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por Tággidi Ribeiro
O projeto de lei 60/99, que determina atendimento multidisciplinar e imediato às vítimas de violência sexual, foi aprovado recentemente pela câmara dos deputados. Está à espera, agora, do nosso senado. Se esta casa também o aprovar, todos os hospitais públicos do país (ou conveniados ao SUS) serão obrigados a atender vítimas de violência sexual em suas especificidades: profilaxia para a gravidez e aids, atendimento psicológico, diagnóstico e tratamento de áreas lesionadas e preservação de material que possa configurar prova da agressão, além de encaminhamento à delegacia (especializada, se houver).
Obviamente, esperamos que esse projeto seja aprovado e se torne realidade em nossos hospitais. Mas enquanto isso não acontece (sem contar que pode mesmo nem chegar a acontecer), o que podemos fazer caso sejamos vítimas de estupro?
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| Beber não é crime. Estupro é. |
Em primeiro lugar, precisamos esclarecer que crime é esse. Estupro, para o senso comum, é o ato sexual com penetração praticado mediante violência física. Já para o direito penal brasileiro, o crime de estupro tem duas tipificações: 1) estupro: forçar alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso; 2) estupro de vulnerável: ter conjunção carnal ou praticar ato libidinoso com menor de 14 anos ou com alguém que, por qualquer motivo, não tenha o necessário discernimento para a prática ou não possa oferecer resistência.
Dadas essas definições, precisamos atentar para duas coisas: 1) estupro não é só ato sexual com penetração; 2) a diferença entre os dois tipos é que, no primeiro caso, a vítima é/está consciente e autônoma; no segundo, ela não é/está autônoma e/ou consciente. Considera-se, aqui, a capacidade de tomada de decisão, de consentir ou não o ato sexual, e a chance de resistência por parte da vítima, caso não o consinta. Para exemplificar: se nosso chefe nos coagiu a fazer sexo ameaçando-nos de difamação, ele cometeu estupro; se ele nos embriagou e nos deixou inconscientes, ele cometeu estupro de vulnerável.
Em qualquer situação, a primeira coisa a fazer é ter uma certeza: a culpa não foi nossa. Não foi a nossa saia, nem o decote, nem a bebedeira, nem o 'não' que 'deveríamos' ter gritado, mas não conseguimos. A culpa do estupro é do estuprador. Só dele - seja ele desconhecido ou amigo, namorado, marido, pai. Digo isso porque é dessa certeza que vamos precisar para denunciar o criminoso (saiba como) e também para responder às desconfianças e mesmo acusações que deverão recair sobre nós. Se houver como, se nos sentirmos fortes para isso, se nos lembrarmos... podemos guardar provas, materiais ou não: tirar fotos, fazer vídeos, gravar a fala, guardar alguma característica peculiar do estuprador (caso seja desconhecido), placa de carro ou mesmo pelos que porventura fiquem em nós, para exame de DNA. É imprescindível ir ao hospital o mais rápido possível - nada de tomar banho, mesmo que queiramos mais que tudo: é imprescindível fazer profilaxia anti-HIV e da gravidez e isso é mais importante que tentar preservar provas, como a presença de sêmen ou lesões corporais.
Enfrentar o mundo: a dor, a culpa, a decisão, o hospital, a possibilidade de ficar grávida ou de contrair qualquer DST, o medo, a delegacia, o possível despreparo dos profissionais - vamos precisar de suporte. Não podemos ter vergonha (a culpa não é nossa!) de contar e pedir ajuda aos nossos pais e amigos, porque estaremos apenas começando.
Pais, parentes e amigos de prováveis vítimas de estupro (que somos todas nós, mulheres de qualquer idade, cis e trans): o próximo post vai falar de vocês.
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por Roberta Gregoli
Naomi Wolf é feminista, autora de sete livros, três dos quais foram traduzidos para o português: além do famoso O mito da beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres, também Fogo com fogo e Promiscuidades: A luta secreta para ser mulher. A entrevista para o WOW se concentra no seu livro mais recente, Vagina.
