2
Por Thaís Bueno
Onde foi que aprendi sobre liberdade
![]() |
| Movimento de ativistas afegãs pelos direitos das mulheres |
Visitando alguns blogs que gosto de acompanhar, topei com um post de uma ativista pelos direitos das mulheres, nascida no Afeganistão, chamada Noorjahan Akbar. Não conhecia nada sobre ela, nem sobre o trabalho que ela realiza. Comecei a ler o post, sem esperar muito, e, no final, estava encantada com as palavras que ela trazia e com a forma como ela descreve sua cultura.
Nos dias de hoje, em que discussões sobre injustiça política e social, identidade e cultura estão pipocando a todo momento, é importante ter em mente que, independentemente de sua postura política e das suas concepções ideológicas, é preciso ter muito cuidado ao se tentar falar pelo outro e defendê-lo. Há por aí uma série de discursos protecionistas/paternalistas que supostamente defendem os grupos minoritarizados como se fossem pobres coitados, que não têm capacidade de falar por si mesmos. E também já houve, por muito tempo, uma infinidade de discursos, seja na mídia, nos círculos acadêmicos ou nos grupos de agência política, que buscam "falar pelo outro", ou "dar voz ao outro".
Foi por essa razão que eu quis traduzir este post para o português e trazê-lo para este blog. Ler o texto de Akbar é lembrar que o outro tem voz própria, e que talvez ele prefira falar por si. É lembrar que, na verdade, por termos nosso próprio lugar, nossa história e nossa cultura, não podemos falar pelo outro. Podemos, no máximo, escutá-lo e ajudá-lo a ser ouvido. Ou lido.
![]() |
| Noorjahan Akbar |
Onde foi que aprendi sobre liberdade
Por Noorjahan Akbar – Ativista pelos direitos das mulheres afegãs, cofundadora da organização Young Women for Change, autora do UN Dispatch e correspondente afegã para o A Safe World for Women.
A maior parte do meu trabalho e dos meus textos está focada nas atrocidades e injustiças cometidas contra mulheres no Afeganistão, mas, neste blog, eu gostaria de discutir sobre outro tipo de injustiça.
Recentemente, uma jornalista estadunidense me enviou uma versão preliminar de seu artigo sobre meu trabalho, para edição. Em um parágrafo ao longo do texto, ela afirmava que eu tinha tido a rara oportunidade de receber uma educação e uma formação escolar nos Estados Unidos da América, e que essa experiência de liberdade me garantiu a possibilidade de nunca sofrer injustiças novamente. Nessa frase, eu notei várias concepções que ela fazia da minha pessoa e de minha cultura, e o contraste em relação à cultura dos Estados Unidos, algo que se reflete muito na literatura produzida neste campo.
Muitos dos textos sobre ativistas afegãs que lutam pelos direitos das mulheres se baseiam na concepção de que nós, mulheres afegãs, aprendemos sobre liberdade e igualdade quando vamos para países que não são nossas pátrias e nossas culturas, e no meu caso particular, acredita-se que o fato de eu ter estudado nos Estados Unidos me trouxe um gostinho de liberdade e me levou a lutar contra a injustiça. Acredita-se na ideia de que eu era uma oprimida e, consequentemente, mera vítima no Afeganistão, e que, se não fosse pelo tempo que passei nos Estados Unidos, eu não teria me transformado em uma ativista pelos direitos das mulheres.
Esse monopólio dos valores universais tem muitas consequências negativas. Ele contribui para uma visão binária do mundo, em que metade das pessoas é “progressista” e “civilizada” e o restante, desprovido dessas características e desses valores. Além disso, esse tipo de literatura ajuda a construir o discurso usado para deslegitimar as ativistas afegãs como mulheres “ocidentalizadas”. A ideia de que eu ou outras ativistas aprendemos sobre a liberdade nos Estados Unidos se torna, assim, uma faca de dois gumes usada para nos rotular, tanto aqui no Ocidente quanto em nossos países. A ideia de que liberdade ou liberação são conceitos unicamente estadunidenses, ou ocidentais, e de que, consequentemente, nós aprendemos sobre liberdade na América (já que nossas culturas somente nos oprimem e não há possibilidade de liberação em nossa terra natal) é absurda.
Eu não aprendi sobre liberdade na América.
