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Liberdade é o que você faz com o que fizeram de você

por Roberta Gregoli

"On peut toujours faire quelque chose de ce qu'on a fait de nous"
Sartre, L'Existencialisme est un Humanisme

Podemos sempre fazer algo com o que fizeram de nós, isso é liberdade. Mas, veja bem, não se trata de  uma liberdade irrestrita ou total: o limite está dado. É muito diferente do que nos vendeu a Xuxa com sua teologia capitalista, segundo a qual "tudo pode ser, só basta acreditar", que pressupõe um vácuo social onde só basta a vontade individual. Liberdade é o que você faz com o que - a sociedade, suas experiências, sua criação, suas oportunidades e seus recursos - fizeram de você.

Problematizando o clichê da liberdade total e irrestrita

A liberdade das mulheres, um tema que comecei a esboçar há algumas semanas, é importante, em primeiro lugar, porque é uma das principais bandeiras do feminismo - "até que todas sejamos livres" - e, em segundo, porque a ideia de liberdade serve, muitas vezes, para explicar e justificar, perversamente, a opressão. É o mesmo que aquela história racista de que xs negrxs são, em sua maioria, pobres porque são preguiçosxs. Reduzir o papel subordinado a uma escolha pessoal é uma maneira fácil de desqualificar a demanda por direitos. 

Tenho pensado mais intensamente sobre esse assunto desde dezembro de 2012, quando o Economist lançou, num de seus debates virtuais, o tópico Mulher & trabalho. Nesse tipo de debate, há uma proposição da casa, que é sempre introduzida pela expressão This house believes... e umx debatedorx para cada lado, contra e a favor. Xs internautas, após lerem os argumentos de ambas as partes, têm uma semana para votar online. 

A proposição no caso era This house believes that a woman's place is at work (Esta casa acredita que lugar de mulher é no trabalho) e o resultado do debate foi, para mim, surpreendente: 53% disseram que não, ou seja, que o lugar da mulher não é no trabalho.

O principal eixo argumentativo dos que se opunham à proposição foi (na minha tradução):

As mulheres não têm um lugar designado na sociedade. Em sociedades livres, elas escolhem onde querem estar. Para pelo menos 5 milhões de mulheres norte-americanas, acontece que esse lugar é em casa, como mães em período integral. O que há de errado nisso?

Sedutor, não é? Mas como esbocei no meu post anterior, não se pode falar em liberdade quando não há igualdade de oportunidades. Será que essas 5 milhões de norte-americanas escolheram, de fato, ser donas de casa e mães em período integral? 

Vamos computar os fatos (com foco na realidade brasileira, nosso maior interesse aqui, mas, pelo que estudei, também aplicável aos Estados Unidos, ainda que os números possam variar):

No Brasil, é comprovado que mulheres têm mais dificuldade em conseguir um emprego, apesar de serem mais escolarizadas que os homens. Há até discriminação descarada - e ilegal - em ofertas de emprego, privilegiando homens. Quando conseguem um emprego, a desigualdade salarial é de quase 30%. Além disso, são diversos os fatores culturais que contribuem para um entendimento equivocado de que as mulheres são mais aptas a cuidar da casa e dxs filhxs (ex. brinquedos que incentivam o trabalho domésticos, mitos como o do instinto maternal, etc). 

Tendo esse quadro em vista, quando um casal decide ter filhxs, qual dos dois cônjuges está mais propenso a largar a carreira ou colocá-la em segundo plano? É uma questão de matemática até, ganhando em média quase 1/3 a menos que os homens, o salário da esposa oferecerá menos conforto que o do esposo. Isso sem falar que, numa sociedade onde o clube do bolinha é a regra, em que ainda se acredita que mulheres bonitas não devem trabalhar porque 'desconcentram' os homens, as chances de ascensão profissional são muito menores para as mulheres. 


Dizem xs reacionárixs que as feministas são "contra" as donas de casa, que não respeitam o seu trabalho e que acham que todas as mulheres deviam trabalhar. Reducionismo puro. Não é questão de desvalorizar o trabalho doméstico - que, aliás, se remunerado, somaria 10% do PIB nacional. A questão é problematizar o conceito de escolha e de liberdade: com toda essa dificuldade, se uma mulher decide abrir mão da carreira ou colocá-la em segundo plano, essa foi uma escolha realmente? Se você pode escolher entre A e B, mas sabe que B é um caminho muito mais tortuoso e difícil, será que podemos falar de 'escolha'?