O título já reivindica uma palavra ainda considerada tabu, pelo menos em língua inglesa, e, ao mesmo tempo em que é ousado, é também uma ótima estratégia de marketing. O subtítulo, "A New Biography", faz alusão a uma parte biográfica polêmica, na qual Wolf descreve os problemas de saúde decorrentes da compressão de um nervo pélvico, que resultou na falta de sensação sexual e - o que para ela foi o momento eureka - na perda do que ela chama de 'estados positivos de consciência', ou seja, num estado de depressão. A partir dessa descoberta pessoal da conexão entre cérebro e vagina, o livro se propõe a investigá-la a fundo, fazendo um levantamento de estudos e entrevistas com médicos e cientistas.
O título já reivindica uma palavra ainda considerada tabu, pelo menos em língua inglesa, e, ao mesmo tempo em que é ousado, é também uma ótima estratégia de marketing. O subtítulo, "A New Biography", faz alusão a uma parte biográfica polêmica, na qual Wolf descreve os problemas de saúde decorrentes da compressão de um nervo pélvico, que resultou na falta de sensação sexual e - o que para ela foi o momento eureka - na perda do que ela chama de 'estados positivos de consciência', ou seja, num estado de depressão. A partir dessa descoberta pessoal da conexão entre cérebro e vagina, o livro se propõe a investigá-la a fundo, fazendo um levantamento de estudos e entrevistas com médicos e cientistas.
Na entrevista, Wolf defende que o tema da libertação sexual feminina está longe de esgotado, tendo que vista que, apesar das quatro décadas desde a revolução sexual, apenas 30% das mulheres (a referência é a mulheres estadunidenses) chegam ao orgasmo e cerca de 30% vivem em estado de baixa libido. A hipótese, interessantíssima, é que mulheres sexualmente satisfeitas são mais difíceis de serem subjugadas, e o estupro como arma de guerra comprova a hipótese pelo reverso.
O uso de estudos com base na biologia pode ser potencialmente problemático se ignorar a biologia e a medicina enquanto conjuntos de práticas e discursos construídos na cultura e moldados por ela, ou seja, se forem tomados como universais e imutáveis. O debate entre natureza e cultura é amplo e argumentos puramente biológicos correm o risco de essencializar 'o feminino'. Como uma pessoa da plateia levantou na hora das perguntas, ao focar na vagina, ficam excluídas, por exemplo, as mulheres transgênero. Wolf se saiu bem dizendo que não encontrou material científico suficiente sobre mulheres transgênero para elaborar sobre o tema, mas não endereçou o problema fundamental de reduzir a experiência feminina à vagina.
Sem ter lido Vagina para poder opinar com propriedade (quem tiver lido fique à vontade para comentar abaixo), a ideia de subverter o discurso médico tradicional, mais afeito à patologização das mulheres, e substituí-lo por novos discursos afirmando o prazer feminino - esse tópico sobre o qual nenhuma 'boa moça' deve falar - é sempre bem-vinda. Num presente em que o slut-shaming continua vivo e ativo, salutamos trabalhos na direção de substituir as narrativas de vergonha e doença associadas ao sexo por narrativas positivas de prazer, reforçando a associação entre sexo e libertação feminina.
14 de março de 2013
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O mundo novo que se descortina e afronta essas religiões dá ao indivíduo a possibilidade de ser ele mesmo - de não representar papeis, de não sofrer com imposições, de fazer suas escolhas, de não ter seu quarto e sua intimidade invadidos pelos dedos acusadores de deus.
Obviamente, sempre haverá um olho dentro de nossos quartos - mas um olho benéfico tenta impedir que estupremos outras pessoas, abusemos de crianças, batamos em nossos companheiros, enfim, que cometamos atos não consentidos entre as partes, ou falsamente consentidos, e que causem dor física e psicológica.