Eu aprendi sobre liberdade com meus pais. Quando eu tinha seis anos, eles decidiram que não queriam viver sob o regime do Talibã e queriam educar suas filhas livremente. Eles abandonaram toda a vida que haviam construído, tudo o que haviam feito durante suas vidas, para serem livres.
Eu aprendi sobre liberdade com minha tia. Quando estava com quarenta anos, ela decidiu aprender sozinha a ler e escrever, para ser mais independente. Ela permitiu que sua única filha viajasse milhares de quilômetros para que pudesse ter uma formação escolar e ser livre.
Eu aprendi sobre liberdade com as mulheres do meu país, que cantam sobre ser livre em dúzias de idiomas e dialetos, e que contam às suas filhas histórias de liberdade.
Eu aprendi sobre liberdade com prisioneiras políticas afegãs, jornalistas e escritoras, que preferem a prisão ao silêncio e à opressão.
Eu aprendi sobre liberdade com um soldado do Exército Nacional Afegão, que conheci no ano passado. O nome dele é Nadeem e ele arrisca sua vida todos os dias, não por causa dos 150 dólares que ele recebe como salário, mas para libertar seu país do radicalismo.
Eu aprendi sobre liberdade com a poesia de Rabia Balkhi, uma princesa que conseguiu abalar a divisão de classes e a discriminação sexual ao se atrever a amar um escravo, e que foi assassinada por querer ser livre para amar quem ela escolhesse.
Eu aprendi sobre liberdade com Merman Parwin, que rompeu com tradições opressivas ao se tornar a primeira mulher a cantar em uma rádio afegã.
Eu aprendi sobre liberdade com Batool Muradi, que foi acusada de adultério por seu marido, o que pode ter sérias consequências, mas decidiu não ficar calada.
Não. Eu não aprendi sobre liberdade na América. A ânsia por liberdade não é algo ocidental, e a concepção de liberação não é algo inventado no Ocidente, não é algo que eu só poderia conhecer nos Estados Unidos. A liberdade está no meu sangue, e no sangue de milhões de mulheres e homens que nunca estiveram nos Estados Unidos, mas que sabem que, sendo seres humanos, merecem ter o direito de respirar o ar puro e ter opiniões, sem medo de serem condenados por isso. Sendo um país cujos fundadores eram senhores de escravos, um país com séculos de escravidão e segregação, mentalidade colonial e imperialista, além de altos números de negros em suas prisões, os Estados Unidos não poderiam ser minha inspiração para lutar por liberdade.
| Young Women for Change, organização criada por Noorjahan Akbar e Anita Haidary em prol dos direitos das mulheres afegãs |
![]() |
| As mulheres do Young Women for Change |
Para ler o texto original, acesse: http://www.thefword.org.uk/blog/2013/03/where_did_i_lea
25 de março de 2013
Categorias
ativismo político,
feminismo,
identidade,
opressão,
Thaís
0
Dureza. Na verdade, para fazer um resumo grosseiro, o amor romântico, que nós pensamos como algo próprio à natureza humana, construiu-se historicamente a partir dos séculos XII-XIII, na continuidade do antifeminismo dos Pais da Igreja e da idealização da mulher surgida na literatura do período (como teorizado por exemplo aqui). Mais recentemente, esse conceito de amor foi abocanhado pela publicidade, que percebeu rapidinho que a felicidade vende.
Ou seja, um símbolo do sucesso pessoal e financeiro da família, da liderança e da realização de um homem provedor, do valor de uma mulher escolhida - dentre tantas outras - por um homem de sucesso, da exibição pública de um status social valorizador para a mulher (o casamento), e mesmo do incentivo à competitividade feminina (“o meu é maior que o seu” como “eu valho mais do que você”, “eu tenho, você não tem” como “eu sou amada, você não é”)...
Dito isso, continuo com meu romantismo, ou seja, continuo acreditando no amor. Sem esperar do alto da torre que meu príncipe traga sentido à minha existência, mas consciente de que a vida é menos dura e mais prazerosa quando vivida em companhia, e que uma existência compartilhada é a maior das riquezas. Mas a ganância de uma indústria não tem mesmo nada a ver com o amor, e eu agradeço à minha metade pé-no-chão pela grande prova de respeito ao me lembrar disso.