Relações de liberdade que só podem se realizar, para todas as mulheres, com a igualdade. Esta perspectiva é, portanto, radicalmente distinta do individualismo liberal que defende a liberdade de cada mulher para fazer o que quiser com seu corpo, mas que não é capaz de identificar que, no atual modelo, a liberdade não caracteriza a vida da maioria das mulheres. - Tica Moreno, Marcha Mundial das Mulheres

Então, acredito - à revelia dxs leitorxs liberais do Economist - que temos que poder dizer sem pudor que lugar de mulher é no trabalho, na política, no ringue. Sem desrespeitar o trabalho árduo das donas de casa e mães em período integral, precisamos afirmar e reafirmar essas outras posições como possíveis, ainda que mais difíceis... ainda que não baste apenas a vontade individual.


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Tio Oscar é racista, sexista e gosta de ostentar

por Tággidi Ribeiro




O Oscar é a festa máxima do cinema. Máxima porque sabemos que nela estarão os filmes mais bem produzidos, mais caros, mais vistos e/ou comentados. Alguns desse filmes se tornam clássicos, outros são esquecidos, assim como seus atores, atrizes, roteiristas, diretores, diretoras etc. 

Halle Berry - Oscar em 2002
Opa, eu disse diretoras? Sorry. My bad. Em 85 anos de festa (para quem?), apenas quatro mulheres foram indicadas ao prêmio de melhor direção e apenas uma delas o venceu: Kathryn Bigelow, em 2010(!). A essa altura, sendo leitor(a) deste blog, você já deve estar se perguntando: e negrxs? Apenas um(!), John Singleton - em 1991, foi indicado a melhor diretor e não ganhou. Atores e atrizes negros em papéis principais? Apenas quatro atores e uma(!) atriz. Outras oito estatuetas para indicados a atuações coadjuvantes, só. Gays? Filmes sim, mas não pessoas. A diversidade para por aqui. Por isso, o discurso de Jodie Foster no Globo de Ouro deste ano foi tão emocionante. 

Sabendo desse contexto não fica difícil entender porque um cara como Seth MacFarlane tem lugar como apresentador nesse evento falsamente chiquérrimo. Me contem: existe algo mais brega, mais fora de moda, mais sem graça que piada racista e sexista? É sério: pagar rios de dinheiro pra deixar as pessoas constrangidas, pra ninguém se divertir de verdade, é o cúmulo da cafonice. 

E o mundo inteiro parou pra rir amarelo com MacFarlane fazendo piada sobre o enredo de Django Livre ser como a relação entre Chris Brown e Rihanna; envolvendo o nome de Quvenzhané Wallis, indicada ao Oscar de melhor atriz com 9 anos(!), numa 'brincadeira' sobre George Clooney gostar de mulheres mais novas - pausa: 1) convenhamos, ele jamais faria isso se a atriz fosse branca; 2) o site de 'humor' The Onion chamou a mesma criança de algo pior que vadia, depois se desculpou (desculpas my ass, tem que meter processo. Como alguém tem coragem de pensar em insultar uma menina de 9 anos na noite mais importante de sua vida ou em qualquer outra ocasião? Novamente, isso não aconteceria se ela fosse branca). 

Vilão da Lazy Town
MacFarlane (que tem uma cara de personagem de Lazy Town, não?) insistiu no seu conceito de humor: latinos? São bonitos e pouco importa o que falam; mulheres? São loucas obsessivas. 'Por isso vou brincar que eu iria brincar que a gente já viu os peitos de um monte de atrizes mas eu não vou brincar de verdade porque eu sei que elas não vão gostar' (quão adolescente isso soa para vocês?). Aliás, na 'canção' feita pelo... comediante, era muito engraçado ver peitos de atrizes inclusive em filmes nos quais suas personagens eram estupradas. Quanto cultura do estupro isso soa para vocês?

