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Estudos feministas de geografia começaram a mostrar, a partir dos anos 70, que a própria forma de organização das cidades é sexista, que ela "reforça a ordem heteronormativa compulsória" e que seu "planejamento não desenvolveu outras formas de desenvolvimento urbano que não estivessem subordinadas às tradicionais perspectivas da divisão sexual dos espaços, baseada na pretensa naturalidade entre sexo, gênero e desejo" (cito um artigo muito interessante publicado em 2010 na Revista de Psicologia da Unesp, "Espaço urbano, poder e gênero: uma análise da vivência travesti", ao qual voltarei mais abaixo).
Assim, as relações espaciais se constróem com base nas dicotomias entre interior e exterior, entre estaticidade e movimento. Fora do ambiente "protegido" do espaço privado (protegido em termos, pois neste há o risco de violência doméstica), uma mulher sozinha é sempre vulnerável, como um homossexual é vulnerável na madrugada paulistana. A Roberta mostrou recentemente como a responsabilidade de se proteger das agressões recai sobre a mulher, cabe a ela ser "prudente", "não andar onde não deve", "voltar para casa cedo", "vestir-se adequadamente". Foi o que os brutamontes disseram, não? Que o agredido estava onde não devia? É interessante que tenham mandado a vítima "circular", isto é, ocupar como se espera um espaço que só pode ser atravessado, rapidamente, de cabeça baixa. Eles, os brutamontes, que tentaram esconder a motivação homofóbica da agressão, nem desconfiavam que ao pronunciarem essas palavras tinham acabado de revelá-la.
A oposição entre estaticidade e movimento me faz pensar nas prostitutas, mulheres e transsexuais cuja presença no espaço público é, ao contrário, estática. Paradas, "fazendo ponto". Mas esta estaticidade não lhes confere a mesma liberdade masculina de ocupação dos espaços. Esta presença estática e noturna é atrelada à violência e à exclusão, a uma vulnerabilidade ainda maior. Um indício: minha busca inocente no Google de uma imagem de "travesti no ponto" (soube depois que havia um bug na safe search) resultou em uma série de corpos ensanguentados... no meio da rua ou na sarjeta, no meio desse espaço público que, antes, não puderam ocupar plenamente. No artigo que citei acima, o autor e a autora explicam como os territórios de atuação de cada travesti são definidos:
Logo, trata-se de uma estaticidade às margens do espaço. Chamada de "tempo de batalha", a delimitação do território, hierarquizada, é determinada pelas relações de poder e violência assim como pela beleza: o grau de "feminilidade" da transsexual conta na manutenção do ponto. A conclusão d@s autores é a de que estes territórios conferem às travestis, paradoxalmente, uma possibilidade de existência:
Uma existência resistente, "apesar de"... Embora a prostituição e a discriminação das travestis sejam problemas específicos, não se pode mais ignorar, no estabelecimento de políticas públicas de segurança, por exemplo, a forma como a heteronormatividade norteia os modos de ocupação urbanos e seus fluxos de circulação. Dizer para um gay circular, para uma mulher não sair sozinha, deixar morrer na sarjeta uma travesti em "área de risco", facetas do violento sexismo que domina o espaço geográfico urbano.
por Barbara Falleiros
Todo dia, voltando da "Grande Biblioteca", eu atravesso dois ou três becos. Modo de dizer, já que são becos modernos, passagens entre prédios recentes, quadrados e envidraçados, em contraste com a arquitetura dos cartões postais de Paris. Ruelas desertas que são tomadas à noite por uma luz lúgubre e esverdeada. Seria um ambiente de história em quadrinhos se não fosse - tenho que confessar - a total ausência de perigo. E é justamente esta falta de perigo real que me faz indagar: por que, mesmo sabendo que não corro risco algum, todo dia aperto o passo, busco segurança nos moradores dos prédios que vejo a preparar o jantar, e penso que "qualquer coisa eu grito com toda a força"? Qualquer coisa o quê? Por que este medo?
Porque a rua, especialmente à noite, é um espaço proibido para a mulher. Não foi essa a lição que quiseram dar aqueles estupradores assassinos indianos no último dia 16 de dezembro? Não foi o que o advogado desses homens afirmou, que "o casal de namorados era o maior responsável pela agressão, pois não deveria estar circulando pelas ruas à noite"?
O pessoal do mimimi provavelmente vai replicar que, em cidades violentas como São Paulo ou Rio, o espaço público é terra de ninguém onde todos se sentem ameaçados. Homens são vítimas de assalto e sequestro, não são? Ao reagirem a uma abordagem, podem ser agredidos ou até morrer, não podem? Não se trata, porém, do mesmo tipo de violência. Causas socioeconômicas explicam a criminalidade urbana e seus desdobramentos. Já a violação da integridade física, moral e sexual da qual mulheres e homossexuais são vítimas, no espaço público, são manifestações explícitas da violência de gênero. Um outro funcionamento.
Quando no mês de dezembro, em São Paulo, o estudante André Baliera foi agredido por dois brutamontes homofóbicos, o que eles disserem para se defender?
