais reflito, mais me dou conta que, às mulheres, lhes é constantemente negado algo tão básico quanto a própria subjetividade: pense em todos empecilhos que enfrentamos para ter e manter uma carreira; o esforço de peitar, perante a sociedade, a potencial decisão de não ter filhxs; ter o nosso corpo transformado em espetáculo público... Este processo de apagamento do eu é perfeitamente ilustrado, num nível absolutamente primário, numa prática corriqueira: adotar o sobrenome do marido ao se casar. Alteramos o mínimo denominador, o índice mais óbvio de quem somos: nosso nome.

O que me inspirou a escrever sobre este tema esta semana foi a Beyoncé. Sim, a diva do monômio exuberante se casou e, não só adotou o nome do marido, como intitulou sua nova turnê Mrs Carter. Por quê, por quêeee, nos perguntamos. A verdade é que os motivos que levaram Beyoncé a mudar seu nome (estratégia de marketing? comentário irônico sobre a prática, enfatizado pelo figurino à la Louis XIV?) são diferentes dos que levam as mulheres não-estelares a fazerem o mesmo.


Para mim, mudar meu nome sempre esteve fora de cogitação, justamente porque enxergo a questão como identitária e eu não me reconheceria como, sei lá, Roberta Silva. Além disso, alterar o sobrenome tem também um impacto profissional, sobretudo na carreira acadêmica. Qualquer mudança no nome significa, na prática, jogar no lixo seu currículo de publicações. Existem professoras, inclusive, que mantêm o sobrenome do ex-esposo, mesmo depois do divórcio, porque já se consolidaram na área com ele. Imagine que triste, sua identidade intelectual para sempre vinculada a um casamento falido. E, se você virar grande referência na área - se conseguir 'construir um nome', como dizem - o nome construído vai ser o do ex, não o seu.

Esperando por sua nova identidade
com glamour
Na verdade, a prática de alterar o nome, em sua origem, simboliza a inauguração de uma nova fase na vida da mulher, quando ela assume o papel de esposa (dentro dessa concepção tradicional, o único que cabe à mulher). Em inglês, 'nome de solteira' (maiden name) literalmente significa 'nome de donzela', índice da concepção arcaica da prática. Ao se casar e perder sua virgindade - que nesse sistema funcionava como moeda de troca que determinava o 'valor' da mulher (pensando bem, as coisas não mudaram muito...) - a identidade de antes, símbolo de seu estado virginal de solteira, devia ser descartada, porque a identidade de prestígio social para uma mulher era (e ainda é) a de casada.

Isso tudo me soa tão sem sentido que só consigo entender os motivos que levam algumas mulheres de hoje a adotarem o sobrenome do marido a partir de um exercício intelectual de abstração.

Uma das causas mais comuns deve ser a tradição: 'é assim que é feito, nunca parei pra pensar sobre isso, onde eu assino?' Primeiro que não é assim que é feito necessariamente. Desde 2002, acrescentar sobrenomes é opcional e qualquer um dos cônjuges pode fazê-lo

Daí vamos para um outro forte motivo, que é a pressão social. A sociedade policia as mulheres de todas as maneiras possíveis e imagináveis - até aí, não há novidade. Mas, nesta questão específica, a coisa pode ficar muito hostil... E dá-lhe terrorismo emocional: será que já tá pensando no divórcio? não vai demonstrar seu amor por ele? mas e a celebração da sua união? Todas essas jogadas de romantismo que, no final, só servem para reforçar a tradição.

Tem gente que menciona xs filhxs e eu não entendo bem qual é o drama. A mãe chama Fulana A, o pai chama Fulano B, x filhx chama Fulaninhx A B (e nem vamos entrar no mérito do último nome ser o do homem). Tá ali, o nome dos dois, não há ambiguidade quanto à origem da criança. Agora, se a mãe não tiver o nome do pai vão achar que a criança é bastarda, é isso? É essa a preocupação, que, ai e se ela for mãe solteira? Ou divorciada? Em que século estamos mesmo?

