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Guest Post: “Cá com meus botões, continuo a pensar que homossexualismo não existe”

por Thais Torres


Para o bem e para o mal, Caio Fernando Abreu está na moda. Há várias páginas no Facebook com frases que supostamente seriam do autor, bem como teses acadêmicas sobre sua obra, além de alguns filmes e peças de teatro baseados em seus textos. Trata-se de um autor emblemático para a Literatura brasileira contemporânea e não deixa de ser interessante essa atenção especial que vem sendo dada a ele. No entanto, com o modismo vem a incompreensão. Acho que poucos autores são tão mal interpretados quanto Caio Fernando Abreu. Os motivos são vários, mas um me incomoda em particular: saber que, para grande parte das pessoas que leem sua obra – e as que afirmam ler, sem ter efetivamente lido – o gaúcho é uma espécie de mártir daquilo que, para muitos, é conhecido como “Literatura gay”.

Aparentemente, o tema sobre o qual escrevo não é tão pertinente neste blog. Mas, não tenho dúvida que as autoras e os leitores são contra a ideia de “Literatura feminina” ou “Literatura para mulheres”. Como assim? Que espécie de gueto é esse? Quais são os estereótipos que essas denominações mobilizam? Vale lembrar outro modismo do momento: por que as mulheres que querem ler livros eróticos não se interessariam pelo maravilhoso A história de O ou mesmo pela polêmica obra de Hilda Hilst e prefeririam o sofrível Cinquenta tons de cinza? Basta ler as primeiras obras para entender o perigo do poder subversivo do erotismo. Aí fica fácil entender o que se cala com essa febre do momento.

Mas voltemos à “Literatura gay”. Sem dúvida alguma, lutar pelos direitos dos gays é uma questão de extrema importância no país que não deve se orgulhar de ser o campeão mundial de assassinatos homofóbicos, concentrando 44% do total de execuções de todo mundo. A importância desta luta é indiscutível. A grande questão é se reduzir a obra de um dos mais importantes autores da literatura contemporânea a um rótulo pré-determinado ajuda nesta luta. Não há dúvidas que a verdadeira literatura pode ser lida e escrita por qualquer um, de qualquer idade, orientação sexual, gênero ou time de futebol preferido. Acho que esse é o caso do Caio F. Sua obra transcende muito as amarras pretensamente libertadoras que são colocadas quando alguém determina que determinado livro é feito para gays ou por um gay. Basta ler com atenção Morangos mofados e (o meu preferido) Os dragões não conhecem o paraíso para concordar comigo.


O curioso é que o próprio autor rechaçava a possibilidade de ser uma espécie de defensor dos gays. Em carta ao escritor João Silvério Trevisan, escrita em 18 de outubro de 1983, Caio F. avalia “Pela noite”, conto de sua autoria que frequentemente é lido como um exemplar desta “literatura gay”:

É talvez um pouco impiedoso demais com o gueto gay, não sei se “impiedoso demais”, não sei se o gueto merece compreensão. Eu detesto.

Mais adiante ele comenta que foi convidado a participar de um evento intitulado “Os homoeróticos: os gays e as lésbicas na sociedade brasileira”. Conta ao amigo que não vai comparecer naquilo que chama de “coisa” e complementa: “Cá com meus botões, continuo a pensar que homossexualismo não existe”. Em diversos momentos, Caio Fernando Abreu defende essa ideia. Para ele, o conceito de homossexualismo não apenas estigmatiza determinados sujeitos, como também oculta a noção de uma sexualidade universal, que particularmente lhe interessava:

O homossexualismo está sendo mais aceito, ou mais entendido, mas só de certa forma. Porque continua sendo um estigma, uma mancha. Antes a pessoa ser homossexual era lama. Aí a coisa passou a ser discutida, relatórios daqui e dali e de repente parece que virou moda. Mas profundamente a questão não foi resolvida. Nunca me liguei a movimentos de liberação gay porque acho que não existe homossexualismo, existe sexualismo. As pessoas são sexuadas ou assexuadas. Tem gente que é assexuada e não gosta de trepar. Mas se você é sexuado, trepa com homem, trepa com mulher, transa com pessoas, mas quando põe o rótulo homossexual ou bissexual, você reforça preconceitos. [meu grifo]

Uma última citação: em “Terça-feira gorda”, o autor descreve com uma beleza ímpar o desejo homoerótico: “Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também”. E aqui eu, que por acaso sou heterossexual, reforço minha admiração por um grande escritor, que por acaso era homossexual. Não poderia ser simples assim?