Ressaltando, por fim, que este textinho não está aqui para julgar nenhuma feliz proprietária de um anel de diamantes nem nenhum homem apaixonado tentando mostrar do jeito que pode a sua afeição. Há uma diferença essencial entre julgar as vítimas e contestar as engrenagens. O ponto positivo nisso tudo é a rapidez com que uma “tradição” pode se estabelecer. Ora, não há nada de errado na aliança entre pessoas que se gostam. Por que é que símbolos de comprometimento deveriam ser ditados por uma cultura consumista sangrenta que nos pressiona de todos os lados, uns para se impor, outras para se submeter? Que criemos outros símbolos, mais profundos, igualitários e verdadeiros, e menos frágeis que um diamante.
por Barbara Falleiros
[Vai aí um post no puro estilo "classe média sofre" ou "first world problems". Mas não me levem a mal por falar de noivado, jóias e relacionamentos. Se o assunto é aparentemente banal e burguês, suas implicações são alarmantes, como tentarei mostrar mais adiante: não só revelam como o sexismo e o consumismo podem ditar nossas vidas sem que percebamos, mas ainda como, bem longe da nossa existência tranquila, uma "declaração de amor" pode custar a vida e o sofrimento de milhares de seres humanos.]
"O diamante é um símbolo universal do amor. Tendo carregado inúmeros simbolismos, encarnou através dos séculos o amor romântico, emergindo hoje como seu mais poderoso mensageiro. (...) Hoje, mais do que nunca, o anel de noivado é a expressão mais poderosa do amor eterno e verdadeiro, um elemento essencial do ritual de casamento em todo o mundo." (História dos anéis de noivado, por De Beers)
Ser romântica e feminista não é das tarefas mais fáceis. Isto é, quando você se deixa levar pelo que dizem ser o romantismo. Infelizmente, de um modo geral, é mais cômodo e reconfortante ter verdades nas quais acreditar sem passar pelo esforço da reflexão... Foi assim que meu lado sentimental, flertando timidamente com a simbologia do amor indestrutível, engoliu como um ganso à foie gras o que a De Beers afirmou ser o emblema do amor para sempre. Por sorte, a minha outra metade, à qual um teimoso pragmatismo e perpétua desconfiança garantem a habilidade de detectar as inconsistências de um discurso, soube mais uma vez provar seu ponto e ganhar a discussão. Droga!
Pois bem, em resposta a uma conversa de ontem à noite sobre casamento, alianças e frescuras, minha metade enviou-me hoje cedo um email com o seguinte título: "Diamonds are bullshit". Sem rodeios. Direto na ferida.
![]() | |
| A mulher e o sexo como produtos: "É claro que há um retorno para o seu investimento. Nós só não podemos mostrá-lo aqui." |
O texto falava, de um ponto de vista masculino e econômico, do stress financeiro imposto aos jovens adultos, obrigados a investir seu dinheiro (dois meses de salário, segundo a "tradição") em um objeto que perde imediatamente a metade de seu valor logo após a compra (ao contrário da prata e do ouro, considerados investimentos viáveis). Jovens que ainda por cima sofrem uma enorme pressão social por conta do pedido de casamento... O texto explicava então que essa “tradição” dos anéis de noivado era o resultado de uma cuidadosa e eficiente campanha de marketing promovida pela De Beers, a gigante dos diamantes, no final dos anos 30. Seu objetivo: transformar o anel de noivado, até então um presente ocasional, em um símbolo mandatório do amor. Era preciso torná-lo precioso e imprescindível: mesmo a “extrema raridade” dos diamantes foi uma ideia construída pela campanha. Também vieram daí as superstições em torno da compra de um anel usado (símbolo de um amor que não durou).
"A razão pela qual você não sente isso é porque isso não existe. O que você chama de amor foi inventado por caras como eu, para vender meias-calça." (Don Draper, personagem da série Mad Men, sobre publicitários da década de 50)
Dureza. Na verdade, para fazer um resumo grosseiro, o amor romântico, que nós pensamos como algo próprio à natureza humana, construiu-se historicamente a partir dos séculos XII-XIII, na continuidade do antifeminismo dos Pais da Igreja e da idealização da mulher surgida na literatura do período (como teorizado por exemplo aqui). Mais recentemente, esse conceito de amor foi abocanhado pela publicidade, que percebeu rapidinho que a felicidade vende.