Outro dia me apareceu uma nova. Alguém me contou que a noiva não queria adotar o nome do noivo e era um absurdo porque ele estava disposto a adotar o nome dela. Se é para ter igualdade, por que ela não aceita, já que ele ia fazer o mesmo? A resposta é simples: porque ela não quer. Se ele quer adotar o nome dela, ótimo, vá em frente. Agora, dureza ela ter que ficar dando satisfação para todo mundo de uma escolha que deveria ser só dela: o nome é dela, a identidade é dela.

Pronta para fazer - e com sorte
não ter que REfazer - toda a papelada
Além de tudo, por mais que ninguém goste de pensar nisso na hora do casamento, o divórcio é uma possibilidade real: 56% dos casamentos terminam em divórcio no Brasil. Então, manter seu próprio nome, além de uma questão ideológica, seria também pragmática: é como fazer uni-duni-tê para ver se vai mudar todos os registros de sua existência civil duas vezes. Só a primeira vez já me desanimaria.

O feminismo luta para que as mulheres sejam livres (ironicamente, até isso pode ser usado contra as mulheres, como quando dizem que faz sentido ganharmos menos porque colocar a carreira em segundo plano é uma decisão pessoal). O tema da mudança do nome é complicado justamente porque aborda decisões pessoais. Afinal, muitas mulheres dizem mudar o nome por escolha própria, da mesma forma como muitas dizem que são donas de casa porque querem.

Eu volto a enfatizar que não desmereço nem critico nenhuma mulher por ter adotado o nome do esposo, ou por ser dona de casa, mas questiono, sim, se essas são escolhas reais

Afinal, como falar em liberdade de escolha quando não existe igualdade? Se os homens adotassem o nome das mulheres em igual proporção que as mulheres adotam o nome dos homens, aí, sim, ok, temos escolha. Você está mentindo se disser para umx estudante do ensino público da periferia que elx pode ser o que quiser quando crescer. É possível dizer que elx escolheu não ser médicx (ou qualquer outra profissão de status que requeira estudo de qualidade e investimento financeiro)? Só há liberdade de fato quando existem oportunidades iguais.

Minha intenção com este texto não foi convencer ninguém a fazer nada. Só fomentar a discussão para levar a uma escolha esclarecida, expondo um lado do debate que muitas vezes fica obscurecido. Com todas as informações postas e pesadas, sem levar em conta qualquer pressão familiar ou social, aí, sim, podemos falar em escolha real. 


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Tradutora, traidora: La Malinche e a possibilidade de subverter e re-escrever a história

por Thaís Bueno

La Malinche, de Rosario Marquardt, 1992
Se existisse um hall of fame para tradutorxs, com certeza no topo da lista de homenageadxs estaria uma índia, que, não bastasse ter sido a tradutora do original, foi também amante dele.

Trata-se de La Malinche, como é mais conhecida (mas também foi chamada de Malinalli e Malintzin na tribo onde cresceu). La Malinche foi uma princesa de origens asteca e maia, nascida no final do século XV, na região onde hoje fica o México, e ainda criança foi vendida como escrava, por seu padrasto, a um comerciante local. Em seguida, com a invasão do México pelos espanhóis, La Malinche foi parar nas mãos de Hernan Cortéz, espanhol que foi figura central no episódio da conquista do México.

Ao perceber que Malinche se virava muito bem com idiomas, os espanhóis a recrutaram como intérprete de Cortéz. A partir de então, ela passou a traduzir, para o invasor, não apenas as palavras do imperador asteca Montezuma, mas tudo o que os astecas discutiam a respeito da chegada dos espanhóis.