Que fique claro o que chamo de ato falsamente consentido: a filha que 'deixa' o papai abusar sexualmente dela não consentiu; o menino que 'deixa' o padre abusar sexualmente dele não consentiu; a esposa que mesmo não querendo 'deixa' o marido fazer sexo com ela não consentiu. As figuras de autoridade do pai, do padre, do marido usam de seu poder para impor seu desejo ao outro e, então, o culpam. Ou vocês não se lembram do padre que disse, sobre milhares de denúncias de pedofilia na Igreja Católica, que os jovens são culpados por seus abusos, pois provocam? Ou do padre que, ilustrando um estupro com caneta e bocal, disse que não há estupros?
Enfim, o que quero dizer é que a sagrada família das igrejas homofóbicas e misóginas deveria ser chamada de monstruosa família porque comporta todos os crimes cometidos por sua máxima autoridade: o pai. Essas igrejas sempre toleraram o estupro, o abuso, a violência doméstica, a tortura psicológica, até porque elas cometiam e cometem esses mesmos crimes, tendo também deus, o pai, como máxima autoridade. Não por acaso, na Bíblia, o estupro de uma mulher é uma desonra para o pai ou para o marido, mas preferível ao estupro de um homem, como se vê em Juízes, 19.
Não se iludam, um deus homofóbico e misógino foi construído à semelhança do homem e, da mesma forma, a família de suas religiões. Esta, afrontada pela igualdade, sucumbirá toda vez que um marido estuprar uma mulher (seja ela sua parenta ou não) ou nem se formará, pois homossexuais deixarão de sofrer repressão, poderão casar-se e ter filhos, se quiserem. Outras famílias se formarão, mais justas e mais felizes.
Esse é o verdadeiro terror das igrejas: gente feliz. Gente feliz esquece de dar dinheiro pra igreja com muita facilidade, ou se esquece da própria igreja. Se fôssemos felizes, Marco Feliciano não existiria.
por Tággidi Ribeiro
"A família é sagrada. Lutamos para proteger a família." Esse é o discurso da Igreja Católica e das igrejas evangélicas ao condenar a homossexualidade e o feminismo. De fato, homossexualidade e feminismo são uma ameaça à única forma de família aceita por essas religiões, qual seja, a que conta um pai homem e uma mãe mulher, unidos sob quaisquer circunstâncias até a morte. E filhos, claro.
A homossexualidade é ameaça porque tira da berlinda o homem que ama outro homem e a mulher que ama outra mulher, não os obrigando a casar para manter as aparências, como muito comumente acontecia - e acontece. Quem tem amigos gays sabe que há muitos, sim, muitos homens (sobretudo), mas também mulheres homossexuais que vivem a chamada vida dupla. Você aí casada ou casado, nem suspeita, mas pode estar casado (a) com um (a) homossexual.
O feminismo, por seu turno, afirma a insubmissão da mulher, iguala-a ao homem em direitos e deveres. O feminismo vem para dizer que, em primeiro lugar, a vida da mulher já é uma vida completa e não depende de um homem ou um filho para se 'realizar'. A mulher que se entende como vida que vale por si pode permanecer solteira e sem filhos, ou separar-se caso julgue que sua relação não lhe é proveitosa, o que certamente é uma ameaça à família das igrejas homofóbicas e misóginas.
O feminismo, por seu turno, afirma a insubmissão da mulher, iguala-a ao homem em direitos e deveres. O feminismo vem para dizer que, em primeiro lugar, a vida da mulher já é uma vida completa e não depende de um homem ou um filho para se 'realizar'. A mulher que se entende como vida que vale por si pode permanecer solteira e sem filhos, ou separar-se caso julgue que sua relação não lhe é proveitosa, o que certamente é uma ameaça à família das igrejas homofóbicas e misóginas.
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| Não: racismo, sexismo, homofobia, violência. Amor. Paz. |
Obviamente, sempre haverá um olho dentro de nossos quartos - mas um olho benéfico tenta impedir que estupremos outras pessoas, abusemos de crianças, batamos em nossos companheiros, enfim, que cometamos atos não consentidos entre as partes, ou falsamente consentidos, e que causem dor física e psicológica.
