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Parei pra pensar um pouco (coisa que acho que ele deixou de fazer há algum tempo) e fui procurar algum fundo de lógica nesse argumento.
Enviado anonimamente
Acompanho o blog, leio todas as postagens e compartinho sempre na minha pagina do face os textos e dia desses recebi um comentário bem singelo de um “amigo”. De que se eu era feminista eu deveria no minimo ser gay, que no fundo eu repassava textos feminstas porque eu queria ser uma mulher...
Resumindo a conversa:
Machão - Não podem colocar uma mulher gostosa trabalhando com a gente, eu só ia ficar pensando nela pelada.
Eu – Então você fica me imaginando pelado também?
M- Claro que não!!! Não sou louco
E- Tem certeza? Se você não consegue ver uma mulher trabalhando ao seu lado sem pensar em vê-la pelada eu acho que você precisa sim de algum tipo de tratamento...
M- Ah, você desde que virou feminista tá todo cheio de frescura. Parece que quer virar mulher também.
Parei pra pensar um pouco (coisa que acho que ele deixou de fazer há algum tempo) e fui procurar algum fundo de lógica nesse argumento.
Eu desejar que uma mulher (ou um gay, um negro, um índio, um alienígena) seja tratado com respeito e com os mesmos direitos da lei como qualquer ser humano, me faz imediatamente querer ser um deles? Não necessariamente, mas com certeza mostra uma capacidade de ao menos me imaginar na pele dessa pessoa, o que na sociedade cada vez mais egoísta em que vivemos agora é tão raro que viro motivo de piada, de incompreensão e inconformismo.
Eu não virei feminista, não virei ativista gay, simplesmente uso o bom senso na minha vida. Não sou um exemplo de nada, ainda dou risada de piadas machistas e com fundo discriminatório, ainda mantenho minha assinatura da playboy e tudo mais. Eu só quero viver em um mundo menos hipócrita, mais igualitário, minimamente humano, onde não sejamos rotulados por sexo, raça (!?!?! somos todos da raça humana ainda desde a ultima vez que chequei) e qualquer outra forma que o dominante use pra se diferenciar e se manter no domínio.
Mas parando pra pensar agora, talvez meu “amigo” esteja certo, eu quero mesmo ser uma mulher.... Se a missão de todos na terra é evoluir, o proximo passo é nascer mulher, ser capaz de carregar a vida em formação dentro de mim, carregar em meu ventre um universo em formação, andar sem cair daqueles saltos enormes. Se a humanidade se tornou tão machista desde sempre, com certeza foi por medo do poder e da superioridade feminina sobre nós homens.
Nas palavras de George Carlin: Deus com certeza é homem porque se fosse mulher não teria deixado as coisas virarem essa zona...
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21 de fevereiro de 2013
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sexismo de cada dia
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Enviado anonimamente
Nesses dias de calor, muitas vezes tenho vontade de dormir descoberta, mas nunca o faço. Mesmo que eu esteja nua, um lençol sempre me cobre e, se teimo em não me cobrir porque está muito quente, logo fico desconfortável e, de certa forma, me sinto desprotegida.
Dia desses, tentando investigar as causas desse desconforto e insegurança tolos – afinal de contas, moro em uma área quase que absolutamente segura da cidade -, a imagem da minha avó surgiu e me lembrei de quantas vezes, quando eu era criança, ela instava que eu me cobrisse, dizendo que deus não protegia as meninas que dormiam só de calcinha. Então, era assim: com lençol, protegida por deus; sem lençol, exposta ao capeta.
Pronto, achei minha resposta. E, ao mesmo tempo, me lembrei do quanto o corpo de alguém do sexo feminino é alvo dos olhares e das censuras em qualquer idade. Lembrei-me de que parei de andar só de calcinha aos cinco anos de idade. Havia alguma coisa de muito errada em mostrar os peitos – peitos, ao cinco anos de idade!!! E era bom também vestir shorts, porque ali, no meio das minhas pernas, tinha uma coisa que precisava ficar bem escondida. Por isso, colocar as pernas para cima ao sentar era motivo de repreensão sempre.