Nessas falas, fica evidente como as relações de poder e de gênero condicionam a circulação de pessoas no espaço urbano. Grupos vulneráveis como mulheres, homossexuais e travestis, sobre os quais recai fortemente a violência de gênero, têm restringidos assim os limites de sua circulação. É interessante ver como a declaração dos brutamontes corrobora as conclusões de um geógrafo francês, autor de um relatório sobre a circulação das mulheres na cidade, assim como as constatações da porta-voz de um grande grupo feminista francês:
Porque a rua, especialmente à noite, é um espaço proibido para a mulher. Não foi essa a lição que quiseram dar aqueles estupradores assassinos indianos no último dia 16 de dezembro? Não foi o que o advogado desses homens afirmou, que "o casal de namorados era o maior responsável pela agressão, pois não deveria estar circulando pelas ruas à noite"?
O pessoal do mimimi provavelmente vai replicar que, em cidades violentas como São Paulo ou Rio, o espaço público é terra de ninguém onde todos se sentem ameaçados. Homens são vítimas de assalto e sequestro, não são? Ao reagirem a uma abordagem, podem ser agredidos ou até morrer, não podem? Não se trata, porém, do mesmo tipo de violência. Causas socioeconômicas explicam a criminalidade urbana e seus desdobramentos. Já a violação da integridade física, moral e sexual da qual mulheres e homossexuais são vítimas, no espaço público, são manifestações explícitas da violência de gênero. Um outro funcionamento.
Quando no mês de dezembro, em São Paulo, o estudante André Baliera foi agredido por dois brutamontes homofóbicos, o que eles disserem para se defender?
Ele mexeu com as pessoas erradas, no lugar errado, no momento errado. E foi agredido. Aprende, nunca mais mexe com ninguém na vida.
Foi agredido, apanhou. Apanhou de besta. Se tivesse seguido o caminho dele não teria apanhado.
Nessas falas, fica evidente como as relações de poder e de gênero condicionam a circulação de pessoas no espaço urbano. Grupos vulneráveis como mulheres, homossexuais e travestis, sobre os quais recai fortemente a violência de gênero, têm restringidos assim os limites de sua circulação. É interessante ver como a declaração dos brutamontes corrobora as conclusões de um geógrafo francês, autor de um relatório sobre a circulação das mulheres na cidade, assim como as constatações da porta-voz de um grande grupo feminista francês:
As mulheres apenas atravessam o espaço urbano, elas não estacionam.
Constatamos que as mulheres andam menos na rua sem ter algo específico para fazer, e que se locomovem rapidamente de um lugar a outro.
Estudos feministas de geografia começaram a mostrar, a partir dos anos 70, que a própria forma de organização das cidades é sexista, que ela "reforça a ordem heteronormativa compulsória" e que seu "planejamento não desenvolveu outras formas de desenvolvimento urbano que não estivessem subordinadas às tradicionais perspectivas da divisão sexual dos espaços, baseada na pretensa naturalidade entre sexo, gênero e desejo" (cito um artigo muito interessante publicado em 2010 na Revista de Psicologia da Unesp, "Espaço urbano, poder e gênero: uma análise da vivência travesti", ao qual voltarei mais abaixo).
Assim, as relações espaciais se constróem com base nas dicotomias entre interior e exterior, entre estaticidade e movimento. Fora do ambiente "protegido" do espaço privado (protegido em termos, pois neste há o risco de violência doméstica), uma mulher sozinha é sempre vulnerável, como um homossexual é vulnerável na madrugada paulistana. A Roberta mostrou recentemente como a responsabilidade de se proteger das agressões recai sobre a mulher, cabe a ela ser "prudente", "não andar onde não deve", "voltar para casa cedo", "vestir-se adequadamente". Foi o que os brutamontes disseram, não? Que o agredido estava onde não devia? É interessante que tenham mandado a vítima "circular", isto é, ocupar como se espera um espaço que só pode ser atravessado, rapidamente, de cabeça baixa. Eles, os brutamontes, que tentaram esconder a motivação homofóbica da agressão, nem desconfiavam que ao pronunciarem essas palavras tinham acabado de revelá-la.
A oposição entre estaticidade e movimento me faz pensar nas prostitutas, mulheres e transsexuais cuja presença no espaço público é, ao contrário, estática. Paradas, "fazendo ponto". Mas esta estaticidade não lhes confere a mesma liberdade masculina de ocupação dos espaços. Esta presença estática e noturna é atrelada à violência e à exclusão, a uma vulnerabilidade ainda maior. Um indício: minha busca inocente no Google de uma imagem de "travesti no ponto" (soube depois que havia um bug na safe search) resultou em uma série de corpos ensanguentados... no meio da rua ou na sarjeta, no meio desse espaço público que, antes, não puderam ocupar plenamente. No artigo que citei acima, o autor e a autora explicam como os territórios de atuação de cada travesti são definidos:
Elege-se um local de grande tráfico de veículos, onde a passagem de famílias não seja comum, em geral, zonas comerciais e de serviços pesados. Esse tipo de local é considerado discreto porque durante a noite só frequenta a área quem está disposto a participar das relações que ali se estabelecem, em geral homens.