No século XVI, a índia Malinche foi intérprete do espanhol Hernan Cortéz,
traduzindo, da língua nahuatl, as planos e os planos do imperador asteca Montezuma
e contribuindo para o projeto de conquista do México pelos espanhóis
(Ilustração: Lienzo de Tlaxcala)

Obviamente, essa "mexicana nativa", se é que se pode falar assim, foi extremamente influente nos planos de conquista orquestrados por Cortéz, planos esses que terminaram em um dos maiores genocídios de que se tem notícia. E é muito interessante pensar que, muitos anos após a conquista do México, durante o processo de independência e de formação do imaginário nacional do país (uma nova ordem patriarcal e religiosa), a figura de Malinche reapareceu, passando a representar a mulher traidora e vil, que se entregou (linguística, cultural, militar e sexualmente) ao inimigo, e assim entregou ao invasor todo o México. Ao contrário da imagem da Virgem de Guadalupe, a virgem mestiça que representaria a face “santa” da cultura mexicana, Malinche carregaria a imagem de puta (e não deixa de ser engraçado e irônico que, em uma cidade do Texas, EUA, exista um bairro em que as ruas Guadalupe e Malinche se cruzam). “Hijo de La Malinche”, “malinchista”, “à La Chingada” são todas expressões pejorativas (que aqui no Brasil têm correspondentes como "filho da puta" e "para a puta que o pariu") que remetem à figura da índia e são bastante usadas no México. 
Vista do Google Maps da irônica esquina em que a rua Guadalupe
e a avenida Malinche se cruzam em Laredo, Texas, EUA

Pensando em toda essa história e também que a História que conhecemos é sempre contada segundo uma ideologia, não me surpreende que La Malinche tenha se transformado em palavrão na boca dos mexicanos.  Ela foi uma mulher dotada de um poder extraordinário, dado o contexto político. Como intérprete de Cortéz, ela estava na posição singular de decidir o que ambas as partes do conflito iriam saber e o que seria mantido em segredo. Ela não apenas estava passando informações de uma língua para outra, mas tinha o poder de decidir se mudaria ou não o curso da história, a cada frase. Uma mulher como ela, com tamanho poder, não poderia ser admirada, nem respeitada. Ela teria que ser rebaixada e ridicularizada, tanto naquele momento específico, quanto em todo o desenrolar da história do México. 

Essa questão me faz lembrar um ótimo professor que, certa vez, em sala de aula, contou para a turma uma das inúmeras e péssimas piadas sobre a “loira burra”, que todo mundo conhece. A turma riu. Em seguida, o professor perguntou: “vocês sabem por que riram?” A turma em silêncio. Ele próprio respondeu à pergunta, explicando que, pelo simples fato de a loira ser loira, ou seja, se encaixar no padrão de beleza que o nosso país mais valoriza, ela não pode nem deve ter outras características positivas, como inteligência ou bom humor, pois, caso isso aconteça, seu poder será muito grande e ela poderia ameaçar o status quo.

A história de La Malinche pode nos ensinar muito sobre o porquê de a “loira” sempre ser “burra” em nossas piadas. No entanto, há alguns anos, a figura de La Malinche tem sido resgatada por estudiosas (e isso me torna muito otimista) que passaram a defender para a indígena a imagem da mulher que representa a abertura ao outro e que, em uma situação de poder, o utiliza para transpor limites de gênero e cor, celebrando o hibridismo e a mestiçagem em detrimento de um ideal de pureza.

 Norma Alarcón[1], feminista chicana, buscou em Todorov uma boa e nova definição para papel de La Malinche na história mexicana e latino-americana:

primeiro exemplo e, portanto, símbolo da hibridação de culturas, ela proclama o estado novo mexicano e, mais do que isso, o estado presente de todxs nós, uma vez que, se não somos todxs bilíngues via de regra, somos, inevitavelmente, bi ou triculturais. La Malinche glorifica a mistura em detrimento da pureza, bem como o papel dx intermediárix. Ela não se submete ao outro simplesmente. Ela adota a ideologia do outro para melhor compreender sua própria cultura, conforme se pode ver na eficácia de seu comportamento (mesmo que "compreender" signifique aqui "destruir").