Penso, hoje, que essa nossa sociedade é mesmo muito doente nessa objetificação do corpo feminino. Me consideram mulher desde sempre (desde os cinco anos de idade!!!) – figura que atiça os desejos incontroláveis dos machos e que por isso deve ser coberta por muitos véus. Mas, assim como as burcas dos muçulmanas, as calcinhas, shorts, saias, vestidos, camisetinhas das meninas ocidentais não as protegem, bem sabemos - também aos cinco anos sofri meu primeiro abuso.
Por quê? Porque não ensinaram o menino mais velho da minha escola a respeitar o corpo das meninas; pelo contrário, devem tê-lo instigado a devassá-lo, como costuma acontecer. Porque me ensinaram a me cobrir e a sentir vergonha, mas não me ensinaram que meu corpo é meu e ninguém tem o direito de tocar nele sem meu consentimento.
Fico pensando nos pais e mães de filhos e filhas pequenas. Essa é a grande responsabilidade de vocês: ensinar seus filhos a respeitarem o próprio corpo e o corpo dos outros; sem a culpa cristã do desejo, saber lidar de forma saudável com a sexualidade infantil, ao mesmo tempo em que tenta protegê-la das garras oleosas dos adultos e das crianças corrompidas por estes.
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19 de fevereiro de 2013
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sexismo de cada dia
3
por Thaís Bueno
Você se lembra de uma
polêmica ocorrida na mídia no final de 2012, envolvendo uma marca de
lingerie e uma propaganda de gosto extremamente duvidoso? Na ocasião, a
propaganda exibia uma favela do Rio de Janeiro, em processo de pacificação, um
oficial caído no chão e uma mulher, negra, vestindo lingerie. O slogan: “Pacificar
foi fácil, quero ver dominar”. A polêmica, claro, deveu-se ao fato de o Conar,
órgão resposável pela regulação do que vai ou não ao ar nos meios de
comunicação, determinar que se tratava de uma propaganda sexista, que vulgarizava
a mulher e banalizava o processo de pacificação das favelas do Rio de Janeiro.
![]() |
| Campanha da Duloren, de 2012, retirada do ar pelo Conar |
Lembro que, na época, minha
opinião sobre o anúncio era muito clara: ora, a propaganda era, em último caso,
de péssimo gosto, e para mim não era novidade algo do tipo surgir na mídia
brasileira. O que me surpreendeu, no entanto, foi a reação de muitas pessoas do ramo publicitário, nas redes sociais, taxando a decisão do Conar
como ato de censura e postura politicamente correta. E eu pensei comigo:
ora, qual o problema com o politicamente correto?
Pois bem, foi nessa época que
comecei a notar que cresce há algum tempo, principalmente entre homens e
mulheres que acreditam fazer parte de uma certa “intelectualidade” brasileira
(que no entanto é bastante rasa e imediatista), um certo desprezo ao que se
acredita ser o politicamente correto. Para essas pessoas, a atitude
politicamente correta seria uma postura “quadrada”, que restringe liberdades
individuais. Comentários como “ora, que deixem a fulana tirar a roupa no
anúncio! Estamos em um país tropical, onde as mulheres usam menos que isso nas
ruas... Não sejamos hipócritas!” e “a censura voltou e o Brasil está regredindo...
daqui a alguns anos, a publicidade não poderá dizer mais nada!” estavam entre
as pérolas que li e ouvi.




O mesmo tipo de reação às vezes
surge quando certas pessoas leem um texto que apresenta marcas de gênero. Muita gente lê
uma frase como “Damos boas-vindas a todos(as) os(as) presentes” e não gosta,
argumentando que as marcas do feminino nada mais são do que uma intrusão
desnecessária, intrusão essa que “polui” o texto. Por que será que também não fico surpresa?
Se pensarmos bem, tanto no caso
da modelo de lingerie na TV quanto no caso da linguagem com marcas do
feminino, o que está em jogo não é exatamente uma simples questão de “proibição
de um determinado modo de falar”, e sim uma questão de modo de agir.