Logo, trata-se de uma estaticidade às margens do espaço. Chamada de "tempo de batalha", a delimitação do território, hierarquizada, é determinada pelas relações de poder e violência assim como pela beleza: o grau de "feminilidade" da transsexual conta na manutenção do ponto. A conclusão d@s autores é a de que estes territórios conferem às travestis, paradoxalmente, uma possibilidade de existência:
Um território que se faz da separação / conexão entre eu e outro, entre centro e margem em constante movimento, possibilitando a seres abjetos, impróprios e interditados à vivência socioespacial, sob a égide da heteronormatividade, criar resistências e existir através de seus territórios.
Uma existência resistente, "apesar de"... Embora a prostituição e a discriminação das travestis sejam problemas específicos, não se pode mais ignorar, no estabelecimento de políticas públicas de segurança, por exemplo, a forma como a heteronormatividade norteia os modos de ocupação urbanos e seus fluxos de circulação. Dizer para um gay circular, para uma mulher não sair sozinha, deixar morrer na sarjeta uma travesti em "área de risco", facetas do violento sexismo que domina o espaço geográfico urbano.
10 de fevereiro de 2013
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Este post terá uma vibe de descontração. Sabe como é, às vezes, cansa. Já dissemos, a feminista cansada já disse. Tem muito troll no mundo, e a vida é muito curta e bela.
Quem tiver com tempo, pode recitar, com a mão no peito em postura de hino nacional, estes tweets maravilhoosos da Carina Prates (vi no feminista cansada).
Sério, se a gente não pode falar da nossa sexualidade, quem pode? Os homens?
por Mazu
Este post terá uma vibe de descontração. Sabe como é, às vezes, cansa. Já dissemos, a feminista cansada já disse. Tem muito troll no mundo, e a vida é muito curta e bela.
Escutamos algumas barbaridades, sempre de
vez em quando, por sermos mulheres e/ou feministass, e, em vista disso, resolvi
comentar determinados "argumentos".
Sei que não é sempre que estamos na pegada de
comprar briga, sei que rola um sentimento de "não compensa", mas a
nossa sociedade é muito boa em mascarar preconceitos e discriminação, a gente
vive em uma era que somos levados a acreditar, pela mídia, pelos costumes e até pelo sistema de ensino, que todo mundo pode ter o mesmo acesso a tudo. Bom,
isso é mentira, e esse é o motivo pelo qual, quando escutamos isso ou aquilo,
devemos discutir. O que não nos impede de nos divertir também, certo? ;)
Então, é isso, compas. Não esmoreçamos e vamos à Lista
de Merdas Coisas que Escutamos por Aí, versão 1:
1. "Pode ser feminista, mas não precisa ser tão radical!"
Resposta rápida: radical é tanto machismo em pleno
século XXI, eu sou até moderada, fofx!
Quem tiver com tempo, pode recitar, com a mão no peito em postura de hino nacional, estes tweets maravilhoosos da Carina Prates (vi no feminista cansada).
2. "Não sou machista, nem feminista, todo mundo é igual!"
Esse é um discurso "munitinhu", fofo, que
parece inofensivo, mas não é! E precisa ser combatido, muito! Na real, a pessoa
está dizendo: a sociedade está boa assim para mim, não me perturbem! As pessoas
que acham que todo mundo é igual costumam ocupar um lugar muito confortável na
vida, repare bem.
Já que todo mundo é igual, por que as instituições,
organizações, entidades, empresas e países são, na maioria, liderados por
homens brancos, que não são de longe a maioria (no sentido numérico) no mundo?
3. "Vocês ficam falando alto de sexo e sexualidade feminina, mulher tem que se preservar, que coisa mais vulgar..."
Esta requer elegância, sabe? Aquela elegância de
cavalo em desfile de sete de setembro. Vou usar uma figura para explicar bem,
desenhar mesmo, como nos sentimos:
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| Como Rick Astley, não estamos nem aí ("you've been rick rolled!") |
Sério, se a gente não pode falar da nossa sexualidade, quem pode? Os homens?
4. a) "Mulher de roupa curta na rua quer o quê?" e b) "Depois acontece alguma coisa vai fazer o quê?"
a) É difícil responder por que uma mulher pode
querer qualquer coisa, mas o importante mesmo é: ninguém tem nada a ver com
isso. Não dá para o sujeito ser tão egocêntrico a ponto de achar que toda roupa
curta é para ele, muito menos achar que nos interessa a sua opinião sobre nossa
aparência ou roupa. Se você for convidado e se interessar, venha, se você for
perguntado, responda, no mais, guarde suas opiniões e mãos para você, ok?
b) denunciar e por o estuprador na cadeia.
Chessus, abandonemos o mito do homem estuprador em
potencial que não consegue se segurar, de uma vez por todas. A escolha de roupa
é nossa, respeito é obrigação e é direito de todxs!
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| Campanha de carnaval, que serve pro resto do ano também |
5. "O feminismo é coisa do passado, hoje, isso não é mais necessário."
Para esta, dá para aplicar quase que a mesma
resposta da 2, e é bom lembrar que, por exemplo, no Brasil, as mulheres votam
só há 76 anos. A primeira senadora foi eleita em, pasmem, 1990, e a primeira
ministra data de 1988. Vai vendo. Não rola dizer que o meio do caminho, aliás,
o começo do caminho é o fim do caminho, saca? Ainda temos um tantão para
percorrer até a isonomia, e o grande problema de parar antes disso, no meio ou
começo do caminho, é que esses são lugares muito propícios ao retrocesso. Logo,
sigamos.