[1] ALARCÓN, Norma. “Traddutora, traditora: a paradigmatic figure of chicana feminism”, in Inderpal Grewal & Caren Kaplan (org.) Scattered hegemonies. Postmodernity and transnational feminist practices. Minneapolis & London: University of Minnesota Press, 1994, p. 43-56.
 

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Nascer sem violência

por Barbara Falleiros

"Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer"
Michel Odent (obstetra francês) 

Racismo de cada dia:
"Não quisemos ofender"
Depois de informarem as mães sobre como e quando alisarem os "cabelos crespos ou rebeldes" de suas filhas para deixá-las "mais bonitas", a maternidade paulistana Santa Joana acaba de proibir a entrada de doulas no centro obstétrico. Como fizera dias antes no caso da mensagem racista, o hospital se defendeu evocando nobres intenções: não se trata de proibir as doulas, mas de restringir a presença na sala de parto a apenas um acompanhante, com o intuito de minimizar os riscos de infecção hospitalar. Em outras palavras, a parturiente tem a liberdade de escolher quem vai acompanhá-la: a doula ou o marido. O que pedir mais?

Poder-se-ia pedir à maternidade, por exemplo, que fornecesse os índices comparados de infecções em partos humanizados com doulas e em cesárias eletivas, assim como os índices de internações na UTI de mães e bebês nascidos por cesariana versus parto natural...

Conversei com a doula Thatiane Menéndez do Blog Espaço Abertto, que citou a frase que abre este post e que me explicou a importância das doulas nas práticas de parto humanizado:

No pré-natal, a doula orienta, informa, acolhe e ajuda a mulher a se preparar para o parto. Em um parto humanizado, a mulher é sujeito ativo do processo, tomando as decisões em conjunto com a equipe. Para isso, ela deve conhecer e entender seu corpo e o processo do parto, precisa estar verdadeiramente empoderada e consciente, especialmente no Brasil, onde temos que lutar pelo simples e óbvio direito de caminhar durante o trabalho de parto.

A doula ajuda a mulher neste processo de empoderamento. Durante o trabalho de parto, ela oferece apoio físico e emocional, ajudando-a a lidar com a dor. Seu trabalho continua no acompanhamento pós-parto, ajudando a mulher a lidar com a nova fase, com a descoberta da maternidade, com a amamentação e os cuidados com o bebê.

De toda a equipe multiprofissional, a doula é quem mais tem contato com a gestante e que acaba criando com ela um vínculo maior, o que só traz benefícios durante o parto. A questão da proibição das doulas é incoerente, primeiro porque ela é uma profissional da saúde capacitada para este atendimento e não uma acompanhante, como o pai ou outros familiares. Segundo, o argumento do risco de infecções não tem embasamento científico e perde todo o sentido quando se permite a entrada de profissionais para filmagem e fotografia. Diversos estudos demonstram que a presença da doula pode reduzir em 50% as taxas de cesarianas (que no Brasil chegam a 80% no sistema privado de saúde, quando a OMS recomenda apenas 15%), 25% a duração do trabalho de parto, 60% os pedidos de analgesia, 30% o uso de analgesia, 40% o uso de forceps e 40% o uso de ocitocina (Klaus et Kennel, 1993)

Como vemos, é todo o contrário da prática corrente, altamente medicalizada, reflexo de um modo muito característico de conceber a saúde e a sociedade. Hoje, no parto em hospitais, segue-se cada vez mais a cadência: privilegia-se a cesariana, ou se não é cesariana é episiotomia sem autorização, prende-se a parturiente em posição ginecológica e que ela grite mais baixo, oras! Por fim, depressa, um sorriso rápido para a foto e lá se vai o bebê embora... Num mundo em que só o que importa é o que é rentável, como o momento do parto escaparia aos moldes de uma linha de produção? Como reivindicar a vivência de uma experiência humana quando o que se quer do sujeito é a passividade anestesiada?
 