Obviamente, para quem acha que uma piada preconceituosa ou um linguajar
ofensivo à mulher não afeta a forma como sentimos a realidade e vivemos neste
mundo, o politicamente correto não faz sentido. Para essas pessoas, o
“político” está relacionado a moralidade, e não a respeito e convivência. Para
elas, portanto, o politicamente correto é apenas algo que restringe sua liberdade
de dizer o que quiser (algo que, inclusive, já foi discutido aqui no Subvertidas).
No entanto, se pensarmos que o
que lemos e escrevemos pode afetar efetivamente nossa percepção da realidade, a
política toma outra dimensão e o politicamente correto passa a ser uma das
armas de que podemos dispor para subverter ideologias e discursos dominantes.
Por exemplo, quando optamos inserir uma marca de gênero em nosso texto,
estamos provocando, pela linguagem, um estranhamento a algo que, não fosse por
essa “intrusão”, passaria em branco (e vale também pensar nos efeitos dessa
expressão, “passar em branco”, que acabei de usar). É como se, inserindo “(as)”
ao final de uma palavra masculina, estivéssemos nos lembrando de que há ali,
também, a possibilidade da existência de uma mulher. E, mais do que isso, pode
nos levar a perceber como a condição masculina nos parece ser neutra. É uma condição dominadora e que, aparentemente, não precisa ser colocada em
debate. Ela sempre se apresenta a nós como uma condição natural, uma condição
que vem a priori, uma condição à qual o feminino se opõe.
Se tomamos em consideração todas essas questões, podemos entender, também, porque é que o termo “feminista” carrega, para muitas pessoas, uma
conotação negativa, como se a feminista fosse uma mulher radical, inadequada,
difícil. E também porque, mesmo quando se trata de alguém que se opõe à ideia do sexismo, essa pessoa prefere se denominar como alguém “em favor dos direitos das mulheres”
ou “feminina”, atenuando assim os efeitos do termo “feminista” e evitando
para si o rótulo injusto que se costuma aplicar às feministas. Mas, será que se
trata apenas de uma questão de “mudar de nome”? Será que, mudando o nome, mudamos também aquilo a que nos referimos? O que uma mudança de nome implicaria?
Parece que, no tempo de Shakespeare, “mudar o
nome” não significava muita coisa, não afetava muito o mundo tal como era. A
rose by any other name would smell as sweet (“Se uma rosa tivesse outro nome,
ainda assim teria o mesmo perfume”) é um dos trechos da mais famosa peça de
Shakespeare. Mas, hoje, séculos após a publicação de “Romeu e Julieta”, não dá
mais para pensar assim, gente. Acredito que mundo mudou, e muito. Nos dias de hoje, por algum motivo, essa suposta arbitrariedade entre o que se diz e a realidade está fragilizada. O dizer e a forma de dizer podem ser a própria ação (toda a obra de Nietzsche está aí para nos mostrar isso). E, embora o cuidado com a linguagem não resolva milagrosamente problemas que são sociais e políticos (e que, obviamente, pedem também ações políticas e sociais diretas, não apenas linguísticas), ao prestarmos atenção àquilo que falamos, nós despertamos para algumas questões importantes, e aquilo que lemos e escrevemos pode se apresentar de forma diferente. A forma de dizer, às vezes, diz por si própria.
A luta contra os preconceitos terá que ser uma luta persistente e incansável. Será preciso inúmeras tentativas e, ainda assim, não haverá nenhuma garantia de que o mundo estará livre de todos os preconceitos e a linguagem, politicamente "limpa" de uma vez por todas. Entretanto, uma das maneiras mais eficazes de combater os preconceitos sociais que, ao que tudo indica, sempre existirão, é monitorando a linguagem por meio da qual tais preconceitos são produzidos e mantidos e obrigando os usuários, em nome da linguagem politicamente correta, a exercer controle sobre sua própria fala, e, ao controlar sua própria fala, constantemente se conscientizar da existência de tais preconceitos.