![]() |
| Por anna-grrrl.tumblr.com |
6. "Os caras que são feministas são umas mulherzinhas"
Isso, para a gente, é elogio. Eles são legais, mas
não são tão legais assim. ;) Brincs.
A gente vive em um mundo que ser
"mulherzinha" pode ter o significado de frágil ou medroso - não
aguento, nem entendo, mas... E "homem" em frases como "seja
homem" pode significar corajoso. Se a gente for usar os termos dessa
forma, eu diria que homens feministas são muito mais "homens" que
aqueles que preferem seguir o fluxo da maioria, o que não requer nem coragem,
nem esforço algum.
A Márcia Tiburi escreveu um texto muito, muito, bom
sobre o lugar da "mulherzinha" e quem realmente anda ocupando esse
lugar.
7. "Os caras que defendem licença-paternidade querem ficar 30 dias de folga, coçando o saco."
Parabéns para você que acha que o papel do pai, na
criação do filho, é coçar o saco ou que acha que cuidar de um recém-nascido é o
mesmo que folga. Espero que as pessoas que acreditam nisso nunca tenham filhos,
do contrário, só lamento.
É isso, por enquanto, afinal de contas, nós bem sabemos que outras listas virão e que esta não está completa.
9 de fevereiro de 2013
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Eu adorei o filme por muitas razões. Em primeiro lugar, sempre gostei da violência dos filmes do Tarantino, muitas vezes trágica, mas quase sempre cômica e por isso palatável. Em Django, essas duas facetas se concertam muito bem, e podemos deplorar a cena em que um escravo é devorado por cães, ou a cena em que uma escrava fugida (Brunhilde, papel de Kerry Washington) é tirada do 'forno' usado para seu castigo e ainda a luta de mandingos. Por outro lado, nos diverte - sim, diverte - a cena em que o próprio Tarantino explode(!), a morte do xerife, a cena da emboscada em que morrem dezenas de homens brancos que querem matar Django (Jamie Foxx) e seu amigo Schultz (Christoph Waltz) e na qual Tarantino tira um sarro homérico da KKK (que ainda estava em formação, diga-se).
Acho que Tarantino se tornou um especialista nesse movimento catártico: em Bastardos Inglórios (2009), comemoramos um cinema inteiro explodindo e matando nazistas, inclusive Hitler; em À Prova de Morte (2007), comemoramos a caça a um psicopata misógino que mata mulheres por diversão - atenção, são mulheres, só mulheres, que o caçam. E tem Kill Bill, também, né? As escolhas de Tarantino são conscientes e vemos a tela do cinema transformar-se no lugar desses grupos historicamente... f*didos: mulheres, judeus e negros, enquanto a arte se coloca classicamente à disposição, talvez não da ideologia, mas da ideia, da moral (de uma moral). Tarantino trabalha com uma ética da vingança muito clara: é lícito matar quem seja, a qualquer momento e de qualquer maneira, desde que seja o inimigo. Não há misericórdia. E nós, em frente à tela, pensamos: "Mas também pudera! Olha o que o inimigo (branco escravista, nazista, misógino) fez!" Assim, lavamos a alma...
Claro que incomoda o fato de que Schultz, o branco parceiro, tenha mais consciência e sentimento de revolta que Django, o negro protagonista (pra haver mudança é preciso dissidência?). E incomoda também o fato de que o grande vilão, o mais detestável do filme, seja negro: Stephen (Samuel L. Jackson), um escravo doméstico (pra haver manutenção é preciso haver anuência?). Incomoda ainda o fato de que as mulheres sejam praticamente anuladas no filme. Mas, quer saber, dou um mega desconto! Tarantino está há quase duas décadas fazendo filmes com personagens femininas que fogem de estereótipos e dando destaque a atores negros - temos uma mulher negra protagonista em Jackie Brown (1997). Em Bastardos Inglórios vemos um negro e uma branca fazendo par amoroso - é quase impossível assistir a isso na grande tela...
Pergunto: quantas vezes assistimos a um herói negro montado em um cavalo branco resgatando sua donzela? Quantas vezes vimos a clássica cena do beijo ter dois protagonistas negros?
E não foi só a questão ideológica que me pegou em Django Livre (aliás, se houvesse ideologia sem qualidade, eu falaria mal). Gosto das atuações do principal quarteto masculino do filme: Jamie Foxx como Django - ele tem força e melancolia no olhar, o que eu acho fascinante e necessário pra quem tem as costas marcadas pelo chicote e busca a amada; de Christoph Waltz, como o caçador de recompensas libertário e cínico, o alemão Schultz - Christoph já havia 'quebrado tudo' como o coronel Hans Landa, em Bastardos; a atuação de Leonardo DiCaprio é excelente, como o malvado Calvin Candie; e Samuel L. Jackson deveria estar concorrendo ao Oscar, pelamor.