Empatia zero. Felizmente, MacFarlane está sendo apontado como o pior apresentador da história do Oscar. Menos pelo racismo e pelo sexismo e mais por satirizar a morte de Lincoln, um dos grandes heróis estadunidenses. Ainda bem que esse tipo de cara ajuda bastante na hora de se enterrar.

Helen Hunt
Por fim, eu que acabei dando tanta atenção ao Oscar por causa desse babaca que a Academia contratou provavelmente para mostrar quem manda - homens brancos -, mais uma vez achei a festa cafona por outro motivo: a ostentação. Não consigo deixar de perceber como imorais os ternos e vestidos caríssimos, as limousines, as joias (colares de 2,5 milhões de dólares!). Como alguém pode dizer que essas celebridades todas são superlegais e generosas se têm coragem de participar disso? Se o amor ao dinheiro e ao luxo é um dos principais motores do mal que há no mundo?

Helen Hunt quase se safou dessa, aparecendo com um vestido de US$ 200,00. Seu colar, contudo, valia US$ 700.000. Fazer propaganda, incitar o desejo no público não é menos danoso ao mundo e portanto não menos desculpável.

Estamos no século XXI, 2013. Edição encerrada. Tio Oscar, tão velhinho, precisa rever muitos conceitos.  


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As (várias) histórias de Tina Modotti

Por Thaís Bueno

Tina Modotti


Você conhece ou se lembra de ter ouvido o nome de Tina Modotti? Pode ser que não se lembre, mas você provavelmente viu essa mulher extraordinária como personagem do filme Frida (2002): Tina era aquela que abria sua casa para os artistas que faziam parte da rica e fervilhante cena artística da Cidade do México, nas décadas de 20 e 30. No filme, Tina, interpretada por Ashley Judd, organizava festas animadíssimas, além de beijar Frida Kahlo e participar ativamente do movimento comunista. Mas houve uma infinidade de outras coisas interessantes na vida dessa mulher, que o filme não mostrou.

Esta é a cena em que Tina dança com Frida, ao som da maravilhosa Lila Downs, cantando Alcoba Azul:



Eu adoro tudo que se relaciona a aspectos biográficos de grandes personagens da história, principalmente se a personagem é uma mulher. Por isso, biografias e correspondências são alguns dos meus gêneros literários favoritos. E foi isso que me atraiu à biografia, em formato de HQ, Tina Modotti: uma mulher do século XX (de Ángel de la Calle, publicado no Brasil pela Conrad Editora). O livro faz um bom passeio por toda a vida de Tina, desde sua saída da Itália, onde nasceu em 1896, até sua morte, no México (algo que, diga-se de passagem, até hoje está mal explicado). 

Biografia de Tina Modotti em HQ


Entre seu nascimento e sua morte, Tina Modotti passou por tantas coisas que sua vida poderia render uns três livros dos mais diferentes gêneros literários. Se relacionou com pessoas como Olga Benário, Luis Carlos Prestes, Frida Kahlo, Diego Rivera, Maiakóvski, Hemingway, John dos Passos, James Joyce e Pablo Neruda. Foi atriz do cinema hollywoodiano, fotógrafa genial no México e militante comunista. Participou da Guerra Civil Espanhola. Foi espiã soviética em Berlim. Como consequência de sua forte agência política, Tina morreu misteriosamente, na Cidade do México, em 1942.

Mas não vale a pena ficar aqui esmiuçando cada um dos capítulos da vida de Tina (em vez disso, minha dica é que você confira o livro, ou leia uma das várias biografias que existem sobre ela). A mim, o que mais interessa na trajetória de Tina, além de sua fotografia, é a forma como ela viveu suas paixões e seus ideais. Tina foi uma mulher genial e libertária, que viveu sua vida de acordo com suas próprias ideias e vontades. Exerceu suas potencialidades sem se limitar às convenções e às limitações sociais de sua época, o que é sempre difícil e digno de nota, em qualquer época. E isso tudo fica bem claro na biografia/HQ. Minha única ressalva ao livro seria ao título: acho que “mulher do século XX” é uma forma um tanto limitada de descrever Tina Modotti. Será que alguns dos dilemas e das crises pelas quais ela passou não poderiam ser parecidas às das mulheres de hoje?