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Thais Torres é graduada em Letras pela Unicamp e mestre em literatura brasileira pela USP. Atualmente, é professora de redação e doutoranda na USP. Apesar de ter ouvido de um professor de uma universidade federal que ela “não conseguiria entender Caio Fernando Abreu porque era mulher”, insiste em estudar o erotismo nos contos do autor. É apaixonada pelos amigos, pela arte, pelo talento das pessoas e por discussões divertidas e inteligentes. E por uma cerveja, para dar liga nisso tudo.

Envie você também o seu Guest Post para subvertemos@gmail.com.


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E aí, como vai sua moral?


por Tággidi Ribeiro


Estátua da justiça em Berna. Cega.
Creio que todos nós passamos por momentos de dúvidas e menos dúvidas, mas será que nos colocamos as questões em termos de conduta moral? Os adultos, no geral, circunscrevem seus valores e os questionam? Idealizam um ethos cuja realização perseguem? Pergunto porque tenho dificuldade em entender como se processam as diversas escolhas dos indivíduos, sobretudo quando prejudicam seus iguais e também a si mesmos. A internet é prolífica em exemplos e talvez por meio dela possamos conhecer mais o pensamento de nossa época do que por qualquer outro meio. Protegidas por pseudônimos ou pelo anonimato, pessoas de todos os sexos não relutam em deixar cair suas máscaras e pode ser realmente assustador o que se esconde por trás delas. Vou me valer de duas notícias recentes, de janeiro e fevereiro deste ano, para ilustrar o que quero dizer. 

Em janeiro, a mulher de um detento morre em um dia comum de visita. Segundo a polícia, ela havia engolido um 'pacote' que não quis entregar durante a revista e entrou em convulsão, morrendo logo em seguida. É muito fácil achar essa história toda muito estranha e julgar ser necessária investigação séria do caso, inda mais com as declarações da família e as fotos em que a mulher aparece cheia de hematomas. A maior parte dos comentários dos diversos artigos de internet, entretanto, era de gente dizendo que 'era bem feito', por ela ter se envolvido com traficante; e mais: ela estava grávida e nem esse fato, que geralmente comove, chegou a arrefecer o sentimento de que aquela mulher merecia morrer. Ainda havia gente que afirmava não sentir pena pelo feto porque ele seria, tal qual o pai, um bandido

Mas filho de bandido tem que morrer.
Mais recentemente, no início de fevereiro, uma menina mexicana de 12 anos, estuprada repetidamente pelo padrasto de 44, deu a luz a uma criança. De início no entanto, a informação era de que a menina contava 9 anos e fora abusada por um vizinho de 17. Com qualquer idade, óbvio, é uma desgraça que meninas/mulheres sejam estupradas e engravidem, mas na internet, ainda pensando ter 9 anos a menina, o burburinho cruel veio dizer que 'as meninas de hoje não prestam desde criança' . Alguém sugeriu que a menina não tivesse levado a gravidez adiante, por ser fruto de violência, por ser de risco a gravidez, devido à idade da mãe, e pela incapacidade dessa criança de ser mãe: educar, cuidar, manter. Então, contra essa voz, todos se voltaram, repetindo: 'um crime não pode ser motivo para outro pior'. 