A trilha sonora é ótima. Tarantino sempre cuida muito bem disso. E faz TODO SENTIDO usar rap em algumas cenas de tensão. É como se a existência desse gênero musical se justificasse, sabe? Sem querer ser determinista, mas já sendo: como se somente os negros, tendo vivido a escravidão por tantos séculos, soubessem o que é o peso do mundo.
E pra quem acha que o filme está mal editado ou mal cortado, nas cenas grotescas eu me lembrei direitinho dos filmes de faroeste e dei muita risada. Não é isso o que o Tarantino faz: homenagear o cinema? Mesmo na cena em que Lara Candie, morre, não há erro ou gratuidade: conta-se (não achei a referência, ainda!) que, ao saber que as pessoas ao serem alvejadas não morriam dramaticamente, caindo devagarziiiinho, como em geral acontecia nos westerns, Sérgio Leone (se não me engano) chegou a usar cordas para puxar seus atores no momento em que levassem o tiro, o que criou o mesmo efeito exagerado e obviamente cômico da morte da irmã de Calvin Candie.
Enfim, eu chorei, sorri e saí feliz do cinema, pensando todas essas e mais um monte de coisas. E vocês?
por Tággidi Ribeiro
Assisti a Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012), de Quentin Tarantino. Pensei um monte de coisas - durante e depois do filme -, então esse texto é uma tentativa de organizar tudo o que me passou pela cabeça. Como não sou crítica de cinema - apenas amo cinema - peço que me perdoem de antemão o vocabulário não especializado que vou usar. (Ah, se você não viu o filme, não leia esse texto.)
Eu adorei o filme por muitas razões. Em primeiro lugar, sempre gostei da violência dos filmes do Tarantino, muitas vezes trágica, mas quase sempre cômica e por isso palatável. Em Django, essas duas facetas se concertam muito bem, e podemos deplorar a cena em que um escravo é devorado por cães, ou a cena em que uma escrava fugida (Brunhilde, papel de Kerry Washington) é tirada do 'forno' usado para seu castigo e ainda a luta de mandingos. Por outro lado, nos diverte - sim, diverte - a cena em que o próprio Tarantino explode(!), a morte do xerife, a cena da emboscada em que morrem dezenas de homens brancos que querem matar Django (Jamie Foxx) e seu amigo Schultz (Christoph Waltz) e na qual Tarantino tira um sarro homérico da KKK (que ainda estava em formação, diga-se).
O filme opera com a dicotomia opressor/oprimido e não tem muitos escrúpulos ao simplesmente eliminar quem oprime - os escravocratas do sul dos Estados Unidos, caricatos em sua maldade. Obviamente, quem se identifica com o negro oprimido comemora e se sente vingado. Então, só me resta dizer que Django é pura catarse.
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| ...E o Vento Levou |
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| A um Passo da Eternidade |
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| Casablanca |
Pergunto: quantas vezes assistimos a um herói negro montado em um cavalo branco resgatando sua donzela? Quantas vezes vimos a clássica cena do beijo ter dois protagonistas negros?
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| Django Livre |
E não foi só a questão ideológica que me pegou em Django Livre (aliás, se houvesse ideologia sem qualidade, eu falaria mal). Gosto das atuações do principal quarteto masculino do filme: Jamie Foxx como Django - ele tem força e melancolia no olhar, o que eu acho fascinante e necessário pra quem tem as costas marcadas pelo chicote e busca a amada; de Christoph Waltz, como o caçador de recompensas libertário e cínico, o alemão Schultz - Christoph já havia 'quebrado tudo' como o coronel Hans Landa, em Bastardos; a atuação de Leonardo DiCaprio é excelente, como o malvado Calvin Candie; e Samuel L. Jackson deveria estar concorrendo ao Oscar, pelamor.
A trilha sonora é ótima. Tarantino sempre cuida muito bem disso. E faz TODO SENTIDO usar rap em algumas cenas de tensão. É como se a existência desse gênero musical se justificasse, sabe? Sem querer ser determinista, mas já sendo: como se somente os negros, tendo vivido a escravidão por tantos séculos, soubessem o que é o peso do mundo.
E pra quem acha que o filme está mal editado ou mal cortado, nas cenas grotescas eu me lembrei direitinho dos filmes de faroeste e dei muita risada. Não é isso o que o Tarantino faz: homenagear o cinema? Mesmo na cena em que Lara Candie, morre, não há erro ou gratuidade: conta-se (não achei a referência, ainda!) que, ao saber que as pessoas ao serem alvejadas não morriam dramaticamente, caindo devagarziiiinho, como em geral acontecia nos westerns, Sérgio Leone (se não me engano) chegou a usar cordas para puxar seus atores no momento em que levassem o tiro, o que criou o mesmo efeito exagerado e obviamente cômico da morte da irmã de Calvin Candie.
Enfim, eu chorei, sorri e saí feliz do cinema, pensando todas essas e mais um monte de coisas. E vocês?
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O tópico de hoje é delicado e quero já deixar claro que não tenho a intenção de acusar, criticar nem ofender ninguém por suas escolhas. Mas como a nossa proposta é justamente abordar esse tipo de tema que tem pouco espaço na mídia tradicional, aqui me aventuro eu.