Essas práticas médicas influenciam e alimentam uma visão desnaturalizada do parto, um parto anotado na agenda: dizem que foi impressionante o número de cesarianas marcadas para o dia 12/12/12. Não duvido. Que importa se o bebê ainda não está pronto para nascer, desde que nasça numa data "combinandinha"? O mundo não acabou. Seguimos vivemos numa distopia.

Ao contrário do trabalho das doulas que auxiliam a mulher a "tomar posse" do próprio corpo, a violência obstétrica acontece justamente quando há uma apropriação do corpo da mulher e do processo do parto pelos profissionais da medicina, que passam a considerar todos os partos como patológicos e toda parturiente como uma paciente (ou seja, como aquela que sofre a ação): daí praticarem-se atos médicos e farmacológicos de forma rotineira, impedindo a mulher de participar ativamente do parto. O desrespeito e a desconsideração da parturiente podem tomar formas violentas e agressivas: comentários irônicos acerca do comportamento da grávida, broncas por causa de gritos ou choros, respostas evasivas a perguntas sobre o procedimento, rompimento da bolsa sem consentimento, toques vaginais frequentes, compressão do abdomen no momento das cólicas, episiotomia e raspagem do útero sem anestesia, impedimento de estar acompanhada por uma pessoa de confiança, caminhada e movimentos proibidos, impedimento de contato imediato com o recém-nascido, etc.

No Brasil, 52% dos bebês nascem por cesariana. A OMS recomenda uma porcentagem de 15%
No nosso vizinho Uruguai, a Anistia Internacional produziu um vídeo de conscientização e protesto contra a violência obstétrica, com imagens fortes, que falam por si mesmas. Não é à toa que o primeiro comentário sobre o vídeo, no Youtube, contesta a veracidade das práticas mostradas: "Como pode ser assim? Estão exagerando!" (como a gente ouve tanto!). Mas não... No Brasil, por iniciativa dos blogs Parto no Brasil e Cientista que virou mãe, produziu-se um documentário comovente com depoimentos de mães que sofreram violência obstétrica.




Fico chateada em terminar meus posts sobre gravidez e maternidade com este vídeo. Mas é mais uma prova de que a gente aqui no Blog não é um bando de "neuróticas", a violência contra as mulheres assume as formas mais diversas e mais cruéis, e ela atinge cotidianamente sua irmã, sua amiga, sua esposa, sua filha. Felizmente, existe quem luta pelo fim dessas práticas e pelo direito de dar à luz e de nascer sem violência. Como disse a Thati Menéndez, "a questão vai muito além da luta por dignidade e respeito no parto e nascimento, é uma questão ideológica e o início de um mundo melhor. Pois como vamos ter um mundo sem violência e com mais amor e respeito se nosso primeiro contato com este mundo é muitas vezes violento e frio?" Mudar o mundo, mudar as relações, desde o primeiro segundo.

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Guest Post: Gloria Anzaldúa e o feminismo atravessado por classe e etnia


Um prazer enorme ter aqui o primeiro Guest Post do blog, com uma participação mais que especial: Thaís Bueno, especialista e tradutora desta fascinante pensadora que é Gloria Anzaldúa.

“Quando ouvi pela primeira vez duas mulheres, uma porto-riquenha e outra cubana, dizendo “nosotras”, fiquei chocada. As chicanas usam “nosotros” para se referir tanto a homens quanto a mulheres. O plural masculino roubou nosso ser feminino. A linguagem é um discurso masculino.”[1]

Pensar o feminismo, não como um bloco único e homogêneo, mas como uma prática subversiva de desconstrução de diversos sistemas de opressão (entre eles os relacionados a classe social e etnia), que têm sido construídos política e ideologicamente há séculos - essa é a principal ideia que me vem à cabeça quando penso em Gloria Anzaldúa e quando me questiono sobre o que aprendi com minha pesquisa sobre essa autora.