“Nós gostamos de diamantes porque Gerold M. Lauck nos disse para gostarmos”, diz o texto que recebi. Com a Grande Depressão, as vendas da De Beers caíram 75%. Em 1938, ela então encomendou a uma agência publicitária um estudo de marketing focado nos homens: era necessário inculcar nos jovens a ideia de que diamantes eram o símbolo do amor, e que quanto maiores e de maior qualidade, maior era a expressão desse amor. Quanto às mulheres, elas foram encorajadas a ver os diamantes como parte integrante da dinâmica amorosa. Mas Gerold M. Lauck precisava vender o produto tanto para aqueles que podiam comprá-lo, quanto para os que não tinham condições de fazê-lo. Daí a solução estratégica de transformá-los em um símbolo de status.
Ou seja, um símbolo do sucesso pessoal e financeiro da família, da liderança e da realização de um homem provedor, do valor de uma mulher escolhida - dentre tantas outras - por um homem de sucesso, da exibição pública de um status social valorizador para a mulher (o casamento), e mesmo do incentivo à competitividade feminina (“o meu é maior que o seu” como “eu valho mais do que você”, “eu tenho, você não tem” como “eu sou amada, você não é”)...
Monetarização e ostentação do amor. Que romântico!
O fato é que o único verdadeiro sucesso envolvido na história foi o de uma manipulação marqueteira que fez com que, hoje, 80% das americanas recebam anéis de diamante ao ficarem noivas. Uma moda cada vez mais presente no Brasil. E na excitação da esperança de felicidade para sempre, acabamos nos esquecendo de que, ao peneirarmos esses símbolos, só o que encontramos de reluzente é o sangue derramado por uma indústria que se construiu na lama. Como mostrado no vídeo abaixo, na década de 1990, a guerra civil em Sierra Leona resultou em dez mil civis propositalmente mutilados, entre outras atrocidades quase indizíveis (estupro coletivo, mutilação de genitais de crianças) cometidas pelos rebeldes da Frente Revolucionária Unida, que escoaram cerca de 10 a 15% dos diamantes do comércio mundial. Isso em Sierra Leona, sem falar de Angola...
Dito isso, continuo com meu romantismo, ou seja, continuo acreditando no amor. Sem esperar do alto da torre que meu príncipe traga sentido à minha existência, mas consciente de que a vida é menos dura e mais prazerosa quando vivida em companhia, e que uma existência compartilhada é a maior das riquezas. Mas a ganância de uma indústria não tem mesmo nada a ver com o amor, e eu agradeço à minha metade pé-no-chão pela grande prova de respeito ao me lembrar disso.
Ressaltando, por fim, que este textinho não está aqui para julgar nenhuma feliz proprietária de um anel de diamantes nem nenhum homem apaixonado tentando mostrar do jeito que pode a sua afeição. Há uma diferença essencial entre julgar as vítimas e contestar as engrenagens. O ponto positivo nisso tudo é a rapidez com que uma “tradição” pode se estabelecer. Ora, não há nada de errado na aliança entre pessoas que se gostam. Por que é que símbolos de comprometimento deveriam ser ditados por uma cultura consumista sangrenta que nos pressiona de todos os lados, uns para se impor, outras para se submeter? Que criemos outros símbolos, mais profundos, igualitários e verdadeiros, e menos frágeis que um diamante.
![]() |
| "Para cada mão pedida em casamento, uma outra é arrancada." |
24 de março de 2013
Categorias
Barbara,
desmistificando,
ética,
feminilidade,
história
9
por Mazu
Se todas as potências do homem na visão, na audição, nos recursos imensos do cérebro, nos recursos gustativos, nas mãos, na tactilidade, nos pés, se todas essas potências foram dadas ao homem para educação, para o rendimento no bem, isso é, potências consagradas ao bem e à luz, em nome de Deus. Seria o sexo, em suas várias manifestações, sentenciado às trevas?
- Chico Xavier
Se você anda pelo Brasil, física ou virtualmente,
e se não mora embaixo de uma pedra, tem acompanhado as várias manifestações
contra o Pastor Feliciano. Elas estão por todo lado, na rua, na
chuva, na fazenda, nas internets ou numa casinha de sapê. Este post vai destoar
um pouco das manifestações porque vou defender o Feliciano. Brinks.
Impussibru. (Bazinga!)