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| Criminosos elegem o novo papa da igreja. (Clique para ampliar) |
Enfim, o que quero dizer é que a sagrada família das igrejas homofóbicas e misóginas deveria ser chamada de monstruosa família porque comporta todos os crimes cometidos por sua máxima autoridade: o pai. Essas igrejas sempre toleraram o estupro, o abuso, a violência doméstica, a tortura psicológica, até porque elas cometiam e cometem esses mesmos crimes, tendo também deus, o pai, como máxima autoridade. Não por acaso, na Bíblia, o estupro de uma mulher é uma desonra para o pai ou para o marido, mas preferível ao estupro de um homem, como se vê em Juízes, 19.Não se iludam, um deus homofóbico e misógino foi construído à semelhança do homem e, da mesma forma, a família de suas religiões. Esta, afrontada pela igualdade, sucumbirá toda vez que um marido estuprar uma mulher (seja ela sua parenta ou não) ou nem se formará, pois homossexuais deixarão de sofrer repressão, poderão casar-se e ter filhos, se quiserem. Outras famílias se formarão, mais justas e mais felizes.
Esse é o verdadeiro terror das igrejas: gente feliz. Gente feliz esquece de dar dinheiro pra igreja com muita facilidade, ou se esquece da própria igreja. Se fôssemos felizes, Marco Feliciano não existiria.
12 de março de 2013
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por Thaís Bueno
Desde que comecei a contribuir para este blog, venho pensando em dedicar um post à minha experiência pessoal do nascimento do Pedro, meu filho. Quem acompanha este blog sabe que alguns posts já se dedicaram às questões e aos (vários) problemas relacionados à forma como a maternidade se dá no Brasil. Aqui e aqui, você teve a oportunidade de encontrar informações valiosas e ótimas reflexões sobre as consequências de um sistema que, obviamente, por questões econômicas, privilegia o parto por cesariana nos hospitais, e o resultado negativo que isso tem para mães e bebês.
Pois bem, minha experiência começou quando eu descobri que estava grávida e que em nove meses teria o Pedro. Apesar de a gravidez não ter sido planejada, eu não cheguei a pensar em aborto (não porque eu fosse contra o aborto - muito pelo contrário -, e sim porque sou a favor da vida). Depois daquela sensação “uau, eu não esperava por isso”, veio a sensação “então, vamos ver o melhor jeito de passar por essa gravidez, para mim, para o bebê e para o pai”.
A partir daí, foi um longo e maravilhoso processo, de nove meses, em que o aprendizado sobre muitas coisas foi bem mais relevante do que enjoos e outros detalhes. Entre as coisas que eu aprendi na prática e que eu gostaria de compartilhar, estas foram as mais valiosas:
1. A gravidez também é do pai da criança, em todos os sentidos e em todos os momentos. Obviamente, muita gente já sabe disso e vive repetindo que o homem deve participar do processo (ou “ajudar”, que é um termo que eu abomino). Mas, na prática, pela divisão de tarefas que temos em nossa sociedade, é muito fácil desistirmos de incluir o pai no processo, quando, por exemplo, você precisa ir a uma consulta pré-natal e o pai não pode ir porque precisa trabalhar. Situações como essa são só o começo de toda uma sequência de dificuldades. E, na outra ponta, está o parto em si, momento do qual, em boa parte dos casos, o pai não participa ativamente. E isso pode acontecer porque ele não tem vontade de participar, porque não “tem estômago” (ou melhor, foi ensinado a não ter) ou, simplesmente, porque o hospital não permite que ele entre na sala de parto (sim, é absurdo, mas acontece). Isso quando o hospital não cobra uma taxa para que o pai esteja presente no nascimento da própria criança.
Nos dias de hoje, nos grandes centros (infelizmente, cidades menores ainda carecem de grupos de parto alternativo), temos opções maravilhosas para o parto, que não só colocam o pai como parte ativa no processo, mas tiram de campo a figura do médico como aquele que vai determinar o curso da experiência. Nesse caso, a intervenção do obstetra é desnecessária, a menos que uma complicação ocorra. Mas, se tudo corre bem, o parto é, exclusivamente, do bebê, da mãe e do pai. E ponto final. Tirar de qualquer uma dessas três pessoas o direito de participar ativamente do processo é uma violência.