Quando se trata da fronteira entre México e Estados Unidos, as imagens mais recorrentes geralmente incluem grupos mexicanos, cucarachaswetbacks, desesperados, arriscando-se de forma irracional para conseguirem viver de forma ilegal na “terra das oportunidades”: a América (aliás, esse é um termo que me incomoda, afinal, não somos todos americanos?).

A fronteira política: à esquerda, San Diego (EUA);
à direita, Tijuana (México)
O que pouco se sabe, mesmo nos EUA, é que boa parte da população latina do país é constituída por cidadãos norte-americanos, cujos antepassados moram ali há mais de um século (o Tratado de Guadalupe-Hidalgo anexou aos EUA todo o norte do México e transformou milhares de mexicanos em cidadãos norte-americanos do dia para a noite). Com isso, cresceu, nessa região próxima à fronteira, uma cultura riquíssima e fascinante, híbrida e mestiça – uma cultura chicana. As chicanas, portanto, são cidadãs estadunidenses que carregam o estigma de serem multiculturais, porque têm ascendência latino-americana, porque falam duas ou mais línguas, porque seus corpos têm traços indígenas, porque são social e politicamente exploradas. São habitantes de um não-lugar: a fronteira.

“The US-Mexican border es una herida abierta where the Third World grates against the first and bleeds.”[2]

Lendo o texto de Anzaldúa, percebemos que o feminismo, ou a prática feminista, não vem sozinhos, como um pacote fechado que se “compra”, apesar do que muitas pessoas pensam. Hoje, padrões estereotipados do que seja o feminismo (e de como seria uma feminista) reproduzem, com a 'ajuda' da mídia, a ideia de que, para ser feminista, você precisa necessariamente rasgar sutiãs e declarar ódio aos homens. Minha sugestão: leia Borderlands/La Frontera – The New Mestiza (disponível na íntegra para download aqui).

Ao ler Borderlands..., você percebe, logo pelo título, qual era a proposta de Anzaldúa: mostrar, de forma escancarada, que toda divisa, toda fronteira, todo limite, todo corte é também uma abertura, uma fenda para novos espaços, novas discussões e articulações. Assim, a barra entre “Borderlands” e “La Frontera” que lemos no título do livro não é uma marca de divisão e isolamento, que produz dicotomia e oposição, mas um movimento sinuoso de articulação e problematização, que produz um discurso híbrido, ou alien, como ela própria escreveu.

“...não é suficiente se posicionar na margem oposta do rio, gritando questionamentos, desafiando convenções patriarcais, brancas. Um ponto de vista contrário nos prende em um duelo entre opressor e oprimido; fechados/as em um combate mortal, como polícia e bandido, ambos são reduzidos a um denominador comum de violência.

[O contraposicionamento] não é um meio de vida. A uma determinada altura, no nosso caminho rumo a uma nova consciência, teremos que deixar a margem oposta, com o corte entre os dois combatentes mortais cicatrizado de alguma forma, a fim de que estejamos nas duas margens ao mesmo tempo e, ao mesmo tempo, enxergar tudo com olhos de serpente e de águia.”

E é exatamente essa a proposta que você encontrará em todo o livro, marcada na própria materialidade do texto: em Borderlands..., para apresentar seu feminismo chicano e propor a figura na new mestiza, Anzaldúa recorre a diversos gêneros textuais (testemunho, narrativas populares, ditos, texto histórico, diário, poesia) e idiomas (inglês, espanhol e nahuatl – língua indígena falada no império asteca, na era pré-colombiana). Tudo costurado em um constante movimento de code-switching (alternância de idiomas em uma mesma frase – o que nunca foi novidade para qualquer falante que viva em região de fronteira).