Bom, já assumi, sou uma pessoa religiosa, já fui
mais, mas a culpa não é bem de Deus e, sim, dos que acham que falam em nome
dele. É, gente tipo o Feliciano. Já falei sobre minha fé e o feminismo aqui. A Thaís
e a Tággidi trataram lindamente de religião e preconceito aqui e aqui. Para a
gente não ficar se repetindo, vou tratar só do Parco
Feliciano. Isso porque, pelo visto, muita gente parece não entender qual é o problema dos movimentos sociais (feminista, LGBT, dos direitos humanos) com o Impastor. Abaixo, numerei alguns exemplos do que escutei e li nos debates gerados em torno das afirmações do Feliciano:
1) A implicância com o Feliciano é preconceito contra evangélicos e cristãos?
Não. Gostaria de deixar assim bem claro que o
problema que temos com o Feliciano não tem relação com a religião dele. O Jean
Willis fez uma nota bem legal sobre isso. De minha parte, vou fazer uma
brincadeira: eu até tenho amigos evangélicos, logo não sou
evangelicofóbica.
Agora, falando sério, o problema não é a
religião, é o uso que ele faz da religião para justificar e legitimar os
próprios preconceitos. Existe muita gente religiosa, inclusive evangélica,
putíssima com as afirmações babacas dele.
2) A gente não tem direito à opinião? E a liberdade de expressão?
Lógico que tem. E a liberdade de expressão
continua incompreendida, a coitadinha. Direito à opinião e à liberdade de
expressão é uma garantia nos dada pela nossa maravilhosa, LAICA e nem
sempre cumprida Constituição Federal de 1988. Mas, como todas as garantias e as
liberdades individuais, a liberdade de opinião não é absoluta, não, bro. Todas as liberdades
individuais têm o seguinte limite: o outro. Lindo, né? Me gusta.
Assim, eu posso ter opinião, você, nós podemos,
como cidadãos comuns, civis, ter a nossa opinião, por mais ridícula que ela
seja e desde que ela não prejudique outras pessoas. A gente pode fazer tudo o
que a lei não proíbe. Agora, um agente público, um agente político, um deputado
tem a liberdade muito mais limitada que a nossa. Eles só podem fazer o que a
lei permite. Por incrível que pareça. Logo, o deputado Feliciânus não pode sair por aí fazendo e
falando qualquer coisa. As ações desses caras têm que estar dentro das leis, de
acordo com a nossa amada salve, salve Constituição que não é, pasmem, a bíblia.
E a Constituição PROÍBE discriminação religiosa, de manifestação
ideológica, cor, raça e, além disso, equipara homens e mulheres em direitos e
obrigações. Lá no comecinho já, artigo 5º, ou seja, não está nem no fim, nem
oculto ou escondido na CF, está nas primeiras páginas mesmo. São garantias expressas.
Outro problema é que um deputado com essas
opiniões fortes e ofensivas é uma ameaça constante aos nossos direitos
adquiridos. Um exemplo, o cara acha que o desmantelamento da família como
instituição e o aumento da homossexualidade é culpa dos direitos que as
mulheres adquiriram. Aliás, como diria a Feminista Cansada, ele acha que SE as
mulheres exercessem esses direitos, elas ameaçariam aquelas instituições. Vai
vendo, até os caras mais conservadores sabem que a gente não tem acesso a todos
os direitos que estão no papel.
De toda forma, essa culpabilização da mulher é uma
opinião mal formada e mal informada. Primeiro que a estrutura patriarcal de família sempre terá problemas e passará por crises porque é excludente, limitadora e preconceituosa. Se a família do jeito que o patriarcado idealiza não existe, é porque o seu próprio sistema é falho. Outra coisa, a homossexualidade não "aumentou", detesto quando falam isso, como se fosse um problema. O que acontece é que, hoje, as pessoas têm um pouco mais de liberdade sexual. E Feliciano ameaça diretamente esse pouco que, ao
mesmo tempo, é muito, do que a gente já conquistou.
Por isso que a opinião dele não é simplesmente uma opinião. Essa pessoa que abre a boca para dizer isso, é a pessoa que pode (sim, tem o poder de) criar e mudar as leis. Perceba e entenda o nosso pânico.
Por isso que a opinião dele não é simplesmente uma opinião. Essa pessoa que abre a boca para dizer isso, é a pessoa que pode (sim, tem o poder de) criar e mudar as leis. Perceba e entenda o nosso pânico.