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| Cena do filme "O Sentido da Vida", do grupo Monty Python: "É menino ou menina?" "Acho que é um pouco cedo para começar a impor papéis à criança, não?" |
2. A gravidez e o parto em si são experiências valiosíssimas para aprendermos e termos mais consciência de nosso corpo. E esse aprendizado vem tanto nas leituras que você faz durante a gravidez (sim, é importantíssimo ler e se informar de tudo o que vai acontecer com você e o bebê) quanto na prática e na experiência do parto. Por exemplo, você aprende que nenhum corpo gera algo que ele não seja capaz de comportar – ou seja, aquela velha desculpa de que “o bebê é grande demais para que a mãe tenha um parto normal” é, em boa parte dos casos, pura balela, e não pode nem deve justificar uma cesárea violenta.
Você aprende, também, que o corpo não é só uma máquina separada da mente e comandada por ela. O corpo é muito mais complexo que isso, tem memória e subjetividade, e tudo isso aflora no momento do parto (se isso for permitido à gestante, claro). A experiência do parto normal é, para a gestante, literalmente, a possibilidade de se abrir ao mundo e assumir todas as qualidades que ela tem e que ficam guardadas devido a códigos de moral e de comportamento que nossa cultura nos impõe. Se você tem consciência disso, passa a entender a dor e o grito de forma totalmente diferente como são normalmente entendidos: dor e grito não significam sofrimento, e sim partes do processo, com suas respectivas funções. A dor e o grito nos conectam a uma dimensão do nosso ser que por muito tempo é reprimida e negligenciada, que foge aos padrões aceitos por nossa sociedade, e justamente por isso dor e grito são tão evitados em uma sala de parto convencional. Por isso, no ambiente de um hospital convencional, a mulher não deve sentir dor e também não deve gritar – pelo contrário, ela deve passar por tudo aquilo quieta, deitada, submissa às ordens de uma equipe de médicos e enfermeiras que, supostamente, sabem mais sobre seu corpo do que ela mesma. Mais uma violência.
3. A educação e a forma como as informações circulam em nosso país não ajudam, mas é importantíssimo estar ciente de tudo que determina a forma como o sistema de saúde se estrutura e o porquê de tantas cesarianas acontecerem em nosso país. Mães e pais devem ler e se informar a respeito dessas questões, e não apenas se basear naquilo que o médico diz durante as consultas. Muita gente sabe e já cansou de ouvir em programas de TV que o Brasil tem, todo ano, um número elevadíssimo de cesáreas desnecessárias sendo realizadas em seus hospitais. O que esses jornais não falam é que uma cesárea é muito, mas muito mais lucrativa para o hospital do que um parto normal. Eu não sou administradora hospitalar, mas sei que uma cesárea é um procedimento agendado, ou seja, o processo é muito mais rápido do que um parto normal, que pode (e atenção aqui para o "pode") levar horas e horas. Isso sem falar em todos os procedimentos médicos, ultraviolentos, todo o equipamento e todos os produtos farmacêuticos utilizados em uma cesárea e que, portanto, geram dinheiro para muita gente. Já o parto normal, além de mais longo, geralmente não exige intervenção médica, e por isso o lucro do hospital é menor.
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| Pesquisa realizada na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP [1] |
Nesse sentido, é necessário que mãe e pai se informem não apenas para ficarem cientes do processo e para garantirem um nascimento saudável e humanizado, mas como postura política mesmo. Em nossa sociedade, tudo o que não gera lucro pode ser considerado algo politicamente subversivo. E não falo de ONGs, pois sabemos que ONGs (ou a grande maioria delas) geram, sim, lucro. Falo de práticas saudáveis não apenas durante a gravidez, mas durante toda a vida da criança (a alimentação e a educação infantil são outros capítulos da mesma história, que igualmente podem ser entendidos e praticados de forma crítica e política).