Intervir na linguagem significa intervir no mundo. (Kanavillil Rajagopalan, "Sobre o porquê de tanto ódio contra a linguagem 'politicamente correta'")
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| Ainda que tenha outro nome, o sexismo vai continuar fedendo |
18 de fevereiro de 2013
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Thaís
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Há uma década, descobri uma mulher impressionante. Italiana de origem mas educada na corte francesa, filha de um médico do rei, Christine de Pizan (1364-1430) teria vivido uma existência tranquila, uma existência anônima de mãe e esposa como tantas outras se, como ela conta, sua vida não tivesse sido influenciada por duas forças poderosas, "Natureza" e "Fortuna" (ou seja, o destino). A primeira conferiu-lhe grande curiosidade intelectual, a segunda deixou-a viúva aos 25 anos de idade, com três filhos pequenos. E o que faz uma jovem viúva com dificuldades financeiras no final da Idade Média? Casa-se novamente, certo? Errado! Ela se torna a primeira escritora profissional da história da literatura francesa.
O caminho que Christine escolheu não era, decididamente, o que a sociedade esperava dela. É verdade que, enquanto mulher e escritora, ela representava uma "novidade" que foi em parte responsável pela fama que adquiriu ainda em vida. Por outro lado, os homens intelectuais não a consideravam como uma igual, longe disso, e ela teve que lutar duramente pelo seu espaço no campo literário. Christine tinha total consciência da posição de inferioridade ocupada pelas mulheres e um dos seus maiores combates foi contra a concepção misógina de uma natureza feminina "deficitária", isto é, contra a visão das mulheres como seres moralmente e intelectualmente inferiores (valeu, Aristóteles!). Era preciso distinguir o natural do cultural, como ela afirma no Livro da cidade das damas (1405) a respeito da educação feminina:
No Livro da visão de Cristine (1405), que contém inúmeras passagens autobiográficas, ela retoma a questão a partir de sua própria experiência. Ela se imagina dialogando com uma personificação da Filosofia, à qual diz:
Por volta de 1401-1402, Christine se envolveu em uma briga literária com homens intelectuais do seu tempo a propósito de uma obra extremamente famosa, o best seller de então, chamada Romance da Rosa. O livro conta a história da tomada de um castelo seguida da "colheita de uma rosa" pelo Amante apaixonado, em outras palavras, a história da conquista e da defloração de uma jovem dama. Para Christine, um escritor tinha que arcar com sua responsabilidade moral e não podia escrever absurdos misóginos e obscenos usando a desculpa de que tinham sido ditos por suas personagens. A discussão toda era sobre a função da literatura, o que não cabe desenvolver aqui, mas é muito interessante reparar nos argumentos usados pelos "inimigos" de Christine para desmerecê-la no debate. Para um deles, tudo o que ela era dizia era ditado por terceiros. Afinal, que mulher seria capaz de pensar e tirar suas próprias conclusões? Ela era só o "guarda-chuva" (é a palavra que ele usa, ou "capa de chuva") colocado na linha de frente do debate e atrás do qual se escondiam homens covardes que lhe assopravam os argumentos... Resumindo, queria dizer: não foi você quem disse e eu não discuto com mulher.
Após lançada a carta da incapacidade intelectual, eis que emergia o velho e bom julgamento baseado na moral e na sexualidade feminina. Ora, ao ousar atacar o grande mestre autor do Romance da Rosa, Christine agia como Leontina, uma prostituta grega que criticara o filósofo Teofrasto. Ou seja, no debate, Christine é literalmente chamada de puta!
Não é curioso que nós, seiscentos anos depois, escutemos o mesmo tipo de discurso, o mesmo tipo de argumento e o mesmo tipo de insulto? Não é curioso que nós, mulheres, ainda estejamos tentando conciliar casa, filhos e trabalho, sobrecarregadas por tarefas domésticas que muitas vezes nos impedem de seguir vocações? Que embora as mulheres sejam hoje a maioria na Universidade (enquanto estudantes, mas não necessariamente enquanto docentes...), ainda existam áreas nas quais elas são vistas como "incapazes" e "incompetentes", só por serem mulheres? Que em suas tentativas de emancipação a mulher seja invariavelmente tratada como piranha e vagabunda?