Confesso que, quando vi o slogan ao lado pela primeira vez há alguns anos, não o compreendi em sua completude. O feminismo luta por direitos, por igualdade, equidade - ingenuamente, achei que a humanidade das mulheres só (só?!) era questionada na objetificação de seus corpos.
Daí vamos para um outro forte motivo, que é a pressão social. A sociedade policia as mulheres de todas as maneiras possíveis e imagináveis - até aí, não há novidade. Mas, nesta questão específica, a coisa pode ficar muito hostil... E dá-lhe terrorismo emocional: será que já tá pensando no divórcio? não vai demonstrar seu amor por ele? mas e a celebração da sua união? Todas essas jogadas de romantismo que, no final, só servem para reforçar a tradição.
Além de tudo, por mais que ninguém goste de pensar nisso na hora do casamento, o divórcio é uma possibilidade real: 56% dos casamentos terminam em divórcio no Brasil. Então, manter seu próprio nome, além de uma questão ideológica, seria também pragmática: é como fazer uni-duni-tê para ver se vai mudar todos os registros de sua existência civil duas vezes. Só a primeira vez já me desanimaria.
Minha intenção com este texto não foi convencer ninguém a fazer nada. Só fomentar a discussão para levar a uma escolha esclarecida, expondo um lado do debate que muitas vezes fica obscurecido. Com todas as informações postas e pesadas, sem levar em conta qualquer pressão familiar ou social, aí, sim, podemos falar em escolha real.
por Roberta Gregoli
O tópico de hoje é delicado e quero já deixar claro que não tenho a intenção de acusar, criticar nem ofender ninguém por suas escolhas. Mas como a nossa proposta é justamente abordar esse tipo de tema que tem pouco espaço na mídia tradicional, aqui me aventuro eu.
Confesso que, quando vi o slogan ao lado pela primeira vez há alguns anos, não o compreendi em sua completude. O feminismo luta por direitos, por igualdade, equidade - ingenuamente, achei que a humanidade das mulheres só (só?!) era questionada na objetificação de seus corpos.
Entretanto, quanto mais reflito, mais me dou conta que, às mulheres, lhes é constantemente negado algo tão básico quanto a própria subjetividade: pense em todos empecilhos que enfrentamos para ter e manter uma carreira; o esforço de peitar, perante a sociedade, a potencial decisão de não ter filhxs; ter o nosso corpo transformado em espetáculo público... Este processo de apagamento do eu é perfeitamente ilustrado, num nível absolutamente primário, numa prática corriqueira: adotar o sobrenome do marido ao se casar. Alteramos o mínimo denominador, o índice mais óbvio de quem somos: nosso nome.
O que me inspirou a escrever sobre este tema esta semana foi a Beyoncé. Sim, a diva do monômio exuberante se casou e, não só adotou o nome do marido, como intitulou sua nova turnê Mrs Carter. Por quê, por quêeee, nos perguntamos. A verdade é que os motivos que levaram Beyoncé a mudar seu nome (estratégia de marketing? comentário irônico sobre a prática, enfatizado pelo figurino à la Louis XIV?) são diferentes dos que levam as mulheres não-estelares a fazerem o mesmo.
Para mim, mudar meu nome sempre esteve fora de cogitação, justamente porque enxergo a questão como identitária e eu não me reconheceria como, sei lá, Roberta Silva. Além disso, alterar o sobrenome tem também um impacto profissional, sobretudo na carreira acadêmica. Qualquer mudança no nome significa, na prática, jogar no lixo seu currículo de publicações. Existem professoras, inclusive, que mantêm o sobrenome do ex-esposo, mesmo depois do divórcio, porque já se consolidaram na área com ele. Imagine que triste, sua identidade intelectual para sempre vinculada a um casamento falido. E, se você virar grande referência na área - se conseguir 'construir um nome', como dizem - o nome construído vai ser o do ex, não o seu.
Na verdade, a prática de alterar o nome, em sua origem, simboliza a inauguração de uma nova fase na vida da mulher, quando ela assume o papel de esposa (dentro dessa concepção tradicional, o único que cabe à mulher). Em inglês, 'nome de solteira' (maiden name) literalmente significa 'nome de donzela', índice da concepção arcaica da prática. Ao se casar e perder sua virgindade - que nesse sistema funcionava como moeda de troca que determinava o 'valor' da mulher (pensando bem, as coisas não mudaram muito...) - a identidade de antes, símbolo de seu estado virginal de solteira, devia ser descartada, porque a identidade de prestígio social para uma mulher era (e ainda é) a de casada.
Isso tudo me soa tão sem sentido que só consigo entender os motivos que levam algumas mulheres de hoje a adotarem o sobrenome do marido a partir de um exercício intelectual de abstração.
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| Esperando por sua nova identidade com glamour |
Isso tudo me soa tão sem sentido que só consigo entender os motivos que levam algumas mulheres de hoje a adotarem o sobrenome do marido a partir de um exercício intelectual de abstração.
Uma das causas mais comuns deve ser a tradição: 'é assim que é feito, nunca parei pra pensar sobre isso, onde eu assino?' Primeiro que não é assim que é feito necessariamente. Desde 2002, acrescentar sobrenomes é opcional e qualquer um dos cônjuges pode fazê-lo.