Há um café onde se misturam políticos, pistoleiros, criminosos comuns, toureiros, putas e atrizes de terceira. A personagem mais fascinante de todas é uma fotógrafa e modelo, além de prostituta de muita classe e Mata Hari do Comintern, chama-se Tina Modotti... (Kenneth Rexroth)

 Quando quero me lembrar de Tina Modotti devo fazer um esforço, como se tratasse de recolher um punhado de névoa. Frágil, quase invisível. Eu a conheci ou não a conheci? (Pablo Neruda).

Abaixo, algumas artes fotográficas de Tina Modotti:

Sombrero, martelo, foice (1927)

Bandoleira, milho, violão (1927)

Mãos de titereiro (1929)

Lendo El Machete (1928)

Diego Rivera e Frida Kahlo, em passeata, fotografados por Modotti (1929)

Mulher carregando yecapixtla (1929)




Você pode conferir mais fotografias de Tina Modotti neste site do MoMA: http://www.moma.org/collection/artist.php?artist_id=4039.


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Entre o aborto e a adoção

por Tággidi Ribeiro



Estive pensando recentemente em um dos argumentos mais usados pelos autointitulados "pró-vida" contra o aborto - o de que mulheres não 'precisam' abortar em nenhum caso, já que sempre podem entregar seus filhos para adoção. Essa 'alternativa' garantiria a vida do bebê e o seguimento tranquilo da vida da mãe, livre ao mesmo tempo dos fardos da maternidade e do 'assassinato'. 

Aparentemente, essa solução é tão justa que nem é preciso falar sobre essa mãe, essa mulher que carregou durante nove meses um feto, que sentiu as contrações que anunciavam a chegada de mais um bebê ao mundo, que o segurou nos braços e o amamentou, antes de entregá-lo para uma história sobre a qual não terá mais controle algum e que, ainda assim, terá marcado para sempre. Ninguém fala, também, sobre como é o processo de entrega para adoção, e nem que esse modelo de mãe que dá o filho assim que nasce não é o único e nem o mais comum. Por fim, estrategicamente, os "pró-vida" omitem que mulheres que dão os filhos para adoção são ainda mais estigmatizadas que aquelas que efetivamente abortam.

Vê-se, portanto, que há muito a ser dito. Em primeiro lugar, gente, estar grávida já não é fácil quando se quer o bebê, quando se está feliz - lembrem-se de que a maioria das mulheres sente enjoos, sono, cansaço; seu corpo muda radicalmente; precisa ir toda hora ao banheiro porque o bebê pressiona a bexiga; tem dificuldade de andar, sentar, levantar e até de achar posição confortável para dormir; fora a instabilidade de humor. Agora, imaginem  esses nove meses de gravidez de uma mulher que não está feliz e que não quer o filho. Imaginem passando por todos esses 'pequenos' desconfortos físicos e hormonais essa mulher que muitas vezes vai esconder da família que está grávida ou, na impossibilidade de fazê-lo, vai ser rechaçada diariamente; imaginem essa mulher que foi abandonada pelo pai da criança ou cujo pai é um estuprador - que pode ser, inclusive, alguém da própria família. Imaginem todos os dias dessa mulher não podendo querer seu próprio filho e profundamente culpada por essa impossibilidade. 

Chega o dia do parto. Se esclarecida, essa mulher já informou ou vai informar as enfermeiras que pretende dar seu filho para a adoção. As enfermeiras, se esclarecidas, vão imediatamente comunicar o Conselho Tutelar, sem fazer julgamentos. Os psicólogos e assistentes sociais do Conselho Tutelar irão imediatamente recolher o recém-nascido a um abrigo, também sem fazer julgamentos. Mas haverá julgamentos, nós bem sabemos. Porque, como eu disse acima, os "pró-vida" tentam forjar uma aura de compaixão em torno do ato de dar o filho para adoção mas, cotidianamente, as mães que praticam esse ato de compaixão são consideradas monstros sem coração que tiveram a 'coragem', a 'capacidade' de rejeitar a 'maior dádiva' de uma mulher. Como a mulher é o que menos importa, muitos psicólogos e assistentes sociais pressionam pesadamente a mãe para que fique com seu filho, o que aumenta sua dor, sofrimento e culpa. Se a mulher for forte o suficiente para aguentar a pressão, pode ser que ela saia da maternidade carregando apenas o estigma e a culpa. Mas ela pode também sair carregando o filho que não quer e do qual não pode cuidar. Indo para um abrigo ou para a casa da mãe que a rejeita, essa criança está em uma situação de vulnerabilidade ímpar. Levando consigo ou não seu filho, essa mulher terá passado por uma das situações mais traumáticas de sua vida. Para que vocês tenham uma ideia do tamanho desse trauma, na segunda matéria linkada neste texto, a mãe que doa o filho se esteriliza como punição para seu ato.