3) Eu sou homem, branco e hétero, Feliciano não me interessa (atinge).
Há. Senta aí, bonito. Xô te contá. Agora, por
enquanto, não. Afinal, é mais fácil começar pelas minorias (que apesar do que o
Felicianta acha, não significa minoria numérica, tá?). Mas se você gosta do seu
direito de ser ateu, agnóstico, católico ou qualquer outra coisa que não
evangélico, cuide-se, viu. Se você foi criado por uma mulher que trabalhou fora
(e, provavelmente, dentro) para te manter, se você tem uma companheira com quem divide as contas, cuida também, viu. Os direitos ameaçados não te
afetam diretamente, mas gente intolerante no poder, de alguma forma e em
algum momento, atinge todo mundo. Se não hoje, logo mais.
4) Os evangélicos não podem ter representação parlamentar?
Uai, poder pode. O que não pode é tentar passar e
impor suas crenças para o resto do país. Oferecer a cura gay na igreja não é
proibido, embora, pessoalmente, pareça-me absurdo. Agora, transformar a cura
gay em lei não pode. Fere diretamente a liberdade de um monte de gente.
É assim: num Estado laico que prega a liberdade
religiosa, as crenças ficam nas respectivas casas (igrejas, terreiros, centros,
etc.). No Congresso, os pastores não devem ser pastores; nem os padres, padres. Isso
porque eles não representam apenas os que votaram neles, ali, eles estão por
todo mundo. É pra ser simples, cada um no seu quadrado, e todos se respeitando.
5) E aí, a gente faz o quê?
Muitas coisas. Para começar, a gente se junta aos
protestos. Pode parecer que não adianta, mas adianta. Devemos ir às
manifestações e assinar as petições. A mentalidade felicianística ameaça não só
os direitos dos homossexuais e das mulheres, ameaça o Estado democrático que a
gente vem buscando há tempos e queima muito o filme dos cristãos.
Então, bora participar.
Para terminar, tenhamos pensamento crítico. Não por nada, não, sem querer
ofender, se você tem uma religião que prega violência contra o diferente,
talvez seja interessante pensar melhor a respeito. Estudar um pouquinho de
história, ver tudo de horrível que esse tipo de pensamento já causou e ainda
causa. Mas, assim, de boa, sem querer pregar contra nenhuma religião. Sei lá,
me chame de louca, mas Deus, pra mim, é amor.
![]() |
| Tággidi subvertendo! |
22 de março de 2013
Categorias
família,
feminismo,
homofobia,
homossexualidade,
liberdade de expressão,
Mazu,
preconceito,
religião
1
Por Thaís Bueno
Você já parou para pensar em como certos discursos religiosos têm atacado, ao longo dos séculos, não apenas a integridade e a dignidade feminina, mas muitas vezes a própria integridade física da mulher? E, pelo fato de discursos religiosos estarem de certa forma entranhados em quase tudo que fazemos e pensamos (acredito que é impossível escaparmos a tudo o que tange à cultura em que estamos imersos), esses discursos nos afetam mais do que imaginamos.
E não me refiro aqui a um determinado tipo de violência contra a mulher ou a uma religião específica: há, no mundo todo, uma infinidade de modalidades religiosas que têm como base de suas práticas um certo temor a tudo que se relaciona à natureza feminina (desde os extremismos praticados por religiões islâmicas de países da África subsaariana até os discursos proferidos por religiosos que estão bem perto de nós). E, obviamente, o grau e o tipo de opressão praticada às mulheres também varia bastante.
Esses fatos são muito bem explicados pela historiadora Anna Gicelle Garcia Alaniz em alguns dos videocasts que ela publica em seu canal no Youtube, o Cantinho da História. Entre outros assuntos, como o advento do nazismo e diferentes concepções de história, Anna se dedica, em dois vídeos, a discutir questões relacionadas ao feminismo: em um deles, ela fala sobre o Dia Internacional da Mulher e, em outro, sobre a opressão feminina operada pelos discursos religiosos. Tratadas a partir do interessante ponto de vista de uma historiadora e baseadas em uma rica e profunda análise desses temas, essas discussões podem nos ajudar muito a entender e ser mais críticos e sensíveis a essas questões.