Durante minha gravidez, o pai do Pedro e eu tivemos duas opções para o parto: por um plano de saúde privado, em minha cidade natal, onde toda a família mora e poderia ajudar no processo pós-parto; ou em um centro de saúde localizado dentro da universidade onde eu estudava, em Campinas, e que contava com uma equipe de parto humanizado e apoio fisioterápico e psicológico, que me seria oferecido pelo SUS.
Obviamente, a segunda opção me oferecia muito mais vantagens, mas a sigla SUS assusta muita gente (e eu mesma via o SUS como um cenário pós-apocalíptico). E a dúvida ia ficando cada vez maior, sem que conseguíssemos tomar uma decisão. Até que, em uma conversa com uma grande amiga, ela me falou: “Thaís, se você escolher o plano de saúde particular, o parto vai acabar em cesárea”. Depois disso, não tive mais dúvidas: fiz todo o pré-natal pelo SUS, longe da família, contando com o pai durante o parto, que foi natural e sem intervenção médica. Foi uma experiência maravilhosa e determinante para quem eu sou hoje (e também para o Pedro e para o pai dele).
Ou seja, meu conselho é: se está em dúvida, não tenha medo de colocar um grupo de parto humanizado na sua lista de opções para o nascimento de seu filho, ainda que o grupo signifique um parto pelo SUS. Informe-se, leia (hoje em dia há muita informação sobre parto humanizado em grupos na internet) e procure ser críticx, politicamente falando. Porque o que é politicamente bom para toda a sociedade também vai ser para seu bebê.
E para finalizar: a amiga sobre a qual escrevi e que foi tão importante para nós é hoje
madrinha do meu filho. Escrevo este post em agradecimento a ela.
OBS.: As atividades do Grupo de Parto Alternativo, do qual participei durante minha gravidez, acontecem no Caism - Centro de Apoio Integrado à Saude da Mulher), localizado dentro da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas.
[1] BARALDI, Ana Cynthia Paulin; DAUD, Zaira Prado; ALMEIDA, Ana Maria; GOMES, Flávia Azevedo; NAKANO, Ana Márcia. Gravidez na adolescência: estudo comparativo de usuárias das maternidades públicas e privadas. Disponível aqui. Acesso em: 11 mar. 2013.
11 de março de 2013
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A questão aqui é a forma como somos educados, a Júlia já falou disso aqui, e já indiquei leitura sobre isso aqui. Enfiam na cabeça das meninas desde cedo que a limpeza é uma de suas características: ser porquinho, para um menino, é feio, para uma menina, uh, é a desgraça da família. Isso pode ser um problema, por exemplo, para as meninas que gostam de coisas mais atléticas. Pode ser um problema para mulheres que não curtem trabalho de casa, já que se a casa está suja a culpa é da mulher que habita a casa. Até quando eu morei em república mista, eu sentia isso. Outra coisa que sinto é que estas meninas (que não curtem trabalho de casa) são a maioria e sempre foram. A diferença é que, hoje, a gente tem um pouco mais de voz.
Por sua vez, a bola fora da marca Vanish é um pouco mais sutil. Para começar, algumas pessoas podem achar a propaganda agradável aos olhos. Mesmo que seja, para quem gosta de branquelões sarados, de certa forma, a propaganda também define seu nicho: as mulheres. Não só pelas imagens dos branquelões sarados, porque talvez os homens gays curtam, mas porque também diz “o que uma mulher merece?”. Parece até homenagem, mas está dizendo que a gente merece várias coisas, depois que lavarmos a roupa. O que também pode soar agradável é que eles perguntam se o companheiro tem "ajudado" em casa. Bom, qual é o problema desse verbo "ajudar"? Você ajuda quando não é sua obrigação, certo? E isso é phoda, a maioria dos homens foi criada para não entender tarefas domésticas como suas obrigações, logo, se quiserem, eles “ajudam”.