Não sei quanto a vocês, mas para mim as falas em um e outro caso revelam uma brutalidade que não se encontra, parece, em outra espécie que não a humana. Assassinato e estupro são justificados; não há empatia, em absoluto, pelas vítimas; quanto à morte de um feto, é justificado em um caso e não em outro, de forma completamente arbitrária. Aqui, é fundamental destacar as 'razões' para a falta de empatia dos comentaristas, ou seja, é necessário perguntar: em que situações não se deplora a lesão física e psicológica ou mesmo a morte de alguém? Em que situações instaura-se uma tal ambiguidade que não chega a tornar lícito matar ou estuprar, mas que ao mesmo tempo retira de tais atos o estatuto de crime? Por fim, em que situações a opinião condena ao estupro ou à morte outros indivíduos ou, mais amplamente, qual o ideário de justiça, inseparável da moralidade, do nosso povo? 

O que eu falo impunemente.
No caso da morte da mulher do detento, podemos elencar as seguintes razões para a falta de empatia: ser a mulher de um traficante; ter supostamente tentado entrar com drogas em um presídio; agir supostamente de forma ilícita estando grávida. A primeira razão está relacionada ao mote 'diz-me com quem andas', que é inclusive citado em um dos comentários - ou seja, se essa mulher casou com um criminoso, deve ser criminosa, e também seu futuro filho o seria; a segunda e terceira razões trazem algo mais capcioso, pois que são comportamentos, ainda que supostos, moralmente reprováveis, de caráter criminoso. Esses motivos, então, como que validam a primeira fala: estamos de fato diante de uma criminosa  - lembremo-nos de que a ideia de que criminosos merecem morrer é senso comum. Há aqui dois pontos interessantes, o fato de o criminoso, a despeito da gravidade de sua falta e da comprovação desta, ser destituído de humanidade e, por isso, da possibilidade de figurar como vítima. Isso quer dizer que em qualquer circunstância, qualquer sofrimento infligido a essa mulher, e mesmo a morte, torna-se punição para seus crimes, não importando se há crime de fato, se tal punição se aplica em relação a e na medida do crime, nem se é aplicada por aqueles designados para tal, os agentes da lei. Portanto, acima da lei, acima de qualquer ideia de equilíbrio entre falta e punição, a justiça da opinião condena à morte, sem deplorar, o criminoso que comete qualquer falta e ainda seus descendentes. 

Tão inocentes.
E que falta cometeu a criança de 9 anos (depois sabidos 12)? Se a ausência de empatia ante uma morte imprevista e talvez mesmo dolosa se dá pela desumanização e esta se processa sobre a figura do criminoso, devemos supor essa adolescente também criminosa, para que não se desenvolva a empatia ante seu estupro e a gravidez dele decorrida? Sim, há quem cogite a possibilidade e mesmo quem afirme ser a menina a culpada de seu próprio estupro. Há também quem cogite a consensualidade da menina e essa suposta consensualidade é uma falta - note-se que, num primeiro momento, todos supunham ter 9 anos a criança. Posteriormente, quando se sabe que ela na verdade conta 12, o caso deixa de ter repercussão. É como se meninas de 12 anos fossem indefensáveis. Nem o fato de ser o padrasto o estuprador causa qualquer tipo de comoção. Nosso mundo parece enxergar meninas de 12 anos como entes absolutamente autônomos, já formados, capazes de 'virar a cabeça' dos homens ou, mais comumente, biscatinhas. E, como sabemos, o senso comum  minimiza ou desconsidera a violência cometida contra elas. Biscatinhas - ou putinhas, piriguetes, vagabundas, vadias - merecem a violência sofrida. Daí a quase total falta de empatia pela menina de 12 anos estuprada pelo padrasto de 44. É interessante mesmo perceber (neste caso específico, quando se julga que a menina tem 9 anos) que os comentaristas de internet praticamente não falam em crime e as palavras 'bandido', 'criminoso' e 'estuprador' não são usadas. Novamente, acima da lei, acima de qualquer ideia de equilíbrio entre falta cometida e punição; acima inclusive da existência da falta, a opinião condena ao estupro, justifica-o ou, o que talvez seja ainda pior, ignora-o - o silêncio é a anulação do crime, sem o qual não há culpado ou vítima. Mas não esqueçamos que essa adolescente deu à luz uma criança e, se no caso da mulher grávida do bandido o feto também era condenado, neste caso ele aparece como o único inocente. Um filho de bandido se tornará bandido, e por isso é desejável que morra; já o filho de um estuprador não se tornará estuprador. O feto fruto de relação consensual entre dois criminosos não merece viver, mas o feto fruto de uma relação não consensual deve ser preservado a todo custo, mesmo ao custo da vida e/ou do sofrimento físico e psicológico da mãe, a menina de 12 anos. 