Tendo em mente as ideias que Anna traz, principalmente no vídeo relacionado à opressão feminina pelos discursos religiosos, é interessante pensarmos em certos fatos que, apesar de nos parecerem irrelevantes e naturais, são decorrentes de pura construção ideológica. Por exemplo, as palavras e o discurso de um religioso ao realizar um casamento; a forma como o aborto é tratado pelas diferentes religiões; a autoridade conferida às mulheres em certas igrejas; a forma como a natureza do corpo feminino é tratada em determinadas culturas; a constituição familiar; a forma como as religiões instituíram um lugar para mulheres entre suas santas e intercessoras, e como esse lugar lhes é concedido.
Especificamente nesse último quesito, achei muito interessante um trecho do livro Borderlands/La Frontera – The New Mestiza, em que Glória Anzaldúa conta a história da formação de três figuras míticas mexicanas (a Virgem de Guadalupe, padroeira do México; Malinche, mulher indígena que ficou marcada como traidora na construção do imaginário nacional mexicano; e la Llorona, a mais famosa lenda mexicana, construída a partir do mito da mãe que perde seus filhos e com isso passa a vagar eternamente assombrando crianças "malcriadas"). Essas três figuras mexicanas podem ser um exemplo interessante de como a imagem da mulher (proveniente de diversos domínios da cultura – do imaginário indígena, de mitos e lendas populares ou da própria religião católica) é utilizada pelo discurso religioso como ferramenta ideológica para manipulação e manutenção do poder político e social:
La gente Chicana tiene tres madres. Todas as três são intercessoras: Guadalupe, a mãe virgem que não nos abandonou, la Chingada (Malinche), a mãe violentada a quem nós abandonamos, e la Llorona, a mãe que procura pelos filhos perdidos e é uma combinação das duas primeiras. A ambiguidade cerca os símbolos dessas três "Nossas Senhoras". Guadalupe foi usada pela igreja para confirmar nossa opressão institucionalizada: para aplacar índios, mexicanos e chicanos. Em parte, a verdadeira identidade de todas as três foi subvertida – a de Guadalupe, para nos tornar dóceis e pacientes; a de la Chingada, para fazer com que nos envergonhemos de nossos ancestrais indígenas; e, de la Llorona, para nos tornar um povo eternamente sofredor. Essa subversão ajudou a fortalecer a dicotomia virgen/puta.
Se você quiser saber mais sobre o mito de la Llorona e de como os discursos religiosos podem influenciar na forma como a mulher é vista e tratada em nossa cultura, sugiro a leitura de “La Llorona: mito e poder no México”, de Rosa Maria Spinoso de Montandon. Disponível aqui.
2
O contrário também é verdadeiro: nem todo o homem branco cissexual de classe alta vai ganhar no jogo da vida, mas não dá para ficar chorando as cotas derramadas porque o jogo agora ficou um cadinho mais difícil.
Em outraspalavras imagens, se a vida fosse uma corrida, ela seria assim:
As metáforas são várias, mas a do video game é particularmente pertinente porque o mundo dos games é sabidamente sexista. A começar pela representação das mulheres nos jogos, de Lara Croft a qualquer coadjuvante boazuda.
Na vida real, Anita Sarkeesian, do excelente Feminist Frequency, lançou um projeto para analisar a representação das mulheres nos video games e acabou sendo vítima de uma campanha de ódio massiva, que incluia até um jogo interativo em que jogadores eram encorajados a beat the bitch out (espancar a vadia).
Não é à toa que vítimas de abuso sexual são geralmente reticentes a vir a público: na cultura do estupro - que são todas as culturas -, é preciso muita consciência para se empoderar. Seja na realidade virtual ou na visceral, infelizmente, não é raro que criminosos sejam tidos como heróis e as vítimas compadeçam. O final feliz fica por conta de Anita Sarkeesian, que, apesar de todo o bullying, assédio e ódio, manteve sua campanha e conseguiu angariar um valor 25 vezes maior do que havia pleiteado inicialmente para o seu projeto. Mesmo no nível difícil, Sarkeesian chegou lá.
por Roberta Gregoli
![]() |
| Do site Um dia ainda viro cartunista |
...ser homem branco heterossexual de classe AB seria o nível fácil.
A metáfora é de Rachel Saklr. Em contrapartida, ser mulher, negra/indígena de classe D seria a dificuldade máxima.