O outro lado disso é quando eles ajudam, nossa, é uma festa, ganham até medalha. Nossa, um homem que ajuda em casa é um partidão! Cara, isso é ruim porque é injusto, quando algo se torna sua obrigação, ninguém agradece, quando você ajuda, quase sempre agradecem. Então, quando a mulher faz e faz bem, ninguém menciona, se faz mal, sim, a desgraça da família. Agora, um homem, quando faz o mínimo de tarefa de casa é um herói. É injusto e é padrão duplo. O que eu gostaria de ver mesmo é a divisão justa e igual das obrigações. A casa e os filhos não são mais da esposa do que são do marido. E eu digo isso até para questões legais, no caso de um divórcio, o que tem de errado um homem ficar com a casa e a guarda das crianças se isso for melhor para todo mundo? Por que isso deveria causar algum escândalo?
Existem homens bem habilidosos nas tarefas domésticas e mulheres nem tanto. Acho que essas pessoas não se mostram porque existem ainda esses estigmas bobos que fariam com que elas fossem julgadas dessa ou daquela maneira.
Por essas e por outras que as feministas "chatas" vão sempre pegar no pé dos publicitários e publicitárias, eles estão com a faca e o queijo na mão para demonstrar que não estamos mais no século XVIII, eles têm acesso aos maiores canais de divulgação. Não são eles que criam os padrões, mas eles têm a capacidade de legitimá-los e reforçá-los. De minha parte continuo achando que seria tipo mágico viver em uma sociedade em que o limite do que a gente pode e deve fazer fosse o respeito pelo outro e não esses preconceitos bestas do que se espera de um homem, do que se espera de uma mulher.
por Mazu
Existem muitos estigmas sociais que marcam as mulheres, existem os mais novos e os mais antigos. A questão da limpeza, que provavelmente tem algo que ver com a da pureza, é provavelmente um dos estigmas mais antigos. Do meu ponto de vista, um dos mais irritantes. Ele se manifesta de várias maneiras e em várias situações, hoje, vou listar três que, especialmente, chamaram minha atenção nos últimos dias.
No banheiro do trabalho, agora, existem várias mensagens do que a mulher tem que fazer para "não jogar a compostura pelo ralo", todas essas mensagens que aparentemente nos ensinam a ter compostura trazem princípios básicos de higiene e até um princípio errado de higiene (diz que devemos deixar a tampa levantada, quando a gente sabe que dar descarga com a tampa levantada espalha partículas pelo banheiro inteiro). Sinceramente, não me oponho às questões de higiene e ficaria mais feliz se as pessoas as seguissem, agora, por que cargas d'água isso tem algo com a minha compostura? Lógico, porque somos mulheres e isso significa que temos que ser limpinhas. Perceba, não estou dizendo que as mulheres nem os homens devem ser sujinhos, só estou tentando mostrar que higiene para mulher é quase uma questão moral. Vai vendo. No banheiro dos homens, não tem nada para ler. Coitadinhos.
Enfim, algo me diz que esse estigma da pureza e da limpeza é o que transformou a gente nas faxineiras oficiais do mundo. Aparentemente, nenhum homem pode fazer uma faxina melhor do que uma mulher. A gente sabe que isso é mentira, cuidar da casa é uma tarefa super difícil, mas todos e todas podemos aprender. Bom, nessa de limpeza ser tarefa de mulher, tudo que diz respeito à faxina, cuidar da casa e cuidar dos homens está voltado para o público feminino. Bons exemplos são estes dois materiais promocionais das marcas Veja e Vanish.
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| Captura de tela do site da Vanish: a gente limpa primeiro, depois vamos trabalhar e conquistar nosso espaço |
A questão aqui é a forma como somos educados, a Júlia já falou disso aqui, e já indiquei leitura sobre isso aqui. Enfiam na cabeça das meninas desde cedo que a limpeza é uma de suas características: ser porquinho, para um menino, é feio, para uma menina, uh, é a desgraça da família. Isso pode ser um problema, por exemplo, para as meninas que gostam de coisas mais atléticas. Pode ser um problema para mulheres que não curtem trabalho de casa, já que se a casa está suja a culpa é da mulher que habita a casa. Até quando eu morei em república mista, eu sentia isso. Outra coisa que sinto é que estas meninas (que não curtem trabalho de casa) são a maioria e sempre foram. A diferença é que, hoje, a gente tem um pouco mais de voz.