“El anglo com cara de inocente nos arrancó la lengua. Línguas selvagens não podem ser domadas. Elas apenas podem ser arrancadas.”

A chicana que Anzaldúa nos mostra é, portanto, uma mulher que sofre por ser a minoria em diversos sistemas de opressão. Se o homem chicano sofre em termos de etnia e classe, a mulher encontra-se em uma situação ainda pior: ela é minoria em termos de etnia, classe, gênero e, em muitos casos sexualidade. E é nessa intersecção de discursos minoritários que Anzaldúa, ela própria chicana, mulher e lésbica, faz sua crítica não só à cultura branca anglo-saxã, imperialista e exploradora, mas à cultura mexicana de seus descendentes, conservadora, patriarcal e religiosa.

Só em Ciudad Juarez (México), 1.100 mulheres já foram
dadas como desaparecidas desde 1993
“Como mestiza, eu não tenho país, minha terra natal me despejou; no entanto, todos os países são meus porque eu sou a irmã ou a amante em potencial de todas as mulheres. (Como uma lésbica não tenho raça, meu próprio povo me rejeita; mas sou de todas as raças porque a queer em mim existe em todas as raças.) Sou sem cultura porque, como uma feminista, desafio as crenças culturais/religiosas coletivas de origem masculina dos indo-hispânicos e anglos; entretanto, tenho cultura porque estou participando da criação de uma outra cultura, uma nova história para explicar o mundo e a nossa participação nele, um novo sistema de valores com imagens e símbolos que nos conectam um/a ao/à outro/a e ao planeta. Soy un amasamiento, sou um ato de juntar e unir que não apenas produz uma criatura tanto da luz como da escuridão, mas também uma criatura que questiona as definições de luz e de escuro e dá-lhes novos significados.” 

A fronteira se estende de uma costa a outra no continente americano, chegando até o mar:
"The sea cannot be fenced / El mar does not stop at borders", escreveu Anzaldúa

Resumindo, o belo trabalho de Anzaldúa é justamente desconstruir dualidades como homem x mulher e machismo x feminismo, mostrando que qualquer desses pares são compostos de identidades complexas, mestiças, heterogêneas. A velha e tradicional receita de identidade (uma nacionalidade + uma religião + um gênero + uma cultura) já não é mais um modelo, e suas fendas e falhas ficam evidentes no processo interminável de constituição das identidades da mulher chicana. A consciência declaradamente subalterna e nomádica dessa new mestiza permite que ela seja, ao mesmo tempo, uma e várias (tanto em termos de gênero quanto de sexualidade) e que ela vá além das dualidades tradicionais para subverter patriarcalismo, exploração sexual, linguística, religiosa, política e econômica. E, nesses interstícios de todas essas categorias de identidade, ela encontra seu espaço, seu tempo e sua casa. Habitando a ferida aberta na fronteira, ela abre espaços para novas possibilidades e transpõe os limites de tudo o que, na história tradicional escrita pelos homens, se acredita ser uno, completo e natural.


This is her home
                                                                      this thin edge of
                                                                             barbwire.[3]


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[1] Todos os trechos em itálico foram retirados de ANZALDÚA, GLORIA. Borderlands/La Frontera – The New Mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.

[2] “A fronteira entre os Estados Unidos e o México é uma ferida aberta, na qual o terceiro mundo entra em atrito com o primeiro e sangra.”

[3] “Esta é a casa dela / esta sutil borda / de arame farpado.”

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Thaís Bueno é graduada em Letras e mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, cursa o doutorado, também em Linguística Aplicada, pesquisando as relações entre tradução e a obra da feminista chicana Gloria Anzaldúa e traduzindo o livro mais conhecido da autora: Borderlands/La Frontera - The New Mestiza. Mãe, feminista e latino-americana apaixonada. Trabalha como tradutora, revisora e escrevinhadora na Escrevedoria