É claro que é possível ganhar o jogo nos níveis de dificuldade mais elevados: tem gente que é mesmo boa de jogo, há quem tem sorte, há xs que têm inteligência e esforço acima da média. Agora, não dá para medir o todo por essas exceções e sair por aí dizendo que não existe sexismo no Brasil porque temos uma Presidenta ou que não existe racismo porque tenho um amigo negro que faz faculdade pública.
É preciso ter clareza que o jogo é diferente e, enquanto essas pessoas devem, sim, ser celebradas por suas conquistas excepcionais, não deixa de ser muito injusto culpabilizar quem não chega lá.
A metáfora é de Rachel Saklr. Em contrapartida, ser mulher, negra/indígena de classe D seria a dificuldade máxima.
É claro que é possível ganhar o jogo nos níveis de dificuldade mais elevados: tem gente que é mesmo boa de jogo, há quem tem sorte, há xs que têm inteligência e esforço acima da média. Agora, não dá para medir o todo por essas exceções e sair por aí dizendo que não existe sexismo no Brasil porque temos uma Presidenta ou que não existe racismo porque tenho um amigo negro que faz faculdade pública.
É preciso ter clareza que o jogo é diferente e, enquanto essas pessoas devem, sim, ser celebradas por suas conquistas excepcionais, não deixa de ser muito injusto culpabilizar quem não chega lá.
O contrário também é verdadeiro: nem todo o homem branco cissexual de classe alta vai ganhar no jogo da vida, mas não dá para ficar chorando as cotas derramadas porque o jogo agora ficou um cadinho mais difícil.
Cotas raciais e de gênero são polêmicas porque alguns simplesmente não conseguem - ou não querem - enxergar a bruta vantagem que têm sobre xs outrxs - vantagem que vem das oportunidades de berço, e até muito antes do nascimento:
![]() |
| Breve história do privilégio |
Em outras
![]() |
| E a reação que enfrentamos quotidianamente por apontar essa bruta injustiça é mesmo essa |
As metáforas são várias, mas a do video game é particularmente pertinente porque o mundo dos games é sabidamente sexista. A começar pela representação das mulheres nos jogos, de Lara Croft a qualquer coadjuvante boazuda.
Na vida real, Anita Sarkeesian, do excelente Feminist Frequency, lançou um projeto para analisar a representação das mulheres nos video games e acabou sendo vítima de uma campanha de ódio massiva, que incluia até um jogo interativo em que jogadores eram encorajados a beat the bitch out (espancar a vadia).
Ainda mais perturbador - se é que isso é possível - que essa demonstração abertamente misógina em grande escala foi que os perpetradores constantamente se referiam a essa campanha de assédio e abuso como um jogo. - Anita SarkeesianSe a vida é um video game, misóginos são heróis. Era o que faltava. Mas antes fosse só no mundo dos games. O caso recente de dois jogadores de futebol americano que estupraram uma garota de 16 anos em Steubenville (que, apesar do nome, é uma cidade real nos Estados Unidos) resultou em condenação, coisa rara - vide o revoltante caso da banda New Hit em solo nacional. Apesar de terem sido julgados e condenados, o tom da mídia foi de comoção por 'essas jovens estrelas do esporte' que tiveram seu futuro 'arruinado':
Uma paródia de 2011 precede o caso e é assustadoramente parecida
na sua abordagem distorcida do retrato dos criminosos.
na sua abordagem distorcida do retrato dos criminosos.
Obrigada à Marylin Lima pela indicação dos links
Não é à toa que vítimas de abuso sexual são geralmente reticentes a vir a público: na cultura do estupro - que são todas as culturas -, é preciso muita consciência para se empoderar. Seja na realidade virtual ou na visceral, infelizmente, não é raro que criminosos sejam tidos como heróis e as vítimas compadeçam. O final feliz fica por conta de Anita Sarkeesian, que, apesar de todo o bullying, assédio e ódio, manteve sua campanha e conseguiu angariar um valor 25 vezes maior do que havia pleiteado inicialmente para o seu projeto. Mesmo no nível difícil, Sarkeesian chegou lá.
20 de março de 2013
Categorias
abuso verbal,
estupro,
mídia,
misoginia,
preconceito,
racismo,
Roberta,
violência


