Como eu dizia no início, é um tanto difícil compreender o processo das escolhas morais dos indivíduos, que conduzem seus julgamentos e também seu comportamento diário. É difícil saber, inclusive, se há de fato a escolha, que pressupõe o contato com diferentes visões acerca de um mesmo conceito, dado ou fato - a construção da ética não nos permite ignorar as alteridades, pois tal ignorância nos faria retornar ao fascismo. Enfim, são questões complexas (essas e as demais levantadas ao longo do texto) e eu as exploro superficialmente, tanto por falta de conhecimento quanto por falta de tempo. Tenho a impressão, contudo, de que já na superfície se pode revelar o grau de insanidade de algumas vozes. 


Algum comentarista disposto a mostrar o rosto?

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Diga-me, como é ser homem?

por Thaís Bueno 


Você também acredita que o "normal" existe?


Eu gostaria de começar este post com uma pergunta: você se lembra de qual foi a última notícia que leu sobre casos de sexismo, racismo ou homofobia? Lembra-se de quando isso ocorreu e de qual foi o desfecho da história? 

Todxs nós sabemos que episódios vergonhosos de desrespeito à dignidade de grupos sociais minoritários acontecem frequentemente, tanto no Brasil quanto em outros países, e pipocam na mídia a todo o momento. Quase todos os dias ficamos sabendo de algum crime relacionado a homofobia, racismo, desrespeito aos direitos das mulheres... E também não é raro emergir, em certos momentos, ondas de discursos de ódio contra homossexuais, negros, mulheres e outras categorias sociais minoritárias, principalmente nas redes sociais, ambiente onde muita gente acha que tem liberdade total para escrever o que pensa.


Redes sociais: revelando preconceitos since 1997


Pois bem. Nesse cenário todo, o que me surpreende é que, mesmo em uma época na qual essas questões sociais são frequentemente debatidas, tais crimes ainda ocorram. Fala-se muito sobre o feminismo, sobre questões de gênero, raça, etnia, homossexualidade. Acompanhamos, também na mídia, debates, análises, considerações – e muitas delas realmente críticas e bem intencionadas – em defesa dos grupos minoritários. As informações estão aí, para qualquer um que queira se instruir, e já ficou mais do que claro que posturas preconceituosas e discursos de ódio têm sido cada vez menos tolerados. Ainda assim, essas posturas continuam aparecendo e os discursos continuam sendo feitos. Por quê?

É óbvio que, se determinado tipo de crime ou abuso está sendo noticiado e discutido, isso é algo bom. É sinal de que estamos numa sociedade democrática (embora eu ache que, às vezes, esse “democrática” precisa de algumas aspas), e que os crimes e abusos estão aparecendo – diferentemente de algumas décadas atrás, quando sexismo, racismo e homofobia aconteciam de forma mais velada e aceita. No entanto, suspeito que há, ainda, um pequeno fator no meio disso tudo ao qual a gente não dá atenção: em muitos casos, essas minorias são tratadas como problema. 




Um exemplo disso é o discurso segundo o qual o feminismo veio para solucionar "problemas" das mulheres. E isso é um sinal de algo ainda mais preocupante: a categoria "homem" raramente é questionada ou debatida. Quantas vezes você já viu alguém perguntar como é ser homem na sociedade brasileira? Obviamente, o status da mulher e a forma como ela é tratada no nosso país é algo frequentemente debatido, assim como ocorre com negros e homossexuais. Questionamentos sobre como “como é ser negro em uma sociedade racista” ou “como é ser homossexual em uma sociedade homofóbica” são bastante comuns. Mas, curiosamente, nunca vi alguém perguntar coisas do tipo “como é para você ser branco?” ou “como você se sente sendo heterossexual?”. E então, como é ser homem?