As mulheres trabalhando fora de casa também é um fenômeno mais ou menos recente. Inclusive, hoje, quase 40% dos lares brasileiros são mantidos por mulheres. E, sério, que pessoa, depois de um dia de trabalho, chega em casa a fim de fazer faxina? Ou quer passar o final de semana assim? Quem gostaria disso?
Uma das minhas colegas do trabalho tem dois filhos e um marido, todos eles trabalham menos e trazem menos renda para casa, e é ela que faz faxina, lava a roupa e cozinha. Já perguntei, por que eles não fazem nada? E ela me disse que quando fazem, fazem errado. Há! Esse é o truque mais antigo do mundo, tenho quase certeza que fui eu quem inventou. Toda vez que meus pais me pediam para fazer alguma coisa que eu não queria, eu fazia errado para não ter que fazer mais. Para não ser injusta, podemos dizer que ninguém os ensinou, logo, eles não sabem. Mas se as meninas aprendem, tenho certeza, que os meninos aprendem.
Falando agora dos materiais promocionais, acho que a bola fora da marca Veja foi mais explícita, eles receberam muitas críticas e mudaram a apresentação da sua página no Facebook. O grande problema foi o termo escolhido, usar o termo "mulher" é excluir os homens do seu nicho. A gente já discutiu isso, se usarmos "homem" a gente pode estar falando da humanidade inteira, assim como o masculino engloba toda uma coletividade, ainda que os homens, num determinado grupo, sejam minoria. Agora dizer "mulher" é só para mulher, nada mais.
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| Arte de Laís Bicudo para o Subvertidas |
Por sua vez, a bola fora da marca Vanish é um pouco mais sutil. Para começar, algumas pessoas podem achar a propaganda agradável aos olhos. Mesmo que seja, para quem gosta de branquelões sarados, de certa forma, a propaganda também define seu nicho: as mulheres. Não só pelas imagens dos branquelões sarados, porque talvez os homens gays curtam, mas porque também diz “o que uma mulher merece?”. Parece até homenagem, mas está dizendo que a gente merece várias coisas, depois que lavarmos a roupa. O que também pode soar agradável é que eles perguntam se o companheiro tem "ajudado" em casa. Bom, qual é o problema desse verbo "ajudar"? Você ajuda quando não é sua obrigação, certo? E isso é phoda, a maioria dos homens foi criada para não entender tarefas domésticas como suas obrigações, logo, se quiserem, eles “ajudam”.
O outro lado disso é quando eles ajudam, nossa, é uma festa, ganham até medalha. Nossa, um homem que ajuda em casa é um partidão! Cara, isso é ruim porque é injusto, quando algo se torna sua obrigação, ninguém agradece, quando você ajuda, quase sempre agradecem. Então, quando a mulher faz e faz bem, ninguém menciona, se faz mal, sim, a desgraça da família. Agora, um homem, quando faz o mínimo de tarefa de casa é um herói. É injusto e é padrão duplo. O que eu gostaria de ver mesmo é a divisão justa e igual das obrigações. A casa e os filhos não são mais da esposa do que são do marido. E eu digo isso até para questões legais, no caso de um divórcio, o que tem de errado um homem ficar com a casa e a guarda das crianças se isso for melhor para todo mundo? Por que isso deveria causar algum escândalo?
Existem homens bem habilidosos nas tarefas domésticas e mulheres nem tanto. Acho que essas pessoas não se mostram porque existem ainda esses estigmas bobos que fariam com que elas fossem julgadas dessa ou daquela maneira.
Por essas e por outras que as feministas "chatas" vão sempre pegar no pé dos publicitários e publicitárias, eles estão com a faca e o queijo na mão para demonstrar que não estamos mais no século XVIII, eles têm acesso aos maiores canais de divulgação. Não são eles que criam os padrões, mas eles têm a capacidade de legitimá-los e reforçá-los. De minha parte continuo achando que seria tipo mágico viver em uma sociedade em que o limite do que a gente pode e deve fazer fosse o respeito pelo outro e não esses preconceitos bestas do que se espera de um homem, do que se espera de uma mulher.
10 de março de 2013
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