Em uma de suas cartas escritas durante essa querela literária, Christine tentou convencer seus interlocutores de que as mulheres não eram monstros de outra espécie, que precisavam ser combatidos e domados, que elas eram seres humanos como eles:
Feminismo: há mais de seis séculos, a ideia radical de que as mulheres são gente...
por Barbara Falleiros
Quando respondo a perguntas sobre o que faço da vida, às vezes me deparo com interlocutores perplexos. Muitos não entendem o porquê de se estudar "personagens obscuros de um período obscuro", tão distantes do "extraordinário estágio civilizacional para o qual evoluímos"! Afinal, que interesse pode haver em uma época de príncipes e castelos, rivalidades e traições, para além daquilo que serve à fantasia de um Game of Thrones e afins? Vejo-me no papel de meus antigos professores de História, repetindo a adolescentes insolentes que a compreensão do passado serve para entendermos o presente. E às vezes você descobre que quinhentos, seiscentos anos te separam... do mesmo lugar!
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| Christine de Pizan no seu "escritório" |
O caminho que Christine escolheu não era, decididamente, o que a sociedade esperava dela. É verdade que, enquanto mulher e escritora, ela representava uma "novidade" que foi em parte responsável pela fama que adquiriu ainda em vida. Por outro lado, os homens intelectuais não a consideravam como uma igual, longe disso, e ela teve que lutar duramente pelo seu espaço no campo literário. Christine tinha total consciência da posição de inferioridade ocupada pelas mulheres e um dos seus maiores combates foi contra a concepção misógina de uma natureza feminina "deficitária", isto é, contra a visão das mulheres como seres moralmente e intelectualmente inferiores (valeu, Aristóteles!). Era preciso distinguir o natural do cultural, como ela afirma no Livro da cidade das damas (1405) a respeito da educação feminina:
Eu reafirmo, e não duvides do contrário, que se fosse costume mandar as meninas à escola e se lá aprendessem as ciências, como fazem com os meninos, elas aprenderiam tão perfeitamente e compreenderiam tão bem quanto eles as sutilezas de todas as artes e ciências. [...] Sabes por que elas sabem menos? Porque não vivenciam coisas diferentes, porque basta que permaneçam em suas casas, às voltas com suas ocupações domésticas. Porém, não há nada mais estimulante para uma criatura dotada de inteligência do que experiências diversas e abundantes.
No Livro da visão de Cristine (1405), que contém inúmeras passagens autobiográficas, ela retoma a questão a partir de sua própria experiência. Ela se imagina dialogando com uma personificação da Filosofia, à qual diz:
Pois embora minha natureza me inclinasse para o saber, as tarefas que normalmente cabem às mulheres casadas, além da obrigação de frequentemente carregar bebês em meu ventre, impediram-me de dedicar-me aos estudos. [...] E o que há de mais belo que o saber? E o que há de mais vergonhoso do que a ignorância de um homem? Assim, certa vez respondi a um homem que criticava meu desejo de saber: ele dizia que não cabia a uma mulher ter conhecimento, como existem poucas. Respondi que tampouco cabia a um homem ser ignorante, embora existam muitos!
E eis a resposta de Filosofia:
No que te diz respeito, não há dúvidas de que se teu marido estivesse vivo até hoje, não terias estudado tanto quanto estudaste, impedida pelas ocupações do lar. Assim, não terias apreciado uma das coisas que mais amas no mundo, isto é, o doce sabor do conhecimento.
Vale ressaltar que Christine não era contra o casamento. Ela amou
profundamente o marido que seu pai escolhera para ela e admirava-o por
sua inteligência. E se ela começou a escrever após sua morte, a poesia
serviu-lhe primeiramente como experiência catártica, uma forma de lidar
com a solidão e com a tristeza. "Sozinha estou e sozinha quero estar,
sozinha deixou-me meu doce amigo, sozinha estou, sem companheiro nem
mestre", disse em seu poema mais famoso.