Pensando nessas questões, acredito que, muitas vezes, a forma como a mídia e nós mesmxs tratamos essas questões de ordem social e política acaba por fossilizar os grupos minoritários como se eles fossem espécies em análise, em algum laboratório, esperando pelas considerações de um pesquisador. E, no caso do feminismo, mesmo com a intenção de defendê-lo, acabamos tratando-o o como aquilo que precisa ser debatido, analisado, discutido. Ora, mulheres, gays e negros não são problemas, gente, e não devem ser pensados assim. Da mesma forma, as categorias “homem”, “branco” e “heterossexual” também não são rótulos neutros e podem (e devem) ser questionados e debatidos.

Se o status de certas categorias de identidade não é questionado ou debatido, isso acontece por uma razão muito simples: essas categorias são hegemônicas e construídas por mecanismos ideológicos há séculos. Cabe a nós, portanto, questionar esses mecanismos. Eles é que merecem nossa atenção e nossa análise. Esses processos é que precisam ser solucionados.

"Ninguém nasce mulher"... E ninguém nasce homem tampouco



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Sexismo em São Carlos

por Barbara Falleiros

As leitoras e leitores deste blog devem ter acompanhado, esta semana, o caso de hostilização de um grupo de estudantes feministas que protestava contra trotes sexistas na USP de São Carlos. Para quem ainda não soube do ocorrido, aqui vai o relato divulgado no Facebook por uma integrante da Frente Feminista de São Carlos, levemente resumido:

Todo ano ocorre aqui na USP São Carlos o Miss Bixete, evento no qual, após passarem pela "apelidação" (apelidos pejorativos e fazendo juízo de valor sobre seus corpos e sua sexualidade), as calouras são levadas pelos veteranos para que desfilem. Ao longo do desfile os veteranos gritam em coro "peitão, peitão, peitão" pedindo para que a caloura mostre os seios e incentivam que ela dance e exponha seu corpo. Uma prática também frequente nesse dia do "evento" é a "competição do picolé". Nesta competição, cada uma das calouras recebe um picolé e têm que chupá-lo simulando sexo oral. A que terminar o picolé primeiro "ganha".

Como resposta ao evento, nos últimos cinco anos, o Coletivo de Mulheres do CAASO (centro acadêmico) e Federal promovem um ato em boicote ao Miss bixete, a fim de tentar conscientizar o maior número de pessoas possível. Nesta última terça-feira, a Frente Feminista de São Carlos reuniu 50 pessoas para a manifestação em repúdio ao evento. A manifestação era pacífica e contava com instrumentos de batuque, músicas, faixas com palavras de ordem e panfletagem.


Retrato de um imbecil (não encontrei a foto original)
Ao longo da manifestação, integrantes do GAP (Grupo de Apoio a Putaria) e alunos da USP que participavam do evento, arrancaram e rasgaram alguns dos cartazes da manifestação, tentarem impedir nossa entrada no CAASO, jogaram cerveja, copos e duas bombas em nossa direção. Houve empurrões, tentativa de agressão, assédio às meninas e um grupo que, no final da manifestação, perseguiu com pedaços de pau os manifestantes. Como resposta a nossa faixa, os meninos do GAP simulavam ato sexual com uma boneca inflável diante da manifestação. Alguns participantes do evento tiraram as roupas e fizeram gestos obscenos, sempre se direcionando aos manifestantes e dizendo provocações como "isso aqui é para corrigir esse bando de viado e sapatão". A USP abriu inquérito para investigar a respeito dos alunos que ficaram nus e a mídia local tem se focado nisso.

Não sou antropóloga para sair teorizando sobre ritos de passagem, mas lá fui eu humildemente ler na Wikipedia sobre trotes estudantis. Aprendi que ritos de passagem proporcionam "o aprendizado de valores fundamentais para a vida no nível seguinte" e que os trotes são "ritos de passagem às avessas, representando uma prática oposta aos valores humanistas da universidade".