Daí vamos para um outro forte motivo, que é a pressão social. A sociedade policia as mulheres de todas as maneiras possíveis e imagináveis - até aí, não há novidade. Mas, nesta questão específica, a coisa pode ficar muito hostil... E dá-lhe terrorismo emocional: será que já tá pensando no divórcio? não vai demonstrar seu amor por ele? mas e a celebração da sua união? Todas essas jogadas de romantismo que, no final, só servem para reforçar a tradição.
Tem gente que menciona xs filhxs e eu não entendo bem qual é o drama. A mãe chama Fulana A, o pai chama Fulano B, x filhx chama Fulaninhx A B (e nem vamos entrar no mérito do último nome ser o do homem). Tá ali, o nome dos dois, não há ambiguidade quanto à origem da criança. Agora, se a mãe não tiver o nome do pai vão achar que a criança é bastarda, é isso? É essa a preocupação, que, ai e se ela for mãe solteira? Ou divorciada? Em que século estamos mesmo?
Outro dia me apareceu uma nova. Alguém me contou que a noiva não queria adotar o nome do noivo e era um absurdo porque ele estava disposto a adotar o nome dela. Se é para ter igualdade, por que ela não aceita, já que ele ia fazer o mesmo? A resposta é simples: porque ela não quer. Se ele quer adotar o nome dela, ótimo, vá em frente. Agora, dureza ela ter que ficar dando satisfação para todo mundo de uma escolha que deveria ser só dela: o nome é dela, a identidade é dela.
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| Pronta para fazer - e com sorte não ter que REfazer - toda a papelada |
O feminismo luta para que as mulheres sejam livres (ironicamente, até isso pode ser usado contra as mulheres, como quando dizem que faz sentido ganharmos menos porque colocar a carreira em segundo plano é uma decisão pessoal). O tema da mudança do nome é complicado justamente porque aborda decisões pessoais. Afinal, muitas mulheres dizem mudar o nome por escolha própria, da mesma forma como muitas dizem que são donas de casa porque querem.
Eu volto a enfatizar que não desmereço nem critico nenhuma mulher por ter adotado o nome do esposo, ou por ser dona de casa, mas questiono, sim, se essas são escolhas reais.
Afinal, como falar em liberdade de escolha quando não existe igualdade? Se os homens adotassem o nome das mulheres em igual proporção que as mulheres adotam o nome dos homens, aí, sim, ok, temos escolha. Você está mentindo se disser para umx estudante do ensino público da periferia que elx pode ser o que quiser quando crescer. É possível dizer que elx escolheu não ser médicx (ou qualquer outra profissão de status que requeira estudo de qualidade e investimento financeiro)? Só há liberdade de fato quando existem oportunidades iguais.
Minha intenção com este texto não foi convencer ninguém a fazer nada. Só fomentar a discussão para levar a uma escolha esclarecida, expondo um lado do debate que muitas vezes fica obscurecido. Com todas as informações postas e pesadas, sem levar em conta qualquer pressão familiar ou social, aí, sim, podemos falar em escolha real.
7 de fevereiro de 2013
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Roberta
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Obviamente, essa "mexicana nativa", se é que se pode falar assim, foi extremamente influente nos planos de conquista orquestrados por Cortéz, planos esses que terminaram em um dos maiores genocídios de que se tem notícia. E é muito interessante pensar que, muitos anos após a conquista do México, durante o processo de independência e de formação do imaginário nacional do país (uma nova ordem patriarcal e religiosa), a figura de Malinche reapareceu, passando a representar a mulher traidora e vil, que se entregou (linguística, cultural, militar e sexualmente) ao inimigo, e assim entregou ao invasor todo o México. Ao contrário da imagem da Virgem de Guadalupe, a virgem mestiça que representaria a face “santa” da cultura mexicana, Malinche carregaria a imagem de puta (e não deixa de ser engraçado e irônico que, em uma cidade do Texas, EUA, exista um bairro em que as ruas Guadalupe e Malinche se cruzam). “Hijo de La Malinche”, “malinchista”, “à La Chingada” são todas expressões pejorativas (que aqui no Brasil têm correspondentes como "filho da puta" e "para a puta que o pariu") que remetem à figura da índia e são bastante usadas no México.
Pensando em toda essa história e também que a História que conhecemos é sempre contada segundo uma ideologia, não me surpreende que La Malinche tenha se transformado em palavrão na boca dos mexicanos. Ela foi uma mulher dotada de um poder extraordinário, dado o contexto político. Como intérprete de Cortéz, ela estava na posição singular de decidir o que ambas as partes do conflito iriam saber e o que seria mantido em segredo. Ela não apenas estava passando informações de uma língua para outra, mas tinha o poder de decidir se mudaria ou não o curso da história, a cada frase. Uma mulher como ela, com tamanho poder, não poderia ser admirada, nem respeitada. Ela teria que ser rebaixada e ridicularizada, tanto naquele momento específico, quanto em todo o desenrolar da história do México.
por Thaís Bueno
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| La Malinche, de Rosario Marquardt, 1992 |
Se existisse um hall of fame para tradutorxs, com certeza no topo da lista de homenageadxs estaria uma índia, que, não bastasse ter sido a tradutora do original, foi também amante dele.