Por volta de 1401-1402, Christine se envolveu em uma briga literária com homens intelectuais do seu tempo a propósito de uma obra extremamente famosa, o best seller de então, chamada Romance da Rosa. O livro conta a história da tomada de um castelo seguida da "colheita de uma rosa" pelo Amante apaixonado, em outras palavras, a história da conquista e da defloração de uma jovem dama. Para Christine, um escritor tinha que arcar com sua responsabilidade moral e não podia escrever absurdos misóginos e obscenos usando a desculpa de que tinham sido ditos por suas personagens. A discussão toda era sobre a função da literatura, o que não cabe desenvolver aqui, mas é muito interessante reparar nos argumentos usados pelos "inimigos" de Christine para desmerecê-la no debate. Para um deles, tudo o que ela era dizia era ditado por terceiros. Afinal, que mulher seria capaz de pensar e tirar suas próprias conclusões? Ela era só o "guarda-chuva" (é a palavra que ele usa, ou "capa de chuva") colocado na linha de frente do debate e atrás do qual se escondiam homens covardes que lhe assopravam os argumentos... Resumindo, queria dizer: não foi você quem disse e eu não discuto com mulher.
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| Sábios e o temor da audácia feminina: Aristóteles seduzido e humilhado pela cortesã Fílis |
Não é curioso que nós, seiscentos anos depois, escutemos o mesmo tipo de discurso, o mesmo tipo de argumento e o mesmo tipo de insulto? Não é curioso que nós, mulheres, ainda estejamos tentando conciliar casa, filhos e trabalho, sobrecarregadas por tarefas domésticas que muitas vezes nos impedem de seguir vocações? Que embora as mulheres sejam hoje a maioria na Universidade (enquanto estudantes, mas não necessariamente enquanto docentes...), ainda existam áreas nas quais elas são vistas como "incapazes" e "incompetentes", só por serem mulheres? Que em suas tentativas de emancipação a mulher seja invariavelmente tratada como piranha e vagabunda?
Em uma de suas cartas escritas durante essa querela literária, Christine tentou convencer seus interlocutores de que as mulheres não eram monstros de outra espécie, que precisavam ser combatidos e domados, que elas eram seres humanos como eles:
Penso sem dúvida que, se tu fosses bem informado, já não trarias [ao debate] aquele Ovídio da Arte de amar como argumento para desculpar teu mestre [o autor do Romance da Rosa]. [...] Ó livro mal intitulado Arte de amar! Pois de amor é que não é! Mas sim de falsa arte e maliciosa habilidade de enganar mulheres, é como deveria ser chamado. Que bela doutrina! É então um grande feito iludir essas mulheres? Quem são as mulheres? São elas serpentes, leões, dragões, víboras, animais vorazes devorantes e inimigas da natureza humana, que devem ser trapaceadas e capturadas por meio de artimanhas? Se assim pensais, homens, lede então a Arte: aprendei os artifícios! Agarrai bem as mulheres! Enganai-as! Insultai-as! Invadi o castelo! Cuidai, homens, para que nenhuma vos escape, e que tudo ceda ao opróbio! Por Deus, não são elas vossas mães, vossas irmãs, vossas filhas, vossas esposas e vossas amigas? Elas são vós mesmos e vós mesmos sois elas.
Feminismo: há mais de seis séculos, a ideia radical de que as mulheres são gente...
17 de fevereiro de 2013
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Enviado por Raquel
Aqui vai um exemplo de como a nossa cultura sexista nos impregna de
tal forma que, quando menos esperamos, nos pegamos a perpetuá-la.
Sempre
fui contra o poder autoritário e pela igualdade nas relações. Sempre me
considerei feminista. Hoje em dia estou aposentada (do trabalho, não da
ideologia) e às vezes dou uma ajudinha às mães mais jovens da família,
que dão um duro danado, como eu quando tinha filhos pequenos e a idade delas. Pois bem,
estava há alguns dias na função de tia-avó, quando meu sobrinho foi
tentar montar um brinquedo e não conseguiu. Diante da sua dificuldade,
eu disse espontaneamente:
"Quando você chegar em casa, você pede para o seu pai te
ajudar!"
Algumas horas depois, faltava pilha em outro brinquedo e eu
falei:
"Na sua casa, o seu pai troca para você".
Então o garotinho
levantou os olhos e me respondeu:
"Ô tia, por que é que quando é coisa de montar você fala pra eu pedir pro meu pai? A minha mãe também sabe
fazer essas coisas!"
Pois é, por quê? Boa pergunta! Era a verdade óbvia saindo da boca da
criança e, para a minha perplexidade, o sexismo saindo da minha!
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15 de fevereiro de 2013
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