O calouro é encarado pelo veterano como algo (mais que um animal, mas menos que um ser humano) que deve ser domesticado pelo emprego de práticas humilhantes e vexatórias. Da mesma forma, denominar o calouro de bixo (ou bixete, se for mulher), parece querer indicar que o calouro deve ser humilhado a ponto de nem mesmo merecer que a palavra bicho seja escrita corretamente. (Zuin, 2002, p. 44).

O interessante, a meu ver, é que no caso de trotes sexistas não se trata de passagem por uma situação de constrangimento ritual - e portanto, pontual, isto é, delimitada no tempo (um dia, uma semana de trote) - que, ao seu fim, levará o indivíduo constrangido a ser aceito e em breve alçado ao mesmo nível hierárquico dos que o constrangeram. Em um trote sexista há apenas a reprodução e a perpetuação da violência, do menosprezo e dos abusos que as mulheres e/ou "minorias" sofrem cotidianamente e continuarão a sofrer em suas vidas muito tempo depois de terminado o trote.

Os comentários de leitores às reportagens que saíram no jornal ilustram bem o desconhecimento do discurso que sustenta esse tipo de prática sexista. "É só tomar um banho que passa" não funciona no caso de um trote sexista porque as meninas vão continuar sendo julgadas pelo seu corpo e porque o sexo oral, na nossa sociedade, vai continuar sendo associado à uma prática coerciva ou humilhante (lembrando que o "grito de guerra" de uma faculdade contra outra costuma ser o "Chupa!": "Chupa medicina!", "chupa engenharia!", "chupa Poli!" etc.). Nada disso provoca "engrandecimento". E é preciso que o discurso mude urgentemente do "se não quer não participe" para o "se ofende não organize"... Está na hora de começar a pensar.


Como tentamos mostrar em inúmeros posts aqui do blog, a carta do humor é utilizada de modo frequente para tirar o peso da violência, "maquiar" problemáticas sérias, reforçar, por exemplo, a chamada cultura do estupro. Diante da faixa de protesto com os dizeres "Somos mulheres, não bonecas infláveis. Temos ideias, não somos manipuláveis", os partidários do Miss Bixete se divertiram simulando sexo com uma boneca. Mulher objeto. Mais ainda, eles distribuíram folhetos de incitação à violência contra as mulheres baseados na capa do best seller - diga-se de passagem, criticado por muitas feministas - Cinquenta tons de cinza:  "Cinquenta golpes de cinta. A cura para o fogo no rabo dessa mulherada mal comida." Devem ter se divertido tanto e achado tanta genialidade no trocadilho. Mas qualquer um que parasse um segundo para refletir sobre a frase  não esboçaria nem mais um sorriso amarelo. A violência física contra as mulheres não é uma piada. Ela mata, de verdade, todos os dias.

Temos aqui no blog leitores machistas, cada vez mais fiéis, que a esta altura já devem estar digitando um comentário: "Mas na manifestação essas vadias ficam peladas, não ficam?" Nem se incomodem em escrever, essa reflexão já foi feita, por exemplo, aqui:

Que as calouras sejam pouco induzidas a participar do tal desfile não desculpa a existência de um evento em que jovens mulheres, que provaram sua capacidade intelectual ao serem admitidas em um vestibular concorrido, sejam imediatamente reduzidas ao valor de seus corpos ao pisarem na universidade. Além disso, nota-se que o mesmo tipo de raciocínio utilizado para culpabilizar vítimas de estupro ou violência aparece aqui, já que comentário faz recair o julgamento moral sobre as participantes do "concurso" ao invés de responsabilizar seus organizadores: tornaram-se "engenheiras respeitáveis" apesar de terem participado, apesar de seu "exibicionismo adolescente", e a culpa das que se sentissem pressionadas seria delas mesmas por não terem "estrutura psicológica".

O que mais dificulta, no entanto, os combates feministas contra discursos e práticas machistas do tipo deste trote é o fato das diversas manifestações de nudez serem facilmente confundidas. O que é que tem mostrar o pênis se as "feministas" - ou "esse pessoal" - mostram o peito?