Trata-se de La Malinche, como é mais conhecida (mas também foi chamada de Malinalli e Malintzin na tribo onde cresceu). La Malinche foi uma princesa de origens asteca e maia, nascida no final do século XV, na região onde hoje fica o México, e ainda criança foi vendida como escrava, por seu padrasto, a um comerciante local. Em seguida, com a invasão do México pelos espanhóis, La Malinche foi parar nas mãos de Hernan Cortéz, espanhol que foi figura central no episódio da conquista do México.
Ao perceber que Malinche se virava muito bem com idiomas, os espanhóis a recrutaram como intérprete de Cortéz. A partir de então, ela passou a traduzir, para o invasor, não apenas as palavras do imperador asteca Montezuma, mas tudo o que os astecas discutiam a respeito da chegada dos espanhóis.
Obviamente, essa "mexicana nativa", se é que se pode falar assim, foi extremamente influente nos planos de conquista orquestrados por Cortéz, planos esses que terminaram em um dos maiores genocídios de que se tem notícia. E é muito interessante pensar que, muitos anos após a conquista do México, durante o processo de independência e de formação do imaginário nacional do país (uma nova ordem patriarcal e religiosa), a figura de Malinche reapareceu, passando a representar a mulher traidora e vil, que se entregou (linguística, cultural, militar e sexualmente) ao inimigo, e assim entregou ao invasor todo o México. Ao contrário da imagem da Virgem de Guadalupe, a virgem mestiça que representaria a face “santa” da cultura mexicana, Malinche carregaria a imagem de puta (e não deixa de ser engraçado e irônico que, em uma cidade do Texas, EUA, exista um bairro em que as ruas Guadalupe e Malinche se cruzam). “Hijo de La Malinche”, “malinchista”, “à La Chingada” são todas expressões pejorativas (que aqui no Brasil têm correspondentes como "filho da puta" e "para a puta que o pariu") que remetem à figura da índia e são bastante usadas no México.
| Vista do Google Maps da irônica esquina em que a rua Guadalupe e a avenida Malinche se cruzam em Laredo, Texas, EUA |
Pensando em toda essa história e também que a História que conhecemos é sempre contada segundo uma ideologia, não me surpreende que La Malinche tenha se transformado em palavrão na boca dos mexicanos. Ela foi uma mulher dotada de um poder extraordinário, dado o contexto político. Como intérprete de Cortéz, ela estava na posição singular de decidir o que ambas as partes do conflito iriam saber e o que seria mantido em segredo. Ela não apenas estava passando informações de uma língua para outra, mas tinha o poder de decidir se mudaria ou não o curso da história, a cada frase. Uma mulher como ela, com tamanho poder, não poderia ser admirada, nem respeitada. Ela teria que ser rebaixada e ridicularizada, tanto naquele momento específico, quanto em todo o desenrolar da história do México.
Essa questão me faz lembrar um ótimo professor que, certa vez, em sala de aula, contou para a turma uma das inúmeras e péssimas piadas sobre a “loira burra”, que todo mundo conhece. A turma riu. Em seguida, o professor perguntou: “vocês sabem por que riram?” A turma em silêncio. Ele próprio respondeu à pergunta, explicando que, pelo simples fato de a loira ser loira, ou seja, se encaixar no padrão de beleza que o nosso país mais valoriza, ela não pode nem deve ter outras características positivas, como inteligência ou bom humor, pois, caso isso aconteça, seu poder será muito grande e ela poderia ameaçar o status quo.
A história de La Malinche pode nos ensinar muito sobre o porquê de a “loira” sempre ser “burra” em nossas piadas. No entanto, há alguns anos, a figura de La Malinche tem sido resgatada por estudiosas (e isso me torna muito otimista) que passaram a defender para a indígena a imagem da mulher que representa a abertura ao outro e que, em uma situação de poder, o utiliza para transpor limites de gênero e cor, celebrando o hibridismo e a mestiçagem em detrimento de um ideal de pureza.
Norma Alarcón[1], feminista chicana, buscou em Todorov uma boa e nova definição para papel de La Malinche na história mexicana e latino-americana:
Norma Alarcón[1], feminista chicana, buscou em Todorov uma boa e nova definição para papel de La Malinche na história mexicana e latino-americana:
primeiro exemplo e, portanto, símbolo da hibridação de culturas, ela proclama o estado novo mexicano e, mais do que isso, o estado presente de todxs nós, uma vez que, se não somos todxs bilíngues via de regra, somos, inevitavelmente, bi ou triculturais. La Malinche glorifica a mistura em detrimento da pureza, bem como o papel dx intermediárix. Ela não se submete ao outro simplesmente. Ela adota a ideologia do outro para melhor compreender sua própria cultura, conforme se pode ver na eficácia de seu comportamento (mesmo que "compreender" signifique aqui "destruir").
[1] ALARCÓN, Norma. “Traddutora, traditora: a paradigmatic figure of chicana feminism”, in Inderpal Grewal & Caren Kaplan (org.) Scattered hegemonies. Postmodernity and transnational feminist practices. Minneapolis & London: University of Minnesota Press, 1994, p. 43-56.
4 de fevereiro de 2013
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