É fácil perceber que a solução dada pelos "pró-vida" não é justa. Na verdade, talvez seja a mais injusta, pois que a pretexto de defender a vida do feto, não leva em consideração a vida da mãe e nem a vida da criança que o feto virá a ser. Se essa criança recém-nascida for branca, menina e saudável, muito facilmente achará alguém que a adote. Se for um menino negro e/ou tiver qualquer deficiência física ou de cognição, não terá tanta sorte. Chega a parecer obra de um cínico o seguinte texto de um entusiasta da adoção:
"(...) Enquanto a maioria esmagadora da fila de adotantes busca recém-nascidas, meninas e brancas, a fila de adotáveis é composta na sua maioria por crianças de mais de 3 anos de idade, negras (e na maioria meninos, já que as meninas são mais adotadas). Outro problema é que há muitos grupos de irmãos disponíveis e o ideal é não separá-los. Como 99% dos habilitados não tem disponibilidade de adotar irmãos, as filas não andam. Moral da história. O processo de adoção não é nenhum bicho-papão. É simples, barato e relativamente rápido, se comparado com qualquer outro processo no Brasil. Se o perfil de criança que você busca não é o padrão, ou seja, se você está interessado em adoção tardia, não tem exigência de raça, aceita grupos de irmãos, aceita doenças tratáveis (hiperatividade, dificuldade de fala tratável com fonoaudiologia, etc.), tudo isso vai impactar no tempo que seu processo vai demorar. Há casos que se encerram em poucas semanas ou meses. Tudo é possível se você sonhar com uma família especial." (http://www.epinion.com.br/adocao/mitos-e-realidades-sobre-o-processo-de-adocao)
Quanto às mães, não tendo podido de fato escolher ou mesmo tendo escolhido levar sua gravidez adiante
"...sentem-se consternadas em datas de comemorações importantes, tem pesadelos com bebês sem rosto e apresentam dificuldade na elaboração do luto pela perda. Em sua maioria, conseguem em sua fantasia 'criar' os filhos em suas mentes e até mesmo fantasiar sobre o seu desenvolvimento, imaginando como estão, como vivem e o que sabem da sua história. Algumas não conseguem estabelecer novos relacionamentos, sentindo-se não merecedoras de amor e com frequência negam a si mesma qualquer forma de prazer ou alegria. Ainda que se casem e possuam novas famílias, a sombra do filho entregue em adoção estará sempre presente." (Daiane Oliveira e Cristina Kruel) 
Eu perguntei a deus. Ela é pró-escolha.




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“Prefiro pecar contra minha língua que pecar contra minhas ideias”


por Mazu

O título deste post é uma frase proferida por Yadira Calvo, uma das maiores escritoras da Costa Rica e América Latina, em uma entrevista concedida no dia 13 de fevereiro deste ano. Yadira recebeu, em 2012, o prêmio Mágon, o mais importante prêmio cultural da Costa Rica. Somam-se a esse grande feito: anos de docência nas melhores universidades de seu país e mais de onze obras publicadas e aclamadas.

Do alto desse currículo, essa autora, cientista da linguagem e feminista falou sobre a importância da linguagem na manutenção da ordem social ou, preferencialmente, no desmantelamento dessa ordem.

De vez em quando, a gente recebe esse ou aquele comentário sobre o uso de marcas de gênero que expressem diversidade, desde o básico “os (as)”, o “@” e, mais recente e abrangente “x”. Algumas pessoas parecem pensar que marcar a diversidade de gênero nos nomes é uma perda de tempo porque, em português, o plural masculino tem essa função. Já outras parecem acreditar que essas questões de linguagem não são dignas de tanta preocupação ou debate, que a simples alteração na forma de marcar o gênero na língua não resolveria os problemas de desigualdade e discriminação. Obviamente, não se trata de uma solução mágica e de efeito imediato. Contudo, também não se trata de uma solução tão paliativa assim. A reivindicação ou tentativa de buscar uma marca de gênero que expresse a diversidade é muito válida e tem, sim, razão de ser.