Vamos esclarecer as coisas. O movimento das Femen, com o qual eu particularmente não me identifico e a respeito do qual mantenho as dúvidas colocadas aqui, contextualiza explicitamente a prática da nudez de suas manifestantes como estratégia para atrair a atenção da mídia tradicional.

Já o movimento da Marcha das Vadias surgiu em resposta a uma alegação de um policial canadense para quem "se as mulheres evitassem se vestir como vadias, não seriam estupradas". Sabemos que não é a roupa que causa o estupro mas as relações de poder, que desumanizam a mulher. Ironizando a fala do policial e mostrando que, segundo esse tipo de pensamento, toda mulher seria "vadia", as militantes da Marcha das Vadias costumam desfilar usando roupas curtas e algumas com seios nus, reivindicando o direito das mulheres de fazerem o que quiserem de seus corpos e pedindo o respeito total ao corpo feminino, contra sua sexualização exagerada. O que elas tentam mostrar é que a quantidade de pele exposta por uma mulher não é jamais um convite para que os homens se disponham de seu corpo como bem entenderem e sem consentimento.

Quanto aos pênis dos estudantes, fica claro que a nudez foi usada intencionalmente de forma violenta, ainda mais acompanhada de gestos obscenos e ameaças homofóbicas, como relatado ("Isso aqui é para corrigir esse bando de viado e sapatão"). O pênis, em si, não significa nada. Um pênis nu é tão inonfesivo quanto um seio de fora. Exceto quando ele é usado como órgão e símbolo de perpretação da violência, da humilhação e do ódio.

Agora dá para entender a diferença? Ela não é pequena.

Para terminar este post numa nota positiva: como foi dito acima, os protestos contra o evento Miss bixete acontecem há cinco anos e têm surtido efeito, já que o evento parece estar perdendo cada vez mais força - apesar do acontecido este ano, e esperamos que os responsáveis sejam sancionados pela Universidade. Parabéns para o Coletivo de Mulheres do CAASO e a Frente Feminista! Também fiquei agradavelmente surpresa com a quantidade de homens feministas na manifestação do coletivo. Liberdade, igualdade e respeito para todo mundo, e um ótimo ano escolar para todos os esperançosos que iniciam os melhores anos de suas vidas.





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Entre a verborragia e o silêncio



por Mazu 

Semana passada, escrevi sobre a escritora e acadêmica, Yadira Calvo, e suas posições sobre linguagem e discriminação de gênero. Na oportunidade, comecei o texto com o currículo dela, seus feitos, sua formação, seus prêmios. Essa pode parecer uma fórmula comum, você vai falar sobre alguém, você apresenta esse alguém primeiro, certo? Mas existem mais razões para esse tipo de introdução. Se a gente for analisar bem, o jeito que apresentamos o tema de que falamos já é uma forma de defendermos nossa posição. Então, comecei o texto com o “currículo dela” para dar a ela e, consequentemente, a mim, a autorização necessária para se pronunciar sobre os temas abordados e, consequentemente, legitimar os argumentos.

Não aguento quando
Esse exercício metalinguístico pode parecer meio deslocado, mas serve bem ao tema de hoje: o poder de falar, se pronunciar, de abrir a boca em qualquer instância de uma sociedade.

Bom, para começar, a gente sabe que vive em uma sociedade predominantemente sexista e preconceituosa, logo, não pode ser surpresa para ninguém que o direito de abrir a boca seja bem mais de uns que de outros. Determinados assuntos são especialidades dos homens, outros, das mulheres. Na minha vida profissional, na militância, percebo que os homens têm mais autorização para falar e são mais ouvidos quando fazem. Obviamente, isso já foi pior, afinal, participamos, as mulheres, da vida política e profissional da nossa sociedade há pouco tempo. Contudo, em determinadas instâncias, muito ainda falta para que esse direito de abrir a boca, essa autorização para falar a que me referi acima, seja assim fácil para nós como é para os homens.

Alguém poderia dizer que exagero ou que as mulheres, na realidade, falam bem mais que os homens, mas o direito de se pronunciar, de que falo aqui, é o direito de ser ouvida e não só sobre temas ditos femininos, mas sobre tudo, inclusive ciência, política ou sexo. Vou ilustrar com duas matérias da mesma revista sobre o mundo feminino. Antes de mais nada, vou dizer, gosto da Superinteressante, mas quando era mais nova fui instruída pelo meu professor de física do colégio a tomar cuidado com as publicações porque eles, às vezes, pegavam um dado pequeno, um indício, e embasavam uma afirmação categórica sobre alguma coisa. Esta matéria é um bom exemplo disso. Outras matérias têm como objetivo derrubar mitos científicos, tipo esta aqui. 

Detalhe da segunda matéria
De verdade, não vou entrar no mérito científico das matérias, especialmente, porque elas me fizeram pensar sobre questões culturais. Questões culturais que explicariam bem mais o falar e o não falar de homens e mulheres. Entre o falar demais e o sofrer calada pode haver menos espaço do que a gente imagina. Foi por isso que disse que, em determinadas instâncias, falta-nos voz, em outras situações, a voz é obrigatoriamente nossa, por exemplo, quando se trata da criação dos filhos parece que as mães sabem mais que os pais. Existem também limites do que falar impostos aos homens, por exemplo, sentimentos, moda, por aí vai. Quando um homem se aventura por essas áreas, ele sempre é enquadrado em alguma espécie de estereótipo.

Em algumas áreas, como política e ciência, o caminho para se ter voz é, ainda, mais complicado para as mulheres, não dá para negar. É só olhar ao redor, ver os números. O trajeto que é necessário para se ocupar um lugar que permita o posicionamento pode variar muito quando se é homem e quando se é mulher. 

Comentário na primeira matéria, ilustrando o senso comum sobre os dizeres femininos e a falta que as vírgulas fazem

Como já existe uma preferência perceptível, mas não expressa, por profissionais masculinos, quando uma mulher chega a uma determinada posição, a formação e a experiência dela precisa ser bem maior.  E ela sempre vai ser mais questionada e se questionar mais que os homens porque nós somos educados assim.

Hoje e, não se enganem, só hoje, porque são eventos contemporâneos mesmo, a gente chega lá, ocupa esse ou aquele espaço, emite opinião especializada. Ainda assim, se a gente reparar bem, o nosso trabalho, nessas áreas em especial, sempre passa pelo filtro do sexismo. A Sheryl Sanberg, por exemplo, é um ícone do mundo dos negócios, mas tem quem se refira a ela como babá do Zuckerberg. Nossa presidenta, nos seus acertos ou nos seus erros, nunca escapa desse ou daquele comentário sobre sua aparência física ou sexualidade. E o mais engraçado disso é que a gente nunca teve um presidente com aspecto físico padrão, tipo bonitão, em contrapartida, só a Dilma é agraciada com esse ou aquele comentário.

Na vida profissional, é possível perceber a relação de competência com exigência. Isso funciona com homens e mulheres, mas os rótulos são sempre diversos. O chefe é bravo, exigente, a chefe é mal comida, encalhada, histérica.

Acontece bastante, quando se é mulher, de ouvir comentários sobre seu aspecto físico durante uma discussão ou no desempenho de uma função que não seja minimamente relacionada à aparência ou à sexualidade. “Feia”, “gorda”, “mal-comida” ou até mesmo “linda” são formas de lembrar que por mais competente ou inteligente que uma mulher seja, ela é uma mulher. E, na nossa sociedade, há uma crença de que mulher que fala demais, reclama demais, não é feliz sexualmente. Mulher satisfeita e que satisfaz vive calada. A triste ironia disso é que, nessa mesma sociedade, as autoridades precisam fazer campanhas e campanhas para que vítimas de violência contra a mulher se pronunciem.

Por isso, disse que entre o falar demais aqui e o falar de menos ali quase não há distância, já que ambos se originam de um mesmo problema, a imposição social do que uma mulher deve dizer ou não, e toda a discriminação decorrente de sua decisão de dizer ou não dizer em certas situações.