Isso porque a linguagem, nas palavras da Yadira, é a roda de transmissão da cultura. Como a cultura é sexista, a linguagem tem esse tom. A gente pode considerar a língua um patrimônio e defendê-la, mas não no que nos apaga ou diminui. A defesa da língua como patrimônio sagrado, rígido e imutável além de ser muito preconceituosa, é muito falha porque faz parecer que a língua está acima do falante, como se o falante tivesse que obedecer à língua e à gramática, quando, na verdade, o caminho real é quase oposto. Essas relações são bem mais complexas e fluidas do que a simples hierarquia dos fatores.

A gente já falou várias vezes aqui como o feminino pode ser empregado para desvalorizar e diminuir, num determinado discurso. Isso não é à toa, a história como é contada, grande parte da literatura e a maioria das religiões estabeleceram bem o lugar da mulher na nossa cultura, e, obviamente, isso está marcado na linguagem. Em mandarim, por exemplo, o ideograma de “bem”, “bom”, usado para responder ao cumprimento “tudo bem?”, é o ideograma de casa com o ideograma de mulher dentro, ou seja, mulher quietinha dentro de casa, tudo bem.

Para a gente romper com esse lugar social que nos deram e que foi historicamente construído e legitimado, a gente tem que romper em todas as instâncias. Por isso, pode parecer picuinha implicar com tratamento no masculino quando existem mulheres no grupo, mas não é não. Ainda que os imortais das Academias de Letras (que são, sem nenhuma surpresa, a maioria homens) se irritem porque a regra é que o masculino inclua a todos, a gente bem sabe que isso é reflexo de uma sociedade sexista que, em realidade, nos exclui. E não só nós, mulheres, como qualquer homem que não queira ocupar um determinado papel dito de homem e, por isso, acaba recebendo esse ou aquele rótulo e perdendo o título de homem.

Não Aguento Quando
Por outro lado, homens, quando incluídos em uma expressão coletiva de tratamento no feminino, têm como reação mais provável a irritação e o sentimento de ofensa, ou seja, a manifestação do feminino na língua, quando não é apagada, é pejorativa. A Yadira fala de como esse tom pejorativo vem da Grécia Antiga e do que Aristóteles chamava de “homem incompleto” (as mulheres), de como os homossexuais passivos eram menosprezados por ocupar um lugar que seria o da mulher no coito. Essa explicação me ajudou muito porque eu nunca entendi bem esse negócio de chamar homossexual de “mulherzinha”, já que gênero é gênero e opção sexual é opção sexual. E aí você se depara com uma possível razão que data de milhares de anos atrás, vinda de uma sociedade que, ok, tem seus méritos, mas era misógina, xenófoba e bélica.

Créditos: Femstagram
Considerando a relação entre língua e contexto social não rola dizer que uma palavra é só uma palavra, que uma piada é só uma piada, que uma expressão é só uma expressão. Os termos e expressões que empregamos quando falamos e escrevemos nos posicionam muito, socialmente e ideologicamente. As pessoas que chamam um acampamento do MST de “invasão” e as pessoas que chamam de “ocupação” já estão posicionadas no debate a partir do emprego termo. Só com uma palavra a gente já sabe onde as pessoas estão e, às vezes, de onde elas vêm.



É por essas e por outras que a gente tem que se manifestar na forma de escrever, de falar, e ocupar nosso espaço no mundo simbólico também. Dizer “homem” e “mulher” já não dá mais conta da nossa realidade hoje, e isso também se aplica a tratar o homem como eterna maioria. E é por isso que a leitura desta entrevista é muito significativa e importante para quem anda buscando entender melhor essas novas tentativas de marcas de gênero e a razão do debate. A Yadira descreve bem e rapidamente o funcionamento da linguagem enquanto espelho e propagadora de uma determinada ordem social, passando pelos mitos religiosos, culturais e científicos, ou seja, indo de Eva, passando pela Amneris, chegando às histéricas do Freud. Imperdível.